2 o jogo da capoeira



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É curioso como aquela capoeiragem carioca do final dos 1800s, que nos deixou seu herdeiro destronado - o malandro -; que nos deixou indivíduos como o capoeira negro Ciríaco, João Candido da Revolta da Chibata , os capoeiras da Revolta da Vacina; foi praticamente apagada da memória oficial, da memória da capoeira e da memória da própria malandragem carioca.

O desaparecimento da memória oficial é fácil de entender: a capoeira das maltas estava imbricada com a malandragem e a navalha.

Por sua vez, Letícia Reis132_ estuda a parte referente ao "sumiço" na memória da capoeiragem: "alguns estudiosos que abordaram a capoeira baiana não perceberam criticamente essa 'invenção de tradições', acabaram por adotar a perspectiva dos capoeiristas".

Isto é: muitos capoeiristas pensam que a capoeira baiana é mais pura que a carioca - a do século passado, que desapareceu com a perseguição policial -, e, dentro da capoeira baiana, acham que a angola é mais pura que a regional. Seguiu-se a desvalorização da capoeiragem das maltas cariocas e o obscurecimento de sua memória entre os próprios capoeiras das décadas seguintes; um fade-out ajudado pelos trabalhos literários que glorificavam a "nova" Luta Nacional.

No entanto, a parte mais curiosa - o apagamento da capoeiragem carioca do imaginário da própria malandragem carioca, menos de vinte e cinco anos após seu apogeu (1890) - ainda não foi devidamente estudada.
Madame Satã (João Francisco dos Santos, 1900-1976) foi o mais famoso, longevo - malandros e valentes geralmente morriam bem antes dos quarenta -, e maldito dos malandros cariocas.

Ele imperou na Lapa, especialmente entre 1920 e 1950. E, paradoxalmente, apesar de ter vivido como pivete de rua e mais tarde como valente e leão-de-chácara, a partir de 1913, na Lapa (sede de uma das mais famosas maltas e vizinha do bairro da Glória da famigerada Flor da Gente); apesar de citar malandros e bandidos famosos em suas memórias, ditadas a Sylvan Paezzo133_; apesar de ter feito um longo depoimento ao jornal "O Pasquim" e de ter uma breve biografia134_ editada nove anos após sua morte, Satã nunca mencionou - uma só vez que fosse - as maltas que tinham sido extintas menos de vinte anos antes dele cair nas ruas onde morava e dormia, pivete e ladrãozinho de pequenos furtos. Era como se aquelas maltas nunca tivessem existido.

Ao ditar suas memórias, aos setenta anos de idade, Satã só menciona duas vezes a própria capoeira: ao descrever sua estratégia de briga (muitos saltos e esquivas, a demolidora tapona de esquerda "e, claro, a capoeira, que a gente aprendia na rua"135_); e quando um jovem malandro insiste em aprender capoeira com ele, Satã dá-lhe uma banda e um tombo e o envia "para uns capoeiras no cais do porto".
A Lapa boêmia começou a crescer por volta de 1910 e atingiu seu período de ouro mais ou menos entre o final dos anos quarenta (1940)... Os bares: o Siri, o Café Colosso, o Capela, o Café Bahia, o Imperial. Os cabarés: o Apolo, o Royal Pigalle, o Vienna Budapeste, o Novo México, o Casanova, e o incrível Cu da Mãe. O Cassino High Life...

Parisienses, polacas e brasileiras. Leonor Cammarão, que morreu enquanto tomava um banho de champanhe. Boneca, por quem mais de um homem se matou...

Mas outros lugares como o Mangue, a Saúde, a Praça Onze e o Cais do Porto também abrigaram muitos malandros... Meia-Noite, Beto Batuqueiro, Edgar, Sete-Coroas, Miguelzinho e muitos outros...

A partir de 1937, a vida do malandro vai ficando mais difícil. O Estado Novo de Getúlio Vargas, com sua ideologia de culto ao trabalho e à produção, inicia uma severa repressão aos "ociosos".

