2 o jogo da capoeira



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"Descia Mestre Bimba do Engenho Velho pela Ladeira da Vila América, correndo com o chapéu de palhinha embaixo do braço, para pegar o último bonde de Amaralina, de regresso para casa. Estava atrasado, pelo enlevo de uma tijubinha de sua intimidade, feliz e descuidado, 'sin maginá', 'sin mardá' que o prejudicada lhe armara emboscada, em tentativa de desforra. Nas vizinhanças da casa de candomblé de çiríaco, surgiram da escuridão da tocaia os agressores, 'Seis! (...) sordádo di puliça (...) armádus di sábrí', chefiados pelo Cabo Barra-Preta que portava uma garrucha e foi parar de cabeça para baixo dentro de um tonel de lixo (,,,) sem a garrucha, naturalmente! 'Us sord ado ficáru espaiádu pelo chãu (...) Sem as baioneta (...) naturarmenti (...) A garrucha na minha mãu!" (SODRE, op.cit., 2002, pp.53-54)
No entanto, Bimba, apesar de lutador por natureza, apesar das lutas de 1936 que o tornaram um ídolo - trampolim que tornou a capoeira regional hegemônica em Salvador -, isto não impediu o velho mandingueiro de mudar bruscamente de estratégia uma década depois, em 1946, negando-se a enfrentar o desafiante Jaime Ferreira (praticante de jiu-jitsu) numa luta de ringue, quando a capoeira regional já havia se firmado na Bahia e no panorama da cultura negra.

Antonio Liberac Pires recorta esta mudança de estratégia: de "capoeira-luta" para "capoeira-cultura". Bimba continuou afirmando a excelência de sua regional como luta e defesa pessoal mas - novidade - no ringue "se tornnaria de uma ação bárbara que provavelmente provocaria a reação dos espectadores e intervenção da polícia".


Bimba (em 1936) teve o claro objetivo de fortalecer a capoeira no espaço das lutas marciais, desafiando outros lutadores de outras modalidades... No entanto, com o passar do tempo, mestre Bimba foi orientando seus discípulos a retirarem a capoeira do ringue. Se, nos anos trinta, o mestre teve como estratégia coloar a capoeira entre as lutas marciais vigentes na época, na década de quarenta, ele, em debate com outros lutadores, já não defendia a mesma opinião.

Jaime Ferreira, um exímio lutador de jiu-jitsu, em fevereiro de 1946, através de carta ao jornal A Tarde, resolveu desafiar para uma lota de ringue o mestre Bimba (então com 46 anos de idade)... (neste seu desafio) buscou desqualificá-la (a regional) enquanto luta... ataca seus praticantes como pessoas que não possuiam "coragem desportiva"... (Mestre Bimba) afirmou que a regional não era luta para ringue..."se subi nos ringues há onze anos atrás foi simplesmente para que ficasse estabelecida a diferença entre a capoeiragem propriamente dita e a luta que ensino (PIRES, op.cit. 2002, pp.42-45)


Dentro deste contexto - fim dos "valentões". começo do movimento negro -, surge o trabalho marcante de mestre Bimba.

A introdução dos golpes de lutas alienígenas - como a greco-romana, o box, e o jiujitsu - foi um ponto controvertido nas estratégias da construção da identidade de Bimba. Nas décadas de 1950 e 1960, era algo visto com bons olhos por muitos segmentos da população: significava "progresso", "modernidade", "tecnologia". Em nossos dias, já não é uma coisa "politicamente correta": atentaria contra a "tradição" e as "raízes".


Bira Almeida [Mestre Acordeon] explicou [em 1992] que está nos EEUU há dez anos, e que lá, para muitos, Bimba é considerado um elitista que fugiu às suas raízes. O que poderia ele [Bira] fazer para preservar a identidade de mestre Bimba como legítimo representante da cultura negra?

Muniz [Sodré] disse que a África que muitos negros norte-americanos idealizam não existe... "[eles precisam] aprender a transar melhor com Exú".181_


Alguns admiradores de Bimba perguntavam "onde Bimba poderia ter tido contato com lutas como o jiujitsu na Bahia da década de 1930"; e afirmavam que Bimba havia introduzido apenas os golpes do batuque aprendidos com seu pai, e outros golpes "de sua própria criatividade" . Foi somente com o livro de Esdras M. Santos182_, e a constatação da contribuição do aluno (de Bimba) Cisnando Lima - cearense que chegou a Salvador já conhecendo algumas técnicas de lutas estrangeiras -, que o assunto ficou esclarecido. No entanto, muitos alunos de Bimba não aceitam esta versão.

