2-As Sandálias do Pescador



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1 - Cassidy

2-As Sandálias do Pescador

3 - O Advogado do Diabo

4 - Os Palhaços de Deus

5 - O Navegante



6 - O Embaixador

7 - Golpe de Mestre

8 - Salamandra

9 - Lázaro W - Kundu

11 -

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÊRICA

Título original: Children of the Sun

Tradução de Madalena Antunes Tradução portuguesa © de P. E. A.

Capa: estúdios P. E. A.

© 1957 by

Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer processo, electrónico, mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia, xerocópia ou gravação, sem autorização prévia e escrita do editor. Exceptua-se naturalmente a transcrição de textos ou passagens para apresentação ou crítica do livro. Esta excepção não deve de modo nenhum ser interpretada como sendo extensiva à transcrição de textos em recolhas antológicas ou similares donde resulte prejuízo para o interesse pela obra. Os transgressores são passíveis de procedimento judicial

Editor: Francisco Lyon de Castro

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA, LDA.

Apartado 8

2726 MEM-MARTINS CODEX PORTUGAL

Edição n.s 156011/5256

Execução técnica: Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra-Mcm-Martins

Depósito legal n.”41707/90


Digitalização e correcção de

Maria Fernanda Pereira

I

NOTA SOBRE O AUTOR



nasceu em Melbourne, na Austrália, em 1916, sendo o mais velho de seis irmãos. Aos 14 anos entrou para a Ordem dos Irmãos Cristãos, onde tomou votos, aí tendo exercido as funções de monge docente durante oito anos. Contudo, em 1941, pouco antes de professar, abandonou a Ordem. Alistou-se então no exército australiano, trabalhando nos respectivos Serviços de Informação durante a segunda guerra mundial. Neste interim escreveu o seu primeiro livro, Moon in my Pocket, que publicou sob pseudónimo.

Cumprido o serviço militar, tornou-se sócio de uma florescente empresa de publicidade, onde trabalhou como redactor de publicidade; posteriormente dedicou-se à produção radiofónica. Todavia, descobre que prefere mais escrever para si do que para os outros, pelo que abandona a firma, consagrando-se por completo à produção literária.

Uma estada em Itália leva-o a escrever o seu primeiro e verdadeiro sucesso: , uma descrição não ficcional de um orfanato de Nápoles, que em

1957 se transforma num best-seller em língua inglesa. Seguiram-se outros dois romances, publicados nos Estados Unidos, respectivamente, em 1957 e

1958, intitulados The Crooked Road e Blacklash.

Ainda em 1958, regressa a Itália como correspondente do Daily Mail na Cidade do Vaticano. Aí absorveu muitos conhecimentos específicos para a criação de um novo romance. O Advogado do Diabo, pubicado no ano seguinte, tornou-se rapidamente num raro sucesso editorial, sendo aclamado universalmente pela crítica como uma grande obra criadora, a qual vendeu, em várias edições, mais de dois milhões de exemplares, acabando inclusivamente por ser adaptada ao cinema. publicou a seguir outros grandes êxitos: Filha do Silêncio (1962), As Sandálias do Pescador (1963), obra que foi igualmente adaptada ao cinema em 1968, por Michael Anderson, e que contou com Anthony Quinn no principal papel, O Embaixador (1965) e Os Palhaços de Deus, para além de Arlequim de Proteu. Mais recentemente produziu O Mundo é Feito de Vidro e Cassidy.

Tendo passado muitos anos na Grã-Bretanha e noutros países da Europa, regressou à Austrália, tendo sido nomeado presidente do Conselho da Biblioteca Nacional da Austrália.

ÍNDICE

Pág. Prólogo 15

PARTE i-Ver Nápoles e morrer 19

PARTE n -Luz na escuridão 81

PARTE m - «Cosa fare?» Como remediar a situação 127

Posfácio 181

AGRADECIMENTO

Nomear só algumas pessoas e não todas, seria injusto. Muitos dos homens e mulheres, dignos e esclarecidos, que me ajudaram na elaboração deste livro, pediram-me que suprimisse os seus nomes, por medo de represálias económicas contra eles e suas famílias. Sem os nomear, pois, transmito-lhes aqui os meus agradecimentos pela sua colaboração e pelo privilégio da sua amizade.



