2 o jogo da capoeira



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Um ano depois, em 1908, é a vez de Pires de Almeida resgatar, em seu Brazil-Album (RJ, Tip. Leuzinger, 1908), "a capoeiragem como 'ginástica nacional', no apogeu da belle epoque" (SOARES, 2001, p.40) além de confirmar, como já vimos, as origens africanas:
a origem desse jogo prende-se inquestionavelmente às danças guerreiras de tribos ou nações africanas... como muito bem demonstra a tradição conservada pelas estampas de insuspeitos viajantes que aqui tivemos.
Supomos que estes viajantes poderiam ser o alemão Rugendas, com sua gravura "Jogar capüera ou danse de la guerre" (1834); o frances Debret, com os "negros volteadores" (1824); e, quem sabe, até mesmo a aquarela do ingles Augustus Earle, "Negros lutando" (1822). O detalhe - "insuspeitos viajantes" - nos remete às acaloradas discussões sobre a capoeira, entre os intelectuais da época. Lembra - e já institui a "tradição" - das discussões entre mestres de nossos dias onde, para se defender um ponto de vista (a existência do berimbau desde os primórdios, p.ex.), até já se incluiu um "acréscimo" à gravura de Rugendas (1834): um dos escravos segura um berimbau, ao invés da cana-de-açucar retratada originalmente pelo artista alemão.

É neste clima de efervescência que acontece a luta do negro capoeira Ciríaco com o campeão de jiujitsu japonês, Sada Miako, instrutor de luta dos oficiais da Marinha, o mais aristocrático ramo das forças armadas.


Ficou famoso o negro Ciríaco (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 9) que, em 1909, no Concerto-Avenida-Teatro, enfrentou Sada Miako, um japonês campeão de jiu-jitsu, vencendo-o com um único golpe. Sada Miako, após a luta, "continuou a ministrar os ensinamentos das regras do jiu-jitsu, difundidos pela Marinha do Brasil"130.

Conta a lenda que "Ciríaco deu uma cusparada no rosto do diplomata japonês" no próprio ato de se cumprimentarem, desnorteando-o, para em seguida acertá-lo com um rabo-de-arraia.

Outra versão : Ciríaco sabia que Koma tentaria "atropelá-lo", entrando por baixo com um "arrastão" (atinge-se o abdome do adversário com o ombro ou cabeça ao mesmo tempo que se puxa os tornozelos) - estratégia clássica do jiu-jitsu usada até hoje nos "Ultimate Fighting" e torneios de pancadaria realizados nos EEUU e Japão. Logo no início do combate, Koma entrou por baixo e tentou o "arrastão"; Ciríaco soltou o "rabo-de-arraia" (golpe rodado que atinge com o calcanhar) numa altura média, da cintura, pegando o adversário na cabeça.

Jair Moura_ recorta trechos do depoimento de Ciríaco ao jornal "A Notícia" (17/5/1909), à revista "A Careta" (29/5/1909), e à revista "O Malho" (13/8/1910):


O embate de Ciríaco da Silva com Sada Miako contribuiu decisivamente para a credibilidade, a difusão, o renascimento da capoeiragem, que atravessava uma fase de declínio, de ostracismo, desde os tempos da ofensiva desencadeada pelo Dr. João Batista de Sampaio Ferraz, o primeiro Chefe de Polícia do Rio de Janeiro republicano...

Com sua vitória, Ciríaco tornou-se o alvo de todas as atenções, mormente porque vários capoeiras já tinham sido postos fora de ação pela destreza, habilidade e vigor dos golpes demolidores de Sada Miako.


