1 Revista S/Nº, edição 15, "sede", 12. 2010 [Publicação do poema "O azra"] 2



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1) Revista S/Nº, edição 15, "SEDE", 12.2010

[Publicação do poema "O azra"]



2) Estado de São Paulo, Caderno Sabático – 12.02.2011
Raquel Cozer

POESIA
Pouco traduzido no País, Heine terá sua maior antologia

Aluno de Hegel e Bopp na academia berlinense, amigo de Balzac e Chopin na capital francesa e influência para Marx e Nietzsche, entre outros, o poeta judeu-alemão Heinrich Heine (1797-1856) terá este ano sua maior antologia em português. Heine, Hein? – Poeta dos Contrários sai em maio, pela Perspectiva, com 544 páginas e 120 poemas e textos organizados e traduzidos pelo poeta André Vallias. Considerado por Borges “o primeiro poeta alemão”, Heine não teve no Brasil registros à altura de sua importância no século 20. Houve uma única coletânea de versos, Livro das Canções, organizada por Jamil Almansur Haddad nos anos 40, com traduções em sua maioria do século 19. Outras iniciativas, como as dez versões incluídas por Décio Pignatari em 31 Poetas – 214 Poemas, de 1996, foram esparsas.

3) Revista Piauí, edição 54, março 2011

Meu amor selvagem que abre trilhas na ravina

[Publicação de 12 poemas da antologia: "Por séculos afora…", "O mundo é tolo, o mundo é cego…", "Os teus beijinhos foram tantos…", "Se nos casarmos no papel…", "Me entupiram de conselhos…", "A Edom!", "Os grandes deuses ora dormem…", "A morna fragilidade…", "Por qual das duas se apaixona…", "Uma garota, lá na praia…", "Vinte e quatro horas eu…" e "Às vezes acho que te nubla…"]



4) Folha de S.Paulo, Ilustríssima, 22.05.2011

O melhor da cultura em nove indicações

HEINE, HEIN?

Em edição bilíngue, 120 poemas de várias fases do alemão Heinrich Heine (1797–1856). A tradução do "poeta dos contrários" ficou a cargo de André Vallias que, segundo Augusto de Campos no texto de orelha, realizou a difícil arte da "transcriação", "cujo objetivo é constituir, na língua de chegada, poemas que reproduzam o impacto e a criatividade originais". Perspectiva | 544 p. | R$ 60



5) Folha de S.Paulo, Revista da Folha, Fique em casa: 22.05.2011
Manuel da Costa Pinto

O poeta do não

"Heine, Hein?" é a mais completa antologia brasileira do escritor judeu-alemão

Durante muito tempo, o poeta Heinrich Heine foi mais lido em prosa do que em verso – ao menos em português. Os 120 poemas de "Heine, Hein?" tiram do exílio linguístico um autor que fez do exílio uma forma de ser do contra.

À parte traduções esparsas de Manuel Bandeira, Nelson Ascher ou Marco Lucchesi, o escritor nascido em Düsseldorf em 1797 (e morto em Paris em 1856) frequentava as prateleiras com o romance "O Rabi de Bacherach" e o ensaio "Os Deuses no Exílio".

No entanto, seu "Navio Negreiro" foi fonte do poema homônimo de Castro Alves, além de ser mencionado por Machado de Assis numa página sobre a abolição da escravatura em "Memorial de Aires".

A edição bilíngue de André Vallias lembra que Heine já foi vertido por Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo, que Sousândrade se refere a ele obliquamente em "O Inferno de Wall Street" e sugere um plausível eco dos versos "O rapaz ama uma jovem/ Que deseja outro rapaz; / Este de outra se enamora. / Lá se vão ao juiz de paz" em "Quadrilha", de Drummond.

As traduções de Vallas arriscam a coloquialidade do cancioneiro popular: "Se nos casarmos no papel, / Então vão todos te invejar; / Hás de passar a leite e mel / Os dias de papo pro ar". Respeita, porém, a modulação entre a lírica jocosa e uma fábula como "Ratos Retirantes" ou uma sátira política como "Novo Hospital Israelita de Hamburgo": "Um prédio pro judeu doente e pobre, / Aos homens triplamente miseráveis, / Pr'aqueles que padecem de três pragas: / Pobreza, enfermidade e judaísmo!"

Judeu errante, o "fugitivo de Düsseldorf" foi um romântico antirromântico e um alemão anti-germânico.

Daí, talvez, o subtítulo escolhido por Vallias: "Poeta dos Contrários" – poeta das contradições, poeta do não.

