2 o jogo da capoeira



Baixar 0.64 Mb.
Página2/12
Encontro27.07.2016
Tamanho0.64 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12

Como se vê, as datas são posteriores a 1814, quando começam os primeiros editais reprimindo as mais diversas manifestações negras - e não apenas a capoeira, conforme havíamos argumentado.


Aliás é digno nota: já na primeira metade dos 1800s, que os escravos não se intimidavam com a repressão e perseguição policial - muito ao contrário -, de certa forma já eram os "donos das ruas". Esta situação ficara ainda mais evidente na segunda metade do século.

2.1.1.3 - O N'GOLO AFRICANO SERIA A CAPOEIRA BRASILEIRA


Dizem que teoria do N'golo - que seria a capoeira já existente na África -, apresentada por Câmara Cascudo em 1967, foi adotada por mestre Pastinha, pois era uma espécie de extensão das idéias do velho e respeitado mestre:
Não há dúvidas de que a capoeira veio para o Brasil com os escravos africanos. Era uma forma de luta apresentando características próprias que conserva até nossos dias... O nome "capoeira angola" é conseqüência de terem sido os escravos angolanos, na Bahia, os que mais se destacaram na sua prática.52_
Em seu livro, de 1964 (portanto anterior ao de Cascudo, de 1967), mestre Pastinha não se refere ao N'golo, mas apenas aos "escravos angolanos". Mais tarde, no entanto, segundo o depoimento de vários de seus alunos, ele incluiria elementos iguais aos da teoria de Cascudo em seu discurso.

É possível Pastinha ter conhecido a teoria de Cascudo através um dos muitos artistas e "intelectuais" que freqüentavam sua academia na década de 1960, como Jorge Amado, Carybé e outros.


Por outro lado, a afirmação de Pastinha, segundo a qual a capoeira apresentava características próprias (na África, nos tempos da escravidão) "que conserva até os dias de hoje (no Brasil, de 1964)", entra em choque com uma descrição e um desenho (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 1) de Rugendas, de 1824, onde dois negros jogam ao som de um atabaque. Em especial, se compararmos a descrição de 1824 com a capoeira praticada por Pastinha, onde "os golpes mais perigosos são aplicados com os pés"53_, o berimbau existe como "instrumento principal e indispensável"54_, a importância do floreio e do ritual específico eram salientados, etc.

Eis a descrição da capoeira vista por Rugendas, por volta de 1824, em choque com as afirmações de mestre Pastinha, de 1964:


Os negros tem ainda um outro folguedo guerreiro muito mais violento, a capoeira: dois campeões se precipitam um sobre o outro procurando dar com a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar. Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmente hábeis; mas lançando-se um contra o outro mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem-se fortemente cabeça contra cabeça, o que faz com que a brincadeira não raro degenere em briga e que as facas entrem em jogo ensangüentando-a.55_
Por outro lado em seus manuscritos, concluídos um pouco antes de 1960 e que ainda não foram publicados - creio que, via Carybé, ainda estão com o Dr. Angelo Decânio (curiosamente, o braço direito de mestre Bimba durante muitos anos) -, de estilo radicalmente diverso de seu livro de 1964 - o que leva a supor ter sido escrito, ou fortemente editado, por um de seus alunos ou amigos -, Pastinha também não menciona o N'Golo uma única vez e afirma (pp. 13b e 14a):
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Grupos de capoeira com origens nos alunos - hoje, mestres - de Pastinha, adotaram como símbolo duas zebras coloridas de preto-e-amarelo - lembrando justamente o N'Golo, a dança das zebras (apesar das zebras estarem mais para preto-e-branco). As cores da academia de Pastinha também eram preto e amarelo. Mas os "angoleiros" contemporâneos não mencionam que este preto-e-amarelo adotados por mestre Pastinha pouco tinham a ver com manifestações culturais da África.

Na década de 1960, e iniciante em capoeira, fui visitar mestre Pastinha pela primeira vez em sua academia no antigo (e ainda não reformado e clean) Largo do Pelourinho em Salvador. Fiquei muito impressionado com a enorme bandeira preto-e-amarelo pendurada na parede. Tímido e emocionado com a amistosa e cordial recepção do venerando mestre, encontrei coragem para perguntar:

"Mestre, estas cores, preto-e-amarelo, tem algo a ver com algum orixá do candomblé?"

