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O ENFOQUE NEO-SCHUMPETERIANO DA FIRMA1

Margarida Baptista2

Introdução
A inovação tecnológica é central na explicação da dinâmica econômica em teorias de corte neo-schumpeteriano uma vez que constitui a fonte básica, seja da expansão e dinamismo do sistema econômico, seja da geração e sustentação de assimetrias entre empresas e/ou países - vale dizer, de diferenciais de competitividade que se expressam na obtenção de maiores margens de lucro e/ou market-shares. A competitividade é, assim, associada à posse de vantagens absolutas de custo, qualidade e/ou desempenho, cuja fonte básica são processos complexos de aprendizado tecnológico. É o caráter parcialmente tácito, não codificável e específico destes processos, indissociáveis da própria execução das atividades produtivas, que permite a apropriabilidade privada do conhecimento tecnológico. O agente básico de competitividade é a firma, pois é nesta que se tomam as decisões cruciais de investimento (relativas não só à sua intensidade mas também à sua orientação) e é em seu interior que se criam, conservam e ampliam distintas capacitações. São estas últimas que sustentam a geração de diferenciais de poder de mercado e competititividade.

O objetivo deste paper é explicitar os elementos básicos de uma teoria da firma de corte neo-schumpteriano. Neste sentido, faz-se necessário, como passo inicial, discutir o processo de decisão dos agentes individuais e o critério de racionalidade que o preside, em ambientes caracterizados pela incerteza. É a partir dos desdobramentos e implicações desta última que é introduzida a problemática das instituições (lato sensu) e sua importância na compreensão dos processos decisórios dos agentes individuais, que se consubstanciam em suas estratégias competitivas. Após esta discussão inicial (item 1), passa-se a desenvolver a análise dos condicionantes, internos à firma, da orientação imprimida a estas condutas (item 2). A conceituação da firma como repositório de ativos e capacitações - conhecida na literatura econômica como abordagem das capacitações dinâmicas (“dynamic capabilities approach”) - é a referência básica adotada neste trabalho.




1. Incerteza, racionalidade e instituições
Antes de tudo, faz-se necessário explicitar qual o conceito mais geral de ‘firma’ aqui adotado. A firma é entendida, aqui, como uma unidade de valorização de capital, dotada de autonomia decisória para definir e implementar suas estratégias de longo prazo. Neste sentido a firma é, também, uma unidade de decisão. A este respeito, a distinção conceitual entre ‘firma’ e ‘quase-firma’, proposta por Guimarães (1982: 25-26), permanece válida e é particularmente importante quando se trabalha no contexto de economias abertas. O objetivo básico da firma é, assim, o de extrair o maior rendimento possível de seus ativos (tangíveis e intangíveis) no contexto do processo de concorrência, entendido aqui como um processo de rivalidade inter-firmas pela apropriação de espaços de mercado.3
Neste processo a firma enfrenta um conjunto de decisões complexas e cruciais - porque de impossível, difícil ou custosa reversibilidade - entre as quais se destacam: (i) aquelas relativas a investimentos em ampliação da capacidade instalada; (ii) as decisões relativas à entrada/saída de mercados (decisões de diversificação/especialização4); (iii) a opção pela entrada em determinada trajetória tecnológica (e o próprio ‘timing’ desta decisão)5, particularmente em situações de indefinição entre trajetórias concorrentes; (iv) as decisões relativas aos investimentos efetuados em Pesquisa e Desenvolvimento e, em particular, às estratégias tecnológicas adotadas6. Note-se que todas estas decisões envolvem mudanças substantivas na composição do portfólio de ativos (potencialmente geradores de rendimentos, mas também dotados de baixa liquidez) possuídos pela firma - daí sua importância na definição/redefinição das condições de sobrevivência/crescimento da firma.
Todas estas decisões são tomadas, todavia, sob incerteza. É importante salientar que esta noção de incerteza não é redutível ao risco perpassando, ademais, um campo mais amplo da heterodoxia teórica7. De um lado, cabe ressaltar, como o fazem Dosi, Tyson e Zysman (1989: 26), que a incerteza não se revela em processos de inovação e difusão de tecnologia apenas porque se trata da produção de bens (ou da implementação de processos) ainda não submetidos ao teste seletivo dos mercados - questão esta já apontada originalmente em Schumpeter - mas, principalmente, pelo fato de que o desdobramento de cada trajetória tecnológica não pode ser pré-determinado ex-ante, por suas características técnicas inerentes. A tecnologia não tem uma lógica interna autônoma que dita inevitavelmente sua evolução ou uso, mas é fruto da interação entre o desenvolvimento econômico e social. De outro lado, é necessário evidenciar a impossibilidade de prever o resultado não intencional do comportamento de agentes individuais que, embora independentes, interagem, ao longo do tempo, em relações de interdependência mútua, característica esta que perpassa os processos econômicos em geral (não apenas o exercício da função 'empreendedora' do empresário Schumperiano, mas também o exercício de sua função 'gerencial'). Esta interdependência mútua entre os agentes econômicos - que , entretanto, tomam e implementam suas decisões de forma individual e independente -, ao gerar externalidades, confere ao próprio ambiente econômico no qual as firmas tomam suas decisões (e elaboram suas estratégias) um caráter inerentemente incerto.

