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teoria do Ciclo do Produto: o que está superado e o que permanece vivo?

Eneuton Pessoa

Marcilene Martins

Resumo

Este artigo busca refletir sobre uma questão-chave que perpassa grande parte da literatura crítica à teoria do ciclo do produto: o que foi superado e o que permanece vivo nesta teoria? Após sistematizar o mecanismo básico do ciclo do produto, discutem-se algumas principais insuficiências apontadas e/ou sugeridas pela literatura crítica. Conclui que a teoria do ciclo do produto não permite explicar os fluxos de investimentos diretos estrangeiros no atual contexto de integração dos mercados e produção globalizada. Mas ela explica porque as empresas multinacionais, independente de qual seja o seu país de origem, em sua estratégia de internacionalização produtiva tendem a se voltar para países intensivos em recursos naturais e/ou mão-de-obra barata: são estas as vantagens de localização tipicamente oferecidas por esses países.



Palavras-chave: investimento direto estrangeiro - inovação de produto - ciclo do produto

1. Introdução

Por que um novo produto surge especificamente num determinado país/região, e que fatores contribuem para que, alcançando o mesmo certo grau de desenvolvimento, a empresa que o produz tenda paulatinamente a localizar sua produção em outros países que não o de origem?

Este é o tema abordado pela teoria do ciclo do produto, conforme originalmente apresentada por Raymond Vernon em um ensaio seminal intitulado “International investiment and international trade in the product cycle”, publicado no Quartely Journal of Economics, em maio de 1966. Com o propósito específico de analisar os determinantes dos padrões de comércio e dos investimentos produtivos norte-americanos no exterior no período compreendido entre o final da 2a. guerra mundial e meados dos anos 60, a teoria do ciclo do produto acabaria por tornar-se uma referência na discussão sobre comércio e progresso técnico, sendo inclusive considerada como uma das três contribuições que tentam explicar as diferenças internacionais no ritmo e na direção da mudança tecnológica (Dosi et alli,1990:76-77)1.

Particularmente cauteloso ao avaliar a contribuição do seu ensaio, Vernon qualificou o modelo do ciclo do produto como sendo não mais que “ma linha promissora de generalizações e sínteses que, a meu ver, parece ter sido um pouco negligenciada pela corrente principal de Teoria do Comércio” (Vernon, 1966:89-90). Tal preocupação constitui o ponto de partida e será o fio condutor da tese do ciclo do produto. Com efeito, já no primeiro parágrafo daquele ensaio nos deparamos com a seguinte observação: “qualquer pessoa que tenha procurado entender as variações no comércio e investimento internacionais nos últimos vinte anos, de tempos em tempos, tem se sentido irritada por uma sensação aguda de inadequação dos instrumentos analíticos disponíveis” (Vernon, 1966:89).

Esta percepção quanto ao caráter limitado da “corrente principal da teoria do comércio” se baseava a constatação de que tal teoria se fixava nos custos relativos dos fatores produtivos enquanto desconsiderava elementos outros cuja importância parecia já bastante evidente, a saber: a cronologia das inovações, as economias de escala e a ignorância e incerteza decorrentes da informação limitada.

Ao enfatizar a importância desses elementos sobre a definição dos padrões de comércio e de investimento internacionais, a teoria do ciclo do produto desenvolve o argumento de que decisão sobre quando e onde investir na produção de um novo produto é influenciada pela evolução das vantagens comparativas de custos ao longo do ciclo de vida do produto. E ao fazê-lo amplia o marco teórico da análise do comércio e investimento internacionais, na medida em que: i)estabelece um elo entre padrão de demanda e padrão de inovação; ii) imprime um sentido dinâmico à noção clássica de vantagens comparativas de custos, evidenciando assim o equívoco de se considerar a condição de vantagem/desvantagem comparativa de custos como sendo função exclusiva da dotação relativa de fatores, como se estes fossem conceitos intercambiáveis.

Não obstante, já no início da década de 70 e com mais intensidade a partir dos anos 80, sob o impacto das transformações técnico-produtivas e organizacionais desencadeadas pela difusão das tecnologias de base microeletrônica, o poder explicativo dessa teoria viria a ser progressivamente questionado.

