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Acumulação mercantil na periferia: as relações financeiras entre Estado de São Paulo e o capital mercantil durante o Primeiro Programa de Valorização do Café (1905-1908)#

Dennys Montagner*


José Tadeu de Almeida**

Gustavo Machado Cavarzan***
Resumo: O presente artigo revisa os momentos decisivos da dinâmica financeira do Primeiro Programa de Valorização do Café brasileiro ente os anos de 1905 e 1908. O intuito do estudo é mensurar a natureza das relações entre Estado brasileiro e o Oligopsônio Mercantil Internacional responsável pela gerência dos recursos financeiros obtidos por meio de empréstimos junto aos bancos americanos e europeus, pela sobre-taxa de exportação arrecadada nos portos brasileiros e pela compra e venda dos estoques em nome do Estado no mercado mundial. Com isso pensamos ser possível remontar a dinâmica de acumulação que predominou na principal atividade econômica paulista do inicio do século XX.
Palavras-Chave: Capital Cafeeiro – Valorização do Café – Acumulação Mercantil.
Abstract: This article is a revision of the decisives moments of the financial dynamic in the Brasilian’s Coffee’s First Valorization Program (1905-1908). The target of the study is measure the nature of the relation among Brasilian State and the International Oligopoly Trade accountable for managing of the financial shift win with the loans of the american and european banks, for exportation rate collect in the brasilians ports and for purchase and sell the State’s budget in the world market. Thinking be possible remount the accumulation’s dynamic which predominated in the São Paulo’s main economic activity in the 20 century.
Key-words: Coffee Capital – Coffee Valorization – Trade Accumulation.
Antes de tratarmos do problema central proposto neste artigo, compete-nos a colocação de alguns pressupostos, por meio dos quais lançamos luz a questão da intervenção no mercado cafeeiro: O primeiro pressuposto é que o capital cafeeiro é um agente único que apresenta-se no decorrer de seu processo de constituição e desenvolvimento sob variadas formas, o que significa dizer, que a natureza social das diversas atividades do Complexo Cafeeiro (produção, financiamento, gestão, transportes e manufaturas) são determinadas, em última instância, pela dinâmica de acumulação do capital cafeeiro. Este capital mercantil determina a forma de acumulação, ao passo que subordina diversas atividades econômicas internas, sendo, contudo, parte constituinte de uma hierarquia internacional, na qual se insere de forma subordinada, pela sua inserção em uma economia periférica; este é o nosso segundo pressuposto. A compreensão histórica da formação das referidas subordinações internas e externas nos permite precisar mais claramente como este processo foi determinante para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil.1 A situação exposta perdurará até a década de 30 do século XX, quando a dinâmica de acumulação do capital, que articula a economia nacional, se alterará em favor da fase de desenvolvimento do capital urbano-indústrial2.

***

Visto isso, comecemos pela conjuntura que influenciou a intervenção no mercado cafeeiro: Em 1906 identificava-se que os preços internacionais do café estavam abaixo dos custos de produção, em contrapartida os preços finais pouco variavam. Isso só vinha confirmar que o oligopsônio mercantil penalizava a lavoura por meio da centralização dos estoques e do controle na distribuição do produto. As perdas acumuladas entre 1897 e 1906 tanto por meio da valorização cambial, como pela queda dos preços internacionais ensejavam ações no sentido de salvaguardar a posição dos produtores. Como havia expectativa para uma safra de acima de 14 milhões de sacas, em agosto de 1905 organizou-se um encontro entre o governo federal e os estados produtores para tentar resolver o problema da lavoura. No mesmo ano o Congresso Nacional autoriza o Executivo Federal a endossar uma operação de empréstimos externos para os estados que desejassem participar da valorização. Em fevereiro de 1906 é assinado o Convênio de Taubaté entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.3