Mestre Pastinha riu de minha curiosidade de iniciante purista e candidamente respondeu:

"Não, meu filho, é que eu torço pelo Ypiranga Futebol Clube."
Muitos alunos de mestre Pastinha, alunos de seus alunos, e também a terceira geração, dizem que Pastinha recebeu esta informação - do N'Golo africano ser a capoeira - diretamente, por via oral, de seus antecessores.

Desta maneira, a teoria do N'Golo teria tudo para ser aceita, uma vez que nos chega através um eminente estudioso - Cascudo -, e pela tradição oral de um eminente mestre. O que poucos sabem, mas que é apontado por Moura, é que Cascudo baseou toda sua teoria em apenas um trabalho de Neves e Souza56_, de Luanda, onde o pesquisador descreve os Mucupe, a Efundula, ou Mufico, o N'Golo, e mais:


o rapaz vencedor do N'Golo tem o direito de escolher esposa entre as novas iniciadas e sem pagar o dote esponsálico. O N'Golo é a capoeira... Os escravos das tribos do sul que foram aí (ao Brasil) através do entreposto de Benguela levaram a tradição da luta de pés... Outra das razões que me levam a atribuir a origem da Capoeira ao N'Golo é que no Brasil é costume dos malandros tocarem um instrumento chamado de Berimbau e que nós chamamos hungu ou m'bolumbumba, conforme os lugares e que é tipicamente pastoril, instrumento este que segue os povos pastoris até a Swazilândia, na costa oriental da África._57
Então, a "tradição oral que Pastinha recebeu de seus antecessores" se baseia muito provavelmente na teoria de Câmara Cascudo, de 1967. Esta, por sua vez, se baseia apenas no trabalho de Albano Neves e Souza - Da minha África e do Brasil que eu vi. E apesar de Waldeloir Rego58_, em 1968, pedir uma confirmação para esta "estranha tese", nunca houve confirmação de nenhuma espécie: nem encontrou-se o N'Golo ou o que restava dele, na África - apesar de podermos encontrar lutas e danças com movimentos semelhantes aos da capoeira -, nem nenhuma outra fonte, independente e diversa, o menciona.

Por isto pensamos que se o N'Golo existiu, foi uma das lutas (usando os pés, segundo Neves e Souza) que se juntaram à primitiva capoeira de cabeçadas "semelhante à dos bodes", descrita por Rugendas em 1824, para formar a capoeira contemporânea.


Em termos de estratégias de interação com os poderes hegemônicos, a idéia de que "capoeira é o N'Golo africano" é defendida, hoje em dia, por um segmento de "neo-angoleiros" - que se caracterizam como "legítimos representantes" da capoeira angola "tradicional" praticada por Pastinha, em cujo discurso e praxis encontra-se presente a luta contra o racismo e o preconceito, com assimilação de estratégias norte-americanas desde o "black is beautiful" até o "return to mother Africa".

Por outro lado, esta teoria também é defendida por segmentos de capoeiristas norte-americanos negros que desejam fazer uma ponte direta "EEUU-África", eliminando o papel do Brasil no desenvolvimento do jogo.


No entanto, é importante resaltar que existem lutas - "primas" da capoeira - com raízes na africanidade em outros paises colonizados pela diáspora africana: o mani oubombosa em Cuba; a alagya na Martinica.

E apesar de nossas dúvidas sobre o N'Golo, não podemos deixar de citar (ver Soares, Negregada Instituição, RJ, Sec. Mun. de Cultura, 1994, p.24) outras lutas angolanas como a bássula - "luta de pescadores da região de Luanda" - e o umudinho, cultivado pelos quilenges e observado pelo viajante portugues Augusto Bastos no início dos 1900s.

Para mim, as danças marciais do Caribe seriam as "primas" da capoeira; as de Angola seriam as "tias", pois penso que a capoeira foi criada no Brasil (pelos africanos e/ou descendentes). No entanto, realmente nada impede outros pesquisadores pensarem que a bássula ou o umudinho possam ser, não a "tia", mas a "mãe".