O presente artigo procura refletir sobre uma questão-chave que perpassa grande parte da literatura crítica à teoria do ciclo do produto: o que está superado e o que permanece vivo nessa teoria? Não temos a pretensão de esgotar o tema, senão que contribuir para o debate sistematizando alguns pontos de inquietação sugeridos pela literatura pesquisada. O artigo foi estruturado como segue. Após esta introdução, faz-se uma apresentação esquematizada do modelo do ciclo do produto, procurando guardar a maior proximidade possível com a formulação original de Raymond Vernon. Na seqüência, à luz de algumas principais referências na literatura sobre o tema, procura-se identificar e discutir as principais lacunas e insuficiências desta teoria. Por fim, apresentam-se as considerações finais da pesquisa.



2. Apresentando o modelo do Ciclo do Produto

Surgem novos produtos, estes se desenvolvem, atingem a maturidade, entram em declínio e, eventualmente, desaparecem. Esta é a essência da noção de ciclo de vida do produto. Vernon parte deste conceito e o articula a uma teoria do comércio que aponta para uma noção de vantagens comparativas de caráter dinâmico e a uma teoria do investimento (produtivo) que pressupõe racionalidade limitada e estrutura de mercado em concorrência imperfeita. O resultado desta articulação é um modelo no qual o fluxo de comércio e a estratégia de localização da produção no exterior são explicados em função do ciclo de vida do produto.

Com o propósito de descrever o funcionamento básico do ciclo do produto, iniciamos pela consideração das hipóteses básicas estabelecidas pelo modelo. Tais hipóteses, explicitadas por Vernon já nas primeiras páginas do ensaio sobre o ciclo do produto, podem ser descritas como segue:


  1. Supõe-se que empresas localizadas em qualquer um dos países avançados não diferem significativamente entre si, no que se refere ao acesso ao conhecimento científico requerido à criação de um novo produto, bem como à capacidade de compreensão dos seus princípios;

  2. Qualquer que seja a condição de acesso ao conhecimento científico, a probabilidade de que o mesmo seja convertido na geração de novos produtos vai depender antes da capacidade do empresário em perceber oportunidades econômicas visualizadas com a aplicação prática desse conhecimento na produção., o que, por sua vez, vai depender da facilidade de comunicação e da proximidade geográfica entre produtores e consumidores. A hipótese então é de que os produtores mais aptos a desenvolver novos produtos em qualquer dado mercado serão aqueles que possuam um conhecimento prévio desse mercado;

  3. Dada a evidência de uma nova necessidade de consumo, supõe-se que o empresário se sentirá motivado a atendê-la, investindo na geração de um novo produto, se avaliar que a renda monopólica a ele associada, compense o investimento inicial envolvido na atividade de inovação;

  4. O modelo do ciclo do produto, nos termos discutidos por Vernon, trata especificamente da inovação de produtos industriais voltados para consumidores de alta renda e poupadores de mão-de-obra (Vernon, 1966:90-93).

São basicamente estas hipóteses, que articuladas a um enfoque teórico do comércio e do investimento internacional de caráter bem pouco convencional, conforme já observado, formam a base da teoria do ciclo do produto. Em sua caracterização do ciclo do produto, Vernon, seguindo Hirsch (1965) e Freeman (1963)2, distingue três estágios de desenvolvimento do produto: produto novo, produto em maturação e produto padronizado. A dinâmica desse modelo, que está representada na figura 1, será analisada a seguir.

Nos estágios iniciais da introdução de um novo produto as decisões de investimento e produção se mostram relativamente mais complexas, uma vez que até mesmo os condicionantes mais imediatos do processo produtivo encerram elevado grau de indeterminação, levando a que os produtores se vejam defrontados com várias indefinições críticas, ainda que transitórias. Este é um argumento-chave do modelo do ciclo do produto.

Pelo fato de as características do novo produto ser ainda não-padronizáveis, os insumos e as especificações finais do produto estarão sujeitos a grandes alterações. Uma implicação disso é que os produtores vêem se defrontar com condições bastante incertas no que tange à escolha dos insumos, à forma de combiná-los e à definição das especificações do produto final. Com efeito, a possibilidade de um maior grau de liberdade e um leque mais amplo de alternativas para a escolha de fornecedores e potenciais insumos, assumem, nesse estágio inicial do produto, importância crítica como elemento de estratégia competitiva.