"Cheguei em frente com ele (declara Ciriaco ao jornal "A Notícia"), dei as minhas cuntinenças e fiz a primeira ginga, carculei a artura do negrinho, a meiada das pernas, risquei com a mão pra espantá tico-tico, o camarada tremeu, eu disse: antão? como é? ou tu leva o 41 dobrado ou tu está ruim comigo, pruque eu imbolá, não imbolo. O japonês tremeu, risquei ele por baixo, dei o passo da limpeza gerá, o negrinho aturduou, mexeu, mas não cahio".
O repórter inquiriu sobre a reação da platéia que, entusiasmada, incitava Ciríaco e aplaudia o seu desempenho espetacular, gritando: "Aí, Ciríaco! Entra com teu jogo inteiro!".
"Eu me queimei e já sabe: tampei premero, distroci a esquerda, virei a pantana, e oiá o homê levando com o rabo-de-arraia pela chocolateira. Deu o ar comprimido e foi cumê poeira. Ahi eu fiz o manejo da cumprimentação e convidei o home pro relógio de repetição, mas o gringo se acontentou com a chamada e se deu por satisfeito"... "Você a princípio não queria dar a mão ao japonês?" Retrucando, o interrogado esclareceu: "Quá o que, meu sinhô: se ele quizé eu dou as duas mão e atiro com ele pru cima do piano, da música e até das madamas dos camarotes".131
As declarações de Ciríaco não confirmam o mito da cusparada nos olhos - vitória sem fair play -; nem a versão de que, logo nos primeiros instantes da luta, Koma tentou o "arrastão" e Ciríaco soltou o "rabo-de-arraia" pegando o adversário na cabeça - vitória por um "golpe de sorte" e/ou "esperteza".

Na versão do capoeirista, o golpe fatal foi dado após alguns momentos de estudo: Ciríaco desnorteou o adversário com a ginga; fintou um tapa ("...risquei com a mão pra espantá tico-tico"); tentou derrubar com a "rasteira" ("risquei ele por baixo... mexeu, mas não cahio"); movimentou-se, enganando e novamente desnorteando o adversário ("tampei premero, distroci a esquerda, virei a pantana"); para só então desferir o "rabo-de-arraia na chocolateira" (cabeça).

Pode-se compreender a força do mito da "cusparada" por estar baseado na "falsidade" (uma "qualidade", no entender dos capoeiristas) da capoeira. Pode-se também compreender o potencial de uma explicação da vitória de Ciríaco, baseada na "esperteza" (Ciríaco prevendo que Miako iria "entrar agarrando por baixo tentando levá-lo para o chão, para a luta agarrada") e o fim da luta com um único "golpe de sorte". Ainda mais que o próprio capoeirista recusava-se a lutar agarrado ("...antão? como é? ou tu leva o 41 dobrado ou tu está ruim comigo, pruque eu imbolá, não imbolo").

Por outro lado, entende-se também a surpresa geral face a vitória de Ciríaco ("tornou-se o alvo de todas as atenções, mormente porque vários capoeiras já tinham sido postos fora de ação pela destreza, habilidade e vigor dos golpes demolidores de Sada Miako").

Vigorava um diagnóstico depreciativo, uma "ideologia do pessimismo" (que irá desaguar em Moreira Leite, "O caráter nacional brasileiro", 1968) do "homem brasileiro" desde o Visconde de Taunay, no Segundo Reinado, com suas esperanças da redenção antropológica atrvés de uma imigração dos povos da Europa do Norte (alemães, escandinavos). Era necessário justificar a vitória do negro brasileiro sobre o estrangeiro, contratado para "ministrar os ensinamentos das regras do jiu-jitsu, difundidos pela Marinha do Brasil" - o ramo aristocrático da Forças Armadas Brasileiras -, alegando uma "traição" ou "esperteza". Seria impensável imaginar que Ciríaco - negro capoeira - pudesse sair vitorioso em condições de fair play embora o capoeira testemunhase que no início da luta "cheguei em frente com ele e dei as minhas cuntinenças" e que, após o "rabo-de-arraia" demolidor, "fiz (novamente) o manejo da cumprimenação e convidei o homê pro relógio de repetição, mas o gringo se acontentou com a chamada e se deu por satisfeito". Na fala do reporter nota-se claramente a dúvida, a incredulidade numa vitória "honesta" de Ciríaco: "você, a princípio, não queria dar a mão ao japonês?"; e, mesmo tantos anos depois, sentimos claramente o despertar da irritação do capoeira que comprende claramente os preconceitos do sinhô jornalista: "quá o que, meu sinhô: se ele quizé eu dou as duas mão e atiro com ele pru cima do piano, da música e até das madamas dos camarotes".

Ciríaco faleceu três anos depois, em 1912, aos quarenta anos de idade, vitimado por uremia.


