2 o jogo da capoeira



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Uma cidade do Rio de Janeiro coalhada de africanos, atravessada por limbambos de negros acorrentados, persigangas flutuantes carregadas de condenados, pelourinhos espalhados pelas praças, onde, por muitos anos, os capoeiras sofreram o flagelo do açoite, do vergalho, cercados de quitandeiras e de negros de ganho, moradores dos zungus...

A história da capoeira escrava no Rio de Janeiro Imperial é uma saga feita de dor e castigo, um conflito de extrema violência e extrema crueldade, mas também uma lição de companheirismo e solidariedade, de esperança e coragem, na qual africanos e crioulos (os negros nascidos no Brasil), irmanados pelo cativeiro, enfrentaram seus carrascos e mudaram seus destinos.


Para entender o período de 1800 a 1850, no Rio, não são suficientes os "raciocínios simplistas, próprios ou alheios, com os quais se pretende explicar os intricados mistérios da existência".

Os relacionamentos entre diferentes segmentos da sociedade são complexos e uma oposição bi-polar - capoeiras x polícia - nos levaria a graves falseamentos. No mínimo teríamos de imaginar uma grade triangular - capoeira / polícia (e militares) / senhores-de-escravos - para uma primeira aproximação e, mesmo assim levando em conta os fortes conflitos internos de cada grupo:

- os senhores tinham interesses econômico-políticos diversos;

- as maltas brigavam pelo controle de diferentes areas da cidade;

- e por outro lado, as diferentes forças encarregadas do policiamento da cidade algumas vezes entravam em choque, pela superposição de funções criadas durante a época regencial (1831-1840): Guarda Nacional, Corpo de Permanentes, guardas urbanos, pedestres, tropas militares.

Hoje vemos um conflito semelhante entre as diversas instituições policiais ativas no Rio: a Polícia Militar, a Polícia Civil, a Polícia Federal.


Além disso, o relacionamento entre os senhores de escravos e as forças de repressão não era sempre harmônico, como poderíamos supor. A polícia não era a versão urbana do feitor, que cuidava dos interesses do senhor que morava na casa grande.

Mas o que se repete - e está nas falas das autoridades, desde a chegada da família real até o fim do tráfíco atlântico de escravos africanos - é o inconformismo dos senhores com a prisão de escravos, com a ingerência policial em suas "propriedades".

Para os escravos, a complacência senhorial logicamente era bem-vinda. Por outro lado, ter um escravo capoeira não era tão mal assim para o dono. E se os escravos herdavam o prestígio dos senhores - como tão bem colocou Karasch -, senhores também podiam, ocasionalmente, ficar na sombra de seus cativos temidos pelos escravos da vizinhança.
A capoeira carioca - 1800-1850 - foi uma prática cultural urbana; em oposição _à tese de uma capoeira rural, nas senzalas; ou escondida no mato, no quilombos.

Ela se tornava mais fortemente visível - e era assim com outras manifestações em toda a América e Caribe rebeldes - nos dias de folga da escravaria e durante as festas populares - procissões religiosas, desfiles militares, festas de rua.

A capoeira era definitivamente uma forte prática cultural e já existiam símbolos de identificação como o uso de fitas com as cores vermelha e amarela (ligadas ao Congo, na África centro-ocidental), o barrete vermelho nas primeiras décadas, o uso do chapéu, de determinados assobios para se comunicarem - escravos eram presos por "assobiarem como capoeiras".
A capoeira era claramente um monopólio escravo durante todo o perído de 1800 a 1850. Só no fim do período vão aparecer timidamente os primeiros negros livres nas "pre-maltas" e ainda assim, em 1850, 90% dos capoeiras eram escravos.

No início, a maioria era de escravos africanos ladinos (já conhecedores da cidade, em oposição ao boçal recem-chegado) com a predominância dos centro-ocidentais - principalmente cabinda, benguela, congo e angola. Aos poucos, vemos surgir nas "pre-maltas", escravos negros crioulos (nascidos no Brasil) e pardos (quase sempre, pai branco e mãe negra), além dos de origem afro-ocidental - principalmente mina e nagô - e oriental - principalmente Moçambique.

Os capoeiras - representantes do inconformismo escravo - tinham lugar de destaque na comunidade negra. Em alguns casos, seu prestígio era aumentado por "conhecimentos mágico-religiosos e ao consequente exercício destas práticas, altamente relevantes para a massa escrava" (SOARES, op.cit., 2001, p.77).
A capoeiragem e as fugas para os quilombos eram práticas paralelas mas geralmente dissociadas. Ficar na cidade, como escravo, mas pertencendo a uma "pre-malta", era uma opção política e de poder que os capoeiras escolhiam voluntariamente.

A desenvoltura com que se movimentavam pela cidade - apesar de cada malta ter seu território próprio - era estonteante; e vai resultar na "estratégia sinuosa" que futuramente, após 1850, as maltas usarão. E que, talvez, hoje tenha enxameado a estonteante mobilidade de jovens "mestres" que perambulam pelo mundo, dando aulas, apresentando-se em teatros e espetáculos, sem nenhum apoio monetário do Governo ou do capital privado.


As diferentes "pre-maltas" dominavam diferentes áreas da cidade e o capoeira se filiava a uma, ou a outra, não necessariamente por morar naquela freguesia mas por uma escolha pessoal.

Os pontos principais de encontro eram as praças com chafarizes, lugares de convivência explosiva onde os escravos - as vezes, de gangues diversas - iam buscar água para abastecer a casa senhoril. A capoeira era o meio de estabelecer hierarquias e áreas de domínio.

Líbano Soares pensa que os escravos "que ficavam mais tempo nas ruas" não eram os clientes prediletos da capoeiragem. Isto, em oposição a vários estudiosos que salientam os "negros de ganho" - aqueles que saíam de manhã e só tinham que voltar á noite para a casa senhorial (trazendo uma certa quantia resultante de seu trabalho como estivadores free-lancers nas docas, de trabalho como barbeiros em plena rua, vendedores de doces ou comidas feitos por eles mesmos, etc.). Os que "buscavam água (ponto de encontro e confronto nos chafarizes das praças), e que tinham maiores possibilidades de residirem com seus senhores, eram os agentes potenciais das correrias na cidade.
Adros de igrejas e a própria igreja - militares não entravam armados nas igrejas para prenderem delinquentes ou capturar desertores -, determinadas tabernas - subpontos de encontros, enquanto as praças eram os macropontos -, os zungus - casas de angu, locais onde negros moravam e se reuniam -, os cortiços, a zona potuária - a estiva, as docas, os locais frequentados por marítmos e marinheiros nacionais e estrangeiros; uma tradição que se manteve, no Rio, até a década de 1960 (ver, mais tarde, depoimento de mestre Leopoldina, meu primeiro mestre) -, também eram áreas frequentadas pelos capoeiras.

Após a sesta, ou o almoço, e principalmente de noite e de madrugada, as pre-maltas aproveitavam a maior liberdade para dominar as vias mais importantes da cidade - o encontro de duas maltas frequentemente deixava saldo de mortos e feridos (quase todos escravos capoeiras).

Mais do que uma "forma de resistência contra a opressão senhorial", a capoeira foi uma ferramenta na disputa do domínio de diferentes áreas da cidade, pelos diferentes grupos de escravos.
A cabeçada era o golpe mais típico e temido dos capoeiras cariocas e assim se manteve durante muito tempo. Na Bahia , bem mais tarde - início dos 1900 -, a mesma coisa: velhos mestres de Salvador, como os falecidos Canjiquinha e Atenilo, e também João Pequeno, me confidenciaram que, na época deles "a cabeçada era temida e podia ser mortal, mas que recentemente (após aprox. 1950) ela tinha perdido prestígio para os golpes de pé".

No entanto, em 1822, temos uma aquarela do inglês Augustus Earle - Negros lutando - onde um negro da um golpe com a sola do pé em outro escravo - a benção ou chapa-de-frente, um golpe clássico até mesmo em nossos dias -; ao fundo, um soldado da Guarda Real, com seu fuzil e bigodões à Pedro I, pula um muro com a nítida intenção de disciplinar os arruaceiros.

É curiosa esta aquarela, que só vim a conhecer em 2004 (capa da revista Nossa História, Biblioteca Nacional, ano I nº5, março de 2004, ilustrando uma matéria de C.E.Libano Soares). Fica óbvio que os golpes de pé, ao lado da cabeçada, típica dos capoeiras (descrita e desenhada por Rugendas, em 1834), já faziam parte do arsenal marcial dos negros e muito provavelmente faziam parte, também, dos golpes usados pelos capoeiras em suas disputas internas e externas.
E seguindo as pegadas de Líbano Soares, de Jair Moura, Marcos Bretas, e outros, podemos traçar um panorama amplo de diversas fases da capoeiragem, da repressão policial, e de diferentes estratégias de interação - tanto dos poderes hegemônicos, quanto das africanos e crioulos brasileiros - durante a primeira metade do Século XIX:
1. 1810-1820.

Logo após a chegada, em 1808, de D João VI e sua corte, mais de 10.000 pessoas - algo que modifica totalmente o panorama carioca e brasileiro -, é criada a Guarda Real. O mundo do crime não era um monopólio dos escravos, mas a capoeira - principal flagelo das autoridades - era; uma capoeira agenciada pelos escravos até 1850.

A capoeira, de certa maneira moldou as instituições policiais da época, e também àquelas instituições policiais que a sucederiam - "sua repressão (da capoeira) se confundia com os mecanismos de controle do principal contigente de mão-de-obra da cidade"75 .

Desde a chegada da família real (1808), e a criação da Guarda Real de Polícia (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 4) sob as ordens da Intendência Geral da Polícia da Corte - que muito mais tarde originaria a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro -, e seguindo até a Abdicação de Pedro I (1831), a capoeira - e não a massa escrava em geral - já era o flagelo das autoridades.


(A Guarda Real) composta de quatro companhias (três de infantaria e uma de cavalaria) tinha sido criada a 13 de maio de 1809. O major Miguel Nunes Vidigal... foi nomeado auxiliar do comandante e fiscal da corporação. A sua fama começou com esta indicação.76
O temido major Vidigal era o braço armado da repressão e - pasmem! - ele tambem um perigoso capoeira.

O major Miguel Nunes Vidigal... era um homem alto, gordo, do calibre de um granadeiro, moleirão, de fala abemolada, mas um capoeira habilidoso de um sangue-frio e de uma agilidade a toda prova, respeitado pelos mais temíveis capangas de sua época. Jogava maravilhosamente o pau, a faca, o murro e a navalha, sendo que nos golpes de cabeça e de pés era um todo inexcedível.77_


Vidigal criou a "ceia dos camarões", uma sessão de torturas especificamente para capoeiras. Sua estratégia de brutalidade - início dos 1800 - é bem diversa daquela do Intendente Eusébio de Queiroz - 1850 -, combinando coação com infiltração de informantes no seio da massa escrava, mostrando que a violência pura e simples não tinha sido suficiente para intimidar os capoeiras. Os aparatos da repressão tiveram - como apontamos - que se "moldar" em função das atividades da massa escrava e principalmente dos capoeiras.

Vidigal foi imortalizado como personagem de Memórias de um sargento de milícias (SP, Ed. Ática, 1991), escrito por volta de 1855 por Manuel Antonio de Almeida (1831-1861), e é um dos muitos capoeiristas famosos e pertencentes à classe hegemônica que destroem - no Rio de Janeiro (esta observação não pode ser expandida para a Bahia) - o mito purista de uma capoeira "negra, mestiça, creoula", que teria se tornado popular entre a classe média e a burguesia: os brancos e a classe hegemônica teriam entrado, "deturpando a capoeira", somente na segunda metade do século XX.


Vidigal não foi o único capoeira proveniente da classe hegemônica, no Rio de Janeiro:
sendo o último (chefe de polícia do Império)... o turbulento capoeira e inimigo dos mesmos, Conselheiro José Bassom de Miranda Osório... baixo, claro, louro, olhos azuis e imberbe. Perito na arte da capoeiragem, destro e valente cacetista.78_
E mais, além de freqüentada pelas pessoas da classe hegemônica, Líbano Soares afirma que "a capoeira foi um ponto de partida na história das relações raciais na cidade do Rio... que atraía não só negros livres de todas as partes do Brasil, como estrangeiros das mais diversas origens".79
É também no romance de Almeida - Memórias de um sargento de milícias (circa 1855) -, ambientado na época de D. João VI e do major Vidigal, que aparece pela primeira vez no cenário da literatura brasileira - já tinha sido enfocado pela pena dos escrivães de polícia - a figura de um capadócio/capoeira, o Juca-Chico.
Ser valentão foi em algum tempo ofício no Rio de Janeiro, havia homens que viviam disso: davam pancadas por dinheiro, e iam a qualquer parte armar de propósito uma desordem, conquanto que se lhes pagasse, fosse qual fosse o resultado.

Entre os honestos cidadãos que nisto se ocupavam, havia, na época desta história (aprox, 1815), um certo Juca-Chico, afamadíssimo e temível...

O Juca-Chico era um pardo alto, corpulento, cabelo cortado rente; trajava sempre jaqueta branca, calça muito larga nas pernas, chinelas pretas e um chapelinho branco muito a banda: ordinariamente era afável, gracejador, cheio de ditérios e chalaças; porém na ocasião de "sarrilhos", como ele chamava, era quase feroz. (pp.47-49)
Na verdade o Juca-Chico, "um pardo alto e corpulento", parece mais um personagem (real) do tempo em que o livro foi escrito - 1855, quando a capoeira já era frequentada por indivíduos livres e também por pardos -, do que da época em que o romance é ambientado - aproximadamente 1815, em que a clientela da capoeira era de escravos negros africanos.

E as "perseguições" que sofre, do major Vidigal, lembram mais as confusões e artimanhas de Scaramouche do que a realidade brutal das perseguições aos capoeiras no início dos 1800s.


Nesta década - 1810-1820 -, metade dos presos por capoeira são indivíduos isolados, a outra metade era de pequenos grupos - "pre-maltas" - de dois ou três indivíduos. Nas próximas décadas esta divisão se mantém, mas o número de presos em grupo - as "pre-maltas" - vai aumentando lentamente. A partir de 1850, as "pre-maltas" crescerão se transformando nas "maltas" que dominarão as ruas da cidade.
A percentagem de africanos centro-ocidentais - principalmente congo, benguela, cabinda, angola - na população escrava é dominante e isto se reflete nas "pre-maltas": p,ex, o uso de barretes vermelhos e das cores vermelha e amarela (ligados à origem africana centro-ocidental) é um símbolo da capoeiragem. Mas nas décadas seguintes, cresce a percentagem de afro-ocidentais - principalmente mina, nagô - e orientais - principalmente Moçambique.
A navalha - simbolo da capoeira carioca de "maltas", no final dos 1800s - já mostrava popularidade: 38% dos presos, no começo dos 1800s, com algum objeto contundente. No entanto, esta popularidade se evidenciava mais entre os "crioulos" (os negros já nascidos no Brasil); entre os africanos presos apenas 15% portavam navalha e 68% simples facas. Líbanos Soares diz que isto pode indicar que a navalha não era "um instrumento ordinário ou de fácil acesso para escravos mas (já) um símbolo cobiçado por certos cativos interessados em forjar sua fama de capoeiras" (op.cit., 2001, pp.94-95).
Os escrivães de polícia comumente referiam-se a "jogar capoeira" - indicando uma prática lúdica -, mas nas décadas seguintes a prisão será feita simplesmente "por capoeira" - que indica o uso do termo para identificar o tipo social e, aí incluídos, toda sorte de desordeiros e malfeitores.

Este tipo social talvez já seja um antecessor direto do malandro carioca, decantado nos 1920s, reprimido por Vargas nos 1930s, mas sobrevivendo até nossos dias - não somente nos sambas dos recém falecidos Morreira da Silva e Bezerra da Silva - no imaginário brasileiro e até mesmo numa linha de umbanda.


O destino de muitos capoeiras presos é o açoite e depois o trabalho forçado nas obras da Estrada da Tijuca.
2. 1820-1830.

Em 1822 temos a subida de D. Pedro I - mais enérgico que o pai; ocasionando uma repressão policial mais violenta.

A capoeira, no Rio, era extremamente violenta; contra a repressão das elites e também como meio de acertar diferenças e constituir hierarquia entre escravos e libertos. Mesmo em seu caráter mais "lúdico", esta violência - descrita por Rugendas em 1834, "a brincadeira não raro degenere em briga e as facas entram em jogo ensangüentando-a"80_ - se fazia presente a tal ponto que, em 1821, "a Comissão Militar, sentindo-se já impotente"_, pede ao Ministro da Guerra: os "negros capoeiras presos pelas escolas militares em desordens" devem ser açoitados, único castigo "que os atemoriza e aterra", pois "se tem feito seis mortes pelos referidos capoeiras e muitos ferimentos de facadas"81.
A partir de 1824, não mais o trabalho forçado nas obras da Estrada da Tijuca, mas o Arsenal de Marinha, na Ilha das Cobras, a vista do centro da capital imperial.

Ali, ficarão presos em um navio-prisão - a Persiganga - e trabalharão nas obras de construção de um colossal Dique para reparos de navios - 37 anos para ser concluída - juntos a outros presos de alta periculosidade.

O Arsenal de Marinha, na Ilha das Cobras na década dos 1820s , misto de prisão e trabalhos forçados, com sua explosiva mistura - capoeiras, escravos fugidos, delinquentes e malfeitores, marinheiros nacionais e estrangeiros, rebeldes e prisioneiros políticos de levantes regionais, prisioneiros argentinos e uruguaios das Guerras Cisplaltinas, mulheres de sentenciados e escravas não-sentenciadas participando do cotidiano da ilha -, foi um caldeirão de troca de experiências e vivências que seguramente ajudou a forjar o perfil e as estratégias das pre-maltas.

As inacreditáveis "fugas atlânticas" - escravos, presos no Arsenal, que fugiam e depois eram recapturados em, p.ex. Londres, como foi o caso de Bento Creoulo - foram alguns dos frutos de semelhante convivência.

Por outro lado, o convívio de presos "comuns" com presos "políticos" têm gerado graves consequencias para os orgãos de repressão. Bem recentemente, durante a ditadura militar de 1964-1984, a convivência de presos políticos com narco-traficantes talvez tenha sido um dos vetores que agenciou a estrutura e organização do crime organizado - que se sofisticou e cresceu após aproximadamente 1980 - em mega-gangues, como o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, que dominam a cidade do Rio de Janeiro, inclusive mandando fechar o comércio várias vezes ( e sendo obedecidos) no início dos atuais 2000s

Uma convivência, algo semelhante, no Arsenal de Marinha, na década de 1820, foi um dos vetores que formou, após 1850, a infraestrutura e as estratégias das mega-maltas, Nagoas e Guaimus, que dominaram as ruas e praças da cidade do Rio no final dos 1800s, e delinear o malandro do século XX.


A perseguição policial torna-se extremamente acirrada:

- N122 Justiça em 28/5/1824, dá providências sobre os negros denominados capoeiras.

"Constando que os negros denominados capoeiras continuam com insolência a fazer desordem nas ruas da cidade... faça castigar imediatamente a qualquer escravo que for encontrado em tais desordens, seja quem for seu senhor, com a pena que estiver em uso, e até com o dobro"...

- N182 Justiça em 30/8/1824, manda empregar durante três meses nas obras do Dique os negros capoeiras presos em desordens cessando as penas de açoites...

- N193 Justiça em 13/9/1824, declara que a portaria do mês passado comprende somente os escravos capoeiras...

- N215 Justiça em 9/10/1824, "os escravos capoeiras, que fossem presos em desordens, sofram, além dos três meses de trabalho, o castigo de duzentos açoites"...


No entanto, Rego82 nos conta_ como estes mesmos capoeiras são vistos, excepcionalmente, "como heróis nacionais".

Em 9 de junho de 1828, os batalhões de mercenários alemães e irlandeses com cerca de duas mil praças se revoltaram "e, de armas em punho, abandonaram os quartéis e fizeram uma carnificina, matando, devastando e saqueando tudo". Mas foram atacados "por magotes de pretos denominados capoeiras... e caíram os estrangeiros pelas ruas e praças públicas, feridos em grande parte, e bastante sem vida"83.

Estes combates se deram no Largo do Rocio Pequeno, atual Praça Onze de Junho e, nos conta Moura, "fato surprendente, os capoeiras eram comandados por Miguel Nunes Vidigal, militar que há muito tempo vinha, com seu inseparável chicote, combatendo estes elementos"84.

Sodré aponta lucidamente o "esquecimento" deste bravo feito-de-armas dos escravos negros nos livros de História do Brasil (Corpo de Mandinga, pp.41-42)


Mas não foi somente nos livros da História "oficial" do Brasil que o feito dos escravos capoeiristas foi desqualificado. Soares relativisa a suposta e breve condição de heróis nacionais: um narrador anônimo, áulico, admirador fervoroso do Imperador, culpa os mercenários irlandeses "e os pretos escravos e livres" pelas maiores atrocidade ocoridas em 1828. O viajanta inglês Robert Walsh foi "mais severo com a atuação dos moleques, apesar de concordar com o fato de que a participação de capoeiras e escravos fora vital para o sufocamento da insureição estrangeira", Depois do fim da rebelião, uma grande quantidade de negros e escravos "continuou armada, causando temores iguais ou maiores na população e nas autoridades da Corte".

Aqui vemos claramente que houve duas metas na repressão (após o fim do levante): a primeira desencadeada contra (os soldados e mercenários) irlandese e alemães amotinados, e a segunda, contra os "negros bárbaros", que provou ser a mais dificultosa, pelo seu grande número na cidade e maior familiaridade com o tortuoso ambiente urbano

No entanto, apesar deste breve momento como "heróis nacionais" - talvez nem tão heróis assim -, os conflitos dos capoeiras com a polícia se intensificaram gradativamente durante todo o período que vai de 1800 a 1850, no Rio de Janeiro, e o constante movimento das "pre-maltas" pela cidade, embora defendendo áreas fixas - "estratégia sinuosa"_85 -, foi uma dor de cabeça permanente para os donos do poder.
É também desta época - 1830 - a criminalização do uso da maconha, que se tornara popular entre a escravaria de diferentes partes do Brasil e que, uns 150 anos depois, vai se tornar, junto com a cocaína - que era vendida em "papelotes", nas farmácias, até o tempo de Noel Rosa -, o motor econômico das novas maltas, que ganhariam poder aproximadamente por volta de 1980, agora em dois grandes aglomerados, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando.
Diz Querino que o uso da maconha foi proibido pela Câmara do Rio de Janeiro em 1830, o vendedor pagaria 20$000 de multa; o escravo que usasse seria condenado a três dias de cadeia. Já fumamos a maconha ou diamba. Produz realmente visões e como um cansaço suave; a impressão de quem volta cansado de um baile, mas com a música ainda nos ouvidos... Entre barcaceiros e pescadores de Alagoas e Pernambuco verificamos que é grande ainda o uso da maconha.

(FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala, RJ, José Olympio Ed., 1981, pp.393-394, 1ª ed. em 1933)


O Comando Vermelho e o Terceiro Comando - os dois grandes aglomerados de gangues do narcotráfico carioca contemporâneo -, de certa maneira, lembram os Guaiamus e Nagoas - as maltas de capoeira que vão se formar após 1850.

A década de 1980 - ascenção das mega-maltas do narcotráfico contemporâneo -, marca também a queda do malandro, que se firmara por volta de 1920 - e a volta da estratégia de violência - entre os grupos de capoeiristas de 1980 - características das maltas de capoeiras dos 1800s que tinha cedido lugar a estratégia do malandro - não confrontação - por mais de 50 anos (1920-1980) no submundo carioca.

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