1: Apreciações contrastantes: Camões e Luís de Granada José Eduardo Franco



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Os Jesuítas em Questão1:

Apreciações contrastantes: Camões e Luís de Granada

José Eduardo Franco2
“Bem se sabe que o estilo de Deus Nosso Senhor é fazer doces as águas com sal e alumiar os olhos com o barro e sarar as chagas com massa de figos e multiplicar os filhos de Israel com as perseguições do Faraó e o povo cristão com as perseguições dos tiranos. Antes, a sua mais comum maneira de proceder é usar meios dos adversários para fazer os seus feitos, como usou a venda de José com a qual os seus irmãos queriam desfazer os seus sonhos. E assim parece que nisto há-de vir a consumar-se esta nova contradição. Ainda que estejam a abatê-los, Deus permitirá que [os Jesuítas] andem mais humildes, mais religiosos, mais exemplares, mais prudentes e mais devotos e melhor acreditados no mundo”.
Frei Luís de Granada

Resumo:No século de Camões, os Jesuítas apareceram como uma ordem dinâmica com características e metodologias missionárias inovadoras. A ascensão fulgurante da Ordem de Santo Inácio deu origem a apreciações contrastantes em torno do perfil, dos fins e dos modos de acção da Companhia Jesus. Este artigo pretende problematizar o significado da emergência do antijesuitismo no século XVI e analisar, em destaque, dois posicionamentos afirmados por duas figuras da intelectualidade e da espiritualidade ibérica: Luís Camões e Luís de Granada. Palavras-Chaves: Jesuítas, Antijesuitismo, Mito, Luís de Camões, Luís de Granada, Dominicanos.

Abstract: In Camões Century, the Jesuits emerge as a new dynamic religious order with missionary characteristics e methodologies revolutionary. The fulgurate rising of Saint Ignacio’s Order give birth to contrasting appreciations round the profile, aims e modes of proceeding of the Society of Jesus. This article pretends to bring up the issue of the meaning that ant Jesuitism emergence had in the Sixteen Century and analyse two leading positions firmed by two figures of Iberian intellectuality and spirituality: Luís de Camões and Luís de Granada. Key-words: Jesuits, ant Jesuitism, Myth, Luís de Camões, Luís de Granada, Dominicanes.
Considerações preliminares
As ordens religiosas constituíram na modernidade um dos pólos de polémica mais apetecidos dentro e fora da Igreja. A Ordem de Santo Inácio foi uma dessas ordens que mais polémicas suscitaram desde o momento da sua fundação em 1640.

A implantação da Companhia de Jesus na Europa como em Portugal foi alvo, desde a sua génese, do desenvolvimento de um verdadeiro movimento de crítica e de oposição à natureza e aos modos de acção desta nova ordem religiosa. Se neste processo de contestação antijesuítica, vários dominicanos desempenharam um papel muito activo, tornando-se referência inspiradora do antijesuitismo internacional, também não faltaram outros Frades Pregadores que, com a mesma intensidade, entraram em cena para defender e apoiar o projecto espiritual e de apostolado da Ordem de Inácio de Loyola.

Mas, de facto, mais célebres ficaram os dominicanos detractores dos Jesuítas (o que levou imprecisamente à sedimentação da imagem de que toda a Ordem de São Domingos era geralmente hostil à Ordem de Santo Inácio, sendo a sua principal concorrente dentro da Igreja em todos os espaços da sua intervenção pastoral) do que aqueles Filhos de São Domingos que lhe manifestaram simpatia e lhe ofereceram o seu auxílio. A expansão fulgurante da Companhia de Jesus na Época Moderna gerou duas correntes de longa duração que se antagonizaram desde o seu nascimento na apreciação da natureza e modus procedendi desta ordem religiosa. Com efeito, esta ordem despoletou tanto o filojesuitismo mais devoto, como o antijesuitismo mais hostil dentro e fora da Igreja Católica. Ambas estas correntes surgiram primeiramente no seio da própria Igreja e ambas se tornaram transversais às diferentes instituições eclesiais3.
Críticas dos Dominicanos aos Jesuítas
Um dos pioneiros mais destacados do antijesuitismo católico foi o dominicano espanhol Melchior Cano. A propaganda antijesuítica deste eminente teólogo e futuro bispo de Canárias, tanto no Concílio de Trento como em Salamanca e Valladolid tiveram uma enorme repercussão. Ele inaugurou a primeira grande etapa histórica de hostilidade aos Padres da Companhia, fase que denominamos de antijesuitismo institucional. Frei Melchior Cano4 revelou-se um antijesuíta militante e obsessivo. Este dominicano representava uma corrente conservadora que procurava garantir um certo imobilismo na orgânica estrutural e funcional da vida religiosa clássica, que o ideário e as novidades organizacionais consagradas na aprovação pelo Papal Paulo III (em 1540) da nova Ordem dos Jesuítas faziam estremecer e pareciam por em causa in extremis.

