2ª ediçÃo editora record rio de janeiro são paulo 2003



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Perdas & Ganhos
Lya Luft
2ª EDIÇÃO EDITORA RECORD RIO DE JANEIRO - SãO PAULO 2003
1 Convite
Não sou a areia onde se desenha um par de asas ou grades diante de uma

janela. Não sou apenas a pedra que rola nas marés do mundo, em cada

praia renascendo outra. Sou a orelha encostada na concha da vida, sou

construção e desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério.


A quatro mãos escrevemos o roteiro para o palco de meu tempo: o meu

destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a

sério.
Procurando o tom
Que livro é este? Talvez um complemento ao Rio do meio, de 1996. Escrito

na mesma linha, retomando vários dos que são meus temas.Toda a minha

obra é elíptica ou circular: tramas e personagens espiam aqui e ali com

nova máscara. Fazem isso porque não se esgotaram em mim, ainda as vou

narrando. Provavelmente assim continuarei até a última linha do

derradeiro livro. Que livro é este, então? Eu não o chamaria de ensaios,

porque o tom solene e a fundamentação teórica que o termo sugere não são

jeito meu. Certamente não é romance nem ficção. Também não são

ensinamentos - que não os tenho para dar. Como em muitos campos de

atividade, surgem novos modos de trabalhar ou criar que precisam de

novos nomes. Cada um dê a esta narrativa o nome que quiser. Para mim é
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aquela mesma fala no ouvido do leitor, que tanto me agrada e faço em

romances ou poemas - um chamado para que ele venha pensar comigo. O que

escrevo nasce de meu próprio amadurecimento, um trajeto de altos e

baixos, pontos luminosos e zonas de sombra. Nesse curso entendi que a

vida não tece apenas uma teia de perdas mas nos proporciona uma sucessão

de ganhos. O equilíbrio da balança depende muito do que soubermos e

quisermos enxergar.
Encontro um amigo, pianista consagrado, e conto que estou começando um

livro, mas como sempre no início de um novo trabalho ainda estou

buscando "o tom" certo. Ele acha graça, então escritor procura o tom?

Rimos, porque acabamos descobrindo que os dois buscamos a mesma coisa:

encontrar o nosso tom. O da nossa linguagem, da nossa arte, e - isso

vale para qualquer pessoa - o tom da nossa vida. Em que tom a queremos

viver? (Não perguntei como somos condenados a viver.) nEm meios-tons

melancólicos, em tons mais claros, com pressa e superficialidade, ou

alternando alegria e prazer com momentos profundos e reflexivos. Apenas

correndo pela superfície ou de vez em quando mergulhando em águas

profundas. Distraídos pelo barulho em torno ou escutando as vozes nas

pausas e nos silêncios - a nossa voz, a voz do outro. Nosso tom será o

de suspeita e desconfiança ou serão varandas abrindo para a paisagem

além de qualquer limite? Parte disso depende de nós.


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No instrumento de nossa orquestração somos - junto com fatalidades,

genética e acaso - os afinadores e os artistas. Somos, antes disso,

construtores de nosso instrumento. O que torna a lida mais difícil,

porém muito mais instigante. Sento-me aqui no computador e penso no tom

deste livro, que preciso encontrar. Eu o sinto, neste momento inicial,

um murmurar para o leitor: "Vem refletir comigo, vem me ajudar a

indagar." Embora seja uma fala íntima, este pode parecer em certos

momentos um livro cruel: digo que somos importantes, e bons, e capazes,

mas também digo que somos tantas vezes fúteis, que somos medíocres

demasiadas vezes. Digo que poderíamos ser muito mais felizes do que

geralmente nos permitimos ser, mas temos medo dos preços a pagar. Somos

covardes. Mas há de ser um livro esperançoso: sou dos que acreditam que

a felicidade é possível, que o amor é possível, que não existe só

desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e

delicadeza. Penso que no curso de nossa existência precisamos aprender

essa desacreditada coisa chamada "ser feliz". (Vejo sobrancelhas

arqueando-se ironicamente diante dessa minha romântica afirmação.) Cada

um em seu caminho e com suas singularidades. Na arte como nas relações

humanas, que incluem os diversos laços amorosos, nadamos contra a

correnteza. Tentamos o impossível: a fusão total não existe, o

partilhamento completo é inexeqüível. O essencial nem pode ser

compartilhado: é


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descoberta e susto, glória ou danação de cada um -solitariamente. Porém

numa conversa ou num silêncio, num olhar, num gesto de amor como numa

obra de arte, pode-se abrir uma fresta. Espiarão juntos, artista e seu

espectador ou seu leitor - como dois amantes. E assim, rasgando joelhos

e mãos, a gente afinal vai. Por isso escrevo e escreverei: para instigar

o meu leitor imaginário -substituto dos amigos imaginários da infância?