Cisnando Lima teve forte influência na trajetória de Bimba e da Regional, e não apenas no que se refere à introdução de novos golpes, conforme explicou mestre Decânio.


Cisnando Lima, apaixonado pelas artes marciais, veio para Salvador a fim de estudar medicina, trazendo o desejo de estudar capoeira, cantada em verso e prosa em sua terra natal [Ceará]. Aqui [Salvador] chegado, permaneceu na vizinhança do Interventor Ten. Juracy Montenegro Magalhães, a quem devemos a grande revolução social que reconheceu a cultura africana como legítima em todas as suas manifestações, especialmente a capoeira e o candomblé.

Cisnando, que privava da intimidade do Interventor Juracy Magalhães, de cuja guarda pessoal tomava parte, propiciou uma demonstração privada de capoeira de Bimba e seus alunos ["brancos" - a classe dominante, mais abastada, mesmo aqueles com tonalidades mais ou menos bronzeadas, no linguajar da classe menos privilegiada pela fortuna e pela instrução -, os "acadêmicos", e do "mato" - que não pertenciam à classe dominante e frequentavam a roda do Curuzú e posteriormente a da Roça do Lobo] que provocou a admiração, o respeito e a consideração da autoridade máxima de nosso estado pelo nosso Mestre e pela Capoeira, abrindo o caminho para a demonstração posterior para o Pres. Getúlio Vargas, a qual iniciou a fase final da integração da cultura africana em nosso país.183


Mestre Bimba e a Luta Regional Baiana firmaram-se em Salvador. De certa maneira, mestre Pastinha, que cantava "... todos podem aprender, general também doutor", seguiu uma rota paralela, como veremos no próximo capítulo.
(Em 1939) estava ensinando a sua capoeira regional no quartel do Centro de preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) do Exército. Em 1942, instalou a segunda academia, com seu método já consolidado. Em 23 de julho de 1953, voltou a exibir-se no Palácio do Governo (o governador, agora eleito, era o mesmo Juracy Magalhães) para o então presidente Getúlio Vargas, que então proclamou: "A capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional"... aquilo que, em 1934, Jorge Amado se empenhara em chamar, no I Congresso Afro-Brasileiro, de "cultura nacional popular". (SODRÉ, op.cit., 2002, p.67)
A partir das décadas de 1950/60, e da popularização pelo resto do Brasil, a regional de Bimba influenciou todo o cenário da capoeiragem até nossos dias.
O método de ensino, os novos golpes e a nova mentalidade, somados ao fato da maioria dos alunos de Bimba pertencerem à classe média, com outros valores (enquanto que a quase totalidade dos praticantes da capoeira tradicional pertencia às classes economicamente desfavorecidas, aferrados à cultura afro-brasileira), fez com que a regional de Bimba se diferenciasse muito da capoeira tradicional.

Tudo isto constituiu uma grande mudança para a capoeira da época, pois o aprendizado, até então, era feito por observação. Antes de Bimba não haviam "aulas de capoeira", como as de hoje em dia: o iniciante observava os jogadores na roda e ia aprendendo intuitivamente; vez por outra, fora da roda, o mestre ou um jogador mais experiente dava uma "dica" que ajudava o aprendiz._184


No entanto, isto não quer dizer que o ensino e a prática de Bimba estavam "desvinculadas das raízes afro-brasileiras" ou da "filosofia da malandragem" conforme insinuam alguns estudiosos "puristas" e capoeiristas de linhagens antagônicas a Bimba. Mestre Bimba era uma enciclopédia ambulante de malandragem - e, aí, entra o "saber (sabedoria) do corpo". Bimba foi mestre de capoeira, ogã de candomblé, educador, malandro e uma das últimas grandes personagens do "período heróico" da cultura negra baiana.
Bimba deixou uma "porta aberta" para seus alunos - que se tornaram, mais tarde, professores e mestres da capoeira regional -, e também para aqueles que, no futuro, optassem em seguir este estilo,

No panfleto que acompanhava seu disco LP, Curso de Capoeira Regional, poderíamos ler:


Depois de familiarizado com as diversas sequências apresentadas em nossas lições, o aluno poderá, em função da sua habilidade, criar novas coordenações de golpes e adaptar novas sequências, enriquecendo os seus treinos e contribuindo para o melhor aproveitamento pessoal.
No entanto, como a história tem mostrado - nos mais diversos setores, em diferentes países, e em momentos muito diversos -, é normal aos seguidores de um líder "engessarem" seus ensinamentos para enquadrá-lo numa grade mais estreita e menos abrangente.