Se o mercado não pode sinalizar o resultado não intencional do comportamento coletivo dos agentes econômicos, uma das consequências teóricas fundamentais da presença da incerteza no cálculo dos agentes econômicos refere-se à impossibilidade de maximizar qualquer função objetivo o que, ademais, põe em causa a própria noção de racionalidade substantiva e ilimitada. Como enfatiza Metcalfe (1995: 450), não é que os indivíduos e organizações não procurem fazer o melhor que podem frente a objetivos específicos; a questão é que isto pode ser impossível frente a circunstãncias objetivas. Ou seja, o que os agentes econômicos buscam é adequar os meios de que dispõem (vale dizer, o conjunto de seus ativos e capacitações) a seus objetivos ou metas (que sequer são pré-definidos e universais, como suposto na hipótese de maximização de lucros), a partir de sua ‘visão de mundo’ e matriz cognitiva; em outras palavras, a partir de sua interpretação particular dos ‘sinais’ emitidos pelo ambiente onde atuam e das expectativas formadas em relação à evolução futura deste ambiente - envolvendo desde as expectativas relativas à direção e ritmo do progresso técnico (as expectativas tecnológicas)8 até aquelas atinentes ao comportamento das empresas rivais, no processo de concorrência. Este processo de adequação de meios a fins (ou metas) - marcado por sua complexidade e cercado de incerteza - consubstancia-se na formulação de estratégias, aqui definidas como ‘uma sucessão temporal formulada antecipadamente, de linhas de decisão e ação coerentes’ (Mario Possas, 1996: 86). Estas estratégias podem apresentar maior (ou menor) grau de sucesso ex-post e, mais do que isto, tendem inevitavelmente à diversidade - sem que a esta diversidade ou multiplicidade comportamentais esteja associada, necessariamente, qualquer hierarquização do ponto de vista de sua eficácia em atingir os fins almejados.9


