1. Weber: Ética da convicção e ética da responsabilidade 3 Bibliografia básica 5



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GRUPO 7.1

MÓDULO 18

Índice


1. Weber: Ética da convicção e ética da responsabilidade 3

Bibliografia básica 5

Bibliografia complementar 5



1. Weber: Ética da convicção e ética da responsabilidade


Max Weber, no início do século XX, busca desenvolver uma ética que leve em conta suas possíveis consequências práticas, principalmente na esfera política. Este sociólogo, logo após a Primeira Guerra Mundial e após sua participação na comissão alemã, que firmou o tratado de paz de Versalhes, passou a ser questionado no meio acadêmico por ter participado de um tratado tão desfavorável e vexatório para a Alemanha. No seu texto “A política como vocação” (1919), ele aborda a questão dos meios e fins na esfera ética. Para Weber, há dois tipos distintos de ética: a ética de convicção e a ética de responsabilidade. Weber critica uma ética como a de convicção, por se pautar no puro axioma ético sem levar em conta as possíveis consequências práticas.

[...] toda a atividade orientada segundo a ética pode ser subordinada a duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente opostas. Pode orientar-se segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da convicção. Isso não quer dizer que a ética da convicção equivalha à ausência de responsabilidade e a ética da responsabilidade, à ausência de convicção. Não se trata disso, evidentemente. Não obstante, há oposição profunda entre a atitude de quem se conforma com as máximas da ética da convicção – diríamos, em linguagem religiosa, “O cristão cumpre seu dever e, quanto aos resultados da ação, confia em Deus” – e a atitude de quem se orienta pela ética da responsabilidade, que diz: “Devemos responder pelas previsíveis consequências de nossos atos” (2004, p.113).

Na ética da convicção, toda ação é alimentada na convicção aos princípios valorativos fundamentais da própria crença. Ou seja, o adepto age segundo a sua convicção moral que é boa e, portanto, justifica as ações necessárias para a consecução de um fim, e quando os fins se mostram catastróficos, o adepto não se julga responsável por tal resultado. Uma vez que fez sua parte, agindo por convicção, se o resultado não foi o esperado, esse pode ser atribuído à vontade divina, à incompreensão humana, à decadência do mundo etc. Sua única responsabilidade é manter acesa a chama da convicção, para que ela não se extinga.

Os partidários da ética da convicção teoricamente condenam o uso de meios violentos ou perigosos. Mas, segundo Weber, isso só ocorre no plano teórico, já que na ação prática sempre se recorre a esses meios para justificar o alcance da paz ou um mundo melhor. Por exemplo, quando um ataque violento é justificado como necessário para instaurar a paz. Ou quando a Igreja lançou mão das práticas da inquisição para purificar os infiéis e produzir um mundo melhor. As guerras santas, nas diferentes religiões, sempre se apoiaram na defesa da fé legítima e, com isso, justificavam suas ações violentas.

Na perspectiva de Weber, como interpreta Comparato (2006), a ética do dever kantiano seria uma ética da convicção, uma vez que não se preocupa com as possíveis consequências práticas desagradáveis daquele que segue absolutamente os imperativos da razão. Por outro lado, essa comparação toma uma parte pelo todo, já que se é verdade que a ética kantiana reza o agir segundo os mandamentos da razão, ela reza também que o ser humano deve ser tomado sempre como um fim em si mesmo e nunca como meio para qualquer fim, fato este que minimiza as possíveis consequências nefastas do dever.

Já os adeptos da ética da responsabilidade, segundo Weber, contam em suas ações com as fraquezas e contradições humanas e sabem que não podem “lavar as mãos” em relação às possíveis consequências dos seus atos. Para Weber, na esfera política deveria imperar a “ética da responsabilidade” e, segundo ele, as três qualidades fundamentais para o homem político são: a paixão, o sentimento de responsabilidade e o senso de proporção. “Paixão no sentido de ‘propósito a realizar’, isto é, devoção apaixonada a uma ‘causa’, ao deus ou ao demônio que a inspira” (2004, p.106). Dessa forma, a paixão não deve ser entendida como uma forma de agir puramente subjetiva e vazia. Para ele, essa paixão a serviço de uma causa não pode estar desconectada de um sentimento de responsabilidade que funciona como a estrela guia da ação. A essas duas qualidades deve-se unir o senso de proporção, ou seja, o chefe político “[...] deve possuir a faculdade de permitir que os fatos ajam sobre si no recolhimento e na calma interior do espírito, sabendo, por consequência, manter à distância os homens e as coisas” (2004, p.106).

Essa é a grande dificuldade para o chefe político: saber unir a ardente paixão ao frio senso de proporção. É necessário, ao mesmo tempo, possuir a paixão por uma causa e a capacidade de recolhimento para tomar as melhores decisões.

Weber atesta que um inimigo muito comum e humano a ser enfrentado pelo político é a vaidade. Que embora seja um tanto frequente no meio intelectual e acadêmico, quando ocorre com o cientista, apesar de causar antipatia, não chega a atrapalhar a própria produção científica. No caso do político, a vaidade é uma inimiga mortal, já que ela joga contra a responsabilidade e contra a devoção a uma causa. Para Weber:



Em verdade e em última análise, existem apenas duas espécies de pecado mortal em política: não defender causa alguma e não ter sentimento de responsabilidade – duas coisas que, repetida mente, embora não necessariamente, são idênticas. A vaidade ou, em outras palavras, a necessidade de se colocar pessoalmente, da maneira mais clara possível, em primeiro plano, induz frequentemente o homem político à tentação de cometer um ou outro desses pecados ou os dois simultaneamente (2004, p.107).

