2 o jogo da capoeira



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Diferente do Rio, na Bahia não houve a formação das maltas interagindo com os políticos, nem houve a absorção de outros grupos como os portugueses pobres e ricos, militares, intelectuais, e parte da juventude da elite branca. Isto só vai acontecer, em Salvador, depois que Vargas permitiu a prática da capoeira e Bimba abriu a primeira academia baiana, na década de 1930 e, poucos anos depois, Pastinha em 1941.

Diverso do Rio - onde a memória da capoeira carioca marginal foi sendo apagada (restaram apenas alguns escritores voltados para uma "capoeira-esporte", nos meios militares), só voltando (a memória) na década de 1990 -, a construção da identidade do capoeirista baiano, em especial após 1930 e o Estado Novo (como veremos no próximo capítulo), vai ser "civilizadamente" colorida por matizes esportivos e "culturais": o Centro Esportivo de Capoeira Angola , de mestre Pastinha; e a Luta Regional Baiana, de mestre Bimba.

Muniz Sodré, com sua visão perspicaz e lúcida, nos fala da importância do axé da cidade de Salvador, muito mais do que mero cenário onde vão transitar e atuar Bimba e Pastinha nas décadas seguintes:
Mas havia algo mais, algo poderoso, que era a propria cidade de Salvador na virada do século (dos 1800s para os 1900s) e que se prolonga até hoje, apesar do capital e da indústria. A cidade tem uma dimensão invisível a que se pode chamar espírito... o discurso que torna especial Salvador é, na maioria das vezes, ficcional, mas não necessariamente mentiroso, porque é de fato o único modo possível de se falar da cidade... o discurso sobre a cidade da Bahia, Salvador, é sempre um resultado da memória coletiva, seja de seus ficcionistas e cronistas eruditos, seja dos porta-vozes e personagens da sua extraordinária cultura popular...

É que ela talvez seja mais marcada por uma forte ancestralidade do que pela dinâmica da História. Algo permanente na mudança, como um leitmotiv, transtemporal ou como a palavra de um Pai fundador... A cidade é de fato trans-histórica, africana, jorjamadiana - Jorge Amado é praticamente o nome de um de seus dialetos mitológicos...

... nada disso é idílico, nem cheira a flor de laranjeira, como dizem os antigos. Por mais peculiar que seja, toda cultura é atravessada por relações de dominação, mais ou menos opressivas, entre classes e funções sociais, e há uma história de lutas acerbas entre povo e estamentos dominantes na Bahia. Mas no discurso sobre o éthos baiano, o plano mítico mantém uma continuidade... muito provavelmente, porque Salvador sempre foi uma nação (SODRÉ, M. Mestre Bimba, corpo de mandinga. Rio de Janeiro: Manati, 2002, pp.28-30).

2.1.5 - O INICIO DA ERA DAS ACADEMIAS: 1930 - 1950,

BIMBA E PASTINHA
A capoeira veio da África trazida pelo africano todos nóis sabemos disco porem não era educada quem educor ella famos nois bahiano para sua defeiza pessoal (Mestre Noronha, 1909-1977)
Na trajetória do pensamento sobre a identidade nacional, diz Muniz Sodré, jamais deixou de estar presente a idéia da mestiçagem.
Depois de 1930 - quando a Nova República, afim à valorização do território anunciado pelo Modernismo, tenta determinar a imagem concreta de um povo nacional, para acrescentá-la à Nação e ao Estado elaborados pelo Império -, o elemento mestiço ganha cores decididamente positivas. Por isto, é seminal a obra de Gilberto Freyre, em especial Casa Grande e Senzala (1933).