Nesta situação, o que se torna relevante é a racionalidade limitada e processual (que se opõe à racionalidade ilimitada e substantiva do mainstream economics), vale dizer, a racionalidade dos processos de tomada de decisão por parte dos agentes, cujo comportamento é melhor representado pelas noções de estratégia e rotina. Esta última pode ser definida, de uma forma genérica, como um padrão de solução repetitivo para problemas semelhantes, incorporado em pessoas ou organizações (entre as quais, a firma). Neste sentido, as rotinas apresentam um forte componente tácito e específico e, mais importante do que isto, constituem a forma mais importante de armazenamento do conhecimento de cada firma ou, em outras palavras, sua memória (continuamente renovada)(Nelson e Winter, 1982: cap.5)10.
Estas rotinas podem ser organizadas em três tipos básicos: (a) aquelas relativas à articulação da capacidade tecnológica das empresas, refletida nos custos unitários de produção e na qualidade de seus produtos; (b) aquelas associadas à expansão da atividade corrente das empresas, que se expressa nos investimentos em expansão de capacidade e marketing; (c) as rotinas criativas, orientadas para o melhoramento das rotinas anteriormente explicitadas, através de processos de inovação e imitação. Estes grupos de rotinas interagem de várias formas. Mas, como Metcalfe (1995: 471/472) enfatiza: 'Em termos evolucionistas, as últimas são as mais fundamentais porque geram a variedade que alimenta a mudança econômica e são estas rotinas se vinculam diretamente ás fronteiras de possibilidade de inovação, configurações de projeto e sistemas de inovação.'
Mas, se os agentes não têm a possibilidade de maximizar qualquer função objetivo num contexto caracterizado pela incerteza, como preservar a relativa estabilidade do sistema? Em outras palavras, admitir a existência de rotinas (e estratégias) diferenciadas a partir dos mesmo 'sinais de mercado' ou, em outras palavras, a indeterminação (ou plurideterminação) de trajetórias individuais não conduziria ao 'caos' ou a uma instabilidade sistêmica permanente? Justamente neste ponto revela-se a segunda consequência fundamental da incerteza sistêmica: a presença inevitável de instituições - que podem ser definidas genericamente como ‘as regras do jogo de uma sociedade ou, mais formalmente, as restrições visualizadas que conformam a interação humana’(North, 1990: 3)11 -, que conferem ao sistema uma relativa estabilidade, ao fornecerem uma 'âncora' para a formação de expectativas e, portanto, para a definição de estratégias. Estas instituições (com diferentes níveis de abrangência e formalidade) diluem os efeitos da incerteza no processo decisório dos agentes econômicos ao limitarem o seu espectro de escolha e, por isto mesmo, introduzem uma maior estabilidade ao sistema. Como enfatizado por Dosi e Orsenigo (1988: 19), estas instituições são um fator de ‘ordem comportamental que contribui para explicar a coordenação e a consistência em ambientes incertos, complexos e de mudança.’
Neste sentido, a dinâmica do sistema é resultante de formas de regulação que definem o funcionamento dos mercados e indústrias. Estas podem ser consideradas, como o faz Nelson (1992: 135), sistemas envolvendo um mix de atores e instituições privadas e públicas. Em outras palavras, as instituições demarcam os contornos da própria formação de regras de comportamento e das condições contextuais sob as quais se dá a operação de mecanismos econômicos, vale dizer, são parte integrante do próprio mercado ao cumprirem o papel de mecanismos de seleção ex-ante, o que implica a impossibilidade de: (a) separar as variáveis estritamente econômicas de seu contexto institucional; (b) assumir que variáveis estritamente econômicas sobredeterminam o seu contexto institucional; e (c) reduzir todos os elementos extra-econômicos a interferências ou correções excepcionais de um sistema auto-contido e ótimo do ponto de vista de seu desempenho. (Dosi e Orsenigo, 1988: 138). Em outras palavras, o mercado é, em si, uma construção institucional.
Retomando o argumento básico: as firmas decidem e atuam - elaboram e implementam suas estratégias - a partir de dois tipos de balizamentos estruturais (porque estáveis, embora não imutáveis). Estes balizamentos, que imprimem uma certa regularidade (e previsibilidade) a seus comportamentos, a despeito da presença inescapável da incerteza que implica a indeterminação (ou plurideterminação) das trajetórias específicas de cada agente econômico, são os seguintes:
(i) os paradigmas e trajetórias tecnológicos, em termos de seus graus de oportunidade, apropriabilidade e cumulatividade, bem como da natureza da base de conhecimentos envolvida; estes paradigmas e trajetórias delimitam as formas de concorrência dominantes (e, portanto, os fatores-chave de competitividade), os padrões de dinâmica industrial, as estruturas de mercado e até mesmo os padrões usuais de diversificação das firmas12;
(ii) o conjunto de instituições, que define o leque de restrições às quais estão submetidas e o espectro de oportunidades passíveis de exploração.
Enfim, atuando em planos analíticos bastante diferenciados, ambas as determinações - tecnológicas e institucionais - ao fornecerem parâmetros decisivos para o cálculo econômico dos agentes, contribuem decisivamente para a relativa estabilidade de seu comportamento. Passa-se, agora, a uma análise mais detida da natureza das instituições e sua importância na diluição dos efeitos da incerteza e na coordenação das transações econômicas.
