2 a dimensão tecnológica



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2 - A DIMENSÃO TECNOLÓGICA



Mas onde está o perigo, cresce

Também aquilo que salva

Hölderlin




2.1 Perspectivas
A sociedade vive centrada no paradigma da técnica, pelo menos, desde a Revolução Industrial. Se a sociedade medieval era teocêntrica, a sociedade moderna é tecnocêntrica. Neste processo de desenvolvimentos tecnológicos proporcionados pelo devir histórico, passa-se de uma era industrial de titânica produção de hardware, sobretudo pesada, para uma era digital de tecnologias software, sobretudo leves, a caminho de uma nanotecnologia próxima da imaterialidade. Com a sociedade de informação acelera-se a comunicação através dos media digitais. A era digital co-habita com a pós-modernidade, iniciando um paradigma da complexidade que, certamente, está a levar a um repensar o lugar do homem no mundo.
Técnica tinha para os gregos um significado diferente daquele que é costume atribuir-se-lhe, segundo Heidegger (1962), deriva de technikon, o que pertence à technè, que quer dizer: «conhecer-se no acto de produzir». Esta é a razão porque os gregos não diferenciavam "técnica" de "arte", «technè não é um conceito do fazer, mas um conceito do saber», tratava-se de saber tornar manifesto o que não era presente. Ora, com a modernidade, a técnica exprime-se nos meios tecnológicos, o saber-fazer cria um ambiente artificial onde o medium tecnológico se instala como mediação produtiva entre o homem e o mundo. Quando McLuhan (1967) afirma que «o meio é a mensagem», ele também insiste em recordar que o meio enquanto mensagem actua como «massagem», i. e., um medium é um ambiente condicionante. Com a técnica, mais que aquilo que se produz tem-se algo que nos produz. A técnica, agora sob a definição de tecnologia, que é um tecno-logos, não tem nada de neutro.

As coisas que se criam para nosso uso, são extensões onde o tecnológico comunga com o simbólico, não apenas extensões mecânicas, elas conectam-se com o sistema nervoso, o cortex, com todo o campo perceptivo, participando na construção da própria experiência do mundo. As coisas novas que se fazem e os novos meios de comunicação como extensões do homem «introduzem novos hábitos de percepção», pois, «qualquer extensão – seja da pele, da mão ou do pé – afecta todo o complexo psíquico e social» (McLuhan, 1964). Os meios de que dispomos induzem novas conexões, mudanças simbólicas contextualmente imbuídas.


Neste sentido, pode-se considerar que as novas tecnologias não só estão a transformar o modo de produção da sociedade actual, como estão a realizar a «metanóia» (Senge, cit. in Pereira, 2001) do «ser digital» (Negroponte, 1995). Contudo, há autores conceituados na reflexão sobre as tecnologias, como Paul Virilio, especialista no estudo da velocidade no ordenamento do espaço e do tempo, a que chama «dromologia», que constroem uma visão pessimista sobre o futuro graças às novas tecnologias. Para Virilio (1990), a recente aceleração nas novas tecnologias, toma por referência um corpo deficiente em vez de um corpo locomotor. Ele denuncia também o facto de se estar a criar um encerramento do mundo com a abolição das distâncias, dada a contracção do espaço e do tempo proporcionada pela velocidade nas comunicações (Virilio, 1995). Acerca da influência social da Internet, Virilio (1996) considera mesmo que «a interactividade (...) pode provocar uma união da sociedade, mas encerra, em potência, a possibilidade de a dissolver e de a desintegrar, e isto, à escala mundial».
Estas perspectivas perturbantes fazem recordar as reacções dos românticos do século XIX que viam na emergência da Máquina um instrumento de desumanização e, entretanto, as máquinas transformaram o mundo, causando com o processo industrial, é verdade, danos ecológicos catastróficos que suscitam a urgência de medidas de reparação. Mas, na história como na natureza, tudo permanece transformável. Não se trata de negar a técnica ou a tecnologia, Heidegger reparou que ela não tem nada de neutro, mas insistia na necessidade de se continuar a interrogá-la sem deixar de a aceitar. Como dizia Papert (1996), «o efeito positivo ou negativo das tecnologias é uma questão em aberto». Pode-se entender o que Baudrillard quer dizer quando prefere considerar as «extensões do homem» como «exclusões do homem», mas a dimensão tecnológica é constitutiva da humanidade. Escute-se Kerckhove (1995) quando afirma que a própria linguagem e os alfabetos constituem uma espécie de software, a humanidade está culturalmente predisposta para a tecnologia, pelo menos em alguma das suas formas. Para alguns, a questão consiste em não se transformar o humano em extensão dela. O simulacro de realidade produzido pelos media, enquanto ersatz, cria uma «hiperrealidade», (Baudrillard, 1981), um mundo onde uma realidade mais "real" que o real faz implodir qualquer significado (que não seja o do espectáculo). Contudo, com ou sem «o ecrã platónico dos media»1 (Kellner, s.d.) deve entender-se toda a comunicação como mediatizada. E volta-se mais uma vez à questão do abuso e do uso, de manipulação ou educação.

