2 o jogo da capoeira



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Poderíamos evocar o pensamento escravista: o corpo dos negros escravos eram propriedade do senhor e destinados ao trabalho. Ou ainda, o cerne da dissertação de Julio Cesar Tavares, "Arquivo-arma": no corpo - arma física e arquivo de saber - estariam guardados importantes elementos da cultura a ser destruída.

Mas poderíamos ir um pouco mais longe, inspirando-nos na conotação sexual do trabalho de Gilberto Freire: os corpos das negras e especialmente das mulatas eram vistos como mais lúbricos e mais próprios para o sexo que o das brancas - "negra pra cozinhar, mulata pra foder, branca pra casar". Talvez, por extensão, o dos negros e mulatos também o fossem, despertando a ira; "incutindo o temor de algum mal" advinda de um medo de impotência, de menor poder sexual, da atração que - quem sabe - aqueles corpos de "agilidade e destreza pessoal" poderiam exercer sobre as esposas, mães, matronas, e filhas dos senhores brancos.
Soares aponta113 que_ a capoeira no Rio do século XIX foi algo rico e bastante complexo:

1. Exprimiu uma política de rua (a luta das maltas se confundia com os embates políticos-partidários da elite);


2. Foi importante na história das relações raciais do Rio de Janeiro: atraía negros (escravos e libertos), intelectuais, militares, políticos, ricaços que frequentavam o meio boêmio, estrangeiros de diversas origens (e diferentes classes sociais), jovens e adultos de origens diversas. Isto mostra a sua flexibilidade e capacidade de incorporar novos grupos; capacidade evidenciada também após 1970 quando a capoeira migra para o estrangeiro e seduz, cada vez mais, os jovens dos chamados Pazeises Centrais.
3. Sintetizava o êxito da cultura africana em amoldar-se e transformar-se face a um novo ambiente;

4. O agravamento dos conflitos que dividia "crioulos" de "boçais" (posterior ao encorajamento à divisão por etnias que durou até aproximadamente 1814) teve continuidade na relação guaiamus e nagoas e foi introjetado entre os livres de todas as cores;


5. A capoeira foi - muito mais que paradigma de "vadiagem" - instrumento indispensável no exercício de diversas profissões urbanas ("o magote de pretos e moleques" que estavam a "ensaiar capoeiragem", no Campo de Santana em 1872, eram ê"empregados todos na estação de bondes");
6. As maltas tiveram papel decisivo no jogo político do fim do século XIX e não foram apenas instrumentos manipulados pelos estamentos hegemônicos: os capoeiras mostraram ter aguda percepção da ação política da elite branca, e também dos seus possíveis aliados (nesta elite);
7. A capoeira se caracterizou como fortíssimo fenômeno de mídia, ocupando nos jornais um espaço similar ao que hoje se dedica ao tráfico de drogas e crimes. Machado de Assis comenta:
Capoeira é homem. Uma das características do homem é viver com o seu tempo. Ora, o nosso tempo (nosso e do capoeira) padece de uma coisa que poderíamos chamar de erotismo da publicidade... nunca essa espécie de infecção chegou ao grau que vemos._114

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XXXXXXXXX(SOARES, 2001, pp236-237)


Esta capoeiragem carioca "mestiça", como a querem vários autores, ou talvez "acolhedora de diferentes estamentos e cores de pele"; diversa da baiana - com "um fio-terra ligado à religião"_ -, por estar radicalmente voltada para a parte de luta - talvez "com um fio-terra ligado aos militares e policiais" -; vai ser desbaratada e praticamente extinta pela perseguição policial na passagem do Império para a República.

Nas décadas seguintes, a capoeiragem das maltas vai enxamear o imaginário carioca e especificamente o do samba desembocando na figura cantada, encantada e decantada do valente/malandro, nas décadas de 1920 e 1930.

Terá prosseguimento com mestre Sinhozinho, de 1930 a 1960, na Ipanema de Tom Jobim; e com sua contra-parte "escura" na Lapa, com o valente, malandro e homosexual Madame Satã. Mais tarde, nos subúrbios cariocas, com mestre Artur Emídio, baiano de Itabuna que chegou ao Rio em 1953, trazido pelo lutador Valdemar Santana para participar de lutas de ringue do tipo "vale-tudo"; pelo baiano Paraná; pelo angoleiro de Salvador, Mário Bomfim.

