É Mulher, mas É Negra: perfil da mortalidade do “quarto de despejo”



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É Mulher, mas É Negra: perfil da mortalidade do “quarto de despejo”
Maria Inês da Silva Barbosa *
maria.br@nutecnet.com.br
Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo.”
Carolina Maria de Jesus
Este artigo trata da mortalidade da mulher negra na cidade de São Paulo e mostra que esse segmento étnico apresenta um perfil de mortalidade semelhante ao do homem branco, contrariando a esperada diferença por sexo, segundo a qual as mulheres vivem mais que os homens.
Além da semelhança dos índices de mortalidade proporcional por faixa etária da mulher negra com o homem branco – 40,7% e 39%, respectivamente, dos óbitos ocorridos antes dos 50 anos –, este trabalho revela também que, ao se compararem os Anos Potenciais de Vida Perdidos por óbitos, de um modo geral as mulheres negras perdem mais anos do que os homens brancos, novamente contrariando a esperada diferença por sexo. É mulher, mas é negra.
Neste trabalho buscou-se analisar o perfil de mortalidade da mulher negra inserindo-se a variável raça enquanto categoria analítica socialmente construída, considerando-se as diferenças por sexo enquanto resultantes das relações de gênero, esta também uma categoria socialmente determinada.
Este estudo filia-se às correntes teóricas que percebem as condições de vida e saúde enquanto resultado das relações de classe, gênero e raça, considerando, assim, que o perfil de mortalidade da mulher negra na cidade de São Paulo só é passível de compreensão se analisado a partir dessa perspectiva.
Óbitos por raça na cidade de São Paulo
O estudo baseia-se em dados quantitativos relativos à caracterização dos óbitos por raça dos residentes no município de São Paulo, em 1995. Trata-se de uma amostra composta pelo Banco de Dados da Fundação Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados, de São Paulo), que totaliza os dados de óbitos dos meses de janeiro, abril, julho e outubro/95. Para essa amostra, a raça heteroatribuída foi obtida através dos dados encontrados nos mapas de óbito enviados pelos cartórios e agregados ao banco de dados original, que não dispunha dessa informação. Obteve-se então um total de 21.663 óbitos. (Ver Tabela 1)

 




Tabela 1 – Número e Percentagem dos Óbitos Segundo a Raça

São Paulo-SP, 1995

Raça


Óbitos



%

branca

14.694

67,8

parda

3.263

15,1

preta

880

4,1

amarela

274

1,3

ignorada

2.552

11,8

Total

21.663

100,0










Fonte: Fundação Seade, 1995.

 
O estudo limita-se aos óbitos identificados como de indivíduos das raças branca, parda e preta, tendo sido estes dois últimos segmentos agregados sob a denominação de “raça negra”. Tal agregação justifica-se dado o contexto histórico das relações raciais no Brasil, principalmente no que diz respeito ao entendimento das complexidades interpostas pelo pensamento – de matriz freyreana – de negação da identidade rumo a uma fuga mística em direção à meta-raça; uma negação que se origina nas condições objetivas que indicam que não ser da raça branca faz diferença. Raça Branca e Raça Negra, o Eu e o Outro, posto que se condicionam e devem sua existência a contextos históricos específicos pautados pela subordinação das diferenças, que se concretizam em desigualdades.
Perfil da mortalidade da mulher negra
Embora ainda sejam poucos, os estudos que trabalham com sexo e raça evidenciam um perfil de saúde mais crítico quando se trata da mulher negra. É o que mostra, por exemplo, o trabalho de Estela Cunha (“Raça: Aspecto esquecido na iniqüidade em saúde no Brasil”, 1997), que constata a sobremortalidade de filhos menores de um ano de mães negras e de mulheres adultas negras em relação às brancas. A mulher negra morre antes.
As condições de existência da população negra não podem ser desvinculadas das análises do seu perfil de saúde. Os fatores macrossociais – instituídos pelas condições históricas, estrutura econômica, política, social, cultural e códigos legais –, permeados pelo racismo e sexismo em distintos contextos históricos, condicionaram a vida da população negra na cidade de São Paulo e criaram também condições adversas que impactam de modo diferenciado o perfil de mortalidade da mulher negra.
As mulheres negras perdem mais anos de vida
A inter-relação classe, gênero e raça compõe o perfil de mortalidade da mulher negra; já o indicador Anos Potenciais de Vida Perdidos possibilita uma leitura mais rigorosa das desigualdades, pela mensuração da prematuridade da ocorrência do óbito, associando as condições e duração da vida em determinado contexto histórico. Neste estudo foi considerada uma duração de 70 anos, cujo limite inferior era igual a 0. As causas de mortes foram codificadas pela Classificação Internacional de Doenças (CID-9ª revisão) da Organização Mundial da Saúde.
O indicador Anos Potenciais de Vida Perdidos por Óbitos (Tabela 2) mostra que, para as mesmas patologias, as vidas negras são subtraídas mais precocemente. Embora esses dados confirmem a leitura recorrente do diferencial por sexo, de que os homens morrem antes que as mulheres – e é preciso ressaltar que, em relação a todas as doenças causadoras de óbitos, os homens negros perdem mais anos de vida do que todos os outros segmentos, não apenas o das mulheres negras –, a mesma não se aplica se compararmos homens brancos e mulheres negras, o que indica ser o racismo o fator patogênico a ser considerado.
A análise dos Anos Potenciais de Vida Perdidos por Óbitos demonstra a diferença entre ser homem ou mulher, ser negra ou branca. De um modo geral, as mulheres negras perdem mais anos de vida do que os homens brancos, com exceção dos casos de doenças das glândulas endócrinas e de óbitos por causas externas, que se assemelham. É mulher, mas é negra.