A Companhia de Jesus entrou em Espanha cinco anos depois de ter chegado a Portugal logo em 1540. A chegada dos Inacianos ao país vizinho foi facilitada por uma carta de apresentação do Rei de Portugal, D. João III, levada, no dia 17 de Março de 1545, à corte de Filipe II pelos Jesuítas António Araoz e Pedro Fabre. Nesta altura já pululava muita confusão a respeito da denominação dos Padres Jesuítas e da natureza da sua ordem. Conta o Pe. Araoz que «alguns nos chamam os iniguistas, outros papistas, outros apóstolos, outros teatinos e reformados»5. Mas mais grave do que esta confusão foi o embate crítico que algumas personalidades célebres protagonizaram. Embora os Jesuítas tivessem angariado a simpatia de importantes personalidades da cena sociopolítica do tempo, como foi o caso, desde logo, do Duque de Gandia, os opositores que se levantam contra eles não foram de menos peso, como foi o caso de Juan Martinez Siliceo, recém-nomeado arcebispo de Toledo e Primaz de Espanha, que desconfiava destes apóstolos, chegando ao ponto de qualificá-los de heréticos e de emitir uma proibição que os impedia de pregar e administrar os sacramentos na sua diocese.

Em Espanha e em Portugal, como um pouco por todo o lado, os Padres da Companhia, encontram tanto os seus melhores recomendadores como os seus mais apaixonados e radicais opositores. Por exemplo, se em Saragoça, receberam o apoio sincero do prior dos Dominicanos, tiveram como críticos mais acérrimos uma série de religiosos de hábito carmelita, franciscano e agostinho, acrescendo ainda neste rol alguns membros do clero secular.

Mas foi em Salamanca que os Jesuítas sofreram o pior revés até então experimentado. O cardeal Francisco de Mendonza, Bispo da Cúria, insistiu muito com o fundador dos Jesuítas para que promovesse a abertura de um colégio da Companhia junto da mais antiga universidade de Espanha. Foi precisamente aqui onde os educadores jesuítas foram mais mal recebidos em toda a Península Ibérica, tendo sido a oposição liderada por Melchior Cano que alimentava a convicção de que estes auto-denominados companheiros de Jesus eram sim os verdadeiros precursores do Anticristo. Este teólogo dominicano lançou a suspeita sobre o comportamento sócio-pastoral dos iniguistas, duvidou da autenticidade do seu Instituto enquanto ordem religiosa, questionou severamente a ortodoxia da sua doutrina, como já tinha feito em Trento atacando Laynez6. Frei Cano pregou na Quaresma de 1548 um virulento sermão de sabor apocalíptico no púlpito da universidade. Temendo, de forma delirante, a aproximação do fim dos tempos, elege como uma das pragas da Cristandade a visão curta de alguns prelados que, com o intuito mesquinho de agradar a algumas almas piedosas, davam a sua caução para o estabelecimento de novas ordens que não observavam normas rígidas à maneira tradicional. E concretiza, visando directamente o girofilismo dos Jesuítas, vituperando as ordens cujos membros andam para a frente e para trás nas ruas como qualquer pessoa. Ordens que albergavam pessoas relaxadas, que não trabalhavam, que não eram intransigentes, que não procuravam a mortificação do corpo, que procuravam permissão para dizerem as suas orações à margem do Breviário Romano7. Acrescenta a estas invectivas a acusação de hipocrisia e lança um aviso profético, em que afirma condicionalmente que se estes homens continuassem a ser tolerados, tudo o que era sagrado seria arruinado, enfeitiçado, desacreditado e conduzido até às portas do inferno pelos Jesuítas. Além disto, insinuou gravemente uma suspeita moral contra estes, ao referir-se maliciosamente àqueles homens que « tiram prazer das conversas familiares com as mulheres e vão frequentemente à casa delas com o pretexto de convertê-las, de ajudá-las e orientá-las para uma vida mais perfeita»8.