As principais medidas do Convênio consistam na fixação de um preço mínimo entre 55 e 65 francos-ouro por saca, criação de uma bolsa para regulamentação do produto, proibição de novas plantações, a criação da Caixa de Conversão, para a estabilização da taxa de câmbio e a cobrança de uma sobre-taxa de 3 francos-ouro por saca de café exportada, que funcionaria como receita para garantir os empréstimos externos para o programa.4 No entanto São Paulo encontrou problemas para aprovar a Caixa de Conversão e para conseguir financiamento externo, já que os Rothschilds consideravam um risco participar da operação valorizadora, sendo que a intermediação do empréstimo com o governo federal falhou. Para Holloway a aprovação do Convênio do Taubaté foi praticamente simbólica, já que em julho de 1906 já haviam fracassado as tentativas de conseguir um funding externo.

A Caixa de Conversão também era fonte de problemas para os paulistas, ou seja, de nada adiantaria conseguir financiamento para a operação se o câmbio não fosse estabilizado, entretanto era necessário que governo federal conseguisse um empréstimo para compor reservas em moeda estrangeira. Para solucionar o impasse a estratégia adota foi postergar a ida a sanção presidencial da Caixa de Conversão até a posse de Afonso Pena, enquanto buscava-se apoio financeiro externo. Jorge Tibiriçá, presidente de São Paulo, passou a empreender uma luta parlamentar ao lado de Francisco Glicério e Cândido Rodrigues, no intento de construir alianças com a bancada mineira. O acordo foi que o câmbio se fixasse em 15 pence por mil-réis e não em 12 pence, como queriam alguns representantes. Essa taxa buscou conciliar amplos interesses agrários, comerciais e financeiros, que estavam descontentes com as oscilações no câmbio entre 1905 e 1906.5

Contudo cabe ressaltar que a estabilidade cambial alcançada com a Caixa de Conversão foi conseguida, em boa medida, graças as reformas financeiras iniciadas já em 1905. A reorganização do Banco Brasil possibilitou a recuperação de um maior controle pelo estado sobre a divida pública e o câmbio. Além de promover operações comerciais, o banco passou a ter o monopólio da comercialização dos títulos do Tesouro no mercado europeu, bem como passou a atuar no mercado de câmbio. Essa reforma tornou-se uma fonte de muitos descontentamentos, principalmente dos bancos ingleses, que deixaram as operações nos títulos brasileiros, o que conseqüentemente minimizou sua participação nos negócios de cambiais.6 Com isso os tradicionais Bank of London and South America, Bank of London and River Plate e o Bank of London and Brazil perderam sua posição dominante nos negócios de câmbio e títulos públicos. Isso é central para o entendimento da estabilidade cambial, já que antes da centralização no Banco do Brasil os bancos ingleses especulavam com os títulos brasileiros no mercado europeu, conseqüentemente tinham grande influência sobre as divisas, auferindo fortes ganhos nos leilões de cambio e de juros.

Em agosto de 1906 o estado de São Paulo negocia um empréstimo, junto ao Brasilianische Bank fur Deutschland, no valor de 1.000.000 de libras, que seria utilizado para dar início ao programa de valorização. No entanto esse único empréstimo não bastava para consolidar a operação, o estado então viu na articulação de um financiamento, em parceria com o comerciante americano Herman Sielcken, sua fonte de salvação, tendo em conta que os parceiros de longa data do Brasil, os Rothschilds, se recusaram a participar da operação. Não obstante Herman Sielcken fosse mal visto pelos produtores brasileiros, sendo considerado como um adversário de peso nos negócios, este acabou por se mostrar o principal elo de ligação com os financistas externos, sustentadores financeiros do programa paulista. O grande comerciante americano aceitou o intento de formar um consórcio de comerciantes e banqueiros estrangeiros, único capaz de reunir as condições para a intervenção no mercado de café. Os participantes foram Crossman, Sielcken, Arbuckle Bros. e Theodor Wille juntamente com três companhias localizadas em Havre, quatro firmas de Hamburgo, dois bancos londrinos e um de Hamburgo.7