Um ano depois da luta de Ciríaco, em 1910, durante as festividades da posse do presidente Hermes da Fonseca, estoura outra rebelião de caráter popular sob o comando do marinheiro negro João Candido. Candido tomou três cruzadores fundeados na Baía de Guanabara e, voltando os poderosos canhões ingleses na direção da cidade do Rio, enviou um comunicado ao novo Presidente da República exigindo a reforma do...
"... código imoral e vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo pelos últimos planos do ilustres senador José Carlos de Carvalho, educar os marinheiros que não têm competência para vestir a orgulhosa farda, mandar por em vigor a tabela do serviço diário que a acompanha.

Tem V.Exa. o prazo de 12 horas para mandar-nos a resposta satisfatória sob pena de ver a pátria aniquilada.

Bordo do encouraçado São Paulo em 22 de novembro de 1910.

(assinado) Marinheiro"


...A perícia no manejo dos navios impede tentativas de comandos que se tramam entre oficiais ansiosos por vingança. À cidade, por vezes, os ventos trazem alguns compassos de maxixe tocado pela banda da marujada. Uma bandeira vermelha é posta no mastro. ... os revoltosos são formalmente atendidos e, vitoriosos, no mesmo dia começam a desembarcar dos couraçados se reintegrando formalmente ao serviço.

No curso dos meses seguintes, com as greves nas capitais comandadas por organizações operárias,... o governo decreta estado de sítio e intensifica as medidas repressivas, os marinheiros envolvidos com a revolta começam a ser presos e conduzidos ao Batalhão Naval onde muitos são mortos de forma bárbara... João Candido, preso e torturado, não seria abandonado por sua gente. Sua irmã morava na Saúde e, como muitos marinheiros, era muito ligado à zona portuária, sendo comum, quando desengajavam, tornarem-se estivadores.129_


João Candido ficou preso dezoito meses sem julgamento mas viveu, apesar dos maus tratos, até os noventa de idade (faleceu em 1969). Seu nome se tornou lenda na zona do cais e também na "Pequena África", reduto de uma elite de baianos com força no candomblé e nas festividades, vetor atuante na posterior criação das Escolas de Samba cariocas.

Sua figura foi relembrada na música de Aldir Blanco e João Bosco, O mestre-sala dos mares:


"Salve o Navegante negro

que tem por monumento

as pedras pisadas do cais.

Mas faz muito tempo..."


Em 1925, temos Hermeto Lima que, como vimos (inicialmente, pois em 1940, se retrata), negando a africanidade e reduzindo as origens da capoeira ao tenente João Moreira, o "Amotinado": em 1770, os "negros escravos" viram as façanhas o método de luta do "rixento tenente", "aperfeiçoando-os e desdobrando-os".

Mas 1925 foi um ano bastante ativo em hipóteses surpreendentes e pouco fundamentadas: é então que também vemos, pela primeiro vez, "o mito da capoeira com gênese no quilombo" (SOARES, 2001, pp.42-43) nas palavras de um articulista anônimo da revista carioca Vida Policial (março de 1925).


Os esportes tornavam-se cada vez mais populares e o Rio Sportivo era um das mais lidos durante a belle epoque carioca. Um ano após o movimentado 1925, em 1926, Adolfo Morales de los Rios Filho escreve uma série de reportagens - Capoeiras e capoeiragens. Entre outras coisas, teoriza que a origem da capoeira carioca era o cais da Piaçava, na época da escravidão.

Os escravos andavam sobre pranchas carregando grades cestos - "capoeiras" - na cabeça, contava Morales, daí o nome e também o andar gingado, o equilíbrio, a flexibilidade. Ali, na Piaçava, teria aparecido a luta, "primeiro em grande brincadeira, depois em verdadeiras pelejas" que poderiam terminar até em morte "depois de uma irritação momentânea e cega".

Morales teoriza também que "teve início a criação de uma escola, sem lições escritas, onde se ensinou a defesa pessoal e consequentemente, a forma ofensiva" - o que teria sido a antecessora da escola de Sinhozinho !1900-1962) que, em 1930 já era famoso no Rio como desportista e lutador e abria - neste mesmo ano, 1930 - sua "nova academia" no centro da cidade. Se Bimba foi o fundador da primeira academia de capoeira baiana na década de 1930; seu contemporâneo, Sinhozinho, divide a honra com ele mas em relação à capoeira carioca.
Em 1910, logo após a vitória de Ciríaco sobre Sado Miako, Coelho Neto já tinha proposto a inclusão obrigatória desta "excellente gymnástica" nas escola civis e militares. E dois anos depois dos artigos de Adolfo Morales, em 1928, escreve o artigo "Nosso Jogo", na revista portuguêsa Bazar (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 12), onde pode-se notar a imbricação do "discurso médico higienista com o discurso pedagógico da educação física"124_ que terá prosseguimento com Getúlio Vargas.