M. L. W.

Para Alison Dix Gargiulo

PRÓLOGO

Almas feitas de fogo, rara quem a vingança é virtude.

A Vingança - Acto V, EDWARD YOUNG (1684-1765)

I

Em Nápoles, os pesadelos começaram. Começaram, como sempre começam, com uma simples realidade.



Havia uma criança a quem eu costumava visitar na Casa dos Gaiatos. O seu nome era Antonino. Tinha 8 anos de idade, mas o seu corpo era tão pequeno e a sua cara tão mirrada e pálida que parecia ter apenas 5 ou 6. Quando entrei no pequeno e poeirento pátio, onde o Antonino brincava com outros rapazes, ele deixou o jogo imediatamente e correu para mim, de braços estendidos, chamando pelo meu nome: Sig. Mauro! Sig. Mauro!

Quando o tomei em meus braços, ele apertou-se de encontro a mim por algum tempo, e depois pediu que me sentasse e lhe contasse histórias do meu país-a que distância ficava de Nápoles, que género de pessoas viviam lá, que língua falavam e que pássaros e animais lá existiam.

Enquanto falávamos, os outros juntavam-se à nossa volta e eu era o centro desse grupo de rapazes boquiabertos, fascinados como se estivessem a ver Polichinelo na sua pequena casa dourada com cortinas vermelhas. Sempre que um novo rapaz se aproximava, o Antonino apresentava-o e dizia-lhe, com uma carita grave e largos gestos, que eu era um «grande escritor australiano, que tinha vindo de um país maior que a Europa, onde ninguém, ninguém mesmo, passava fome.

Quando me levantava para partir, o Antonino segurava~me a mão e trotava ao meu lado com as suas pequenas e raquíticas pernas, pedindo para carregar o meu casaco ou a minha máquina fotográfica, a fim de ficar comigo mais uns minutos. Enquanto descia a rua estreita, por entre os lugares de peixe, os montes de resíduos e os sórdidos estendais de roupa lavada, olhava para trás e acenava ao Antonino, que me retri-

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buía e o meu coração ficava inundado de piedade e ternura e



também de uma profunda vergonha.

Porque o Antonino era um scugnizzol, um garoto sem lar,

uma criança sem amor, saído dos becos recônditos de Nápoles. O Antonino não pertencia a Nápoles, era de Roma. Tinha feito a viagem sozinho, a pé, dormindo em valas, procurando comida como um animal, descalço, a sua roupa um amontoado de trapos nojentos. Quando chegou aos subúrbios da cidade, tinha feito uma viagem aterradora, através dos labirintos das linhas férreas subterrâneas, acabando, finalmente, por vir a descansar numa grade de ferro na Rua dos Dois Leprosos. Juntou-se a um bando de outras crianças abandonadas, que viviam vasculhando as ruas, furtando e alcovitando para as raparigas do casino.

De noite, o Antonino dormia sobre uma grade, onde circulava o ar morno de um forno de padeiro, ou entre as rodas de uma carroça de vendedor ou sobre os degraus de pedra de uma velha igreja. Até que, uma noite, foi apanhado e levado para a Casa dos Gaiatos.

Antonino sentia-se lá seguro, confortado e amado, como nunca o tinha sido na vida. O seu frágil corpito começou a fortalecer e a sua mente atormentada a sossegar. Mas nunca mais voltaria a ser criança, e quando se tornasse homem, seria sempre diferente dos outros, porque a cicatriz das ruas estava marcada nele, assim como o medo dos dias sem sol e do terror das noites sem carinho.

Na Casa dos Gaiatos, tentaram fazer com que Antonino esquecesse o passado. Mas ele jamais o esquecerá, porque, um dia, deixará de ser criança e terá novamente que encarar a velha e impiedosa cidade.

Foi assim que comecei a sonhar com ele... O sonho era sempre o mesmo. Era de noite, uma noite de luar, fria e medonha. Havia uma pista de linha férrea - uma longa perspectiva de carris de aço, por entre altos choupos, nus e esqueléticos, como o são no Inverno. No fim da pista, onde as linhas convergiam, existia um túnel, uma arcada preta numa colina cinzenta.

