2º Eixo Temático Problemas epistemológicos na Filosofia



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GUIA DE ESTUDOS DE FILOSOFIA

Prof.: Cláudio Silva


2º Eixo Temático

2. Problemas epistemológicos na Filosofia

O problema da ciência, conhecimento e método na Filosofia


  • A questão da sensibilidade, razão e verdade.

  • A questão do método.

  • A questão da ciência e a crítica ao positivismo

  • Autores de referência: Platão , Aristóteles, Descartes, Hume, Galileu, Franscis Bacon, Kant e Popper.



O problema da relação entre ciência e técnica: a racionalidade instrumental.

Autores de referência: Adorno, Horkheimer, Habermas.


2.1 O problema da ciência, conhecimento e método na Filosofia

O conhecimento é uma relação

O conhecimento é uma relação que se estabelece entre o sujeito e o objeto. Essa afirmação , aparentemente clara e objetiva, implica inúmeras perguntas:



  • O que é o objeto: algo exterior ao sujeito, ou é parcial ou totalmente sua criação?

  • Quem é o sujeito: um ser meramente passivo sobre o qual o mundo externo atua ou um ser eminentemente ativo que produz idéias e é capaz de modelar , de maneira particular e intransferível, os dados que provêm do exterior?

  • Em que consiste a verdade?

  • Quais são as fontes do conhecimento e qual o grau de confiabilidade das mesmas?

O conjunto de questões anteriormente formuladas é objeto de estudo da teoria do conhecimento, gnoseologia, crítica do conhecimento ou epistemologia. Segundo Abbagnano ( 1982:169), todos esses nomes têm o mesmo significado. Ao contrário do que se crê, não indicam uma disciplina filosófica como a ética, a estética ou a lógica, mas sim, o tratamento de um problema específico, que é o da realidade das coisas.

O conhecimento pressupõe a existência de um sujeito conhecedor e de um objeto a ser conhecido mediados pelo ato de conhecer: “é a relação estabelecida entre sujeito e objeto, na qual o sujeito apreende informações a respeito do objeto. É a atividade do psiquismo humano que torna presente à sensibilidade ou à inteligência um determinado conteúdo , seja ele do campo empírico ou do próprio campo ideal” ( Severino, 1992: 38).

O sujeito apreende um objeto e torna-o presente aos sentidos ou à inteligência. Dessa forma, o ser humano, paulatinamente, vai conhecendo, compreendendo cada vez mais e melhor a realidade que o circunda.

O conhecimento, pois, consiste na apropriação intelectual de um conjunto de dados empíricos ou ideais, com a finalidade de dominá-los e utilizá-los para entendimento e elucidação da realidade.
2.1.1 A questão da sensibilidade, razão e verdade.

A questão do método

De onde vem o conhecimento?

A necessidade de inteligibilidade do processo de conhecimento humano não é recente. Os filósofos gregos tinham como objeto de suas especulações o significado e as condições necessárias para efetivação do ato de conhecer. No entanto, essas reflexões revestiam-se de um caráter puramente ontológico: buscava-se a ess6encia do ser.

A teoria do conhecimento propriamente dita tem início na Idade Moderna, no século XVII, com a revolução científica empreendida por Galileu e outros cientistas que , ao criarem um novo modelo de investigação do mundo fenomenal e ao redefinirem o papel das ciências particulares, despertaram nos filósofos uma preocupação com os fundamentos , as possibilidades , os limites e o alcance do conhecimento humano e uma certa reserva contra os argumentos de autoridade que prevaleceram durante toda a Idade Média.

Aos poucos o método experimental é aperfeiçoado e aplicado em novos setores. Desenvolve-se o estudo da química, da biologia. Surge um conhecimento mais objetivo da estrutura e das funções dos organismos vivos no século XVIII. Já no século seguinte, verifica-se uma modificação geral nas atividades intelectuais e industriais. Surgem novos dados relativos à evolução, ao átomo, à luz, à eletricidade, ao magnetismo, à energia. Enfim, no século XX, a ciência, com seus métodos objetivos exatos, desenvolve pesquisas em todas as frentes do mundo físico e humano, atingindo um grau de precisão surpreendente não só na área das navegações espaciais e de transplantes, como nos mais variados setores da realidade.

Essa evolução das ciências tem, sem, dúvida, como mola propulsora os métodos e instrumentos de investigação aliados ao espírito científico, perspicaz , rigoroso e objetivo.

