2 o jogo da capoeira



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Letícia Vidal de Souza Reis, por sua vez, tenta ler:
na gramática corporal da capoeira, uma teoria política - a dialética da mandinga -... através da investigação de como se atualizaram as representações sociais sobre a mesma em três momentos importantes de sua história: em finais do sec. XIX, quando a prática da capoeira é criminalizada; nas décadas de 1930 e 1940, quando ocorre sua liberação; e, finalmente, na década de 1970, quando se torna oficialmente um esporte... compreendê-la (a capoeira) no interior do processo de construção da identidade étnica dos negros no país... (a capoeira) terá seu significado social constantemente alterado... considerando-se que o corpo é uma construção realizada em sociedade, o espaço da roda de capoeira será interpretado como uma metáfora do espaço social onde os negros, enfrentando-se individualmente com os brancos, negociam constantemente a ampliação de sua participação política na sociedade brasileira. (REIS, 1997, p.12, 18, 20)
Contrária à tese da "pureza e tradição" da capoeira angola baiana, Reis apoia-se em Hobsbawn e sua "invenção de tradições". Reis supõe que se a capoeira regionall foi uma "invenção" de Bimba, por sua vez a capoeira angola foi uma "invenção" de Pastinha.

Com seu projeto centrado na capoeira paulista dos 1960s, 70s e 80s, enfoca as figuras de mestre Pastinha e "sua" capoeira angola; mestre Bimba e "sua "regional".

Citando Marcel Mauss, e outros, chega a algumas conclusões:
Se o corpo constitui-se num microcosmo social e se há oposições corporais entre as duas modalidades de capoeira (angola e regional), então há também oposições nas representações sociais sobre a mesma. Assim, essas oposições corporais nos dois estilos nos levam à busca do conjunto de representações ao qual elas estão ligadas. (REIS, 1997, pp.238-241)
Letícia Reis concluiu que - na capoeira regional - a incorporação de movimentos, reelaborados e reinventados de outras formas de lutas (algumas, estrangeiras), "aumenta as possibilidades de negociação"; a regional apropria-se "à sua maneira da tese da mestiçagem", "embranquecendo a capoeira". No plano social, a capoeira regional representa a "estratégia política que leva à afirmação da presença negra como forma de inserção social dos negros no cenário nacional".

A capoeira angola, ao contrário, quer uma capoeira "pura", não admite a fusão com movimentos corporai de outras lutas, e "a 'bricolage gestual' (Tavares, 1984) é consideravelmente menor". A proposta pedagógica da angola é posterior à da regional "como uma reação cujo intuito era distinguir-se dessa"; a capoeira angola quer "valorizar a especificidade do negro e, em virtude disto, recusa a mestiçagem, isto é, refuta o mito do embranquecimento como 'solução' para a questão do negro". No plano social, a capoeira angola representa "a estratégia política de afirmação de identidade negra pela exclusão, acentuando-se a diferença étnica como forma de inserção social dos negros na sociedade".

Teríamos, então, a proposta da "mestiçagem" e a da "pureza: "duas respostas sociais" através da "linguagem corporal" da capoeira.

Curiosamente, Bimba (capoeira regional, "impura") era um "gigante negro", filho de uma índia e de um negro "campeão (da luta) de batuque"; Pastinha (capoeira angola, "tradicional"), um mulato filósofo e habilidoso, filho de uma negra e de um espanhol.


Poderíamos dizer que Pastinha e Bimba são os "ancestrais mitológicos" de todos jogadores de capoeira. E "ser capoeirista" se deve em grande parte ao que estes homens foram ou representam.

Mas apesar desta complementariedade, a convivência entre Bimba e Pastinha - melhor dizendo, entre os alunos destes dois mestres, os "angoleiros" e os "regionais" - não foi pacífica, harmônica e amistosa.

Havia hostilidade entre os dois grupos.

Não somente no discurso e nas estratégias de conquista de espaço mas, principalmente, nos jogos dentro de rodas de rua quando jogadores dos dois grupos se encontravam: descambavam em pancadaria, entre os dois jogadores no centro da roda e, não raro, entre os demais participantes,


No entanto, temos de estar atentos para que os dois mitos - Bimba e Pastinha - não sombreiem outros mestres, que vieram pouco depois. E que, com este obscurecimento, seja criada uma imagem esterotipada e simplificada - capoeira=BimbaxPastinha - do desenvolvimento da capoeira baiana no início da "era das academias" (as décadas imediatamente seguintes aos anos 1930s e 1940s) .