6) Revista Veja, edição 2218, Veja recomenda: 25.05.2011

HEINE HEIN? – POETA DOS CONTRÁRIOS
(TRADUÇÃO DE ANDRÉ VALLIAS; PERSPECTIVA; 544 PÁGINAS; 60 REAIS)

O amigo francês Gérard de Nerval disse que Heinrich Heine (1797-1856) era o "homem dos contrários". Sentimental e sarcástico, bucólico e cosmopolita, esse judeu alemão que frequentava as altas rodas literárias de Paris parece realmente comportar vários poetas em um só. Era capaz de versos do lirismo mais singelo e puro, que parecem pertencer ao cancioneiro popular anônimo – caso de A Lorelai, poema sobre uma espécie de sereia do Rio Reno. Mas tambémera um afiado ironista em peças de crítica social – como Navio Negreiro, provável inspirador do poema de mesmo título de Castro Alves – que antecipam o engajamento de um BertoIt Brechr. Embora seja um nome central da literatura alemã, Heine era esparsamente traduzido no Brasil, o que faz desta antologia bilíngue um item essencial na biblioteca dos apreciadores da grande poesia. Ao lado de trechos de prosa de e sobre HeÍne, o livro traz 120 poemas traduzidos com grande sensibilidade por André Vallias, cobrindo rodas as fases da multifacetada produção do poeta alemão.



7) Estado de São Paulo, Caderno Sabático: 28.05.2011
Márcio Seligmann-Silva

Versos de dois mundos

Coletânea traz o melhor do alemão Heinrich Heine, um autor dividido entre culturas

Com o lançamento de Heine, Hein?: Poeta dos Contrários, precisamos reintroduzir o conceito de urgência no campo da literatura – vale dizer, alterar nossas prioridades. Como escreve Augusto de Campos em sua apresentação na orelha do volume, essa publicação é um dos maiores acontecimentos editoriais no Brasil dos últimos anos. O responsável é André Vallias, que não apenas fez uma seleção de 120 poemas, retirados dos quatro livros poéticos de Heine (1797-1856), sendo alguns do seu espólio, como também incluiu em sua coletânea as deliciosas Cartas de Helgoland (que marcaram muito o último Freud) e outros excertos em prosa.

O resultado é um impressionante e único panorama, nessa escala, da obra de Heine em português. A edição, que contém ainda os poemas em alemão, vem reforçada por um precioso e bem-humorado texto de introdução e por um adendo alentado sobre Heine e sua obra. A tradução é um capítulo à parte. Vallias realizou um trabalho muito cuidadoso de tentativa de resgate daquele que é um dos maiores poetas de língua alemã. Por conta de seu estilo de tradução ao mesmo tempo fiel, que se esforça por levar em conta a sonoridade da poesia, e também marcado por uma saudável ironia, eu arriscaria dizer que Vallias se aproxima do modo do poeta, crítico e tradutor Nelson Ascher encarar essa ponte entre as línguas.

Anatol Rosenfeld descrevia Heine como um déraciné, nascido em uma casa já sem tradição, num universo de judeus semiemancipados, que o marcaria como um marginal, alguém condenado a viver entre dois mundos. Um estranho. Heine teria um anseio de integração, uma sede de amizade, ao lado do aguilhão e da necessidade do deslocamento. Nesses poemas e na prosa aqui reunidos, vislumbramos também um humor mordaz e cortante, destilado a partir de sua situação de estrangeiro em todas as pátrias, ou seja, tanto na Paris, onde viveu boa parte de sua vida, como na cultura alemã, da qual se distanciou, mas sem nunca abandonar o seu idioma. De fato, Heine foi um poeta dos contrários e, a partir de sua posição singular na sociedade, pôde desmascarar o lado filistino de sua época.

Ele que foi, antes do francês Charles Baudelaire (1821-1867), um dos inventores da modernidade, soube como poucos expressar e mesmo inventar a nossa intimidade. Seu poema De Manhãzinha é uma perfeita antecipação de um dos melhores e mais conhecidos poemas de Baudelaire, A Uma Passante.

Heine precisa ser mais lido entre nós. É uma questão, ousaria afirmar, de primeira necessidade.

Márcio Seligmann-Silva é professor de Teoria Literária da Unicamp e autor, entre outros trabalhos, de O local da diferença (Editora 34)

8) O Globo, Prosa & Verso: 4.06.2011
José Castello

Heine, quem?