Estas críticas gravíssimas lançadas contra os Jesuítas, inscrevem-se num dos paradigmas mais extremos que tipificaram as diversas acusações feitas contra a Ordem: o paradigma apocalíptico. O uso de figuras simbólicas do último livro da Bíblia, interpretadas normalmente para anunciar a chegada do fim dos tempos e das catástrofes a este inerentes que afectariam a Igreja e a Humanidade em geral, tempo escatológico que deveria ser precedido por uma degeneração moral dos homens e das instituições sem precedentes9.
O antijesuitismo velado de Camões
Na década de 70 do século XVI a Companhia de Jesus estava plenamente implementada em Portugal e as suas estruturas organizativas e formativas já estavam habilitadas a preparar e enviar regularmente missionários para os principais pontos do império ultramarino português. Na metrópole tinham alargado de forma significativa o número das suas casas, residências, colégios e obras de assistência. Na corte exerciam uma importante influência religiosa com inevitável ascendência sobre os destinos políticos do reino, decorrente da estima que granjearam da parte da família real. Dois irmãos de sangue, Martim da Câmara e o jesuíta Luís da Câmara tornaram-se perceptores do rei D. Sebastião (1557-1578)10. Esta consolidação de um posicionamento privilegiado da Companhia junto de poder político contribuiu para acentuar a crítica a esta ascensão dos Jesuítas na esfera eclesial e política portuguesa, com a agravante da situação social, económica e administrativa do reino e do ultramar revelar sintomas crescentes de crise.

Neste contexto, são de destacar as censuras, ainda que veladas de algum modo porque não é apontado directamente o nome dos Jesuítas, do grande épico da literatura portuguesa moderna, Luís de Camões11. As suas alfinetadas que ficaram patentes em algumas instâncias d’Os Lusíadas (a grande obra épica da cultura portuguesa que canta a era dourada dos Descobrimentos, editada já na fase crepuscular daquela gesta portuguesa, no ano de 1572) podem ser reveladoras de uma opinião desfavorável que emergia em alguns sectores intelectuais, religiosos e políticos metropolitanos e ultramarinos. Ainda que tenha sido controversa, na história crítica da literatura portuguesa, o reconhecimento da aplicação destas passagens crítica aos Jesuítas12, nós perfilhamos a hipótese que considera serem aqui visados os religiosos da Companhia de Jesus, na linha do que defendem especialistas como António José Saraiva13. Pensamos estar perante um caso emblemático de manifestação de antijesuitismo, perscrutável nos silêncios, ausências e omissões da literatura e da história. Com efeito, o objectivo desta dissertação não é tanto o estudo da realidade dos Jesuítas em si-mesma (Ding an dich, a coisa em si, de acordo com a terminologia kantiana), mas é mais a forma como ela foi sendo percepcionada pelos seus críticos e adversários, tanto nas apreciações directas como nos silêncios dos textos.

Não deixando, desde logo, de ser estranho que o poeta ao cantar o extraordinário contributo de Portugal para que o mundo «Conheça pela armas quanto excede/A Lei de Cristo à lei de Mafamede», tenha omitido qualquer referência à notória acção dos missionários Jesuítas no Oriente que conhecia muito bem, em particular a obra de evangelização de grande visibilidade operada por Francisco Xavier que falecera com fama de santidade em 155214. Este célebre jesuíta tinha sido sepultado em Goa com aparatosas honras públicas, cidade em que Camões residia naquele tempo. Nesta omissão possivelmente intencional, não será totalmente injustificado apontar alguma menor simpatia pelos missionários Jesuítas, tanto mais que à acção lendária do Apóstolo São Tomé na Índia dedica um número desmesurado, no quadro da economia da sua obra épica, de onze estrofes. E antes em várias estrofes de alguns cantos não deixa de tecer críticas magoadas que muito provavelmente visam os, então, bem posicionados Padres Jesuítas, também enquadradas no âmbito de uma crítica mais geral aos sintomas de crise e de afrouxamento da vitalidade que fez a grandeza do império português:
«E vós outros que os nomes usurpais15

De mandados de Deus, como Tomé,

Dizei: se sois mandados, como estais

Sem irdes a pregar a Santa Fé?

Olhai, que, se sois sal e vos danais

Na pátria, onde profeta ninguém é,

Com que se salgarão, em nossos dias,

(Infiéis deixo) tantas heresias?”16


O poeta indicia aqui um dos tópicos que se tornarão característicos da argumentação que estruturará o mito jesuíta. A usurpação dos nomes, que nesta versão plural pode englobar o nome de Jesus dado à Companhia, e o nome de Apóstolos17 («mandados de Deus»), por que eram vulgarmente conhecidos. Os Jesuítas que tinham vindo para o reino com o objectivo fundamental de se dedicarem ao trabalho missionário no ultramar, estavam implantados de forma já muito visível na «Pátria onde profeta ninguém é», apesar de estarem a desenvolver simultaneamente uma importante actividade missionária ad gentes. Talvez a desilusão perante o estado debilitado o império e de um certo obnubilamento da antiga glória da corte portuguesa, sobre a qual pairavam algumas nuvens de incerteza, tenha desencadeado estas censuras aos membros de uma Ordem que, em poucos anos, tinham alcançado uma influência extraordinária na sociedade e na cabeça da monarquia. Camões disfere nos últimos versos da estrofe 85 do canto VII uma invectiva contundente aos conselheiros reais, onde estavam englobados certamente os Jesuítas (os irmãos Martim e Luís Câmara), na referência ao «hábito honesto e grave»:

«Nem, Camenas, também cuideis que cante

Quem, com hábito honesto e grave, veio,

Por contentar o rei no ofício novo,

A despir e roubar o próprio povo»18.
Esta invectiva é complementada com a denúncia da ambição encoberta sob «um pobre e humilde manto» que dificilmente deixará neste caso de ser o de religioso:
«Nem tão pouco direi que tome tanto

Em grosso a consciência limpa e certa,

Que se enleve num pobre e humilde manto,

Onde a ambição acaso anda encoberta”19.


O rei D. Sebastião era um monarca muito jovem, adolescente ainda, em quem o povo português depositava uma forte esperança política, depois de uma sucessão de mortes de herdeiros legítimos, os vários filhos de D. João III. Portugal depositava neste rei a expectativa de salvaguarda da independência do reino e do regresso das gestas gloriosas do passado recente. Donde a preocupação bem patente com a saúde, a educação e o casamento do rei, cujas negociações se prorrogaram indefinidamente20. D. Sebastião, a quem Camões21 via como um dom de Deus para o reino, começa a governar Portugal aos 14 anos, no ano de 1568. As apreciações do poeta não deixam de fazer transparecer as intrigas que fervilhavam entre os conselheiros para obter a primazia em termos de influência, a que nos referiremos mais pormenorizadamente no próximo capítulo. Neste contexto, Camões certamente deixa transparecer a opinião antijesuítica de então, em especial nestes versos que aponta contra «aqueles que devem à pobreza/Amor divino»:

«Vê que aqueles que devem à pobreza

Amor divino, e ao povo caridade

Amam somente mandos e riqueza

Simulando justiça e integridade

Da feia tirania e da aspereza

Fazem direito e vã severidade.

Leis em favor do povo só perecem»22.


Numa conjuntura difícil, em que um rei inexperiente e pouco firme estava no seu poder, estas críticas denotam o sentimento público perante um monarca fraco, em que os conselheiros têm o papel mais relevante. Se o autor, como nos parece de facto, faz eco das polémicas antijesuíticas e visa os Padres da Companhia nestes versos épicos, estes constituem um forte sintoma de que o antijesuitismo começa a ganhar expressão cultural23, resvalando já para acentuar um dos seus temas que serão dos mais privilegiados e mais glosados, a demanda jesuítica de poder político e económico. E assim temos aqui consubstanciado literariamente uma primeira avaliação da Companhia típica comparativamente àquelas que se verificavam no antijesuitismo internacional. Luís de Camões denuncia a ambição encapotada de poder e cobiça de riqueza, a hipocrisia moral e a bajulação dos poderosos, a austeridade de governo e a opressão da população. Cada vez mais se hão-de encontrar o desenvolvimento destes tópicos estruturantes da difusão da imagem negra da Companhia de Jesus pelo movimento antijesuítico que crescia em espiral. O que é, portanto, pertinente é que constatamos, nestas estrofes camonianas, a presença condensada das grandes invectivas que estruturarão a imagem mítica dos Jesuítas.
Frei Luís de Granada: devoto e defensor dos Jesuítas

Se Melchior Cano ficou na história como o paradigma do dominicano antijesuíta militante, nas suas antípodas devemos situar um não menos célebre e influente filho de São Domingos, Frei Luís de Granada (1504-1588)24 que se revelou um simpatizante e promotor da expansão da Companhia de Jesus em Portugal.

Ao apoio, que se veio a revelar incondicional manifestado por Luís de Granada à afirmação dos Jesuítas mais sensivelmente no final da década de 40 do século XVI, não são alheias preocupações espirituais, pastorais comuns a ambas as partes, na linha da aposta do incremento da piedade individual a partir do ângulo de uma transformação profunda do coração e da conversão do homem a partir da sua interioridade mais funda. A perspectiva da reforma da Igreja deste dominicano coincidia com a corrente que pugnava pela renovação do catolicismo, da qual Inácio de Loyola se tornou um dos mais activos e influentes representantes. O seu método de incremento da piedade cristã proposto na sua obra intitulada Exercícios Espirituais25 tornou-se um paradigma da nova espiritualidade reformista tridentina e pós-tridentina, com um forte acento individualizante.