Antes de tudo, faz-se necessário especificar um pouco mais a abrangência e conteúdo do conceito de ‘instituições’, enfatizando - como o faz Dosi (1988: 137-138) - que estas podem ‘macro’ ou ‘micro. As primeiras correspondem ao conjunto de agências públicas, seus padrões de interação, os aparatos regulatórios e as políticas por elas definidas que disciplinam as relações econômicas entre os agentes privados, seus padrões de interação com os organismos públicos e que, de uma forma mais geral, definem os direitos de propriedade. Estes arcabouços institucionais - específicos de cada país - conformam, portanto sistemas de incentivos, desestímulos e mesmo sanções que restringem e orientam o comportamento dos agentes econômicos privados - vale dizer, suas estratégias.
Mais concretamente, as macro-instituições podem ser classificadas em quatro tipos básicos, qualificados por Zysman (1994: 258) como fundamentais na explicação da trajetória de desenvolvimento das economias: o caráter do Estado, vale dizer, a capacidade do governo em orientar o ajustamento industrial através do estabelecimento de regras e alocação seletiva de recursos visando atingir seus objetivos (que podem incluir a geração de aprendizado e inovação); as características dos sistemas de relações de trabalho; a organização do sistema financeiro, uma vez que este condiciona as condutas empresariais e a influência do Estado sobre a indústria; e o sistema legal/regulatório que define as regras de controle entre os mercados, a organização das firmas e a possibilidade de negociação entre os grupos produtores.
Por sua vez, as micro-instituições envolvem todas as formas institucionalizadas de interação entre agentes - não mediadas diretamente pelo mercado - que se verificam no âmbito privado e que envolvem as redes de comunicação e interação entre agentes que se processam: (i) no interior das corporações (firmas); (ii) no âmbito das relações inter-firma (por sobre os mercados); (iii) no âmbito das relações inter-firma (no interior de cada mercado)13. O primeiro caso envolve todo o sistema de hierarquia intra-firma, seus sistemas de incentivos, sua forma de organização interna e o que, na linguagem corrente, se convencionou denominar ‘cultura da empresa’; desnecessário dizer que o conteúdo específico do conceito de rotina só é inteligível à luz da instituição (firma) à qual se integra; na verdade a rotina pode ser pensada, em si mesma, como uma micro-instituição. Os dois casos seguintes envolvem desde a realização de contratos de compra e venda (de maior ou menor duração), joint ventures, alianças estratégias e acordos de cooperação em geral, além de relações de confiança - neste último caso, não formalizadas; por último, as relações inter-firma que se estabelecem no interior do mesmo mercado envolvem, adicionalmente, a formação de cartéis, acordos de produção e preços, etc.
Passa-se, agora, a sintetizar as caracteríticas e funções básicas desempenhadas pelas instituições (em geral) e as diferenças fundamentais entre as macro e as micro-instituições. Sem pretender esgotar o assunto, alinham-se a seguir as propriedades básicas das instituições.
No terreno da economia, a funcionalidade das instituições advém do papel que exercem enquanto mecanismo de seleção ex-ante do comportamento dos agentes (e de seus padrões de interação intertemporal) delimitando, portanto, suas condutas futuras, a despeito da impossibilidade de se prever os eventos futuros e seus desdobramentos. Esta propriedade implica, portanto, o aumento de previsibilidade por parte dos agentes tomadores de decisão e da estabilidade do sistema ao conformarem as condições contextuais sob as quais as decisões são tomadas e as ações empreendidas. Em virtude de “amarrarem”, no presente, as condutas futuras dos agentes econômicos, estas instituições operam no sentido de facilitar a coordenação inter-temporal entre os mesmos.
Mais ainda, a previsibilidade e estabilidade acima mencionadas estão associadas, também, ao caráter estável e mesmo inercial das instituições - em particular, (mas não exclusivamente) no caso das macro-instituições. Materializações de processos históricos concretos, as instituições estabelecem um link poderoso entre o passado e o presente. Cabe destacar, no entanto, que embora estas sejam estáveis não são imutáveis, mas permeáveis a processos evolutivos predominantemente incrementais provocados, no mais das vezes, pela inadequação das normas e instituições vigentes às demandas dos agentes econômicos com poder de barganha (North, 1990: caps. 10-12).
As macro-instituições são hierarquicamente superiores às micro-instituições, no sentido que as segundas são sobredeterminadas pelas primeiras14. Na medida em que macro-instituições são conformadas no âmbito de cada país, a dimensão nacional, adquire uma importância crucial na análise não só da forma de estruturação das atividades econômicas mas também das condutas dos agentes econômicos, vale dizer, suas estratégias competitivas.
Uma vez que as instituições organizam e coordenam as transações econômicas, elas são fatores de geração de assimetrias entre os agentes. Neste sentido, é importante estabelecer uma distinção importante entre as macro e as micro-instituições. Enquanto as primeiras conformam mecanismos de seleção ex-ante e padrões de interação e coordenação econômicos específicos a cada país (mas comuns aos agentes individuais que atuam neste mesmo espaço nacional), as segundas introduzem assimetrias entre as firmas que atuam na mesma economia nacional (e também no interior do mesmo mercado, do ponto de vista de sua dimensão-produto). Isto porque, ao contrário do que ocorre no caso das macro-instituições, os agentes econômicos têm capacidade de decidir (e de interferir) diretamente sobre as micro-instituições.
Ao perpassarem todos os processos econômicos e definirem as condições contextuais dentro das quais estes se desenvolvem, as intituições dão uma feição particular aos mercados, ao conteúdo da incerteza com que se defrontam os agentes econômicos e à sua própria racionalidade. Neste sentido:


  • o mercado deve ser entendido como uma construção institucionalizada e não como um mero locus impessoal de realização de transações mercantis; ele é, na verdade, uma criação das instituições e da política (específicas a culturas, países e momentos históricos);




  • o próprio conteúdo da incerteza que cerca o processo decisório dos agentes econômicos é, também local e específico uma vez que, dependendo do contexto, as distintas dimensões da incerteza podem não só adquirir ponderações distintas (do ponto de vista de sua importância no processo decisório dos agentes), como os seus próprios conteúdos podem também apresentar especificidades, configurando condições particulares de estímulos (ou desestimulo) à adoção de condutas determinadas;




  • não há uma racionalidade única e pré-determinada que preside as decisões e ações dos agentes econômicos; o conteúdo da racionalidade dos agentes (seus objetivos econômicos e critérios que orientam suas condutas) não é universal, mas sim específico e contextualmente determinado;15 neste sentido, os agentes econômicos são, também, 'construções teóricas' (Dosi e Orsenigo, 1988: 19-20).

Como decorrência das proposições acima especificadas:




  • é impossível deduzir o comportamento (e desempenho) dos agentes econômicos a partir de ‘sinais’ de mercado, uma vez que suas condutas (e o resultado destas) estão condicionadas pela rede de instituições vigentes; ao conformarem condições contextuais específicas, as instituições moldam o desempenho das empresas e do sistema econômico, induzindo respostas diferenciadas para os mesmos ‘sinais de mercado’.

A partir do exposto, evidencia-se a necessidade de incorporação das instituições à teoria econômica uma vez que as trajetórias de desenvolvimento econômico são criadas historicamente e enraizadas institucionalmente. De fato, os mercados (loci do processo de concorrência entre os agentes) não operam separadamente das regras e instituições que os estabelecem, estruturam como comprar, vender e a forma de organização da produção e definem sistemas de incentivo e desestímulo a determinados comportamentos e atividades. Daí o papel-chave desempenhado pelas instituições na conformação, padrão de evolução e desempenho relativo de cada economia em particular. ( Dosi, 1988; Dosi e Orsenigo, 1988; North, 1990; Zysman, 1986 e 1994; Dosi, Tyson e Zysman, 1989).



