2 o jogo da capoeira



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No Brasil, além do "esquecimento" da arte brasileira ser predominantemente feita por negros e mulatos (antes e depois da Missão Francesa), e do "esquecimento" (por parte da literatura etnológica) do candomblé nagô ser veículo de uma continuidade institucional centrada na dinâmica de construção de uma identidade para o escravo e seus descendentes; vamos ver como a capoeira carioca, nos 1800s, foi vista apenas - visão "paternalista" - como "um exército das ruas manipulado por liberais e conservadores em troca de benesses eventuais", ou a capoeira apenas como "resistência heróica" - visão "politicamente correta" - aos abusos dos poderes hegemônicos escravocratas - esta é a tônica que regeu, e que rege, grande parte da mentalidade acadêmica em seus olhares sobre a cultura "popular", "negra", "marginal", dos "estamentos econicamente inferiores", etc.

Neste capítulo, em oposição a estas construções de identidade - "não somente com as narrativas da elite cultural da Velha República mas com toda uma corrente hsitoriográfica ainda atual " (SOARES, op.cit., 1994, p.186) -, e em harmonia com Jair Moura, Líbano Soares, Marcos Bretas, Muniz Sodré e alguns outros; vamos ver como o papel exercido pelas maltas de capoeira cariocas, nos 1800s, foi fruto de uma opção política e vivencial, referenciada numa experiência social e cultural, alimentada pela vontade de participar em processos culturais e políticos, e levada a cabo com uma maneira de agir, lúcida, inteligente, malandra.

Algo que já um prenúncio de uma "filosofia prática de vida", um discurso que começará a desabrochar - melhor dizendo, cristalizar, materializar - com mestre Pastinha, em Salvador nos meados dos 1900s:
"Capoeira,

mandinga de escravo em ânsia de liberdade;

seu princípio não tem método:

seu fim é inconcebível ao mais sábio dos mestres."


E será ainda mais elaborado - uma "maneira de ser, de entender a vida e de se relacionar com o mundo" - no final dos 1900s, tornando-se o discurso dos segmentos mais "adiantados" da capoeiragem do nosso século XXI.
No período de 1850-1900, vemos o desabrochar da visão simplista e primitivista a respeito do negro e de sua contribuição cultural, alem das doutrinas racistas e da ideologia do embranquecimento, apesar da entrada em cena de atores negros e mulatos como Machado de Assis, Lima Barreto e Cruz e Souza na literatura e na poesia; Francisco Glicério, Ruy Barbosa e posteriormente Nilo Peçanha (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 11), na política, etc.
No entanto, entre a visão de José de Alencar - a cultura afro-brasileira como resultante de uma "primitiva selvageria" - e a de Jorge Amado - o negro com estatuto de "pessoa" e não apenas como "indivíduo" -, Muniz Sodré86_ ressalta dois romances singulares: O Bom Crioulo (1895), de Adolfo Caminha - que reconhece e valoriza a pessoa do negro -, e O Feiticeiro (1897), de Xavier Marques - com descrições de terreiros etnograficamente aceitáveis, talvez extraídas da obra de Manoel Querino.
Em Machado de Assis (Quincas Borba), a imigração de trabalhadores europeus, portugueses e não-portugueses, causando a rejeição do negro no mercado de trabalho, são apontadas por Muniz Sodré87_ ao citar o personagem Rubião : Rubião enriqueceu e seu amigo, Palha, insistia na necessidade de criados brancos ao invés dos negros, vistos - na melhor das hipóteses - como animais de estimação ou como um pedaço da paisagem (um "pedaço da província"): "Rubião cedeu com pena. O seu bom pajem", narra Machado, "que ele queria por na sala, como um pedaço da província, nem o pode deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços".

Soares89_ aponta que o fim do tráfico de africanos ocasionou a imigração portuguesa, especialmente das Ilhas dos Açores.

Estes portugueses vieram substituir a mão-de-obra escrava no mesmo momento do "início das incipientes reformas estruturais da cidade" e muitos foram absorvidos pelo movimento de capoeiragem carioca.

