1 Os deuses; eles existem 1 Os deuses, como para nós



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Encontro06.08.2016
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O Epicurismo e a Religião

O propósito deste trabalho é abordar a relação do epicurismo com os deuses e estabelecer os pontos que diferem o pensamento epicurista do pensamento religioso de uma meneira geral através dos seguintes pontos:



1 Os deuses; eles existem

1.1 Os deuses, como para nós...

1.2 Os deuses, objetos indestrutíveis, são fracamente objetos

1.2-a O conhecimento segundo o número

1.2-b O conhecimento segundo a similitude

1.2-c Os deuses têm uma forma humana?

2 Os “deuses existem como deuses”

2.1 Deus é deus

2.2 Epicuro “e” seus deuses

3 Não existe religião epicurista

“Os deuses, para Epicuro, não têm como função “levantar um problema”. Eles são uma realidade cuja consciência filosófica produz a imediatez (à custa da evacuação da opinião falsa). A função dos deuses no sistema não é, absolutamente, “abrir” a vida humana para um além a ser conquistado ou merecido. Os deuses não são objeto de uma fé nem de uma busca, menos ainda de uma inquietação. Pelo contrário, seu papel é servir de referência intelectual e ética para a determinação do que é a sabedoria feliz.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.55)



1 Os deuses; eles existem

1.1 Os deuses, como para nós...

“Porque são objetos, os deuses são conhecidos segundo a modalidade geral do conhecimento dos objetos: são sensíveis e o vestígio-lembrança que eles deixam é uma prolepse1. Entretanto, já nesse nível de análise, não sendo os deuses objetos quaisquer, a



1 A prolepse é um vestígio de uma percepção anterior que permite subsumir uma percepção atual sob noções gerais quanto seja necessário. Vemos, por exemplo, vários cães, e formamos, a partir dessas experiências, uma prolépsis de cão. Quando encontrarmos outro cão, iremos adquar esta prolépses a este novo cão e assim o reconheceremos.

prolepse que lhes corresponde não é uma prolepse qualquer. Eles são conhecidos “diretamente pelo espírito”. Os átomos que constituem os seres divinos são tão sutis, vêm de tão longe e têm tantos obstáculos a atravessar antes de chegar até nós, que atingem nosso espírito sem que nossos sentidos percebam (nenhum de nós tem consciência de perceber a existância divina). Porém, é preciso admitir que, já que eles sãop objetos, são perceptíveis e percebidos.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.56)



1.2 Os deuses, objetos indestrutíveis, são fracamente objetos

Em outro lugar, ele diz que os deuses são conhecidos pelo pensamento, (e então eles existem segundo número), ou segundo a similitude (pelo contínuo fluxo de simulacros que se lhes assemelham). Eles têm uma forma humana.” (Escólio que Diógenes Laércio acrescentou à primeira Máxima soberana)



1.2-a “O conhecimento “segundo o número” (kat’ arithmon). É este que individualiza; tem como objeto o objeto singular num conjunto de seres que têm traços em comum. Algo que tem um número (ordinal): tal ou tal entre os deuses, que é tal, mesmo

pertencendo a uma classe de similares. Esse conhecimento individualizante parece produzir-se “pelo pensamento”. Seriam os átomos dos deuses mais tênues do que aqueles que costituem os outros objetos, e chegariam os seus simulacros ao nosso pensamento sem ter despertado nossos sentidos (recebendo-os estes através de uma percepção insensível, aquém do limiar em que percebem conscientemente)?”

(DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.56-57)

1.2-b “O conhecimento “segundo a similitude” (kat’ homoeideian). Produz-se ele “por um afluxo contínuo de simulacros semelhantes”. Nesse caso, a prolepse corresponde à “natureza divina”; ela não permite individualizar os deuses, é genérica. Talvez os átomos sutis, os simulacros (que são materiais, que vêm de algum lugar e esse lugar só pode ser este ou aquele deus, um indivíduo-deus), se encontrem, se agrupem, se confundam, e nos cheguem juntos, só representando o gênero, o gênero “ser divino”, indistintos quanto ao indivíduo que os emitiu (este ou aquele deus), mas perfeitamente diferenciados quanto ao gênero ao qual pertencem (é um deus, manifestado por um simulacro do gênero divino).” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.57)

Obs: “Em nenhum momento encontra-se a afirmação de que os deuses sejam eternos. Eles são in-corruptíveis, aphthartoi, palavra de caráter negativo, declinada a partir do verbo phtheiro, que significa apodrecer, corromper, alterar. O que se constata, quando se percebem ous se pensam os deuses, é que não existe nenhuma razão atual para a sua destruição.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.57)

1.2-c “Os deuses têm uma forma humana”?

éè impossível para ti que creias que as santas moradas dos Deuses se encontrem em alguma parte do mundo. Sutil é realmente a natureza dos Deuses e, embora além do alcance dos nossos sentidos, dificilmente concebível até para o espírito. Ora, como ela escapa ao contato e à apreensão de nossas mãos, não pode necessariamente tocar nenhum dos objetos que são sensíveis para nós: pois o tato é impossível para tudo o que é intangível. Eis por que suas moradas devem ser tão diferentes das nossas, e sutis como a sua própria substância...” (versos 146 a 194 do Livro V do De Rerum Natura)

Agora, que causa difundiu entre as grandes nações a idéia da divindade... Não é tão difícil dizer-lhe a razão.