Uma criança caminhava ao longo da via, uma criança esfarrapada, delgada como um fuso, e que coxeava. Tropeçava e caía muitas vezes, depois levantava-se e, sempre coxeando, prosseguia o seu caminho. O meu coração enchia-se de amor e piedade por essa criança, mas quando chamava por ela, começava a fugir, correndo.

Segui a criança, chamando-a sempre e pedindo que parasse, advertindo-a dos perigos que espreitavam no escuro túnel. Mesmo assim, continuava fugindo. Havia luzes no túnel, escassas e amareladas e à sua luz, vi o seu pequenino e distorcido corpo, saltitando como um animal ferido, de travessa em travessa.

Ouvi o som de uma locomotiva. Gritei para o avisar, mas a criança não parou. Corria para a sua morte, parecendo não se importar. Depois, vi o farol da locomotiva e, no seu rasto, a cara da criança - não a do Antonino, mas a do meu próprio filho!

Neste preciso momento, acordava sempre, suando e aterrorizado e chamando pelo nome do meu filho, que dormia sossegadamente na sua cama, sorrindo aos seus próprios sonhos despreocupados.

Soube então que tinha de escrever este livro, para me libertar do pesadelo. Devo dizer de minha a voz dessas crianças de Nápoles, dessas crianças esfomeadas, sem lar, inocentes e desprovidas de tudo. Por elas devo tocar o coração das pessoas, procurando, como elas procuram, não o pão, mas a piedade e a caridade humana e, sobretudo a esperança.

1 Literalmente, «pião a rodar. (N. da T.)

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LES E MORRER

existe em Nápoles uma rua chamada Rua dos Dois Leprosos.

Para a encontrar, você terá de mergulhar num labirinto de ruelas e becos, na parte norte da Via Roma. Terá de tecer o seu caminho por entre os barrancos de casas, escarpados e estreitos, com estendais de roupa lavada suspensos entre elas, como estandartes de um triunfo de maltrapilhos. Terá de forçar o seu caminho por entre a multidão ao redor dos lugares de fruta e das padiolas de peixe, com as suas montanhas de mexilhão e bandejas de polvos e as suas vasilhas de água viscosa, fervilhando de caracóis. Passará por entre os vendedores com as suas resmas de algodões baratos e casacos em segunda mão e calças remendadas e as suas fotografias de estrelas de cinema, em molduras douradas baratas. Terá de se baixar quando passar sob os queijos e salsichas pendurados das janelas das alumerias; tropeçará sobre crianças imundas e esfarrapadas, vasculhando os montes de detritos para encontrar cascas e restos de fruta e beatas de cigarro espezinhadas. Passará por uma dúzia de relicários, contendo estatuetas ou gravuras poeirentas de santos bizarros, por detrás de vidros lambuzados e manchados. As lâmpadas brilham frouxamente e as pequenas velas votivas estremecem ligeiramente ao sopro frio do vento. Espreitará para dentro de pequenos quartos, onde as mulheres, de faces contraídas, se debruçam sobre o tricot ou bordados, ou onde famílias de dez e doze membros, conversam e gesticulam sobre taças de pasta fumegante.

Finalmente, você chega à Rua dos Dois Leprosos.

Não há comércio aqui. É uma rua estreita e escura, cujas paredes são húmidas e viscosas e cujas portas são arcos falsos, frios e tristonhos. Mesmo assim, quando por elas passar, notará

2 Charcutaria. (N. da T.)

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que estão cheias de vida. Sombras disformes sentam-se descuidadamente ao redor de pratos de estanho, cheios de cinzas mornas de carvão. Um monte de farrapos geme e estende a mão em súplica. Num pátio soturno, onde uma lâmpada baça brilha num pequeno nicho, um grupo de crianças sujas dá-se as mãos e dança numa zombaria lamentável da alegria. O frio morde cada vez mais e você enterra mais fundo as mãos nos bolsos, baixa a cabeça sob o arco de um contraforte espanhol e avança de encontro à luz que brilha na extremidade distante da Rua dos Dois Leprosos.