Vimos como Muniz Sodré afirmou ser falsa a tese da "Belíndia", dos dois Brasis (Brasil-Bélgica e Brasil-Índia), pois o que existe é "uma dinâmica múltipla de identidades". De forma semelhante, ao estudarmos os mestres Bimba e Pastinha, devemos ter também em mente "os bambas da era de 1922"; assim como - um pouco mais tarde - mestre Noronha com seus manuscritos e sua lucidez; mestre Valdemar com seus berimbaus e seu "barracão"; etc.

2.1.5.1 - MESTRE BIMBA E A CRIAÇÃO DA CAPOEIRA REGIONAL
Na década de 1930, Getúlio Vargas tomou o poder e, procurando um apoio popular para a sua "retórica do corpo"173_, permitiu a prática (vigiada) da capoeira: somente em recintos fechados e com alvará da polícia.

Mestre Bimba aproveitou a brecha e abriu a primeira "academia" de capoeira baiana, dando início a um novo período - o das "academias" - após o período de "escravidão" e de "marginalidade".


[Vargas] imaginava que para ter uma sociedade organizada, que funcionasse como uma máquina, era necessário que as pessoas, e os corpos destas pessoas, fossem educadas para isto desde pequenas. Pensando nisto ele criou a obrigatoriedade do ensino da Educação Física nas escolas, e imaginou que a capoeira poderia ser um apoio popular. Mas uma capoeira, não nos moldes tradicionais de malandragem/ritual/brincadeira/arte, mas como esporte/luta "sério", com método de ensino semelhante aos das escolas "brancas"; com uma graduação semelhante à hierarquia do exército; e uma mentalidade de acordo com os objetivos da nova sociedade: competição, objetividade, técnica e burocracia. Estas características são, justamente, as que vão crescer e fazer sucesso durante todo a "era das academias", deixando em segundo plano as características originais da capoeira - vadiação, ritual, malandragem._174
Antes disto - década de 1930 -, a capoeira (na Bahia) era praticada quase que exclusivamente pelos africanos e seus descendentes - algo diferente da mistura de raças e classes da capoeira carioca desde aprox. 1850 -; além disto, a identidade do capoeirista era associada à figura do "valentão".

Bimba, depois do sucesso do torneio no ringue do Parque Odeon, na Sé, em 1936, vai mudar este panorama, atraindo a juventude da classe média e da burguesia de Salvador, introduzindo o conceito e o contexto de "luta/defesa pessoal/esporte", remetendo também (através a construção de um discurso teórico engendrada, em grande parte, por alguns de seus alunos, como o Dr. Decânio) `a máxima grega "mens sana in corpore sano".

Nesta empreitada, será ajudado por mestre Pastinha, cultuador da "capoeira angola" - antagônica (e complementar em vários aspectos) à "regional" de Bimba. A angola valoriza o ritual e a música; introduz um código moral enfatizando a amizade e o "cavalheirismo esportivo" que nos faz lembrar outra antiga máxima grega, dos Jogos Olímpicos, "o importante não é vencer, mas participar (competir)".
Mestre Bimba nasceu em 23 de novembro de 1900. Mas, até mesmo em relação a isto, existe controvérsia: existe outra certidão de nascimento com a data de 1889.

Bimba nasceu no bairro do Engenho Velho, freguesia de Brotas, Salvador, Bahia. Sua mãe, Maria Martinho do Bomfim, descedia de índios - daí, talvez, já a predisposição que levaria Bimba para o candomblé-de-caboclo em sua vida adulta. Seu pai, Luiz Cândido Machado, ex-escravo, descendia de bantos e era um dos cobras do batuque - algo semelhante à pernada carioca, uma prática em que se exercitava diferentes tipos de bandas e rasteiras.