É assim que, p.ex., os movimentos acrobáticos e espetaculares são criticados e desqualificados por muitos - regionais e angoleiros -, quando, na verdade, Bimba admirava aqueles que os dominavam, como, p.ex., Bentinho, mestre de Bimba.


Segundo consta, (Bentinho) era desses capoeiristas capazes de "dar um salto mortal na boca de uma caixa de cebola", como relata Decânio, citando Bimba: "Dá um sárto mortá na boca dum caixãu di cebola!". Era gente da mesma estirpe de Besouro Mangangá que seria capaz de "sartá di costa i caí de vórta dentru dus chinélu!" (SODRÉ, op.cit., 2002, p.36)
A criação da regional foi vista com reticência por muitos estudiosos, artistas e escritores, sem falar dos praticantes dos outros estilos mais "tradicionais", que ficaram conhecidos como "capoeira angola". Isto deveu-se, em parte, aos "golpes alienígenos".

Mas deveu-se também - o antagonismo por parte de vários estudiosos e intelectuais - aos jovens capoeiristas regionais, "porradeiros" da classe média. Muniz Sodré traça o perfil destes jovens, de outra classe social - outra novidade, pois anteriormente, na Bahia, o capoeirista provinha das classes economicamente desfavorecidas -, que Bimba atraiu, ou foram atraídos, para a capoeira regional.


Neste contexto, era conspícua a demarcação simbólica dos territórios. Para um jovem, circular pela diversidade dos bairros - logo, transpor as fronteiras da vicinalidade - implicava táticas hábeis de camaradagem ou então boa técnica de "porrada". O desforço físico, a disposição para "sair na mão" faziam parte, na verdade, de uma estratégia de comunicação interzonal, cujo requisito básico era a capacidade do pretendente de afirmar-se como "guerreiro" de um bairro, representante de um fragmento identitário da cidade em busca de troca ou circulação de valores.

Aqui é preciso entender "porrada" como uma categoria antropológica, relativa à formação de uma identidade viril por parte de jovens e adultos.

Como nos combates andinos ou na violência das "galeras", a porrada urbana de outrora era uma experiência ritualística de gente em geral clara de pele e bem integrada na sociedade global dominante. Não era de modo algum o mesmo que o afrontamento mortífero dos antigos capoeiristas, a prática sem regras da "mardade", em que valiam tanto os pés e mãos quanto o cacete, cucumbu (faca velha e sem cabo) e navalha.

Foi esse tipo de jovem que Bimba buscou como clientela da sua academia, isto é, como alunos de seu novo estilo de luta, uma capoeira mais civilizada em termos desportivos, embora violenta em sua técnica - que ele chamou de regional. Para conseguir seu intento, teve de ser "salomonicamente" esperto, de incorporar sabiamente à capoeira antiga (batuque mais estilos variados que acabaram recebendo a designação de "angola") elementos exógenos, oriundos da sociedade dominante. (SODRÉ, op.cit., 2002, pp.61-62)


A antipatia de vários artistas intelectuais pela regional também tinha a ver com Bimba ensinar no CPOR do Exército; à familiaridade com o governador Juracy Magalhães; à própria personalidade de Bimba. Escritores como Jorge Amado, artistas como Carybé, intelectuais de esquerda, etc., preferiam reverenciar mestre Pastinha com sua capoeira angola que, já nos anos 1950, ficou conhecida como "tradicional, pura, autêntica".
Mesmo assim, nos anos seguintes Bimba teve grande sucesso. Em 1949, foi ao Rio e a São Paulo com seus alunos e realizou uma série de lutas com lutadores de outras modalidades.

