15 de setembro – 1 de outubro de 2006 Roma 2006 Apresentação do Ministro geral



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O SENHOR NOS FALA

NA CAMINHADA


Documento do

Capítulo geral extraordinário
Monte Alverne - Assis

15 de setembro – 1 de outubro de 2006


Roma

2006

Apresentação

do Ministro geral

Irmãos caríssimos,



o Senhor lhes dê a Paz!

O Capítulo geral extraordinário, iniciado no Santuário do Alverne a 15 de setembro e continuado em Santa Maria dos Anjos, foi concluído a 1 de outubro de 2006 na Porciúncula. Foi uma importante etapa na perspectiva da celebração do VIII Centenário da aprovação, por parte de Inocêncio III, de nossa Regra e vida e, portanto, da fundação de nossa Ordem.

Movidos por “divina inspiração”, nós, Frades menores, retornamos a Assis para confrontar-nos com nossas origens, a fim de responder à pergunta: “Senhor, que queres que façamos, como Frades menores, hoje?”. Cada Frade e cada Entidade pode encontrar a resposta no Documento final, O Senhor nos fala na caminhada, que é “uma recordação, uma experiência, um caminho, um mandato, um convite que continua a ressoar” (n. 3), como ajuda, apoio e estímulo para realizar nosso carisma no momento presente que o Senhor, Pai das misericórdias, nos concede viver.

O Documento que, após a aprovação do Definitório geral, hoje tenho o prazer de apresentar a cada um de vocês compõe-se de duas partes. Na primeira, que podemos definir como “inspiracional”, quer oferecer motivações, apoio, luzes, orientação para os caminhos que, no momento atual, o Senhor nos convida a percorrer com “audácia e lucidez”. Na segunda parte, o Documento apresenta métodos, sugestões e indicações, a fim de que a Fraternidade universal e as Fraternidades locais, percorrendo o mesmo caminho, embora em modos e estilos diferentes, tenham a oportunidade de encarnar na vida quotidiana aquilo que a freqüência ao “altar da memória e de nossas origens” (n. 7) possibilitou-nos compreender ou intuir.

Caríssimos Irmãos, o Documento O Senhor nos fala na caminhada faz que o Capítulo geral extraordinário continue em cada Frade e em cada Entidade. Que o Senhor e nosso Pai Francisco nos sustentem na caminhada, que deve ser feita segundo o método do ícone bíblico dos discípulos de Emaús, para discernir a forma de melhorar nossa vida e nossa missão, para sermos “sinais, humildes e simples, da estrela que continua a brilhar em meio à noite dos povos, guiando a todos para a centralidade da vida” (n. 9).

Roma, 1 de novembro de 2006.

Festa de Todos os Santos

Fr. José Rodríguez Carballo, ofm



Ministro geral

Prot. 097353
Premissa

1. O Capítulo geral extraordinário de 2006 insere-se na ampla perspectiva da celebração dos 800 anos de fundação da Ordem dos Frades Menores, que recordaremos em 2009. Este documento não é uma voz isolada: está pensado para ser lido à luz da celebração da graça das origens, isto é, à luz de um processo que busca realizar nosso carisma diante dos desafios de uma mudança epocal. Nesse contexto, é preciso não esquecer que o Evangelho e nossa Regra e vida1, apresentada por Francisco ao Papa Inocêncio III e confirmada por Honório III, foram nossos principais pontos de referência. No documento, estão sempre presentes as reflexões que nos acompanharam até agora2, sobretudo o Relatório do Ministro geral ao Capítulo, Com lucidez e audácia, releitura audaz e lúcida do Evangelho e de nossas fontes originárias.

2. Ainda estão fortemente presentes na memória as experiências de fé que partilhamos entre nós nesses dias, como também a peregrinação aos lugares que conservam o fascínio original de nosso carisma (Assis, o Alverne, Greccio e Fontecolombo), a comunhão com os Irmãos e as Irmãs que partilham nosso carisma e o encontro, cheio de alegria, com as Irmãs Clarissas; são experiências que palavra alguma pode reproduzir plenamente.