2.1.1.4 - NASCEU EM PALMARES E ESPALHOU-SE PELO BRASIL


Também existe a teoria da origem da capoeira nos quilombos, às vezes mencionando especificamente o de Palmares e afirmando que Zumbi era um perigoso capoeirista. Já propuseram Zumbi como o patrono da capoeira.

Esta teoria não era popular entre os capoeiristas quando fui iniciado, no princípio da década de 1960. No entanto já havia sido esboçada por Macedo Soares (Dicionário brasileiro da língua portuguesa, 1889 )- "... capoeira não seria sinônimo de 'negro fugido', 'cahambora', 'quilombola'?" -: Feijó Jr. (1925) - "a capoeira, instituição genuinamente carioca (nosso grifo), nasceu de uma forma original. Os escravos impiedosamente tratados por seus senhores, fugiam para as montanhas, em cujas fraldas formavam núcleos poderosos que denominavam quilombos" -; e, mais recentemente, Almir das Areias - XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX.


Apesar disto esta teoria - a origem da capoeira nos quilombos - só começou a se tornar realmente popular no final da década de 1970, e mais fortemente na década de 1980, com o movimento da valorização do negro e da afirmação de Zumbi como legítimo herói brasileiro.

O que havia, na década de 1960, de mais parecido com a teoria da origem nos quilombos, era dizer que o nome "capoeira" provinha do fato de os escravos fujões procurarem a capoeira - mato ralo que cresceu onde o antigo mato foi queimado - quando se sentia perseguido pelo capitão-do-mato. Era na capoeira, onde havia mais espaço para aplicar seus golpes, que o escravo capoeirista enfrentaria o capitão-do-mato.

A teoria não levava em conta o capitão-do-mato vir montado a cavalo e armado de espingarda e pistola, como vemos (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 3) em outro desenho de Rugendas59_ - "Capitão do mato" -; e o escrava fujão, quando muito, possuir como arma uma faca ou facão. Este fato já havia sido apontado, e ironizado, por Adolfo Morales Filho no jornal Rio Esportivo (1926) e recentmente por mestre Ubirajara "Acordeon" de Almeida em seu Capoeira, a Brazilian Art Form (1986).
Significativo é o vocábulo "capoeira" ter sido muito discutido quanto a suas origens60_.

Muitas teses - José de Alencar, Macedo Soares, etc. - referiam-se às origens tupis ou guaranis do vocábulo - por exemplo, "mato ralo que cresceu onde o antigo mato foi queimado" - para uma atividade tipicamente de afro-descendentes. Talvez isto possa ser explicado pela ocorrência de processos similares ao do pacto social de 1822 - entre os brasileiros ricos e os portugueses que decidiram ficar no Brasil depois da Independência -, dando um "novo rosto" ao Brasil - um rosto caboclo. O índio, que estava lá longe e sendo dizimado, foi incluído simbolicamente; o negro, ali presente, foi deixado de fora.


Existem, ainda, outras curiosas "contribuições": usam-se mais os pés (na capoeira) porque os escravos "treinavam" com as mãos acorrentadas; no estilo "tradicional" angola joga-se muito "no chão" (movimentando-se rente ao solo) porque o teto das senzalas era muito baixo, etc.

2.1.1.5 - ORIGENS: UMA NOVA PROPOSTA


Vemos e lemos, nos 1820s e 1830s, descrições e gravuras de Rugendas, desenhos de Debret61_ - (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 2) um cego tocando berimbau, "negros volteadores" aos saltos mortais e cabriolas à frente de um enterro -, e em outras fontes recentes como Muniz Sodré62_ - "os haússas eram grandes brigadores com as pernas"; existe "um canto para Ogum, 'Ogum ti no ja, tapa tapa, mawaê', que significa 'Ogum que briga com as pernas, não chegue' " .

Além disto, em 1822 temos uma aquarela do inglês Augustus Earle - Negros lutando - onde um negro da um golpe com a sola do pé - a benção ou chapa-de-frente, um golpe clássico até mesmo em nossos dias - em outro enquanto, ao fundo, um soldado da Guarda Real, com seu fuzil e bigodões à Pedro I, pula um muro com a nítida intenção de disciplinar os arruaceiros.