Isto se deve ao fato de que subsiste considerável incerteza quanto às dimensões finais do mercado, ao esforço dos rivais por excluir-se mutuamente e as especificações dos insumos necessários e as especificações dos produtos que provavelmente terão mais êxito no esforço competitivo. Sob tais circunstâncias, aumenta sobremaneira a importância de se poder contar com flexibilidade para mudar os insumos ou a forma de combiná-los na produção, assim como a necessidade de comunicação rápida e eficaz entre os produtores, e entre estes e seus fornecedores e clientes.

O modelo de Vernon afirma ainda que nessa fase inicial do desenvolvimento do novo produto a concorrência assume duas características principais: o número de produtores será relativamente pouco expressivo, ao passo que será observado um elevado o grau de diferenciação de produto entre eles. A primeira dessas características se deriva do caráter assimétrico da dinâmica inovativa, remetendo, pois, à natureza seletiva e cumulativa desse processo3, sendo também uma indicação clara da presença de elementos de monopólio na concorrência. A segunda característica decorre da hipótese, explicitamente assumida pelo modelo, de que (os novos) produtos em questão se destinam a mercados consumidores de alta renda. Nos termos desse modelo, o resultado é que com concorrência em preços cedendo lugar à concorrência por diferenciação de produto, as firmas individuais se deparam com uma combinação de baixos coeficientes de elasticidade-preço da demanda por seus produtos e elevados coeficientes de elasticidade-renda da demanda.

Em um estágio intermediário do ciclo do produto, que corresponde à sua fase de maturação, terão lugar mudanças importantes no âmbito da concorrência: o número de produtores aumenta, a oferta cresce e se torna mais diversificada, o que pressupõe esforços crescentes de diferenciação de produtos, enquanto a demanda, que também estará aumentando, se torna mais sensível ao preço. A ameaça de intensificação da concorrência via preços será algo muito presente nesse estágio do produto, dado que a demanda encontra-se bastante preço-elástica, daí o ímpeto para a diversificação da produção como estratégia de preservação de mercado.

À medida que a demanda se expande, as características do produto e do processo produtivo evoluem para um maior grau de standardização, e isto afetará de forma determinante as condições de produção. A definição de um conjunto fixo de normas para o produto abre possibilidades técnicas para a realização de economias de escala mediante a produção em massa. Com a redução do grau de variabilidade do processo produtivo e das características técnicas do produto, diminui também a necessidade de se operar com elevado grau de flexibilidade na produção. Por outro lado, com a maior estabilidade da produção aumenta a utilidade das projeções de custos e a importância de controlá-los de maneira eficiente.

Contudo, se no plano imediato da produção a empresa inovadora já pode contar com condições relativamente favoráveis, no tocante às decisões de investimento, as coisas tendem a se complicar bastante a partir daí.

Com a demanda pelo novo produto crescendo em países potencialmente competitivos na sua produção, em algum momento, a empresa detentora do monopólio da inovação terá de assumir o risco de estabelecer uma instalação produtiva fora do seu país de origem. Que fatores serão considerados nessa decisão? Seguindo Vernon, poder-se-ia inicialmente cogitar que enquanto o custo do produto marginal mais o custo com transportes dos bens exportados forem inferiores ao custo unitário da produção potencial no mercado importador, não haverá razões para investimento direto no exterior. Todavia, como também observa o autor, tais cálculos dependem da capacidade que tem os produtores de projetar custos numa realidade econômica distinta. Ocorre que esta capacidade de projeção nunca será plena, já que as decisões empresariais envolvem sempre algum grau de incerteza ou desconhecimento do futuro.

Além do mais, mesmo na hipótese de que o produtor tivesse razoável capacidade de projeção sua eficácia reduziria na proporção direta do aumento da importância de fatores internos às economias particulares atuando como “forças de localização”, tais como, por exemplo, a ameaça de novos concorrentes no país importador, o nível de proteção tarifária esperada no futuro e situação política no país de inversão potencial. (Vernon,1966:98-99). Por fim, muitas vezes a ameaça à posição estabelecida da empresa é por si só uma poderosa força galvanizadora para os investimentos internacionais. Assim, mais do que a perspectiva de uma oportunidade de expansão de mercado, o que se impõe aqui é a necessidade de agir preventivamente, a fim de evitar uma perda do fluxo de rendas, buscando, para isso, estabelecer-se no novo mercado antes que alguma concorrente o faça, ou antes, por causa disso (Vernon,1966:98-100).