Quando chegar a essa rua, encontrará uma pequena praça, com um monte de cascalho ao centro, por onde transitam algumas pessoas, gente miserável e de cara pálida, passando e repassando, vindos dos becos escuros para a luz amarela da praça e das ruas dos vendedores.

Foi nesta praça que Peppino me deu a minha primeira lição sobre Nápoles.

Para mim, foi uma ocasião importante. Vesti-me para a mesma, com algum esmero. Usei uma camisola velha de marinheiro, esgaçada e passajada em muitos lugares. As calças estavam esfarrapadas e remendadas e calcei um par de sapatos rotos, com as pontas em bico, que me apertavam os pés abominavelmente. Não me barbeava há três dias e as minhas unhas estavam pretas e as minhas mãos manchadas de gordura e nicotina dos cigarros. Em qualquer outra cidade, seria expulso pela polícia, mas aqui, na bassia de Nápoles, estava vestido como milhares de outros.

Mesmo assim, era difícil passar despercebido. Sou um homem grande, seis pés de altura, ombros largos e mãos e pés enormes. O meu cabelo é castanho e os meus olhos avelã-claro, e quando Peppino caminhava ao meu lado, parecíamos David e Golias.

Eu precisava do Peppino. Precisava da sua garganta de que eu era um amigo e bom companheiro, que sabia calar a boca. Precisava da sua ajuda na escuridão labiríntica do formigueiro napolitano. Precisava dele como intérprete do estranho dialecto napolitano - uma língua exotérica, que só os iniciados

3 Zona degradada da cidade. (N. da T.)



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podem compreender. Falo toscano razoavelmente e estou bastante à vontade entre gente cortês, mas aqui, sem o Peppino, bem podia ser surdo e mudo.

Contar, nesta altura, a história completa do próprio Peppino, seria não só antecipar, como criar um mistério para vós, um mistério que vocês poderiam refutar como uma mentira improvável. Por agora, bastará saber que Peppino é napolitano, que tem 20 anos de idade, que já foi um scugnizzo, um garoto que viveu como milhares de outros vivem neste momento, que esteve numa casa de correcção e que agora, graças a uma singular e miraculosa clemência, é um homem que se respeita e é respeitado por todos.

Peppino foi-me recomendado como sendo a pessoa que me poderia mostrar a vida de Nápoles, ensinar-me a compreendê-la e ajudar-me a explicá-lo ao resto do mundo, que vive tão distante da miséria, que não pode nem compreendê-la nem socorrê-la.

Eram 9 horas da noite. Peppino e eu estávamos sentados sobre um monte de cascalho no centro da praça, fumando cigarros e vendo as pessoas passar.

À nossa frente havia uma porta. Ao contrário de outras portas da praça e dos becos, aquela estava brilhantemente iluminada por um tubo de néon e um número iluminado. Um homem estava encostado à ombreira daquela porta. Era baixo, robusto e bem vestido, com cabelo preto liso e um sorriso superficial e olhos escuros, mortiços, numa cara levantina.

Quando um homem ou grupo de jovens se aproximava da porta, ele lançava-lhes um rápido olhar de avaliação, afastando-se de seguida para os deixar entrar. Quando alguém saía, ele olhava por sobre o ombro, como que à espera de sinal de aprovação, antes de os deixar sair do prédio. Durante todo este tempo, ele não pronunciava uma só palavra.

- Aquilo-disse Peppino-é um casino, uma casa fechada. O homem é o guarda das mulheres.

Inclinei a cabeça, em sinal de compreensão. Tal era evidente. Um bordel tem sempre o mesmo aspecto em todas as terras, assim como os homens que o dirigem.

Eu estava era interessado no fluxo constante de jovens e



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homens que saíam e entravam por sob o tubo nu de néon. Uma pessoa corre o risco de se enganar com a aparência desta gente pequena e subalimentada, mas estava certo de que alguns daqueles rapazes não tinham mais de 16 anos. Fiz a pergunta a Peppino. Ele encolheu os ombros e estendeu a mão, inclinando a cabeça para o lado, no gesto peculiar depreciativo dos napolitanos.

