2 – Unimar -sp guirado, Maria Cecília



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GT – Midiologia – coordenação do Professor Doutor José Amaral Argolo

Notícias do Maranhão no século XVII1

Autoras: GAIOTO, Danielle Lellis2 – Unimar -SP

GUIRADO, Maria Cecília3 – Unimar - SP

Resumo

Pautados pelo rigor e pela lógica, os sermões do padre Antônio Vieira divulgavam, no século XVII, fragmentos do Brasil na Europa. Estes discursos, tecidos com brilhante retórica barroca, registravam, há 350 anos, notícias do Maranhão. Mesmo que permeadas pelas censuras do Santo Ofício e da Coroa Portuguesa, essas informações espelhavam parte do modus vivendi do local naquele período. O presente trabalho não tenta captar a polifonia da narrativa metafórica do jesuíta, mas preocupa-se, neste primeiro momento, com a sistematização dos sermões proferidos em S. Luís do Maranhão somados àqueles em que o topônimo é referido.



Palavras-chave – fenômenos pré-midiáticos, notícias barrocas, colonização brasileira, século XVII, pe. António Vieira.
Notícias do Maranhão no século XVII

Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galés, os escravos despidos e nus; os senhores se banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em outro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores em pé, apontando para o açoite, como estátuas de soberba e tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás, como imagens vilíssimas da servidão e espetáculos de extrema miséria.
Padre António Vieira

1. Em defesa dos índios

Por essa época, andava o Brasil a expandir-se para os lados do Norte e do Nordeste. Longe do humanismo renascentista, longe de um indício de consciência nacional, o país vai juntando suas peças históricas sobre o amálgama do primitivo missioneirismo medieval da Companhia de Jesus. “Não tardou, ao raiar o séc. XVII, a expansão portuguesa até o Ceará, Maranhão, Pará, e o Amazonas.(...) Os homens no Brasil têm a liberdade de movimento de uma raça jovem e forte que se adestra na luta com o estrangeiro para em seguida vencer a terra” (CALMON, 1959 : 954-5). Mas, nem sempre o vencedor é o verdadeiro dono da terra.



Antes mesmo da chegada do pe. António Vieira a São Luís, em 1652, as escaramuças entre jesuítas e colonos portugueses - que tinham em seu poder os índios cativos - já dividiam opiniões. “Entre 1653 e 1661, Vieira desenvolve incansável trabalho missionário no Maranhão” (BARBOSA, 2003: 17). Chegando a usar sete idiomas indígenas em suas pregações, Vieira posicionou-se contra os escravizadores de índios, fossem eles capturados por “guerra justa” ou por qualquer outra forma cerceamento da liberdade. Mesmo ameaçados pela vociferação da doutrina jesuítica com a perda de suas almas - pelo aprisionamento dos índios em suas roças ou portas adentro -, os colonos lusitanos do Maranhão, assim como os que viviam no restante do país, inauguram sua história tendo como esteio os trabalhos forçados dos legítimos moradores do Brasil.
O Maranhão prosperara duplamente: como presídio e colônia de povoamento. Defendiam-no três fortes, com 261 soldados, em 1626. saía a capitania a el-rei 9:706$920 anuais. ‘dois ou três engenhos d’açúcar principiados’ acrescenta frei Luís de Souza. Esse princípio resultara de uma emigração de açorianos em 1619 (CALMON, 1959: 552).
Em 1654, em São Luís, Antonio Vieira prega o Sermão de Santo Antonio aos Peixes, texto que denuncia os crimes cometidos contra o povo do Maranhão. Por meio de metáforas e elipses barrocas, o missionário cita o exemplo da isca que atrai e ilude tanto homens como peixes:

Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão, ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem esta ambição de hábitos (VIEIRA, 2003: 106).
Neste sermão, segundo Alfredo Bosi (1992:127) Vieira “aperta os cravelhos do seu instrumento retórico para demover o clero e a nobreza de seu apego ao injusto sistema de isenção tributária, tão nocivo ao erário real quanto oneroso para o Terceiro Estado, aí chamado ‘povo’”. Semelhanças com os anos que correm no Brasil, em pleno século XXI, não são meras coincidências, são desdobramentos da economia colonial. A seguir, demonstra a estratégia de sedução do colonizador em sua sina de explorar:
Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com que? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhes passou a era e não tem gasto; o que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobre mais o preço; e os bonitos, ou os que querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra pra outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que se saem à rua, e para isso se matam todo o ano (VIEIRA, 2003:107).

