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REPRESENTAÇÕES SOBRE A RELAÇÃO TRABALHO E EDUCAÇÃO NO ASSENTAMENTO BELA VISTA – SÃO PAULO.1
Samila Bernardi do Vale2

Introdução

Esse trabalho é a sistematização da segunda3 parte da pesquisa que estamos realizando no assentamento Bela Vista situado no município de Araraquara no Estado de São Paulo, tendo como tema geral a relação entre Trabalho Rural e Educação com o objetivo de analisar os impactos das novas tecnologias e das novas formas de organização do trabalho no meio rural, bem como os seus reflexos na formação, qualificação e empregabilidade dos trabalhadores.

A escolha do Bela Vista deu-se por se tratar de assentamento resultado da luta dos trabalhadores sem-terra e constituindo-se em um dos projetos da Reforma Agrária na metade da década de 80 do século passado, portanto na efervescência dos movimentos socais e da redemocratização do país, depois de 20 anos de ditadura militar.

A localização do assentamento também influenciou na escolha, o município de Araraquara faz parte da região administrativa de Ribeirão Preto, composta por de 80 municípios4, grande produtora de cana-de-açúcar e laranja e detém a maior concentração de agroindústrias sucroalcooleira e de cítricos.

Outros dois aspectos que determinaram a escolha foram à escola municipal no interior do assentamento, considerada escola rural padrão, visitada por professores, alunos e pesquisadores, constituindo-se em objeto de várias pesquisas. O segundo aspecto é a produção nos lotes, quase a totalidade deles com plantio de cana-de-açúcar enquanto fornecedores ou como arrendador para usina.

Esses elementos nos levaram a entender o assentamento Bela Vista como objeto de investigação capaz de apontar algumas reflexões da relação da organização do trabalho nesse novo rural brasileiro que se apresenta e a educação dos domiciliados e dos que trabalham no campo.




Pontal do Paranapanema/SP e a Luta pela Terra.

O marco inicial da atual política de Reforma Agrária ocorreu como fruto da transição democrática, que com a posse do presidente José Sarney em 1985, ainda no final do seu primeiro mandato, sanciona-se o Primeiro Plano Nacional de Reforma Agrária, que será o norteador de uma política federal, responsável por assentar muitas famílias de trabalhadores rurais em áreas desapropriadas. Entende-se que esse acontecimento se deu como uma resposta às pressões dos trabalhadores,


Data de 1983, primeiro ano do governo Franco Montoro, uma iniciativa decisiva no sentido de promover experiências de reforma agrária no Estado. Como primeiro governo eleito no Estado após o longo período de governantes pró-ditadura, a gestão Montoro(1983-1986), ela mesma expressão da conjuntura de abertura democrática e, conseqüentemente, premida pela mobilização crescente dos trabalhadores rurais, responderá às pressões por reforma agrária desenvolvendo uma política de assentamentos que se consolidará nos dias atuais. 5
Analisando o contexto regional do interior do Estado de São Paulo, é de fundamental importância destacar as experiências vivenciadas em alguns projetos de assentamentos, e principalmente a valorosa mobilização dos trabalhadores em prol da luta pela terra.

Um dos exemplos que pode ser citado, refere-se a luta dos ex-barrageiros do Pontal do Paranapanema, assentados na gleba XV de Novembro no período entre 1983 e 1984, entre os municípios de Euclides da Cunha e Rosana, apresentando-se enquanto símbolo da política estadual. Constata-se atualmente que na região, o Pontal do Paranapanema destaca-se por possuir o maior número de assentamentos e de famílias assentadas. Contudo essas conquistas são resultantes de fortes discussões e mobilizações, ao longo de décadas, a respeito da questão fundiária. Portanto, quando se trata de abordar a temática da reforma agrária, a região do Pontal tem extrema representatividade no Estado de São Paulo.