Com o produto atingindo a fase madura ou de padronização, dá-se a consolidação das características básicas do produto e do mercado consumidor. A padronização do produto atinge o seu máximo, o consumo se massifica e a escala de produção é otimizada, evidenciando com isso um aprofundamento de características da fase anterior de maturação do produto. Não obstante esta relativa estabilidade do produto e do mercado consumidor, a especificação dos insumos requeridos à produção passará por grande mudança nessa fase do produto. Cresce a importância relativa dos fatores capital e mão-de-obra enquanto declina a do fator tecnologia. Diminui a necessidade de trabalho ligado ao conhecimento enquanto aumenta a do trabalho diretamente ligado à produção, bem como a importância do aprimoramento da tecnologia incorporada nos equipamentos.

Decorre daí que os custos tradicionais (custos de mão-de-obra, capital e matérias-primas) ganham importância em relação aos custos ligados à atividade de inovação (custos de pesquisar, testar, adaptar ... o novo produto). E isto tende a repercutir sobre a decisão de localização dos novos investimentos produtivos, ao menos no que se refere a certas categorias de produtos, no caso, aqueles que permitam maior grau de padronização e cujo valor agregado individual seja alto o suficiente para compensar os elevados custos de transportes; cuja função de produção demande insumos significativos de mão-de-obra, porém sem a exigência de elevado grau de especialização; e que não requeiram um ambiente industrial mais elaborado, pois nessa situação a vantagem do baixo custo de mão-de-obra poderia ser neutralizada em virtude de deseconomias externas (Vernon, 1966: 102-106).

É nesse momento que os países menos desenvolvidos podem oferecer vantagens competitivas para a localização da produção de certas categorias de produtos. A este respeito, observa Vernon, “os processos manufatureiros que recebem insumos significativos da economia local, como mão-de-obra especializada, pessoal de manutenção, energia confiável, peças sobressalentes, materiais industriais processados de acordo com especificações rigorosas, e assim por diante, são menos apropriados para as áreas menos desenvolvidas do que os processos que não apresentam essas exigências” (Vernon,1966:103). Do que se conclui que quanto mais estandardizado for o produto maior tende a ser o fator de atração exercido por aqueles países nos quais se possa dispor de mão-de-obra a custos relativamente mais baixos do que em outras localidades. Já a produção de bens sob encomenda, ou que requeiram maior investimento em pesquisa ou um ambiente econômico mais refinado, tende a se localizar próxima dos países/mercados de origem dos principais complexos industriais.

Figura 1 – Representação esquemática do mecanismo do Ciclo do Produto

Exportação - Importação

Países em

desenvolvimento



0 t0 t1 t2 Tempo



t3 t4

outros países

país desenvolvidos

inovador



Introdução Maturação Padronizado

(1) (2) (3)



Estágios de desenvolvimento do produto

Fonte: Elaborado pelos autores, a partir de Vernon (1966).



3. Revisitando as críticas à teoria do Ciclo do Produto

Em uma passagem do artigo de 1966, Vernon observa que “... em uma área tão complexa e ‘imperfeita’ como o comércio e investimento internacionais, não se deveria prever que qualquer hipótese tenha mais do que um poder explicativo limitado”. Bem mais adiante, já nos comentários finais do artigo, e referindo-se então especificamente à teoria do ciclo do produto, o autor reconhece o caráter exploratório do enfoque proposto com essa teoria, e conclui com a observação de que “... o que se necessita é continuar sondando para determinar se as ‘imperfeições’ tão fortemente realçadas nestas páginas merecem ser elevadas de notas de rodapé a texto principal da Teoria Econômica ” (Vernon, 1966:97; 107).