2. Da linguagem: entre a política e a teologia


“Vieira falava a um auditório para o qual o nobre era ontologicamente nobre; o clero, clero in aeternum; o vilão, vilão; o cristão, cristão; o judeu, judeu. Assim o quisera a vontade divina, assim o estabeleceria a natureza das coisas” (BOSI,1992: 123). Linguagem que ele aprimorou nos últimos anos de existência, entre 1688 e 1697, quando veio a falecer, em Salvador, aos 89 anos. O rigor, na reelaboração dos Sermões, Cartas, e outros escritos, além das preocupações literárias e religiosas, foi reforçado por suas convicções políticas às crenças sebastianistas, milenaristas e ao V Império4:


O seu empenho político o obrigava a induzir os ouvintes a uma reestruturação conceitual de valores (...) Daí vem a estranha modernidade de alguns textos seus, que podem parecer fora de contexto se a referência é o universo hierárquico e contra-reformista da península ibérica nos Seiscentos (BOSI,1992:124).
Seguindo os dados biográficos do jesuíta, estabelecidos por José Emílio Major Neto (VIEIRA, 2003: 7-10), Vieira nasceu em Lisboa, em 1608, veio com a família para Salvador, em 1614, onde estudou no colégio da Companhia de Jesus na Bahia, a partir dos 15 anos. Em 1635 é ordenado sacerdote. Mas, sua carreira política teria início em 1641 (logo após a restauração portuguesa, em 1640), quando ele retorna a Portugal em missão diplomática. Nesta época era amigo do rei D. João IV. A seguir torna-se pregador oficial na Capela Real de Lisboa. Em 1643 começa sutilmente influenciar o rei em favor dos cristãos-novos e, em seguida, inicia suas embaixadas a diversos países da Europa, a fim de estabelecer alianças em prol do mercantilismo português. De volta ao Brasil, é figura central nas disputas entre jesuítas e colonos quanto à exploração da mão-de-obra indígena, mas “não consegue extrair do seu discurso universalista aquelas conseqüências que, no nível da práxis, se contraporiam, de fato, aos interesses dos senhores de engenho” (BOSI, 1992:148). O problema retórico de Vieira seria: “como compor um discurso persuasivo, isto é, suficientemente universal nos argumentos para mover particularmente a fidalguia e o clero a colaborar na reconstrução do Reino, até então escorada sobretudo pela burguesia e pelos cristãos-novos? (Id. Ib. 123). Apesar do apoio inicial dado por D. João IV a Vieira, os padres não conseguiram realizar o plano de aldeamentos no sertão.Vieira apela à Coroa, mas a trégua dura pouco.

Com a morte de D.João IV, amigo e protetor, em 1656, esmorece também seu projeto sebastianista e sua influência sobre a Corte. Em 1661 foi expulso do Maranhão, com outros jesuítas. A seguir, é também derrotado pela Inquisição, que proíbe seus escritos, devido à carga ideológica (sebastianista, milenarista ou do V Império).