Este desembarque em massa no Rio teve início quando o tráfico clandestino ainda era vigoroso, Os navios negreiros eram usados para o transporte de imigrantes portugueses pobres - o engajado - em idênticas condições. Geralmente com idade entre 13 e 17 (a mesma dos africanos importados), assinavam um "contrato": em troca da passagem teriam de trabalhar gratuitamente de três a cinco anos. O engajado que se evadisse entrava na categoria de "fugitivo" (anteriormente, uma exclusividade do escravo). A grande maioria destes adolescentes, desembarcados entre 1850 e 1872, morriam após três anos devido à febre amarela, péssima moradia, trabalho extenuante; a experiência se aproximava a das senzalas.

O êxodo em massa dos portugueses coincide com o nascimento do cortiço na parte central da cidade - de certa maneira, em oposição aos zungús, local de moradia e encontro dos negros cativos e libertos -, onde metade dos moradores eram portugueses.
A anomia social da população negra, após a Lei Áurea, foi explicada - p.ex., pela escola paulista de 1960 (ver Fernandes Florestan, 1978) - como consequência da imigração (em especial) portuguesa.

Mas, em 1860 registrou-se maior número de crimes cometidos por estrangeiros (a maioria portugueses) que nacionais. Liberados da detenção, estes jovens engajados procuravam os canais de socialização acessíveis; o principal era a capoeira.

As relações entre portugueses imigrantes e a população negra eram ambíguas, não eram tão preto/branco como querem alguns - havia muitos matizes nesta relação. "O português Joaquim Ferreira, cocheiro, 19 anos, preso por se opor à prisão de um preto livre, chamado Romão. Ou João de Freitas, nascido em Lisboa, detido por 'dar couto a escravo fugido' (SOARES, op.cit., 1994, pp.107-108)".

Havia a convivência e a troca simbólica e cultural; e também havia o conflito pelo mercado de trabalho - as profissões típicas de escravos em 1850, quitandeiro, condutor de bonde, carregador, vendedor de doces, estavam sendo exercidas por portugueses no final do século.

Mas, no quadro geral, tendo em vista a participação portuguesa nas maltas, temos um perfil diverso do "portuga" estereotipado: bigodões, tamancos, dono de botequim e ladrão (veja-se O Cortiço, de Aluísio de Azevedo). Imagem que as vezes ocasionava explosões de violência na cidade.
Por outro lado, muitos fadistas - os malandros e valentes de Portugal - já vinham "formados" de grandes centros como Porto e Lisboa. O fadista português não apenas se adaptou, como influenciou o mundo da capoeira carioca: seu maior legado foi a navalha - que já era cobiçada no início dos 1800s, mas não ainda como o emblema da capoeira por excelência -, um símbolo da "Mouraria lisboeta".
Poucos capoeiras usavam armas de fogo e quase todos davam preferência à navalha, arma traiçoeira que melhor se ajustava ao seu sistema de pugna. Esta temível arma branca, denominada em Portugal de Santo Cristo, companheira inseparável do fadista truculento, agressivo, só podia ser neutralizada, enfrentada, pelo tiro ou a bengala, quando desferido, ou manejada, por um indivíduo dotado de destreza ou habilidade, como acentua o ilustre Ramalho Ortigão... No Brasil, a maioria dos que se exercitava no treinamento da capoeiragem, ajuntaram a navalha do fadista lusitano._90
Nos anos de 1862 e 1863, 811 pessoas foram presas por "capoeira, 33% eram portugueses. No entanto a passagem destes malandros pelo "Palácio de Cristal" - como era galhofeiramente chamada a Casa de Detenção - , na maioria das vezes era curta. Ao contrário do que se poderia pensar os capoeiras - nacionais e estrangeiros -, a maioria analfabeta, era todavia versada nos recursos e no discurso do aparelho judiciário - algo que vai caracterizar a fala do malandro carioca muitos anos depois, nos 1920s e 1930s. Além disso, era comum as testemunhas faltarem ao julgamento, talvez por medo das represálias da malta a qual pertencia o capoeira.

Esse quadro de impunidade só vai mudar com a Proclamação da República. Em 1890, logo após a capoeira ser posta oficialmente fora da lei e Sampaio Ferraz, o "Cavanhaque de Aço", ter sido nomeado Chefe de Polícia, com carta branca do marechal Deodoro da Fonseca para exterminar os capoeiras, havia uma lista de 49 portugueses, capoeiristas conhecidos e temidos de várias classes sociais - incluindo Juca Reis, filho do Conde de Matosinho -, a serem expulsos do Brasil (algo que foi levada a cabo).


Esta absorção de homens livres de várias nacionalidades, pela capoeiragem, vai mudar o perfil da aparelho de repressão, já na década de 1850.
A impossibilidade de usar métodos tradicionais de castigo para escravos, como o calabouço e os açoites, para homens livres, espelha a necessidade de o aparato repressivo incluir novos setores das "classes perigosas" em seu combate às maltas de capoeira.91_
E a instituição policial é moldada pelo "principal mecanismo de impunidade que os participantes das maltas, de condição livre, utilizavam nos meados do século XIX para escapar à ação da polícia": o alistamento na Guarda Nacional, "braço armado dos interesses particulares de grandes políticos da corte"92._ Fato que leva "os capoeiras e seus algozes a trilharem novos caminhos": a Guarda Nacional que era controlada pela elite rural e urbana passa para a esfera do poder central.
Em 1865, o Brasil, a Argentina e o Uruguai entraram em guerra com o Paraguai. A guerra, segundo alguns autores, teria sido patrocinada pela Inglaterra, que não via com bons olhos a economia autônoma do Paraguai - uma tese controversa e que já rendeu muita discussão.

O exército brasileiro formou batalhões de capoeiras; muitos foram agarrados à força nas ruas do Rio; aos escravos capoeiras, foi prometida a liberdade no final do conflito - o que nem sempre foi cumprido.

No entanto, o recrutamento forçado visava mais os negros livres e libertos que os escravos. O número de libertos "convocados", no Rio, era bastante significativo: dos 4.000 que seguiram para o Paraguai, mais de 2.000 provinham da Corte.

Na própria marinha, o ramo mais aristocrático das Forças Armadas, destacou-se a presença dos capoeiristas. Não entre a elite do oficialato, mas entre a "ralé" da marujada (que cinquenta anos depois iria se rebelar na Revolta da Chibata).


Marcílio Dias (o herói da Batalha do Riachuelo, embarcado no Parnahyba) era rio-grandense e foi recrutado quando capoeirava à frente de uma banda de música. Sua mãe, uma velhinha alquebrada, rogou que não levassem seu filho; foi embalde, Marcílio partiu para a guerra e morreu legando um exemplo e seu nome. (Correio Paulistano, 17/6/1890)
Quanto ao recrutamente forçado, era um assunto melindroso que fazia as manchetes dos jornais.
O recrutamento forçado, logicamente, era assunto melindroso para a elite dirigente, já que lançava o ônus da defesa da "honra nacional" nos braços de indivíduos vistos como incapazes e criminosos. Isso explica o tom escandaloso dos jornais._93
Os capoeiristas do Batalhão de Zuavos, especialistas em tomar as trincheiras inimigas na base da arma branca, fizeram misérias na Guerra do Paraguai.
Manuel Querino [1955] descreve-nos "o brilhante feito d'armas" levado a efeito pelas companhias de "Zuavos Baianos" no assalto ao forte Curuzu, quando os paraguaios foram debandados. Destacam-se dois capoeiras nos combates corpo-a-corpo: o alferes Cezario Alves da Costa - posteriormente condecorado com o hábito da Ordem do Cruzeiro pelo marechal Conde dêEu - e o alferes Antonio Francisco de Melo, também tripulante da já citada corveta Parnahyba que, entretanto, teve sua promoção retardada devido ao seu comportamento, observado pelo comandante de corpos: "O cadete Melo usava calça fofa, boné ou chapéu à banda pimpão e não dispensava o jeito arrevesado dos entendidos em mandinga" [p.79].94_
O 31º de Voluntários da Pátria - policiais da Corte com grande percentagem de capoeiristas - também se destacou na batalha de Itororó: esgotadas as munições, investiu contra os paraguaios com golpes de sabre e capoeiragem" (COSTA, Nelson in SOARES, op.cit., 1944, p.258).

Começa a surgir dentro do Exército e da Marinha, de maneira velada e não-explícita, o mito que o capoeira seria o "guerreiro brasileiro". Este mito explicará ocorrências surpreendentes e paradoxais no futuro próximo e distante, desde a publicação de manuais de capoeira dentro das forças armadas no início dos 1900s (quando a capoeira era proibida por lei, 1989-1932), até o Primeiro Encontro Nacional de Capoeira (1968 e 1969) patrocinado pela Força Aérea Brasileira.


Cinco anos depois - 1870 -, os sobreviventes da Guerra do Paraguai voltaram como heróis. Muitas destas feras, agora transformados em "heróis", engrossaram as fileiras das maltas cariocas.
… fácil imaginar que um homem exposto à violência da guerra - e modernamente temos o trágico exemplo dos veteranos de guerra do Vietnam, nos Estados Unidos -, andando armado e matando para sobreviver, meses e anos a fio, ao voltar para o Brasil seria um tipo bem diferente, muito mais independente e selvagem do que quando partira. Isto sem falar dos capoeiristas do Batalhão Zuavo, que agora viam-se soltos e desempregados pelas ruas do Rio de Janeiro e que, sem dúvida, foram elementos-chaves na formação das maltas.95_
Em 1870, como consequencia da volta dos capoeiras da Guerra do Paraguai, houve disputa na chefia de diferentes maltas cariocas e muitos chefes foram assassinados. Paralelo a isso, conflitos entre policiais e militares se tornaram mais frequentes
Mas, além dos "pequenos grupos que passam a ser encarados como aglomerados criminogênicos", existia também, no universo da capoeiragem da época, "o negro individualizado". Dentre todos, o que ficou mais famoso foi Manduca da Praia, imortalizado em várias canções de capoeira.
"No meu Rio de Janeiro,

se a memória não falha,

o maior capoeira foi Manduca da Praia.

... Mandigueiro, era Manduca da Praia."


Alexandre Mello Moraes Filho viveu há mais de cem anos no Rio de Janeiro e conheceu pessoalmente o terribilíssimo Manduca da Praia. Moraes Filho faz parte do grupo, denominado por Líbano Soares, de "cronistas e pioneiros" e "sua obra tem o tom da contemporaneidade mesclado com a ideia de 'luta nacional', que vai dar o ritmo da produção literária nos próximos 40 anos", quando vão entrar em cena os "folfcloristas" como Manuel Querino, Edison Carneiro e Câmara Cascudo. Eis o que ele contou no seu livro (Festas e Tradições Populares do Brasil, Rio: F.Briguiet e Cia, 1946).

Por volta de 1850, Manduca "iniciou sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravos sobre os quais saltava, livrando-se". Dotado de enorme força física e "destro como uma sombra", Manduca cursou a escola de horário integral da malandragem e da valentia das ruas do Rio na época de perigosos capoeiras como Mamede, Aleixo Açougueiro, Pedro Cobra, Bem-te-vi e Quebra Coco. Desde cedo destacou-se no uso da navalha e do punhal; no manejo do Petrópolis - um comprido porrete do madeira-de-lei, companheiro inseparável dos valentões da época -; na malícia da banda e da rasteira; e com o soco, a cabeçada e o rabo-de-arraia tinha uma intimidade a toda prova.

Manduca não era um "filósofo da capoeira" como, bem mais tarde, foi Pastinha; nem um lutador e "revolucionário da capoeira", como Bimba; nem um "capoeirista de raiz e fundamento" como os atuais João Pequeno e João Grande; e nem tampouco um representante do espírito da "malandragem alto astral" como mestre Leopoldina. No entanto, tinha algo que o destacava e diferenciava de seus contemporâneos facínoras, valentes e rufiões: uma inteligência fria, calculista e implacável; uma sede de poder, de status e de dinheiro, aliada a uma visão de comerciante e de homem de negócios. Tornou-se uma lenda viva e, mais tarde, um mito cantado e celebrado até os dias de hoje.
A capoeiragem do Rio, por volta de 1850, era muito diferente da de hoje.

A capoeira era perseguida pela polícia. Não havia as academias. O jogo era quase que uma espécie de briga-de-rua, sem berimbau e sem floreio. Era a época das maltas de capoeiras; Guaimus e Nagoas aterrorizavam a população carioca. Semelhante às gangues do tráfico de drogas de nossos dias, as maltas daquela época dividiam a geografia da cidade em fatias, e cada uma reinava absoluta na sua área.

Manduca, no entanto - diz a lenda e cronistas da época -, "não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco". No entanto, também temos notícias dele misturado a malta da Flor da Gente, de Gloria, na época das eleições.

Era capanga e guarda-costas de ilustres políticos. Nas eleições do bairro de São José, dava as cartas, "pintava o diabo com as cédulas. Nos esfaqueamentos e sarilhos próprios do momento, ninguém lhe disputava a competência". O Manduca "respondeu a 27 processos por ferimentos leves e graves, saindo absolvido em todos eles pela sua influência pessoal e de seus amigos". Manduca ficou mais célebre ainda com a chegada, no Rio, do deputado português Santana,


cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau, dotado de uma força muscular prodigiosa. Santana, que gostava de brigas, que não recuava diante de quem quer que fosse, tendo notícia do Manduca procurou-o. Encontrando-se os dois, houve desafio, acontecendo àquele (ao Santana) saltar nos ares ao primeiro camelo do nosso capoeirista, depois do que beberam champagne ambos, e continuaram amigos.
Mas nem só de valentia e de champanhe, de mumunhas com os políticos, de esfaqueamentos na época das eleições, vivia nosso personagem. Manduca, como dissemos, além da inteligência de predador tinha também o senso dos negócios. Valendo-se de seu prestígio e de seus conhecimentos nas altas esferas do poder, "montou uma banca de venda de peixe na praça do Mercado, era liso em seus negócios, ganhava bastante e tratava-se com regalo". Quando Mello Morais - o escritor - conheceu-o, há mais de cem anos atrás, Manduca já era um homem maduro.
Alto e reforçado, usava uma barba crescido e em ponta, grisalha e cor de cobre... nunca dispensava o casaco grosso e comprido, e a grande corrente de ouro de que pendia o relógio... de olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura tinha alguma coisa que infundia temor e confiança._96
No entanto, há contradições na cronologia e - significativamente - na construção do "personagem identificatório literário"97_:

- Alexandre Mello Moraes Filho, 1850: Manduca "iniciou sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravos sobre os quais saltava, livrando-se".

- Luiz Edmundo, 1900: nos apresenta um Manduca mais galhofeiro, grotesco e mais jovem quando, de acordo com Moraes Filho, o capoeirista teria no mínimo sessenta e cinco anos.

Ou Luiz Edmundo, tal qual Câmara Cascudo, foi atacado pelo simpático vírus que faz trocar as aborrecidas pesquisas históricas pelo contexto bem mais interessante da ficção e da imaginação; ou, então, existiu mais de um Manduca da Praia. O que não é incomum na capoeiragem: por exemplo, Luiz Edmundo cita, também, um certo Camisa-Preta, em 1900; Madame Satã fala de outro nos idos de 1930/40; eu conheci um terceiro, no morro do Pavão e Pavãozinho em Copacabana por volta de 1970, contra-mestre de Roque "Cachaça" - todos três tinham o mesmo apelido e eram capoeiristas.

Ou ainda: a construção da identidade do capoeirista era feita mais pela simpatia e fantasias do escritor do que pela visão lúcida do cronista "neutro" - aliás, a possibilidade de uma "neutralidade" por parte de jornalistas ou escritores é uma tese de pouco sucesso entre estudiosos contemporâneos.

Mas talvez a melhor explicação, apontada por Muniz Sodré98 para os diversos Manducas, seja um tipo de construção identitária que enquadra os negros em diversos estereótipos:_ o negro "bom" - o bom selvagem" de Rousseau -; o "mau" - Caliban - ; o negro "infantilizado"; "animalizado", etc. Moraes Filho adotou os dois primeiros estereótipos; Luis Edmundo, os dois últimos.


Manduca da Praia "trepa na goiabeira" o que vale dizer que é um tanto cabra... Manduca da Praia anda como um marreco, rebolando o traseiro, agitando o abombachado das calças, o violão sempre na unha. Tresanda à água Florida e a Clorilopse do Japão, e, se por acaso ri, mostra uma boca larga, feia, cheia de dentes podres e onde se espeta um palito novo ao lado do cigarro, sempre apagado e mole de saliva.

Vive à custa da pobre mãe, que lava e engoma para fora, que lhe dá casa e comida, só não lhe pagando o vício do fumo, da bebidinha e da boa fatiota que ele vai buscar na rua S.Jorge, à casa de rótula de uma francesa velha e gorda, que cheira a alfazema e que, por causa dele, já se quis suicidar três vezes, ingerindo ácido fênico. Os jornais deram._


Após a volta dos contingentes da Guerra do Paraguai, o perfil das maltas, que já tinha mudado com a absorção dos engajados e fadistas, vai mudar mais ainda ocasionando, mais uma vez, fortes reflexos no aparelho repressivo.
Antes (da Guerra do Paraguai), escravos, imigrantes miseráveis, mestiços e vadios eram os alvos da ação policial... Agora, soldados e militares de baixa patente eram a vanguarda da desordem, desafiando policiais, atacando patrulhas, e, o que talvez fosse mais perturbador, não acatando a autoridade policial como poder legítimo para dirimir conflitos.100_
Neste mesmo período, Ludgero G. da Silva, espécie de braço armado do Barão do Rio Branco, foi chefe de polícia entre 1872 e 1875. Vendo a impossibilidade de expurgar à força todos os males sob seu comando, construiu um "modus vivendi com as maltas" integrando, "como uma estratégia", a capoeira ao aparato policial (anteriormente, os capoeiristas refugiavam-se da polícia entrando para a Guarda Nacional): "iniciavam-se longos anos de simbiose e cumplicidade entre a estrutura policial e as classes perigosas, e o intermediário desta troca era a instituição policial"102._ Então, vemos esta infiltração acontecendo na instituição policial e também nos meios militares, inicialmente na Guarda Nacional - por volta de 1850 quando os negros livres começam a participar das maltas -, e mais tarde - por volta de 1860/65, com a Guerra do Paraguai - no próprio Exército e na Marinha, onde militares "de todas as patentes repetiam, eles mesmos, gestos e atitudes que eram típicos da capoeiragem" (SOARES, C.E.L., op.cit., 1994, p.78).
Somando-se a toda esta turbulência, a agricultura canavieira começou a entrar em decadência no Norte e Nordeste, enquanto a cafeeira do Sudeste crescia. Isto acrescido da proibição do tráfico com a lei Eusébio de Queiroz de 1850 - que, no entanto, continuaria como contrabando mas com números muito menos expressivos -, resultando num aumento significativo do tráfico interno: "somente entre os anos de 1872 e 1876 chegam no Rio de Janeiro 25.711 escravos vindos do Norte e Nordeste... muitos se alforriariam, aumentado uma classe intersticial de negros livres que tomam as ruas"101_.
O que não impedia que o capoeirista, seja como indivíduo ou como chefe de malta, também interagisse diretamente com as elites. Soares recorta um artigo de 9/1/1891 em Novidades:
Quase todos os verdadeiros capoeiras foram do serviço de altos personagens políticos, e tudo o que fizeram foi contando com a proteção dessses personagens, ou por mando deles. Serviram em todas as situações e a todos os governos da Monarquia.103_
A Abolição dividiu ao meio o Partido Conservador. Uma parte era abolicionista; a outra parte, ligado aos senhores rurais fluminenses em decadência desde 1870 , era escravista. A isto correspondeu uma divisão semelhante no seio da capoeiragem.

O Partido Republicano, por sua vez, era ligado aos grandes cafeicultores de sucesso do Vale do Paraíba paulista e tinham pouca influência na Corte, no Rio. José do Patrocínio, abolicionista, denominava os grandes proprietários de terras e escravos de São Paulo de "baluarte do escravismo". No imaginário dos grandes cafeicultores paulistas, em caso de abolição, a solução seria a imigração - reflexo da mentalidade que via negros e mestiços como incapazes de se adaptarem ao novo sistema da trabalho. Isto explica, em parte a hostilidade de negros e capoeiras aos políticos republicanos

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