Estas informações demonstram que - acrobacias, golpes de pé e o berimbau - os elementos inexistentes na capoeira descrita por Rugendas em 1824 - de "cabeçadas semelhantes às dos bodes" - já existiam no Brasil no começo dos 1800s, entre os africanos e seus descendentes, mas alguns destes elementos estavam dissociados da capoeira. Quase 150 anos depois, em 1964 (publicação do livro de Pastinha), já tinham sido assimilados pela capoeira baiana,

A nosso ver, estes movimentos e características, assim como uma "filosofia" prática de vida que transbordava da roda de capoeira para o dia-a-dia - a "malícia" -, foram incorporados na Bahia entre 1820 (descrições e desenhos de Rugendas e Debret) e 1900. Em 1920 já existia a geração dos "valentões" e desordeiros, descrita por mestre Noronha (XXXXXXXXXXXXXX), que já jogavam na roda com elementos semelhates aos de hoje; e mestre Pastinha e mestre Bimba já praticavam a capoeira (Pastinha com 31 anos de idade e Bimba com 20).


Esta mistura ocorreu na Bahia.

As capoeiras de Recife e Rio de Janeiro - os dois outros centros onde a capoeira também era praticada -, persistiram apenas com o aspecto de luta e foram desbaratadas pela perseguição policial na passagem para o século XX. A capoeira pernambucana deixou de herança o "passo", dançado ao som do frevo; a carioca nos deixou o malandro.

Soares tem um enfoque algo semelhante (op.cit., 2001, p.144):
A busca das raízes africanas da capoeira não é simples, pois acreditamos que diversas práticas ancestrais entraram em sua gênese, o que obriga a um vasto levantamento etnográfico do mapa cultural africano.
Pensamos que esta fusão, na Bahia e não no Rio e em Recife, além de materializar um arquétipo africano de dança-jogo-luta/filosofia-prática-de-vida, seguia uma certa tendência geral de outras manifestações culturais negras de Salvador:
as lutas, danças , ritmos e instrumento musicais - de diferentes etnias africanas -, não se fundiram para "escapar às proibições e iludir os senhores brancos", esta síntese se deu - após 1830 - seguindo uma tendência geral da comunidade negra, onde a luta armada, impossível de vencer, foi substituída por uma conquista de espaço e território através da cultura. O jogo de capoeira não teve uma matriz e um centro irradiador único, mas brotou espontaneamente e de formas diferenciadas em diferentes locais - materializando no Brasil, entre 1820 e 1920, um determinado arquétipo.63_
A capoeira passaria, então, de arma física embutida no corpo do lutador para arma cultural embutida no corpo da comunidade.
Esta "tendência geral", onde a cultura substituiu a luta armada e os cultos negros (na Bahia) começam a ser praticados abertamente apesar das perseguições policiais, é uma reviravolta interessante.

Várias conversas com Muniz Sodré, capítulo de um livro de 199264_, enfocam esta mudança de estratégia da comunidade negra baiana, por volta de 1830. Mudança liderada em grande parte pelas mães-de-santo, figuras eminentes daquela comunidade:


Aí estão os fatores de ordem histórica que tornaram tão marcantes o período de 1810 a 1830, quando os cultos negros começaram a ser praticados abertamente e em seu próprio espaço (terreiros), e o Estado brasileiro e a comunidade branca passaram de uma posição de consentimento (como válvula de escape e para acentuar as diferenças tribais; "dividir para reinar") para a repressão destas mesmas manifestações.

O fator de mais peso foi a impossibilidade de uma revolta negra e da tomada do poder pelas armas, vistos o crescente aparato militar e a consolidação do domínio territorial por parte do Estado.