Nomeou-se o ‘Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus insigníssimo pregador e que era de el-rei vindo havia poucos tempos expulso do Maranhão’ para confessor do príncipe D. Pedro.(...) ‘E chegou a tanto a imaginação que el-rei se opôs com toda a fôrça (...), pois receava da viveza de seu engenho e traças maquinaria maiores pensamentos’ (CALMON, 1959:843).
Em Coimbra, em 1665 foi julgado pelo Tribunal do Santo Ofício, quando lhe foi imputada a pena do silêncio. Castigo cruel ao comunicador que proferia aquém e além mar discursos em favor de uma ética que se pretendia globalizada5. Só em 1668 seria reintegrado em suas funções, e, com a queda de D. Afonso VI, o jesuíta recebe a anistia. Barrocamente (barroca a mente). “Nos sermões de Vieira, o orador lnaça um tema e a seguir começa a reconsiderá-lo sob vários pontos de vista, a persegui-lo em várias tonalidades e a vê-lo de perspectivas várias, caleidoscopicamente” (SANT’ANNA, 2000: 155).

Em Roma desagrava o Santo Ofício e vive desgostoso durante o exílio, que só termina em 1675, quando volta a Lisboa. Convidado a pregar em italiano, numa carta a D. Rodrigo de Meneses, declarou sua contrariedade pela coação:


Sei a língua do Maranhão e a portuguesa, e é grande desgraça que, podendo servir com qualquer delas à minha pátria e ao meu príncipe, haja nesta idade de estudar uma língua estrangeira para servir, e sem frutos a gostos também estrangeiros (VIEIRA apud COUTINHO, 1997:83).
No Sermão do Bom Ladrão acusa os colonos e os governantes do Brasil de roubarem escandalosamente:

Grande lástima será naquele dia, senhores, ver como os ladrões levam consigo muitos reis ao Inferno: e para esta sorte se troque em uns e outros, vejamos agora como os mesmos reis, se quiserem, podem levar consigo os ladrões ao Paraíso. Parecerá a alguém, pelo que fica dito, que será cousa muito dificultosa, e que se não pode conseguir sem grandes despesas; mas eu vos afirmo e mostrarei brevemente que é cousa muito fácil e que sem nenhuma despesa de sua fazenda, antes com muitos aumentos dela, o podem fazer os reis. E de que modo? Com uma palavra; mas a palavra de rei. Mandando que os mesmos ladrões, os quais não costumam restituir, restituam efetivamente tudo o que roubaram (VIEIRA, 2003: 198)6.

No Sermão da Sexagésima investiga as razões do fracasso das pregações de sua época sem deixar de fustigar os colonos maranhenses. “Assim, Vieira vai considerando a palavra do orador como as sementes do semeador que podem cair entre espinhos, entre pedras, ser comidas por aves ou em boa terra” (SANT’ANNA, 2000: 156)



Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. (...) Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte (VIEIRA, 2003: 126)

Neste sermão Vieira não prega apenas sobre a parábola do semeador (Mateus XIII), mas expõe, em metalinguagem, sua arte de pregar. Em cada tema proposto, ele retoma o assunto de forma variada “fazendo uma orquestração repetitivamente esgalhada e espiralada do raciocínio, confirmando o que ele mesmo apregoa” (SANT’ANNA, 2000: 156).




A frustração de Vieira no Maranhão


No Sermão da quinta Dominga da Quaresma ele zomba da mentira e conta, com sarcasmo, que nem o grau exato do sol se pode medir no Maranhão.