Ganhou seu apelido ao nascer. Dona Martinha apostara - e perdeu a aposta - com a parteira que a criança seria menina; "bimba" é o apelido, utilisado sem maiores problemas ou censuras, do orgão genital masculino.
Mestre Itapoan (1947), odontologista e professor da UFBa, famoso na capoeiragem baiana como jogador e pesquisador, durante os últimos dez anos de Bimba - meados da década de 1960 a meados de 1970 - foi uma espécie de porta-voz e public relations do Mestre - como anteriormente, mestre Decânio -, ao qual era ligado por fortes laços de admiração, afeição e camaradagem:
Aos 12 anos de idade (em 1912), Bimba, o caçula de dona Martinha, iniciou-se na Capoeira, na Estrada das Boiadas, hoje bairro de Liberdade, em Salvador. Seu mestre foi o africano Bentinho, capitão da Cia. de Navegação Baiana... Bimba começou a sentir que a Capoeira Angola, que ele praticava e ensinou por bom tempo, tinha se modificado, degenerou-se e passou a servir de prato do dia para pseudos capoeiristas, que a utilizavam unicamente para exibições em praças e, por possuir um número reduzido de golpes, deixava muito a desejar em termos de luta. Aproveitou-se então do Batuque e da Angola e criou o que chamou de Capoeira Regional, uma luta baiana. Posuidor de grande inteligência, exímio praticante da Capoeira Angola e muito íntimo dos golpes do Batuque, intimidade esta adquirida com seu pai, um Mestre nesse esporte, foi fácil para Bimba, com seu gênio criativo descobrir a Regional.171
O leigo não percebe imediatamente a importância da assimilação do batuque pela capoeira regional, mas quem tem certa intimidade com alguma forma de luta percebe logo qual a intenção de Bimba ao introduzir estes novos elementos na sua luta regional baiana: apesar de a capoeira ter recursos para combate a curta distância (as diferentes bandas e cabeçadas, p.ex.), de maneira geral ela é mais apropriada para o combate solto, à distância, em espaço aberto.

Com a inclusão dos golpes do batuque, a capoeira se torna (luta) completa.

Na descrição de Jair Moura: '... devido à violência dos golpes que eram desferidos coxa contra coxa, acrescentando-se ao golpe um rapa com o pé ou uma banda". Fica caracterizado que os golpes do batuque são próprios para seram aplicados com o adversário extremamente próximo, quase colado. (CAPOEIRA, N., op.cit., 1992, p.93)
Muniz Sodré, o "Americano", ao qual já fomos apresentado, acrescenta no excelente Mestre Bimba, corpo de mandinga (RJ, Manati, 2002. pp.64-65):

Assim, ao fundar em 1932, no Engenho Velho de Brotas (bairro pobre onde nasceu), a primeira academia especializada em capoeira, Bimba já tinha pronta, desde 1928, a sua criação: a regional baiana. Naquela época, ensinava também a sua arte em residências, fazendo progressivamente contato com gente mais abastada (políticos, pessoas de projeção social), o que lhe valeu algumas pequenas vantagens...

Não é difícil detectar nesta movimentação a mesma estratégia que levava os negros dos grandes terreiros de candomblé de Salvador ou os músicos negros do Rio de Janeiro a se aproximarem de figuras representativas da sociedade global. Tratava-se realmente de uma estratégia de aproximação interétnica, em busca de uma certa proteção legal, eclesiástica e patriarcal, característica do transculturalismo brasileiro que, do lado das classes dirigentes, ensejava, por meio de uma síntese entre povo e nação, a formação de uma cultura nacional-popular.
Além dos candomblés de Salvador e dos músicos negros cariocas, poderíamos juntar - nesta mesma "estratégia de aproximação" - as maltas cariocas do final dos 1800s: os Guaimus e Nagoas, com seus "padrinhos", os políticos e outras personalidades de poder e dinheiro que patrocinavam estes grupos "para-militares" (quase) como pequenos exércitos particulares.

E voltando a Itapoan:


Criada a Regional, Bimba deu, talvez, a sua maior contribuição à Capoeira: criou um método de ensino para esta, coisa que até então não existia...