Na esteira da chamada Devotio Moderna, o fundador dos Jesuítas propõe nesta obra26, que servirá de manual fundamental de preparação espiritual para os membros da Companhia de Jesus e para os seus círculos de influência, um caminho de aperfeiçoamento interior de forte pendor cristológico. Através da meditação contemplativa dos mistérios da vida de Jesus Cristo, nomeadamente os passos da sua paixão, morte e ressurreição, através da oração mental nas suas várias etapas, pretendia-se realizar uma operação de movimento interior que conduzisse a vontade do homem ao encontro da vontade de Deus. Estimulava-se o exercício da razão para promover o entendimento das verdades da fé, e, paralelamente, incrementava-se o exercício da imaginação para despertar afectos e direccioná-los para a contemplação da humanidade e divindade de Cristo, de modo a recentrar a existência no labor pelo amor e pela maior glória de Deus.

Estas linhas fortes da espiritualidade inaciana podemos ver espelhadas de algum modo nos escritos espirituais de Frei Luís de Granada, o homem da “espiritualidade interior”, mormente no Libro de la oración y meditación27, que se revelaram, segundo afere Silva Dias, “índices preciosos de Orientação seguida pelo pietismo português”28.

Uma das primeiras facetas e façanhas conhecidas da relação de Luís de Granada com a Companhia pode verificar-se nos posicionamentos apologéticos deste dominicano contra a onda de contestação à natureza e à pastoral dos jovens jesuítas liderada por importantes seus confrades em Espanha. A correspondência trocada com figuras de topo do governo dos Jesuítas, nomeadamente com Inácio de Loyola, permite-nos surpreender o parecer de Granada sobre a perseguição propagandística de que os Jesuítas estavam a ser alvo. Precioso testemunho dos sentimentos de Granada é a carta de 1556 escrita para manifestar aos responsáveis da Companhia a sua discordância em relação às denúncias cerradas que Melchior Cano29 e seus apaniguados dominicanos estavam a lançar contra os inacianos recém instalados em Valladolid. Frei Luís de Granada procura animar os Padres da Companhia, colocando em paralelo estas perseguições com aquelas que tinham sofrido os primeiros cristãos. Assim como eles, os Jesuítas deveriam suportar humildemente e com paciência estas vicissitudes, pois na sua perseverança Deus iria timbrar com o selo da perenidade esta obra que seria sua. E este era o modo de proceder divino para com os seus seguidores mais queridos, tal como aconteceu com diversos casos paradigmáticos narrados nas Sagradas Escrituras. E propõe esta meditação como graça de encorajamento: “Porque assim como com louvores, quando não são demasiados, cresce a virtude, assim também com as tribulações desenvolve-se a fortaleza. Alegre-se V. R. pelo facto da Companhia proceder da mesma forma que a primitiva Igreja; e o que será de Roma quando lhe faltar Cartago!”

Depois desta legitimação retórica da Ordem de Santo Inácio reconhecida como obra de Deus através do estabelecimento de um paralelismo com o modelo arquétipo configurado nas comunidades cristãs primitivas, Luís de Granada manifesta o desejo de que o Santo Ofício deveria agir contra os caluniadores da Companhia: “E não teria por inconveniente que por parte do Conselho da Inquisição se colocasse em silêncio a pessoa que escandaliza o povo, criticando um instituo aprovado pela Igreja e apelidando de Anticristo a quem não pode provar que sejam hereges, pois tais haviam de ser os que esse nome mereciam”30.

Esta defesa é feita em sintonia plena com a opinião de um outro seu célebre homem de Igreja do seu tempo, mestre e amigo de Granada, São João de Ávila, conhecido pelo cognome de Apóstolo de Andaluzia. Este grande pregador escreveu também por essa altura a D. António de Córdoba para dilucidar objecções levantadas sobre a Companhia devido à má fama que se espalhava contra esta em Salamanca: “As objecções que Vossa Mercê me escreve colocadas por algumas pessoas me parecem muito fracas; mas não vejo por que razão digam que não conhecem que regra nem que ordem seguem, sendo notório que estudam nas universidades e rezam e doutrinam a grandes e pequenos indiferentemente, e têm vida tão sem segurança nem haveres, que parecem terem grande claridade e, por isso, grande verdade. Não os diminui o facto de serem gente nova, porque se isto bastara para condenar, quantas coisas boas já teriam sido condenadas?”31