Ao lado de Freyre, reformulando as linhas interpretativas anteriores com novos argumentos das ciências humanas e sociais, situam-se Caio Prado Júnior (Evolução Política do Brasil, 1933) e Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, 1936).149_


Especificamente na capoeira, esta idéia - mestiçagem - encontrada em Freyre, Jorge Amado, e mais tarde, p.ex., em Darcy Ribeiro - onde as diferenças são homogeneizadas por uma solução de compromisso idealizada -, aparece como uma valoração do mestiço associado à imagem do capoeirista e da própria capoeira, pelo menos desde Luis Edmundo (1880-1961), no Rio de Janeiro do tempo dos Vice Reis:
O capoeira, sem ter do negro a compleição atlética, ou sequer a fisionomia rígida e sadia do fidalgo potuguês, é no entanto um ser que toda gente teme e a própria justiça, por cautela, respeita. Encarna o espírito da aventura, da malandragem, da fraude; é sereno e arrojado... Toda sua força reside nesta destreza elástica que assombra e adiante da qual o tardo europeu vacila e atônito o africano se transtroca._150
Da malícia e da elasticidade do mestiço, semelhante ao capoeirista de Luís Edmundo, teria também advindo, segundo Freyre, a singularidade do futebol brasileiro: "uma nova expressão de nossa mulatice, caracterizada pelo prazer de elasticidade, de surpresa, da retórica, que lembra passos de dança e fintas de capoeira"151.
"A mestiçagem como paradigma cultural não é, porém, fenômeno exclusivamente brasileiro"152, aponta Sodré, citando José Martí ("nuestra América mestiza!"). A partir da década de 1920, a idéia da mestiçagem aparece no horizonte da modernização e homogeneização do Estado nacional como um recurso ideológico para a neutralização da "força fragmentadora do pluralismo etnocultural e reforçamento da unidade orgânica do Estado"153_ - "o país não tem uma, duas, três ou quatro identidades (falsa a tese dos 'dois Brasis', 'Belíndia', Brasil-Bélgica e Brasil-Índia), mas uma dinâmica múltipla de identidades, evidenciadas pela forte heterogeneidade sociocultural da realidade sul-americana"154_.

O mesmo poderia ser dito sobre a capoeira, tendo em vista a pluralidade de "linhas" e estilos (falsa a concepção: capoeira= angola x regional).


A tese da mestiçagem - "afirmação de uma identidade cultural espelhada num tipo nacional, o 'brasileiro', dotado de caráter próprio e predominantemente mestiço"155_ -, assim como a palavra "sincretismo", têm um efeito colateral perverso: muitas vezes serve como um biombo para esconder a realidade da discriminação.

P.ex., Hélio Jaguaribe argumenta: "Nossa cultura é sincrética... o que existe são traços culturais de origem africana que se fundiram na cultura geral do país"_. O sujeito negro é valorizado "enquanto 'reagente químico' para a mestiçagem"157, para a formação de uma futura e dourada "terceira raça". Enquanto esta não chega, com exceção - quiçás - de algumas bundinhas bronzeadas de Ipanema, continua a discriminação em relação à negros, mulatos e mestiços - disfarçada e desfocada pelas teses do sincretismo e mestiçagem.


Paraleo à mestiçagem, na década de 1930, já nos disse Milanesi16, o rádio era soberano e vai manter-se assim até a chegada da televisão na década de 1950. Vimos como as empresas radiofônicas, sustentadas pelas indústrias e comércio, já levavam a "a toda parte a mensagem, a mais uniforme possível, patrocinada pelos empresários". O rádio foi o primeiro a quebrar "o domínio das letras, habilidade conferidora de status"; e também caracterizou-se "como um veículo publicitário, ou seja, um instrumento da pedagogia do consumo".

Nesta mesma época - o Estado Novo de Getúlio Vargas -, nos diz Sodré, florescem as escolas nacionalistas de música (Villa Lobos, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri e Guerra Peixe), a contrapé da matriz européia inspiradora de (embora com temática brasileira) Carlos Gomes, compositor do Império. Todas estas obras - "cultura brasileira" -, acompanhadas pelos romances de Jorge Amado - a primeira narrativa ficcional a reconhecer o estatuto de "pessoa" e não apenas o de "indivíduo", dos descendentes de escravos -, constituíram uma "espécie de monopólio oficial das idéias sobre a brasilidade"158.

Analistas nacionais e estrangeiros contemporâneos (Skidmore, Da Matta, etc.) explicam estas formas reconhecendo a ausência de uma fronteira racial definida e sustentando "que a hierarquização na sociedade brasileira fez-se com base na 'superioridade' branca e não na 'supremacia'."159_
É nesta época, também, que Édison Carneiro (1937) - após os precurssores Manuel Querino, em Salvador, e Francisco Pereira da Costa, em Recife - publica sua primeira obra: Negros Bantos, notas de etnografia religiosa e folclore.

