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ESTUDO TOPONÍMICO DE LADEIRAS:

O SOBE E DESCE SOTEROPOLITANO

Marta Maria Gomes1

Orintadora: Celina Márcia de Souza Abbade

INTRODUÇÃO

Desde os primórdios da humanidade que o homem sentiu a necessidade de nomear tudo que há no mundo. Temos como exemplo, um dos livros da Bíblia, o Gênesis que narra a criação do mundo e a história do povo hebreu em que o homem nomeou todos os seres que Deus lhe apresentou.

Atualmente a forma de “dar nomes” é o mesmo, pois tudo que surge vai sendo nomeado e tendo existência comprovada. Biderman (2001) afirma que o léxico está estritamente relacionado ao processo de nomeação e à forma como concebemos ou entendemos a realidade. Em vista disso, o léxico de uma língua tem como função principal designar aquilo que conhecemos no/do universo, pois, “ao dar nomes aos seres e objetos, o homem os classifica simultaneamente”. Assim, a nomeação da realidade pode ser considerada como a etapa primeira no percurso científico do espírito humano.

Ao se estabelecer em um espaço físico-geográfico ou se tomar posse de um determinado local, o homem precisa nomeá-lo para garantir a localização espacial e identidade comunitária. Dessa forma, por meio da Toponímia, ramo de conhecimento da Onomástica, se pode analisar a estreita relação que há entre o homem e os lugares que marcam o espaço que ele ocupa, isto é, pode-se analisar, dentre outras, a relação que há entre língua, cultura, sociedade e natureza, manifestada no processo de nomeação de logradouros.

O processo de nomeação dos logradouros não é feito de forma aleatória, já que o nomeador representa, nos topônimos, os elementos que deseja simbolizar, homenagear, perpetuar, memorizar. No primeiro momento dessa atividade, o ato é espontâneo, obedece às circunstâncias do tempo presente, mas quando esse lugar adquire status de município, cidade, vila ou bairro, o nome, quando não é mudado, deve se adequar as normas toponímicas estabelecidas por órgãos oficiais que podem ir da mais alta instância nacional, como é o caso do Governo Federal, à instância local, a exemplo do Governo Estadual e Municipal (MATOS, 2014).

O estudo dos topos ‘lugares’, objeto da Toponímia, tem se tornado de grande importância para o conhecimento de aspectos histórico-culturais de um povo ou mesmo de uma região, pois permite que se identifique fatos linguísticos, ideologias e crenças presentes no ato denominativo e, posteriormente, a conservação ou não desses valores numa dada comunidade. Assim, o nome atribuído a um lugar ou a um acidente geográfico pode ser um componente que revele tendências sociais, políticas ou religiosas dos colonizadores e da época em que a nomeação ocorreu.

No tocante a cidade do Salvador pretende-se estabelecer novas formas de relacionar os topônimos com a história da cidade, não como um palco para o desenrolar dos acontecimentos, e sim como elemento fundamental para a construção da trama histórica, levando a reflexão sobre a atuação dos moradores no seu espaço geográfico.

Nesse sentido, o topônimo de uma cidade abrange, dentre tantos outros, os acidentes geográficos. A pesquisa em questão pretende não enfocar Salvador pelo viés dos seus lugares instituídos, mas a partir dos significados atribuídos aos territórios urbanos. Nesta pesquisa, os topônimos escolhidos para o estudo são os que designam as ladeiras, tão comuns nessa cidade que se divide em alta e baixa e é entrecortada por ladeiras em quase todos os cantos.

Pretende-se, no presente trabalho, seguir o Modelo Toponímico Taxionômico proposto por Dick (1990). Desta forma questiona-se: quais são as causas denominativas na origem aos topônimos que nomeiam atualmente a ladeiras da cidade do Salvador? Partindo-se dessa premissa, a pesquisa busca estudar quais são os fatores linguísticos e extralinguísticos que motivaram a formação dos nomes das ladeiras soteropolitanas e em quais categorias toponímicas se evidenciam as tendências denominativas que têm os nomes das ladeiras da cidade do salvador.

Tem-se como objetivo o estudo toponímico das ladeiras da cidade de São Salvador da Bahia, analisando vocabulário toponímico a partir da nomeação das ladeiras da cidade do Salvador, pesquisando a motivação toponímica dos nomes das ladeiras, categorizando suas taxes e verificando as influências étnicas, culturais e históricas dos topônimos encontrados.