É também em 1928 que Anibal Burlamaqui lança um livro que, apesar de não atingir a comunidade da capoeira (nesta época, quase que exclusivamente baiana) como um todo - vamos nos lembrar que até as décadas de 1930/40/50, a maioria dos capoeiristas era iletrado -, causou, e causa, celeuma até hoje entre os "intelectuais" que se fascinaram pelo jogo.


Jair Moura (1991, pp.35-36) nos conta que em 1928, Aníbal Burlamaqui lançou seu Gymnastica Nacional (capoeiragem) Methodizada e Regrada (ver "6 - Anexo, iconografia", ilustração 12), que teve bastante repercussão: empenhado em "expurgar da capoeiragem o seu caráter delituoso para transformá-la num esporte", atraiu "muitos jovens da burguesia" e "infiltrando-se (a capoeira) nas camadas mais elevadas da coletividade, valorizou-se, propagou-se". O livro de Burlamaqui, lançado no Rio, teve repercussão até mesmo na Bahia, onde Bimba, "seguindo as pegadas" do autor e favorecido pelo decreto de Vargas que permitia a prática da capoeira "em recinto fechado", vai abrir a primeira academia na década de 1930.125_
É verdade que o baiano Bimba tomou conhecimento do livro do carioca Burlamaqui através de um de seus alunos, e também é verdade que o Rio de Janeiro - muito mais do que hoje em dia - tinha forte repercussão nacional . Mas dizer que mestre Bimba - o criador da capoeira regional - "seguiu as pegadas" de Burlamaqui, deu margem a "interpretações espúreas", talvez um reflexo daquela "luta pela hegemonia nacional" da qual nos falou Letícia Reis. Bimba sempre teve seu próprio rumo - assim com Pastinha, Valdemar e tantos outros -, por ele decretado, e moldado pela realidade baiana do início dos 1900s.
Em 1931 - mesma época em que Bimba começa a ensinar a sua Regional, em Salvador -, Agenor Sampaio (1900-1962), mestre Sinhozinho, um paulista de Santos, é citado na imprensa carioca como competente e carismático profissional, "animador da mocidade brasileira sportiva" e professor de "capoeiragem ou luta brasileira".
1. "Agenor Sampaio (Sinhozinho), o grande animador da mocidade brasileira sportiva, fala ao Diário de Noticias - Club Nacional de Gymnastica (capoeira): uma grande promessa. Rio, 01 de setembro de 1931."

"É tamanho o prestígio de Agenor Sampaio na roda de veteranos e tão grande a sua ascendência sobre uma grande parte de nossos actuaes athletas, que já correm as histórias mais curiosa a respeito do consagrado campeão."

"Há muito tempo que ensino a capoeiragem ou luta brasileira (diz Sinhozinho). Fazia-o gratuitamente, à um regular número de rapazes, numa grande área de minha residência. A benéfica campanha desenvolvida pelo Diário de Notícias em favor do reerguimento daquella luta, animou-me. Os meus alunos, argumentararam, de maneira que me vi forçado a obter um local onde me fosse possível atender a todos. Daí minha decisão de criar o Club Nacional de Gymnastica, que se acha provisioriamente instalado à Rua do Rosário n. 183/2do andar (no centro do Rio de Janeiro). Com o apoio da imprensa, espero ver a luta brasileira bastante disseminada nesta capital, dentro de pouco tempo. Vou organizar um torneio entre todos os meus discípulos, cujas bases se encontram em elaboração."

2. Boletim Oficial da Associação Atlética Agenor Sampaio (texto escrito por Eloy Dutra, 1946).

"Realmente nao há quem não conheça Sinhozinho. Chega-se a ter a impressão que o nosso balzaqueano Sinhô existe desde a época de Tomé de Souza, primeiro governador geral do Brasil e, possivelmente, seu ex-aluno. A figura do popular atleta é impresionante. De constituição física invulgar, Sinhozinho é um desses homens que além de ser atleta tem o dom de criar atletas".