É, por outro lado, também nesta época que a maioria dos cronistas vão primar em "resgatar" a capoeira de seu passado de "maltas e navalhas" transformando-a na "Luta Nacional". No entanto, em oposição, Édison Carneiro, junto a Câmara Cascudo - e indo até Waldeloir Rego, em 1968, com seu excelente Capoeira Angola - serão os principais escritores que Libano Soares denominou "folcloristas", com um enfoque "cultural" sobre a capoeira: o lúdico, o espaço de encontro, as canções, etc.; na contra-corrente dos entusiastas da "Luta Nacional". (SOARES, 1994, pp.13-14).


Enquanto isto, na Europa e América, depois da derrota da Alemanha na Primeira Grande Guerra; sua queda, paralela à queda econômica da França e Inglaterra - os vitoriosos que, no entanto, se endividaram com a guerra -; testemunha-se à ascenção dos Estados Unidos - o maior financiador dos Aliados na Europa durante a guerra.

Na década de 1920 houve uma relativa recuperação econômica na Europa, incluindo a Alemanha, com injeção de dinheiro de financiadores americanos. No entanto, ironicamente, a recuperação européia teve como efeito diminuir as importações que eram feitas aos Estados Unidos, e isto será um dos principais fatores do crack da Bolsa de Nova Iorque (1929) que provocou um "efeito dominó" internacional, apesar de estarmos longe dos 1990s e da Globalização.


O cenário internacional é de desemprego e desilusão popular; o palco, na Alemanha, esta preparado para a drástica entrada de Adolf Hitler e, logo após, a Segunda Grande Guerra no final dos 1930s.

Neste mesmo período, floresce uma efervescente atividade cultural, artística e científica, com idéias revolucionárias como as de Einstein, Freud, Marx, e cientistas como Von Braun (que depois da Segunda Grande Guerra seria o principal mentor do programa espacial norte-americano).

No cinema alemão temos o expressionismo e Fritz Lang com seu Metrópolis (1927); Marlene Dietrich faz o Anjo Azul (1929), de Sternberg; Leni Riefenstahl faz o elogio ao nazismo em O Triunfo da Vontade (1935) e Olimpíadas (1938). Na literatura, temos Kafka (O Julgamento, em 1913; O Processo, em 1925; O Castelo, em 1926); Herman Hesse começa a publicar seus livros; e Thomas Mann publica A Montanha Mágica. Nas artes plásticas temos Kandinsky, Paul Klee, Marc Chagall. Na arquitetura e design, o grupo Bauhaus esta produzindo com força total. Bertolt Brecht inova o teatro. Os estudos (de comunicação) sobre o fenômeno da mídia e da cultura de massas - jornais, rádio, cinema - tomam decidido impulso.
Enquanto isto, na Itália, Mussolini havia sido nomeado Primeiro-Ministro em 1922, e em 1925 estabeleceu um Estado totalitário de extrema direita. Em 1935, Mussolini e Hitler firmam o eixo Berlim-Roma.

Na Espanha temos a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), com a Alemanha nazista e a Italia fascista apoiando Franco. Picasso pinta Guernica em 1937; Hemingway, correspondente de guerra na Espanha, publica artigos; e, na França, Sartre escreve seu Diário de uma Guerra Estranha (1939/40). Em 1939 Franco inicia a ditadura que durará até sua morte (1975).

A Revolução Russa (1917) tinha derrubado o regime czerista e em 1922, após violenta guerra civil, foi fundada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com Lênin como presidente do comitê executivo eleito pelo Soviete Supremo, orgão máximo da URSS. Dois anos depois, em 1924, com a morte de Lênin, Josef Stálin subiu ao poder derrotando Trotski, e aí ficaria até a sua morte, em 1953, em Moscou. Inicialmente, em 1939, com o pacto Molotov-Ribbentrop, Stalin uniu-se a Hitler; mas em 1941, dois anos depois, Hitler atacaria a URSS.
Dentro deste efervescente, movimentado e explosivo cenário internacional - arte e ciência, regimes extremistas e nacionalismo -; com intensa repercussão no Brasil, apesar de, aqui, termos também um viés próprio que será o pano-de-fundo da dinâmica da capoeira neste período - mestiçagem, rádio, folcloristas e Luta Nacional -, Sodré, citando Barel, concluiu que tem faltado à análise da problemática identitária brasileira e hispano-americana "a perspectiva da lógica patrimonial" (com honrosa exceção da obra de Faoro no plano do poder político)160.