Além do título de defensor da Companhia de Jesus, Frei Luís de Granada merece o título justo de seu recomendador, e um dos mais valiosos que muito contribuiu para facilitar o processo de expansão e de credibilização dos Jesuítas junto das elites do poder e da cultura em Portugal. Merece especial destaque o papel influente deste dominicano muito ouvido e respeitado junto do Cardeal Infante D. Henrique para permitir a fixação dos Jesuítas em Évora e a colocação da Companhia à cabeça do colégio que se veio a denominar Colégio do Espírito Santo, que o Cardeal tinha mandado começar a edificar na capital da sua diocese eborense. Como encarece o historiador jesuíta Francisco Rodrigues, sempre com adjectivos encomiásticos à vida e à figura de Granada, “para esta determinação não pouco valeram com o cardeal as palavras amigas do santo dominicano Frei Luís de Granada que desde aqueles princípios se mostrou extremamente afeiçoado à Companhia e abertamente confessava que não diferia de seus religiosos, senão no hábito”32. Em Évora, Frei Luís acompanhou o desenvolvimento do ensino dos Jesuítas no colégio e na Universidade, marcando presença nas celebrações importantes e aceitando pregar em dias festivos na capela dos Jesuítas.

Certamente este pregador dominicano teve um papel de fundo na mudança de opinião do Cardeal Infante em relação à Ordem de Santo Inácio, ao ter passado de uma atitude cultivada de relutante suspeita para uma posição de total apoio. Esta que foi uma das maiores figuras da Igreja portuguesa de Quinhentos, tornou-se depois de D. João III, um dos maiores patrocinadores de sempre dos Jesuítas. A influência de Granada na transformação dos sentimentos de D. Henrique é, aliás, claramente reconhecida pelo primeiro cronista da Companhia em Portugal, Baltazar Teles, que salienta a acção deste provincial dos Dominicanos, em paralelo com a do Infante D. Luís, no sentido de esbater as dúvidas e até a aversão votada pelo futuro cardeal-rei na primeira década da presença dos Jesuítas em terras lusitanas. Convencido por estas influentes figuras e pela evidência assinalada dos frutos da acção missionária, educativa e espiritual dos Jesuítas, “deu por mui satisfeito dos procedimentos da Companhia, mas tratou logo de a ter junto de si para consolação sua e ajuda espiritual: de suas ovelhas, dando-lhe colégio magnífico com rendas e rendendo-lhe o coração tributário com amor”33. A Companhia de Jesus, pela boca deste seu cronista, sente-se profundamente agradecida a Frei Luís, pois ele não só apoiou como fez muito para modificar a opinião negativa do Cardeal Infante e com ele de outras pessoas importantes do seu tempo em relação a esta ordem: “Ajudou também muito a mudar pensamentos sinistros, que de nós tinham a santa conversação e boas advertências, que neste particular lhe dava o mui religioso Padre Frei Luís de Granada, da sagrada Ordem dos Pregadores, a quem devemos eternas obrigações”34.

Luís de Granada assumiu a refutação de alguns detractores dos Jesuítas que os diminuíam pelo facto de muitos jovens formados nos seus colégios terem optado por seguir vida regular noutras ordens religiosas que não a Companhia. Considera este dominicano que este resultado não deve ser objecto de depreciação mas de encómio, na medida em que é vantagem para a Igreja: “ainda que a Companhia não fizesse outro serviço a Nosso Senhor senão povoar as ordens religiosas de pessoas de espírito e letras, era muito assinalado o serviço que lhe fazia”35.

Luís de Granada desempenhou um papel pacificador em outros conflitos e disputas que envolveram a Companhia de Jesus. Merece especial destaque o seu aconselhamento junto da corte para resolver o diferendo entre a Universidade de Coimbra e o Colégio das Artes em torno do provimento económico deste por aquela instituição académica36.

Por seu lado, com os Jesuítas Luís de Granada trabalhou concertadamente para procurar a pacificação das relações encrespadas entre elementos da família real na corte portuguesa, a saber, entre a rainha D. Catarina. D. Henrique e D. Sebastião37.

Aliás, a partir da década de 50 deparamo-nos com uma crescente proximidade e convivência mútua entre Granada e alguns Padres e comunidades da Companhia. Podemos constatar isto mesmo nos testemunhos documentais e também na admiração e apoio recíproco. Ele de facto trabalhou em conjunto com alguns jesuítas ao serviço da Corte e da Igreja. Podemos destacar a título de exemplo a intervenção pedida a Luís de Granada para o aperfeiçoamento de alguns manuais manuscritos usados pelos Jesuítas na catequese das crianças, os quais tinham sido elaborados de acordo com o método divulgado pelo Padre Pedro Parra da Província de Aragão. Esta metodologia simples tinha a peculiaridade de convidar as crianças pelas ruas para a aprendizagem da doutrina com uma campainha e organizá-las em procissão e encaminhá-las para a igreja ao som de cânticos. Na igreja eram-lhes ministrada a doutrina através do recurso ao método dialogal com perguntas e respostas simples entre o mestre e os meninos38. Estas estratégias catequéticas foram objecto de crítica por parte de alguns eclesiásticos por suspeita de incorrecções doutrinais, tanto mais que não tinham sido apresentadas aos bispos e ao Inquisidor Geral para a obtenção das devidas outorgações e aprovações. A fim de calar os críticos, os Jesuítas procuraram emendar este método naquilo que ele poderia induzir em suspeita, com a ajuda “da autoridade e ciência de Frei Luís de Granada”39.