Não há dúvida, que o M. M – Maranhão, M – murmurar, M – motejar, M – maldizer, M – malsinar, M – mexericar, e, sobretudo, M – mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente. Novelas e novelos, são as duas moedas correntes desta terra, mas tem uma diferença, que as novelas armam-se sobre nada e os novelos armam-se sobre muito para tudo ser moeda falsa (VIEIRA, Vol 4., pg 3, Edição digitalizada da Biblioteca Nacional).
“Apesar desse sarcástico desabafo, Vieira não desamava a velha província, chamando-lhe mais tarde o“meu desejado Maranhão”.(COUTINHO, 1997: 93). Segundo este mesmo autor, Vieira não regateava fidelidade ‘ao Brasil, a quem pelo segundo nascimento’ - dizia ele numa carta de 1673 – ‘devo as obrigações de pátria’ (Id. Ib. : 85). Mas, o desprezo pelo Maranhão, fixado no sermão da Quinta Dominga da Quaresma passou para a História:
O problema da etimologia de Maranhão foi resumido por Benedito de Barros Vasconcelos, in Anais do IV Congresso de História Nacional, II, págs. 478-9, Rio, 1950. Tudo leva a crer que vem do espanhol maraña (emaranhado), marañon, que realmente desde o século XVI este é o nome dado ao Amazonas no seu curso superior compreendendo-se que – rio de misteriosas riquezas – com êle confundissem os portugueses os que deságuam na baía do Maranhão e ainda a foz do Amazonas “ou Grão-Pará”. Parece ter sido Luís de Melo da Silva quem denominou Maranhão à barra onde naufragou naquela costa incluída mais tarde na capitania de João de Barros. Poucas dúvidas restam sobre a origem castelhana do topônimo, a que Padre Antônio Vieira volveu, na ironia do trocadilho: ‘Êste Maranhão é maranha...’ carta ao conde de Ericeira, 1689, Cartas III, pág. 570 da ed. de J. Lúcio. A verdade é que aos ouvidos rudes soava como grande mar (hibridismo adotado pelos conquistadores, Grão-Pará, em vez de Paraguaçu, como nos outros lugares do litoral), o que poderá explicar àquela terra, tão distante do autêntico Marañon.(CALMON, 1959: 482 – 3, sublinhado nosso).
Em seu duplo papel de político e orador, Vieira exerceu o poder da palavra, responsabilizando-se pelo fenômeno pré-midiático da comunicação globalizada, quando frente a uma aldeia ou frente a privilegiadas platéias da Europa divulgava imagens e notícias que havia registrado no convívio com os primeiros maranhenses. “O pregador adquiriu tais proporções como homem de pensamento e de ação, no panorama religioso, político e social do séc. XVII, que seria impossível considerá-lo por um só aspecto, separadamente de qualquer outro” (COUTINHO, 1997: 85).

Deste modo, no segundo século da história do Brasil, funda-se a ambigüidade da dupla lealdade dos jesuítas: ora frente aos índios, ora frente à Coroa. Ambigüidade que será utilizada a favor do Império lusitano, proibindo a continuidade do trabalho missionário da Companhia de Jesus no Brasil, por ordem do Marques de Pombal “que decide acabar com aquela experiência socialista precoce (...) Então ocorre o mais triste. Os padres entregam obedientemente as missões aos colonos ricos, contemplados com a propriedade das terras e dos índios pela gente de Pombal, e são presos e recolhidos à Europa, para amargar por décadas o triste papel de sujidores que tinham representado” (RIBEIRO, 1995: 56).

Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro,
(...) o pe. António Vieira (...) descrevendo no século XVII rios que ele visitara uma década antes, se espanta com a quantidade de gente dizimada pelos colonos em nome da civilização. Ele fala – certamente sem exagero – de 2 milhões de índios que se teriam gasto e se continuavam gastando (1995: 316).
Os brasileiros nativos que sobreviveram à colonização, às missões jesuíticas e à toda a sorte de engenhos exploratórios transformaram-se em gente destribalizada, povos da floresta, intimidados em reservas da FUNAI, (Fundação Nacional do Índio) e índios genéricos desculturados. Talvez Vieira tivesse realmente uma visão do futuro.

Referências bibliográficas

CALMON, P. História do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1959.


BOSI, A. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
VIEIRA, Pe A. Sermão do bom ladrão & outros sermões escolhidos. São Paulo: Landy, 2003.
COUTINHO, A e COUTINHO, E. F. A Literatura no Brasil. vol. 2, 4. ed. São Paulo: Global, 1997.
SANT´ANNA, A. R.. barroco – do quadrado à elipse. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
RIBEIRO, D. O povo brasileiro – A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das letras, 1995.
Fontes digitais
Enciclopédia virtual: http://pt.wikipedia.org/wiki/Enciclop%C3%A9dia (acesso em 26 abr. 2006).
VIEIRA, Coleção dos Sermões do pe. António Vieira da Biblioteca Nacional - disponível em http:// www.bn.br (acesso em 20 abr. 2006).