E, pouco mais tarde, na década de 1960, a capoeira de maltas dos 1800 vai enxamear o espírito dos jovens e aguerridos adolescentes do Grupo Senzala do Rio de Janeiro (também fortemente marcados por Bimba) e, através da Senzala, influenciará a capoeira de todo o Brasil, no período 1965-1985, justamente durante o processo de inacreditável expansão quando o estilo regional-senzala foi hegemônico no Brasil e no exterior.


Os conflitos das maltas pelo domínio de determinados territórios e por uma maior participação no processo político, terá continuidade nos conflitos entre grupos de capoeira contemporânea pela hegemonia do universo da capoeiragem e pelo mercado de alunos.

A extrema mobilidade das maltas, sua "estratégia sinuosa", pode ser apreciada, em nossos dias, nos jovens mestres que viajam, por conta própria e sem apoio algum do governo ou entidades privadas, e se establecem no estrangeiro, fundam academias de capoeira, montam shows, viajam pelo mundo.


No entanto, a memória desta capoeira marginal carioca - as maltas do final do século XIX - muito mais ativa e visível na mídia que suas irmãs baiana e pernambucana, vai ser, em menos de duas décadas, rapidamente apagada da memória oficial e até mesmo da memória da marginalidade- Madame Satã (1900-1976), p. ex., não menciona as maltas uma única vezem suas memórias -, só voltando a tona na década de 1980 com livros e teses enfocando o assunto.
Por outro lado, existe uma grande semelhança entre as maltas de cem anos atrás e as atuais gangues carioca do narcotráfico.

Espalham-se por toda a cidade, muitas vezes nas mesmas áreas das antigas maltas, e agrupam-se - estas de agora como as de antanho - em dois grandes grupos, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando.

Entre seus integrantes, é grande a participação de adolescentes e também pivetes denominados "aviões", que levam pequenas quantidades de drogas para os consumidores que não sobem o morro, ou "olheiros" , vigias contra eventuais sortidas da polícia ou de gangues inimigas que queiram lhes roubar tomar o êponto".

Existe, também, um "rito de iniciação" e uma hierarquia até se chegar a "gerente da boca" - o equivalente a chefe de malta. Há ligações com altas patentes policiais, políticos e militares, sem falar de banqueiros solidamente estabelecidos que "lavam" o imenso movimento diário em dinheiro. Estão constantemente na mídia como vetores de violência, semelhante aos capoeiristas de outrora.

Seus membros pertencem, em grande parte, às classes sociais descendentes dos africanos que atualmente moram nas favelas, embora existam, em seu meio e como canais de extensão das "bocas", jovens traficantes da classe média e da burguesia semelhantes aos "margaridas" e "cordões" da época das maltas.

Em suma, todo um quadro apontando que muito pouco foi feito e muito pouco mudou na área social apesar de constatarmos mudanças tecnológicas - fuzis automáticos AR-15 em vez de navalhas.


Constatamos a vitalidade de uma estratégia carioca de interação, baseada na violência e no jogar nas "rachaduras do sistema" (posterior à estratégia de sedução que originou o malandro).

Constatamos como um segmento popular - as maltas de capoeiras - aparentemente extinto, até mesmo em sua memória, pode enxamear as estratégias de segmentos "harmônicos", em um tempo futuro, em seus embates com o poder hegemônico. Talvez devido às estratégias e modelo de dominação/exploração terem permanecidas as mesmas.