Ninguém duvida, hoje, de que as “imperfeições” referidas por Vernon – apenas lembrando: o papel das economias de escala, da inovação, ignorância e incerteza sobre os padrões de comércio e de investimento internacionais – alcançaram o texto principal da teoria econômica, melhor dizendo, da heterodoxia econômica. É também inegável que desde o surgimento da teoria do ciclo do produto, e sob inspiração desta, as teorias do comércio e investimento internacionais avançaram muito em termos do aumento do poder explicativo de suas hipóteses, ao passo que se avolumaram também as críticas àquela teoria.

Fora o próprio Vernon, quem, em um texto posterior ao ensaio de 1966 4, melhor sintetizou as principais insuficiências da teoria do ciclo do produto, antecipando, no essencial, o teor das críticas a ela dirigidas nas duas décadas seguintes. Vernon partia da observação de que a performance exportadora e de investimentos diretos estrangeiros das firmas norte-americanas teria se modificado ao longo dos nos anos 70, e se perguntava sobre o que teria mudado quanto aos determinantes da dinâmica desse processo, quando comparada tal realidade econômica com aquela do período compreendido entre o pós-guerra e meados da década de 60, analisada no ensaio de 1966.

Segundo Vernon, ao longo dos anos 70 dois fatores teriam concorrido para diminuir o alcance da teoria do ciclo do produto enquanto elemento explicativo da composição e dinâmica das exportações e dos investimentos americanos no exterior: i) a tendência à diminuição da distância entre os níveis de renda per capita e o padrão de custos relativos dos fatores dos EUA e dos demais países desenvolvidos (Europa e Japão), que teve o efeito de minar a condição dos EUA de locus preferencial para o surgimento de inovações, além de contribuir para o acirramento da concorrência no exterior, com as firmas japonesas e européias passando a competir nos seus mercados domésticos com inovações de produtos similares aos das firmas multinacionais estadunidenses; ii) o fato destas últimas passarem a desempenhar suas atividades através do estabelecimento de redes mundiais de produção e distribuição, introduzindo novos produtos simultaneamente em vários mercados (Vernon apud Eatwel et alli, 1987: 986-988) .

A multinacionalização da produção das firmas norte-americanas reduziu a importância da nacionalidade da firma matriz em determinar a direção da inovação e o padrão de comércio exterior. Assim como tornaria cada vez mais irrelevante a distinção entre mercados externos e internos, enquanto critério de decisão sobre onde estabelecer a produção do novo produto. Estendendo essa análise para o conjunto dos países desenvolvidos – e a teoria do ciclo do produto o permite - , importa ainda considerar que a concorrência entre firmas no país e nos diferentes países já na fase de introdução do produto novo, joga por terra a hipótese inicial de que a firma inovadora gozaria da condição de monopolista na fase inicial de introdução do novo produto, de modo que esse “novo ambiente econômico” tende a significar uma maior preocupação com os custos.

Tais qualificações à teoria do ciclo do produto acham-se discutidas ou ao menos sugeridas no escrito de Vernon para o dicionário Palgrave (1987). Para ele, no entanto, o conceito de ciclo do produto continua tendo considerável utilidade. Em defesa dessa posição, observa que muitas firmas continuam a produzir no interior de economias que conservam algumas características nacionais distintivas – relacionadas, por exemplo, às características do mercado consumidor, do mercado de fatores ou à base de recursos naturais - o que pode levá-las a produzir novos e distintos produtos, em alguma medida sintonizados com aquelas características. E com as firmas multinacionais passando a desenvolver simultaneamente, e em escala mundial, as diversas etapas do produto, a seleção dos países a receberem tais investimentos produtivos vai depender em maior medida do que eles ofereçam em termos do tipo de vantagem competitiva almejada pela empresa em cada particular situação. E conclui afirmando que “diferentes condições [nacionais] tendem a puxar as inovações em diferentes direções, criando um campo fértil para se teorizar sobre os padrões de investimento e comércio que tais diferenças eventualmente produzam” (Vernon apud Eatwel et alli, 1987: 987).

O rol de críticas à teoria do ciclo do produto ampliou-se nas últimas duas décadas, ainda que estas sejam mais propriamente desdobramentos das limitações já apontadas por Vernon, no texto supracitado, do que algo efetivo novo. Um fator que certamente ajuda a explicar esse maior interesse pelo tema é a crescente difusão da abordagem evolucionista da inovação e sua ênfase na interação entre mudança tecnológica e transformação das estruturas industriais como determinantes da composição e evolução dos padrões de comércio e investimento internacionais.