Meia-Noite morreu assassinado por um desafeto em 1938. Miguelzinho morreu aos dezoito anos de morte natural. Joãozinho da Lapa foi assassinado por um companheiro de malandragem por volta de 1939. Edgar morreu aos 26 anos de idade - só um sobrou para contar a história..._136
João Francisco dos Santos - o Madame Satã -, 1,75 m., 108 kg. sem uma grama de gordura, forte e parrudo, cabelos negros longos e lisos, foi conhecido inicialmente como "Caranguejo da Praia das Virtudes", onde nadava diariamente, e mais tarde como "Mulata do Balacochê", o primeiro artista travesti do Brasil. Em 1928, aos 28 anos de idade, após ser pivete de rua e garçon, matou com um tiro o vigilante noturno Alberto "28" que o provocara - "veado! -; dois anos e três meses no presídio da Ilha Grande e, mais tarde, absolvido por legitima defesa.

Isto foi o começo de uma carreira dividia entre a vida noturna, a boemia da Lapa e o cárcere - em especial a Ilha Grande -, onde passou mais de 27 anos. Em 1945, conta a lenda, Satã matou o sambista Geraldo Pereira, o Geraldo das Mulheres, um valente com mais de 1,90m., com uma única tapona de esquerda.

Nas palavras do próprio Madame Satã:
Fui me formando na malandragem. Malandro, naquele tempo, não queria dizer exatamente o que quer dizer hoje. Malandro era quem acompanhava as serenatas e frequentava os botequins e cabarés e não corria de briga mesmo quando era contra a polícia. E não entregava o outro. E respeitava o outro. E cada um usava a sua navalha, cuja melhor era a sueca... Apelido de navalha era "pastorinha"... Mas quando eu falo em respeito, não estou dizendo, amizade, que isso não existia. E o respeito vinha do medo._137
A malandragem foi surgindo nos morros e no centro durante a década de 1920... ao mesmo tempo ia surgindo também a primeira geração de sambistas do morro, também malandros... durante a década de 30, o malandro foi rei... nos anos 40, o malandro se disfarçou, num discreto e respeitável terno de linho, imagem que permanece até hoje._138
Semelhante às maltas - apesar de Satã jamais mencionar os Guaiamus ou os Nagoas -, cada malandro tinha sua área de influência, locais onde eram os "protetores" - os atuais leões-de-chácara - de estabelecimentos diversos. Satã cita Saturnino, da Praça Onze; Gavião Branco e Gavião Preto, da Saúde; Henrique Fin-fin, da Praça Mauá; Brancura, que protegia os bares e casas de prostituição do baixo meretrício; Índio da Carmange, que protegia vários bares; Tinguá; etc. Cita, com respeito, Edgar; Sete Coroas e Meia Noite, pela valentia e maldade; e Camisa Preta, o "rei da malandragem".

Sete Coroas foi o mestre de Satã na fina arte da malandragem: o jogo, a navalha, o papo, a rasteira, a valentia. Por volta de 1928 (aos 28 anos) ele já era um valente muito conhecido e respeitado por seu murro de esquerda.


Madame Satã, símbolo de marginalidade, está à vontade no anos setenta (1970, com setenta anos de idade mas inteiro). Satã usava cabelo pelos ombros quarenta anos antes dos hippies. E destruiu à socos de canhota o esterótipo do homossexual frágil e delicado._139
Por volta de 1971, Satã e o cartunista Jaguar comiam num bar da estação dos bondinhos que vão para Santa Tereza, próximo à Lapa (centro do Rio). Dois guardas provocaram uma bichinha. Satã perguntou aos guardas: "Porque vocês não vêm falar comigo?". Um dos guardas respondeu: "Que é isso, vovô?", e deu um peteleco no chapéu de Satã. O "vovô" deu-lhe uma bofetada de esquerda no ouvido que o jogou longe, esparramado no chão.

Curiosamente, Sinhozinho - mestre de capoeira carioca de 1930 a 1960 -, era instrutor da "temida Polícia Especial", a mesma que seu contemporâneo, o "maldito" Madame Satã, enfrentou várias vezes nas ruas da Lapa - brigas que viraram lenda. A Polícia Especial fazia ronda numa "patrulhinha" com três policiais. Satã, mais de uma vez, enfrentou sozinho, "na mão", uma destas equipes; várias vezes, reforços foram pedidos para derrubar o temível malandro.