As lutas tipo "vale-tudo", em 1949, contra lutadores do Rio e São Paulo, eram parte do mito de invencibilidade cultivado por muitos admiradores de Bimba. Em contraste, a postura de Bimba era muito diversa: uma vez, um repórter encostou uma caneta em sua cabeça e perguntou: "Mestre, o que o senhor faria se fosse um revólver?". Resposta do gigante negro: "Eu morria, meu filho".


Ele (Bimba) não acreditava em valentes absolutos, escutava com cara de malícia, quando escutava, as bazófias de bravura dos jovens campeões em tudo. Raramente prestava-se a contar uma história pessoal de briga na rua e aceitava mesmo a possibilidade decorrer se a "parada fosse dura demais, sentenciando que "quem aguenta tempestade é rochedo.

Nada aqui da onipotência anglo-saxIonica quanto à técnica de um esporte, mas tudo a ver com o sentido de oportunidade dos irônicos, ou com a malícia corajosa do não-agir. Com Bimba, desfiz todas minhas ilusões adolescentes de onipotência. Físicas e outras. (SODRÉ, op.cit., 2002, pp.18-19)

Esdras dos Santos, mestre Damião, participou da viagem e das competições em São Paulo e no Rio, em 1949, esclareceu185 o assunto_ apesar da relutância de muitos de seus colegas que cultuavam o mito da invencibilidade da regional..

Quando Bimba chegou a São Paulo, Kid Jofre - empresário das lutas e pai do futuro campeão mundial de boxe, Éder Jofre - explicou como as lutas "deveriam decorrer" para atrair ainda mais espectadores aos "espetáculos". Bimba, irritado, não concordou mas no contrato rezava que seriam realizadas "lutas-espetáculo". Bimba voltou, agastado, à Bahia, e seus alunos realizaram as lutas combinadas, "vencendo" o torneio em São Paulo.

No Rio, no entanto, a coisa foi "à vera". Os alunos de Bimba, confrontando os lutadores Piragibe e Hugo Melo, da Luta Livre, venceram ambos os combates; mas com os capoeiristas cariocas alunos de Sinhozinho, Luiz "Ciranda" Aguiar e Rudolf Hermany, perderam ambas as lutas.
... iria haver um confronto sério entre a Capoeira e a Luta Livre. O desafiante era o Piragibe, um dos melhores lutadores de Luta Livre do Rio de Janeiro. E o capoeirista escolhido para enfrentá-lo era o Clarindo... (Piragibe) atirou-se repentinamente sobre o Clarindo, tentando abraçar suas pernas um pouco acima dos joelhos, objetivando derrubá-lo e montá-lo. Nesse instante, Clarindo, numa sincronização perfeita de movimentos, abriu com seus dois braços a guarda do adversário ao mesmo tempo em que lhe desferiu uma violenta e certeira joelhada bem no meio da cara.186_
É surpreendente que o aluno de Bimba, Clarindo, tenha vencido as duas lutas contra os lutadores de Luta Livre, Piragibe e Hugo Melo. Existia uma longa experiência e tradição, no Rio, de lutas-de-ringue entre diferentes artes marciais que, naquela época, não se encontrava no resto do país. É verdade que muito ocasionalmente, como em Salvador em 1936, aconteciam torneios deste tipo em outras cidades; mas era coisa rara, não havia uma prática constante, nem havia a experiência que remontava a um século, como no Rio.

A capoeira de Sinhô, assim como, p.ex., o jiu-jitsu da família Gracie - que hoje, século XXI, é hegemônico nos violentos torneios de vale-tudo, com alta premiação em dinheiro, no Japão e Estados Unidos -, tinham informações e técnicas de treino que remontavam do combate entre Manduca da Praia e Santana, o gigante português (circa 1870); o negro Ciríaco contra Sada Miako, o campeão Japonês de jiu-jitsu (1912), etc. Comparado com os atletas cariocas, os lutadores baianos da regional eram "amadores" com muito pouca experiência, no que se referia às lutas-de-ringue. À surpresa causada pela duas vitórias de Clarindo, seguiram-se as esperadas duas derrota: uma contra "Ciranda", famoso lutador profissional e temido porradeiro de rua; a outra, contra o jovem Rudolf Hermany, um educado gentleman completamente dedicado às artes marciais que, mais tarde, seria campeão pan-americano de judô.