Anexo
Aparato genético contendo fragmentos dos Sermões do Pe. António Vieira, com destaque para o topônimo Maranhão. Seleção realizada a partir da coleção da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – edição digitalizada pelo Departamento Nacional do Livro, disponível em http:// www.bn.br (acesso em 20 abr. 2006).




SERMÃO DA SEXAGÉSIMA (Vol. 01, pgs. 8, 9 e 10)

Pregado na Capela Real. Este sermão pregou o Autor no ano de 1655, vindo da Missão do Maranhão, onde achou as dificuldades que nele se apontam, as quais vencidas, com novas ordens reais voltou logo para a mesma Missão. (pg.. 8)

O pregador evangélico será pago não só pelo que semeia como pelas distâncias que percorre, e não volta nem mesmo diante das dificuldades que a natureza lhe apresenta: as pedras, os espinhos, as aves, o homem. Cristo ordenou que se pregasse a todas as criaturas porque há homens-brutos, homens-pedras, e homens-homens. O que aconteceu com a semente do Evangelho aconteceu com os missionários do Maranhão (...).. (pg. 9)

(...) Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte (...). (pg. 10)

SERMÃO DO NASCIMENTO DA VIRGEM MARIA (Vol. 01, pg. 55)


Debaixo da invocação de N. Senhora da Luz, título da igreja e Colégio da Companhia de Jesus, na cidade de S. Luís do Maranhão. Ano de 1657. (pg.. 55)

SERMÃO DE S. PEDRO NOLASCO (Vol. O2. 1, pgs. 27, 36 e 37)


Pregado no dia do mesmo santo, no qual se dedicou a Igreja de Nossa Senhora das Mercês na cidade de São Luís do Maranhão. (pg. 27)
Parabém à Senhora das Mercês, fundadora do Instituto, pela dedicação da igreja. As três aparições de Cristo para fundar a Igreja, e as três aparições de Maria para fundar a Religião das Mercês. Parabém ao Estado. É a nova Igreja das Mercês do Maranhão, todas as igrejas e santuários que se veneram na Cristandade.(pg. 36)
(...) E como esta soberana Rainha se empenhou tanto em fundar esta sua religião no mundo, oh! que grande glória terá hoje no céu, em que se vê com nova casa neste estado, e com o seu Instituto introduzido em Portugal depois de quatrocentos anos! Note o Maranhão de caminho, e preze muito e preze-se muito desta prerrogativa que tem entre todas as conquistas do nosso Reino. Todos os esta­dos de nossas conquistas, na África, na Ásia e na América, receberam de Portugal as religiões com que se honram e se sustentam. Só o Estado do Maranhão pode dar nova religião a Portugal, porque lhe deu a das Mercês. Cá começou, e de cá foi, e já lá começa a ter casa, e quererá a mesma Senhora que cedo tenha casa e província. (pg. 36)
E por que não vos admireis desta prerrogativa da Senhora da Casa, sabei que a Casa da Senhora tem a mesma prerrogativa. Que casa e que igreja cuidais que é esta em que estamos? Padre, é a Igreja nova de Nossa Senhora das Mercês do Maranhão. E é mais alguma coisa? Vós dizeis que não, e eu digo que sim. Digo que esta igreja é todas as igrejas e todos os santuários grandes que há e se veneram na Cristandade, e ainda fora da Cristandade também. Esta igreja é a igreja de Santiago de Galiza, e a igreja de Guadalupe em Castela, e a igreja de Monserrate em Catalu­nha, e a igreja do Loreto em Itália, e a igreja de S. Pedro, e de S. Paulo, e de S. João e Laterano, e de Santa Maria Maior, em Roma (...).(pg. 37)

SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO (Vol. 02, pg 69,153, 159 e 236)

Pregado em S. Luís do Maranhão, três dias antes de se embarcar ocultamente para o Reino. (pg. 69)