Esse espírito, que foi preparado ao longo da História, impõe-se agora, de maneira inexorável, a todos quantos pretendem conservar o legado científico do passado, ou , ainda, propõem-se a ampliar suas fronteiras.

Essa evolução das ciências tem, sem dúvida, como mola propulsora os métodos e instrumentos de investigação aliados ao espírito científico, perspicaz, rigoroso e objetivo.

Esse espírito, que foi preparado ao longo da história, impõe-se agora , de maneira inexorável, a todos quantos pretendem conservar o legado científico do passado, ou, ainda, propõem-se a ampliar suas fronteiras.


Filósofos como Descartes, Bacon, Leibniz, Espinoza, Locke Berkeley e Hume são autores da revolução epistemológica, que tem origem na Idade Moderna , e responsáveis pelo surgimento de duas grandes correntes que traduzem o sentido dos novos tempos: o racionalismo e o empirismo.

RENÉ DESCARTES ( Racionalismo)

Eu existo porque penso”

René Descartes ( 1596 – 1650), filósofo francês, e reconhecidamente o “pai da filosofia moderna” , é o principal representante do racionalismo, cujos fundamentos se encontraram em suas obras Discurso sobre o método e Meditações metafísicas. Movido pelo espírito científico da época e apoiado na matemática, uma de suas paixões, descartes encaminha suas reflexões filosóficas em direção à verdade. A percepção de que o homem se engana com facilidade e de que os conhecimentos provenientes dos sentidos são muitas vezes duvidosos, impulsiona Descartes na busca de certezas inabaláveis.

Dessa maneira m, ele encontra na dúvida um caminho seguro para encontrar a verdade: “Converte a dúvida em método. Começa duvidando de tudo, das afirmações do senso comum, dos argumentos da autoridade, do testemunho dos sentidos, das informações da consci6encia, das verdades deduzidas pelo raciocínio, da realidade do mundo exterior e da realidade do seu próprio corpo” ( Aranha e Martins, 1986: 166).

A dúvida metódica conduz Descartes a um primeiro conjunto de verdades: “Eu duvido, isso é certo. Se duvido, é porque eu penso, isso também é certo. Se penso, eu existo: é certo que eu existo porque penso”.



Cogito, ergo sum, isto é, “Penso, logo, existo”: eis a primeira certeza cartesiana, da qual é possível ter-se uma idéia clara e distinta. O Cogito cartesiano ( “eu penso”) fundamenta a possibilidade da ciência: admitem-se como verdade apenas idéias claras e distintas. A evidência racional é o critério que deve guiar todo ser humano na construção do conhecimento. Assim, é possível perceber a ênfase no sujeito conhecedor - todo conhecimento resulta exclusivamente do próprio ato de pensar.

Nesse sentido, as idéias são inatas, não porque os homens já nascem com elas, mas sim porque elas resultam do próprio ato de pensar. As idéias claras e distintas representam o conteúdo possível do conhecimento humano sobre o real. O real só pode ser conhecido a partir das idéias que resultam da atividade do pensamento. Apenas o uso correto da razão garante um conhecimento evidente e certo.

“Minhas idéias provêm das experiências sensíveis”

FRANCIS BACON ( Empirismo)
Se para o racionalismo ( do latim ratio, “razão”) a origem do conhecimento se encontra na razão, instrumento único e exclusivo capaz de conhecer a verdade, para o empirismo ( do grego empeiria, “experiência”) a mente humana é uma folha de papel em branco preenchida exclusivamente com os dados provindos da experiência sensível, externa ou interna.

Francis Bacon ( 1561- 1626), filósofo inglês, é um dos representantes do empirismo, bem como o defensor de um novo caminho para se fazer ciência, através do método indutivo experimental. Em sua obra Novum Organum ( Novo Instrumento), se opõe à lógica aristotélica, essencialmente dedutiva, e propõe a indução como um novo instrumento do pensamento, ou seja, como método de descoberta da realidade fenomenal. Ele é considerado um dos fundadores do pensamento moderno por ter sido o primeiro a expor de forma sistemática o método indutivo, contribuindo positivamente para o desenvolvimento das ciências da natureza – física, química, biologia, etc.

No âmbito das ciências modernas, Bacon cumpre um papel orientador, por sua ação contra os preconceitos e as falsas noções, denominados ídolos, que acabam por dificultar a tarefa de conhecer e compreender a realidade , de fazer ciência e ter acesso à verdade.