Tem-se como objetivo realizar um estudo toponímico das ladeiras da cidade de São Salvador da Bahia, analisando o vocabulário partir da nomeação das ladeiras, pesquisando a motivação toponímica dos nomes das mesmas, categorizando suas taxes e verificando influências étnicas, culturais e históricas dos topônimos encontrados.
METODOLOGIA

Será utilizado na construção do presente trabalho o método investigativo sob a forma de análise teórica, exploratória, com suporte em pesquisa bibliográfica, mediante análise do vocabulário toponímico das ladeiras da cidade do Salvador, a partir da categorização taxionômica proposta por Dick (1992). Assim, serão verificados aspectos de cunho qualitativo como: etimologia, história, estrutura morfossintática, informações sobre a motivação e contexto dos termos destacados.

Para a organização do vocabulário toponímico das ladeiras serão adotados alguns critérios, a saber: levantar as lexias que configuram topônimos relativos às ladeiras da capital baiana a partir de dados geográficos fornecidos pelos órgãos competentes; apresentar as motivações semânticas para as designações dos topônimos; verificar as influências culturais, étnicas e históricas que nomearam as ladeiras soteropolitanas e elaborar as fichas toponímicas.

REFERENCIAL TEÓRICO

Os estudos lexicais abrangem diversas áreas. A área em questão é a da Onomástica ou Onomasiologia. Essa ciência tem como foco analisar os nomes próprios, seja de pessoas, a Antroponímia, seja de lugares e acidentes geográficos, a Toponímia. A pesquisa em questão trata a toponímia, palavra oriunda do grego topos ‘lugar’ + ónyma ‘nome’.



O estudo da Toponímia, como é concebido, representa mais do que a busca etimológica da origem dos nomes inscritos em um determinado código linguístico, principalmente quando procuramos parâmetros para uma abordagem contrastiva. Pesquisas voltadas a essa meta costumam apresentar dificuldades mais do que certezas. Implicam não apenas no conhecimento do meio em que os designativos se constroem como, muitas vezes, no conhecimento do meio próximo ou vizinho (DICK, 1990).

A Onomástica, como parte do sistema comunicativo, terá condições de fixar ou retratar, de modo direto, os elementos indiciais prioritários da comunidade que analisa. Do ponto de vista da formação gramatical, o topônimo não pode ser considerado apenas como uma unidade léxica genérica porque recobre funções sintagmáticas, de verdadeiros enunciados modais.

Segundo Dick (1990), o topônimo é o vínculo existente entre o objeto denominado e o denominador, pois é a partir desse produto gerado que será possível recuperar as motivações semânticas que influenciaram o homem no ato da nomeação, já que suas percepções ficam registradas nos elementos linguísticos que constituem o topônimo.

Partindo desse pressuposto, Dick estabeleceu um quadro taxonômico que apresenta classificações possíveis de enquadrar os topônimos brasileiros baseando-se em motivações físicas (aspectos geográficos) e antropoculturais (referentes ao meio social, cultural ou a aspectos psíquicos). Percebendo a necessidade de uma terminologia científica que abrangesse a nomenclatura da geografia do Brasil, a autora publicou, em 1975, um primeiro modelo taxonômico com dezenove taxes (DICK, 1990) e, em 1980, diante da necessidade de ampliar o sistema classificatório dos topônimos brasileiros, o quadro ganhou mais oito taxes, chegando ao total de vinte e sete. A pesquisa se fundamentará nesse sistema classificatório com algumas adaptações, caso seja necessário.
A cidade do Salvador e suas ladeiras

A cidade do Salvador, a mais antiga capital do país, foi fundada há 466 anos, sob o símbolo militar dos fortes, tendo em vista o controle do território pelos colonizadores portugueses. O critério militar era estrategicamente defensivo.

Do alto, hoje nomeado como Cidade Alta, semelhante a um mirante, era possível a observação permanente da entrada da Baía de Todos os Santos, com finalidade de precaver e dificultar o acesso de invasores ao “centro” da cidade, também com caráter logístico.