Tenho um amigo, leitor apaixonado de "A metamorfose", de Franz Kafka, que, de tanto reler a história de Gregor Samsa. incorporou-a. Arrisco-me a pensar de uma forma ainda mais dura: engoliu-a. A narrativa se instalou em sua mente e o dominou. Por longo tempo, cursando um mestrado na USP, ele precisava viajar semanalmente entre o Rio e São Paulo. Tomava os ônibus noturnos. A insônia transformava suas viagens em um tormento.

Inventou um passatempo: a cada noite, metamorfoseava-se em um personagem. Em suas travessias da Dutra, ele foi um sacerdote cético, um deputado niilista, um filósofo sertanejo, um maestro que odiava música, um porteiro racista. Com essas máscaras, passou as madrugadas a divertir (ou infernizar) seus companheiros de assento. Encontrou vítimas simpáticas, assombradas, crédulas, mas também desconfiadas, irritadas, arredias. O teatro noturno ajudou-o a não desist ir do mestrado.

Soube. mais tarde. que meu amigo, que jamais pensou em tornar-se ator, transportou, depois, suas criaturas para o papel. Tornou-se contista. Uma divergência banal nos afastou e não sei se continua a escrever. Lembrei-me dele essa semana, enquanto lia, com grande entusiasmo "Heine, hein? – Poeta dos contrários", reunião dos quatro livros publicados em vida pelo poeta alemão Heinrich Heine (Perspectiva, tradução e introdução de André Vallias).

Considerado "o último dos românticos", Heine (1797- 1856) abre, na verdade, uma ferida no corpo do Romantismo, expondo seus segredos e anunciando o Modernismo. Teve uma relação turbulenta, de "tempestade e ímpeto", com os parceiros românticos. Ainda assim, conservou até o fim a fé romântica. Escreveu em suas "Confissões": "Apesar de minhas incursões exterminatórias contra o Romantismo, eu próprio permaneci sempre um romântico, e o fui num grau maior do que eu mesmo percebia". Para não mofarem nos estereótipos, grandes escolas precisam de exterminadores. Que lhe aticem a fibra e refinem o sangue. Ao admitir que foi um romântico apesar de si mesmo, Heine fala, ainda, dos impulsos aleatórios que formam um poeta.

Sempre achei que uma das mais belas expressões do Romantismo está na tela "O monge contemplando o mar", de Caspar David Friedrich. Sob um céu imenso, que oscila entre o roxo e o negro, um minúsculo monge, só um ponto no vazio, observa o oceano. As telas de Friedrich – penso ainda em "O caçador na floresta" – retrato de um pequeno homem massacrado pela natureza – falam do peso do mundo e do modo atorduado como o suportamos. Expõem um infinito que faz de nós anões, mas também (pela coragem em resistir) gigantes. Que nos transforma em sujeitos descentrados, em homens fora do eixo, posição que Heine, em seus versos. transformou em desafio.

Retidos entre o vazio e o infinito, esmagados por paisagens incompreensiveis, os personagens românticos são vistos. quase sempre. como seres melacólicos, que fraquejam diante da realidade e que se escondem na fantasia. Sofrem do tédio e, agarrados à tela frágil da memória, preferem a solidão. A genialidade de Heine está em reverter a cena dolorosa em aventura travessa. Não que negue o vazio e o abandono. Não que não sonhe mas descobre que, em vez de condenação, o vazio é sua chance de liberdade e o sonho, sua pátria. Heine ocupa o lugar do inventor. Joga com os contrários, disfarça-se, some, reaparece, a um ponto que já não podemos dizer quem ele foi. À pergunta – quem foi Heine? – toda resposta é um risco.

Com suas manobras temerárias, Heine lutou para arrancar os românticos da apatia. Em um de seus livros mais belos, "Larga as parábolas", reunião de poemas datados de 1853 a 1855, ele escreve: "Larga as parábolas sagradas.! Deixa as hipóteses devotas / E põe-te em busca das respostas / Para as questões mais complicadas". Procurar respostas é propor perguntas – o que é sempre infernal. Em sua busca de respostas. aquele que para André Vallias foi "o primeiro poeta midiático" nada excluiu: jogou com todos os dados e agiu, sem remorsos, como um contrabandista de ideias. Não se importou com o ódio que lhe destinaram. Escreveu: "Eu rio da raposa sorrateira / Que fuça em busca do meu ponto fraco".