3. O Senhor nos fala na caminhada não é apenas um título, é o ícone de Emaús que nos acompanhou no decorrer do Capítulo. Aprendemos a exprimir nossos medos com liberdade no contexto da fé partilhada e a questionar nosso estilo de vida. Nosso coração abriu-se ao mistério do outro como lugar de salvação. Acolhemos a surpresa da força interior que brota da Páscoa, que nos faz retornar aos irmãos com renovada confiança. O Senhor nos fala na caminhada é uma recordação, uma experiência, um caminho, um mandato, um convite que continua a ressoar. Emaús é o caminho, antigo e sempre novo, que queremos percorrer com cada um de nossos irmãos.
Mendicantes de sentido

4. Por ocasião de nosso encontro, quando Irmãos de todos os Continentes se reuniram na Porciúncula, a primeira impressão que nos tocou foi a beleza particular de cada povo, toda a sua riqueza e esplendor. Pudemos constatar que, embora com notáveis diferenças e apesar das distâncias geográficas, nossos povos não vivem isolados, mas ligados pelo complexo tecido da interculturalidade, da inter-religiosidade e da intercomunicação imediata que, com outros fatores, caracterizam nossa sociedade globalizada. Graças às contribuições em muitas línguas diferentes dos Irmãos e às infinitas e inesperadas relações que se vivem nesta mudança epocal, reconhecemos o dom da diversidade, a notícia de um Deus sempre fecundo.

5. A alegria diante do progressivo crescimento da proximidade dos países de nosso mundo não pôde, evidentemente, esconder aos nossos olhos a dor que ainda o habita. Não são apenas imagens nem se trata somente de uma humanidade abstrata, mas são rostos e nomes concretos, ligados à nossa vida quotidiana, rostos e nomes queridos, que nunca nos abandonam e nos dão força para orientar-nos em nossa busca. Referimo-nos aos sofrimentos reais que partilhamos com nosso povo: o sofrimento decorrente de um fundamentalismo militante, que impede uma praxe plural da fé e do pensamento; referimo-nos à dor que nasce por vermos populações inteiras ainda em busca do reconhecimento dos direitos fundamentais ao alimento, a um teto, a uma educação e a um trabalho, como também inteiras populações obrigadas a emigrar sem ter a promessa que sua vida realmente há de mudar. Partilhamos nossas reflexões sobre as forças culturais, sociais e políticas que procuram impor-se em nossa vida e tornam difícil não só a fé, mas também a confiança fundamental nos outros. Certamente existe uma impiedosa luta por obter influência e poder sobre o nosso mundo, um desejo de domínio sobre o outro através da força das idéias, da tecnologia, dos intercâmbios econômicos e das armas. Sentimos o peso de uma sociedade globalizada que pretende autogovernar-se sem critérios éticos, como se se tratasse de um deus absoluto. Fere-nos profundamente a impiedosa e progressiva destruição da natureza, casa comum de todos.

6. O contacto direto com a dor e o contra-senso, com a crise e o caos de nosso tempo, levou muitos de nossos contemporâneos a se questionar sobre o sentido da história, da existência, da vida, a questionar a veracidade da esperança, enfim, a interrogar-se novamente sobre tudo. Como Frades menores, não nos sentimos distanciados dessas perguntas3, mas, com todos, reconhecemo-nos mendicantes de sentido.
A visita da esperança

7. Nos momentos de grave crise, o povo de Israel fazia a memória daquilo que, com poder, o Deus criador e libertador havia operado em sua história, a fim de encontrar a força necessária para retomar a caminhada com coragem. Como Israel, também nós, Frades menores, movidos por divina inspiração (RnB 2,1; RsC 2,1), voltamos a Assis, altar predileto de nossa memória e de nossas origens, cheios de interrogações, de cansaço acumulado, de incerteza com relação ao futuro da humanidade, da Igreja e da Ordem.