Por outro lado, existe, assim como na capoeira, um "fio-terra invisível" que une a ética da malandragem ao candomblé, à macumba, às práticas "espirituais" mais diversas. João Antonio, num de seus contos, põe na boca de Laércio Arrudão - malandro-mor do Mangue (antiga área do baixo meretrício) por volta de 1950/60 - as seguintes palavras:
Pousando as duas mãos nos meus ombros, falando baixo e sério um português bem clarinho, Laércio começava a me escolar que quem gosta da gente é a gente. Só. E apenas o dinheiro interessa. Só ele é positivo. O resto são frescuras do coração._140
No entanto, seu pupilo - Paulinho Perna Torta -, anos depois, após atingir o auge do sucesso, é atormentado por dúvidas e nos remete à capoeira de Salvador - "com um fio-terra ligado à religião" -, que sobreviveu (a capoeira baiana) enquanto a pragmática capoeira carioca das maltas do século XIX foi desbaratada pela polícia e seu nome (da capoeira carioca) apagado até mesmo da memória da marginalidade, menos de três décadas após seu auge.
A encabulação (confidencia Paulinho Perna Torta) maior me nasce de umas coisas bestas, cuja descoberta e matutação a ginga macumbeira de Zião da Gameleira começou a me despertar. Uma virada do destino, na vida andeja deste aqui. Um absurdo que Zião, sem querer, acabasse me levantando dúvidas bestas.

… que fiz trinta anos e pensei umas coisas de minha vida.141_


Os malandros que viveram nas primeiras décadas do século XX, e "protegeram" a Lapa, são um estranho elo de ligação entre as maltas cariocas do século XIX - das quais eram os herdeiros - e as academias de capoeira que irão começar a se alastrar no Rio:

- na década de 1930, com Sinhozinho (capoeira-luta sem berimbau ou ritual);

- na de 1950, com Artur Emídio (capoeira de Itabuna, similar à de Bimba, capoeira objetiva com berimbau);

- e na década de 1960, com o jovem Grupo Senzala (fortemente influenciado pela capoeira regional criada por mestre Bimba em Salvador, na década de 1930).


Apesar do obscurecimento dos atores e cenários da capoeiragem das maltas do século XIX, houve uma herança que se transmitiu de maneira não-causal e não-linear. O saber da capoeiragem dos 1800s "enxameou" o universo do samba; da malandragem do início dos 1900s; e da capoeiragem carioca das décadas de 1930, 50 e 60.

2.1.4.2 - RECIFE: 1900 - 1930


No Recife, os "moleques de banda" saíam à frante do desfile de bandas no carnaval. Onde duas bandas se cruzavam - a do Quarto e a do Espanha eram das mais famosas -, era inevitável a violência e o derramamento de sangue. Os pulos e a ginga destes capoeiristas foram, mais tarde, transformados no passo144_, a dança executada ao som do frevo.

De todos os valentes que deixaram nome na história do carnaval de Recife - Jovino dos Coelhos, Nicolau do Poço, João de Totó - , Nascimento Grande era o mais temido. Alguns dizem que foi morto durante a perseguição policial; outros - como o saudoso mestre Mucungê - afirmam que ele fugiu para o Rio onde viveu até a velhice.


José Antonio do Nascimento foi o mais famoso, invencível e popular valentão do Recife, na última década do século XIX e cinco primeiros lustros do século XX. Ele era conhecido como "Nascimento Grande".

Nascimento Grande nunca perdeu uma luta. E nem recusou alguma. De alta estatura, corpulento, chegando a ter 130 quilos, morenão, bigodes longos, muito cortês e maneiroso, usava, invariavelmente, chapelão desabado, capa de borracha dobrada no braço (usada como defesa contra arma branca?) e a célebre bengala de quinze quilos, manejada como se pesasse quinze gramas e que ele chamava de "a volta"... Honesto, porém protegido dos chefões políticos... Muitos afirmavam que ele tinha o "corpo fechado" e que trazia pendurado ao pescoço um amuleto, contendo pedacinho do "Santo Lenho"... Tais façanhas acirravam o ódio dos adversários de Nascimento Grande e não foram poucos os que tentaram matá-lo, entre eles dois dos mais perigosos, Corre Hoje e Antonio Padroeiro.

O primeiro, mesmo ajudado por sete capangas, foi abatido por Nascimento com um tiro de pistola; o segundo, Antonio Padroeiro, depois de desarmado, morreu de tanto apanhar.

Atacado, certa vez, por Pajéu, conhecido malfeitor do bairro São José, tomou-lhe a peixeira em dois segundos, deu-lhe uma surra e vestiu o agressor com roupas de mulher, sob gargalhadas do público. Encurralado, depois, num beco sem saída por dez soldados, trepou num telhado baixo e de lá saltou sobre a patrulha. Com violentos golpes de bengala, botou os soldados para correr... Nascimento Grande morreu de velho, aos 90 anos._145


A capoeira pernambucana foi extinta pela perseguição policial.