Muniz Sodré comenta as várias "versões" e as diferentes tentativas de "dar" uma identidade específica à mestre Bimba.
Para Nietzcche, não há fatos, tão-só versões ou interpretações. Entenda-se; não há o fato em si, é preciso que alguém dê um sentido, interprete, para que ele se produza. Entre os que conheceram Bimba de perto há quem opte por despolitiza-lo completamente, atribuindo a determinados discípulos as versões quanto às suas incursões ideológicas.

E´compreensível. Política é lugar de controvérsias, dissensões, desesperança; não é matéria que se preste com facilidade à transvaloração mitológica. Outros optam por desconhecer, ou passar por cima, de suas vinculações com o candomblé. (SODRÉ, op.cit., 2002, pp. 20-21)


O candomblé tinha peso importante na vida de Bimba, assim como para a maioria dos capoeiras daquela época. A visão cosmogônica, ritualística, era parte intrínseca de sua maneira de ser, em oposição ao enfoque racional/materialista de nossa sociedade ocidental.
Bimba era ogã-alabê (ogã encarregado do atabaque) em candomblé-de-caboclo. É bastante possível, aliás, que o fato de pertencer a este universo tenha facilitado a primeira exibição de capoeira num palácio do governo, em 1937. É que se sabe das ligações do então interventor Juracy Magalhães e o Bate-Folha, candomblé da linha congo, zelador de caboclos, liderado pelo famoso babalorixá Bernardino. Conta-se mesmo que Juracy seria ogã do Bate-Folha.

A Decânio (um de seus mais antigos alunos, doutor em medicina e acupunturista, public relations e braço-direito do Mestre, por anos a fio, na estruturação do disurso da regional), Bimba disse certa vez que "o candomblé-de-caboclo é mais forte que o africano, porque trabalha com as raízes, e os negros trabalham com as folhas, acrescentando: "É fácil! As raízes estão dentro da terra! As folhas estão fora da terra!" Como já foi dito, dona Maria Martinha do Bonfim, a mãe de Bimba, descendia de indígenas do Recôncavo. E a entidade por ele cultuada era o caboclo Cinco Penas.

Sua cabeça, porém, foi cosmologicamente escolhida por Xangô, com "juntó" de Iemanjá. Ser de Xangô e Iemanjá significa que seu axé (a força que lhe assegura a existência e impulsiona seu destino, permitindo-lhe realizar coisas no mundo) tem a ver com os princípios do vermelho (o fogo) e do branco (paternidade, como a de Oxalá), mas também, do lado de Iemanjá, com o movimento das águas nos mares e oceanos. Axé é força que se acumula, se distribui e se perde. Para evitar a perda e o desequilíbrio, é preciso conhecer o caminho, manter o respeito, cumprir o preceito e guardar o segredo.

Bimba tinha 14 anos quando despertou para esse lado forte da herança negro-brasileira. Até os 20 anos foi ligado ao candomblé do senhor Vidal (que não mais existe, um terreiro da nação keto situado no bairro do Engenho Velho de Brotas). Ali tornou-se ogã que, como bem sabem os iniciados, é um título honorífico outorgado a pessoas capazes de pretar serviços relevantes ao culto, desde funções sociais até religiosas. Depois de uma desavença, desligou-se do terreiro e desistiu de ocupar funções marcadas em candomblés, dedicando-se apenas à capoeira. Não deixaria, nunca, entretanto, de cumprir as suas obrigações junto a Xangô. (SODRÉ, op.cit., 2002, pp. 93-94)


Muniz Sodré discursa brilhantemente sobre a importância vital do candomblé na vida de Bimba, na criacão de sua capoeira regional, em sua atuação política, e vida sexual/sensual - outro aspecto que ficou em branco no depoimento de vários de seus cronistas.
Mãe Alice não esconde: "Bimba era homem de muitas mulheres, e sem maiores esforços, porque era muito bom amante". Sem contar as inúmeras aventuras e flertes, ela afirma ter sido a vigésima primeira mulher dele. Isto significa que foi a de númro 21 das que viveram ou tiveram uma ligação mais forte com ele. Era muito ciumento de todas, principalmente dela, filha de Iansã com juntó de Obaluaiê com Oxum, que ele chamava carinhosamente de Liu. Costumava gastar tudo que ganhava com suas mulheres, às quais dava presentes, e fazia questão de vestí-las muito bem...