Bimba passou à parte mais importante, que consistia em testar a sua Capoeira em rodas estranhas. Não deu outra coisa! Bimba chegava, entrava na roda e aos Galopantes, Vingativas, Bandas Traçadas, etc., colocava em polvorosa os capoeiristas Angolas. A coisa chegou a tal ponto, que quando ele chegava em uma roda com seus amigos e alunos da Regional, a roda simplesmente acabava por motivos óbvios! Ninguém queria jogar com Bimba, contra sua Capoeira Regional, que passou a dar fama ao seu criador e a tornar-se conhecida. O Mestre, sentindo que certos Angoleiros enciumados tentavam marginalizá-lo, resolveu fechar a sua Regional. Não mais se apresentava em festas de largo, o mesmo acontecendo com seus alunos. Bimba contava, que não tinha nada contra os verdadeiros Angoleiros como Totonho de Maré, Traíra, Cosme, Daniel Noronha, Cabo e outros que continuaram seus amigos, porém os falsos Angoleiros, aproveitadores de situações, e fracos em Capoeira ele não perdoava. Dizia sempre que os que mais malharam a sua Regional, não tiveram coragem suficiente para enfrentá-lo, de testarem seu método, de testarem a sua luta...

A academia de Mestre Bimba que além de ser a primeira academia (registrada em 1937) chamada Regional, uma vez que seu Mestre foi o criador dessa modalidade de Capoeira, é a mais importante das academias no gênero, além de ser a matriz que originou as demais existentes no presente.171_
Como vimos com Itapoan, muitos admiradores e alunos de mestre Bimba entendem que ele criou a regional porque a angola estava muito fraca. A luta, na Bahia, tinha degenerado em "presepada" e perdido sua antiga virilidade.
O problema é que toda essa arte pode seduzir a si própria e deixar-se levar pelo fascínio estética do movimento, esquecendo que eles estavam a serviço do combate ou do que a perigosa tradição da capoeira conhecia como "mardade" (maldade)... Foi esse risco que inquietou o Mestre Bimba, deixando-o insatisfeito com uma certa capoeira angola do seu tempo. É preciso dizer "uma certa", porque havia facções diversas de angoleiros na Bahia. (SODRÉ, op.cit., 2002, pp.48-49)
Fala-se muito do método de ensino de Bimba. E com razão, pois, antes, a capoeira era aprendida organicamente, por observação, da mesma forma que alguem aprende a falar ou andar.
Bimba criou um método177_ de ensino baseado em oito sequências pre-determinadas de golpes, contragolpes, esquivas, quedas e aús ("estrelas"), para serem realizadas por duplas de alunos. Criou, também, a "cintura desprezada", onde um jogador dá um "balão" jogando o outro para o alto; este último tem de aprender a cair sempre em pé.

Introduziu golpes do batuque178_, do qual seu pai era mestre; golpes ligados ( como, por exemplo, os "balões" usados na "cintura desprezada"); e golpes de outras lutas como a greco-romana, o boxe, e o jiujitsu (com as quais teve contato entre 1930-37, através de seu aluno Cisnando Lima)179_. No ensino da regional, de certa maneira, Bimba sacrificou a parte de brincadeira e ritual em favor da objetividade de luta.180_


O curso ministrado por Bimba durava seis meses, três aulas de (um pouco menos de) uma hora por semana - e o aluno era "formado".

Muito diferente de nossos dias: aulas de duas horas de três a cinco vezes por semana. Com seis meses o aluno não é "formado", ele é "batizado"; ou seja, é só então que ele entra na roda para começar a jogar. Nos grupos mais estruturados e "de nome", para chegar a "professor" são uns sete anos; para chegar à última graduação, em alguns grupos, vinte anos.

O método de Bimba eram as oito sequências de golpes e esquivas; e a "cintura desprezada" (sequência de balões onde o capoeira cai sempre em pé) - isto durava uns 10 minutos. Depois vinha o jogo ao som do incrível berimbau do Mestre. As duplas eram escolhidas (estrategicamente) por Bimba.

Hoje - partindo das inovações de Bimba -, o método sofisticou-se: temos ginástica de aquecimento e/ou alongamento; ginástica de malhação (flexões de braço; muitas abdominais, até 1.000 por aula, etc.); treino repetitivo de golpes e de sequências de golpes/esquivas (um só aluno, ou duplas como em Bimba); treino de saltos e acrobacias; treino de quedas (bandas, rasteiras, tesouras, vingativa, arrastão, etc.); aprendizado dos instrumentos musicais - toda esta parte, os "treinos" que em Bimba duravam 10 minutos, dura uma hora ou uma hora e meia. No final da aula, temos a roda, com berimbaus, pandeiro, atabaque, canto, palmas, etc. (esta parte dura de 30 a 45 minutos).