No entanto, hoje - junto a Salvador, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife e Curitiba -, é um dos principais pólos de capoeiragem da país. Na década de 1960, e mais fortemente na de 1970 e 80, capoeiristas baianos e cariocas - os últimos de formação regional-senzala, como João Mulatinho (mestre de Birili e Corisco, dois dos principais mestres pernambucanos na atualidade dos 2000s) - emigraram para Recife, estabeleceram-se e iniciaram uma nova linhagem; lado a lado de jovem (na época) valores locais, "poradeiros" vindos das classes populares de Olinda e Recife que "cresceram", viajaram para o exterior e viraram verdadeiros e ativos "vetores culturais", como Teté (Geneve, Suiça), Barrão (Montreal, Canada), Sapo (voltou para Olinda), etc.


NOTA: Existe um livro, "Recife Sangrento", ao qual nunca tive acesso, que fala sobre as bandas de carnaval pernambucanas e os valentes e rufiões que as defendiam no início dos 1900s.

2.1.4.3 - BAHIA: 1900 - 1930


Na Bahia, temos Besouro, talvez o maior mito da capoeiragem.

Besouro de Mangangá (Manuel Henrique Ferreira, 1895-1924), filho de João Grosso e Maria Haifa, nasceu em 1895 -seis anos depois de Pastinha e quinze antes de Bimba -, em Santo Amaro da Purificação, Bahia. Foi contemporâneo da geração dos "bambas da era de 1920', citados por mestre Noronha, mas rodava numa outra "gira". Seu mestre foi um escravo chamado tio Alípio. Besouro foi o mestre de outro famoso capoeirista - o saudoso Cobrinha Verde -, que conheci em Salvador nos 1960s.


Besouro não gostava da polícia, e era temido por ter o "corpo fechado" e ser um faquista perigoso. A lenda conta que foi o próprio Besouro - analfabeto - quem levou o bilhete indicando-o como a pessoa a ser morta (1924): uma emboscada foi armada, mas só conseguiram feri-lo mortalmente com uma faca de ticum, uma madeira muito dura, "preparada" na feitiçaria.

O capoeirista e pesquisador Liberac conta:


... além de carregador, embarcadiço, trabalhador no cais do porto de Cachoeirinha, cidade vizinha a Santo Amaro (BA), também foi um "terror" no exército baiano... Com 23 anos de idade (8/9/1918) foi preso e processado no artigo 303, por ter provocado lesões corporais em Argeu Claudio de Souza, um agente da polícia civil de Salvador...
"(Argeu) achando-se de plantão no posto policial de São Caetano, ali compareceu um indivíduo mal trajado, e encostando-se à janela central do referido posto, durante uns cinco minutos, em atitude de quem observa alguma coisa; que decorrido este tempo, o dito indivíduo interpelando o respondente (Argeu) pediu-lhe um berimbau que estava exposto jutamente com armas apreendidas; que tendo o respondente declarado que não podia dar o berimbau sem ordem do subdelegado. O mencionado indivíduo entrou para o corpo da guarda aproximando-se do soldado Paulo Clemente de Cerqueira suspendendo-lhe o quepe deu-lhe um cocorote chamando-o de recruta. Que nessa ocasião chegou o escrivão Simões, da subdelegacia de São Caetano, a quem o indivíduo fez novo pedido do berimbau e como o escrivão respondesse negativamente, ele o passou a descompor dirigindo-lhe nomes injuriosos - como seja, subdelegado de porra, indecente, estúpido -; que em vista disso o escrivão ordenou o respondente que prendesse o agressor, que quando foi efetuar a prisão ele puxou de sob a camisa um sabre do Exército..."

Manoel Henrique Pereira perdeu essa causa e foi expulso do Exécito.146


Confirmou-se a fama de Besouro como valentão que não gostava de polícia. A novidade foi o faquista pertencer, inicialmente, ao meio militar - fato comum entre os capoeiras cariocas do final do século XIX mas algo que nunca foi comentado em relação aos baianos do início do século XX que eram estivadores, carroceiros, marujos, malandros, segundo vários pesquisadores incluindo o depoimento de mestre Bimba ao seu discípulo, mestre Itapoan147_.

Talvez esta lacuna tenha algo a ver com a construção de uma certa identidade.