- O que é que esperavas, Mauro? Na cidade de Nápoles existem 200 000 homens desempregados. Os mais felizardos, como eu, ganham apenas 500 liras por dia. Não temos esperanças de poder casar. Quem é que pode sustentar mulher e filhos com 6 xelins ingleses por dia? Não podemos ter a companhia de uma boa rapariga, sem a transformar em nossa fídanzata. E qual o pai que nos concederá a mão da sua filha se a não pudermos sustentar? O que é que nos resta? Isto... - disse ele, atirando a cinza do cigarro na direcção do casino -... ou cinco minutos com uma rapariga da rua, num canto escuro. Capisce?

Estremeci como se alguém tivesse pisado a minha sepultura.

Compreendia. Compreendia até muito bem. A abstinência, na esperança de casamento, é uma coisa - moral sã e bons costumes. Mas abstinência sem esperança de casamento é uma santidade desoladora, só alcançada por poucos, e não certamente por esta gente de sangue ardente da Itália meridional, onde dormem dez numa cama porque não têm mais espaço para dormir e, mesmo que o tivessem, não poderiam pagar pelo mesmo.

Também compreendi outra coisa - algo que me tinha intrigado por muito tempo. Quando se passeia pelas ruas recônditas de Nápoles, nota-se a ausência de mulheres nas filas de jovens e homens, que fazem a passeggiata, o passeio da noite, apinhados em frente às montras das lojas, deambulando pelos bares, cantando, rindo, gritando, brigando amigavelmente acerca dos últimos resultados desportivos. Quando se lhes pede uma explicação, eles respondem, com orgulho, que o lugar para uma boa rapariga, é a casa da sua família ou do seu

4 Noiva. (N. da T.)

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ídanzato. Se ela sair com um homem, é considerada rapariga de mau porte, por presunção e, geralmente, de facto. O conceito de amizade entre os sexos é estranho a esta gente.

-A amizade leva rapidamente ao acto sexual-dizia Pepino, sucintamente.-A única segurança para uma boa rapariga, é ficar em casa e esperar por um bom marido.

- E se ela não conseguir um marido? Peppino encolhia os ombros.

- Eis a razão porque é tão difícil encontrar uma boa rapariga. Se eu desejasse casar, o que na realidade não posso fazer, levaria muito tempo a escolher e fá-lo-ia com cuidado, antes e depois de estar seguro. Interrrompeu, puxou-me pela manga e mandou-me olhar para o lado oposto da praça. - Olha, Mauro! Àquilo é outra coisa que deves ver.

A parede da pequena piazza estava dividida por um beco estreito, à entrada do qual se encontrava um trio de marinheiros americanos com licença de saída do porta-aviões ancorado na baía. Eram altos, louros e bem-humorados e se estavam embriagados não davam sinais disso. Um deles carregava embrulhos de papel pardo e os outros dois tinham máquinas fotográficas pequenas à volta do pescoço.

À volta deles dançavam três pequenos rapazes, que pareciam ter apenas 5 ou 6 anos, mas que, provavelmente, estariam mais perto dos 10. As suas vozes eram agudas e lamurientas, ressoando cristalinamente no pequeno espaço. Numa mistura de linguagem de doca inglesa, napolitana e italiana, gritavam louvores aos encantos das raparigas do casino. Os seus gestos reflectiam as mesmas obscenidades de sempre e as palavras que saíam dos seus lábios infantis, soavam como blasfémias. Os três marinheiros riram, desconfortados, olhando uns para os outros. Eram novos e um pouco amedrontados, mas curiosos e interessados na mais antiga das propostas. Por um momento, ficaram indecisos mas depois tentaram afastar-se.

Os rapazinhos continuaram a dançar à sua volta, gritando mais alto. Pareciam cães a guardar um rebanho de ovelhas tresmalhadas. A sua actuação era tão astuta, que parecia ter sido ensaiada. Dançando, lamuriando, puxando por mangas e braços, acercavam-se, sem pressa, dos marinheiros, à volta da praça, até pararem quase à frente da porta do casino.