A concepção newtoniana do tempo, segundo a qual, o tempo flui uniformemente, à mesma velocidade, universal, absoluto e neutro, foi profundamente alterada pela teoria da relatividade formulada por Einstein que introduziu o conceito de espaço-tempo. Ilya Prigogine (cit. in Bindé, 2002) interrogou o porvir do tempo e introduziu a incerteza na ideia de tempo, mostrando que as leis reversíveis de Newton dizem respeito somente a uma pequena fracção do mundo em que vivemos, como a descrição do movimento dos planetas, mas não formula leis que impliquem fenómenos irreversíveis. «O tempo não tem um porvir, mas porvires», refere Bindé (2002) parafraseando Prigogine. Com a entrada num mundo de probabilidades, de futuros múltiplos, a contracção do tempo e do espaço realizada pela aceleração tecnológica, nota Bindé2, progride para o infinitamente breve:


Se se procura algumas referências cronológicas sobre a contracção do tempo na história, é preciso lembrar que se começou a falar de décimo de segundo em 1600, de centésimo de segundo em 1800, de milisegundo em 1850, de microsegundo (milionésimo de segundo) em 1950, de nanosegundo (mil milionésimo de segundo) em 1970, de fentosegundo (mil milionésimo de milionésimo de segundo) em 1990 e que se falará provavelmente em 2020 de atosegundo, isto é, de milionésimo de milionésimo de milionésimo de segundo! (p.10, Março, 2002)
Este fenómeno tem efeitos em todos os campos da sociedade moderna, a obsolescência é um desses efeitos mais evidentes, a aceleração do tempo suscita «um desaparecimento de objectos que são doravante substituídos por outros. O tempo tecnológico, mas também social, é doravante volátil, quase fantasmagórico» (Bindé, 2002).
O desenvolvimento dos novos meios de informação suscita a impressão de que a história acelera e o planeta se contrai. Mas a «aldeia global» só existe para quem estiver conectado com as redes, porque nestes tempos pós-modernos assiste-se igualmente a um «recrudescer dos particularismos culturais» (Augé, 1992), ou se se permite a comparação, uma proliferação de múltiplas aldeias do Astérix, na melhor das hipóteses, uma «heterotopia», no dizer de Vattimo (1989). Entretanto, verifica-se como o desenvolvimento das novas tecnologias e a globalização da economia estão a criar novas fronteiras «desterritorializadas» (conceito de Deleuze & Guattari, cit. in Lévy, 1998). O dinheiro e a tecnologia são hoje os pilares desta civilização desterritorializada, ou pelo menos de um modelo de civilização que mediaticamente se impõe. No entanto sente-se que falta algo mais, e este algo mais é que é o problema. A «Tecnopolia» (Postman, 1992) esqueceu, deturpou ou subverteu valores fundamentais da espécie humana, também aqui, não se trata de negar a tecnologia, mas de não deixar que ela, feita Deus ex machina, domine a humanidade. Já foi referida a importância de se construir uma cultura tecnológica, só que esta deve ser implementada com uma educação construtivista «radical» (Glasersfeld, 1995) onde a cultura não se reduza a um pensamento único.