Na região conhecida como Pontal do Paranapanema (extremo Oeste Paulista) a questão fundiária tem sido - ao longo de décadas - o ponto fulcral definidor das políticas e ingrediente básico das tensões sociais envolvendo o estado e diferentes classes sociais. A região é, portanto, de importância ímpar quando se aborda a temática da reforma agrária no Estado de São Paulo. Com uma ocupação que data do final do século XIX, o Pontal do Paranapanema revela, em seu histórico fundiário, o mais conhecido caso de grilagem de terras do país.5
A região destaca-se também por ter em seu histórico, o mais conhecido caso de grilagem de terras do país. Segundo Ferrante et al,
Ao longo do século XX, posseiros e grileiros disputaram, quase sempre à bala, o território do pontal. Apesar da flagrante irregularidade que cercou a ocupação do Pontal, seu desenvolvimento econômico seguiu mais ou menos a trajetória de outras regiões do Estado, sobretudo na primeira metade do século passado. Com a crise da cafeicultura, a fragmentação das propriedades e o precoce fim do colonato só acirraram mais as disputas por terras.6
A partir da afirmação citada acima percebe-se que, apesar de suas irregularidades fundiárias a região do Pontal apresenta um desenvolvimento econômico próximo ao de outras regiões.

Porém, devido à insegurança fundiária, e a pouca ação por parte dos governos do período da transição democrática, em articular uma forte política de assentamento, desencadeou uma mobilização de diversos segmentos sociais.

Ainda nessa região, a partir da insegurança por parte dos pecuaristas que se sentiam coagidos por uma possível regularização fundiária, repercutiu durante o período do Congresso Constituinte (1987-1998), no surgimento da União Democrática Ruralista. Logo se iniciou um forte embate entre os fazendeiros pecuaristas e os trabalhadores sem terra, que teve como ponto de partida uma intensa articulação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST. Em 1990 no primeiro ano do governo Collor, teve início o mais importante processo de luta pela terra do Estado, liderado por esse movimento, que se prolonga até hoje.

Araraquara – Região de Ribeirão Preto

Também como referência, com relação a questão agrária, Araraquara apresenta-se como uma região conhecida por integrar a Região de Ribeirão Preto também chamada “Califórnia Brasileira” e pelo grande desenvolvimento agropecuário. De acordo com Ferrante et al,


a implantação do PRÓ-ÁLCOOL, em 1975, só estimulou a indústria sucro-alcooleira ali baseada, fazendo crescer de forma acentuadíssima a área plantada de cana, bem como o número de postos de trabalho junto a essa atividade econômica. Ao lado da cultura da cana, um outro complexo Agroindustrial se consolidava na região, explorando a produção de citrus (in natura e sucos). 7
A exigência de mais terras para atender as necessidades da agroindústria levou a expulsão dos trabalhadores moradores nas fazendas em regime de colonato para as periferias das cidades. Com essa nova situação dos trabalhadores as cidades pequenas transformaram-se em cidades dormitórios e os trabalhadores passaram a constituir-se enquanto assalariados temporários nas colheitas de citros e corte de cana, esses ex-colonos passaram a fazer parte da categoria de “bóias-frias”. As péssimas condições de vida que esses trabalhadores enfrentaram, foram o motivo para que a partir de meados de 1980 houvessem fortes mobilizações, em que a categoria reivindicava melhores condições de trabalho e melhores salários.

Segundo Ferrante et al,


A política de assentamentos rurais desenvolvida nessa região do Estado será claramente uma resposta estatal ao potencial de organização e constatação dos bóias-frias. Sua singularidade, no entanto, deve-se a um entrecruzamento bastante particular da mobilização dos trabalhadores rurais e das conjunturas políticas-tanto no âmbito do governo estadual quanto do governo federal. Trata-se de um campo específico das políticas públicas, no qual um jogo de forças sociais irá, direta ou indiretamente, determinar ações no sentido de assentar famílias de ex-bóias-frias em meio a propriedades empresariais das mais produtivas do país. 8
Essa nova realidade, os grandes latifúndios de cana-de-açúcar e de citrus, o assalariamento e urbanização da força de trabalho do campo levaram a mobilizações e enfrentamentos dos trabalhadores com os proprietários de terras e com o Estado pela Reforma Agrária, objetivando se livrar das péssimas condições de vida e trabalho que a nova condição, de assalariado, lhes impunham, além do sonho de retorno ao domicílio e trabalho autônomo na terra.

Na região de Araraquara esse processo resultou em dois assentamentos organizados entre 1985 e 2003, onde foram assentadas por volta de 600 famílias na região, instalando-se na Fazenda Monte Alegre, que contou com 377 famílias em lotes agrícolas nas fronteiras dos municípios de Araraquara, Matão e Motuca, sendo esta a maior área de assentamento da região.

