1. programa de desenvolvimento de vargem das flores



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4.4. Processos Geodinâmicos


Por processos geodinâmicos compreendem-se quaisquer transformações composicionais, das condições de estado e estruturais da terra, incluindo transformações morfológicas da superfície. Embora interdependentes, os processos geodinâmicos costumam ser agrupados em duas classes — a dos processos endógenos, desenvolvidos à custa da energia interna do planeta, obtida da desintegração dos elementos radioativos, e a dos processos exógenos, devidos à radiação solar, à energia gravitacional dos sistemas Terra - Sol e Terra - Lua (marés) e a associada aos desnivelamentos gerados pelos processos endógenos (orogênese e epirogênese). Considerando esta última modalidade de energia, compreende-se que os processos endógenos constituem uma etapa necessária, ou preparatória, para a instalação de processos exógenos, cujo resultado final tende a ser a anulação desses desnivelamentos. (Estes últimos todavia são permanentemente recriados pela dinâmica interna).
Os processos geodinâmicos que, por sua incidência efetiva ou potencial na área, importa caracterizar objetivamente são os de erosão e movimentos de massa, transporte e deposição (assoreamento). A ocorrência destes processos identificada através de foto-interpretação e trabalhos de campo está registrada no Mapa 1 e documentada através do Relatório Fotográfico, ambos apresentados em anexo.

4.4.1. Erosão


Em nossas condições de clima a erosão natural é um processo eminentemente dependente dos fatores geológicos (infraestrutura) e dos ligados às características da cobertura vegetal (superestrutura). A presença humana altera mais ou menos drasticamente o quadro da superestrutura e localizadamente o da própria infraestrutura (atividades de mineração, operações de terraplenagem, aração, capina).
Os processos de erosão podem ser esquematicamente agrupados em dois tipos básicos — a erosão laminar (sheet erosion) e a linear (gully erosion). Na erosão laminar partículas do solo superficial são individualmente destacadas pela ação de agentes diversos e assim disponibilizadas para o transporte, que pode ser feito pelo vento (regiões áridas), ou em superfícies descobertas por terraplenagem, aração, capina, e pela água em escoamento disperso.
A erosão linear começa a ocorrer quando, sob condições topográficas determinantes, os filetes convergem, ou quando esta convergência é imposta por trilhas implantadas por animais e pela ação humana (trilhas, estradas, valas divisórias, canaletas de drenagem). Na erosão linear acentua-se a influência das características do terreno na configuração que vão assumindo as feições resultantes da erosão. Para a erosão do tipo voçoroca, extensamente ocorrente na área, embora não revestida sempre de uma completa tipicidade, em estágios avançados do seu desenvolvimento, prevalece um conjunto de fatores geopedológicos predisponentes e climáticos, atuantes, quais sejam: o substrato gnáissico revestido de espesso manto de intemperismo pedologicamente diferenciado; regime de chuvas de verão concentradas no período outubro - março, seguidas de acentuada estiagem no período abril - setembro. Os primeiros proporcionam horizontes superficiais de solos argilosos, vermelhos, dotados de coesão significativa para a manutenção de paredes subverticais por períodos prolongados, seguidos descendentemente de materiais de tonalidades variadas, predominando o róseo, siltosos, e do saprólito, também envolvido no processo erosivo. O fator climático proporciona as chuvas torrenciais, que promovem a erosão superficial e desbarrancamentos, e as chuvas prolongadas, que respondem pela elevação do lençol freático, sempre oscilando no saprólito e no material siltoso.
A ação solidária do escoamento hipodérmico nas zonas siltosa e saprolítica, promovendo a erosão interna, e do escoamento superficial, promovendo erosão e remoção dos materiais erodidos, respondem pelo essencial da dinâmica desse processo, que se aquieta naturalmente na estiagem. Em condições naturais, o processo evanesce com o tempo quando a feição se aproxima, sem transpô-lo, do topo da vertente.
As voçorocas ativas e suas feições reliquiares estão extensamente distribuídas na área e particularmente concentradas na porção noroeste. É praticamente impossível, de tais feições, encontrar uma da qual se possa dissociar inteiramente o contributo humano. Sem a pretensão de oferecer datações rigorosas, as mais antigas e abrigadas de uma ação humana efetiva atual, já inteiramente retomadas de vegetação, ou com seus contornos acentuadamente suavizados, poderão ser mesmo anteriores à chegada dos Bandeirantes, mas terão contado com a contribuição antrópica indígena, muito mais eficaz do que se lhe tem atribuído; de idade intermediária são as do Ciclo do Ouro, provocadas por roçados, por caminhos de boi e valas divisórias. A fase atual, de estradas rurais, do trator agrícola, da monocultura e da urbanização, é uma fase de abertura de feições novas, de reativação, e de entulhamento, também propositado e muitas vezes mal conduzido. CARVALHO (1992,a, b) apresenta um resumo dos mecanismos essenciais desse tipo de erosão e de formas básicas de promover a reabilitação das áreas afetadas.

Os locais típicos de ocorrência das voçorocas são os flancos da Superfície de Topo, que, ao cabo do processo, cede as áreas afetadas para a Superfície de Transição. As outras modalidades de erosão linear e laminar podem desenvolver-se igualmente na Superfície de Topo e na Superfície de Transição.