Contra a gosma do tédio, Heine oferece a agitaçâo do presente. No lugar da indiferença, prefere o combustível do riso. Em outro poema, preparando-se para a sepultura e as flores mortas que a decoram, um velho lamenta ter desprezado as flores. O passado deixa de ser um consolo e se transforma em horror. Colocado diante da grande frase de Hölderlin, "o homem é um deus quando sonha e um mendigo quando pensa", Heine descarta as duas opções, preferindo o fogo da ação. Ainda que ela lhe deforme o rosto; ainda que seja incoerente e, a cada passo, o desminta. Por isso temos dificuldades, ainda hoje, de dizer quem foi Heine: não porque ele se escondeu, mas porque expôs a profusão de faces que carregava dentro de si. Que todos carregamos.

Heine se via como um forasteiro, que atravessava terras movediças – a névoa romântica –, empurrado pela força dos ventos, mas que, nem por isso, recuou. Foi um andarilho feroz em meio a tímidos fantasmas. Em "Noite na praia", poema de "Nas asas da canção", ele escreve: "por onde pisa, faíscas / espirram, e os mariscos se esfarelam". As pisadas de Heine mancham o véu do Romantismo; sua figura selvagem esfarela a pose dos artistas sofredores. Heine foi um poeta da vida, ainda que isso signifique, algumas vezes, o esmagamento da poesia e sua transformação em arma de fogo.

Sentia-se sozinho, destino dos exilados e dos trânsfugas. Diz: "O mundo é tolo, o mundo é cego, / E cada vez mais descarado! (... ) / O mundo é tolo, o mundo é cego, / não saberá te dar valor". Ao empurrar o Romantismo para o palco da desfiguração, arrancando-Ihe as máscaras solenes, Heine encontrou em si mesmo, ainda assim, um romântico. Só que um romântico que já não se ilude com a própria máscara. Viva e explosiva, a poesia de Heine é, ainda assim, uma poesia noturna, que abre tênues focos de luz na imensa noite. Talvez ela deva ser ouvida, hoje, como um grito. Grito distante, que esfumaça o poder das Luzes e que denuncia o grande pântano em que os poetas caminham.

9) Zero Hora, Sonoridades: 11.06.2011
Celso Loureiro Chaves

HEINE

Agora mesmo foi lançado no Brasil Heine Hein? – Poeta dos Contrários, livro com poemas de Heinrich Heine ensanduichados entre dois ensaios do tradutor André Vallias que recolocam o poeta em seu devido lugar. Não, não me tornei subitamente crítico literário ou resenhista de lançamentos de livros. Mas é que, desde logo, André Vallias assinala que “nenhum outro autor de língua alemã foi merecedor de opiniões tão divergentes e extremadas”. Heine chegou quase a ser varrido do itinerário da literatura germânica, mais por ser judeu do que por ser mau poeta, coisa que, efetivamente, ele não foi. Nascido em 1797 e falecido em 1856, ele viveu o arqui-romantismo e foi um dos seus porta-vozes. O ano da sua morte coincide com o ano da morte de Robert Schumann, outro arqui-romântico dado a acessos de trabalho febril. Aí está: desprezado pelos literatos, Heine foi presença central na música, para além da coincidência de datas.

A primeira metade do século 19 foi o lar de muitos compositores que por pouco não simbolizam o todo do século em música. Os dois Schumann (Clara e Robert), os dois Mendelssohn (Fanny e Felix), os dois Franz (Schubert e Liszt), para ficar só no circuito germânico que muitas vezes extravasava em direção a Paris e lá intersectava Chopin e Berlioz. Heine fez o mesmo: também ele passeou por Paris, e André Vallias cita um dos ataques mais violentos a ele, vindo de outro literato judeu, Karl Kraus: “Sem Heine nenhum folhetim. Essa é a doença francesa que ele nos inoculou. Como é fácil ficar doente em Paris!”. A “doença francesa” era a sífilis, o fantasma daqueles tempos que levou consigo Schubert, Schumann e Heine. Eram tempos românticos, sem dúvida, e não se deve esquecer que um dos corolários do romantismo é o de que o herói deve sempre morrer no final e, de preferência, de sina ignominiosa.

Vamos à música, no entanto, que já é hora. Em Heine Hein?, há traduções de vários poemas que foram musicados no próprio tempo de vida de poeta. Nas escolas de canto instaurou-se hoje o costume de levar o aprendiz-cantor a traduzir os poemas que canta, para que bem entenda as palavras estrangeiras que está enunciando. Ora, com boas intenções também se comete enganos... Pois o que se busca nas academias é não mais do que a tradução literal e, convenhamos, tradução literal é pior que má tradução. O ritmo da escrita se perde, as sutilezas do idioma são apagadas. Resta do poema a ossatura inerte e, ainda por cima, em mau português. Esta é a conclusão cruel a que se chega lendo as traduções de André Vallias, que são minuciosas e precisas no seu esforço bem sucedido de fugir do literal e de manter o ritmo e a coloquialidade do original.