8. Voltando ao menor lugar da Ordem (a Porciúncula), todos nos sentimos comodamente acolhidos pelo abraço fraterno de Francisco, com nossas identidades particulares, com nossas luzes e nossas sombras. Foi ele que nos entregou sua experiência e seus textos fundamentais como livros abertos e ainda não terminados, que vão sendo completados por nossa fidelidade a Deus e ao mundo, “sempre submissos e sujeitos aos pés da santa Igreja” (RB 12,4). Com Francisco, com nosso Ministro geral, nós, Frades, imploramos ao alto e glorioso Deus que ilumine as trevas que obscurecem o coração do mundo e também as trevas do nosso coração; que nos dê uma fé reta, uma esperança certa e uma caridade perfeita (OC 1). Mais uma vez, Francisco nos convidou a viver felizes em meio ao povo desprezado, entre os fracos e os pobres, com os doentes, os leprosos e os que mendigam ao longo do caminho (RnB 9,2; Test 1-2; 1Cel 17). Experimentamos a bênção de Francisco, seu cuidado por nós, semelhante à bênção dada a Frei Leão, seu fiel companheiro de caminhada. O Senhor nos mostrou sua face, segundo o desejo de Francisco (BnL 1). O trecho bíblico dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-36) guiou-nos como um modelo de viagem que queremos empreender pelas diversas estradas de nosso mundo.

9. Pelo retorno às origens e pela partilha do relato de nossas vidas, a Ordem foi visitada pela esperança: não uma esperança qualquer, mas a esperança que se enraíza no Cristo pobre e crucificado (2Cel 105,5) e nos seus representantes, os pobres e os crucificados de nossa terra (Mt 25,31-46). Quando unirmos experiencialmente o Evangelho de Cristo à vida em toda a sua densidade, pouco a pouco, sentiremos que nos libertamos da resignação e também dos realismos fáceis e do pragmatismo superficial, de forma a assumirmos a tensão para o Reino, na fecunda atmosfera do seguimento. O Deus revelado a Francisco, e a nós hoje, não se mostrou indiferente ou distante da dor humana; ao contrário, revelou-se “criador, redentor, consolador e nosso salvador” (PN 1). Ele era, é e será “todo o bem, sumo bem, bem total” (LH 11), alegria e segurança de todo o universo. Essa esperança guia nossa vida no esforço pela justiça, pela paz e pelo bem onde estivermos presentes. Comove-nos o fato de nos reconhecermos como sinais, humildes e simples, da estrela que continua a brilhar em meio à noite dos povos, guiando a todos para a centralidade da vida (Mt 2,1-3).
À luz do dom

“O Senhor me deu...”

(Test 1.4.6.14.39)



A vida antes de mais nada

10. A experiência que vivemos juntos confirmou-nos que a característica própria da caminhada franciscana é partir da vida: a prática é importante, como também o fato de manter-nos a caminho para compreender melhor a própria vocação. A teoria ilumina a vida, mas nunca pode substituí-la.

11. Depois de ouvir o Evangelho, Francisco apressa-se a mudar seu modo de vestir (1Cel 22): ele tem necessidade de pôr em prática a palavra ouvida, ainda que parcial e materialmente. Isso nos ensina que para chegar a uma compreensão autenticamente espiritual, e não só intelectual, é preciso seguir pelo caminho da experiência: proximidade à realidade histórica, escuta atenta da Palavra e sua imediata tradução em vida (Lc 6,46-49). A mesma dinâmica repete-se em São Damião, quando o crucificado o convida a reparar a Igreja (LM II,1); Francisco se põe logo ao trabalho de restaurar capelas abandonadas (LM II,7.8), não porque tenha entendido mal a mensagem, como habitualmente pensamos, mas exatamente porque, para compreender o sentido profundo das palavras a ele dirigidas, tem necessidade de entrar no terreno da experiência, do fazer com os outros. Nas Admoestações, emerge fortemente esta sabedoria do discernimento franciscano: “São vivificados pelo espírito da divina escritura aqueles que não atribuem a seu eu toda letra que conhecem e desejam conhecer, mas, pela palavra e pelo exemplo, restituem-nas ao altíssimo Senhor Deus, de quem é todo o bem” (Ad 7,4). Em primeiro lugar está sempre a vida, a experiência, o contacto humano com a realidade de dor e de esperança de cada pessoa e de cada povo e com toda a criação; somente depois vem a interpretação da vida à luz da fé, numa permanente circularidade. Conseguiremos caminhar juntos nessa direção?