O consórcio estrangeiro adiantaria até 80% dos recursos para a compra do café excedente, enquanto que o Estado de São Paulo entraria com uma contrapartida de 20%. O dinheiro adiantado pelo consórcio era uma forma de empréstimo ao Estado de São Paulo, que seria remunerado a uma taxa de juros de 6% ao ano. A garantia da operação era todo o café comprado no mercado pela Wille and Co. São Paulo pagava ainda pela armazenagem do produto nos portos europeus e americanos, bem como uma comissão de 3% paga ao consórcio, sobre as negociações realizadas no mercado.8 Em fins de 1906 a deteriorada situação financeira do estado de São Paulo comprometia o programa. O consórcio pressionava para que o estado pagasse seus os 20% da contrapartida do adiantamento, mais os juros e comissões devidas. Havia ainda aquele primeiro empréstimo, contratado junto ao banco berlinense, que vencia em agosto de 1907. O problema fora parcialmente sanado pela contratação de um novo empréstimo de 3.000.000 de libras esterlinas junto as casas financeiras J. Henry Schroeder and Co. de Londres (2.000.000 de libras) e o National City Bank of New York (1 milhão de libras); Sielcken representava a J. Henry Schroeder em Londres e Theodor Wille and Co. negociou o empréstimo com National Bank de Nova York, o representando junto aos paulistas.9

Os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais não participaram do esquema, dado que seus orçamentos eram pequenos em relação ao estado de São Paulo, também o fato de prevalecer o regime de parcerias nos plantios, fazia com que os produtores não sofressem, tanto quanto os paulistas, em momentos de queda de preços. Em janeiro de 1907 São Paulo firmou um acordo com Minas e Rio para que estes estados também cobrassem a sobretaxa sob o café exportado pelo porto do Rio de Janeiro, no entanto os recursos não seriam revertidos para o consórcio, mas utilizados para financiar melhorias nos métodos de plantio e beneficiamento do café produzido nos dois estados. O consócio reafirmara, no entanto, que só compraria grãos de qualidade superior.

Em fevereiro de 1907 o Governo Federal liberou um empréstimo ao estado de São Paulo de 6.000.000$000 de mil-réis, com o intuito de financiar a compra dos grãos de baixa qualidade, predominantes no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. As compras foram realizadas pela Wille and Co., a um câmbio de 15 pence por mil-réis; a quantidade dos recursos chegou a 375 mil libras. Era uma pequena parte, se considerado a monta de recursos do programa valorizador. No entanto apaziguou, mesmo que de forma momentânea, os agricultores daqueles estados.10

Em outubro de 1907 a casa Rothschild liberou um empréstimo de 3.000.000 de libras ao Governo Federal, que fora repassado à São Paulo.11 Os empréstimos conseguidos em 1907 foram fundamentais para garantir as operações do estado até que os estoques começassem a ser vendidos, já o empréstimo junto ao governo federal seria pago em prestações anuais com recursos da sobretaxa, após terem sido honrados os juros do empréstimo de dezembro de 1906, junto ao J. Henry Schroeder and Co. e ao National City Bank de Nova York.

No início de 1908 o consórcio realizou pequenas compras, já que os estoques haviam chegado a 8.474.623 milhões de sacas. Pouco tempo depois foram autorizadas as primeiras vendas e estas se mantiveram até que o estoque atingisse 7 milhões de sacas.12

Em fins de 1908 o problema das finanças paulista foi resolvido por meio da negociação de um vultuoso empréstimo de 15.000.000 de libras, junto a casa J. Henry Schroeder and Co (8.000.000 de libras mais 2.000.000 de libras fornecidas pelo National City Bank de Nova York) de Londres. As 5.000.000 de libras restantes foram emprestadas pela Societé Générale de Paris e pelo Banque de Paris e Pays Bas. A maior parte deste recurso foi utilizado para saldar os antigos empréstimos do inicio da valorização, inclusive o adiantamento do consórcio Sielcken de 80%.13 O novo empréstimo colocou definitivamente os rumos da valorização sob os desígnios do capital comercial estrangeiro.