2.2 Potencialidades
Papert (1996), autor do LOGO, uma linguagem de programação concebida para fins educativos, foi dos primeiros a descobrir no uso dos computadores as suas potencialidades para criar uma nova cultura de aprendizagem nas escolas, numa altura em que os computadores avassalavam a sociedade, optimizando o desempenho económico e abrindo uma nova dimensão lúdica no imaginário das crianças, Papert insistiu construtivamente em ver nos computadores, máquinas de ensinar e aprender e criticou a resistência que se fazia à sua implementação nas escolas, «o movimento de utilização de computadores nas escolas encontra-se dramaticamente atrasado em relação ao desenvolvimento da utilização dos computadores em casa». Embora sabendo-se que esta situação está a inverter-se, haverá mais computadores em casa dos alunos do que na escola, situação que exercerá alguma pressão para levar a escola a reformas educativas. Papert vê nos meios de comunicação digitais para a educação, na sua extraordinária flexibilidade, um instrumento capaz de permitir a cada aprendiz encontrar o seu próprio estilo pessoal de aprender.
O computador tornou-se uma privilegiada ferramenta de trabalho, um sofisticado instrumento de comunicação em qualquer sociedade modernizada. Estamos perante uma tecnologia em evolução permanente, das válvulas de vácuo passou-se aos transístores e destes aos circuitos integrados em crescente miniaturização e grau de complexidade. A desconcertante simplicidade do código binário vem possibilitar o desenvolvimento de aplicações lógicas complexas mediante poderosas linguagens de programação.
O primeiro computador programável, um dispositivo mecânico, foi concebido por Babbage em 1823, mas foi a álgebra de Boole que abriu o caminho para a informática com o seu sistema de lógica simbólica. Ainda no século XIX, o filósofo Peirce introduziu a álgebra booleana nas universidades dos EUA e assim plantou uma semente que daria frutos meio século mais tarde quando Shannon dá conta das implicações da lógica de Boole para o design de computadores aplicando-a em circuitos eléctricos. Com a legendária máquina de Turing os dados passavam a ser introduzidos numa fita de papel dividida em quadrados marcados simbolicamente por meio de instruções armazenadas na sua memória interna. As válvulas de vácuo representaram um novo avanço, o computador electrónico digital ENIAC (1946) que pesava cerca de 30 toneladas, operava com mais de 17 000 válvulas de vácuo a uma taxa de 100 000 impulsos por segundo. Para além de desenvolver a teoria dos jogos, von Neumann intuiu as potencialidades dos computadores para trabalhar com inúmeros tipos de tarefas e concebeu (num memorando publicado em 1945) a arquitectura de um sistema de computação com uma unidade lógica central, uma unidade de controlo central, uma memória e dispositivos de input e output.
A invenção do transístor viria a substituir as válvulas de vácuo e o caminho para a miniaturização começava. Em 1950, Teal apresenta um transístor feito em sílica tornando assim o produto muito mais barato e desenvolvem-se processos de fotogravura dos circuitos. Surge então Kilby em 1958 com um protótipo de circuito integrado, uma pastilha de 10 mm. Com a produção em massa de circuitos integrados estes passaram a ser chamados chips. Em 1964 um chip media 2,5 mm² e continha um total de 10 transístores entre outros componentes. Desde então, a miniaturização e complexificação dos chips não mais parará. Em 1968, a Intel introduz o primeiro chip com memória capaz de armazenar um Kilobit de informação e em 1971 um microprocessador já tinha tanta capacidade quanto um computador mainframe dos anos 1950. Em 1969 estabelece-se a ARPANet, rede de computadores militares, precursora da Internet.
E a partir de 1975 cresce a ideia do computador pessoal, a hora é dos jovens empreendedores. Em cinco anos a Apple de Steve Jobs e Wozniak salta de uma garagem transformada em oficina para a envergadura duma empresa com um mercado estimado em um bilião de dólares. Paul Allen e Bill Gates escrevem uma versão da linguagem BASIC para o computador Altair de Roberts e depois fundam a muito auspiciosa Microsoft. 1979 é o ano do lançamento da disquete. Em 1981, o gigante da indústria electrónica IBM, anuncia a sua intenção de produzir PC´s. O estabelecimento da rede de computadores NSFNet (National Science Foudation Computer Network) em 1984, surge a partir da ARPANet, originando a Internet, nesta data surge também o primeiro Macintosh da Apple. 1985 traz o CD-ROM e será o ano em que Warnock e Brainerd apresentam um software de edição electrónica que ajuda os editores e os designers a paginar livros, jornais e revistas com um computador pessoal. E em 1987 aparece o QuarkXPress para os profissionais da edição gráfica. Em 1990, o Desenho Assistido por Computador (CAD) revela-se uma ferramenta indispensável nos gabinetes dos projectistas. 1993 é o ano que inicia a geração dos processadores Pentium. 1994, assinala a rápida expansão da Web que Tim Berners-Lee, engenheiro do CERN, criou com a linguagem de programação HTML, desenvolvida ao longo dos anos 80. O iMac, em 1998, anuncia o regresso de Jobs no relançamento estratégico da Apple. Em 1999, o Linux, um sistema operativo não proprietário, promete uma alternativa ao domínio do Windows da toda poderosa Microsoft. O ano 2000 torna mundialmente disponível a tecnologia dos telefones móveis WAP (Wireless Application Protocol). Aguarda-se a tecnologia UMTS (Universal Mobile Telecomunications System) que permitirá aceder à Internet em banda larga com telemóveis ou computadores portáteis. Aproxima-se uma nova geração de objectos nómadas.
Não será demais, portanto, insistir nas potencialidades educativas dos computadores. Talvez eles não substituam de facto os professores, mas podem e devem modificar o papel destes. As TIC estão a obrigar o repensar totalmente a escola. Mais tarde ou mais cedo, o modelo das aulas espartilhadas e sujeitas a uma perspectiva de ensino cederá, face à pressão da sociedade, a uma perspectiva da aprendizagem. O que é cada vez mais valorizado é a capacidade de ir procurar a informação onde ela existe. Se as TIC estão a transformar a sociedade é preciso que a escola participe nessa transformação sem qualquer preconceito. Impõem-se novos estilos de aprender e de gerir a aprendizagem.


1 Alusão à alegoria da caverna de Platão.

2 Bindé é Director da Divisão de Antecipação e Estudos Prospectivos na UNESCO.





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