(...) Só uma diferença havia entre Santo Antônio e aquele peixe: que o peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo Antônio abria a sua contra os que se não queriam lavar. Ah! moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso! Abri, abri essas entranhas; vede, vede esse coração. Mas ah! sim, que me não lembrava! Eu não vos prego a vós, prego aos peixes. (pg. 153)

(...) E depois disso, que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali ou noutra ocasião, ficou morto, e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros. Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão, ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem essa ambição de hábitos.(pg. 159)


(...) Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhes passou a era e não têm gasto, e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra, dá-lhes uma sacadela, e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço, e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dividas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça ou na cana, ou no engenho ou no tabacal, e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias: pois, em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano. (pg. 159)

SERMÃO DE N. S. DO CARMO (Vol 02, pg. 236)


Sacramento exposto, na Igreja e Convento da mesma Senhora, na cidade de S. Luís do Maranhão. ANO DE 1659.

SERMÃO DA QUARTA DOMINGA DA QUARESMA (Vol. 02, pg. 378)


Pregado em Lisboa, na Capela Real, Ano de 1655.

Na ocasião em que o autor tendo feito a primeira retirada da corte para o Maranhão, dispunha a segunda, que também executou.
SERMÃO DE SANTA TERESA (Vol. 03, pg. 415,416)

No Colégio Companhia de Jesus da Ilha S. MIGUEL*, havendo escapado o autor de um terrível naufrágio e aportado àquela ilha.
O errado pensamento das virgens prudentes: imaginaram que, arriscando-se pela caridade, podiam correr perigo. Os arriscados intentos de Judite para salvar a cidade de Betúlia. O perigo de naufrágio a que se expôs o autor pela salvação das almas. Agradecimento aos anjos da guarda das almas do Maranhão. Para Jonas sair do perigo de naufrágio mete-se noutro perigo maior. Perigo tomado pela salvação dos próximos não pode ser perigo em que se perigue. Nas tempestades de suas redomas todas as virgens naufragaram, porque todas deram em seco: as néscias no das suas lâmpadas, e as prudentes no da sua avareza. O mais arriscado lanço em que se meteu nenhum homem. Os perigos a que expôs Santa Teresa a saúde, a honra e a perfeição.(pg. 415)
(...) A quem aconteceu jamais depois de virado o navio e depois de estarem todos fora dele sobre o costado, ficar assim parado e imóvel por espaço de um quarto de hora, sem a fúria dos ventos descompor, sem o ímpeto das ondas o soçobrar, sem o peso da carga e da água, de que estava até o meio alagado, o levar a pique, e depois dar outra volta para a parte contrária, e pôr-se outra vez direito, e admitir dentro em si os que se tinham tirado fora? Testemunhas são os anjos do céu, cujo auxílio invoquei naquela hora, e não o de todos, senão daqueles somente que têm à sua conta as almas da gentilidade do Maranhão. — Anjos da guarda das almas do Maranhão, lembrai-vos que vai este navio buscar o remédio e salvação delas. Fazei agora o que podeis e deveis, não a nós, que o não merecemos, mas àquelas tão desamparadas almas que tendes a vosso cargo. Olhai que aqui se perdem também conosco. (...) (pg. 416)

SERMÃO DA QUINTA DOMINGA DA QUARESMA (Vol. 04.1, pgs. 2, 3, 4, 11 e 12)