Como vimos, no fim de 1908 já haviam sido vendidas 1 milhão de sacas dos estoques oficiais, as quase 7 milhões de sacas restantes, que antes eram controladas pelo estado de São Paulo, passaram ao controle de uma comissão de 7 membros, dos quais 4 eram indicados pela J. Henry Schroeder and Co., 2 pelos bancos franceses (Societé Générale e Banque de Paris e Pays Bas) e 1 pelo estado de São Paulo.14 O acordo de dezembro de 1908 colocava a gestão dos estoques sob o controle total dos banqueiros do consórcio, bem como estabelecia que todos os lucros com as futuras vendas seriam utilizados para saldar o empréstimo contratado em 1908. Pelo novo acordo, de modo a garantir que o estado sustentasse os custos com o armazenamento, seguro e gastos de manutenção dos estoques, a sobretaxa deveria ser aumentada para 5 francos-ouro. Ainda pelo acordo, o estado não poderia decretar nenhuma lei concernente ao setor cafeeiro sem permissão do comitê, bem como promoveu-se a fixação de um limite não tributado de exportações. Quando estas excedessem 9 milhões de sacas anuais, na safra de 1908/09, incidiria sobre a operação a taxa de 20% ad valorem, além da tarifa aduaneira normal de 9% e da sobretaxa em francos-ouro. Para a safra de 1909/10 o teto não tributado era de 9,5 milhões de sacas, para as safras seguintes o teto era de 10 milhões de sacas, até que se findasse o empréstimo.15

Com isso, a situação do programa tornara-se confortável, em grande medida pela expectativa de que as próximas safras estariam abaixo da demanda, ou seja, a tendência era que com o empréstimo conseguido em 1908 e com estoques adicionais baixos, os preços finalmente se recuperariam. Quando os preços estivessem em um nível satisfatório, os estoques comprados em época de baixa seriam negociados, agora sob uma nova cotação. Os pagamentos seriam honrados e as fartas comissões seriam pagas às casas financeiras. O cartel cafeeiro, que era resultado de uma coalizão entre o capital cafeeiro nacional e as casas financeiro-comerciais européias e norte-americanas, demonstrava com isso o tamanho de seu poder.16

As manipulações dos estoques pelo consórcio garantiram o rápido aumento dos preços a partir de 1909, sustentado-os até 1912. Segundo Holloway, as manipulações de Sielcken consistiam em formar um fluxo de comercializações fora da bolsa de Nova York, concentrando as compras em firmas associadas:

Era Herman Sielcken que, atuando como agente e representante do comitê em Nova York, encarregava-se de todas as vendas de valorização nos Estados Unidos. Apesar do mercado americano normalmente absorver quarenta por cento de toda a importação mundial do café, o comitê da valorização decidiu remeter regularmente para o mercado americano mais da metade do seu lote anual. Sielcken, periodicamente anunciava, que, quinhões de café da valorização, estavam a venda, com a condição de serem mantidas fora da bolsa de Nova York. Normalmente os licitantes vencedores acabavam sendo a ‘Crossman and Sielcken’, a ‘Arbuck Bros’, alguma firma associada ou sob o controle dessas duas grandes companhias, ou ainda um de seus empregados ou agentes. Desta maneira, o café passava da posse legal do estado de São Paulo para as mãos dos comerciantes, que haviam participado ativamente no esquema, desde 1906.17


Os negócios na bolsa de café e de mercadorias em geral é feito geralmente a termo (warrants), ou seja, compram-se e vendem-se promessas de liberação de determinadas quantidades e qualidades de produto em uma data futura. Quando algum comprador pedia a liberação do produto, o vendedor recorria à bolsa para adquirir a quantidade prometida. No entanto, o truste Sielcken-Arbuckle negociava café fora da bolsa e mais, comprava grandes volumes do produto na bolsa e os inseria nos estoques da valorização, de modo que eles não reaparecem no mercado. Passou a ser cada vez mais difícil obter as quantidades de café que haviam sido vendidos a termo. Quando a procura pelo produto na bolsa excedeu a oferta, os preços começaram a subir. Assim, os leilões privados com os vencedores já conhecidos a priori (empresas do comitê de valorização e firmas controladas por ele) garantiram que grande quantidade de café deixasse de ser negociado na bolsa, esse mecanismo artificializou os preços, por intermédio de uma dissimulada escassez de produto.18