Uma vez destruídos os ídolos, é possível fazer ciência, utilizando um novo método de investigação da natureza, denominado indução, a principal contribuição de Bacon para a evolução do pensamento epistemológico moderno.
JOHN LOCKE ( Empirismo)
John Locke ( 1632 – 1704), também filósofo inglês, expõe em sua obra Ensaio acerca do entendimento humano, os fundamentos do empirismo. Tem como finalidade principal “investigar a origem, certeza e extensão do conhecimento humano”. Para Locke, a mente humana é uma folha de papel em branco (tabula rasa) e todas as idéias têm origem em duas fontes, a sensação e a reflexão. Diz ele:

Suponhamos, pois , que a mente é, como dissemos , um papel em branco, desprovido de todos os caracteres, sem quaisquer idéias; como ela será suprida? De onde lhe provém este vasto estoque, que a ativa e que a ilimitada fantasia do homem pintou nela com uma variedade quase infinita? De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra, da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento. Empregada tanto nos objetos sensíveis externos como nas operações internas de nossas mentes, que são por nós mesmos percebidas e refletidas, nossa observação supre nossos entendimentos com todos os materiais do pensamento. Dessas duas fontes jorram todas as nossas idéias , ou as que possivelmente teremos ( Locke, 1973:165).


Em primeiro lugar, os sentidos percebem os objetos sensíveis e imprimem na mente as imagens desses objetos. Nisso consiste a sensação, uma experiência externa, primeira fonte das idéias para efetivar o conhecimento humano. Em segundo lugar, as operações da própria mente sobre as idéias que já possui constituem a Segunda fonte das idéias, denominada reflexão, uma experiência interna, que consiste na percepção das operações que a própria mente realiza - “a percepção, o pensamento, o duvidar, o crer, o raciocinar, o conhecer, o querer e todos os diferentes atos de nossas próprias mentes” ( Locke, 1973: 166).

Para Locke, não há idéias inatas, como afirmava Descartes. O conhecimento só ocorre por meio das experiências sensíveis. Só é possível conhecer aquilo que é inicialmente percebido e registrado pelos sentidos, que fornecem material para o trabalho posterior da razão.


DAVID HUME (Empirismo)
David Hume(1711 – 1776 – sua teoria do conhecimento encontra-se na primeira das três partes do Tratado da Natureza Humana, , escrito aos vinte e cinco anos; resumida num Sumário do mesmo, opúsculo polêmico publicado logo após; e na Investigação Acerca do Entendimento Humano, vindo à luz dez anos depois. O ponto de partida é uma classificação de tudo aquilo que se dá a conhecer como sendo de dois tipos: impressões e idéias. As impressões são os dados fornecidos pelos sentidos, sejam internas – como a percepção de um estado de tristeza - , sejam externas, como a visão de uma paisagem ou a audição de um ruído. As idéias são representações da memória e da imaginação e resultam das impressões como suas cópias modificadas; podem ser associadas por semelhança, contigüidade espacial e temporal e causalidade. Em suma, trata-se de um novo passo em relação à teoria de John Locke, segundo a qual a mente é uma tábula rasa, uma folha de papel em branco, em que são impressos caracteres através dos mecanismos da experiência sensível. Cegos ou surdos de nascença não possuem esses caracteres, ou seja, não têm idéias correspondentes às cores ou aos sons, e um ser completamente desprovido dos sentidos jamais seria capaz de qualquer conhecimento.

A ESSA CONCEPÇÃO DÁ-SE O NOME DE EMPIRISMO PSICOLÓGICO, POR CONSTITUIR UMA TEORIA DO CONHECIMENTO BASEADA NA ANÁLISE DAS FUNÇÒES SUBJETIVAS NELE ENVOLVIDAS. Uma conseqüência é o chamado empirismo lógico, desenvolvido por filósofos posteriores, mas cujas bases já se encontram em David Hume. O empirismo lógico consiste na afirmação de que as palavras só têm significado na medida em que se referem a fatos concretos.



Bibliografia

HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. In. Os pensadores. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo : Nova Cultural,1996

LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. In: Os Pensadores. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo: Abril, 1973.v. XVIII.