A construção da identidade da capoeira baiana - "pura e autêntica" -, pelos capoeiristas baianos e pelos cronistas, a partir da década de 1960, privilegiava o romântico e o aventuresco e, aí, não havia lugar para um capoeirista de farda, "praça do 31º Batalhão".
Entre 1920 e 1927, a repressão ao candomblé e à capoeira atingiu seu auge com o famigerado Esquadrão de Cavalaria e a ação do delegado de polícia, "Pedrito" de Azevedo Gordilho.

Nesta época, Bimba - com 20-27 anos de idade - estava em plena atividade; Pastinha - com 31-38 anos - estava afastado e só vai retornar em 1941. No entanto, além destes capoeiristas que, no futuro, se tornariam ícones da capoeiragem do século XX, existiam também outros. E quem nos da notícias de alguns destes - "os bambas da era de 1922" - é mestre Noronha (Daniel Coutinho, 1909-1977) em seu "O ABC da Capoeira Angola, os manuscritos de mestre Noronha" (Brasília, DEFER CIDOCA/DF, 1993, escrito entre 1974-1977. apresent. por Fred Abreu).

Noronha era ainda menino - 13 anos - quando os "bambas da era de 1922" tocavam o terror na cidade de Salvador. Mais tarde - 1930s e 1940s -, estes mesmos capoeiristas/bambas/valentões "vão sendo substituídos em importância na cena principal da capoeira por mestres (como Pastinha e Bimba, e também outros das gerações mais novas como Noronha, Valdemar da Liberdade, etc.) que com zelo vão exercer uma nova ação civilizadora dentro da capoeira", comenta lucidamente Fred Abreu (p.120).

Diz mestre Noronha:


Em 1917 famos convidado para uma roda de capoeira na curva grande (;) roda de capoeira que so tinha gente bamba (.) todos elles estava combinado para nos escurasar junto com a propria policia (.) a roda de capoeira era de um sargento da policia militar (.) corgiu (surgiu) uma forte discucão (,) o sargento saqou uma arma de fogo que foi tomado da mão do sargento pello capoeirita que ten o apelidio Julio cabeica de leitoia (,) um grande dizodeiro (.) hove um tiroteio grande (,) paricia uma praca de gerra (.) ouve intervencão da cavalaria (,) foi um caceite disdobrado (,) tanto da parte da policia como dos capoerista (.) fizero de nos (,) capoerista (,) barata no terreiro de galinha (;) mais foi engono.

Estou relebrando os tempo passado na curva grane (grande) defrante au bale (baile) da bisça - Mestre Noronha. (p.30)


Mestre Noronha dando uma entrevista sobre a capoeira de antigamente (,) as grande facanha que esistia nas Gan (grandes) roda de capoeira do morro do - Pilão sem Tampa - (,) destrito de São Lazo (Lázaro) (,) alto das Pombas (,) lugar que so izistia so dzordeiro que dava combate a policia todos os momento (.) e esta a origuem que a policia odiava o capoerista de toda a Bahia (.) Está o nome dos afamados capoerista do morro do Pilão sem-Tampa (:) antoninho da Barra - Gazolina Pescador - antonio coró - Balbino carroceiro - Julio cabeica (cabeça) de Leitoia - sargento do izeito (exército) odean - Primo Estivador - Benedito cão - Gallo do Bozó - ximba cabo da escradão (esquadra da marinha ou esquadrão de cavalaria) - victo H.U. da Curva Grande - e outros mais desta bardelna (baderna) (;) amaralina - Bouca do Rio-Vermeilho - Tijibú Bouca de Araia - Bonome - esprito de porco - e cimento da Baixa (dos) Sapateiros.

são este os dizordeiro do Pilão Sem Tampa que mestava (mestrava) a capoeira daqueile morro.

os Bambas da Hera de 1922. (p.31)
É evidente a semelhança, em vários pontos, entre a ética dos "bambas da era de 1922" e as dos malandros cariocas da mesma época; relembrando as palavras de Madame Satã:
Malandro, naquele tempo, não queria dizer exatamente o que quer dizer hoje. Malandro era quem acompanhava as serenatas e frequentava os botequins e cabarés e não corria de briga mesmo quando era contra a polícia.
No entanto, as diferenças também são profundas: Noronha nos fala "dos afamados capoeiristas do morro do Pilão Sem Tampa" como um grupo, quase uma malta (carioca), relacionados a um território específico; no Rio, após a radical e dura perseguição do final dos 1800s, as maltas foram dizimadas e delas restaram os malandros, indivíduos atomizados - apesar da ética similar. O carioca Madame Satã explica:
Cada um tinha a sua área...