À luz desse princípio do primado da práxis, uma recomendação ressoou várias vezes nesse Capítulo: dar maior força à prática do diálogo e criar outros novos modos concretos, adequados à especificidade de cada cultura e às suas particulares necessidades.


Regra e vida

12. Nesses dias, apareceu com clareza o fato de a específica tradição espiritual e intelectual franciscana, radicada na experiência das primeiras comunidades inseridas nas cidades e nas Universidades, voltar-se para o rumo da ação. Francisco ensina a “desejar ter o Espírito do Senhor e sua santa operação” (RB 10,9). A própria Regra foi constantemente interpretada, prática e teoricamente, não só em relação a Francisco, mas também em relação à experiência viva dos irmãos, da sociedade e da Igreja. Nós, Frades, não temos simplesmente uma Regra, mas uma Regra e vida (RB 1,1). Nossos mestres de Teologia Alexandre de Hales, Boaventura, Pedro João Olivi, Duns Scotus e Guilherme de Ockham entre outros, insistentemente ensinaram que o estudo científico da Palavra de Deus tem como finalidade a transformação da vida e como cume não um elevado nível intelectual, mas um intercâmbio de amor com Deus, com nós mesmos e com nosso próximo, sobretudo com os rejeitados deste mundo. Segundo a tradição franciscana, a teologia não se caracteriza como ciência, mas como sabedoria4. Uma sabedoria que faz experimentar o encontro como um instrumento para a transformação do mundo. Conhecemos essa tradição? Nossas instituições a apóiam? Conhecemos os estudos críticos sobre as Fontes franciscanas que foram publicados nos últimos cinqüenta anos?

13. Nesse Capítulo, questionamo-nos sobre a necessidade de recuperar criticamente as grandes tradições filosóficas, teológicas, místicas e artísticas de nosso patrimônio franciscano, como apoio para a nossa missão de anunciar o Evangelho com as palavras e com as obras no coração da cultura contemporânea (cf. CCGG 166,2). Constatamos que sem o conhecimento de nossas fontes – em primeiro lugar dos Escritos de São Francisco – e de nossa tradição, corremos o risco de nos tornarmos fácil presa do fundamentalismo e das tendências emotivas do presente, de perder nossa contribuição específica com interpretações erradas que a tornam funcional a outros “padrões” do pensamento e da ação. Nessa perspectiva, reconhecemos que para atualizar adequadamente nosso patrimônio é necessário não desvinculá-lo dos contextos e da seiva vital do tempo em que se desenvolveu, mas também não do contexto atual.
O dom da fé

14. Para interpretar a vida, não basta a proximidade com a realidade; é preciso olhá-la com olhos de fé, isto é, vivê-la a partir de uma profunda relação com Deus e com sua Palavra, em estreita comunhão com a Igreja (RB 12,4). Como Bernardo, o primeiro companheiro, neste Capítulo também nós novamente pedimos a Francisco: o que devemos fazer? E ele repetiu: vamos para a igreja, tomemos o livro dos Evangelhos e peçamos conselho a Cristo (2Cel 15). Voltemos para o Evangelho e nossa vida terá novamente a poesia, a beleza e o encanto das origens... Libertemos o Evangelho e o Evangelho nos libertará”5. A chave hermenêutica para aproximar-nos do Evangelho é exatamente sua força que nos liberta de todas as nossas escravidões.