4.4.2. Movimentos de Massa


Embora pudessem ser incluídos em erosão, tomada em sentido lato, vale a pena distinguir os movimentos de massa porque nestes, diferentemente da erosão, as partículas são mobilizadas coletivamente, podendo envolver porções de solos e de rochas em escorregamentos bruscos ao longo de uma superfície, coincidente ou não com descontinuidades geológicas pré-existentes.
Nos trabalhos de foto-interpretação não foram indentificadas feições reliquiares inequivocamente atribuíveis a fenômenos do tipo. Todavia em muitas áreas côncavas da Superfície de Transição, ou nas transições estreitas da Superfície de Topo para a Calha Aluvial, há indícios de terem ocorrido escorregamentos (que poderiam ter sido ativados localmente por processos naturais, como, por exemplo, por perda de resistência consequente a entulhamento do vale e ascenção do lençol freático ou reentalhe devido à remoção de níveis de base locais ).
Não obstante esta indefinição quanto a processos generalizados de movimentos de massa em passado remoto, sem dúvida justifica-se tratar tais indícios de instabilidade com espírito conservador e preventivo, principalmente nas hipóteses de construção residencial e de execução de cortes viários ou para a geração de áreas planas.
Os processos de escorregamento tendem a situar-se preferencialmente no interior da Superfície de Transição e no seu contato com a Superfície de Topo.

4.4.3. Transporte


O transporte é processo natural, igualmente passível de influência antrópica, que dá seqüência ao conjunto de transformações do grupo aqui tratado de processos geodinâmicos. Nas condições de erosão eminentemente hídrica, a água, sob efeito da gravidade, é agente e veículo de transporte, com eficácia tão maior quão mais concentrada em seu escoamento e quão maiores os gradientes disponíveis. Em situações de gradientes tênues e em superfícies rugosas ou leitos irregulares ou com bloqueios de dimensões variadas, o transporte é pouco eficiente e demanda tempo variável para trasferir os materiais erodidos do sítio de que tinham sido removidos para o sítio de sua disposição final, em condições naturais o mar ou grandes depressões ocupadas por lagos. É o transporte profundamente afetado pela atividade antrópica, podendo ser quase inteiramente neutralizado pelos barramentos de grande porte, com tempos prolongados de residência, que proporcionam a deposição integral dos materiais arrastados e das suspensões mecânicas. Nos reservatórios de porte médio e pequeno, parte significativa dos finos pode transpor o barramento. Materiais dissolvidos podem transpor os reservatórios dentro dos limites de solubilidade permitidos pelas condições do meio.
Em condições naturais, as taxas de materiais transportados nos cursos d’água são acentuadamente pulsativas, dependendo da capacidade e competência destes, por sua vez condicionadas ao fator pluviosidade. Desta forma, mesmo em distâncias pequenas, contadas no máximo em dezenas de quilômetros, os materiais em trânsito podem sofrer numerosas paradas entre o ponto de saída e o de acomodação final.
No caso da bacia de Vargem das Flores duas circunstâncias criadas pela ação antrópica geram efeitos exatamente opostos: o efeito imperioso do bloqueio ao transporte gerado pelo barramento, criando um nível de base artificial representado pelo espelho d’água e em contrapartida praticamente todo o resto das atividades na bacia estimulando o transporte. Com efeito, o desmatamento e introdução de pastagens de criação extensiva, a agricultura e suas práticas preparatórias (aração), ou de trato cultural (capina), as estradas vicinais; a atividade de mineração de agregados e de areais; a urbanização, com o bloqueio à infiltração pelos telhados, vias asfaltadas e pátios cimentados e os sistemas de escoamento pluvial; tudo, no conjunto, concorre em geral para reduzir as taxas de infiltração e de evapotraspiração, para a concentração do escoamento e para a remoção de rugosidades, aumentando muito a eficiência do transporte.

4.4.4. Assoreamento


A conjunção do bloqueio a jusante com o estímulo ao transporte a montante com certeza tenderá a promover o rápido assoreamento, inicialmente das porções proximais dos estirões de entrada no reservatório e posteriormente nas porções distais no interior do reservatório e também nas várzeas que antecedem a entrada. No quadro até aqui vigente são escassas (e apenas por coincidências de interesses imediatos pode alguma atividade estar contribuindo para retardar o alcance do estágio final acima referido) as possibilidades de sobrevivência do reservatório em suas plenas condições operacionais. Antes disso, entretanto, inúmeros pequenos reservatórios situados na Calha Aluvial e na Superfície de Transição estarão retendo material e retardando timidamente o assoreamento do lago, quando não feitos precavidamente em posição lateral.
Existindo, portanto, em curso um processo de erosão intensa na bacia, um processo de transporte de crescente eficiência, e um destino certo fixado pelo barramento, mais proveitoso é lançar uma luz sobre as consequências mais danosas do processo de assoreamento, com vistas a mobilizar autoridades e população com a meta não de prolongar a vida útil do Reservatório, mas de garantir a sua perenidade.
Para o reservatório as consequências danosas mais óbvias do assoreamento são: a perda de capacidade de armazenamento, e assim de contribuir para o abastecimento da RMBH; a perda dos valores cênicos; a perda de profundidade, limitando seu uso para certos esportes ou para embarcações de turismo; a eutrofização difícil de remover por causa dos resíduos orgânicos inclusos nos sedimentos depositados rapidamente; o bloqueio de braços menos ativos pelos sedimentos trazidos ao longo dos mais ativos; a criação de verdadeiras armadilhas para banhistas desavisados. Na Calha Aluvial imediatamente a montante o soterramento de áreas alagadiças e brejos; transferência, ou mais propriamente surgimento de áreas desse tipo mais a montante; propagação para montante de áreas inundáveis; soterramento de vias e pisos de habitações lindeiras; comprometimento das condições de escoamento pluvial e de esgotos domésticos; ascensão do nível d’água e criação de condições de insalubridade em áreas atualmente salubres. Por consequência de todos os danos anteriormente previstos, demandas crescentes por intervenções corretivas, e portanto não geradoras de riqueza, competindo com demandas por investimentos geradores de riqueza.
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