Na Igreja maior da cidade de São Luís do Maranhão. Ano de 1654.
O Domingo das verdades. No Maranhão a corte da mentira. O galante apólogo do diabo. O M de Maranhão. No Maranhão até o Sol e os céus mentem. (pg 2)
A este Evangelho do Domingo Quinto da Quaresma chamais comumente o domingo das verdades. Para mim todos os domingos têm este sobrenome, porque em todos prego verdades, e muito claras, como tendes visto. Por me não sair, contudo, do que hoje todos esperam, estive considerando comigo que verdades vos diria, e, segundo as notícias que vou tendo desta nossa terra, resolvi-me a vos dizer uma só verdade. Mas que verdade será esta? Não gastemos tempo. A verdade que vos digo é que no Maranhão não há verdade.(pg. 2)
(...) E se as letras deste abecedário se repartissem pelos estados de Portugal, que letra tocaria ao nosso Maranhão? Não há dúvida, que o M. M – Maranhão, M – murmurar, M – motejar, M – maldizer, M – malsinar, M – mexericar, e, sobretudo, M – mentir: mentir com as palavras, mentir com as obras, mentir com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente. Novelas e novelos, são as duas moedas correntes desta terra, mas tem uma diferença, que as novelas armam-se sobre nada e os novelos armam-se sobre muito para tudo ser moeda falsa. (pg 3)
Na Bahia, que é a cabeça desta nossa província do Brasil, acontece algumas vezes o que no Maranhão quase todos os dias. Amanhece o Sol muito claro, prometendo um formoso dia, e dentro em uma hora tolda o Céu de nuvens, e começa a chover como no mais entranhado inverno (...)Mas o que se disse do Brasil por galanteria, se pode afirmar do Maranhão com toda a verdade. E experiência inaudita a que agora direi, e não sei que fé lhe darão os matemáticos que estão mais longe da linha. Quer pesar o Sol um piloto nesta cidade onde estamos, e não no porto, onde está surto o seu navio, senão com os pés em terra: toma o astrolábio na mão com toda a quietação e segurança. E que lhe acontece? Coisa prodigiosa! Um dia acha que está o Maranhão em um grau, outro dia em meio, outro dia em dois, outro dia em nenhum. E esta é a causa por que os pilotos que não são práticos nesta costa, areiam, e se têm perdido tantos nelas. De maneira que o Sol, que em toda a parte é a regra certa e infalível por onde se medem os tempos, os lugares, as alturas, em chegando à Terra do Maranhão, até ele mente. E Terra onde até o Sol mente, vede que verdade falarão aqueles sobre cujas cabeças e corações ele influi. Acontece-lhes aqui aos moradores o mesmo que aos pilotos, que nenhum sabe em que altura está. Cuida o homem nobre hoje que está em altura de honrado, e amanhã acha-se infamado e envilecido (...)É isto assim? A vós mesmos o ouço, que eu não o adivinhei. Vede se é certa a minha verdade: que não há verdade no Maranhão. (pg 3)
O mesmo passa nos vícios. Se o clima influi soberba, nasce a inveja, se influi gula, nasce a luxúria; se influi cobiça, nasce a avareza; se influi ira, nasce a vingança. E para nascer a mentira, que é o que influi? Ociosidade. Onde o clima influi ócio, dá-se a mentira a perder. Nasce, cresce, espiga, e de um não-sei-quê, tamanho como um grão de trigo, podeis colher mentiras aos alqueires. Estes são os dois vícios do Maranhão, e estas as duas influências deste clima – ócio e mentira. – O ócio é a primeira influência, a mentira a segunda: o ócio a causa, a mentira o efeito. Não há Terra no mundo que mais incline ao ócio ou à preguiça, como vós dizeis, e esta é a semente de que nasce tão má erva (...). (pg. 4)
(...) No Maranhão é verdade que há muitas mentiras, mas mentirosos, isso não; muito falso testemunho, sim, mas quem levante falso testemunho, por nenhum caso. Pois, como pode isto ser? Como pode ser que haja falsos testemunhos, sem haver quem os levante? Eu vo-lo direi. Nas outras terras os homens levantam os falsos testemunhos; nesta Terra os falsos testemunhos levantam-se a si mesmos. Se vos parece dificultosa a proposição, vamos à prova. No Maranhão é verdade que há muitas mentiras, mas mentirosos, isso não; muito falso testemunho, sim, mas quem levante falso testemunho, por nenhum caso. Pois, como pode isto ser? Como pode ser que haja falsos testemunhos, sem haver quem os levante? Eu vo-lo direi. Nas outras terras os homens levantam os falsos testemunhos; nesta Terra os falsos testemunhos levantam-se a si mesmos. Se vos parece dificultosa a proposição, vamos à prova (...).(pg. 11)
Aborrecer a mentira não só por consciência mas por conveniência. Quantas mentiras se dirão cada dia no Maranhão? Quantas cabem a cada casa? O pecado que mais facilmente se comete e com mais dificuldade se restitui. Exortação.(pg 12)
(...) porém as mentiras do Maranhão não têm nem outra parte donde vir nem outra parte para onde ir: aqui nascem e aqui ficam; e quando as mentiras todas ficam na terra, e todas vos caem em casa, ainda por conveniência e razão de estado as haveis de lançar fora. E se não, fazei-me por curiosidade duas contas, as quais eu agora não posso fazer. Uma é: quantas mentiras se dirão cada dia no Maranhão? A outra: quantas casas há nesta cidade, e logo reparti as mentiras, e vereis quantas cabem a cada casa! E que será em uma semana, que será em um mês, que será em um ano? (pg 12).