- a buscar em si e compartir comigo tantas inquietações quanto ao que

estamos fazendo com o tempo que nos é dado. Pois viver deveria ser - até

o último pensamento e o derradeiro olhar - transformar-se. O que escrevo

aqui não são simples devaneios. Sou uma mulher do meu tempo, e dele

quero dar testemunho do jeito que posso: soltando minhas fantasias ou

escrevendo sobre dor e perplexidade, contradição e grandeza; sobre

doença e morte. Lamentando a palavra na hora errada e o silêncio na hora

em que teria sido melhor falar. Escrevo continuamente sobre sermos

responsáveis e inocentes em relação ao que nos acontece. Somos autores

de boa parte de nossas escolhas e omissões, audácia ou acomodação, nossa

esperança e fraternidade ou nossa desconfiança. Sobretudo, devemos

resolver como empregamos e saboreamos nosso tempo, que é afinal sempre o

tempo presente. Mas somos inocentes das fatalidades e dos acasos brutais

que nos roubam amores, pessoas, saúde, emprego, segurança, ideais. De

modo que minha perspectiva do ser humano, de mim mesma, é tão

contraditória quanto, instigantemente, somos.


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Somos transição, somos processo. E isso nos perturba. O fluxo de dias e

anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar.

Dessa perspectiva nos tornaremos senhores, não servos. Pessoas, não

pequenos animais atordoados que correm sem saber ao certo por quê. Se

meu leitor e eu acertarmos nosso tom recíproco, este monólogo inicial

será um diálogo - ainda que eu jamais venha a contemplar o rosto do

outro que afinal se torna parte de mim. Então a minha arte terá atingido

algum tipo de objetivo.


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2 Desenhando no fundo do espelho
Fruto de enganos ou de amor, nasço de minha própria contradição. O

contorno da boca, a forma da mão, o jeito de andar (sonhos e temores

incluídos) virão desses que me formaram. Mas o que eu traçar no espelho

há de se armar também segundo o meu desejo.


Terei meu par de asas cujo vôo se levanta desses que me dão a sombra

onde eu cresço - como, debaixo da árvore, um caule e sua flor.


A marca no flanco O mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe

atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. É

uma idéia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele

sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa

abertura ou exclusão em relação ao mundo. E o que configura essa

perspectiva nossa? Ela se inaugura na infância, com suas carências nem

sempre explicáveis. Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança

elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidades e

imprevistos contra os quais nada nos defende. Temos de criar barreiras e

ao mesmo tempo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos

espera. Toda essa trama de encontro e separação, terror e êxtase

encadeados, matéria da nossa existência, começa antes de nascermos.


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Mas não somos apenas levados à revelia numa torrente. Somos

participantes. Nisso reside nossa possível tragédia: o desperdício de

uma vida com seus talentos truncados se não conseguirmos ver ou não

tivermos audácia para mudar para melhor - em qualquer momento, e em

qualquer idade. A elaboração desse "nós" iniciado na infância ergue as

paredes da maturidade e culmina no telhado da velhice, que é coroamento

embora em geral seja visto como deterioração. Nesse trabalho nossa mão

se junta às dos muitos que nos formam. Libertando-nos deles com o

amadurecimento, vamos montando uma figura: quem queremos ser, quem

pensamos que devemos ser - quem achamos que merecemos ser. Nessa casa, a

casa da alma e a casa do corpo, não seremos apenas fantoches que vagam

mas guerreiros que pensam e decidem. Constituir um ser humano, um nós, é

trabalho que não dá férias nem concede descanso: haverá paredes frágeis,

cálculos malfeitos, rachaduras. Quem sabe um pedaço que vai desabar. Mas

se abrirão também janelas para a paisagem e varandas para o sol. O que

se produzir - casa habitável ou ruína estéril - será a soma do que

pensaram e pensamos de nós, do quanto nos amaram e nos amamos, do que

nos fizeram pensar que valemos e do que fizemos para confirmar ou mudar

isso, esse selo, sinete, essa marca. Porém isso ainda seria simples

demais: nessa argamassa misturam-se boa-vontade e equívocos, sedução e

celebração, palavras amorosas e convites recusados. Participamos de uma

singular dança de máscaras sobrepostas, atrás das quais somos


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o objeto de nossa própria inquietação. Nem inteiramente vítimas nem