3. "Agenor Sampaio, o popular Sinhozinho lança um desafio aos pupilos do professor Bimba" (Gazeta Esportiva, 1948). Observação: em função do desafio foram realizadas duas lutas, os alunos de Sinhozinho, Luis "Ciranda" e Rudolf Hermany venceram as duas."

4. Sinhozinho de Ipanema (Diário de Notícias, 1962, artigo escrito pelo próprio Hermany).

"Sinhozinho foi um dos pioneiros da cultura física e dos desportos do Rio de Janeiro, tendo também, paradoxalmente, sido um grande boêmio do início deste século (XX). Suas proezas de força e destreza foram lenda na história desta cidade e ainda estão vivos muitos dos que o acompanharam nas noitadas que intranquilizaram as noites cariocas de então. Bororó, Antenor da Praia, Lincoln, Zenha, Silvio Pessoa, Beijoca, Elite são apenas alguns dos nomes que frequentemente surgiam em suas narrativas participando de situações incríveis. Nascido em Santos, cantava as glórias de São Paulo, mas ninguém o arredava do Rio."

Embora muito rapidamente, tive, também, a honra de conhecer Sinhozinho. Ensinava uma capoeira realmente violenta, através de um treinamento extremamente criativo e sem utilizar o berimbau._142
Quem terá sido o mestre de Sinhozinho?

Aprendeu capoeira em Santos (?), sua terra natal, ou com algum marginal carioca como Quinzinho, professor de mestre Leopoldina?

Sinhozinho (1900-1962) é contemporIâneo de Bimba (1900-1974), de Salvador; e do carioca Madame Satã (1900-1976). Mas Satã era negro, homossexual, pobre, criado nas ruas da Lapa, enquanto Sinhozinho era branco, filho do coronel José Moreira Sampaio - e em suas fotos, de 1930, Sinhô aparece fardado (Polícia Especial, provavelmente) -, e popular em Ipanema na época da boemia dourada da juventude de Vinicius de Moraes e Tom Jobim (que, por sinal, tambem foi seu aluno).

Hermany, um dos melhores alunos de Sinhozinho, professor de Educação Fêsica e jornalista, campeão brasileiro de judô e campeão pan-americano por equipe, preparador da Seleção Brasileira de Futebol (1966), nos diz:


Já em 1904, Sinhô iniciava sua brilhante carreira de desportista, como sócio-aluno do Clube Esperia de São Paulo...

(Mais tarde, no Rio, foi) instrutor da temida Polícia Especial e, mais tarde, da Polícia Municipal assim como de inúmeras associações esportivas... Vim a conhecer Sinhozinho através de Tom Jobim (na década de 1950), seu viziho na rua Sadock de Sá, em Ipanema, onde o mestre residia no número 207 e, num terreno contíguo a seu apartamento, mantinha o conhecido "Clube do Sinhozinho". Neste terreno montara uma espécie de circo com inúmeros aparelhos para ginástica, lutas e levantamento de pesos. Eram barras, paralelas, pórticos com cordas, ringue para lutas, punching balls, sacos e alguns aparelhos inventados por ele para aplicações esportivas.

A capoeira era uma das atividades que Sinhozinho ensinava em seu clube e era praticada de forma diferente das outras que se viam por aqui. Não se sabe bem como e onde Sinhozinho a aprendeu, mas já nos anos trinta ensinava no "Barreira do América", próximo ao América F.C., onde alguns de seus alunos ganhavam fama, entre eles André Jansen cujas habilidades ele sempre elogiava. Segundo o que ele ensinava, os capoeiras de sua época tinham suas especialidades, sendo mais brigadores do que desportistas. Usando de malícia, faziam ataques súbitos e inesperados procurando colocar os adversários rapidamente fora de combate. Contavam, frequentemente, com o auxílio de navalhas que, utilizadas com destreza, impediam o corpo-a-corpo, Por este motivo, a luta possuía poucos recursos para o combate agarrado, daí a importância de manter os adversários quase sempre à meia-distância.