O trabalho de Bimba iria deslanchar, mais fortemente, quando, em 1936, aos 36 de idade, sagrou-se campeão baiano invicto, numa série de lutas de ringue.

Abreu, focalizou este período, estudando a performance de Bimba no ringue do Parque Odeon, em 1936:


Dois episódios foram propositadamente escolhidos para delimitar o princípio e o fim do período pesquisado. Começa em 29/8/1935 com o sururu Chicão x Pedro Porreta e termina quando da realização do 2º Congresso Afro-Brasileiro em Salvador de 11 a 20/1/1937.

Para a capoeira, os dois fatos têm sentido:

O amofinamento de Pedro Porreta (um imortal da capoeira, conhecido como símbolo da desordem e valentia), tomando porrada de Chicão, uma mulher, serve como sinal de recolhimento histórico dos valentões - capoeiras que fizeram nome e glória na Bahia durante as duas primeiras metades deste século (século XX). A esses "flores do mal", minhas homenagens. O tempo passava e outros nobres capoeiras ocupavam a cena principal. Agora era Bimba, Noronha, Maré, Aberrê, Pastinha e outros mestres na arte de civilizar - aqueles que vão refinar os usos e costumes da capoeira, indicar-lhe novas possibilidades, minar a resistência que a sociedade lhe fazia e vencer a sistemática perseguição policial.

O 2º Congresso Afro-Brasileiro foi considerado nos anos 1930 o mais importante acontecimento relacionado com o estudo sobre o negro brasileiro. Este evento aconteceu no momento histórico "em que os impulsos amortecidos e reprimidos do negro na Bahia começavam a se organizar através de diversos mecanismos e estratégias de resistência cultural e afirmação política". Para a capoeira, nesse Congresso, foi prevista a fundação da União dos Capoeiras da Bahia, que por razões desconhecidas não se concretizou. Mas, dentro da programação, ela se fez apresentar pelo "melhor grupo de capoeiras da Bahia"._176


Bimba tornou-se um herói metropolitano e aí começa a construção do mito.

Vejamos - novamente, nas lúcidas palavras de Fred Abreu - como, e em qual contexto, o (então) jovem mestre Bimba se tornou um ídolo em Salvador. Eis o cenário para o estrondoso sucesso de sua nova "Luta Regional Baiana" que, pouco depois, se tornaria conhecida como "capoeira regional".


Nos anos 30 deste século (sec.XX), a crônica baiana da capoeiragem registrou uma série de fatos importantes e transformadores. Mais intensivamente em 1936, quando na cidade da Bahia foram realizadas lutas de capoeira no ringue, nas quais brilhantemente Bimba (aos 36 anos de idade) sagrou-se campeão baiano - pretexto deste livreto. A opção (por este período) não se deu, exclusivamente, em função dos empolgantes lances pugilísticos por elas proporcionados, mas, sobretudo, por remeterem para assuntos mais abrangentes relacionados com a capoeira.

Acompanhando o noticiário dessas lutas, através dos principais jornais da capital baiana na época, seguiu-se a trilha de transformações que ocorriam no seio da capoeira, na Bahia, e das reações que a elas se sucediam. Bimba estava no eixo das transformações, por ter inventado a Luta Regional Baiana - iniciativa que (re)orientou o futuro da capoeiragem.

Esse momento explica-se melhor se (re)visto no curso da história do negro baiano (e brasileiro) nos anos 30 - marca registrada de grandes transformações na História do Brasil. Nesses anos as instituições afro-brasileiras, na Bahia, estavam em processo de expansão e de reatualização das suas estratégias de resistência cultural, sob o comando de grandes personalidades negras como Mãe Aninha, Martiniano do Bonfim e o jovem Mestre Bimba, além de outros, que com coragem e sabedoria lutavam para a afirmação social da sua cultura e do seu povo. O povo negro._168
Trata-se de uma verdadeira revolução na capoeira, não somente com Bimba e sua "Luta Regional Baiana"; mas também Pastinha e o "Centro Esportivo de Capoeira Angola", Noronha, Valdemar com seu barracão e seus berimbaus, e muitos outros. Sai o "valentão", entra o "educador"; sai a "malandragem" e entra o "esporte lúdico brasileiro".