Outro assentamento da região, Bela Vista do Chibarro, foco de análise desta pesquisa é fruto da luta de trabalhadores na ocupação da Usina Tamoio, na qual possuía extensas áreas de cultivo de cana, vivendo seu auge na década de 50, enquanto complexo agroindustrial. Porém, devido a uma série de problemas a usina passou por uma crise, que culminou com sua falência em 1982.

Foi nesse contexto, que em 1984 a usina foi ocupada por trabalhadores Sem-Terras da região de Campinas, que pouco tempo depois foram despejados.


O assentamento Bela Vista
Quatro anos após esse episódio, por intermédio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Araraquara, as casas de uma das maiores colônias da usina foram ocupadas por outros trabalhadores.
No ano de 1989, ainda não havia sido regularizada a situação dos assentados, os lotes não estavam demarcados e a ocupação da área não era total, visto que poderia comportar 160 famílias e apenas 79 estavam nas terras. Para que o assentamento fosse oficializado se fazia necessário que o governo federal pagasse a indenização pela desapropriação do imóvel. Estas 79 famílias eram chamadas de pioneiras e entraram no assentamento sem que tivessem passado pelo critério de seleção. Neste momento, o sindicato dos empregados rurais de Araraquara tinha pleno domínio sobre a entrada de famílias no assentamento. No mesmo ano, o INCRA executou um cadastramento para entrada de outras famílias. No entanto, acabou por transferir, para esta área da usina “Urupês”, no ano seguinte, 29 famílias excedentes do projeto Fazenda Reunidas, da cidade de Promissão. 9
Tal atitude resultou no surgimento de um dos primeiros conflitos dos assentamentos com o Estado. Houve uma intensa mobilização desses trabalhadores para impedir a entrada dessas novas famílias. Nesse momento a Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo, FERAESP, mostrava-se muito preocupada com essa transferência, pois estas famílias estavam articuladas com o MST, estando suscetíveis a disputar politicamente com o sindicato o controle do assentamento. Depois de muitas negociações as famílias vindas do município de Promissão são assentadas no Bela Vista, este fato demarca já de início uma divisão de grupos no interior do assentamento.

Essa divisão se estende na organização da produção, como e o que produzir. Em 1993 a questão da produção de cana para as usinas de açúcar e álcool é pautada nos assentamentos. Esses embates contrapõem-se ao projeto de produção inicial dos assentamentos na região de Araraquara, no início dos anos 80, em particular no município de Araraquara os assentamentos Monte Alegre e o Bela Vista, trabalhavam com fruticultura e em casos isolados de produção orgânica, mas principalmente com grãos, em especial o milho, que estimulada pelo Instituto de Terras do Estado de São Paulo ( ITESP) foi a primeira cultura a ser produzida em larga escala pelos assentados. Tal produção rendeu bons frutos aos trabalhadores, porém em seguida gerou uma estagnação que resultou na inadimplência de muitos assentados.

Por causa das perdas advindas da produção de grãos, os trabalhadores passaram a olhar a possibilidade de se integrar ao complexo agroindustrial sucro-alcooleiro como uma forma de superar suas dificuldades financeiras.

A produção de cana nos assentamentos de Araraquara teve como forte aliado o governo municipal e os setores que se beneficiaria com a substituição da cultura de grãos para a de cana. Os assentamentos Monte Alegre e Bela Vista tiveram trajetórias diferentes, o primeiro a introdução da produção de cana foi mais fácil, não tendo resistência dos assentados, já o segundo a tentativa de implantar o cultivo da cana se deu em 1994, porém foi rejeitada pelas lideranças do assentamento, que mobilizaram os assentados contra essa ação e cobraram do INCRA uma atitude contra essa iniciativa, pois o assentamento enquanto concessão do Estado não pode ser arrendado, portanto, a produção de cana se constitui em prática ilegal conforme os propósitos da política de reforma agrária.

O problema parecia ter sido solucionado, porém devido à queda da cultura de grãos muitos assentados ficaram inadimplentes como já citado acima, e por isso em 1997 essa questão voltou a assombrar o assentamento Bela Vista. Nesse período a idéia de plantar cana para a usina, provocou grande entusiasmo em grande parte dos trabalhadores, além da articulação entre a “Associação Independente” e uma usina de Araraquara resultando na consolidação do cultivo da cana-de-açúcar em parte dos lotes do projeto, hoje já em quase todo o assentamento (Ferrante et al, 2005).