... desde o modelo patrimonialista português transplantado - onde o rei é senhor do Estado, dirigindo-o como sua própria empresa, secundado por uma camada governante que comanda, disciplina e controla a economia e os núcleos humanos -, até o modelo atual, na verdade bastante semelhante mas, agora, com um estamento tecnoburocrático no lugar da camada principesca e um setor - imprensa escrita, radiodifusão, e especialmente a televisão - responsável pelo controle do imaginário deste modelo (uma grande família chefiada por patriarcas benevolentes). Setor este, que para manter a fachada liberal deveria caracterizar-se pelo pluralismo, e na verdade é controlado por apenas nove clãs. Este modelo, que introduziu, no Brasil, a escravidão e a monocultura; que colocou o poder "nas mãos de clãs fundadas em relações consangüíneas, mas sempre abertas às cooptações por alianças patrimoniais e políticas"; vai gerar um estamento burocrático. E embora apareçam, mais tarde, com o crescimento econômico/populacional e o surgimento de centros urbanos, outras categorias sociais - funcionários, comerciantes, profissionais liberais -, o modelo original permanecerá praticamente o mesmo: um Estado patrimonialista associado a clãs do estamento patrimonial dominante.116
Para fechar este capítulo e o século XIX vamos render homenagem à luminosa figura de Manuel Raimundo Querino (18??-1924)
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XXXXXXXXXXXXX (SOARES, 2001, pp.12-13)
2.1.4. - A MARGINALIDADE; RIO, RECIFE E SALVADOR: 1900 - 1930
-Mas que é isto, Rodolfo?

- Que é isto? É o fim, meu bom amigo, é o fim. Não há quem não tenha o seu vício, a sua tara, a sua brecha. Eu tenho um vício que é positivamente a loucura. Luto, resisto, grito, debato-me, não quero, não quero, mas o vício vem vindo a rir, toma-me a mão, faz-me inconsciente, apodera-se de mim. Estou com a crise. Lembras-te de Jeanne Dambreuil quando se picava com morfina? Lembras-te do João Guedes quando nos convidava para as fumeries de ópio? Sabiam ambos que acabavam com a vida e não podiam resistir. Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem que se sente doido.

João do Rio, Dentro da noite, 1910.

IN Os melhores contos de João do Rio. SP: Global Ed., 1990.


Exercitavam-se em jogos de agilidade e destreza corporal, com imenso gáudio dos embarcadiços e marujos, que entre baforadas de fumo, impregnados de álcool, gostosamente apreciavam tais exercícios.

Elísio de Araújo, 1898.



Estudo histórico sobre a Polícia da capital federal, 1808-1831. RJ: Tip. Leuzinger, 1898, pp.55-62.
No começo do s.XX, o ópio e a morfina já eram populares entre a boemia artística e uma pequena parte da burguesia carioca - eram vícios "refinados", importados da Europa, de Paris - e, na época, seus usuários não eram perseguidos pela polícia; a droga podia ser obtida, sem esforço, nas "pharmácias".

A maconha, por sua vez, já era velha conhecida, porém considerada droga de negros, da ralé pobre, dos vagabundos pé-de-chinelo. A cocaína que, junto à maconha, se transformaria no "motor" propulsor das gangues do tráfico - Terceiro Comando, Comando Vermelho, etc,. a partir dos 1970s, no Rio de Janeiro -, também era conhecida e utilizada, mas ainda não era "moda". Só nas décadas seguintes, 1920 e 1930, é que se tornaria popular, comprada também nas farmácias em papelotes de papel vegetal semelhantes aos usados para drogas em pó da medicina homeopata. A alta do precø da cocaína, devido a sua popularização, na época do Noel Rosa, p.ex., foi motivo de escândalo: o papelote do pó de coca tinha ficado mais caro que a "ampola" de cerveja!

As drogas, assim com o álcool, o tabaco, o jogo, a prostituição, as casa noturnas, faziam parte do cenário - em especial no Rio do início dos 1900s - onde encontraremos o samba, a malandragem e a capoeira.
As informações da marginalidade no Recife e Salvador, entre 1800 e 1900, são menos numerosas que as do Rio de Janeiro. Mas, a partir de 1900, o quadro geral vai ficando mais equilibrado.

Em Recife, p.ex., Francisco Augusto Pereira da Costa, pela ótica do folclore - inaugurada por Manoel Querino, em Salvador, e que terá como figuras máximas Edison Carneiro e Câmara Cascudo -, escreve dois artigos, publicados em 1935, depois de sua morte (SOARES, 1994, p.34), sobre a capoeira pernambucana na passagem do s.XIX para o s.XX.


Neste periodo, a capoeira - do ponto de vista de alguns setores das elites (em especial no Rio de Janeiro) - deixa de ser "cancro citadino inextirpável" para se transformar numa potencial "gymnástica nacional".