Que cantor não se admiraria de ler, ao invés de um formal “Eu não me queixo!”, um “Não vou chiar!” na tradução de Ich Grolle Nicht, canção célebre de Robert Schumann: “Não vou chiar! Se o coração despedaçar, perdido amor, ainda assim não vou chiar!”. Também a Lorelai, criatura mítica confundida com as sereias dos piratas, ganha logo na primeira estrofe uma informalidade que alivia: “Eu não sei como explicar por que ando triste à beça” e é nesse mesmo poema que está uma tradução muito feliz do verso “Der Gipfel des Berges funkelt im Abendsonnenschein”, livre como deve ser toda a tradução: “Na montanha, a luz se esvai faiscando no ar”. Bom, não é?

Esses dois poemas foram musicados pelos dois Schumann. Robert musicou Não vou chiar!” no meio do seu ciclo de canções O Amor do Poeta, todo baseado em poemas de Heine e que traça o percurso de um poeta infeliz desenganado de amor. Clara Schumann musicou Die Loreley, com inspiração verdadeiramente schubertiana, como se a história fosse um daqueles romances fantásticos do romantismo, quem sabe um Frankenstein, de Mary Shelley. Franz Liszt também musicou Die Loreley, mas no seu caso a canção é quase um minidrama wagneriano.

São muitas as canções que partem de Heinrich Heine e se transformam no melhor da canção do século 19. Tome-se Heine Hein? entre as mãos e, cotejando a tradução com a voz que canta, ouça-se Robert Schumann. Por exemplo, A Flor de Lótus e Os Dois Granadeiros. Ou Clara Schumann, que vai além de Die Loreley e coloca em música Num Sonho Escuro que Franz Schubert, o primeiro a transformar Heine em canção, também musicou, semanas antes de morrer. E, se não for possível evitar, ouça-se Nas Asas da Canção, de Felix Mendelssohn, a mais famosa de todas as canções baseadas em Heine mas que representa aquilo que o pianista Charles Rosen uma vez chamou de “o brega romântico”. Enfim, é o próprio Heinrich Heine que nos ensina que devemos deixar preconceitos de lado e tomar a música pelo que ela vale. Pois, afinal de contas, como ele escreveu certa vez: “Não, não sabemos o que a música é. Mas o que música boa é, isto certamente sabemos, e sabemos o que é música má com ainda maior precisão, pois todos a temos ouvido bastante”.

10) Revista Cult, edição 158, junho 2011

Lançamentos



Heine, Hein? – Poeta dos Contrários
Heinrich Heine
Trad.: André Vallias

Com 120 poemas, a antologia em edição bilíngue é a mais abrangente já publicada em português do escritor alemão Heinrich Heine (1797–1856), considerado por Augusto de Campos "um dos maiores poetas de língua alemã de todos os tempos". O livro traz ainda cerca de 50 fragmentos extraídos de sua obra em prosa e correspondência.



11) Folha de S.Paulo, Guia Folha (Livros, Discos, Filmes), 24.06.2011
Heitor Ferraz Mello

Romântico e político

Não foi pequeno o trabalho de tradutor do poeta André Vallias. Em "Heine, Hein? – Poeta dos Contrários" ele nos apresenta uma rica antologia de poemas e textos em prosa do poeta romântico alemão Heinrich Helne (1797-1856). A edição, talvez uma das mais gordinhas da coleção Signos (544 páginas, 120 poemas traduzidos), dirigida atualmente por Augusto de Campos, foi preparada com muito zelo, dando a conhecer o poeta, com seus poemas, e o prosador político, com excertos da vigorosa escrita de Heine, tanto em cartas, como em artigos de época. A montagem de Vallias seguiu a ordem cronológica, inserindo os poemas dentro de um contexto mais vasto apresentado pela prosa de ocasião. Ou seja, a cada grupo de poemas há sempre um texto, ou mais, que os colocam na corrente da história e da biografia do poeta alemão.

Esse é já um primeiro ponto positivo dessa boa antologia. Vallias lembra em seu prefácio que Heine recebeu pouca atenção dos tradutores no Brasil.

Entre as edições, ele cita a antologia "Livro das Canções", feita por Jamil Amansur Haddad, e que reunia importantes traduções do século 19. Neste ponto, seu trabalho cumpre com uma importante missão: colocar em circulação essa poesia incansavelmente irónica, como se pode perceber

em vários poemas do livro, como em "Curso do Mundo": "Quem tem muito, logo, logo,/ Muito mais vai ter ainda./ Quem tem pouco, até o pouco / Perde e fica na berlinda. // Se não tens onde cair, / Vai, proleta, te enterrar! / Nesta vida, só quem tem – /Tem direito de ficar".