As dificuldades, lutas, resistências e incorporações registradas aqui no caso do assentamento Bela Vista não representam algo isolado do que se vive nos assentamentos e pré-assentamentos que acompanhamos, como os pré-assentamentos Santo Dias, Índio Galdino e Mário Lago no município de Ribeirão Preto/SP, o assentamento Zaqueu Machado em Capixaba/AC. Também devemos destacar que as perspectivas, desejos e sonhos que aparecem no início dos projetos de assentamentos são em grande parte cultivados nos acampamentos, pelo menos nos que acompanhamos.

O projeto de reforma agrária tem como um dos seus objetivos a formação de assentamentos que desenvolvam a produção agrícola, principalmente de alimentos, e integrados ao sistema produtivo regional fazendo com que esse se desenvolva junto com o projeto de reforma agrária, e todos vivam felizes para sempre, mas não é isso que a história do assentamento Bela Vista, e as experiências acima citadas têm revelado.

Ao tentarmos entender os meandros das relações famílias acampadas/assentadas e as lideranças dos movimentos que lutam pela reforma agrária, desses com o Estado, do latifúndio e os pequenos produtores, da agroindústria e os trabalhadores assalariados é possível constatar que há muitos impasses. As famílias sem capital de investimento e crédito enfrentam grandes dificuldades para produzir em seus lotes, e conseqüentemente são levadas a arrendar suas terras ou produzir matéria-prima para as agroindústrias ou manter-se em condições precárias de subsistência.


Trabalho e Educação no assentamento Bela Vista.
O assentamento Bela Vista situado no município de Araraquara é um exemplo para a reflexão e análise da discussão da proposta de Educação do/no Campo. Primeiramente acreditamos necessário identificar de que educação estamos nos referindo; educação regular, oferecida pelos sistemas de educação municipal ou estadual ou a educação profissional, obtida através do Sistemas Nacionais de Aprendizagem (SENAR, SENAI E SENAC), cursos técnicos, a partir das assitências técnicas do Incra e Itesp ou formação a partir da inserção do sujeito no trabalho.

Outra questão é a definição de urbano ou rural, pois segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que utiliza as Pesquisas Nacionais por Amostragem Domiciliares (Pnads) defini a situação:


Segundo a localização do domicílio, a situação pode ser urbana ou rural, definida por lei municipal em vigor em 01 de agosto 1996. Na situação Urbana consideram-se as pessoas e os domicílios recenseados nas áreas urbanizadas ou não, correspondentes às cidades (sedes municipais), às vilas (sedes distritais) ou às áreas urbanas isoladas. A situação Rural abrange a população e os domicílios recenseados em toda a área situada fora dos limites urbanos, inclusive os aglomerados rurais de extensão urbana, os povoados e os núcleos.10
Esse critério, o de domicílio, para caracterizar o corte urbano/rural leva José Graziano da Silva a afirmar que a população rural de 21% apontada pelas Pndas de 1995 poderia ser elevada a 40% se utilizado como um dos parâmetros para definir um aglomerado urbano municípios com população acima de 20 mil habitantes, “que um dos parâmetros muitas vezes utilizado para definir o número mínimo de habitantes de um aglomerado urbano” 11.

Para nós, esses dados aumentam a convicção que não devemos falar de educação do/no campo, mas de educação, não profissional, geral que permita o aluno compreender sua particularidade enquanto elemento de uma totalidade, que o campo, na sociedade capitalista, se organiza a partir das necessidades e da lógica do capital.

Portanto, pensar um Projeto Político Pedagógico progressista para a EMEF do campo Profº Hermínio Pagotto, do assentamento Bela Vista, é pensar um projeto que possibilite a educação dos assentados, e de seus filhos, condições; de compreender os fundamentos do processo de trabalho como elemento do processo de produção capitalista, entender o desenvolvimento histórico e contraditório das sociedades, se apropriar intelectualmente do que se produziu pela humanidade no campo das artes, da literatura, das ciências naturais e humanas e compreender a realidade local como parte e articulada com o conjunto da sociedade.