Como era prática comum tomar por base a cotação diária da bolsa, mesmo em transações fora dela e como todas as vendas da valorização eram feitas fora deste marco, os comerciantes que estavam envolvidos no truste, abasteciam diretamente os torradores e os varejistas a preços da bolsa artificialmente inflacionados, que haviam sido ficticiamente provocados pela escassez que, eles próprios, causaram com a limitação das vendas.19


Em 1912 o Procurador Geral do Departamento de Justiça americano ameaçou confiscar todo o estoque da valorização e processar Herman Sielcken por formação de truste. A ação se frustrou em virtude da inalcançabilidade da lei contra governos estrangeiros, tendo em vista que os estoques pertenciam legalmente ao governo de São Paulo. No inicio de 1913 Sielcken vendeu às firmas participantes do programa as 931.000 sacas de café restantes dos estoques da valorização em Nova York. Com isso as operações nos Estados Unidos foram finalizadas. Ainda restavam cerca de 3 milhões de sacas na Europa, que continuaram a ser comercializadas. Essas vendas garantiram lucros suficientes para cobrir os custos com o programa de valorização e no final do ano de 1915 o estado de São Paulo liquidou o empréstimo de 15.000.000 de libras realizado em 1908. O nível de retorno financeiro do programa pode ser comprovado se levarmos em conta que o estado ainda adquiriu dois empréstimos, um no ano de 1913 de 7.500.000 de libras e outro no ano de 1914 de 4.200.000 de libras, ambos contratados junto à J. H. Schroeder. Ofereceu como garantia aos mesmos a sobretaxa de 5 francos-ouro.

Cabe-nos por fim avaliar a eficácia do programa de valorização para os diversos agentes (capitais) envolvidos no esquema. Para Delfim Netto a operação pode ser avaliada da seguinte forma: observando-se as operações contábeis tem-se que a valorização teve um sucesso inegável, já que o Estado saldou todas as obrigações com seus credores em 1914, com um estoque de 3,1 milhões de sacas de café. Os comerciantes, para além das comissões e juros pagos pelas operações, ainda beneficiaram-se pelo aumento de preços. Quanto aos banqueiros, receberam em média 9% de juros pelo capital emprestado. Observando-se o programa do ponto de vista da melhoria da situação financeira dos produtores e sua remuneração em moeda nacional, temos o que se segue: Em 1906, quando o programa começou, o preço médio da saca era de 30$000 mil réis, enquanto que as divisas de exportação no mesmo ano foi de 25.000.000 de libras. Em 1912, pico de preços após o programa, a saca chegou a 70$000 mil réis, gerando um saldo de divisas da ordem de 45.000.000 de libras. A produção em 1912 foi de aproximadamente de 13,5 milhões de sacas, tendo um estoque mundial visível de 14 milhões de sacas, dos quais 8 milhões estavam em estoque disponível. Em 1907 a produção brasileira foi de 20 milhões de sacas, com um estoque de 9 milhões; o governo adquiriu desta safra, até 1908, uma monta de 8 milhões de sacas, como já vimos. Ressaltados esses fatos, temos que a operação logrou êxitos ao defender o preço em moeda nacional, elevando o preço à níveis anteriores à 1900.20

A constatação de Delfim Netto é empiricamente comprovada por meio das variáveis preço e renda dos cafeicultores, no entanto o aparente objetivo do programa de defender os preços do produto em moeda nacional não nos evidencia os rumos que a operação ganhou a partir da associação com o cartel internacional de comercialização. Como afirmou Perissinotto:

Ao nosso ver, portanto, na análise do esquema valorizador, não basta analisar o histórico dos preços do café após 1906, constatar a sua ascensão e concluir a partir disso que houve uma vitória da lavoura sobre o capital mercantil. Nem basta dizer que a valorização garantiu à lavoura uma boa margem de lucros. Mais do que isso, é preciso analisar o esquema valorizador globalmente para perceber que nele as principais reivindicações da lavoura não foram atendidas. Ao contrário, a ela coube uma posição completamente subordinada no esquema, além do peso das sobretaxas. Os grandes lucros de fato couberam aos exportadores que, com o controle e a retenção dos estoques, conseguiram que o preço subisse nos países consumidores e, ao mesmo tempo, impuseram um preço mínimo bastante baixo ao cafeicultor.21


Para Holloway a operação teve um significado ainda mais importante para a economia cafeeira e para o próprio Convênio de Taubaté:

O efêmero acordo de Taubaté, tornou-se um rótulo conveniente, porém errado, para se identificar o esquema da valorização de 1906. Apesar do encontro de Taubaté ter desempenhado papel importante nos estágios preliminares para as negociações, um nome mais apropriado para a operação poderia ser “O Plano Sielcken”. Nenhuma classificação categórica poderia de fato rotular as várias operações financeiras comerciais e fiscais que envolveram a primeira valorização do café.22



Para os banqueiros e comerciantes europeus e norte-americanos que participaram, a valorização foi decididamente uma operação que teve êxito. Os bancos e as casas comerciais que emprestaram dinheiro durante a fase de compras, praticamente não arriscavam nada nas operações de crédito. Qualquer empréstimo era garantido adiantadamente. O estoque de café era a garantia mais segura, devido a facilidade de venda e por ser um bem segurável. Mas a sobretaxa, o arrendamento das estradas de ferro e a reputação do governo federal serviriam também de boas garantias. Todo aquele que adiantou créditos, acabou lucrando com o esquema. São Paulo fazia devidamente o pagamento dos juros e saldava, todas as grandes dívidas, antes da data de vencimento.23
A interpretação de Kugelmas também ressalta os grandes ganhos obtidos pelo oligopsônio mercantil na operação, contudo o autor argumenta que sucesso do Convênio de Taubaté não é uma garantia de que a Republica Velha fora marcada por uma hegemonia cafeeira e portanto paulista. Ocorreram fracassos iminentes no que tange o apoio do governo federal e de seu principal credor, os Rotshchilds, bem como o promitente apoio dos demais estados cafeeiros. Já a Caixa de Conversão só foi aprovada com o câmbio 25% a mais valorizado do que interessava diretamente aos cafeicultores. O imbróglio político desgastou a figura de Rodrigues Alves, um dos mais importantes políticos do PRP. Deste modo, a valorização só foi um sucesso dada a grande autonomia dos estados da federação, o que possibilitou a São Paulo negociar acordos diretamente com os credores externos e a cooperação dos importadores, que aparentemente deveriam ser contrários a manipulação dos preços. No entanto estes aproveitaram-se de uma rigidez nos preços no varejo e a partir de sua grande capacidade financeira vislumbraram a possibilidade de estocar grande quantidade do produto, formando um mercado paralelo que inflou os preços na Bolsa de Nova York. Por fim, os logros da valorização de 1906 foram acima de tudo do capital mercantil que controlava o comércio de café em nível internacional, mas também não deixaram de ser de grande parte do setor cafeeiro que teria quebrado caso a valorização não tivesse ocorrido.24
***

Vimos no decorrer do texto que a presença do capital estrangeiro nos negócios do complexo cafeeiro foi marcante desde sua origem, intensificando-se a partir do último quartel do século XIX. Suas atividades concentraram-se, sobretudo, nas ferrovias, na intermediação comercial e financeira e principalmente nos financiamentos públicos. A precariedade do sistema de crédito nacional legava a lavoura mecanismos de financiamentos comandados pelos comissários individuais e depois pelas casas comissárias do Rio de Janeiro e de São Paulo, de capital nacional e estrangeiro. A política econômica mostrou-se como o reflexo dos choques de hegemonia entre as frações de classe dentro da oligarquia paulista, entre esta e as demais oligarquias no poder Federal e entre a burguesia nacional, na condição de classe dominante, e o capital estrangeiro. Como bem lembrou Florestan Fernandes, o caráter dependente da classe dominante em relação a burguesia capitalista internacional matizava as ações no exercício da dominação interna e na construção da própria forma que assumiu a soberania nacional.25 A análise da historiografia mostrou que os conflitos de hegemonia e entre os capitais é um problema recorrente para o entendimento do surgimento do capitalismo brasileiro.