totalmente senhores, cada momento de cada dia um desafio. Essa

ambigüidade nos dilacera e nos alimenta. Nos faz humanos. No prazo de

minha existência completarei o projeto que me foi proposto, aos poucos

tomando conta dessa tela e do pincel. Nos primeiros anos quase tudo foi

obra do ambiente em que nasci: família, escola, janelas pelas quais me

ensinaram a olhar, abrigo ou prisão, expectativa ou condenação. Logo não

terei mais a desculpa dos outros: pai e mãe amorosos ou hostis, bondosos

ou indiferentes, sofrendo de todas as naturais fraquezas da condição

humana que só quando adultos reconhecemos. Por fim havemos de constatar:

meu pai, minha mãe, eram apenas gente como eu. Fizeram o que sabiam, o

que podiam fazer. E eu... e eu? Marcados pelo que nos transmitem os

outros, seremos malabaristas em nosso próprio picadeiro. A rede

estendida por baixo é tecida de dois fios enlaçados: um nasce dos que

nos geraram e criaram; o outro vem de nós, da nossa crença ou nossa

esperança.


Muito escutei na infância: "Criança não pensa." Criança pensa. Mas faz

também algo mais importante, que amadurecendo desaprendemos: ela é.

Contemplando uma mancha na parede, um inseto no capim ou a revelação de

uma rosa, ela não está apenas olhando. Está sendo tudo


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isso em que se concentra. Ela é o besouro, a figura na parede, ela é a

flor, o vento e o silêncio. Da mesma forma ela é a frieza ou a angústia

dos adultos, sua superficialidade e frieza ou seu amor verdadeiro. E

precisa que às vezes a deixem quieta, sem exigir que a toda hora se

mexa, corra, fale, brinque, como se contemplação fosse doença. A criança

imersa em seu ambiente participa de um processo maior do que ela, no

qual desabrocha com pouca consciência. Porém ela tem algo mais valioso

do que consciência: tem intuição de tudo, tem o saber inocente.

Perderemos essa sabedoria da inocência na medida em que formos

domesticados, necessariamente encaixados na realidade em torno. Queiram

os deuses que nesse processo de domesticação a gente consiga preservar a

capacidade de sonhar. Pois a utopia será o terreno da nossa liberdade.

Ou acabaremos como focas treinadas cumprindo corretamente nossas

tarefas, mas soterrando aquilo que chamamos psique, eu, self, ou

simplesmente alma. Seremos roídos pela futilidade, tão mortal quanto a

pior doença: ataca a alma, deixando-a porosa e quebradiça como certos

esqueletos. A alma com osteoporose. Uma criança é sobretudo a sua

própria dimensão na qual o tempo, os aromas e as texturas, as presenças

e emoções são a sua realidade peculiar. Isso alguma vez tentei explicar

naquele tempo com minhas palavras hesitantes. Ninguém parecia entender -

ou não estavam muito interessados. Então eu armava tudo em
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histórias que recitava para mim mesma como rezas de bruxas. Adulta,

acabei fazendo algo parecido ao escrever romances e outros livros - como

este. Compreendi que a aparente indiferença dos outros com minhas

imaginações infantis não era porque estivessem desinteressados ou eu não

soubesse explicar direito. Era porque o pensado e o real não se

distinguem nem cabem em palavras, e isso não se comunica.


Mais uma vez um livro meu se funda na idéia da família. Tenho

incansavelmente escrito sobre ela. Somos marcados pelo olhar profético

que nos lançaram em pequenos, como a maldição ou bênção das fadas nos

contos infantis. Os dramáticos ou trágicos personagens que inventei em

#meus romances foram frutos de famílias particularmente doentes onde

imperavam o desamor, a hipocrisia, o isolamento. As vezes eram inibidos

pela impossibilidade de manifestar afetos - que murchavam sem serem

exercidos. Se viver sozinho já é duro, viver em família pode ser onerado

e oneroso. Sofremos com a precariedade dos laços amorosos. Sofremos com

falta de dinheiro e tempo. Sofremos com a necessidade de suprir cada vez

mais os mandatos do consumo. Sofremos com o pouco espaço para diálogo,

ternura, solidariedade dentro da própria casa. Principalmente, não temos

tempo ou disponibilidade para o natural exercício da alegria do afeto.
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Crianças, seja em que família for, serão seguramente -não principalmente

- um problema e uma tarefa. Para que nos signifiquem alegria nós as

teremos de querer e amar. Fazer da casa o ninho, não a jaula, começará

antes daquele primeiro toque e olhar sobre um filho que acaba de nascer.