Em primeiro plano teríamos a transmissão; algo diverso da lógica capitalista (mais típica, p.ex., dos Estados Unidos) que privilegia o crescimento ou a acumulação. No entanto, não devemos esquecer que cada uma destas lógicas limita a outra, sem tornar-se absoluta.

Ser brasileiro era, antes de tudo, pertencer ao território pátrio. O fenômeno patrimonial funda uma territorialidade própria, distinguindo seu grupo humano do restante do corpo social, e uma temporalidade onde mortos, vivos e não-nascidos integram esta dimensão. O investimento libidinal ou afetivo-sexual também é característico da lógica patrimonialista nacional.

Requisitos diferentes dos norte-americanos, para quem a identidade nacional não se dava por pertencimento ao território, mas "por adoção de valores civilizatórios novos (democracia, liberalismo, etc.), advindos de uma tradição utópica iniciada pelos puritanos".161

Curiosamente, a expansão e o desenvolvimento da capoeira nas décadas seguintes, tendo em vista os enfoques das lógicas capitalista ou patrimonial, está - em muitos aspectos - mais para o contexto da lógica capitalista (mais típica dos norte-americanos): com a "abertura de caminhos para a afirmação do individualismo"166 sedimentados em valores importados do "esporte contemporâneo"; e também na criação de uma curiosa hierarquia e burocracia (os mestres tem poder "material", dominam a técnica que pode ser usada como vetor de violência no jogo; e, por outro lado, a "carreira" profissional do aluno depende deles; além disto, também detem o "poder espiritual", "a voz viva dos ancestrais").

Alguns estudiosos vêm estas características "autoritárias" como uma manifestação de um facismo que seria inerente à vários mestres e professores de capoeira. No entanto, eu discordo até certo ponto, e creio que estas características podem ser melhor - e com mais justiça - explicadas pelos modelos de sedentário e nômade encontrados no "Mille Plateaux" (Paris, Les Éditions de Minuit, 1980) de Guattari e Deleuze que examinaremos na "Ética".

Quanto à lógica patrimonial (mais típica do Brasil) - onde o primogênito é o herdeiro sem levar em conta sua capacidade -; esta não é tão atuante: não existe uma territorialidade, apesar de encontrarmos "uma temporalidade onde mortos, vivos e não-nascidos integram esta dimensão", estando o investimento afetivo também fortemente presente.
Temos - no que se refere especificamente à capoeira -, nesta época, algumas obras clássicas da produção intelectual brasileira e também fragmentos provenientes dos dispositivos de produção de sentido montados por meios de comunicação de massa - em especial, a imprensa -, focalizando a capoeira numa ação típica dos mecanismos do pensamento identitário de 1930-1950: a capoeira como Luta Nacional. Em contrapartida, temos as estratégias de mediação da capoeira via determinados segmentos (como os "folcloristas" Édison Carneiro e Câmara Cascudo) e alguns capoeiristas célebres (Bimba, Pastinha, Noronha, Valdemar e outros).

Vejamos.
Apesar da capoeira ter sido posta fora de lei no primeiro Código Penal da República (1892) - seis meses a dois anos àquele encontrado "em práticas corporais e de agilidade conhecidas como capoeiragem" -, e sua prática, desportiva, em recintos fechados e com alvará de polícia, só ter sido permitida após a subida de Getúlio Vargas, na década de 1930, como apoio popular à "retórica do corpo"162; o que acontecia, na realidade, era que o discurso de Mello de Moraes - admirador da "herança mestiça" e dos "verdadeiros capoeiras de fama", brancos e pertencentes às classes dominantes além dos valentes mestiços e negros chefes de maltas em oposição ao "povo baixo" que, na verdade, constituía a maioria da capoeiragem - vai florescendo, apesar da proibição, até frutificar plenamente com Coelho Neto no ensaio "O nosso jogo", publicado em Lisboa na revista Bazar, em 28/10/1922:


O capoeira digno (do tempo do Império) não usava navalha (arma preferida das maltas na passagem do Império para a República), timbrava em mostrar as mãos limpas quando saía de uma turumbamba.