Além disso, Vallias também traduziu o poema "Navio Negreiro", de 1853, que inspirou o poema homônimo de Castro Alves, de 1868. Na composição do livro, o tradutor incluiu, como prefácio ao poema, uma passagem de "Memorial de Aires", de Machado de Assis, em que a ironia vaza na passagem sobre o nosso 13 de Maio.

É de se estranhar o subtítulo da antologia, "Poeta dos Contrários", que fica um pouco sem pé. Algo que se repete na Introdução da obra, quando Vallias, com alguma liberdade, aponta pelo menos duas vezes para o lado tropicalista ou antropofágico de Heine – conceitos que não cabem no caso do alemão, e que acabam por esfarinhar o carácter político e engajado desta literatura.

Avaliação: Ótimo.

12) Folha de S.Paulo, Ilustrada: 27.07.2011
Marcelo Coelho

Heine

Para algum prêmio literário (não sei qual) já tenho forte candidato este ano.

É a grande (540 páginas) antologia dos textos do poeta alemão Heinrich Heine (1797–1856), traduzidos por André Vallias para a editora Perspectiva.

Fale-se em "cultura alemã" – e nossa reação é sacar do bolso a cuíca e o tamborim. Não há quem não tenha medo da profundidade elefantina das declamações wagnerianas, para nada dizer das sinfonias de Bruckner (mas o coitado era austríaco) e da filosofia de Kant.

Amigo de Chopin, de Alexandre Dumas e de Balzac, Heine – que era judeu e exilou-se em Paris – não podia estar mais longe desse estereótipo germânico.

Seu estilo é leve, fantasioso, irônico e romântico ao mesmo tempo -e Heine entendia de Carnavais. Manuel Bandeira certamente se lembrou de um soneto de 1821 ("Me passa a máscara: vou desfilar/ De plebe... Me passa, eu vou vestir-me de gentalha") em um dos poemas de seu "Carnaval", quase cem anos depois: "Quero beber! Cantar asneiras...".

Mas a influência de Heine sobre a literatura brasileira não fica só no autor de "Libertinagem". Já escrevi sobre o "Navio Negreiro" do autor alemão, que inspirou Castro Alves e saiu em nova tradução em português em 2009 (editora SM).

André Vallias, nas excelentes análises que acompanham sua tradução, especula se o célebre "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade ("João amava Teresa que amava Raimundo") não teria seu antecessor direto num poema de Heine, musicado por Robert Schumann: "O rapaz ama uma jovem / Que deseja outro rapaz / Este de outra se enamora, / Lá se vão ao juiz de paz"...

Muitos versos de Heine viraram canções, ou "lieder", como se diz em alemão. O sucesso que obtiveram na época (talvez o último caso de alta poesia virando best-seller na cultura europeia, segundo Walter Benjamin) provavelmente se deve ao fato de que Heine, como os compositores da MPB, sabia registrar, ao modo de um diário, os vaivéns, as nuances, as inúmeras situações do amor.

Traição, dúvida, promessa, raiva reprimida, descoberta mútua, ruptura, retorno: cabem todos os tons e todas as cores nas suas miniaturas.

O principal, e o que torna a poesia de Heine mais "moderna" do que romântica, e bem "brasileira" até, está na atitude de tomar certa distância, de desarmar os próprios sentimentos.

Num poema escrito aos 24 anos, Heine começa falando arrebatadamente da Lua, com um "séquito de estrelas", e do Sol da primavera. Poucos versos depois, ele conclui: "Estrelas, lua, sol e flor,/ Dois olhos lindos e canções de amor,/Por mais que nos comovam lá no fundo,/ Não mudam uma vírgula no mundo".

Essa sem-cerimônia com as próprias paixões justifica, mas não totalmente, algumas opções do tradutor, que às vezes exagera nos brasileirismos.

É o caso de "Não Vou Chiar", modo excessivamente pedestre que André Vallias encontrou para traduzir "Ich Grolle Nicht". O poema, também musicado por Schumann, é uma violenta descompostura na amante fiel, sob uma camada de fingida indiferença.

O texto, e a música de Schumann, foram traduzidos (sim, a música também pode ser "traduzida" para a linguagem da MPB) com muito mais eficácia e beleza por Arthur Nestrovski, num CD com o cantor Celso Sim. Virou, brasileiramente, "Pra que Chorar".