Tendo como objeto de análise o assentamento Bela Vista para colocar a discussão da relação Trabalho Rural e Educação e tomando as referências acima, cabe levantarmos a tese de que a organização do trabalho rural não exige uma educação diferenciada no que diz respeito ao ensino regular, educação básica, ainda mais a partir de meados da década de 80 do século passado com mecanização, informatização, insumos químicos e biológicos e o aparecimento das agroindústrias aumentando as oportunidades de acesso a bens de consumo duráveis, ou não, a melhorias no transporte, lazer, comunicação, empregabilidade, etc, aproximando o ritmo de vida do meio rural e urbano com suas facilidades, dificuldades e contradições. Essa nova realidade rural brasileira apresenta-se como novo rural composto


basicamente de quatro grandes subconjuntos, a saber:

  1. uma agropecuária moderna, baseada em commodities e intimamente ligada às agroindústrias, que vem sendo chamada de o agribusiness brasileiro;

  2. um conjunto de atividades de subsistência que gira em torno da agricultura rudimentar e da criação de pequenos animais, que visa primordialmente manter relativa superpopulação no meio rural e um exército de trabalhadores rurais sem terra, sem emprego fixo, sem qualificação , os “sem-sem” como já os chamamos em outras oportunidades, que foram excluídos pelo mesmo processo de modernização que gerou o nosso agribusinees:

  3. um conjunto de atividades não-agrícolas, ligadas à moradia, ao lazer e a várias atividades industriais e de prestação de serviços;

  4. um conjunto de “novas” atividades agropecuárias, localizadas em nichos especiais de mercados.

O termo “novas” foi colocado entre aspas porque muitas dessas atividades, na verdade, são seculares no país, mas não tinham, até recentemente, importância econômica. Eram atividades de “fundo de quintal”, hobbies pessoais ou pequenos negócios agropecuários intensivos (piscicultura, horticultura, floricultura, fruticultura de mesa, criação de pequenos animais, etc.), que foram-se transformado em importantes alternativas de emprego e renda no meio rural nos anos mais recentes. Essas atividades, antes pouco valorizadas e dispersas, passaram a integrar verdadeiras cadeias produtivas, envolvendo, na maioria dos casos, não apenas transformações agroindustriais, mas também serviços pessoais e produtivos relativamente complexos e sofisticados nos ramos da distribuição, comunicações e embalagens. Tal valorização também ocorre com as atividades rurais não-agrícolas derivadas da crescente urbanização do meio rural (moradia, turismo, lazer e prestação de serviços) e com as atividades decorrentes da preservação do meio ambiente. 16

Esse novo rural brasileiro de atividades agropecuárias e agroindustriais é também acompanhado de um conjunto de atividades não-agrícolas e/ou urbanas.


Um novo ator social já desponta nesse novo rural: as famílias pluriativas que combinam atividades agrícolas e não-agrícolas na ocupação de seus membros. A característica fundamental dos membros dessas famílias é que eles não são mais apenas agricultores e/ou pecuaristas: combinam atividades dentro e fora de seu estabelecimento, tanto nos ramos tradicionais urbano-industriais, como lazer, turismo, conservação da natureza, moradia e prestação de serviços pessoais. Em resumo, deixaram de ser trabalhadores agrícolas especializados para se converterem em trabalhadores (empregados ou por conta própria) que combinam formas diversas de ocupação (assalariada ou não) em distintos ramos de atividades (agrícolas e não-agrícolas). 17
Com essa reorganização do espaço rural, a mecanização e informatização, o uso de insumos industrializados, as agroindústrias e um conjunto de atividades não-agrícolas, que segundo Graziano18, a renda obtida dessas atividades, em 1998, já superava a renda em atividades agrícolas das famílias rurais. Importante destacarmos que essas novas tecnologias no campo têm diminuído o tempo de trabalho em relação ao tempo de produção das atividades agrícolas, aumentando o tempo de não-trabalho nessas atividades e possibilitando a famílias rurais a dedicarem parte de seu tempo em atividades não-agrícolas, o que autores tem chamado de elementos part-time.

