01 a boa Idéia de Suzana 04 02 a exposição de Flores de Guilherme 05



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22 - JOÃOZINHO E OS FÓSFOROS


Não se pode negar que eu era um rapaz levado, que causava muitos aborrecimentos à mãe. Meu pai, que era pianista, naquele tempo pouco se podia dedicar à educação dos filhos. Eu tinha um prazer especial em brincar com fogo. Quando encontrava uma caixa de fósforos esquecida, logo acendia um pauzinho. Com alegria, contemplava a pequena chama e em seguida lançava fora o fósforo, sem cuidar se ele ainda ardia. Isto eu fiz durante muito tempo, até que uma vez minha mãe chegou a observar e deu um fim repentino ao meu divertimento.

- Espero que você nunca mais pegue numa caixa de fósforos sem licença, disse ela, e ameaçou-me com um severo castigo.

Prometi, todo amor e bondade, e pretendia também cumprir a promessa.

Certa manhã, porém, minha mãe teve de ir à feira. Deixou a nós dois, a mim, Joãozinho, e a irmãzinha que era dois anos mais nova, aos cuidados da empregada recém-chegada ao serviço.

- Joãozinho – ela aconselhou, ainda, ao partir – lembre-se de que Deus pode vê-lo também, quando eu não estou aqui.

Eu prometi ser bonzinho. Mas logo que me senti livre dos olhos vigilantes de mamãe, a velha insolência tomou conta de mim, porque, com a empregada tão nova e quieta, eu não me importava. Nós começamos a correr por todos os compartimentos da casa, eu na frente, e minha irmãzinha, que ainda estava um pouco fraca, atrás de mim.

Em nossa correria doida chegamos ao quarto de nossos pais. Ali, sobre a estufa, uma caixa de fósforos me tentava. Logo tive o desejo de acender um pauzinho. Ao mesmo tempo veio-me à lembrança a severa proibição de mamãe. Eu procurava desviar-me dali. Mas a caixa com a linda etiqueta vermelha parecia estar em todos os cantos do quarto e tentava-me irresistivelmente. Apenas vou ver se há fósforos dentro, eu pensei.

Uma cadeira foi carregada para perto da estufa, pois eu era muito pequeno para alcançar a caixa. Subi na cadeira, enquanto minha irmã olhava admirada. Logo peguei a caixa almejada, com muito gosto. Estava bem cheia de fósforos de cabecinha vermelha. Será que eles também queimavam? Somente um, apenas um, eu queria experimentar. Que bela chama! Era tão linda! Mais uma vez, mais outra. De um fósforo aceso, tornaram-se dois, três, quatro!

- Eu também, eu também, Joãozinho, pedia à pequena que achava bonitos os fósforos inflamados.

Dei um fósforo à irmãzinha; depois lhe estendi a caixa para riscar, sem pensar que estava ensinando a desobediência a ela. Minha irmãzinha não sabia bem riscá-los.

- Dá-me, aqui, tolinha – disse eu, sentindo-me muito superior a ela, e tomei-lhe os fósforos da mão, dando a caixa em troca.

Enquanto eu me esforçava a dar, à criança assustada, o pauzinho aceso, não notei que o meu próprio fósforo chegava debaixo da manga de seu vestidinho vermelho, de lã. Eu ainda não sabia o que acontecera, até que vi a fumaça subir e o fogo aparecer.

Atônito, eu estava ali, olhando como minha irmã corria de um lado ao outro, gritando, e com os braços erguidos. Pelo movimento a chama ficava maior e maior. A pequena gritava quanto podia, de susto e de dor. A empregada veio correndo. Em vez de ajudar, ela ficou parada em nossa frente, sem saber o que fazer. Pôs o avental na frente dos olhos e começou a soluçar.

Neste momento crítico, mamãe apareceu na porta. Na frente da casa ela já tinha ouvido os nossos gritos e, pressentindo o perigo, subiu as escadas quase voando. Pálida, muito pálida mesmo, ela olhava ao redor de si. Mas, num segundo, e ela já sabia qual a situação. Lançou a sacola de verduras a um lado e enrolou a criança chamejante em sua larga saia. Foi num abrir e fechar de olhos. Mamãe apertou a criança contra seu corpo e deste modo conseguiu apagar o fogo.

A irmãzinha estava salva da morte. Mas em que estado ela se achava, eu depois iria saber. Enquanto a mãe cuidava da criança, eu saí, devagarzinho. Na sala de música estava o grande piano de cauda de papai. Em baixo deste eu me escondi, como fazia sempre que alguém estivesse zangado comigo. No cantinho mais escuro fiquei para esperar a tormenta passar.

Depois de algum tempo ouvi os passos de mamãe e logo sua voz chamando: - Joãozinho, onde você está?

Agora não adiantava mais me esconder. Eu tinha de sair e sabia que seria castigado. Olhava com medo para o grande espelho atrás do qual era guardada a vara. Oh, se mamãe a tivesse tirado e dado o castigo merecido! Até as piores varadas eu teria esquecido logo. Mas o que aconteceu então nunca mais esquecerei.

Venha comigo – disse mamãe com uma voz triste, e levou-me ao lado da caminha da irmã.

23 - MÃE DE VERDADE


A história que passo a contar é verídica.

O bonito subúrbio londrino perdera a sua paz. A população toda estava calma, mas o perigo era eminente!

A guerra mostrando-lhe seu horror, ameaçava destruí-la.

- Preciso mesmo partir, mãezinha?

O coração da pobre mãe apertou-se ainda mais ao ouvir estas palavras e ao olhar para Guilherme, o filhinho de seis anos, cuja pele era tão negra como a de seus pais.