O despenhadeiro da falha geológica de Salvador possibilitaria a divisão da cidade em dois planos e, a um só tempo, repartiria as atividades: no alto, a Cidade Alta se consolidaria em local de moradia, do comércio a varejo e das atividades político administrativas. No declive da encosta, a Cidade Baixa, era onde se desenvolviam os locais de trabalho, do comércio por atacado e das intensas atividades portuárias. Ao longo do seu desenvolvimento e expansão demográfica, ocorreria não sem diversos e graves acidentes decorrentes dos deslizamentos de terra, a ocupação das áreas da própria escarpa, principal elo entre as áreas alta e baixa.

Tal separação geomorfológica, contudo, implicaria em um impedimento à articulação entre os dois níveis, com contratempos à mobilidade da população e, em particular, à elite que residia na parte alta da cidade, mas mantinha atividades empresariais na parte baixa.

Era evidente a necessidade de criar meios de comunicação e deslocamento entre as autoridades governamentais, que ocupavam a cidade alta, e as atividades comerciais, abaixo da montanha; e de transporte para os mais variados tipos de mercadorias que chegavam ao porto ou nele seriam embarcadas.

Para resolver o problema do desnível conferido pela geomorfologia do terreno, foram construídos pelos jesuítas os primeiros guindastes (que se tornariam nos recém recuperados planos inclinados) movidos, então, pelo esforço da mão de obra escrava e abertos tortuosos caminhos e ladeiras, além de rampas e escadarias que possibilitariam, ao longo da encosta, as rotas para o percurso da população, de escravos e dos homens de negócios. Obtinha-se, desse modo, o resultado necessário ao primeiro sistema de circulação e transporte de pessoas e mercadorias na Salvador do século XVI.

Os estudos desses acidentes geográfico tem sido ao longo do tempo objeto de estudo de diversos historiadores, tomando por objeto de estudo muito mais a iconografia, face à ausência de documentos. As primeiras construções em Salvador foram estabelecidas na Praia, também chamada Ribeira (parte baixa), onde foram levantados barracões, um armazém e a pequena capela, consagrada à Nossa Senhora da Conceição.

Na cidade alta, o mestre Luís Dias faria erguer uma muralha a fim de cercar o núcleo urbano inicial. Desde então, mesmo bastante íngremes, duas ladeiras se mostrariam indispensáveis para os trabalhos de construção do núcleo matriz e para a comunicação de pessoas e coisas, interligando as partes baixa e alta da Cidade: Ladeira da Conceição e Ladeira da Preguiça. Daí em diante diversas ladeiras entrecruzaram a cidade do Salvador unindo a cidade baixa a alta.

Em Estudo toponímico de ladeiras: o sobe e desce soteropolitano, veias condutoras da população soteropolitana, ressalta sua importância histórica e contemporânea. Embora a capital baiana traga na sua dinâmica interior um espaço desigual, as ladeiras permanecem fundamentais no cotidiano da Cidade.


Referencias Bibliográficas

ABBADE, Celina Márcia de Souza. O estudo do léxico. In: TEIXEIRA, Maria da Conceição Reis; QUEIROZ, Rita de Cássia Ribeiro de; SANTOS, Rosa Borges dos (Org.). Diferentes perspectivas dos estudos filológicos. Salvador: Quarteto, 2006. p. 213-225.


ALMEIDA, Lana Cristina Santana de. Contribuições da Semiótica aos estudos toponímicos: estudo de caso dos topônimos das comunidades rurais de Santo Antônio de Jesus – Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/21781/12562. Acesso em 13 out de 2014.
BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia, 2. Ed. Campo Grande, Ed. UFMG, 2001.
CARVALHINHOS, Patrícia de J.; ANTUNES, Alessandra M. Princípios teóricos de toponímia e antroponímia: a questão do nome próprio. Disponível em: . Acesso em: 3 set. 2014.
DICK, Maria Vicentina P. A. Toponímia e antroponímia do Brasil: coletânea de estudos. 3. ed. São Paulo: Serviço de Artes Gráficas da FFLCH/USP, 1992.
___________. A motivação toponímica e a realidade brasileira. São Paulo: Arquivo do Estado, 1990.
–––––––. Toponímia brasileira: os estudos que faltam. Toponímia e Antroponímia no Brasil. Coletânea de estudos. 2ª ed. São Paulo : FFLCH/USP, 1990.



1 Mestranda do programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens(PPGEL) da Universidade do Estado da Bahia(UNEB), sob a orientação da Profª Drª Celina Márcia de Souza Abbade.

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