Sendo Sinhozinho conhecedor de vários estilos de luta e estando mais preocupado com a eficiência prática de cada uma delas, é muito provável que tenha aproveitado da capoeira que veio a conhecer apenas o que lhe pareceu mais mais válido sob este prisma. Sua capoeira, destituída de orquestra - berimbaus, pandeiros, atabaque, agogô e reco-reco, e cânticos - que sempre foi a mola impulsora dos demais tipos de capoeira, exigia de seus praticantes o máximo de objetividade e resistência a pancadas e lesões, o que fazia com que muitos iniciantes desistissem. Isto talvez explique porque sua difusão tenha sido limitada enquanto outras formas de capoeira, normalmente com ritmo e canto, começaram a lograr mais sucesso e, atualmente, estejam tomando conta do Brasil e do mundo._143


Em 1938, Luis Edmundo lança o portentoso O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis e cria um personagem literário identificatório romántico, audaz, aventureiro, religioso e violento, que vai influir todas as gerações seguintes, até mesmo em nossos tempos da "era da globalização". As descrições barrocas, góticas, dark e notívagas de Luis Edmundo, são dignas dos modernos roteiros de cinema dos filmes de super-heróis de histórias de quadrinhos norte-americanos, tipo "Batman, o cavaleiro das trevas".

(O capoeira) encarna o espírito da aventura, da malandragem e dafraude; é sereno e arrojado, e na hora da refrega ou da contenda, antes de pensar nachoupa ou na navalha, sempre ao manto cozida, vale-se de sua esplêndida destreza, com ela confundindo e vencendo os mais armados e fortes contendores... neste manejo inopinado e célere a criatura é um ser que não se toca, ou não se pega, um fluido, o imponderável. Pensamento Relâmpago. Surge e desaparece... É cavalheiresco para com as mulheres. Defende os fracos... Por vezes, quando a sombra da madrugada ainda é um grande capuz sobre a cidade, está ele de joelhos compassivo e piedoso, batendo no peito, beijando humildemente o chão em prece, diante de um nicho iluminado qualquer. Esta rezando pela alma do que sumiu do mundo, do que (ele, o capoeira) matou.


A prática e o ensino de Sinhozinho estavam em consonância com, p.ex., a Gymnastica Nacional (capoeiragem) Methodizada e Regrada (1928) de Burlamaqui; algo "prático", "eficiente", na esfera da "auto-defesa" e do "esporte". No entanto, havia um profundo abismo entre o bandido-herói - "o capoeira" de Luis Edmundo, bem mais próximo de um Madame Satã, tirando fora seu homosexualismo - e a prática de luta-desportiva de Sinhozinho que, justamente a partir desta época, terá grande sucesso entre a juventude dourada da zona sul carioca.

Ou seja: Sinhozinho não teve um apoio "literário identificatório" romântico, aventuresco e mítico, que criasse uma infra-estrutura imaginária "mágica" para seu trabalho apesar dele - Sinhozinho - ser uma personagem mítica e aventuresca. Mais uma razão para seu estilo ter desaparecido poucos anos depois da morte de Sinhozinho, no início dos 1960s.


Enquanto segmentos sociais hegemônicos tentavam mudar, no imaginário, a imagem da capoeira -"romântica-mítica", ou "esporte-luta", etc, -, observava-se também a reação das "classes populares" com a construção, popularização e consagração do "malandro".

O malandro vai se tornar tema de muitos sambas até que, com a política de Vargas de valorização do trabalho na década de 1930_, ele começará a apresentar-se como o "malandro redimido".


O malandro era o herdeiro destronado das maltas cariocas extintas pela perseguição policial na virada do século XIX para o XX.

Agindo individualmente e sem o poder do grupo (e talvez, dessa forma, não se tornando um risco para a polícia e para o novo Regime Republicano, como tinham sido as maltas de capoeira), sem o apoio de algum político poderoso (como a malta Flor da Gente, da freguesia da Glória, apoiada pelo poderoso e rico parlamentar conservador, monarquista e abolicionista, Luiz Joaquim Duque-Estrada Teixeira, o "Nhô-nhô da Glória"), o malandro era um elemento fragilizado que contava apenas com sua esperteza, sua lábia, seu charme, seu know-how do jogo e das mulheres, sua capacidade de apelar inesperadamente para a capoeiragem e para a navalha quando se via acuado e sem possibilidades de resolver a situação "na conversa".

Apesar desta herança - o malandro -, a verdade é que a ação policial conseguiu atomizar as maltas. Não mais grupos, mas indivíduos isolados. Por outro lado, era a vitória - dentro da derrota - da estratégia de Manduca da Praia que "não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco".

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