Daí, as palavras de mestre Noronha, escolhidas para abrir este capítulo:


A capoeira veio da África trazida pelo africano todos nóis sabemos disco porem não era educada quem educor ella famos nois bahiano para sua defeiza pessoal (Mestre Noronha, 1909-1977)
No entanto, o "educador" Bimba era também uma verdadeira "enciclopédia da malandragem".
Apesar de lutador jamais vencido, Bimba era uma verdadeira enciclopédia da malandragem. Para surpresa daqueles que cultuam o mito do "valente invencível", Bimba custumava dizer: "quem aguenta tempestade é rochedo". Além disto era excepcional tocador de berimbau (inventou os toques para a capoeira regional); ogan de candomblé; um homem que conhecia profundamente e vivia intensamente o mundo afro-brasileiro._172
Mestre Jair Moura, pesquisador, escritor, cineasta, excelente capoeirista, respeitado por sua técnica, ex-aluno de Bimba, nos fala que:
Conforme declarações de seu autor (Bimba), (a capoeira regional) não se adaptava ao ringue, porque não obedecia às regras vigentes nas competições pugilísticas. Era mormente um instrumento ou meio de defesa pessoal. Os seus praticantes eram amadores vinculados a profissões que não tinham caráter esportivo. Bimba achava que era uma pugna para situações decisivas, na qual predominava o vale-tudo.

_

Apesar de ter declarado que a capoeira "não se adaptava ao ringue", Bimba ficou famoso - e daí o começo da fama da capoeira regional - durante uma série de lutas de ringue, em 1936 na cidade de Salvador, em que se sagrou campeão baiano invicto. E, não obstante todo sucesso que irá granjear em sua trajetória, em 1967 - aos 67 anos de idade, sete anos antes de sua morte -, Bimba continuava fiel a sua faceta de lutador e declarou (Esporte Jornal, Salvador, 13/3/1967):


Tive minha maior alegria em 1936, quando sagrei-me campeão invicto e a luta que demorou mais durou um minuto e meio. Lutei naquela ocasião com lutadores do quilate de Vitor Benedito, Henrique Bahia e Zeí. Este torneio jamais esquecerei.
E não era somente dentro do mundo fictício das lutas de ringue onde pontificava mestre Bimba como lutador invicto. Na vida real e nos ambientes nos quais vivia - estudantes das famílias abastadas mas também malandros, rufiões e policiais - Bimba era respeitado e... temido.
No entanto, na realidade dura das ruas, a coisa podia ser mesmo para valer. Por exemplo, a edição de 10 de agosto de 1936 de A Tarde registrava, sob o título "Não é fácil pegar um capoeirista...", a seguinte notícia:
"Esteve, hoje, em nossa redação o conhecido capoeirista "Mestre Bimba", que veio trazer a nosso conhecimento a agressão de que foi vítima, ontem, às 10 horasa e 10 minutos, na Ladeira da Vila América, no Engenho Velho. Disse-nos Mestre Bimba que uma turma de soldados da polícia, chefiada pelo guarda da Inspetoria de Veículos Lúcio de Tal, vulgo "Barra-Preta", praticava desatinos no local referido, quando, sem motivo, agrediu um rapaz. Mestre Bimba tentando tirar o rapaz das mãos dos desordeiros, foi agredido, só não sendo ferido a sabre porque usou de sua técnica de capoeirista, conseguindo safar-se."
Bem, isso foi o que saiu no jornal. O depoimento escrito do Doutor Ángelo Decânio, um dos mais antigos e ilustres alunos de Bimba, apresenta uma outra versão para o fato, "ouvida pessoalmente do Mestre". O que teria mesmo havido é que Lúcio Barra-Preta, também capoeirista, havia apostado uma soma considerável no adversário de Bimba, aparentemente Vitor Lopes, durante o campeonato de capoeira do Parque Odeon. Insatisfeito com o modo como acabou a luta e insatisfeito com o prejuízo, armou uma cilada para Mestre Bimba.
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