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Então, enquanto os marinheiros continuaram indecisos, era a vez do levantino intervir. Sorrindo, apontava para dentro e fazia um discurso encorajante em inglês. Dois minutos depois, os marinheiros passavam em fila por debaixo da luz de néon, desaparecendo da vista. Só ficavam os garotos e o levantino de cabelo escorrido. Falavam baixo, fazendo gestos que indicavam um trato financeiro; de seguida, os rapazes iam-se embora, aparentemente satisfeitos, enquanto o levantino se recostava de novo à ombreira da porta, palitando os dentes com um fósforo.

Peguei num cigarro. Quando o acendi, as minhas mãos tremiam. Aquela cena tinha-me enojado. Gostaria de deixar aquele lugar para sempre e regressar ao meu país, onde o ar era limpo e as crianças dormiam nas suas camas, longe da porcaria do velho mundo.

Peppino olhou para mim. Os seus olhos escuros estavam sombrios.

- Agradou-te, Mauro?

- Pôs-me doente. Encolheu os ombros.

- Em tempos fiz o mesmo, Mauro. Cheguei a vender os marinheiros a outro, que os trazia para aqui. Outras vezes, vendia-os a homens mais velhos que os roubavam, levando as suas máquinas fotográficas e as suas roupas. Era bem pago. Amanhã... - ele apontava para a entrada iluminada da porta. - Amanhã, as crianças vão regressar e receberão uma percentagem do preço que os marinheiros pagaram à casa. Não serão enganados. Existe uma confiança, entre eles.

- A confiança do esgoto.

Sobriamente, Peppino concordou. A sua voz era triste e meiga.

- Certo, Mauro! Certo! A confiança do esgoto. Excepto que aqui, na bassia, não existem esgotos. a sujidade escorre para o centro das ruas, onde as crianças brincam. Como podem deixar de ser atingidas por ela? Pediste-me que te mostrasse esta cidade. Digo que ainda nem sequer começaste a conhecê-la, muito menos a entendê-la. Antes de nos julgares, a qualquer de nós, aguarda! Aguarda e verás!

Olhei para ele, reparando nos seus olhos húmidos de lágri-

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mas e na sua cara onde transpareciam todas as misérias que ele próprio tinha suportado, antes de uma mão amiga o ter retirado da porcaria, para uma aparente segurança. Envergonhei-me do meu desabafo. Pus-lhe a mão no ombro e disse:

- Perdoa-me, Peppino. Vou aguardar e tentar compreender.

Levantou-se, apertando mais o casaco à volta dos seus magros ombros.

- Vem então, Mauro. Vem, que te vou mostrar.

Era tarde e eu estava cheio de fome. Tinha tomado o café da manhã e ao meio-dia tinha almoçado fruta e peixe, mas agora, a meio da noite, sentia-me irritado e esfomeado. Sugeri ao Peppino que entrássemos numa casa de pasto e comêssemos qualquer coisa antes de prosseguirmos o nosso passeio. Ele ignorou a sugestão com um breve: mais tarde! Mais tarde! Eu sabia que ele tinha trabalhado doze horas só com uma chávena de café e um pedaço de pão seco no estômago, de modo que não tive coragem de insistir e segui-o, penetrando cada vez mais fundo na confusão das ruelas, por detrás da Via Roma.

Essas ruelas estavam pavimentadas com blocos de pedras grosseiras, escorregadias de lama e mal-cheirosas, com águas sujas escorrendo do casario. O lixo amontoava-se em pequenos montões à porta das casas e em cantos fétidos por detrás dos arcos. Gatos castanhos esqueléticos vagueavam silenciosamente de um montão para outro, eriçando os pêlos à nossa passagem.

Muros brancos cercavam-nos e quando levantei os olhos, vi as grades pretas das varandas e o veio de luz que atravessara as persianas corridas. Muito acima de nós, vislumbrei uma pequena nesga do céu e o piscar de frias estrelas. No alto dos nuros leprosos, via os contornos de brasões antigos, arruinados, quebrados e desfigurados e, aqui e ali, o formato de coroas antigas e querubins em estuque rachado. Lembrei-me que neihum destes edifícios devia ter menos de cem anos de existêncià que muitos deles datavam da era dos espanhóis.

À sombra de um arco descaído, Peppino parou, puxando-me para lá. Acendemos cigarros e ficámos a fumar furtivamente, falando em voz baixa. Ao longo do beco, existiam três




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