SERMÃO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO (Vol. 5, pg. 138)


No Sábado da infra Octavam Corporis Christi, e na hora em que todas as tardes se reza o Rosário na Igreja do Colégio da Companhia de Jesus do Maranhão, e nos sábados se conta um exemplo da mesma devoção, ano de 1654.
Sermão de Santo Antônio (Vol. 02, pg. 394)

Pregado na dominga Infra Octavam do mesmo santo, em o Maranhão, ano de 1657


1Primeiro esboço de produção do projeto de iniciação científica Notícias Barrocas, que há apenas dois meses trabalha este tema com o propósito de homenagear o IV Encontro da Rede Alfredo de Carvalho, em São Luís do Maranhão.


2 Aluna do primeiro termo do curso Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo da Unimar, estagiária do Núcleo Marília da Rede Alcar – História da Mídia no Brasil – Himídia.



3 Jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), doutora em Estudos Portugueses/História da Comunicação (Universidade Nova de Lisboa UNL), colaboradora do CHAM (Centro de História de Além-mar – UNL), coordenadora do Núcleo Marília da Rede Alcar e responsável pelo projeto Notícias Barrocas, que integra os estudos pós-doutorais Notícias e visões do Brasil no século XVII, sob a supervisão do Professor Doutor José Marques de Melo.
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4 Sebastianismo foi um movimento mítico que ocorreu em Portugal na segunda metade do século XVI, como conseqüência da morte de D. Sebastião. Traduz uma inconformidade com a situação política e a expectativa de salvação, através da ressurreição do morto. O povo nunca aceitou o fato e divulgava a lenda do sapateiro Bandarra, de que o rei estava vivo e voltaria ao trono para afastar o domínio estrangeiro. Milenarismo é a crença de que no futuro, após o Apocalipse, existirá um período dourado de 1000 anos que será regido por um governo divino, regido, neste caso, pelos portugueses. O V Império seria de ordem temporal e espiritual. Pe. António Vieira estudando profundamente as Escrituras que falavam do imperador que Jesus prometera à Igreja, convenceu-se de que esse Império só poderia ser português. (os anteriores tinham sido o dos assírios,o dos persas, o dos gregos e dos romanos). Resumo de pesquisa realizada no site http://pt.wikipedia.org/wiki/Enciclop%C3%A9dia (acesso em 26 abr. 2006).


5Ao contrário de alguns padres de agora que “são ex-professores de ginástica, rebolam e cantam nas telas da TV (...) como quem vende sabonetes e só falam o que se quer ouvir: nada de novo, nada de instigante, nada que faça pensar” (BARBOSA, 2003: 11).



6 Qualquer semelhança com a atual situação de escândalos políticos que assolam o Brasil - com “Mensalões”, “Valeriodutos” e outros roubos federais, para os quais o presidente não assume a palavra de rei e nem obriga a restituição dos bens ao povo – não é mera coincidência, é reincidência histórica.




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