O método científico
“ À natureza não se vence , senão quando se lhe obedece”.
Os descobrimentos até agora feitos de tal modo são que, quase só se apoiam nas noções vulgares. Para que se penetre nos estratos mais profundos e distantes da natureza, é necessário que tanto as noções quanto os axiomas sejam abstraídos das coisas por um método mais adequado e seguro, e que o trabalho do intelecto se torne melhor e mais correto” ( Francas Bacon)
Etimologicamente, método vem de meta , “ao longo de”, e “hodós”, “via, caminho”. É a ordem que se segue na investigação da verdade, no estudo feito por uma ciência, ou para alcançar um fim determinado.

Sempre que nos propomos a fazer alguma coisa, como, por exemplo, uma viagem, o ato mesmo de viajar é precedido de inúmeras antecipações mentais pelas quais nos organizamos , a fim de que o acontecimento tenha o sucesso esperado. Quando fazemos com freqüência a mesma coisa, desenvolvemos artifícios novos e formas que facilitam nosso trabalho.

Assim, essas antecipações mentais são formas de racionalização do agir, de modo a melhor adequar os meios e os fins, impedindo que sejamos guiados pelo acaso.

Notamos, também, que nem sempre esses processos nos são muito claros , no sentido de que na vida cotidiana não paramos para pensar a respeito deles. Vamos “pegando o jeito” e melhorando nossa habilidade , e só nos preocupamos quando os processos usados até então começam a se mostrar inadequados.



O método na Idade Moderna
As ciências , no estado em que se encontram atualmente, são o resultado de tentativas ocasionais, e de pesquisas cada vez mais metódicas e científicas nas etapas posteriores.

Embora o método tenha sido sempre objeto de discussão dos filósofos , nunca o foi com a intensidade e prioridade concedidas pelos filósofos modernos. Até então a filosofia se preocupara com o problema do ser, mas na Idade Moderna vai se voltar para as questões do conhecer. Daí surgem os temas privilegiados de epistemologia , ou seja, a discussão a respeito da crítica da ciência e do conhecimento. Nessa “virada” temática, dá-se também outra inversão: o filósofo antigo não questiona a realidade do mundo, o que passa a ser feito por Descartes, que, seguindo rigorosamente o caminho, o método estabelecido, reconhece como indubitável o ser do pensamento. É nesse encontro da subjetividade que residem as variações do novo tema. O filósofo vai se preocupar com o sujeito cognoscente ( o sujeito que conhece), mais do que com o objeto conhecido.

`’E tão importante a questão do método no século XVIII, que Descartes a coloca como ponto de partida do seu filosofar. A “duvida metódica” é um artifício com que demole todo o edifício construído e pretende recomeçar tudo de novo. O método adquire um sentido de invenção e descoberta, e não mais uma possibilidade de demonstração organizada do que já é sabido.

Outros filósofos se dedicam ao assunto, dando diferentes encaminhamentos, como Bacon, Locke, Hume, Spinoza etc. O próprio Galileu não deixa de teorizar sobre aquilo que, na sua ciência , significou uma verdadeira revolução.

Não só o método filosófico passa por uma transformação no século XVIII e não cessa, até hoje, de desencadear as mais diversas polêmicas, como também a ciência, que nesse momento rompe com a filosofia , sai em busca do seu próprio caminho, ou seja, do seu método.
Etapas do método científico ( ou experimental)
Comecemos pelo exemplo do procedimento levado a efeito por Caluje Bernarda, médico e fisiólogo francês conhecido não só por suas experiências em biologia, mas também por suas reflexões sobre o método experimental.

Caluje Bernarda percebeu que coelhos trazidos do mercado t6em a urina clara e ‘;acida , característica dos animais carnívoros ( observação). Como ele sabia que os coelhos t6em a urina turva e alcalina , por serem herbívoros, supôs que aqueles coelhos não se alimentavam há muito tempo e se transformaram pela abstinência em, verdadeiro carnívoros , vivendo do seu próprio sangue ( hipótese). Fez variar o regime alimentar dos coelhos , dando a alguns alimentação herbívora e a outros , carnívora; repetiu a experiência com um cavalo ( controle experimental) . No fim , enunciou que “em jejum todos os animais se alimentam de carne” (generalização).


Etapas:

a) Observação

A todo momento estamos observando; mas essa observação é com freqüência fortuita, feita ao acaso, dirigida por propósitos aleatórios. Ao contrário, a observação científica é rigorosa , precisa, metódica e, portanto, orientada para a explicação dos fatos.