Na vida de Bimba, houve gente de Ogum, de Nanã, mas as mulheres de Oxum foram maioria. Ele costumava fugir (e fazia questão de dizer) das mulheres de Iansã. Alice foi a exceção. E quando brigavam, ele bradava: "Taí o que eu estou procurando para a minha vida: ficar casado com mulher se Iansã. É o tipo de mulher que eu não gosto". Mas como filho de Xangô, ele a respeitava e temia - afinal Iansã, divindade dos ventos, é aquela que traz, mas também apaga o fogo. Ela lhe perdoava as infidelidades, fingia que não enxergava o que via e cuidava dele, das suas doenças. Foi assim até ele morrer.

Em contrapartida, ele respeitava o candomblé dela, pois quando gostava de uma moça de terreiro, acertava tudo fora do recinto, discretamente, manhosamente, como se estivesse no jogo de angola. Ela só ficava sabendo quando percebia que essas mulheres se afastavam de seu convívio. Mesmo assim ele teve algumas "comboças"; isto é, mulheres que frequentavam a casa dela, dizendo-se amigas, mas agindo na surdina, como capoeira antigo, "bicho farso".

Lembro-me de uma comadre, que morou algum tempo nacasa dela. Ao descobrir a surdina, soube que o caso já existia há muito tempo. Diz que deu nela uma tremenda surra, como fazia nessas eventualidades. Ele não gostava, mas não interfiria na surra...

É... mas a coisa não fica por aí. Bimba apreciava de fato, com intensidade e diversidade, o que ele chamava (aliás só ele, nunca ouvi a expressão da boca de ninguém mais) de tijubinas, batismo carinhoso do sexo oposto. E, descendentes, para um verdadeiro cultor dos orixás, são uma prova de continuidade e potência"

(SODRÉ, op.cit., 2002, pp. 96-98)


Quanto à política, no texto abaixo fica claro a atuação capoeirística do Mestre - jogar com e contra, simultaneamente; o outro é parceiro e adversário. Além disso, pode-se entrever todo uma teia de conversas, afirmações e controvérsias, colocações, nas diferentes tentativas da construção da identidade do ídolo.
O aspecto criativo e renovador de Xangô presidiu não apenas à capoeira de Bimba, mas também ao seu relacionamento com o poder instituído. Seu lado "Balduíno" (o agitador político do romance Jubiabá, de Jorge Amado) era forte, embora pouco documentado (não há registros escritos de sua participação em greves do cais do porto). Na verdade, ele era radicalmente avesso a qualquer forma de injustiça social, e se disso não falava muito, deixava entrever o que sentia em forma de tiradas trônicas e por seu comportamento junto à comunidade em que vivia...

Vinha daí sua velada simpatia pelo discurso da militância, inclusive dos comunistas. Não há prova de que ele mesmo tenha sido membro do Partido Comunista. Mas são fortes as evidências de que tenha abrigado reuniões do partido em sua sede de capoeira no Nordeste de Amaralina, assim como de que tenha sempre atuado naquele bairro de negros e pobres como cabo eleitoral de candidatos dessa linha.

Certo, já ouvi de um antigo discípulo de Bimba o comentário de que toda essa história de participação política seria uma invenção de outro discípulo, comprometido com o PC. Mas posso narrar um pequeno episódio de que fui testemunha e do qual dou plena fé. Numa das manhãs seguintes ao movimento militar de 1964, encontrei o mestre na academia do Terreiro de Jesus visivelmente preocupado. Disse-me: "É, Americano, dizem que Fulano de Tal pertence aos 'homens'; será que vão me prender?"

"Fulano de Tal" era um antigo discípulo, que se revelava agora agente de informações. Evito declinar seu nome, por pudor e por considerar desnecessário expô-lo formalmente, já que nunca houve qualquer denúncia pública de sua vinculação a atos de violência contra presos políticos. Sei também quanto ele gostava do Mestre. A este, limitei-me a responder: "Ele o respeita Mestre, todos o respeitam. Não vai haver nada."