Mas a prosa de Heine aparece também em grande quantidade, e em traduções agilíssimas, na coletânea "Heine, Hein?" (o título é outra gratuidade criticável) de André Vallias.

Eis um trecho de uma crítica musical de Heine, a respeito do autor de "Giselle", Adolphe Adam (1803-1856). "O sr. Adam, pelo que sei, esteve na Noruega, mas duvido que lá algum feiticeiro (...) lhe tenha ensinado aquela melodia (...) que pode provocar um grande malefício: caso tocada, a natureza inteira entra em comoção, os rochedos e as montanhas começam a dançar, e as casas dançam, e, dentro, as cadeiras dançam; o avô puxa a avó para dançar; o cachorro, a gata; e até o bebê pula do berço e dança."

Essa "unificação geral" das coisas (Lua, flor, estrela, primavera, amor) se alterna, na literatura de Heine, com o princípio da separação, da ironia, da distância.

"Corto minha alma ao meio", diz ele à mulher desalmada. "Assopro-te a metade, / Te abraço, então seremos / Corpo e alma de verdade." Dancemos. Graças a esta tradução, a alma de Heine vive de novo.

13) Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte: 20.08.2011

O reino de Heine

Livro registra a trajetória do “Poeta dos Contrários”, aquele que Borges definia como “primeiro poeta alemão”



José Antônio Orlando
janeto@hojeemdia.com.br

Responda rápido: quem foi Heinrich Heine? Alguma dificuldade? Fique tranquilo. O poeta e pensador judeu alemão que viveu na primeira metade do século 19 nunca teve no Brasil um registro à altura de sua importância. A lacuna, que percorre todo o século passado, tem seu primeiro parêntesis só agora, em 2011, com o lançamento de “Heine, Hein? – Poeta dos Contrários” (Editora Perspectiva), que reúne, em 544 páginas e 120 textos, uma amostra da qualidade do autor que o mestre Jorge Luis Borges definia como “o primeiro poeta alemão”.

Influência confessa não só para Borges: boa parte dos grandes autores dos últimos dois séculos, incluindo poetas, romancistas e pesos-pesados do pensamento tais como Marx, Nietzsche e Sigmund Freud – ou ainda os cânones da língua portuguesa, de Eça de Queirós a Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, entre muitos outros, fazem referências e reverências ao “poeta dos contrários”. Aluno de Hegel na academia berlinense, amigo de Balzac, Baudelaire e Chopin, Heinrich Heine (1797-1856) foi traduzido para o Brasil pelo também poeta André Vallias.

A edição brasileira chega com saudações e elogios do especialista Augusto de Campos, que na orelha do livro registra que a publicação, com organização e tradução de Vallias, é um dos maiores acontecimentos editoriais do Brasil dos últimos anos. Nenhum exagero. “Heine, Hein?” vale por um curso de literatura. Afeito ao idioma germânico (viveu na Alemanha de 1987 a 1994), Vallias vem de outras traduções e edições elogiadas de mestres universais especialmente difíceis – Georg Trakl, Vielimir Khlébnikov, Mandelstam, Laforgue, Verlaine... Com Heine, Vallias alcança o máximo daquela arte da tradução poética que outro mestre, Haroldo de Campos, chamava de “transcriação”: a empreitada criativa de transpor obstáculos quase intransponíveis para levar de uma a outra língua o impacto e a beleza originais. Com louvor, Vallias completa as poucas e boas iniciativas de trazer Heine ao português, iniciadas por Jamil Almansur Haddad na década de 1940 e pelos versos escolhidos por Décio Pignatari em “31 Poetas – 214 Poemas” (Editora da Unicamp) em 1994.



Pensamento continua provocador

Com cuidado didático, o tradutor André Vallias adicionou aos textos de Heine um brilhante e bem humorado estudo introdutório sobre a obra e um posfácio que esclarece sobre a biografia do poeta, jornalista pioneiro e pensador, além de notas eruditas, trechos de cartas e da prosa do autor e um índice analítico- remissivo em minúcias. Em entrevista ao Hoje em Dia, Vallias, que vem hoje a BH para sessão de autógrafos na Livraria Scriptum, destaca a atualidade de Heine e o valor da poética desconcertante.



O título de seu livro é um achado, bene trovato. “Heine, Hein?”, a partir do título, traduz o humor e a ironia desconcertante do autor.