Há situações em que apenas nossos sentidos são suficientes , mas às vezes há necessidade do uso de instrumentos (microscópio, telescópio, sismógrafo, balança, termômetro) que emprestam maior rigor à observação, como também a tornam mais objetiva, porque quantificam o que está sendo observado. É mais rigorosa a indicação da temperatura no termômetro do que a percebida pela nossa pele.

Aqui já temos de considerar uma primeira dificuldade. A observação científica não é uma simples observação de fatos. Que fatos? Quando observamos , já organizamos as inúmeras informações caoticamente recebidas e privilegiamos alguns aspectos. Por exemplo, duas pessoas diferentes observando a mesma paisagem selecionam aspectos diferentes, pois o olhar não é uma câmara fotográfica que tudo registra, mas há uma intenção que dirige nosso olhar.

Quando se trata do olhar de um cientista, este se acha muito mais “contaminado” por pressupostos que lhe permitem ver o que o leigo não percebe. Se olhamos uma lâmina ao microscópio, quando muito percebemos cores e formas. Precisamos estar de posse de uma teoria para aprender a ver”.

Ao fazer uma coleta de dados, o cientista precisa selecionar os mais relevantes para a solução de seu problema. O critério para essa seleção obviamente já orienta a observação.

Há um vício decorrente da posição empirista, pelo qual a ciência parte do sensível, da observação dos fatos. Ora, pelo que consideramos anteriormente, os fatos não são o dado primeiro. Como dizem os franceses “Les faits sont fait” ( Os fatos são feitos), são o resultado da nossa observação interpretativa.

Além disso, não é sempre que os dados aí estão, bastando que os indiquemos. Por exemplo, em 1643, ao limpar os poços de água de Florença, verificou-se que a água não subia a mais de 18 braças, ou seja, 10,33m. Torricelli, chamado para elucidar o problema, explicou-o pela existência da pressão atmosférica. Esse fato, isto é, a pressão, não “saltava à vista” das pessoas que observavam perplexas o fenômeno. Ele quase teve que “ser inventado” pelo gênio de Torricelli...


b) Hipótese
Hipótese vem de hipó, “debaixo de, sob”, e thésis, “proposição”. Hipótese é o que está sob a tese, o que está posto por baixo, o que está suposto. A hipótese é a explicação provisória dos fenômenos observados. É a interpretação antecipada que deverá ser ou não confirmada. Diante da interrogação sugerida pelos fatos , a hipótese propõe uma solução. Portanto, o papel da hipótese é reorganizar os fatos de acordo com uma ordem e tentar explicá-los provisoriamente.

E qual é a fonte da hipótese? A formulação da hipótese não é o resultado de um procedimento mec6anico, mas é a expressão de uma lógica da invenção. Nesta etapa do método científico, o cientista pode ser comparado a um artista inspirado que descobre uma nova forma de expressão. Muitas vezes a descoberta se faz por insight ( iluminação súbita”) , e o exemplo clássico é o de Arquimedes, que, ao descobrir a lei do empuxo, teria gritado "Heureca” , que em grego significa “descobri”. Ora a, a hipótese é um processo heurístico ( de descoberta).

Mas com isso não se deve mistificar a formulação da hipótese, apresentando-a como algo misterioso, pois mesmo em casos em que houve nitidamente essa intuição, ela foi precedida e preparada por uma longa elaboração racional da qual foi apenas o momento culminante. É o próprio Newton quem diz: “Se minhas pesquisas produziram alguns resultados úteis, eles não são devidos senão ao trabalho, a um pensamento paciente... Eu tinha o objeto de minha pesquisa constantemente diante de mim e esperava que os primeiros clarões começassem a aparecer, lentamente, pouco a pouco, até que eles se transformavam em uma claridade plena e total”.
A hipótese, para ser científica, deve ser passível de verificação.

O astrônomo Le Verrier, observando o percurso de Urano, percebeu uma anomalia que só poderia ser explicada se houvesse a hipótese da exist6encia de um outro planeta ainda desconhecido. Com base nas leis de Newton, Le Verrier calculou não só a massa como a dist6ancia do suposto planeta, o que permitiu a outro astrônomo, chamado Gall, descobrir a existência de netuno.