O capital cafeeiro jogou um papel central no desenvolvimento do capitalismo industrial nacional, de modo que reuniu em torno da atividade exportadora um conjunto de outras atividades que em um primeiro momento apresentavam-se como complementares. Pela periodização clássica temos que até os anos 30 do século XX a dinâmica da acumulação era impulsionada pelas exportações, enquanto que a partir da recuperação da crise mundial em 1933 a acumulação passa a ser impulsionada pelo setor industrial, embora ainda de forma restringida, dado os problemas de poupança nacional e capacidade de investimento das empresas em alta tecnologia, ou seja, houve grandes barreiras para se implantar a indústria de base, algo que só foi rompido a partir dos anos 50 do século XX.

Sendo assim, para entender os conflitos que marcaram o desenvolvimento da economia cafeeira, bem como o sentido que tal desenvolvimento legou a posterior economia industrial, é necessário ter-se em conta, antes de tudo, que a história nacional é também a história do capitalismo.26 “A história do capitalismo é também a nossa história: o capitalismo não pode formar-se sem o apoio da acumulação colonial; o capitalismo industrial valeu-se da periferia para rebaixar tanto o custo da reprodução da força de trabalho quanto dos elementos componentes do capital constante [...] dela se serviu como mercado para sua produção industrial e para exportação de seu capital financeiro”.27

Referências

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# O trabalho a seguir é fruto de pesquisas e discussões entre os autores, no âmbito do Núcleo Interno de História Econômica (NIHE), no decorrer do ano de 2008 e primeiro semestre de 2009.

* Graduado em História pela Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP). Aluno do Curso de Mestrado em Desenvolvimento Econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Área de Concentração: História Econômica - Núcleo Interno de História Econômica (NIHE).

** Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Aluno do Curso de Mestrado em Desenvolvimento Econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Área de Concentração: História Econômica - Núcleo Interno de História Econômica (NIHE).

*** Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Aluno do Curso de Mestrado em Desenvolvimento Econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Área de Concentração: História Econômica - Núcleo Interno de História Econômica (NIHE).

1 MELLO, João M. C. de. O capitalismo tardio: Contribuição à revisão crítica da formação e do desenvolvimento da economia brasileira. 6ª ed. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987. Ver também FAUSTO, Boris. Expansão do café e política cafeeira. In: ______(Org). História geral da civilização brasileira. O Brasil republicano: estrutura de poder e economia (1889-1930). São Paulo: DIFEL, 1977, Tomo III, vol. 1, p. 195; PERISSINOTO, Renato. Classes dominantes e hegemonia na República Velha. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1994.

2 Nosso entendimento geral sobre a dinâmica do período, bem como a periodização adotada é matizada pelas teses de FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 24ª ed. São Paulo: Editora Nacional, 1991; TAVARES, Maria da C. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1974; MELLO, João M. C. de. op. cit; CANO, Wilson. Raízes da concentração industrial em São Paulo. 4ª ed. Campinas, SP: UNICAMP/IE, 1998.

3 HOLLOWAY, Thomas H. Vida e morte do Convênio de Taubaté: a primeira valorização do café. Trad. Marcio Doctors. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 59-61; KUGELMAS, Eduardo. Difícil Hegemonia: um estudo sobre São Paulo na Primeira República. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Universidade de São Paulo - Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1986, p. 121.