Os cinco anos que passara na Inglaterra pacífica, longe do calor dos trópicos, não conseguiram tornar branca aquela epiderme macia. O pequenino se considerava diferente e inferior às demais crianças, quem sabe se porque estas, sem coração, lhe houvessem feito sentir a diferença de cor.

Havia chegado o momento em que as crianças tinham de ser enviadas para longe de seus pais, deixando a cidade ameaçada, para que suas vidas, fossem salvas.

Guilherme devia partir para talvez nunca mais se reunir à mamãe e ao papai, para os quais era tudo!

- Mamãe! Sou preto! Ninguém me há de querer! Deixa-me ficar aqui!

A infeliz mãe tomou-o em seus joelhos e disse carinhosamente:

- Filhinho! Tens de partir! Teu pai é agora soldado e eu sou enfermeira! Tua vida tem de ser guardada para que também um dia possas ser útil... O nosso Deus vai achar para Guilherme um outro lar e uma nova mãe! –

Sua voz não tremia diante do sacrifício!... Seu filho ia ter uma nova mãe!... Ela própria iria substituir outras mães nos hospitais de sangue! O filho que tanto amava ia deixá-la... Não mais escutaria a sua vozinha meiga, não mais receberia os seus beijos... Mas, que importava o seu sofrimento, a saudade que sentiria, desde que a vida do filho amado fosse salva!

- Filhinho, não te esqueças de Jesus!

Ora diariamente e pede a Ele que te guarde!

- Devo então partir mesmo e sozinho... Ninguém quererá receber um pretinho... O que devo fazer?

A resposta foi dada pelo pai de Guilherme que entrou na sala com um envelope na mão.

- Vou colocar este envelope no forro do teu paletozinho, meu filho. Não dirás a ninguém que está ali. Quando chegares ao teu destino verás que muitas pessoas irão receber as crianças e levá-las para as suas casas.

Espera que uma senhora sorria ao olhar para o teu rosto, sem recuar por ver que és um pretinho. Se ela disser que te vai levar consigo, pergunta-lhe: “A senhora tem certeza de que me quer?”.

Poderás ler a resposta em seus olhos e, se neles vires amor e carinho, segue-a e seja para ela um bom filho!

O menino seguiu, pois, com centenas de outras crianças, para um futuro desconhecido!

A notícia da chegada dos pequenos fugitivos se espalhara e a estação se enchera de senhoras que se prontificavam a adotá-los.

Em uma casa pequenina daquela cidade, uma senhora, vestida de luto, terminava o arranjo do modesto interior.

“Irei buscar um menino, dizia. Sou agora muito pobre! Meu marido e meus filhos dei-os à Pátria e entreguei-os a Deus! Estou só, mas com o meu trabalho sustentarei o novo filho que Deus me proporcionar”.

“Amá-lo-ei e seremos ainda felizes”.

O coração desta mãe havia também sofrido.

Seu marido e seus dois filhos fizeram-se aviadores e haviam morrido.

O seu amor materno, entretanto, não morrera: porque havia amado seus filhos amaria agora o menino – afastado de sua mãe – que iria trazer para casa.

A bondosa senhora começou a sua escolha, difícil, pois todos os rostinhos tristes e assustados que lhe via causavam piedade e tocavam as suas fibras maternais.

Parou afinal junto do pretinho gordo e bem tratado, que a olhava com meiguice e receio.

Os olhares de ambos se encontraram e Guilherme viu a ternura que procurava. Quando a senhora estendeu-lhe a mão, a criança perguntou:

- Minha senhora, está bem certa de que me quer? Sou pretinho!

Havia naquela vozinha um misto de meiguice, de pavor, de ansiedade e de desejo intenso de amor! Como aquelas palavras ecoaram e caíram bem no coração daquela mãe sem filho!

- Sim, meu filho, bem certa! A tua alma é tão branca como a de meus filhos! Vem! Educar-te-ei e amar-te-ei como se fosses meu!

À noite, depois de haver deitado o novo filho em sua própria cama e de haver orado com ele pelos pais que haviam ficado tão longe, a boa senhora foi dobrar as roupinhas que lhe despira. Com surpresa sentiu que havia alguma coisa no forro do paletó.

Retirando o envelope achou nele algumas notas de cem cruzeiros e o seguinte bilhete:

“Que Deus a recompense, minha senhora, e permita que no nosso Guilherme encontre um filho obediente, dócil e amoroso. Enviamos isto para as despesas do nosso querido, que entregamos nas mãos de Jesus”.

Logo enviaremos mais.

Muito gratos por sua hospitalidade e pelo carinho que der ao pequenino!

Minha esposa esquece seu sofrimento e a dor de ver partir o filho, a quem ama acima de tudo neste mundo, quando pensa que o seu sacrifício significa a salvação de uma vida que mais tarde poderá ser útil a Deus e aos homens.

Partirá amanhã para ser a mãe carinhosa de muitos que, em seus leitos de dor, estarão privados do amor materno.

Lágrimas quentes rolaram por suas faces tornadas pálidas e magras pelo sofrimento e, mesmo de longe, os dois corações maternos se entrelaçaram e se irmanaram no sentimento de amor, de dedicação e de esquecimento do seu eu.

Quando vocês se prepararem para festejar o “Dia das Mães” tenham em mente que não é apenas nesse dia especial que podem e devem lembrar-se do amor de que são cercados.

É preciso que em cada dia do ano os filhos honrem, amem e mostrem que amam as suas mamães e que se lembrem igualmente que seus papais merecem o mesmo carinho!

“Honrarás a teu pai e a tua mãe”, eis a ordem do Senhor nosso Deus.





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