No caso da astronomia, bastou uma nova observação orientada pela hipótese. Às vezes , a verificação é um pouco mais complexa e deverá ser feita pela experimentação.
Natureza da hipótese:


  1. não deve contradizer nenhuma verdade já aceita, ou explicada;

  2. deve ser simples, isto é, o sábio , entre várias hipóteses, deve escolher a que lhe parece menos complicada;

  3. deve ser sugerida e verificável pelos fatos : “ Não invento hipóteses”, dizia Newton.( CERVO&BERVIAN, 1996:26)



  1. Experimentação

Enquanto a observação é o estudo dos fenômenos tais como se apresentam naturalmente, a experimentação é o estudo dos fenômenos em condições que foram determinadas pelo experimentador. Trata-se de uma observação provocada para fim de controle da hipótese. Segundo Cuvier, zoólogo do século passado, enquanto o observador escuta a natureza, o experimentador a interroga e a força a se desvendar”

“A experimentação consiste no conjunto de processos utilizados para verificar as hipóteses [...] O princípio geral em que se fundamentam os processos da experimentação é o do determinismo, que se anuncia assim: nas mesmas circiunst6ancias , as mesmas causas produzem os mesmos efeitos – ou ainda - as leis da natureza são fixas e constantes.

Regras que Bacon sugeriu para a experimentação:



  1. Alargar a experiência: é aumentar , pouco a pouco e tanto quanto possível, a intensidade da suposta causa para ver se a intensidade do fenômeno ( =efeito) cresce na mesma proporção.

  2. Variar a experiência: é aplicar a mesma causa a objetos diferentes.

  3. Inverter a experiência: consiste em aplicar a causa contrária da suposta causa a fim de ver se o efeito contrário se produz. Essa contraprova experimental faz com que as experiências negativas sucedam às positivas. Assim, depois de decompor a água pela análise, inverte-se a experiência, fazendo a síntese a partir do hidrogênio e do oxigênio.

  4. Recorrer aos casos da experiência. Por vezes , é preciso recorrer aos casos da experiência de ensaio, “afim de procurar pescar em águas turvas” , como diz Caluje Bernarda.

Um exemplo clássico de controle experimental foi o desenvolvido por Pasteur ao testar a hipótese da imunização de uma animal vacinado com bactérias enfraquecidas de carbúnculo. Separou 60 ovelhas da seguinte maneira: em 10 não aplicou nenhum tratamento; vacinou 25 inoculando após alguns dias uma cultura contaminada pelo bacilo do carbúnculo; não vacinou as 25 restantes, mas inoculou a cultura contaminada. Depois de algum tempo, verificou que as 25 ovelhas não vacinadas morreram, as 25 vacinadas sobreviveram e, comparadas com as 10 que não tinham sido submetidas a nenhum tratamento, verificou que não sofreram nenhuma alteração de saúde.

A importância da experimentação é que ela se faz em condições privilegiadas: podem-se repetir os fenômenos; varias as condições de experiência; tornar mais lentos os fenômenos muito rápidos (por exemplo, o plano inclinado de Galileu para estudar a queda dos corpos); simplificar os fenômenos (por exemplo, manter constante a pressão dos gases para estudar a variação de volume).

Nem sempre a experimentação é simples ou viável. Por exemplo, é impossível observar a evolução darwiniana, que se processa através de muitas gerações; mas na medida em que unifica e torna inteligível um grande número de dados, é considerada valiosa.

No caso de a experimentação não confirmar a hipótese, recomeça o trabalho do cientista.



  1. Indução

A indução e a dedução são, antes de mais nada, formas de raciocínio ou de argumentação e, como tais, são formas de reflexão e ão de simples pensamento. O pensamento alimenta-se da realidade externa e é produto direto da experiência. O ato de pensar caracteriza-se por ser dispersivo, natural e espontâneo. A reflexão, porém, requer esforço e concentração voluntária. É dirigida e planificada. A conclusão de raciocínio constitui o último elo de uma cadeia, o período final de um ciclo de operações que se condicionam necessariamente.

Freqüentemente, prefere-se pensar os problemas em vez de raciocinar sobre eles, confundindo a divagação irresponsável com a reflexão sistemática.

O raciocínio é algo ordenado, coerente e lógico, podendo ser indutivo ou dedutivo.




Indução: de verdades particulares concluímos verdades gerais.

Exemplos:



Ex. nº 1.

Terra , Marte , Vênus, Saturno, Netuno são todos planetas.

Ora , Terra, Marte Vênus , Saturno, Netuno , etc. não brilham com luz própria.

Logo, os planetas não brilham com luz própria.
Ex. nº 2.