Mas pesaram também: o declínio das confrarias religiosas negras (local de relacionamentos particulares dos escravos sob o olhar vigilante da Igeja Católica); a chegada da Missão Francesa em 1816 e a idéia ocidental de "cultura" (em nome da qual se infligiu à África, durante três séculos e meio, o genocídio de dezenas de milhões de pessoas); a fase política de transformação do colonialismo (onde ainda havia a possibilidade de uma revolta negra para a tomada do poder pelas armas) para a independência; o pacto social da independência (1822) que deixou o negro de fora (este pacto deu uma "cara cabocla" ao Brasil, incluindo o "índio que estava lá longe", de forma simbólica); o fim do tráfico negreiro em 1850 (final da mítica do retorno à África).
A partir de 1830, nos diz Muniz Sodré, o Estado passa a temer "não o negro como grupo militar armado... mas o negro individualizado, os pequenos grupos que passam a ser encarados como aglomerados criminogênicos"65_. Um ponto-de-vista compartilhado por Soares:
Se a década de 1850 foi marcada pelo medo da rebelião escrava, cotidianamente retratado na multidão africana e negra que enchia as ruas da Corte, os anos 1880 foram caracterizados por um horror surdo, reflexo do poder sinuoso e onipresente das maltas de capoeiras no labirinto de ruas do centro urbano do Rio.66_
Este enfoque possibilitou a retomada deste tema, por volta de 1900 na área da psiquiatria, por Juliano Moreira, Nina Rodrigues, e outros que viam aí, nestes grupos de negros, focos de crimes.

2.1.2 - O PERÍODO DE MARGINALIDADE EM SALVADOR E NO RIO: 1800 A 1850


A resistência escrava como um mecanismo heterogêneo, matizado pela dinâmica cultural, e tendo variados significados, é o enfoque que acreditamos mais fértil do que certas posições "politicamente corretas".

Carlos Eugenio L. Soares

(Capoeira Escrava, RJ, Sec. Mun. de Cultura, 1994, p.2)
Neste período, a cultura afro-brasileira é vista como uma "primitiva selvageria" (começando por José de Alencar, neste século XIX). As representações identitárias do homem negro veiculadas pelos discursos hegemônicos reconhecem o descendente de escravo como "indivíduo", mas não como "pessoa".

O ser humano nasce "indivíduo" e se torna "pessoa" à medida que se insere na ordem social/cultural de sua época. No entanto, aos negros era negado esse desenvolvimento. Era como se fossem parte da paisagem; um cão, uma árvore, ou um bem material com certo valor econômico. "Peças", assim eram chamados os africanos escravizados.

Paralelamente, já existia desde o Segundo Império um pessimismo e um diagnóstico depreciativo do "homem brasileiro". Isto já "transparecia no discurso oficial sobre a imigração estrangeira"67_: o Visconde de Taunay, p.ex., depositava esperanças na imigracão de alemães e escandinavos da Europa do Norte.
Daí o interesse da frase de Lima Barreto ("os negros diferenciam o Brasil...") em que se insinua o reconhecimento do negro como diferença ativa no interior do macrogrupo nacional-brasileiro. Não se trata, por certo, de simples diferenciação epidérmica, mas da implicada numa outra constelação simbólica, outra atitude existencial, suscetível de configurar aquilo que Lévi-Strauss chama de "distância diferencial" entre as culturas. Nesse movimento diferenciante, aparece o indivíduo negro concreto na dinâmica da socialização brasileira68_.
Mas que elemento "diferenciante" é este, o afro-brasileiro? Nos pergunta Muniz Sodré69.

Desde muito cedo, a "distância diferencial" dos nagôs chamou a atenção de europeus, como em Charlevoix (Histoire de l'Ile Espagnole ou de S. Domingue, 1731): "os nagôs eram mais humanos (que os demais africanos)". Apesar disto e da abundante literatura etnológica sobre candomblé, até hoje tem sido pouco resaltado o "caráter de veículo (do candomblé nagô) de uma continuidade institucional centrada na dinâmica de construção de uma identidade para o escravo e seus descendentes"70. Os aspectos enfocados são apenas os simbólicos, místicos, exóticos - "esquecimento" similar àquele relacionado aos artistas negros no Brasil, antes e depois da chegada da Missão Francesa (capítulo "Origens").


No Rio de Janeiro a trajetória da capoeira foi diversa da Bahia e as estratégias da repressão também foram outras.