No que segue, busca-se sistematizar os principais argumentos enfatizados pela literatura crítica à teoria do ciclo do produto, os quais podem ser enumerados como segue:

  1. A teoria do ciclo do produto se concentra no papel do mercado de origem da firma (home-market) inovadora enquanto principal estímulo para a inovação. A crítica considera que tal hipótese significa uma visão unilateral dos determinantes da inovação e internacionalização da produção. O argumento-síntese é de que os determinantes da vantagem tecnológica das firmas e/ou países – são não apenas ‘demand-pull’, mas também ‘science-push’ e ‘tecnhology-push’ (Dosi et alli, 1990:76-80). Nesse sentido, considera-se que “inovações geralmente repousam sobre processos de aprendizado que são firm-specific e que interagem com o crescimento da demanda e a criação de novo conhecimento científico e tecnológico. Em uma região ou país que exerça liderança tecnológica, renda e demanda elevadas são mais uma conseqüência desta liderança (elevada capacidade tecnológica e, com isso, elevada produtividade) do que a sua causa” (Cantwell, 1995:171).



  1. O modelo do ciclo do produto seria aplicável a produtos associados a elevados níveis de renda, ou que permitem maior grau de substituição de capital por trabalho e/ou intensivos em tecnologia, mas não às inovações industriais em geral; (Dosi et alli,1990); (Hong, 2006). Este ponto é não apenas reconhecido como enfatizado pelo próprio Vernon (1966).

  2. O modelo supõe que a tecnologia necessária à inovação consiste essencialmente de princípios científicos cujo conhecimento é amplamente acessível a todas as firmas dos países desenvolvidos. A limitação desta hipótese é que ela reduz o conhecimento tecnológico a uma de suas dimensões, que é o conhecimento científico, e desconsidera o fato de que uma parte daquele conhecimento vai refletir as especificidades técnicas e de mercado de produtos ou indústrias particulares, envolvendo “não apenas informações escritas (por exemplo, patentes, projetos, instruções de operação), mas também habilidades e experiências incorporadas nas pessoas e a adaptação de técnicas às condições locais de operação e mercados” (Dosi et alli, 1990:82).

  3. O modelo assume que a direção da atividade inovativa é inteiramente determinada pelos sinais - reais ou antecipados - de mercado. O problema aqui consiste em reduzir os condicionantes da dinâmica da inovação a uma questão de percepção de oportunidades de mercado, ou seja, tratar como suficiente o que pode ser uma condição apenas necessária. A transcrição que segue ilustra bem este ponto: “Diferentes tecnologias apresentam diferentes taxas de desenvolvimento em diferentes momentos do tempo. Em alguns casos, aperfeiçoamentos tecnológicos podem abrir oportunidades para a inovação sem qualquer mudança nos sinais de mercado. Em outros casos, tecnologias complicadas ou estagnadas podem significar que oportunidades de mercado evidentes poderão não ser exploradas” (Dosi et alli, 1990:81).



  1. Ao assumir, implicitamente, que as taxas de inovação e de mudança técnica sejam constantes durante o período do ciclo do produto, exclui-se a possibilidade teórica de que inovações possam ocorrer de forma subseqüente ou mesmo simultânea, com o efeito de tornar ainda mais complexa a dinâmica do ciclo do produto, já que isto provavelmente resultará em ciclos de inovação que se repetem e/ou se sobrepõem. O primeiro caso seria compatível com uma situação em que a emergência de uma inovação primária seja sucedida por inovações secundárias ou incrementais ao longo de uma dada trajetória tecnológica. O segundo, pode ser pensado com referência a uma situação em que a um dado paradigma tecnológico se associem diversas trajetórias tecnológicas, cada qual significando um leque potencial de inovações. Ambas as possibilidades foram objeto de análise de elaborações posteriores da teoria do ciclo do produto, dentre as quais se destacam os estudos de Albernathy; Utterback (1975;1978) e Utterback (1996).