Os corpos A,B,C,D atraem o ferro;

Ora, os corpos A,B,C,D, são todos ímãs;

Logo, os ímãs atraem o ferro
O argumento indutivo baseia-se na generalização de propriedades comuns a certo número de casos, até agora observados, a todas as ocorrências de fatos similares que se verificam no futuro. O grau de confirmação dos enunciados traduzidos depende das evidências ocorrentes.
Dedução: de verdades gerais concluímos verdades particulares

Exemplos:

Ex. nº 1

Todas as crianças têm pais

Ora , Gilberto é criança

Logo, Gilberto tem pais

Ex. nº 2


Se Henrique estudar , passará nos exames

Ora, Henrique estuda

Logo, passará nos exames
No raciocínio dedutivo a conclusão ou conseqüente está contido nas premissas ou antecedente, como a parte no todo.


  1. análise e síntese


René Descartes, procurando traçar normas gerais e indispensáveis a qualquer trabalho científico, formulou quatro regras:

  1. Nunca aceitar como verdadeira qualquer coisa, sem conhecê-la como tal. Evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção. ( É a evidência como critério da verdade.)

  2. Dividir cada uma das dificuldades a abordar , no maior número possível de parcelas que forem necessárias para melhor resolvê-las. ( análise.)

  3. Conduzir por ordem de pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, gradualmente, até o conhecimento dos mais complexos. ( síntese)

  4. Fazer sempre enumerações tão complexas e revisões tão gerais que dêem certeza de nada omitirem. ( É a condição comum e a garantia da análise e síntese).

A análise é a decomposição de um todo em suas partes.

A síntese é a reconstituição do todo decomposto pela análise.

Sem a análise, todo o conhecimento é confuso e superficial; sem a síntese, é fatalmente incompleto.

A inteligência não é capaz de tirar da complexidade de idéias, de seres e de fatos, relações de causa e efeito e as relações entre princípio e conseqüência. Por isso há necessidade de se analisar e dividir as dificuldade para melhor resolvê-las.


  1. generalização

Aristóteles já dizia que não existe ciência senão do geral. As análises dos fenômenos nos levam à formulação de leis, que são enunciados que descrevem regularidade ou normas.

Se na fase da experimentação analisamos as variações dos fenômenos, na generalização estabelecemos relações constantes, o que nos permite enunciar: sempre que a temperatura de um gás aumentar, mantida a mesma pressão, o seu volume aumentará.

Podemos dizer que se estabeleceu uma relação constante e necessária entre dois fenômenos; necessária porque, se aumentarmos a temperatura de um gás, o seu volume aumentará, e não poderá deixar de aumentar. Não se trata de uma contingência (algo que pode ou não ocorrer), mas de um determinismo. Segundo o Vocabulário de Cuvillier, o “determinismo é um princípio da ciência experimental segundo o qual existem relações necessárias (leis) entre os fenômenos, de tal sorte que todo fenômeno é rigorosamente condicionado pelos que o precedem ou acompanham”.

As leis podem ser de dois tipos: as generalizações empíricas e as leis teóricas.
Generalizações empíricas- ( ou leis particulares) – são inferidas da observação de alguns casos particulares. Por exemplo , “ o calor dilata os corpos” , “ os mamíferos produzem a sua própria vitamina C”, “ o fígado tem função glicogênica” ou, ainda, a lei da queda dos corpos, a lei dos gases.

Nem sempre é possível atingir uma regularidade rigorosa. Daí existirem leis estatísticas baseadas em probabilidades.


Leis teóricas - ou teorias propriamente ditas são leis mais gerais e abrangentes que reúnem as diversas leis particulares sob uma perspectiva mais ampla. A primeira grande teoria de que se tem notícia na moderna ciência é a da gravitação universal de Newton, que engloba as leis planetárias de Kepler e a lei da queda dos corpos de Galileu. A importância da teoria já se nota nesse exemplo, pois Newton reúne leis referentes a domínios tão distintos numa só explicação. Daí o caráter coordenador da teoria.
A descoberta do método científico no século XVIII aumentou no homem a confiança na possibilidade de a ciência conhecer os segredos da natureza> Essa confiança baseia-se na profunda crença na ordem e racionalidade do mundo.

O método se aperfeiçoa , se universaliza e serve de modelo e inspiração a todas as outras ci6encias particulares [...].



Bibliografia

Aranha & Martins. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.

CERVO & BERVIAN. Metodologia Científica. 4ª ed. São Paulo: Makron Books, 1996



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