2. A abordagem das capacitações dinâmicas da firma
A firma é uma unidade de valorização do capital, sendo este último consubstanciado nos ativos que possui e que podem ser de distintas naturezas - financeiros, físicos e imateriais (ou intangíveis). São estes ativos - e a forma particular de sua organização no interior das fronteiras da firma - que proporcionam fluxos inter-temporais de rendimentos às firmas que os detêm. Neste sentido, dois fatores-chave emergem no papel de fontes fundamentais de lucratividade e crescimento das firmas - vale dizer, de seu poder de concorrência: (i) os recursos por elas possuídos, ou seja, o tipo de ativos sob seu controle; (ii) a forma (ou formas) através da qual estes ativos são organizados/coordenados pela unidade decisória. Esta é a concepção básica de firma adotada pioneiramente por Penrose (1959), e posteriormente explorada pela vertente neo-schumpeteriana da firma.
Como primeiro passo analítico faz-se necessário explicitar as propriedades destes ativos e seus desdobramentos: (i) estes ativos são dotados de flexibilidade (liquidez), custos de conservação e rentabilidades distintos; aqueles ativos que proporcionam maior rendimento - notadamente o conhecimento e a tecnologia - apresentam elevados custos de manutenção e graus limitados de flexibilidade; (ii) estes últimos ativos em princípio proporcionam maior rendimento a seus detentores (vale dizer, maiores vantagens competitivas) porque são de difícil e custosa imitabilidade e transferibilidade; isto porque são fruto de processos complexos de aprendizado de forte conteúdo cumulativo, tácito e específico; (iii) são estas característica que dão ao processo de crescimento das firmas um forte caráter path dependent; ou seja, a história passada da firma, materializada em seus ativos e capacitações, condiciona fortemente a sua trajetória futura de expansão.
É fundamental enfatizar que estes ativos necessitam ser organizados e coordenados no processo de transformação de recursos em riqueza (poder de compra). Neste sentido, a sua forma específica de organização e coordenação intertemporal no interior da firma é de fundamental importância enquanto fonte de competitividade.16 Assim, o conhecimento e capacitações acumuladas nas firmas estão incorporadas não só em seus ativos (intangíveis) mas também em suas rotinas (dos três tipos referidos no item anterior deste paper). A firma caracteriza-se, portanto, não somente como um repositório de ativos (tangíveis e intangíveis) - e, portanto, também de processos de aprendizado específicos e complexos, pois que deles depende a própria sustentabilidade do potencial de rendimento destes ativos -, mas também como uma estrutura de administração (ou gestão).
Deve ser destacado, contudo, que nem todos os ativos e capacitações incorporados nas firmas são ‘estratégicos’, no sentido de propiciarem vantagens diferenciais no processo de concorrência. Neste sentido, a categorização de ativos efetuada por Teece (1986, 1988, 1991 e 1992) e o conceito de competências nucleares (‘core competences’) da firma (Teece, 1988; Prahalad e Hamel, 1990; Dosi, Teece e Winter, 1992) são importantes para esclarecer este ponto.
Para comercializar qualquer produto (ou serviço) fruto de esforços inovativos e de aprendizado, a firma necessita implementar (e organizar/coordenar) uma série de atividades que envolvem a utilização de um amplo leque de ativos que necessita controlar (via internalização ou através da realização de relações contratuais). Assim, a par da(s) capacitação(ões) tecnológica(s) básica(s) que necessita manter continuamente atualizada(s), a firma só converte esta sua capacitação (ou ativo intangível) em poder de compra a partir do momento em que produz e comercializa o produto/serviço em causa, o que requer a mobilização de um conjunto amplo de ativos complementares, necessários às atividades de fabricação, distribuição, marketing, serviços pós-venda, etc. Além disso, a comercialização deste produto/serviço pode requerer o controle sobre tecnologias complementares - particularmente no caso de produtos ‘sistêmicos’.17