4. Conclusões

A teoria do ciclo do produto consiste numa tentativa pioneira de incorporar, de forma teoricamente mais consistente e articulada que as teorias precedentes, o papel da inovação, da escala de produção, das economias externas e da incerteza e ignorância à teoria do comércio e da produção internacionais. Neste sentido, uma principal contribuição desta teoria ao pensamento econômico está na perspectiva de dinamização do conceito de vantagens comparativas de custos, na medida em que estabelece hipóteses sobre as decisões de localização do investimento e da produção internacionais que transcendem a tradicional explicação baseada na teoria neoclássica do comércio e da produção.

Por outro lado, conforme demonstrado na seção anterior, é evidente que algumas hipóteses básicas da teoria do ciclo do produto, conforme originalmente elaboradas por Vernon, ou sempre pecaram pelo excesso de simplificação ou se tornaram em alguma medida obsoletas quando confrontadas a uma realidade econômica substancialmente distinta da vigente no período compreendido entre o pós-guerra e meados dos anos 60.

Nesta perspectiva, cumpre reconhecer, em primeiro lugar, que a hipótese de que diferenças internacionais na taxa e direção da mudança tecnológica se explicam em função da interação entre os padrões de demanda e de inovação precisa ser muito bem qualificada, no sentido de ser complementada por uma abordagem microeconômica que consiga articular de maneira satisfatória os condicionantes da decisão de inovar relacionados à demanda, à ciência e à tecnologia. A abordagem evolucionista ou neo-schumpeteriana caminha nesta direção.

Em segundo lugar, importa enfatizar que no atual contexto produtivo e tecnológico não mais se sustenta a hipótese de que o produto deva atingir um estágio avançado do seu desenvolvimento como condição necessária para a internacionalização da produção e da tecnologia. Com efeito, sob o paradigma da produção globalizada, o produto já nasce em maior ou menor medida internacionalizado. As diversas partes componentes de um produto e/ou as etapas produtivas correspondentes são levadas à cabo simultaneamente em diferentes países, numa estratégia de internacionalização da produção guiada pelas vantagens de custos e oportunidades de lucros oferecidas pelas diferentes economias nacionais. A implicação básica dessa ordem de coisas para a teoria do ciclo do produto é que a internacionalização da produção via investimento direto estrangeiro não mais se explica em função da cronologia do ciclo de vida do produto, o qual, aliás, tende a ser encurtado.

Cabe então a pergunta que motivou a elaboração deste artigo: o que foi superado e o que permanece vivo na teoria do ciclo do produto? A questão é complexa, e não pretendemos aqui mais do que sistematizar alguns pontos de inquietação sugeridos pela literatura de referência. Feita esta observação,e em adição ao que vimos discutindo, respondemos que a teoria do ciclo do produto não explica os fluxos de investimentos diretos estrangeiros no atual contexto de integração dos mercados em nível mundial. Mas ela explica porque as empresas multinacionais, independente de qual seja o seu país de origem, em sua estratégia de internacionalização produtiva tendem a se voltar para países intensivos em recursos naturais e/ou mão-de-obra barata: são estas as vantagens de localização tipicamente oferecidas por esses países.



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 Professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - UERGS

Professora do Depto. de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS

1 Segundo esta fonte, as outras duas contribuições seriam os estudos de historiadores econômicos, como Habakkuk (1962) e David (1975; 1986), discutindo a relação entre preços relativos dos fatores e taxa de inovação tecnológica nos EUA e Inglaterra do século XIX, e de autores como Lindbeck (1981), analisando o papel do empresário-empreendedor na explicação dos padrões internacionais de inovação. Cf. Dosi et alli (1990:76-77).


2 Conforme esclarece o autor, em nota de rodapé. Cf. Vernon (1966: 95).

3 Trata-se aqui de um corolário da teoria da inovação de inspiração neo-schumpeteriana, implicitamente antecipado por Vernon.

4 Vernon escreve sobre o ciclo do produto no dicionário Palgrave de economia (Vernon apud Eatwel et alli, 1987: 986-988). Mais do que uma apresentação didática da teoria do ciclo do produto, trata-se de um aprofundamento da revisão crítica dessa teoria, iniciado em Vernon (1979). Veja também os comentários de Patel (1995: 141-142) e Cantwell (1995) a respeito dessa auto-crítica de Vernon.



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