O momento é de teorias raciais inspiradas no darwinismo social e de grandes mudanças, com as do prefeito Pereira Passos, "que tornariam o Rio uma Europa possível" e que mobilizam "metade do orçamento da União"117_.

A memória da capoeira marginal carioca, do final do século XIX, vai se apagando e sendo apagada da memória brasileira. Não só pelo enfoque e por estratégias da elite hegemônica - que ficarão mais claras ainda no próximo período, com Getúlio Vargas e o Estado Novo -, mas curiosamente também na própria memória do mundo marginal carioca.

Paralelo a isto, vamos observar a "construção" - as "invenções de tradições" de Hobsbawn - de uma capoeira "tradicional" baiana em duas versões:

- a capoeira angola com sua "pureza";

- e a capoeira regional - vetor primordial da expansão, no Brasil e estrangeiro, das décadas seguintes -, "deturpada" por absorver elementos de lutas alienígenas e por não dar a devida importância ao ritual.

Com um ponto-de-vista semelhante ao nosso, esta "tradicional" capoeira baiana foi entendida como uma "tradição inventada"118_ por Leticia Reis_.
Essa nítida imbricação entre a capoeira e a malandragem, no Rio de Janeiro do começo do século XX, levaria à desqualificação da capoeira carioca, sendo inclusive preterida pelas autoridades do Estado Novo em favor da capoeira baiana. Algum tempo depois, os dois mestres de capoeira mais conhecidos da Bahia, Bimba (da capoeira regional) e Pastinha (da capoeira angola), empenharam-se na legitimação social da capoeira-esporte, estigmatizando a capoeira do Rio como "coisa de malandro". Quando indagados à respeito da capoeira carioca, os dois mostram-se reticentes e tendem a desmerecê-la... Esta disputa travada em torno da "autenticidade" da capoeira insere-se num debate político mais amplo que envolve a construção das identidades regionais e a luta pela hegemonia da cultura negra no país.119

2.1.4.1 - RIO DE JANEIRO: 1900 - 1930


De um lado, o malandro (ver ê6 - Anexo, iconografia", ilustração 8), herdeiro deserdado (não tem mais a proteção dos políticos com quem interagia) e solitário (as maltas foram desbaratadas) da capoeira do século XIX:
Meu chapéu de lado.

Tamanco arrastando.

Lenço no pescoço,

Navalha no bolso.

Eu passo gingando,

Provoco e desafio,

Eu tenho orgulho

De ser tão vadio.

Wilson Batista, 1933.
No entanto, há quem diga que o próprio malandro - com suas insígnias e emblemas (terno de linho branco, chapéu panamá, sapato de duas cores, camisa de seda vermelha, navalha, andar gingado e pisar macio, o falar fluente e o gesticular característico) - encontrava resistência no seio do próprio samba, reduto e expressão artistica da malandragem. Noel Rosa profetizava que no "século do progresso / o revólver teve ingresso / para acabar com a valentia".

Ao nosso ver, este enfoque - a resistência ao malandro dentro do samba no início dos 1900s - resulta de uma confusão entre duas figuras do submundo: o valente e o malandro. Estes dois personagens - poderíamos dizer arquétipos (no sentido dado por C.G. Jung) com vestimentas brasileiras - às vezes se sobrepõe num mesmo indivíduo ou situação, e outras vezes se opõe (como no samba de Noel). As diversas figuras do submundo carioca e as confusões, entre elas e a figura do malandro, serão vistas com detalhe e carinho no capítulo "Ética".