 



Tabela 2 – Anos Potenciais de Vida Perdidos por Óbitos,

segundo os principais grupos de causas, sexo e raça

São Paulo-SP, 1995







Causas de

Óbito

Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP) por Óbitos

homem branco


mulher branca

homem negro

mulher negra

doenças do aparelho circulatório


7,6


5,4

13,3

10,3

Neoplasias

9,6

10,5

14,3

14,1

causas externas

35,9


30,7

40,1

33,4

doenças do aparelho respiratório


15,2

13,8

26,8

22,3

doenças das glândulas endócrinas


25,9

16,0

29,6

19,8


Total *


19,5

14,4

29,0

20,7


Fonte: Fundação Seade, 1995.


* Incluídos os demais grupos de causas.



A mulher negra morre antes
Já a distribuição dos óbitos por faixa etária (Tabela 3) demonstra que, novamente contrariando o usualmente observado quanto à diferença por sexo – as mulheres morrem mais tarde do que os homens –, o perfil da mulher negra se assemelha ao do homem branco. Dos óbitos ocorridos antes dos 50 anos, 40,7% referem-se a mulheres negras e 39%, a homens brancos. A população branca masculina chega inclusive a superar a proporção de óbitos acima de 55 anos, com 54,6% dos casos, para 52,4% dos óbitos de mulheres negras.
A articulação raça, gênero e classe determina as relações sociais e gesta as condições de vida e saúde; em se tratando da população feminina negra, gesta-as de forma a resultar num perfil mais crítico de saúde, posto que, além da subordinação de classe, tem por sobre si a subordinação de gênero e raça. É mulher e negra.

 


Tabela 3 – Distribuição dos Óbitos por Faixa Etária, segundo raça e sexo

São Paulo-SP, 1995






Faixa Etária

Óbitos


homem branco


mulher branca

homem negro

mulher negra



%



%



%



%

Ignorada

26

0,3

2

0,0

19

0,7

5

0,3

0 a 19

901

10,4

666

11,1

370

13,9

189

12,7

20 a 39

1.588

18,3

458

7,6

910

34,3

224

15,0

40 a 49

891

10,3

423

7,0

392

14,8

194

13,0

50 a 54

527

6,1

265

4,4

173

6,5

97

6,5

55 e +

4.736

54,6

4.211

69,9

790

29,8

780

52,4




Fonte: Fundação Seade, 1995.

 
*  Maria Inês da Silva Barbosa é professora adjunta do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso.


Nota: Elaborado a partir da apresentação realizada pela autora no II Congresso Internacional Mulher, Trabalho e Saúde (Rio de Janeiro, 1999), este artigo resume sua tese de doutoramento, defendida em 1998 sob a orientação da prof. dra. Carmen Vieira de Souza Unglert, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Para maiores informações sobre as referências bibliográficas e dados apresentados neste trabalho, contatar a autora pelo e-mail
Jornal da Rede Feminista de Saúde - nº 23 - Março 2001


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