O poder é um instrumento necessário para a ação política, mas acontece que frequentemente ele passa de um meio para um fim em si mesmo. O desejo de poder pelo poder – pelas benesses do poder – sem se colocar a serviço de uma causa e sem responsabilidade pelas ações transforma o poder em apenas uma caricatura vazia e nefasta.

Weber propõe-se a investigar o problema da relação entre ética e política.

Será certo, como já se afirmou, que não há qualquer relação entre essas duas esferas? Ou seria mais acertado afirmar, pelo contrário, que a mesma ética é válida para a ação política e para qualquer outro gênero de ação? [...] Pode-se, realmente, acreditar que as exigências éticas permaneçam indiferentes ao fato de que toda política utiliza como instrumento específico a força, por trás da qual se perfilha a violência? (2004, p.111).

A ação política, muitas vezes, recorre à violência para a consecução de seus objetivos. As justificativas para o uso de meios violentos são colocadas nos fins nobres a serem alcançados. Esse argumento é usado tanto por bolchevistas quanto pelos nazistas.

Na esfera política, a violência está intrinsecamente relacionada à sua forma de atuação, já que o Estado é o detentor da violência legal e, por vezes, lança mão dessa violência. Segundo Weber:

A originalidade própria dos problemas éticos no campo da política reside, pois, em sua relação com o instrumento específico da violência legítima, instrumento de que dispõem os agrupamentos humanos (2004, p.118).

O chefe não é senhor absoluto dos resultados de sua atividade, devendo curvar-se também às exigências de seus partidários, exigências que podem ser moralmente baixas (2004, p.119).

Aquele que se dedica à política deve estar consciente desses paradoxos éticos e deve ser responsável pelos desencadeamentos que possam ocorrer em virtude desses paradoxos.

Esta análise não esgota, entretanto, a matéria. A nenhuma ética é dado ignorar o seguinte ponto: para alcançar fins “bons”, vemo-nos, com frequência, compelidos a recorrer, de uma parte, a meios desonestos ou, pelo menos, perigosos, e compelidos, de outra parte, a contar com a possibilidade e mesmo a eventualidade de consequências desagradáveis. E nenhuma ética pode dizer-nos a que momento e em que medida um fim moralmente bom justifica os meios e as conseqüências moralmente perigosos (2004, p.114).

Weber não discutiu exaustivamente, nem respondeu de forma plena essas questões. Ele enfatizou as dificuldades da relação entre ética e política e defendeu a ética da responsabilidade como uma forma de os governantes não “lavarem as mãos” frente às consequências desencadeadas por seus atos, ou, dito de outra forma, enfatizou a ação dos governantes de assumirem a responsabilidade por suas ações, mesmo quando desencadeiam fatos não previstos.

Pensar a ética no mundo contemporâneo implica considerar que a sociedade é uma construção social coletiva e necessita da participação consequente dos seus membros. Implica considerar que o mundo, apesar de se tornar cada vez mais uma “aldeia global”, continuará a conviver com diferentes manifestações culturais e axiológicas. Implica buscar caminhos que superem o individualismo exacerbado e coloquem em foco o fato de os seres humanos serem os responsáveis pelo seu próprio devir. Tais questões, necessariamente, precisam ser refletidas pela educação e pela filosofia.

Bibliografia básica


ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2005. Filosofando: introdução à filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003.

DANILO, Marcondes. Textos básicos de ética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.


Bibliografia complementar


AGOSTINHO, Santo. O livre arbítrio. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1997.

ALTHUSSER, Lou is. Aparelhos Ideológicos de Estado. 10. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Pensadores)

BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da filosofia cristã. Trad. Raimundo Vier. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1982.

CASSIRER, Ernst. O mito do estado. Trad. Álvaro Cabra l. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1997.

COMPARATO, Fabio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Trad. António M. Magalhães. Porto-Portugal: Rés Editora, [s.d.].

FERNANDES, Vladimir. Filosofia, ética e educação na perspectiva de Ernst Cassirer. FEUSP: Tese de doutorado, 2006.

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KROIS, J. M. Symbolic forms and history. New Haven and London: Yale Univ. Press, 1987.

MACHADO, Nílson José. Educação: projetos e valores. São Paulo: Escrituras Editora, 2000.

MANZINI-COVRE, Maria de Lurdes. O que é cidadania. São Paulo: Brasiliense, 1995.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. 2 ed. Trad. Lívio Xavier. Consultoria de Carlos Estevam Martins. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

MARTON, Scarlett. Nietzsche: a transvaloração dos valores. São Paulo: Moderna, 1993.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A genealogia da moral. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção Pensadores) A genealogia da moral. Trad. Carlos José de Meneses. 6. ed. Lisboa: Guimarães Editores, 1992.

PEGO RATO, Olinto. Ética dos maiores mestres através da história. Petrópolis: Vozes, 2006.

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SAVIANI, Dermeval. Educa ção: do senso comum à consciência filosófica. 13. ed. Campinas: Autores Associados, 2000.

SEN, Ama rtya Kumar. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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VER NANT, Jean Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. Ísis Borges B. da Fonseca. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.




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