15. Perguntamo-nos se este necessário retorno ao Evangelho e a seu poder saneador e libertador não está bloqueado, em nossas vidas, pela falta de uma fé (confiança) de fundo, mais horizontal, em nós mesmos e nos outros. O dinamismo da fé nos marca desde o início: a partir do nascimento somos acolhidos por uma mãe, ou por alguém que toma cuidado de nós, a quem nos confiamos, como também outros confiar-se-ão a nós, acolhendo-nos, estimulando-nos, corrigindo-nos, amando-nos. As relações essenciais de nossas vida com o mundo, com Deus e com os irmãos constroem-se com o material oferecido por esta fé primária e fundamental. Quando falamos de fé, falamos, pois, de uma dupla relação: horizontal, entre as pessoas, e vertical, com Deus, em duas dimensões estreitamente interligadas.

16. Durante este Capítulo, tomamos consciência de situações e de conflitos que feriram sobretudo a confiança recíproca entre os seres humanos. Como Frades menores sentimo-nos chamados a reconstruir esta fé primária e fundamental sem a qual é difícil chegar à fé no Deus da vida, ao reconhecimento do outro como irmão. Para sermos instrumentos de reconstrução desse tecido fundamental de confiança recíproca, percebemos a urgência de uma formação permanente e inicial que assuma a estrutura fundamental da pessoa e da personalização da fé6. Todavia, estamos convencidos de que quando falamos de fé estamos diante de um dom, de uma ação do Espírito em nós, que, exatamente por isso, supera todo determinismo humano: “a fé não nasce nos corações humanos por meio de controvérsias, mas por obra do Espírito Santo, que distribui seus dons a cada um conforme quer” (CCGG 99).

17. O relato da Samaritana (Jo 4,1-42) apresentou-nos a imagem de uma fé em relação com Deus e com os outros. A mulher cresce em sua caminhada de encontro com a Palavra em direção a uma fé mais profunda, até se tornar anunciadora para os outros. Seu processo de conversão inicia quando Jesus consente que ela, uma estrangeira, uma mulher com a própria história de conflitos e de relações, apresenta a ele o que ela é, o que tem, sua verdade sem fingimentos. Assim Deus se apresenta à humanidade! A partir desse momento a conduz, sempre mais profundamente, para uma fonte que saciará para sempre sua sede. Essa sede saciada agora é sua mensagem.

18. A fé é a porta através da qual o Senhor entra em contacto conosco, cura nossas enfermidades (Lc 5,17-26; 1Pd 1,5-9) e os limites que herdamos, reconcilia-nos e nos mostra o fundamento das coisas esperadas (Hb 11,1) e nos envia. A fé refere-se a tudo o que somos, nossa história, nosso corpo, nossa mente, nossas emoções, de forma que toda a pessoa é guiada para a obediência à Palavra7 repleta de futuro. A vida na fé é a verdadeira fonte de nossa alegria e de nossa esperança8, de nosso seguimento a Jesus Cristo e de nosso testemunho ao mundo.
A lógica do dom

19. Gostaríamos de propor uma maneira sempre nova de observar toda a realidade a partir da fé: o universo origina-se do dom gratuito de Deus. Como Frades, mais do que a lei do preço, do intercâmbio ou do lucro, que se impõem neste nosso tempo, sentimo-nos chamados a transmitir uma lógica do dom. Esta visão já fora concedida a Francisco: “Amemos todos, de todo o coração, com toda a alma, com todo o pensamento, com todo o vigor e fortaleza, com todo o entendimento, com todas as forças, com todo o empenho, com todo o afeto, com todas as entranhas, com todos os desejos e vontades ao Senhor Deus; a ele que nos deu e nos dá a todos nós todo o corpo, toda a alma e toda a vida; a ele que nos criou, nos remiu e somente por sua misericórdia nos salvará; a ele que a nós fez e faz todos os bens” (RnB 23,8). Nada nos pertence, tudo é dom recebido, destinado a ser partilhado e restituído.

20. A visão cristã da Trindade reconhece no próprio Deus a perfeição da lógica do dom: Deus, que é Pai, doa-se eternamente ao Filho no Espírito Santo e o Espírito Santo é eternamente doado pelo Pai e pelo Filho. A unidade da Trindade é uma unidade de amor. Deus é amor, e só amor, pois sua própria vida é um eterno dom de si9. Em nossa adesão a Jesus reconhecemos a manifestação histórica do dinamismo do dom. Jesus, o dom por excelência que brota do amor do Pai, deu-se a si mesmo (Gl 1,4; 1Tm 2,6), deu sua vida (Mc 10,45), deu seu corpo no mistério da cruz (Mt 26,26). Em sua vida, Jesus não cessa de doar-nos sua palavra (Jo 17,7.14), o pão da vida (Jo 6,35.51), a paz (Jo 14,27), o Espírito (Jo 3,34) e a vida eterna (Jo 10,28).