Além de diferenciar os grandes ases da capoeira da época do Império - como Manduca da Praia - da "ralé" que mais tarde teria composto as maltas, o nacionalista Coelho Neto "chega a fazer a crítica do futebol, como um esporte de origens alienígenas", e celebra a capoeira "como a verdadeira Educação Física do Brasil, que deve ser ensinada nas escolas"163.

Mas Coelho Neto não seria o único: em 1928, Anibal Burlamaqui lançou com bastante repercussão seu Gymnastica Nacional (capoeiragem) Methodizada e Regrada. Empenhado em "expurgar da capoeiragem o seu caráter delituoso, para transformá-la num esporte", atraiu "muitos jovens da burguesia" e "infiltrando-se [a capoeira] nas camadas mais elevadas da coletividade, valorizou-se, propagou-se"164. O livro de Burlamaqui, lançado no Rio, teve ecos até mesmo na Bahia: Moura165_ comentou que Bimba, "seguindo as pegadas" do autor e favorecido pelo decreto de Vargas permitindo a prática "em recinto fechado", organizou algumas competições dentro de sua academia inspirado em Burlamaqui.

Algo que, a meu ver, pode causar uma interpretação errônea (que tem sido adotada por alguns autores): Bimba, ao saber do livro de Burlamaqui - editado no Rio de Janeiro, então capital federal, centro que encontrava ressonância em todas capitais brasileiras -, certamente deve ter gostado pois era, de certa maneira, uma confirmação e "uma força" para seu (então) novo projeto da "Luta Regional Baiana", voltada para a luta e defesa pessoal. No entanto, não devemos imaginar (como querem alguns) que foi o livro de Burlamaqui que lançou o (então, 28 anos) jovem Bimba em sua posterior prática e trajetória - a criação da capoeira regional e seu grande sucesso. A prática e trajetória de mestre Bimba estavam totalmente coerentes - e isto, qualquer um que o conheceu, gostando dele ou não, pode confirmar -, e radicalmente imbricadas em sua personalidade, maneira de ser e de agir.


É também interessante notar que todo este movimento que ora descrevemos, paradoxalmente se passou numa época fronteiriça: da proibição à permissão (vigiada). E mais: apesar da distância e da precariedade de comunicação - dos 1930s comparados aos atuais 2000s, da Internet -, haviam elos comunicacionais sutis e não-ortodoxos que ligavam as capoeiras baianas e cariocas: mestre Bimba, através um de seus alunos que tinha comprado o livro, soube da intervenção de Burlamaqui.
A Educação Física estava em alta.

Antes, mesmo, da subida de Getúlio com sua "retórica do corpo", o Ministro da Guerra de Wenceslau Bras, gen. Nestor Sezefredo dos Passos, já havia tornado a prática da Educação Física obrigatória no Exército - uma prática baseada nos modelos francês e alemão. Curiosamente, o gen. Sezefredo era um conhecido praticante de capoeira que desarmara com uma rasteira um tenente - pistola numa mão, fuzil na outra - que tentara prendê-lo durante uma tentativa de revolta antes da subida de Vargas. Ao ser rendido, o gen. Sezefredo entregou sua arma mas pediu ao tenente revolucionário que explicasse a razão do levante. O jovem tenente empolgou-se com a teoria e descuidou-se das armas em riste, o general foi se aproximando pensativo e, súbito, aplicou a traiçoeira rasteira na mais perfeita tradição capoeirista.

Com muito orgulho, devo dizer que Nestor Sezefredo foi meu avô.
Bem mais tarde - 1945 -, Inezil Pena Marinho, ainda sob as diretrizes gerais da "retórica do corpo" de Vargas e na sequência de Burlamaqui, publica o seu Subsídios para o estudo da metodologia e treinamento da capoeiragem (Rio de Janeiro, Imprensa Nacional). Mais tarde em 1956, publicará os Subsídios para a história da capoeiragem no Brasil.