E não houve. Mas para mim ficou claro que Mestre Bimba considerava-se alvo virtual da repressão político-militar, que entre eles e os "homens" havia um abismo ético.(SODRÉ, op.cit., 2002, pp. 99-100)
Foi Jair Moura quem finalmente elucidou a questão: "Eu (Jair) era do comitê municipal do partido (comunista) e tinha sido encarregado de reestruturar uma célula operárianno alto do Barana, que estava esfacelada. Muitos componentes dessa célula eram capoeiristas, e quando ia lá, aos domingos, o papo rolava entre a capoeira e os objetivos do partido. Então, em 1963, veio a campanha de legalização do PC e fiquei encarregado de levar esta campanha às bases operárias. Ora, eu já sabia que Bimba era um simpatizante desde 1945, quando o partido estava na ilegalidade, e Aquiles Gadelha - que atuava no movimento estudantil e colaborava com O Momento (jornal oficial do PC) - era aluno de Bimba, publicaram-se, inclusive, inúmeras matérias sobre Bimba em O Momento. Consegui, então, que a sede de Bimba se tornasse a sede de inscrição dos simpatizantes que desejassem a legalização. Levei inúmeros companheiros até lá para um bate-papo ou uma palestra: Fernando Santana, Mário Alves, Marighela, etc."

A partir destas informações poderíamos até elaborar um novo enfoque dos objetivos, das motivações e da obra de mestre Bimba, em especial se nos lembrarmos, p.ex., do "curso de especialização", "verdadeiro treinamento de guerilha", nas palavras de César "Itapoã". Mas Jair Moura nos afirmou que "este curso era fruto das reminiscências de adolescência de Bimba, quando se jogava capoeira oculto no matagal, e tem também um entrelaçamento com a própria história do negro que quando fugia se refugiava no matagal - o 'curso de especialização' não tinha nenhuma conecção direta com as simpatias de Bimba pelo Partido Comunista". (CAPOEIRA, N., op.cit., 1992, pp.97-98)


... é significante um pequeno incidente narrado por Nenel (um dos filhos de mestre Bimba), por ocasião de uma apresentação de Bimba com seu grupo em Goiânia em 1974 , no auge da ditadura militar, quando apenas se sussuravam os casos de tortura e assassinatos de militantes políticos. A exibição de capoeira era parte de um evento oficial, a que se fazia presente o general-presidente da República. Findo o ato, Bimba já se retirava quando alguém da comitiva oficial o chamou pelo nome. Fingindo não ter ouvido, ele continuou a andar, e ante o aviso de Mãe Alice de que "a gente do presidente está lhe chamando", o Mestre, sem se deter, decretou: "Deixe esse filho da puta vir atrás de mim". (SODRÉ, op.cit., 2002, p.100)
Bimba fez várias viagens e apresentações pelo Brasil mas, na década de 1970, desgostoso, mudou-se de Salvador para Goiânia: "Não voltarei mais, aqui nunca fui lembrado pelos poderes públicos, se não gozar de nada em Goiânia, vou gozar de seu cemitério". Um ano depois, em 1974 - no mesmo ano do incidente relatado, pouco atrás -, faleceu em Goiânia, aos 74 anos de idade. Alguns de seus antigos alunos trasladaram seu corpo de volta para a Bahia.
Diz conhecida chula de capoeira, celebrando o famigerado capoeirista e faquista Besouro Cordão-de Ouro, assassinado nas primeiras décads de 1900:

"E ainda depois de morto,

Sou Besouro Cordão-de-Ouro!"
É que o mito sobrevive à pessoa humana.

Assim foi também com Manuel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, meu - e de todos capoeiristas - Ancestral Mitológico, campeão baiano invicto de luta, criador da capoeira regional que mudou definitivamente os rumos da capoeiragem, a maior figura e mito da história da capoeira de todos os tempos, um dos últimos representantes do período heróico da cultura negra baiana.


A partir daquele dia, o Mestre - cujos restos mortais foram trasladados para Salvador em julho de 1978 e hoje se encontram na igreja do Carmo, no Pelourinho - passou a mostrar-se em ocasiões penosas. Era visto às vezes sob o pinheiro; noutras, aparecia no interior da casa, ocupando sua poltrona predileta. O fenômeno acabou chegando à redação de um diário local.

Relato a história tal como me foi contada. Abro mão de qualquer juízo sobre a mesma, mas permito-me repetir uma afirmação anterior, no sentido de que a memória, coletiva ou individual, é usina movida a sonhos, fantasmas e mitos. (SODRÉ, op.cit., 2002, p. 102)
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