Esse novo contexto da organização do trabalho no meio rural brasileiro e os critérios de domicilio do IBGE para definir o corte entre urbano e rural novamente leva-nos às propostas de educação do/no campo. Se pensarmos a educação regular, ensino básico, como universal, laico e gratuito que crie capacidades intelectuais e para o trabalho como exposto acima, a proposta de educação do/no campo faria sentido como aprendizagem profissional, mas, em nosso entender, nem esse aspecto faz sentido, pois hoje temos um conjunto de profissões ligadas à produção agrícolas19 e não-agrícolas no meio rural que são desenvolvidas por profissionais com domicilio na cidade, portanto típicos cidadãos urbanos, além de profissões que não se distinguem como rural ou urbana, caldeireiros, químicos, motoristas, programadores, administradores entre tantas outras.

Na análise da relação Trabalho Rural e Educação no assentamento Bela Vista, no município de Araraquara, temos buscado compreender esta relação enquanto relações no interior de relações de produção capitalistas e em sua particularidade, assentamento no interior do Estado de São Paulo com alto nível tecnológico, boa rede de estradas que facilitam o escoamento da produção e de deslocamento das pessoas e produtos, concentração de capitais, grandes propriedades rurais, agroindústrias e acentuada urbanização do campo.

A sistematização acima possibilitou-nos a necessidade de nos apropriar das imagens que os alunos egressos da EMEf do campo Prof Herminio Pagotto fazem da concepção de mundo que foi construída pela escola e pela vida no assentamento, como percebem a vida no campo e na cidade, as possibilidades de continuidade de seus estudos e de empregabilidade e qualificação profissional.

Com o objetivo de identificar essas representações foram definidos como objeto das análises jovens entre 15 e 25 anos, em média entre final do ensino fundamental e do ensino superior, buscando entender as novas e velhas relações neste novo rural.

Foram entrevistados 10 jovens, moradores de casas localizadas na vila do assentamento Bela Vista. Todos eles moram neste local há no mínimo três anos e os mesmos, sem exceção, freqüentaram a escola do assentamento. Dentre estes jovens cinco estão cursando o Ensino Médio em escola pública na cidade, dois trabalham no próprio assentamento, dois estão sem exercer nenhuma atividade e um está concluindo o curso de Educação Física em uma Faculdade particular na cidade de Araraquara. De acordo com sua trajetória de vida cada jovem pôde relatar um pouco de suas experiências e impressões, tanto da vida no campo e da relação deste com a cidade, quanto à instituição escolar e as perspectivas para o futuro.



Quanto à concepção de escola, os alunos apresentam opiniões semelhantes, sempre comparando a escola do campo com a escola da cidade. Uma das questões levantadas por eles refere-se a atenção e atendimento quase individualizado por parte da equipe gestora, devido ao pequeno número de alunos por sala a relação escola- família mais próxima, a escola como conhecedora da condição de vida da grande maioria de seus alunos, se não de todos. Segundo um dos entrevistados:
A escola aqui é boa, parece escola particular. Muito boa acolhe as pessoas. A diferença é que lá eles não se preocupam muito com a gente né, eles tão preocupado em ensinar, mas se a gente aprendeu ou não. Aqui eles já são mais centralizados, eles conversam se a gente tiver algum problema.
A distância das moradias até a escola também foi apresentado como um fator que facilita o acesso das crianças e jovens à educação. A estrutura física teve destaque como fator positivo da escola, por exemplo, a quadra, sala multimail, cozinha experimental, etc. A fala de um jovem pode ilustrar muito bem a idéia explicitada aqui.
É boa a escola daqui, agora tem as salas aqui de baixo, tem multimail, cozinha experimental é legal essa escola. Aqui é menor se conhece todo mundo, é mais perto da sua casa, acho mais legal a escola daqui, tem uma quadra boa.
Ao serem questionados sobre o ensino os jovens relatam que este é bom, e que o conteúdo é o mesmo em ambas as escolas, mas em seus relatos afirmam também que alguns dos jovens quando vão para a cidade sentem dificuldade de acompanhar o ensino, ou porque não se sentem ambientalizados ou pelo ritmo com que os professores direcionam a aula. Em contrapartida houveram afirmações de que o ensino da escola do campo é fraco, os conteúdos transmitidos nesta instituição não são os mesmos da escola da cidade e por isso os alunos quando vão para a cidade encontram dificuldade e conseqüentemente desestímulo, chegando em alguns casos a desistência. Segundo um dos jovens entrevistados afirma:
Eu sei de meninos que começaram a estudar lá na cidade só que daí eles repetiram e daí eles desanimaram, eles tão parece que trabalhando na roça.
Além da questão levantada a pouco, existem também outros fatores que podem levar o jovem assentado a evasão. Tendo em vista que o ambiente escolar do assentamento é diferenciado, ou seja, a organização do espaço da escola do campo possui uma decoração com elementos da “cultura rural”, infraestrutura privilegiada, além de métodos e instrumentos pedagógicos diferenciados que tem como proposta educar a partir do contexto do sujeito e reafirmar a “cultura rural”, ao se deparar com a realidade das instituições urbanas o jovem não se sente parte deste contexto. Na escola da cidade há um grande distanciamento na relação professor-aluno ou gestão-aluno, já que a estrutura é outra, as salas possuem grande número de alunos e em alguns casos os alunos vindos do assentamento são tachados e colocados em classes cujo rendimento é considerado defasado.