No entanto, apesar de ter tido aceitação nos (poucos) círculos de Educação Física que se interessavam em transformar aquele "folclore" numa atividade racional e regrada - e de continuar a ter aceitação, até hoje, nos mesmos círculos, atualmente muito mais amplos mas igualmente desinformados -, o livro de Inezil teve pouco sucesso entre os capoeiristas. O sucesso, em termo de vendas e influência direta, só viria depois, com um manual de cunho eminente prático, Capoeira sem mestre, de outro autor - o tenente da marinha, Lamartine Pereira da Costa -, já na década de 1960.


Dentro deste cenário - Luta Nacional - implementado pelos segmentos hegemônicos, também temos as trajetórias e as estratégias de mestre Bimba e mestre Pastinha, e o início da "era das academias" - uma capoeira "civilizada" ensinada e praticada em "academias" -, que dura até nossos dias.
Vale notar ainda que, enquanto no resto do país ocorria uma marginalização progressiva dos indivíduos de pele escura, na Bahia "se desenvolveu até o final dos anos 1930 uma pequena burguesia negra"167, à qual não pertenciam Bimba e Pastinha apesar de aí estarem inseridas inúmeras das mais importantes mães-de-santo do candomblé.

No entanto, inseridas - as mães-de-santo -, ou não - os mestres da capoeira -, no seio desta "pequena burguesia negra baiana", uns e outros lutaram com coragem e sabedoria, através caminhos e estratégias diversas, para a afirmação social da cultura e do povo negro.


As duas maiores figuras da capoeira do século XX, na opinião da quase totalidade dos jogadores, são os mestres Bimba (1900-1974) e Pastinha (1889-1981), nascidos na Bahia no "período da marginalidade".

O dr. Angelo Decânio Filho - Mestre Decânio (1925) -, eminente médico e professor baiano, acupunturista, emérito jogador e mandingueiro, foi o braço direito de Bimba por décadas a fio a partir de 1938. Mestre Decânio sintetiza, com maestria, a determinante contribuição de Pastinha e Bimba na feitura da capoeira contemporânea.


A capoeira desenvolve um processo circular, bi-polar, concordante com o sistema dialético Ying<->Yang, consoante o qual em todo o jogo existe a semente da maldade e em toda luta encontramos movimentos portadores do germe lúdico, dentro do conjunto do aperfeiçoamento do Ser.

De modo similar, enquanto Mestre Pastinha enfatizou os aspectos metafísicos, éticos e até religiosos da capoeira, preocupando-se com a perpetuação da sua obra; Mestre Bimba dedicou-se sobretudo aos componentes pragmáticos, legalização da sua prática, o aperfeiçoamento de sua técnica e a sua aplicação à defesa pessoal. A complementação do embasamento somático pelos fundamentos psíquicos através as duas correntes geradas pelos criadores dos estilos "regional" e "angola", garante a unidade da capoeira como jogo e luta, ao mesmo tempo que a transforma no jeito brasileiro de aprender a "ser-estar" no mundo a que se refere César Barbieri, abrindo um leque de aplicações pedagógicas e terapêuticas cujos limites são imensuráveis.169_


Mestre Acordeon, outra lenda viva, ex-discípulo de Bimba, atualmente ensinando na Califórnia, analisa de modo semelhante a complementariedade dos papéis dos criadores dos estilos "angola" e "regional", ao enfocar as definições: "capoeira é mardade" (Bimba); "capoeira é tudo que a boca come" (Pastinha).
Apesar da aparente incongruência destas definições de capoeira, elas não são conflitantes. Para Pastinha, o sábio mestre amado por tantos devido á sua personalidade afável, capoeira é tudo que a boca come - todas as coisas que vêm com a vida. Para Mestre Bimba, o gigante de personalidade forte, ex-carpinteiro, ex-estivador, ex-carroceiro, criador da capoeira regional, e mestre extremamente respeitado em sua arte, capoeira é falsidade, a maneira de lidar com os perigos da vida. Estas respostas complementam-se e resumem as filosofias de dois dos maiores nomes da história da capoeiragem.170_
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