A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias. Se

for esburacado demais vamos tropeçar mais, cair com mais facilidade e

quebrar a cara - o que pode até ser saudável, pois nos dará chance de

reconstruirmos nosso rosto. Quem sabe um rosto mais autêntico. Mas às

vezes ficaremos paralisados. Em plena maturidade sinto em mim a menina

assombrada com a beleza da chuva que chega sobre as árvores num jardim

de muitas décadas atrás. Tudo aquilo é para sempre meu, ainda que as

pessoas amadas partam, que a casa seja vendida, que eu já não seja

aquela. Para isso precisei abrir em mim um espaço onde abrigar as coisas

positivas, e desejei que fosse maior do que o local onde inevitavelmente

eu armazenaria as ruins. Os contornos desse eu que me propuseram

precisaram ser ampliados segundo o meu jeito, para que, dentro de todas

as minhas limitações, eu pudesse me abrir e acolher a vida em constante

transformação. Boa parte do tempo andamos meio às cegas, avançando por

erro e tentativa, tateando entre os desafios de cada dia. Sobre essa

terra firme ou areia traiçoeira teremos de erguer a nossa casa pessoal

feita em parte desses materiais brutos. Nem tudo pode ser programado. Os

cálculos têm resultados imprevistos. Misturamos em nós possibilidade de

sonhar e necessidade de rastejar, medo e fervor.
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Talvez seja utopia, mas se eu não deixar que se embote a minha

sensibilidade, quando envelhecer, em vez de estar ressequida eu terei

chegado ao máximo exercício de meus afetos.
Tudo se complica porque trazemos nosso equipamento psíquico. Nascemos do

jeito que somos: algo em nós é imutável, nossa essência são paredes

difíceis de escalar, fortes demais para admitir aberturas. Essa batalha

será a de toda a nossa existência. As ferramentas para executarmos a

tarefa de viver podem ser precárias. Isso quer dizer: algumas pessoas

nascem mais frágeis que outras. Um bebê pode ser mais tristonho do que

seu irmão mais vital. Não é uma sentença, mas um aviso da madrasta

Natureza. O meu diminuto jardim me ensina diariamente que há plantas que

nascem fortes, outras malformadas; algumas são atingidas por doença ou

fatalidade em plena juventude; outras na velhice retorcida ainda

conseguem dar flor. Essa mesma condição é a nossa, com uma diferença

dramática: a gente pode pensar. Pode exercer uma relativa liberdade.

Dentro de certos limites, podemos intervir. Por isso, mais uma vez,

somos responsáveis, também por nós. Somos no mínimo co-responsáveis pelo

que fazemos com a bagagem que nos deram para esse trajeto entre nascer e

morrer. Carregamos muito peso inútil. Largamos no caminho objetos que

poderiam ser preciosos e recolhemos inutilidades. Corremos sem parar até

aquele fim temido, raramente nos sentamos para olhar em torno, avaliar o

caminho, e modificar ou manter nosso projeto pessoal.
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Ou nem tínhamos desejos pessoais. Nos diluímos nas águas da sorte ou da

vontade alheia. Ficamos tênues demais para reagir. Somos os que se

encolhem nos cantos ou sentam na beirada da poltrona nos salões da vida.

Cada desperdício de um destino, um indivíduo que se proíbe de se

desenvolver naturalmente conforme suas capacidades ou até além delas, me

parece tão trágico e tão impor-tante quanto uma guerra. Pois é a derrota

de um ser humano - que vale tanto quanto milhares. Não devíamos escrever

artigos e fazer passeatas apenas contra a guerra, a violência, a

corrupção e a pobreza, mas proclamar a importância do que semearam em

nós, indivíduos. De como o devemos cuidar no tempo que nos foi dado para

essa jardinagem singular.
Se insisto na importância do olhar fundamental me conduzindo por um

caminho ou outro, não estarei atribuindo excessiva responsabilidade à

família primeira - aos pais? Penso que é assim. O amor primeiro, aquele

entre pais e filhos, vai determinar nossa expectativa de todos os amores

que teremos. Nossa vivência inicial vai marcar muitas de nossas

vivências futuras. Por isso, ter filhos e criá-los é cada dia gerar e

pari-los outra vez, sem descanso. Todo amor tem ou é crise, todo amor

exige paciência, bomhumor, tolerância e firmeza em doses sempre

incertas. Não há receitas nem escola para se ensinar a amar. Uma arena

de combates destrutivos me prepara tão mal para ser uma pessoa


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inteira quanto o sossego artificial dos problemas ignorados. Lutas podem

ser positivas, competição faz crescer; amar éimpor e aceitar limites. A

relação familiar ocorre entre personalidades diferentes ou até

antagônicas, predeterminadas a viverem longo tempo entre quatro paredes

de uma mesma casa (sem possibilidade de divórcio se forem pais e

filhos), reunidos num caldeirão fervente de desencontros e desconsertos:

"Sempre senti que minha mãe não sabia bem o que fazer comigo!" "Meu

filho desde bebê parecia sempre desconfortável, até nos meus braços."