Levando em consideração que o sujeito ao freqüentar a escola ele está sendo encucado pela cultura letrada, a qual privilegia os interesses de determinados segmentos sociais, em meio a esse contexto aos assentados é permitido o acesso, mas negado a permanência e qualidade do ensino, renegando sua realidade, suas experiências, enfim o seu conhecimento. O tempo de aprendizagem destes na grande maioria das vezes não é respeitado e quando não se chega ao resultado esperado, de acordo com o tempo estabelecido pelo professor e pela escola o aluno é considerado um fracasso escolar. Essa problemática pode ser exemplificada a partir de um relato de experiência de um jovem expondo que.



Eu estudava até a oitava aqui, aí eu estudei na cidade mais só que eu achei lá tem amizade com todo mundo, todo mundo se conhece e é maior legal. É cidade muito diferente, por que na cidade tem muito movimento, eu não me dei bem na cidade, porque na cidade se vai lá, nossa é bem diferente, porque se conhece as amizade, as turma lá, as amizade é bem diferente daqui, porque lá se pega amizade tem muitos maconheiro, gente estúpida e aqui se bem diferente porque aqui você aprende uma coisa e lá você aprende outra que você nem tem capacidade, aí eu parei por causa disso que aqui eu aprendia algumas coisas, sei mais ou menos sim. Quando eu fui lá estudar, aprender, aí eu peguei larguei de lá pro ano que vem estudar aqui.
Segundo os relatos a respeito da perspectiva de futuro, mesmo os jovens que não estão exercendo nenhuma atividade ou aqueles que trabalham no assentamento, juntamente com aqueles que estão freqüentando a escola ou faculdade pretendem dar continuidade aos estudos e portanto, apesar de todos relatarem impressões positivas do assentamento, planejam construir o futuro na cidade, argumentando que no assentamento não há oportunidade para a realização de atividades não agrícolas, além da distância e os poucos horários de ônibus para transportar as pessoas do assentamento para a cidade. Porém, mesmo diante de pretensões da construção de um futuro na cidade foi possível notar na fala de alguns jovens a insegurança e o pensamento de que a realização desta perspectiva está longe de ser alcançada. Essa idéia fica clara como por exemplo em um dos entrevistados:

A eu acho que a gente que não tem estudo assim vai ficar desempregado e vai ter pouco recurso, não vai ter como trabalhar para ganhar dinheiro, vai ter trabalhar para os outros mesmo.
A falta de qualificação e recursos financeiros são dois dos principais motivos argumentados por estes jovens neste levantamento.
E eu queria ir pra cidade aprender lá, pra mim estudar, pra mim trabalhar um dia na frente, mas só que eu não tenho capacidade pra fazer isso, aí eu ajudo minha mãe em casa, vou em roça, ajudo meu pai e vai indo assim.
Em ambas as falas nota-se que a projeção de um futuro na cidade é criada e não realizada, nesse sentido explicita-se uma grande frustracão quando o assentado depara-se com a sua realidade, poucas condições materiais e de formação, que dificulta o seu ingresso no mercado de trabalho.

É importante que ao se fazer este conjunto de análises tenhamos a dimensão de que as diferenças não estão entre campo e cidade, mas no atendimento das diferentes classes. Portanto o difícil acesso a educação não é uma realidade apenas dos filhos dos assentados, mas também das crianças e jovens oriundos de bairros periféricos, de favelas, etc.