21. Especialmente, Jesus nos dá sua mãe (Jo 19,26-27), sua discípula perfeita. Seguindo a lógica do dom, também Maria é constituída “Virgem feita Igreja”: “Ave, Senhora, rainha santa, santa Maria mãe de Deus... escolhida pelo santíssimo Pai, consagrada com seu santíssimo e dileto Filho e com o Espírito Santo Paráclito” (SV 1).

22. Nós mesmos, imagem do Criador, reconhecemo-nos destinatários desse dom de Deus: nós não somos os donos de nossa vida, mas constantemente a recebemos como um dom do alto. Temos a capacidade de doar-nos gratuitamente aos outros mediante um movimento semelhante ao incessante dom de si da parte de Deus. Esta é a experiência celebrada em cada Eucaristia (Ad 1; Ord 28-29): recebemos de Deus o dom de seu Filho, entramos em íntima relação com Ele e somos enviados pelo Espírito ao mundo como prolongamento de seu amor. Como diz a Gaudium et Spes, ninguém “pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesmo” (GS 24). É o Deus uno e trino que nos conduz para fora de nós mesmos para o encontro com o outro, do diferente de nós; mesmo que nosso movimento de saída de nós mesmo seja diferente do movimento de Deus, pois Deus cria do nada com seu dom, enquanto nós só podemos restituir os bens que de Deus temos recebido (cf. CCGG 20,1).

23. Iluminados pela fé num Deus trino, reconhecemos que cada irmão, na diversidade de sua pessoa, é um dom confiado à nossa vida para que entremos numa relação de amor gratuito e desinteressado com ele. O sinal mais evidente da fidelidade ao Senhor será, pois, o amor que nos une uns aos outros (Jo 13,35; Jo 11,36). No Testamento de Sena, Francisco escreve aos Irmãos da Ordem de seu tempo e aos Frades “que hão de vir até o fim do mundo”: “em sinal da memória de minha bênção e de meu testamento, sempre se amem uns aos outros” (TestS 3).

24. Somente se seguirmos as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo, de sua vida, paixão, morte e ressurreição, encontraremos força e lucidez para enfrentar, segundo a lógica do dom, a realidade pessoal, comunitária e social, sempre marcada pelo limite e pelo pecado.

25. No Ofício da Paixão, Francisco faz seus os sentimentos de Cristo que se fez pobre para enriquecer-nos com sua pobreza (OP; 2Fi 5-13; 2Cor 8,9). Somente a partir da adesão a Cristo poderemos dizer-nos um ao outro, como Clara a Inês: “Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza que a levaram a abraçar o tesouro incomparável escondido no campo do mundo e dos corações humanos; e... a considero auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável” (3In 7-8).
Fraternidade e Missão à luz do dom

Em qualquer casa em que entrarem, primeiro digam: Paz a esta casa”



(RB 3,13)

O dom dos irmãos

26. O fato de nos reconhecermos irmãos nasce da fé num Deus que é pai de todos. A partir dessa fé, poderemos reconhecer o outro e dizer, como Francisco: “o Senhor me deu irmãos” (Test 14). O relacionamento fraterno não nasce primeiramente de nossa boa vontade ou de nossas virtudes, mas do dom de Deus (cf. CCGG 40). Também para nós vale a admoestação de Jesus: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21; Mt 12,50; 1Fi 7). Também nossas Fraternidades nascem do reconhecimento de Deus como nosso único Pai, que nos chama a ser irmãos. Cada Fraternidade, na harmonia das individualidades, é uma boa nova do laço familiar que une todos os seres criados à luz de Cristo.
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