"Nuncaentendioquerealmentemeupaiqueriademim, era sempre um estranho."

"Qualquer coisa química, de pele, não funcionava entre minha mãe e eu, a

gente não gostava de se abraçar." "Vivemos sempre em universos

diferentes e distantes um do outro." "Nunca consegui agradar à minha

mãe, ela me criticava o tempo todo, e, mesmo agora que sou adulta e ela

bem idosa, continuamos no mesmo tom." "Meu pai parecia irritado só de me

olhar. Me cobrava tudo. Por mais que eu me esforçasse, sempre me sentia

seu devedor." Esse grupo familiar que não escolhemos e nos define tanto

pode ser um porto confiável de onde partimos e ao qual podemos retornar,

ainda que em pensamento. Aquele lugar que será sempre o meu lugar, mesmo

que eu já não viva nele. Mas é necessário cortar com o que ele

eventualmente tem de sufocante: pois pode ser também jaula, voragem,

fundo de poço. Se ficarmos demais presos, teremos de nos puxar pelos
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próprios cabelos para outro espaço onde mesmo com susto e incertezas a

gente possa respirar e decidir o que fazer agora. Não podemos alterar o

passado. Dramas familiares podem ser raízes venenosas por baixo da terra

do convívio ou da alma. A lei do silêncio, do segredo obsessivo, pode

constituir grave perturbação. Mas podemos mudar nossa postura em relação

a tudo isso, ainda que em longos e dolorosos processos, que significarão

a diferença entre vida e morte. Posso me libertar. Posso me reprogramar

para discernir o que é para mim, neste momento, o "melhor" - ou o

possível. Meu conceito de mundo inibe minhas decisões e me consome e faz

encolher, ou me força a enfrentar alternativas. Nessa hora entrarão em

jogo a minha bagagem inata, o que eu tiver construído em mim, os

recursos aos quais posso apelar - e minha confiança de que posso

realizar isso. Não comandamos o destino das pessoas amadas, nem ao menos

podemos sofrer em lugar delas, mas ter filhos é ser gravemente

responsável. Não apenas por comida, escola, saúde, mas pela

personalidade desses filhos: mais complicado do que garantir uma

sobrevivência física saudável. Não significa que nós os formamos ou

deformamos como deuses onipotentes. Ao contrário, parte do drama de

paternidade e maternidade é não podermos viver por eles nem os preservar

de seus destinos. Fazer suas opções. Mas seguramente nossa maneira de

ser, de viver e de pensar quando ainda eram pequenos, quando ainda

pareciam "nossos", vai influir em tudo isso. Não defendo os pais

vítimas, que "por amor aos filhos" desistem de sua própria vida. Não

admiro a mãe sacrificial que anula sua personalidade com a mesma

alegação, para no
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fundo culpabilizar os filhos e lhes cobrar o que lhe "devem» e até o que

"não devem". Mas será sobre nós, nossa esperança ou pessimismo, nosso

afeto ou frieza, que os filhos darão os primeiros de seus muitos passos.

E farão isso com seus filhos futuramente. Serão tão fundamentais para

eles quanto os pais de nossos pais foram na geração anterior. Atrás e à

frente de cada casal humano estende-se uma longa cadeia de erros e

acertos geradores de humanidade.
Nascemos com toda a carga de nossa genética física e psíquica. Mas não

somos apenas isso. Somos em parte resultado do que foram nossos pais.

Mas não somos apenas isso. A sociedade em que vivemos tem muitos olhos e

braços, que nos vigiam e interferem em nossa realidade. Um deles

chama-se opinião alheia. Não a de algumas pessoas amadas e respeitadas,

mas essa entidade informe, onipresente, quase onipotente, do "o que eles

vão pensar". Sem pedir licença, entra em nossa casa e nossa consciência,

limitando, podando. Fora das paredes domésticas, nossa inserção em uma

cultura tem uma força inaudita. Para superá-la precisamos de

discernimento, não propriamente um dote da juventude. Até chegarmos à

maturidade somos muito mais vulneráveis a essa pressão que, vindo de

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