Considero o título, especialmente na disposição gráfica em que se encontra na capa, umverdadeiro ideograma da obra, que aponta para o desconhecimento do autor entre nós, para a dificuldade de pronunciar seu nome (fato que o próprio poeta ironizava entre os franceses), para o desconcerto que sua personalidade gerava, para a complexidade de sua poesia, que transita com incrível desenvoltura pela lírica, pela sátira e pela política – sofisticada e, ao mesmo tempo acessível. O título foi sugerido pelo grande poeta e designer gráfico Age de Carvalho. É curioso que também provoque aversão – já fui repreendido algumasvezes por tê-lo escolhido, mas as reações têm sido predominantemente positivas.



Posso dizer que a ausência de edições da obra de Heine no Brasil foi um dos grandes equívocos do nosso mercado editorial no século 20?

É realmente difícil de entender a reduzida quantidade de traduções da obra de Heine, tanto no Brasil como em Portugal, apesar de ele ter inspirado vultos como Machado de Assis e Eça de Queirós. Ainda mais espantoso se compararmos com a quantidade de edições disponíveis em língua espanhola. Eis aí um belo tema para os germanistas pesquisarem.



Qual a característica marcante de Heine que fez escola entre poetas e pensadores que vieram depois dele?

Não sei se podemos dizer que Heine tenha feito escola. Sua poesia e pensamento continuaram polêmicos e provocadores até a década de 1960, e só recentemente, a partir dos anos de 1990, sua obra começou a ser intensamente estudada, especialmente no EUA. No Brasil, já se nota um interesse crescente na área acadêmica.Mas o humor talvez tenha sido a característica mais imitada de sua criação, o que acabout razendo prejuízo à recepção de suas ideias inovadoras. Algo semelhante ao que aconteceu, entre nós, com Oswald de Andrade, por exemplo.



E o trabalho da tradução? Seu livro contradiz Caetano Veloso, naquele verso famoso de “Língua” que diz que está provado que só é possível filosofar em alemão.

Pode ser, ou talvez até reforce a provocação irônica de Caetano. Mas quem sabe a obra desse transgressor de fronteiras possa sugerir novas maneiras de se “pensar”, mais adequadas ao nosso humor e temperamento.



Por que a definição de Heine como“poeta dos contrários”?

O subtítulo do livro remete aos retratos que dele fizeram alguns de seus contemporâneos – aos quais chamei “daguerreótipos”, como este do poeta Théophile Gauthier: “ele era, ao mesmo tempo, alegre e triste, cético e crente, meigoe cruel, sentimentale escarnecedor, clássico e romântico. Alemão e francês, delicado e cínico, entusiasta e pleno de sangue-frio; tudo, menos tedioso”. Há também a própria conclusão de Heine de ter sido paladino e carrasco do Romantismo: romântico e anti-romântico.



Depois da “prova de fogo” da poética de Heine, qual seu próximoprojeto?

Ainda não me livrei de Heine! Estou agora trabalhando na tradução de dois longos poemas seus, com temas relativos ao“Novo Mundo”, que pretendo publicar no ano que vem: um sobre a conquista do México por Hernán Cortés (“Vitzliputzli”) e outro sobre Ponce de León e a lendária fonte da juventude. Mas devo também concluir a antologia de poemas e cartas do poeta austríaco Georg Trakl (1887–1914), já bastante adiantada. (JAO)



Heine, Hein? Poeta dos Contrários” – Tradução e organização de André Vallias (Editora Perspectiva, 544 páginas, R$ 60). Lançamento hoje, às 11 horas, na Livraria Scriptum (Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi)

Na Web

1) Cronópios: 10.05.2011

Heine, hein? – Poeta dos contrários
André Vallias
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5017

2) Cronópios: 30.05.2011
O primeiro artista pop
[vídeo feito por ocasião do lançamento em 18.05.2011]
Pipol
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=5049

3) A modernidade corrosiva de Heine
André Dick
http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=5050

4) Revista Modo de Usar & Co.: 13.06.2011
Heinrich Heine (1797 - 1856) – Lançamento da mais abrangente antologia em língua portuguesa, com tradução de André Vallias
Ricardo Domeneck
http://revistamododeusar.blogspot.com/2011/06/heinrich-heine-1797-1856-lancamento-da.html

5) Heine, riso e revolução
Pádua Fernandes
http://opalcoeomundo.blogspot.com/2011/07/heine-riso-e-revolucao.html

6) Heine transbrasileirado por André Vallias
Paquito Moura: Terra Magazine
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5240692-EI6621,00-Heine+transbrasileirado+por+Andre+Vallias.html

7) Brasil ganha edição bilíngue que reúne poemas de Heine
José Antônio Cavalcanti: Jornal do Brasil
http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2011/09/17/brasil-ganha-edicao-bilingue-que-reune-poemas-de-heine


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