O devotado afecto de Luís de Granada pela Companhia de Jesus não deixa de causar espanto aos próprios Jesuítas e de ser devidamente assinalado por eles como um caso notável, dado que estes contavam entre os seus principais adversários dentro da Igreja vários dominicanos importantes. Logo em 1551, pesando o já referido apoio oferecido por este dominicano com fama de santidade à implantação dos Jesuítas em Évora, o Pe. Melchior Carneiro, responsável da comunidade instaladora dos inacianos naquela cidade, evidenciou numa carta dirigida ao seu Superior Geral, Inácio de Loyola, o facto de Frei Luís “amar muito a Companhia”, justificando esta enfatizada admiração, por ser caso singular e raro, com este aposto adversativo: “ainda que frade de São Domingos”40.

Efectivamente Luís de Granada mostrou razões de sobra para merecer os títulos de admirador, defensor e recomendador indefectível da Companhia de Jesus, a quem esta muito deveu para garantir a sua afirmação no primeiro século da sua implantação em Portugal. Até mesmo chegou a revelar-se um bom encaminhador de vocações para as filheiras da Ordem de Santo Inácio, como se pode depreender em alguma da sua correspondência que chegou até nós41.

Pois, para além de tudo isto, aquele respeitado dominicano já na sua velhice escreveu, em 1581, ao conhecido secretário de Inácio de Loyola, o Pe. Pedro de Ribadeneyra, exaltando os bons resultados apostólicos conseguidos pelos Jesuítas em várias partes do globo, e vendo em tal sucesso o sinal de que esta ordem jovem era abençoada e querida por Deus. Aqui podemos subentender uma espécie de regozijo pelo acerto de Frei Luís na aposta que fez com o patrocínio dado intensivamente a esta Ordem tão contestada desde o seu nascimento: “Foi para mim mui grande caridade e consolação receber carta de quem há quarenta e um anos que está na Companhia, por parecer tão antigo como ela, e assim terá as coroas de Nosso Senhor: uma de sua pessoa; e outra de ter ajudado a fundar uma ordem que expandit palmites suas usque ad mare et usque ad flumen propagines eius. E alegra-se ainda mais com a notícia da redacção, por parte do seu correspondente jesuíta, da biografia de Inácio de Loyola, que seria publicada dois anos mais tarde42, em quem vê o merecimento da santidade do Fundador em tão copiosos frutos: “Folgo muito que ponha Vossa Reverência em língua comum a vida de seu Padre, e há dias que desejava isto, para que se conhecesse a traça e a ordem das obras de Deus, a qual se viu na da Companhia, a qual de tão humildes princípios e tantas contradições chegou em pouco tempo ao cume em que a pôs Deus, o autor e fautor da Companhia, porque desta maneira crescem as coisas em que ele põe as suas mãos”.

Granada, em plena comunhão de sentimentos com os Jesuítas, faz assim a confirmação da inspiração divina pela averiguação das obras apostólicas o projecto da Companhia de Jesus. Canoniza assim os criadores e os apóstolos desta Ordem, colocando-os no podium exemplar dos primeiros cristãos, que os grandes mentores da reforma católica e protestante moderna tomavam habitualmente por modelo inspirador para obra de renovação do cristianismo. Há claramente uma preocupação de afirmar o valor, a legitimidade e o sucesso do projecto dos Jesuítas perante o movimento antijesuítico. De facto, o antijesuitismo continuava a crescer ruidosamente por toda a Europa dentro e fora da Igreja manifestando desconfiança e justificando o sucesso fulgurante da Companhia com razões menos nobres e menos divinas. Este dominicano continua na mesma epístola dirigida ao biógrafo de Santo Inácio, defendendo que a vida do Fundador dos Jesuítas ultrapassou em feitos e sacrifícios outros homens célebres da Igreja Antiga e Medieval. A obra por ele criada e expandida confirma pelos seus resultados educacionais e espirituais a canonicidade e justeza da natureza inovadora - mas muito criticada - do seu instituto enquanto ordem religiosa com a mesma dignidade das ordens clássicas: “Quanto ao que Vossa Reverência pergunta, eu não sei mais do que Vossa Reverência pode ter lido na História de Santo António, e na Vida de nosso Padre, que escreveu Susio nas vidas do mês de Agosto: porque em ambos os lugares se escreve que, empreendida a confirmação da sua ordem, enviou os seus companheiros a pregar por diversas partes, e então não podia ter coro, mas tendo conventos e numerosos religiosos, logo tinham coro”43.

Mais tarde, dois anos antes da sua morte, Granada agradece efusivamente a recepção de um exemplar da biografia de Santo Inácio oferecido pelo seu autor. A grandeza da vida do Fundador dos Jesuítas engrandece-se ainda mais na expansão da Companhia que Frei Luís enaltece como sendo um instrumento de Deus em favor da exaltação da Fé Católica em várias frentes da acção apostólica, e acredita que ainda muito fará esta ordem pela restauração do catolicismo na frente prosélita antiprotestante: “Recebi de Vossa Paternidade juntamente com a mercê que me faz de um presente tão gracioso como foi a Vida del P. Ignacio, vertida em Latim para que todas as nações estrangeiras de França e Alemanha vejam este conselho de Nosso Senhor de ter tomado um soldado para fundador de uma religião que em breve espaço se estendeu por todas as regiões do mundo com tão grande fruto das partes onde tem chegado. E também acredito que não menos fruto há-de fazer com Inglaterra, onde há muitos católicos escondidos”44.

Tão intensa é a expressão da sua admiração e afecto pela Companhia de Jesus que Frei Luís de Granada pode ser considerado um jesuíta de coração, sem prejuízo da sua fidelidade à Ordem Dominicana. Entre esta e a Ordem dos Jesuítas ele não via duas ordens rivais mas duas ordens irmãs, em plena comunhão de objectivos e de sentimentos apostólicos. Numa carta dirigida a Cláudio Aquaviva, Superior Geral da Companhia, Frei Luís confessa sentir-se filho desta nova ordem e não esconde a sua extraordinária devoção em relação à mesma: “Não creio que estranhará Vossa Reverendíssima Paternidade escrever-lhe sem eu o haver visto nem servido, pois penso que saberá quão antigo filho sou dessa santa Companhia; e isto me levou em parte a escrever as histórias de duas vidas: uma, do padre mestre Ávila, que foi tão devoto desse santo instituto, o qual tenho agora em mãos a ponto de acabar, movido a isto por persuasão do mui reverendo padre Diego De Guzmán, que reside em Nápoles; a outra é a do sereníssimo e cristianíssimo Cardeal D. Henrique, que foi rei de Portugal, nosso senhor, que foi devotíssimo dessa santa Companhia e favorecedor de suas casas e colégios e que fundou o insigne colégio de Évora”45.

Esta admiração extrema de Frei Luís de Granada pela obra desenvolvida pelos Jesuítas não deve ser avaliada no quadro de uma lógica clubística, ou seja, não deve ser entendida como uma traição ou desconsideração pela sua ordem de pertença oficial, os Dominicanos. Granada era acima de tudo um homem de Igreja e o êxito do plano salvífico de Deus para história catolicamente entendido era a sua preocupação e empenho primeiro. Donde a sua admiração por uma ordem jovem e dinâmica que, no horizonte combativo da Reforma Católica, respondia com eficácia aos desafios da evangelização numa época em que as relações entre os povos e culturas se começavam a globalizar e em que a Igreja era confrontada com fracturas e divisões na velha cristandade europeia que ele como apóstolo desejava reparar.

Portanto, a simpatia demonstrada por Granada em relação à Companhia de Jesus deve ser compreendida numa lógica de sensus ecclesia, isto é, no quadro do projecto da reforma e da expansão universal da Igreja da época pós-tridentina. Esta sintonia de sentimentos e de comunhão de objectivos reflecte-se não só na epistolografia trocada com os Jesuítas, mas até na tratadística granadiana. Tal podemos surpreender n’ O Breve Tratado… de la manera que se podrá proponer la doctrina… a los nuevos infieles, em que Frei Luís de Granada reflecte sobre a importância prioritária de evangelização dos novos povos encontrados pelo ibéricos no decurso das suas viagens marítimas. Neste pequeno tratado missionário tece um elogio às ordens religiosas que se têm dedicado à tarefa da evangelização ad gentes, dando particular ênfase ao elogio do trabalho missionário desenvolvido pelos Padres da Companhia nos espaços extra-europeus46. Mais uma vez aqui coincidem as preocupações e a hierarquia das prioridades pastorais de Granada com o ideário e a acção da Companhia de Jesus consagrados constitucionalmente e realizados à escala plantaria, oferecendo à Igreja uma universalidade nunca vista.





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