Mas quando eu falo em respeito, não estou dizendo, amizade, que isso não existia. E o respeito vinha do medo._


Vemos também aqui, novamente, a participação ativa de policiais e militares dentro do universo da capoeiragem baiana: "a roda de capoeira era de um sargento da policia militar", "sargento do izeito (exército) odean", "ximba cabo da escradão (esquadra da marinha, esquadrão de cavalaria do exercito, ou o esquadrão da polícia montada do delegado "Pedrito" Gordilho)". Capoeiristas que eram policiais ou militares mas, essencialmente, "dzordero que dava combate a policia todos os momento".

Nota-se, também, o orgulho de mestre Noronha destes antecessores, "heróis" de sua meninince - aprendiz de capoeira de 13 anos. Encontramos a mesma admiração em mestre João Pequeno - hoje (2005) com seus 90 anos de idade e que, junto a mestre João Grande (uns 15 anos mais moço), é um dos mais importantes esteios da capoeira angola da linhagem de mestre Pastinha. Em um Capoeira Sumer Meeting (Hamburg, Alemanha, organizado por mestre Paulo Siqueira), ao ser perguntado como e porque tinha começado com a capoeira, mestre João Pequeno deu uma risadinha tímida e confidenciou: "eu queria ser valentão..."

No entanto, em oposição a Noronha e João Pequeno, temos a postura radicalmente crítica de mestre Pastinha - "que com zelo (junto a mestre Bimba e posteriormente outros) vão exercer uma nova ação civilizadora dentro da capoeira" - em relação a estes bambas/valentões/desordeiros das primeiras décadas de 1900.
INSERT - DEPOIMENTO DE PASTINHA NO SEU LP, CRITICANDO CAPOEIRISTAS VALENT˜ÕES DO PASSADO

No entanto, esta admiração pelos "dzordero" não embaçava a visão de Noronha a respeito do papel que ele e seus contemporâneos tinham exercido na história da capoeira; nem tampouco dos melhores rumos e da ética a ser (criada e) desenvolvida na Bahia - e nisso, Noronha esta em completa sintonia com Pastinha.


A capoeira veio da África trazida pelo africano todos nóis sabemos disco porem não era educada quem educor ella famos nois bahiano para sua defeiza pessoal. (p.120, texto de 1974-77)
Fred Abreu (p.121) recorta explicitamente partes do texto de mestre Noronha ao explicar que Noronha - e vários outros mestres - entendia claramente que "algumas leis de muita valia na era de 1922 deveriam ser recolhidas; reelaboradas com recursos inerentes à própria capoeira":
O jogador de capoeira não é valente (,) nem deve ser porque o capoeirista tem muito recusco para brigar (. O capoeirista deve) ter muita carma (calma.) o capoeirista deve cer muito educado para ser aprezentado nos alto meio cocial (social.) ci foi valente (,) deixa esta vida que já se passou (, deixa) de lado (a) valentia (:) deveimos adiciri (adquirir) lastro de amizade, é o que devemos fazer.
Deixar de lado a valentia, mas não a malícia e a malandragem (no sentido de uma comprensão dos mecanismos sociais e de um entendimento da psicologia humana): "o capoeirista deve ser um homem educado não dando conhecimento que elle conhece este esporte que é barulho".
A capoeira na Bahia, no período da marginalidade entre 1900 e 1930, já se assemelhava à capoeira praticada hoje: o jogo no chão e o jogo em pé, alguns movimentos acrobáticos como o aú, o uso do berimbau comandando as rodas, o ritual, etc. Ou seja: a capoeira baiana, tal qual a conhecemos e que para muitos jogadores e estudiosos é "autêntica, pura e tradicional" foi, na verdade, "construída" no período de 1824 - a capoeira de cabeçadas que não raro degenerava em conflito sangrento com o uso de arma branca, descrita e desenhada por Rugendas - a 1900.

Mestre Pastinha (1889-1971) e mestre Bimba (1900-1974)148, os dois maiores nomes da capoeiragem do século XX, viveram sua juventude e foram iniciados na capoeira neste período. A partir das décadas de 1930 e 1940, se tornaram vetores ativos e fundamentais neste processo de construção da capoeira baiana que depois iria se derramar pelo Brasil - 1950s - e pelo mundo - de 1971 em diante.

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