Essas dificuldades já se apresentam na atribuição de aulas e classes aos professores, que estão diretamente ligadas a qualidade e desempenho dos alunos vindos de tais classes sociais, pois por serem escolas de periferia ou localizadas na área rural, pouco são os profissionais que se interessam por lecionar nestas instituições. Geralmente os profissionais que vão trabalhar nestas escolas são aqueles que ficaram por último na atribuição e possuem formação recente e pouca prática docente.

Nestes contextos, de classes subalternas, geralmente as crianças não contam com a contribuição da família pela baixa escolaridade de seu membros, pois os hábitos construídos neste meio não favorecem a interiorização da cultura exigida no ambiente escolar. A linguagem utilizada no ambiente familiar não condiz com a norma culta, já que na maioria das vezes os membros desta família não são escolarizados. Os costumes alimentares e de lazer são peculiares as condições materiais e outro fator primordial nesta relação é a rotina exaustiva de trabalho da maioria dos familiares e em muitos casos da própria criança e adolescente.

Portanto, as crianças originárias destas classes ingressam na escola sem as noções prévias da cultura escolar, diferentemente das crianças de classe média e alta que incorporam em seu cotidiano familiar, práticas e conhecimentos culturais extra escolares, como por exemplo, teatro, cinema, música. Além desse fator levantado acima existe a falta de acompanhamento dos familiares nas tarefas propostas pela escola, pois estes em grande parte são analfabetos e a rotina de trabalho muitas vezes não permite a disponibilidade de tempo para atender as necessidades dos filhos. Ou seja, de acordo com as concepções de Bourdieu sobre educação, podemos avaliar que o nível cultural familiar é determinante no êxito da criança em ambiente escolar e esse fato explica o porquê do grande número de reprovações e evasão em escolas onde o público alvo são filhos de assentados, favelados, etc. Sendo assim, a herança cultural é que vai determinar a diferença escolar.
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1 O título se refere a análise das representações de mundo, da escola, do meio rural e urbano de jovens entre 15 e 25 anos.

2 Aluna do curso de Pedagogia da FFCLRP/USP, bolsista do Programa Ensinar com Pesquisa da Pró- reitoria de graduação.

3 A primeira parte do projeto foi apresentada no I Encontro História, Trabalho e Educação do HISTEDBR na Faculdade de Educação da UNICAMP em 2007.

4 Segundo os dados do Seade de 1983.

5Vera L.S.B.Ferrante et al, a maioridade dos assentamentos rurais em São Paulo: impasses de presente, dilemas do futuro, In: assentamentos Rurais: impasses e dilemas ( uma trajetória de 20 anos), São Paulo, INCRA-Superintendência Regional de São Paulo, 2005, p.39.



5 Ibid, p.46.

6 Ibid, p.46.

7 Ibid, p.41-42.

8 Ibid, p.42.

9 Ana Paula Leivar Brancaleoni, Do rural ao urbano: o processo de adaptação de alunos moradores de um assentamento rural à escola urbana, 2002,Dissertação( Mestrado em Psicologia) FFCLRP/USP, Ribeirão Preto,p.74

10 Conceituação das Características Divulgadas na Contagem da População de 1996. In: www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/contagem/conceitos.shtm. Acessado em 20/05/2007.

11 José Graziano da Silva, Sobre a delimitação do rural e do urbano no Brasil: testando as aberturas geográficas das novas Pnads, In: http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/textos/downlo/textos.html . Acessado em 20/05/2007.

16 José Graziano da Silva, O novo rural brasileiro. 2ª ed., Campinas, UNICAMP. IE, 2002, p.ix-x.

17 José Graziano da Silva, O novo rural brasileiro. 2ª ed., Campinas, UNICAMP. IE, 2002, p.x.

18 José Graziano da Silva & Mauro Eduardo Del Grossi, O novo rural brasileiro: atualização para 1992-98. In: http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/textos/downlo/textos.html. Acessado em 20/05/2007.

19 Aqui cabe tomar como exemplo os trabalhadores assalariados do corte da cana e da colheita de laranjas, as duas principais culturas da região de Ribeirão Preto/SP.

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