De fato, naquela época longínqua, os mortais, mesmo acordados, viam em sua imaginação figuras de deuses de beleza sem igual.

Ó raça infortunada dos homens, que atribuiu aos deuses tais efeitos e neles viu cóleras crueis! Quantos gemidos presparastes então para vós mesmos, quantas chagas para nós, quantas lágrimas para nossos descendentes!”(De Rerum Natura, Livro V, 1161-97)

2 Os deuses “existem como deuses”

2.1-Deus é deus

O que te aconselhava sempre, esses ensinamentos, pratica-os e medita neles, vendo claramente que são os elementos constitutivos da vida feliz. Em primeiro lugar, considerando o deus como um ser vivo, incorruptível e feliz, de acordo com a noção comum que deles temos, não lhes atribuas nada de oposto à sua incorruptiobilidade nem de incompatível com sua beatitude. Pensa sobre ele tudo o que é capaz de proteger a sua incorruptibilidade supremamente feliz. Porque os deuses existem. Porque o conhecimento que temos deles é evidente. Mas eles não existem como a maioria crê, pois na verdade ela não os representa coerentemente como o que crê que eles sejam. Ímpio não é quem elimina os deuses aceitos pela maioria, e sim quem aplica aos deuses as opiniões da maioria.” (Início da Carta a Meneceu. D.L. 123)



2.2-Epicuro “e” seus deuses

A relação que o sábio mantém com os deuses:

a) A admiração dos deuses - Não existe amor aos deuses no Epicurismo e nem amor dos deuses em relação aos homens. Os deuses são objetos de “admiração intelectual e de imitação prática. São modelos.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.65)

Análise de Max Scheler sobre relação amorosa entre o grego e os deuses:

O universo, da matéria-prima ao homem, é uma grande cadeia de unidades espirituais dinâmicas, em que o inferior tende para o superior, o atrai sem ser atraído por ele e tende, por sua vez, para o elo seguinte, e assim por diante até a Divindade que, esta, não ama mais, mas costitui o fim eternamente imóvel que faz a unidade desses múltiplos movimentos de amor... Aqui, o mamor é apenas o princípio dinâmico do Cosmo que anima esse vasto Agon das coisas em direção à Dinvindade.” (SCHELER, Max. L’homme du ressentiment, trad. Francesa do texto de 1919, Gallimard, “Les Essais” 1958, p. 69-70))

b) “O culto epicurista dos deuses: uma relação sem religião. A relação que o sábio epicurista mantém com os deuses pode, se quisermos, chamar-se culto; um culto sem amor, com forte conotação ética de encorajamento, mas cuja dimensão cosmológica é nula, e cujo alcance metafísico é inexistente.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.66)



3 Não existe religião epicurista

“ A menos que se compreenda a palavra “religião” num sentido tão vago que ela seria intelectualmente inutilizável, não há uma única proposição, entre todas as que exprimem a consciência religiosa, que não seja diametralmente contrária ao pensamento epicurista.” Características constitutivas da categoria religiosa:

- “A essência do homem religioso, tanto individual quantro “genérica”, se representa primeiramente para si mesma como exterior à sua própria existência.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.67-68)

- “Na religião, Alguém é detentor do sentido. A ausência de sentido imediato (ou intelectualmente mediatizado) não é vivida como negatividade absoluta, nem como desvanecimento puro e simples. O sentido está depositado, e não apenas em um Além, onde estaria inutilmente para deixar-se desejar pela consciência da falta; e ele é o sentido muito real de um Ser, ou de vários Seres, onde encontra a sua plena atualidade e a sua efetividade.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.68)

- “A consciência religiosa exige ser dolorosa e cultiva uma inquietação constante. A conformidade das práticas (que poderia, afinal, comprovar a legalidade religiosa dos comportamentos) é sempre acompanhada de uma incerteza (que se deve à sua natureza insaciável) quanto ao indefinido da purificação exigível.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.69)

- “Não é essencial para a consciência religiosa instituir um clero. Entre as grandes religiões monoteístas, só o catolicismo instituiu um clericato perfeito. No catolicismo, o clero é sacramentalmente consagrado; só ele é depositado de sentido, e o restitui em troca de um poder social.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.70)

- “Essencialmente, a religião não comporta nenhum humanismo estrutural; eticamente neutra, a categoria antropológica que ela constitui se fenomenalizouy diversamente ao longo da história, adaptando-se às suas coerções. As religiões mais evoluídas, mais tardias, as que tiveram mais cedo relações com sociedades de forte evolução, desenvolveram éticas mais abertas do que aquelas que sobre as quais as coerções da sociedade global se exerciam de modo mais frouxo, e que viveram mais tempo – e talvez ainda vivam – sua autonomia relativa.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.71)

“Os deuses epicuristas são objetos fracos, ou melhor, são fracamente objetos. Por razões diferentes mas análogas às que nos fizeram descobrir princípios materialistas fortes e um empirismo fraco, o epicurismo nos apresenta uma enunciação forte dos caracteres da divindade (do fato de ser divino) e uma teologia fraca. Fraca não por negligência ou insuficiência, mas fraca por estrutura.” (DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.71)



Bibliografia:

(DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Trad, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993. P.55-72)


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