Por outro lado - oposto ao malandro, ao valente, e ao discurso das ruas -, temos a "retórica elitista" dos primeiros anos do século XX (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 10).
A retórica elitista que justificava essa remodelação (com o engenheiro e prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, nos primeiros anos do século XX), a estética art-nouveau dos novos edifícios e mansões, como as medidas que em nome da higiene e do saneamento urbano definem a demolição em massa, o "bota-abaixo" dos cortiços e dos antigos casarios ocupados por populares, e as campanhas de vacina obrigatória, se por um lado ajustam efetivamente a cidade às novas necessidades de estrutura política e econômica montada e aos valores civilizatóros da burguesia, por outro, não consideravam os problemas de moradia, abastecimento e transporte daqueles que são deslocados de seus bairros tradicionais no Centro para a periferia, para o subúrbio, e para as favelas que se formam progressivamente por todo o Rio de Janeiro, definindo um padrão de ocupação e de convívio das classes na cidade que vai se tensionando ao longo do século.120_
O panorama da capoeiragem na República era outro, diverso da ebulição da época do Império.
Daí em diante (conclui Julio Cesar Tavares), a tendência foi o desaparecimento dos capoeiras cariocas. A redução foi grande; vários presos. Reapareceram alguns na Revolta da Vacina, em 1904, e depois na Revolta da Chibata, em 1910 - motim negro ocorrido em quatro navios, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro, contra o suplício e a tortura ainda existentes na Armada, vestígios da mentalidade aristocrática escravista._127
Os esforços do prefeito Pereira Passos e do sanitarista Osvaldo Cruz para tornar o Rio numa "Europa possível", sem "considerar os problemas" das classes populares, descambaram na chamada Revolta da Vacina (1904).
Nos anos seguintes, as reformas que têm seu apogeu no "bota-abaixo" provocado pelas transformações urbanísticas de 1904, tinham deixado muitos sem teto. Nas casas do Centro e da Saúde que haviam escapado do traçado das obras, a gente se apertava nas noites quentes... a campanha da vacina obrigatória foi desencadeada ainda naquele ano de forma autoritária pelos bairros pobres, já que a "gentalha" era considerada incapaz de compreender os benefícios da moderna ciência européia. A insatisfação é catalisada pelo uniforme cáqui dos oficiais da Saúde Pública que começavam a percorrer as ruas ao lado dos policiais. Osvaldo Cruz já fora vaiado na rua do Riachuelo pelos garotos dos cortiços... e uma revolta popular se desencadeia com enorme violência, sem que se possa detectar ao certo seu objetivo ou suas lideranças.

Era o dia 12 de novembro de 1904 e a luta nas ruas do Centro do Rio duraria quatro dias... Manduca [outro que o "da Praia", do século anterior], Pata Preta, capoeiristas e vagabundos da Saúde, são alguns dos nomes de revoltosos que ficam nos jornais, erguendo uma bandeira vermelha na barricada da rua da Harmonia, derrubando bondes no largo do Rossio, jogando saco de rolhas roubados contra os cavalariços embalados._128


Sobre este pano de fundo, insere-se a tentativa - de cima para baixo - de mudar a imagem da capoeira no imaginário carioca e brasileiro.
Entre finais do século passado (s.XIX) e princípios deste (s,XX), como vimos, já haviam sido realizadas as primeiras tentativas provenientes de certos intelectuais e pessoas da classe dominante da cidade do Rio de Janeiro de legitimar socialmente a capoeira enaltecendo-a como um "esporte nacional", criado pelo "espírito inventivo do mestiço"._121
Soares (1994, p.8), divide os escritores que enfocaram a capoeira em tres grupos:

- cronistas e pioneiros (1800s ao início dos 1900s), com (entre outros):

_ Manuel Antonio de Almeida (1852) e seu personagem, o valentão Chico Juca, das Memórias de um sargento de milícias;

_ Plácido de Abreu (1886, Os capoeiras) que nos descreve os Guaimus e Nagoas e também se arrisca quanto às origens: "uns atribuem-na aos pretos africanos, o que julgo um erro... o mais racional é que a capoeiragem criou-se, desenvolveu-se e aperfeiçoou-se entre nós";

_ Alexandre Mello Moraes Filho, com seu artigo na Revista Ilustrada (14/10/1889) defendendo a malta "Flor da Gente" e, mais tarde (1926), com Festas e tradições populares do Brasil; o "primeiro integrado a corrente da belle epoque... forjou um estilo a ser repetido...a capoeira se tornou um tema digno da pena dos literatos" (Soares, 1994, pp.10-11);

_ Elisio de Araújo (1889), com seu Estudo histórico sobre a polícia da capital federal 1808-1831, confirma muitos dos pontos que vimos, no Rio do início dos 1800s;

_ Aluísio de Azevedo (1890), com o mulato capoeirista, Firmo, de O Cortiço;

_ L.C. (1906), na revista Kosmos, com as excelentes gravuras de Kalixto:

_ O.D.C. (1907, O guia da capoeira ou Ginástica Brasileira), com um manual prático para treinamento de golpes e estratégia de luta;

_ Pires de Almeida (1908, Brazil-Album), anuncia a nova leva, onde "pela ótica do saber letrado, a capoeira sai do mundo do crime e entra no mundo da cultura";

_ Adolfo Morales de Los Rios Filho (1926), com uma série de artigos,"Capoeiras e capoeiragens", num jornal carioca muito popular, o Rio Sportivo;

_ Coelho Neto (1928, na revista portuguêsa Bazar);

_ Burlamaqui (1928);

_ Luis Edmundo (1938, O Rio de Janeiro de meu tempo), onde a tônica (em todos autores da belle epoque) era "a recuperação da capoeira" de crime - código de 1890 - para "luta nacional".

- Folcloristas (décadas de 1920 e 1930), com Manuel Querino, Edison Carneiro e Câmara Cascudo.

- Nova historiografia (a partir do final dos 1900s), com vários dos autores que temos citado e continuaremos a citar.


Nesta mudança de "doença moral" para "gymnástica nacional", Alexandre Mello Moraes Filho122_ é um dos admiradores da "herança mestiça", salientando o papel dos "verdadeiros capoeiras de fama", brancos e pertencentes às classes dominantes, e também dos valentes mestiços e negros chefes de maltas. Lamenta que de 1870 em diante - período que ainda estava razoavelmente vivo na memória carioca e não poderia ser tão facilmente maquiado -, com a navalha, a Flor da Gente, a Guarda Negra, além das ações das maltas em geral, a "nossa luta nacional" tenha sido deturpada pela violência e pelo "povo baixo".
Essa versão da capoeira, que a representa como um esporte - "a nossa luta nacional" -, procura afastar dela, ou pelo menos minimizar sua herança étnica africana, a fim de que lhe fosse possível, através do seu "embranquecimento", "civilizar-se", tornando-se então um dos símbolos de distinção nacional frente a outros países. As três representações da capoeira como "nacional", "esporte" e "mestiça" aparecem também no artigo "A Capoeira" publicado em 1906 (Revista Kosmos), cujo autor assina apenas com as iniciais L.C."_123
Soares (1994, p.11) comenta que este pequeno artigo, ilustrado com as belas gravuras de Kalixto, "retoma a linha iniciada por Mello Moraes, e prepara o caminho para o resgate definitivo da capoeira na mente dos intelectuais da época"; as "denúncias das 'barbáries' cometidas pelos navalhistas" ficavam definitivamente para trás. Vejamos um recorte deste artigo:
Dois grandes capoeiras, igualmente exímios, igualmente ágeis com conhecimentos exatos, perfeitos e totais do jogo, jamais se ferirão, a não ser insignificante e levemente, o que bem indica o grande valor defensivo que possui essa estratégia popular e que a coloca acima de todas as congêneres de qualquer outra nacionalidade.

(L.C. Kosmos, ano III, nº3, março 1906)


É interessante observarmos uma "construção de identidade" que já enfatizava, não só o alto grau de eficiência técnica - estes cronistas pioneiros já esperançosamente "profetizavam" algo que só vai efetivamente acontecer a partir dos 1960s, 50 anos depois, e se pudessem, hoje, início dos 2000s, testemunhar a excelência de grande número de jogadores no nível dos grandes atletas olímpicos, certamente ficariam extasiados -; mas também, além da técnica, L.C. resalta algo que soa extremamente "pós-moderno": "...essa estratégia popular".
Por outro lado, a parte técnica, de luta, foi descrita em vários manuais nestes últimos cem anos. E, curiosamente, tendo em vista a proibição de 1890, vários deles foram escritos por militares - "ilustrado e destinado ao manuseio, ao uso, dos seus companheiros de farda".

Em 1907, foi lançado um opúsculo, epigrafado "O Guia da Capoeira ou Ginástica Brasileira", de autoria de O.D.C. O folheto abrange cinco partes, que focalizam: I) - Posições; II) - Negaças; III) - Pancadas simples; IV) - Defesas relativas; V) - Pancadas afiançadas" (MOURA, Jair. 1993. P.35)

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