4 PERISSINOTTO, Renato. op. cit., p. 72.

5 KUGELMAS, Eduardo. op. cit., p. 123-124.

6 TRINER, Gail D. British Banks in Brazil during na early Era of Globalization (1889-1930). Texto apresentado ao Congresso da International Economic History Association: Helsinki, 2006, p. 12; CHAVANTES, Ana P. Consolidação do setor bancário em São Paulo na década de 20. Dissertação (Mestrado em História Econômica) – Universidade Estadual de Campinas - Instituto de Economia, Campinas, 2004, p. 20.

7 INSPETORIA DO THESOURO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Informação prestada ao Exmo. Sr. Dr. Olavo Egydio de Sousa Aranha, Secretário da Fazenda pelo Cel. Luiz Gonzaga de Azevedo, Inspetor do Thesouro do Estado de São Paulo, sobre o Serviço de Defesa do Café em 1906 e 1907. São Paulo: Typ. Siqueira, Salles & Comp., 1908, p. 4-11; p. 25-64. Trata-se da cópia dos contratos de empréstimos e das respectivas contas correntes, que foram anexadas pelo Inspetor Público do Tesouro em relatório enviado à Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Ver Também: HOLLOWAY, Thomas H. op. cit., 70-71.

8 INSPETORIA DO THESOURO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Informação prestada ao Exmo. Sr. Dr. Olavo Egydio de Sousa Aranha, Secretário da Fazenda pelo Cel. Luiz Gonzaga de Azevedo, Inspetor do Thesouro do Estado de São Paulo, sobre o Serviço de Defesa do Café em 1908 e 1909. São Paulo: Typ. Siqueira, Salles & Comp., 1909, p. 3-7; DELFIM NETTO, Antônio. op. cit., p. 84-85.

9 INSPETORIA DO THESOURO DO ESTADO DE SÃO PAULO. op. cit.,1909, p. 23-37; HOLLOWAY, Thomas H. op. cit., p. 73.

10 HOLLOWAY, Thomas H. op. cit., p. 75-76.

11 Para conseguir mais empréstimos arrendou-se a estrada de ferro Sorocabana. DELFIM NETTO, Antônio. O problema do café no Brasil. In: INSTITUTO BRASILEIRO DO CAFÉ. Ensaios sobre café e desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro, 1973, p. 87.

12 Ibid.

13 INSPETORIA DO THESOURO DO ESTADO DE SÃO PAULO. op. cit.,1909, p. 39-103; HOLLOWAY, Thomas H. op. cit., p. 79. Ver Também SECRETARIA DA FAZENDA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Relatório apresentado ao Dr. M. J. de Albuquerque Lins, Presidente do Estado, pelo Dr. Olavo Egydio de Souza Aranha, Secretário da Fazenda, referente ao ano de 1908. São Paulo: Typografia do Diário Official, 1909.

14 INSPETORIA DO THESOURO DO ESTADO DE SÃO PAULO. op. cit., 1909, p. 105-237. Demonstração contábil do movimento geral de entrada e saída de café nos estoques do Consórcio da Valorização no país e no exterior.

15 HOLLOWAY, Thomas H. op. cit., p. 80-81.

16 DELFIM NETTO, Antônio. op. cit., p. 89.

17 HOLLOWAY, Thomas H. op. cit., p. 84.

18 Ibid., p. 85.

19 Ibid.

20 DELFIM NETTO, Antônio. op. cit., p. 93-94.

21 PERISSINOTTO, Renato. op. cit., p. 76-77.

22 HOLLOWAY, Thomas H. op. cit., p. 98.

23 Ibid., p. 98.

24 KUGELMAS, Eduardo. op. cit., p. 127.

25 FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1998. Florestan propõe que a formação do capitalismo brasileiro é determinada pelas condições de autonomização política e pela manutenção do substrato material que era conteúdo da própria reprodução colonial. Em última análise, o capitalismo brasileiro esteve em sua origem, condicionado pelos desígnios do capital mercantil, de forma que sua inserção nesse sistema manteve sua condição de primário-exportador, o que se refletiu internamente na construção de uma ordem que subsidiasse tal condição externa.

26 MELLO, João M. C. de. op. cit., p. 176.

27 Ibid., p. 177.



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