Fred Abreu tentou - em Salvador - seguir os passos de pesquisadores cariocas, como Carlos Eugênio Líbano Soares, imaginando que talvez as trajetórias de Salvador e Rio tivessem muito em comum, mas não teve sucesso.


Dediquei boa parte do meu tempo, no primeiro semestre deste ano (2000), consultando no Arquivo Público do Estado da Bahia a documentação policial referente ao século XIX. A expectativa era encontrar, nesta documentação, muitos registros de prisão de capoeiristas. Foi vã minha procura. Nos milhares de documentos consultados, não encontrei um só caso de preso por praticar capoeira, ou mesmo por ser capoeira. A palavra capoeira com sentido de jogo ou luta não apareceu nenhuma vez. Concluí por saber que será muito difícil reconstituir a história dos capoeiras da Bahia, no século XIX, usando a documentação policial, como fizeram os historiadores Antonio Liberac e Carlos Eugênio, acerca dos capoeiras do Rio de Janeiro... desconfio que por trás dos inúmeros casos de desordens, registrados nos mapas de prisões consultados, estavam muitos capoeiristas, que gozaram fama como desordeiros e valentões.74_
A observação de Abreu é complementada em Holloway (op.cit. 1977, p.53) quando diz que "muitos dos detidos por 'desordem em grupo' e também por 'porte de armas' e 'arremesso de pedras' eram enquadrados (no Rio) na atividade genericamente denominada 'capoeira'." Ou seja, ao pesquisar os arquivos policiais cariocas, desordeiros e outros aparecem como "capoeiras"; mas na Bahia os capoeiras eram enquadrados como "valentões" ou "desordeiros", dificultando a pesquisa de Fred Abreu.

Temos de ter sempre em mente o uso do termo "capoeira" - que significava uma coisa em 1800, e significa outra atualmente - quando estudamos o período 1800-1900.

Ainda assim, tudo indica que a capoeira baiana - de 1800 a 1850 e, mais fortemente, nos 50 anos seguintes - não teve o peso da carioca, onde os arrogantes e violentos capoeiras - inicialmente escravos e mais tarde, também os crioulos e livres - irão progressivamente se organizando em maltas, tomando conta das praças, ruas, ádrios de igrejas, procissões religiosas, desfiles militares, incutindo o terror nas "pessoas de bem", tornando-se o flagelo das autoridades policiais.
Mais tarde, já no final dos 1800s, tornam-se fenômeno de mídia com tanto espaço nos jornais quanto as contemporâneas gangues do narcotráfico que dominam os morros da cidade do Rio de Janeiro e, quando querem, mandam fechar o comércio, até nos bairros ricos e chiques da cidade, como já fizeram algumas vezes vezes nos começos do nosso século XXI.

No entanto a capoeira baiana vai sobreviver até nossos dias - e florescer em todo o país e se espalhar pelo estrangeiro -, enquanto a pernambucana e a carioca serão extintas com a Proclamação da República e a subsequente perseguição policial, na década de 1890.


Então, temos pouquíssimas notícias da capoeira baiana antes do século XX. Mas temos notícias de repressão à capoeira, no Rio, desde o final do século XVIII.
Manuel resolveu explorá-lo alugando-o a terceiros... Com o passar do tempo, o tímido escravo, que antes vivera sempre caseiro, tornou-se mais desenvolto... Para sua surpresa, Manoel foi encontrar Adão por trás das grades da cadeia da Relação. Havia sido preso junto a outros desordeiros que praticavam a capoeira. Naquele dia ocorrera uma briga entre capoeiras e um deles fora morto... No decorrer do processo constatou-se que Adão era inocente quanto ao assassinato, mas foi confirmado sua condição de capoeira, sendo, por isso, condenado a levar "500 açoites" e trabalhar "dois anos nas obras públicas"... (Após Adão cumprir alguns meses, seu senhor) comprometeu-se a cuidar para que Adão não mais voltasse a conviver com os capoeiras, tornando-se um deles. Teve seu pedido homologado pelo tribunal em 25/4/1789. (ANRJ - Tribunal da Relação - cod. 24, livro 10).71
Então, vamos ver, com Líbano Soares, a vívida ação que se passa no cenário carioca no começo dos 1800s:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal