2 o jogo da capoeira



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Por outro lado, no Partido Liberal era de se esperar uma forte militância anti-escravidão. Mas os liberais preferiram despertar a classe média para o perigo dos negros na política.

Quando a campanha abolicionista ganhou a rua e foi obrigada a se relacionar com os capoeiras (que dominavam as ruas), esta ligação não podia ser mostrada às claras: os abolicionistas, semelhante ao Partido Liberal, desejavam conquistar a classe média que tinha horror aos capoeiras.

Esta relação entre a capoeiragem e os abolicionistas foi marcada por idas e vindas. Soares (op.cit., 1994, p.222-223) cita os chefes de malta Cá-te-espero, Boca Queimada, Degas e Joaquim da Ponte como aliados do Partido Abolicionista por volta de 1885, e nos diz que a divisão maior das maltas em dois grandes grupos - Guaiamus e Nagoas - aparentemente resultava de uma cisão - paralela à do Partido Conservador - , no meio da capoeiragem, em relação ao tema da abolição.
Mas, para melhor entender a atuação das maltas nos úultimos anos do Império, é necessário uma referência à malta que instituiui uma nova estratégia e forma de ação ainda no início da década de 1870.

Eleição de 1872: a malta Flor da Gente, da Glória, teve papel decisivo nos violentos conflitos e na vitória dos conservadores. O patrono político da Flor da Gente era o parlamentar conservador, monarquista, e abolicionista, Luiz Joaquim Duque-Estrada Teixeira; o "Nhô-nhô da Glória".

Surge, com a Flor da Gente, um novo padrão e uma nova estratégia de ação para as maltas (que vai se repetir em 1888 com a Guarda Negra): ataques contra manifestações republicanas em público; exibição da posição politica da malta agressora; ataques em grupo no centro da cidade. Um padrão diverso das emboscadas do capanguismo - o capanga/matador é substituído pelo grupo -; e diferente dos conflitos usando os "fósforos", falsos eleitores, na época de eleição - o grupo age a todo momento, controlando parte da cidade e agindo contra afrontas a seus membros, e não somente e em função das eleições.

O uso de capoeiras não era exclusivo aos Consevadores, mas com a Flor da Gente aparecia um método de fazer política:

- ligado ao espaço das ruas (em oposição à política fechada dos gabinetes);

- dirigido contra o partido adversário (e também contra o restante da sociedade; uma mensagem ligada à formas de identidade, e uma presença no contexto político dominante);

- autônomo (em oposição ao que havia na capangagem da zona rural), pois por mais ligação entre a capoeira e conservadores, não havia um laço de dependência estrita com seu "patrono".
"A Flor da Gente adquiriu consciência de sua força e agora reune-se `_a luz do dia, combina planos, assalta estabelecimentos políticos, e a polícia 'desfardada' compactua com ela, enquanto a polícia fardada assiste com um sorriso de escárnio a estes infames espetáculos".

A República, 2/3/1873
Alguns anos depois, em 1880, estoura a Revolta do Vintém contra a taxa de transportes urbanos imposta pelo Visconde de Ouro Preto, do Partido Liberal que estava de novo no poder desde 1878. Durante três dias o centro do Rio viveu momentos de terror. Populares, trabalhadores livres, escravos, e uma quantidade de desordeiros e capoeiras percoriam as ruas arrancando trilhos, virando bondes e entrando em luta com a polícia.

Soares vê na Revolta do Vintém "representava um patamar novo de um conflito que antes era exclusividade da elite senhorial" (op.cit., 1994, p.217) e, desta forma era uma espécie de continuação de um modelo que tinha se iniciado com a Flor da Gente. Além disto, a atuação dos capoeiras contra o Partido Liberal, que estava no poder, lança dúvidas sobre a tese de alguns autores, atuais e também da época da monarquia, de que as maltas eram manobradas por liberais e conservadores - como se as maltas tivessem uma curta visão do jogo político, não tivessem uma percepção moldada por uma vivencia social e política, e estivessem sempre ao dispor dos poderosos do momento que pudessem fornecer benesses imediatas.


E, por outro lado, durante toda esta década de 1880, tanto no governo liberal quanto nos conservador, os jornais constantemente denunciam a existência de um "corpo (policial) de secretas" ligado diretamente aos mais altos escalões e formado por capoeiras recrutados na prisão - mostrando até que ponto a capoeira e as "classes perigosas" tinham se infiltrado na instituição policial,

É curioso notar que se as maltas que se reuniam em dois grandes grupos - Guaimus e Nagoas - possam talvez ser associadas as duas grandes organizações cariocas contemporâneas (2004) de tráfico de drogas - Comando Vermelho e Terceiro Comando - que reunem as diversas gangues que controlam diferentes áreas da cidade do Rio de Janeiro; talvez possamos também fazer um paralelo do "Corpo de Secretas" da década de 1880 com o famigerado "Esquadrão da Morte" - um grupo mixto de policiais e marginais que atuou no Rio durante a década de 1970, no meio da ditadura militar 1964-1984, mostrando que modelos desenvolvidos nos 1800s foram de novo retomados nos 1900 tardios e até mesmo no início dos anos 2000 talvez porque o sistema social não tivesse mudado ao ponto de oferecer outras alternativas às "classes populares" e às "classes perigosas que advém delas.


No fim dos 1880s, em 1888, dezeseis anos depois da Flor da Gente, outro acontecimento marcante e significativo: a terrorista Guarda Negra, composta de negros capoeiras, criada para salvar a monarquia e lutar contra os republicanos. E mesmo autores de obras clássicas de grande valor, como Waldeloir Rego (Capoeira Angola, 1968), analisaram a Guarda Negra como "uma associação de fanáticos" manobrados pelas classes hegemônicas:
... nasceu sob inspiração de José do Patrocínio e com a proteção de verbas secretas da polícia... os dirigentes da Guarda Negra exploraram os sentimentos de gratidão dos negros libertos, a 13 de maio de 1888, para defenderem a Princesa Isabel e como era de se esperar incorporaram-se todos os capoeiras e mais toda uma avalanche de desordeiros e delinquentes... Era uma associação de fanáticos._105
Este episódio da Guarda Negra foi enfocado por muitos historiadores, com as mais diversas interpretações.

Carlos E. Soares cita_ Osvaldo Orico - "(a Guarda Negra como) expressão dos sentimentos de ëgratidãoê dos negros" -; Raimundo Magalhães Junior - "continuidade da ação política de Patrocínio, que buscava se projetar enquanto representante político dos negros" -; Rebecca Bergstresser - "expressão da autonomia política dos negros no colapso da escravidão" -; Maria Lucia de Souza Rangel - "aliciamento e manipulação da vontade política dos negros" -; Michael Trochim - "símbolo de emergência de um novo patamar da questão racial... herdeira das organizações negras do período colonial, como as Irmandades" -; Flavio dos Santos Gomes - "linhas que podem levar à reconstrução do imaginário político dos libertos de 1888". Soares, por sua vez, apresenta sua versão: as diversas interpretações estão geralmente centradas no período que vai do 13 de maio de 1888 até a Proclamação, no entanto a Guarda Negra deve ser entendida como um capítulo de uma saga mais ampla.


[as maltas de capoeira eram] uma história que dominou a vida da corte por, pelo menos, vinte anos. Uma tradição que tem relação direta com a Flor da Gente, e com os capoeiras do Partido Conservador... A ânsia de participar de um processo que lhes afetava diretamente, como os negros da Flor da Gente. E uma tentativa de influir nos níveis mais altos do poder, como a Guarda Negra. 106
Soares aprofunda a questão argumentando que, na verdade, haviam "dois projetos de Guarda Negra".

O primeiro seria uma "agremiação políticaa , com estatuto, eleições intarnas, e uma rede de alianças que vai desde os jornais da corte até os libertos (de 13 de maio de 1888)" (SOARES, 1994, p.231-233).

O segundo projeto era formar algo semelhante a extinta Flor da Gente, que teve seu auge em 1872, "um braço armado clandestino que espalhasse o terror entre seus adversários" (SOARES, 1994, p. 233). Este segundo projeto, com o beneplácito do poder central e mais próximo da tradição política e cultural dos capoeiras, foi aquele que vingou.
O período de maior repressão foi este, de 1850 a 1888, nos diz Julio Cesar Tavares:
... os negros estão nas ruas, o ambiente é crítico e caótico, e as condições já são bem favoráveis tanto à abolição quanto ao golpe militar que vai derrubar a monarquia...

Este golpe vai tentar organizar o caos. E organizar o caos significa disciplinar a população negra, pois o caos eram os negros fujões; eram os quilombos na periferia da cidade; eram os negros libertos perambulando para baixo e para cima; era uma quantidade infinita de capoeiras - mais especificamente no Rio de Janeiro -, que, em maltas ou individualmente, vendiam indiscriminadamente seus serviços para abolicionistas, liberais, conservadores, monarquistas, republicanos._107

No início do período que estamos enfocando - Rio de Janeiro, de 1850 a 1900 _ as maltas ainda eram formadas, em grande parte, de escravos negros e mulatos, com uma forte presença Africana "não boçal". Seu palco de ação eram as áreas centrais da cidade.

Aos pouco vemos a absorção de negros, mulatos, e caboclos libertos; de imigrantes pobres portugueses - os engajados -; de malandros do Porto e de Lisboa - os fadistas -; de jovens portuguese ricos, violentos e debochados - os marialvas -; de jovens brasileiros da aristocracia e da corte - os cordões, os margaridas -; intelectuais; oficiais e praças das coorporações militares; políticos e advogados; etc.

A medida que isto vai acontecendo, as maltas com forte referência africana vão se deslocando das áreas centrais da cidade para a periferia. No centro da cidade vamos encontrar maltas de tradição preponderantemente nativa (ladinos e creoulos) que, aos poucos, absorvem portugueses, estrangeiros e brasileiros de todas as províncias, especialmente a desmobilização dos soldados no fim da Guerra do Paraguai no final dos 1860s.

No entanto, todos - brancos brasileiros e estrangeiros de diferentes classes sociais, ou negros escravos e libertos, independente da malta a que pertenciam - beberam na fonte original das maltas de escravos africanos - muitos chefes de maltas "mistas" eram africanos mais velhos que os outros membros, algumas vezes com cinquenta anos ou mais: "as maltas relativamente maiores sempre contam com a presenca de pelo menos um africano, sempre o mais velho do grupo... portador da mem´ria cultural, e que tem importante papel na reprodução simbólica do grupo" (SOARES, 1994, p.117-118). Talvez isto ajude a entender "a permanência da tradição nagô mesmo quando os africanos desapareceram dos regisros (policiais), no limiar dos anos 1880" (SOARES, 1994, p. 112).


O desaparecimento definitivo dos africanos do mundo da capoeira na década de 1880 aparentemente significou o rompimento com uma tradição, criando uma lacuna. Mas precisamos ter claro como os mecanismos de reinvenção cultural funcionam a partir da releitura do passado e da legitimação dee seus símbolos por meio de novas visões, vistas como tradicionais (SOARES, 1994, p.119)
Estes mecanismos, apontados por Soares, são particularmente interessates para nós. Nos veremos ações e cenários que nos remetem a estes - maltas nos 1880s -, quando estudarmos o "renascer" da Capoeira Angola, um século mais tarde, por volta de 1985.
Outra característica importante, que veremos que vai se repetir muito mais tarde, na expansão da capoeira no Brasil - especialmente de 1990 a 2005 -, e também fora do Brasil - de 1970 a 2005 -, se refere à faixa etária dos capoeiras.

Em 1863 - começo da passagem das maltas da "capoeira escrava com forte influência africana (ladina e não boçal, i. é, já adaptada ao Brasil)" para as maltas de "elementos de classes sociais diferentes" -, os registros policiais estudados por Soares mostram que 1/3 dos capoeiras escravos e africanos presos, tinham mais de 35 anos, 1/2 tinham entre 25 e 35 anos, e apenas 8% tinham entre 21 e 25 anos.

Neste mesmo ano, 1863, entre os capoeiras escravos e creoulos (nascidos no Brasil) presos, encontramos a mesma 1/2 entre 25 e 35 anos; no entanto, entre os maiores de 35 anos (1/3 entre os africanos) a percentagem diminuiu muito; enquanto isto, a faixa mais jovem, de 21 a 25 anos, aumenta de 8% para 28% (praticamente substituiu a faixa mais idosa de mais de 35 anos); e aparecem as faixas de 15 a 20 anos (12%) e os "carrapetas" com menos de 15 anos (5%).

Com o passar dos anos, e a absorção de outros grupos sociais, vemos também a percentagem das faixas etárias se modificando radicalmente com a entrada e absorção de contingentes cada vez mais jovens, inclusive os meninos "carrapetas".


Outra curiosidade levantada por Soares é que, ao contrário do que se esperava, não predominaram os "vadios" sem profissão, nem os "trabalhadores de rua", nem mesmo os "negros de ganho":

- em 1863, nas maltas de capoeiras escravos, temos 14% de "trabalhadores de rua" face a 82% de "artesões (56,5%) e domésticos (25,3%)", e apenas 4% de vadios;

- em 1881, nas maltas compostas por escravos e livres, temos apenas uns 10% de "trabalhadores de rua" face a 60% de "artesões e domésticos", os "vadios" contavam 20%;

- em 1890, temos uns 22,5% de "trabalhadore de rua" face a uns 54% de "artesões (38,1%) e domésticos (11,4%) e comércio (4,5%)", os "vadios" continuam a crescer atingindo 23,5%.

Como pudemos ver, os "artesões e domésticos" mantem uma mesma percentagem, os "trabalhadore de rua" variam, e os "vadios" crescem progressivamente.

Eu me pergunto: o que será que isto quer dizer?

Que (entre outras coisas) só a partir dos 1880s a capoeira atingiu uma posição tal que era possível viver exclusivamente dela (e não trabalhar)?

Será aí que começa a aparecer o "avô" do malandro, tão decantado nas décadas de 1920 e 1930 no Rio?

Será aí que nasce a "tradição" da "vadiação" (a capoeira vai ser chamada de "vadiação" em Salvador, nos 1950s e 1960s)?
Por volta da Abolição (1888), as maltas locais agrupavam-se em dois grandes grupos. Esta divisão tinha a ver com a cisão que a questão Abolicionista causara no Partido Conservaor. As origens da cisão, nas maltas, talvez tenha origem "na época da entrada maciça de homens livres na capoeira" (SOARES, 1994, p.225), isto é, por volta de 1850, conforme vimos acima.
As duas grandes maltas, que abarcavam as outras menores, eram:

- Os Nagoas, ligados aos monarquistas do Partido Conservador, usavam a cor branca como emblema. Inicialmente - começo do século XIX - eram uma tradição escrava e africana, e dos baianos seguidores da religião dos orixás. Sua área abarcava a periferia da cidade.

Soares aponta o desembarque dos Minas no Rio de Janeiro, após o fracasso da rebelião de 1835 em Salvador, com as origens dos Nagoas e de suas tradições.
Os nagoas se ecastelavam XXXXXXXXXXX........

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.......... (SOARES, 2001, p.118)
- Os Guaiamus, ligados aos republicanos do Partido Liberal, usando a cor vermelha. Inicialmente uma tradição nativa ("creoula" ou "ladina"), absorveu também os imigrantes pobres portugueses - os engajados - e também os fadistas, malandros da Mouraria lisboeta. Os Guaiamus controlavam a parte central da cidade.
Em 1888 XXXXXXXXXX

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XXXXXXXXXXXXXX (SOARES, 2001, p.225)
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XXXXXXXXXXXXXXX (SOARES, 2001, p.46 e p.87)

Na capoeira carioca do século XIX, o canto era parte integrante da capoeiragem carioca, o tambor idem, mas o berimbau não. Os capoeiras profissionais vestiam-se dentro um certo estilo; o chapéu desabado - na frete ou atras, conforme a malta - fazia parte deste modelito. Os diferentes grupos tinham diferentes assovios com os quais se comunicavam e davam aviso - mais de um foi preso por "assoviar como capoeira".

Não haviam as rodas, como as entendemos hoje. E nem o jogo era semelhante, embora existissem as pernadas, cabeçadas, bandas e rasteiras. Não existiam, evidentemente, academias como as de hoje, e sim maltas de capoeira. Mas o ensino já era, de certa forma, estruturado:
E no mesmo Largo da Sé encontramos um registro raro sobre aulas coletivas, ministradas por um capoeira completo e assistidas por seleta platéia (Diário do Rio de Janeiro, 11/3/1872):
Parece averiguado que o Largo da Sé é o campo escolhido para os recrutas da arte. Ontem, as duas horas da tarde, José Leandro Franklin, veterano experimentado, e o noviço Albano, aquele ensinando, este aprendendo as artes e agilidades da capoeiragem, foram surpreendidos nos seus estudos pelos guardas urbanos, que mudaram-lhes o curso para o xadrez da polícia. À preleção de Franklin assistiam muitos colegas,e talvez aspirantes, mas estes infelizmente evadiram-se...

Do outro lado da cidade, outra malta, adversária das hostes dos nagoas, reunia-se nas proximidades do Campo de Santana e se preparava para futuros combates, aparentemente sem um professor renomado (Diário do Rio de Janeiro, 4/1/1872):


"Quando a raça está ameaçada de morte, começam os cursos de aprendizagem, possivelmente para a organização de um novo corpo. Anteontem, às nove e meia da noite, segundo nos informam, um magote de pretos e moleques, empregados todos na estação de bondes à rua do Sabão do Mangue, estavam todos a ensaiar capoeiragem, fazendo grande algazarra, reunidos do lado da rua Miguel de Frias, proferindo obscenidades".

Fica fácil perceber que a capoeira era uma fixação da puberdade e da adolescência na cidade do Rio. Inúmeros jovens, mesmo alguns da elite eram facilmente seduzidos pela beleza da acrobacia e da agilidade que até hoje faz o sucesso da capoeira nas gerações mais jovens. A faixa etária daqueles presos como capoeiras, que estudaremos no capítulo seguinte, denota a majoritária presença de jovens entre 15 e 20 anos._108


Também é importante notar que o "magote de pretos e moleques" eram "empregados na Estação de Bondes". Ou seja: a capoeira carioca de 1850-1900 além de não ser exclusiva aos negros escravos africanos "ladinos", como na primeira metade do século, também não era exclusiva aos vadios, marginais e desocupados.

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XXXXXXXXXXXXXXXX (SOARES, 2001, p.82 e p.84)

Plácido de Abreu (Os capoeiras, 1886) nos diz que na base das maltas estavam os "caxinguelês" ou "carrapetas", os menores aprendizes. Depois vinham os "capoeiras amadores", os que não se alinhavam diariamente nas gangues. Em seguida, os "capoeiras profissionais" que conviviam no interior das maltas e praticavam abertamente a capoeira. Finalmente, os chefes de malta.

O processo de iniciação era um "rito de passagem", de moleque de rua a caxinguelê. Eles deviam acompanhar a malta em suas expedições guerreiras, como vanguarda. Carregavam as armas dos adultos, agindo como auxiliares; participavam dos treinos em locais ermos e depois nas praças, desafiando o aparato policial sem outra finalidade que alcançar prestígio dentro do grupo. Em seguida entravam no espaço da violência, enfrentando indivíduos mais fortes. O final do aprendizado era marcado pela posse da navalha e o uso do chapéu. A passagem de um nível a outro não se fazia somente pelo ritual (aprendizado e rito de passagem); era necessário consenso do grupo para chegar a chefe de malta. A permanência no cargo envolvia um prestígio contínuo na malta e na sociedade; uma fama de terror ligada à bravura, força e valentia.

Nomes como Campanhão, Manduca da Praia, Trinca Espinha e Carrapeta se tornaram lendas.
Enquanto os marginais se mantinham ocultos, o capoeira primava pela notoriedade.

As aparições nas festas populares e os feitos de arrogante coragem, destreza corporal e exibicionismo exacerbado - por exemplo, os capoeiras escalavam os muros, paredes e torres das igrejas e cavalgavam os sinos com seus corpos, ariscando a queda e a morte, fazendo-os soar_ -, fortaleciam o prestígio da capoeira frente a população; prestígio refletido na crescente presença de adolescentes nos "exercêcios de capoeiragem" daquela época.

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XXXXXXXXXXXXXX (SOARES, 2001, p.93)

Moura111 cita o texto de "um trabalho divulgado pelo Anuário do Jornal do Brasil (1924)", que nos dá uma idéia da maneira de ser dos chefes de malta e da construção da identidade dos capoeiras, por volta de 1880:


Certo dia, à frente de um batalhão, passando pelo Matadouro, situado na atual Praça da Bandeira, (Campanhão) encontrou um magarefe, com quem já havia tido uma rixa. O magarefe, chamado Gigante, vinha de seu serviço com uma machadinha ao ombro. Ao vê-lo, Campanhão de navalha em punho gritou-lhe:

"Vem armado? Gosto de brigar com um homem assim".

E dizendo isto, atirou-se para Gigante de navalha aberta. Gigante deu um salto e, avançando para seu contendor, de um golpe de machadinha decepou-lhe o ombro direito.
Existia também um complexo mecanismo cultural que presidia o conflito entre grupos, conformando uma tradição que era rigidamente respeitada. Sempre que uma malta invadia território adversário com os "carrapetas" à frente, provocando e desafiando, era dia de festa religiosa, nacional, ou dia de folga da escravaria urbana. Plácido de Abreu (1857-1894) - "português radicado no Rio... figura das mais relevantes nos anais da capoeiragem... pereceu numa cilada planejada por um militar traiçoeiro num túnel de Copacabana" em represália a sua adesão à Revolta da Esquadra, em oposição "às ações arbitrárias, ditatoriais de Floriano Peixoto"112_ -, em seu livro Os Capoeiras, de 1886, conta que:
... se os chefes decidiam que uma questão fosse resolvida em combate singular, enquanto os dois representantes das cores vermelha e branca se batiam, as duas maltas conservavam-se à distância e, fosse qual fosse o resultado, de ambos os lados rompiam aclamações ao triunfador.

A chegada da polícia desarticulava os dois grupos que fugiam de forma organizada.


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XXXXXXXXXXXXX(SOARES, 2001, pp.175-176)

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XXXXXXXXXXXXXXX(SOARES, 2001, pp.9-10)

Finalmente, com a República e seu primeiro Código Penal - capítulo "Dos vadios e capoeiras", artigo 402, 11/11/1890 -, a capoeira é posta oficialmente fora da lei:
Art. 402: Fazer nas ruas e praças públicas exercêcios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação de capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal.

Pena - Prisão celular de dois a seis meses.

Parágrafo único: é considerado circunst‚ncia agravante pertencer o capoeira a algum bando ou malta. Aos chefes e cabeças se imporá a pena em dobro.
Art.403: No caso de reincidência será aplicado ao capoeira, no grau máximo, a pena do art. 400.

Paragrafo único: Se for estrangeiro, será deportado depois de cumprir a pena.


Observamos, no próprio texto da lei, alguns aspectos vistos:

- a presença de estrangeiros;

- a presença de capoeiras atuando individualmente, e a presença das maltas (pena em dobro);

uma organização paramilitar com seus chefes e cabeças (pena em dobro);

- "correrias" organizadas;

- o uso de armas;

- a provocação de tumultos e desordens;

- a recusa ao trabalho ou, apesar do trabalho, a equiparação aos vadios (a capoeira será chamada, na Bahia dos 1900s, de "vadiação");

- o medo, informe, "incutindo temor de algum mal" , não mais das revoltas para a tomada do poder, mas dos pequenos grupos e dos corpos negros e mulatos.
Porém o mais interessante e que mereceria um maior estudo é a questão - a primeira a ser enfocada pela lei - da "agilidade e destreza corporal".

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