A questão essencial apontada por Teece é o reconhecimento de que estes ativos complementares podem converter-se, a par das capacitações estritamente tecnológicas, em fontes de vantagens competitivas diferenciais, dependendo de seu grau de generalidade18 e reprodutibilidade, este último associado ao caráter tácito do aprendizado da firma. Como Teece explicita (1992: 185-186): ‘Ativos específicos complementares podem representar a segunda linha de defesa para novos produtos e processos. Se a lei de propriedade industrial não proporciona ao inovador os mecanismos de isolamento requeridos, a posse de ativos complementares pode fazê-lo frequentemente. Se os ativos complementares requeridos são genéricos, isto não será possível; mas se eles são específicos ou se ativos específicos podem ser utilizados para incrementar o valor da inovação para seus usuários finais, então a posse ou controle destes ativos pode ser a fonte de uma vantagem competitiva sustentável. Isto por que os ativos específicos surgem frequentemente a partir de um processo prévio e particular de montagem de ativos físicos e de um aprendizado anterior.’
Estas considerações são fundamentais para explicar:
(i) por que as fontes de vantagens competitivas diferenciais das empresas não se restringem à inovação tecnológica stricto sensu abarcando, igualmente, uma série de ativos e capacitações associadas ao conjunto de atividades que executam - necessárias para a colocação bem sucedida do produto no mercado. A conceituação de ‘cadeia de valor’ e ‘sistema de valor’ de Porter (1990; 1993) é uma forma alternativa de explicar esta questão, ao identificar a possibilidade de criação de valor (ou de vantagens competitivas diferenciais que se expressam na lucratividade das empresas) em todas as etapas desta cadeia19 e na forma como elas são organizadas/coordenadas (internamente e/ou através de relações contratuais);
(ii) por que os benefícios econômicos da inovação podem não ser apropriados pelo inovador pioneiro, configurando o que na literatura é denominado problema de ‘free rider’ (ou seja, a existência de limites à apropriabilidade privada da inovação, o que leva os competidores potenciais a ‘pegarem carona’ nos gastos e esforços inovativos vinculados ao pioneirismo); esta é, também, a fundamentação da tipologia de estratégias tecnológicas proposta por Freeman (1982: cap. 8), na qual a possibilidade de êxito associada à adoção de estratégias imitativas está vinculada, em grande medida, à posse de ativos complementares. Em que pesem estas considerações, é fundamental enfatizar que nem todos os ativos e capacitações complementares propiciam a geração e sustentação de assimetrias (e, portanto, de vantagens competitivas para a empresa que os possui), estando esta propriedade vinculada, como já explicitado, à sua especificidade e, principalmente, não reprodutibilidade (ou a elevados custos ou tempo para o fazer).
Sintetizando, os ativos estratégicos para a firma envolvem, de um lado, a sua capacitação tecnológica básica e, de outro, os ativos complementares específicos e de difícil reprodutibilidade. Em qualquer caso, trata-se de ativos: (i) essencialmente intangíveis ou, em outras palavras, capacitações (tecnológicas, operacionais e organizacionais); (ii) difíceis (ou mesmo impossíveis) de serem reproduzidos, transferidos ou transacionados no mercado, dado que são o resultado de processos de aprendizado complexos incorporados nas rotinas das firmas. Ou seja, estes ativos são a fonte básica de geração de vantagens competitivas diferenciais por parte da firma.
Em função do exposto, é possível afirmar que a firma - considerada como unidade de valorização do capital - apresenta as seguintes características básicas:


  • é um cluster integrado de competências nucleares e ativos complementares de apoio (Teece, 1988, 1991, 1992; Dosi, Teece e Winter, 1992; Teece e Pisano, 1994; Dosi e Malerba, 1996)




  • um locus fundamental de aprendizado (‘learning organization’), tecnológico, operacional e organizacional, uma vez que estes ativos e capacitações são criados (e conservados) a partir de processos contínuos de aprendizado, largamente incorporados nas rotinas das firmas (dos três tipos mencionados no item 1) e, portanto, dotados de forte conteúdo tácito e específico (Fransman, 1994; Cimoli e Dosi, 1995; Dosi e Marengo, 1994; Dosi e Malerba, 1996; e Malerba e Orsenigo, 1996);




  • as suas propriedades não podem ser reproduzidas ‘por um portfólio de unidades de negócios articulado através de contratos formais, uma vez que os distintos elementos de uma organização interna não podem ser reproduzidos via mercado (Teece e Pisano, 1994: 540).

São estas propriedades básicas da firma que conduzem à formulação do conceito de ‘firma oca’ (‘hollow corporation’), caracterizada pela ausência de competências tecnológicas básicas e qualificada, por Dosi, Teece e Winter (1992: 198/99) como uma organização dotada de fraco poder de sobrevivência a longo prazo. A externalização destas competências através da realização de nexos contratuais é a base de sua fragilidade.


Estas considerações são o passo inicial para a formulação e qualificação dos conceitos de ‘competência’ e de ‘competitividade’ da firma. Em primeiro lugar, a competência de uma firma deve ser remetida ao poder de valorizar seu capital ao longo do tempo (ou, em outras palavras, de criar e sustentar poder de mercado). É a criação, sustentação e ampliação desta competência básica das firmas que define a sua capacidade em explorar as oportunidades de mercado com que se defrontam e de superar os obstáculos que se antepõem a este objetivo.
Cabe referir, entretanto, que estas capacidades podem ser criadas ou aperfeiçoadas no processo de interação da firma com o mercado, através da implementação de estratégias específicas e de rotinas de alto nível (de aprendizado). Ou seja, se o ambiente econômico pode sinalizar oportunidades de negócios altamente lucrativas, sua exploração efetiva pressupõe não só a existência prévia mas também a geração de capacitações e ativos adequados. Mais importante do que isto, são estes condicionantes que viabilizam a própria criação de novas oportunidades de negócios.
Portanto, a competência econômica de uma firma não pode ser entendida única e exclusivamente como a sua habilidade em identificar e explorar oportunidades de negócios existentes - ou seja, a eficiência em resolver os problemas (tecnológicos, operacionais e organizacionais) associados à exploração de oportunidades ‘dadas’ pelo mercado - mas, principalmente, como a habilidade de gerar (e explorar) novas oportunidades de mercado.
Assim, a competência de uma firma revela-se não só pela sua eficiência produtiva estática (traduzida em menores custos e/ou melhor qualidade e desempenho) em produzir/comercializar bens e serviços cujas perspectivas de mercado são visíveis (e atraentes) mas, principalmente, em incorporar rotinas de aprendizado e definir estratégias capazes de ancorar inovações (radicais e/ou incrementais). Estas inovações, ao viabilizarem a criação de novos mercados (ou segmentos de mercado) ampliam o próprio leque de oportunidades que, neste sentido, não podem ser consideradas como ‘dadas’ - impulsionando o crescimento da firma.

Neste contexto, é fundamental enfatizar o caráter social e coletivo do aprendizado que se processa no interior das firmas, entendido como um processo ‘pelo qual a repetição e a experimentação permitem o desempenho de tarefas de uma forma melhor e mais rápida e a identificação de novas oportunidades de produção (Dosi, Teece e Winter, 1992: 191) - distinto, portanto, do conhecimento e capacidade de aprendizado dos indivíduos que nela trabalham, embora estes sejam relevantes para a firma. Em outras palavras, o valor destas capacidades individuais - do ponto de vista do desempenho através delas obtido - depende do ambiente institucional no qual estas são exercitadas (neste caso, a firma).


As competências nucleares das firmas apresentam, portanto, não só uma dimensão estritamente técnica mas também organizacional e econômica. Cabe enfatizar que, em qualquer caso, elas envolvem um componente tácito relevante sendo, por este motivo, de difícil (e custosa) imitação. Estas capacitações podem ser sintetizadas no quadro abaixo apresentado:
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