2009 gislaine da nóbrega chaves o conceito de gênero no mst: um estudo da sua produção escrita



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ILUSTRAÇÃO 14 – Divisão de tarefas na família

FONTE: Mulher Sem Terra. São Paulo: GH, 2000.

Vale destacar que, na cartilha Construindo novas relações de gênero desafiando relações de poder, publicada em 2003, há um posicionamento do MST acerca da divisão sexual do trabalho. Campos (2003, p. 21) expressa a compreensão do Movimento sobre a divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres. Essa perspectiva evidencia a relação entre o padrão dominante de relações de gênero associada às relações de produção no sistema capitalista, que, a partir de simplificações da realidade, utiliza elementos do sistema patriarcal para justificar relações desiguais:


Além dos aspectos ideológicos não se pode deixar de reconhecer que o machismo predominante se sustenta em bases materiais bastante sólidas. Os capitalistas ganham muito por não precisarem remunerar o trabalho doméstico que é feito gratuitamente pela maioria das mulheres. O salário teria que ser bem maior se os trabalhadores tivessem que pagar para alguém lavar, passar, cozinhar, organizar a casa, cuidar das crianças, sem nenhuma folga semanal.

E é visível que os homens, mesmo os de classe trabalhadora, se beneficiam dessa divisão do trabalho em que todos os afazeres domésticos e o cuidado com os(as) filhos(as) são considerados ‘coisa de mulher’ mesmo quando elas também trabalham fora de casa. Se isso tudo fosse dividido as mulheres teriam mais condições objetivas e subjetivas para participar da vida política, econômica, etc. E, por outro lado, também haveria mudanças significativas na vida dos homens (CAMPOS, 2003, p. 21).

Com relação à discriminação de homens que têm um discurso político progressista, embora sua prática com as mulheres seja questionável, a aludida cartilha esclarece:
Talvez isso explique porque os companheiros, mesmo aqueles que tem um discurso político avançado, não incorporem as reivindicações femininas como prioridades na luta dos movimentos sindical e popular. Elas são consideradas sempre como secundárias (CAMPOS, 2003, p. 21).
Há, ainda, uma proposta de exercício sobre a compreensão das mulheres acerca do entendimento da concepção de gênero adotada pelo Movimento, proposta condizente, em grande parte, com a realidade das famílias que residem no campo, conforme se pode depreender da seguinte passagem:


        1. PARA DISCUTIR EM GRUPOS:



              1. A partir da leitura o que entendemos por Gênero?

              2. Do jeito que está organizado nosso Acampamento, Assentamento, favorece a participação das mulheres? Como e por que? Damos apoio às mulheres que assumem tarefas na nossa organização?

              3. Existe discriminação sobre as mulheres aqui? De que forma?

              4. O que vamos fazer para, a partir de hoje, melhorar a nossa vida e a nossa participação no nosso Acampamento/Assentamento? (Mulher Sem Terra, 2000, p. 17).

Assim como aconteceu na proposição do “Encontro” anterior, neste, há questões abertas que buscam propiciar uma reflexão acerca da realidade nos acampamentos e assentamentos, focando a participação política da mulher. Todavia, as questões do “Encontro” anterior priorizam a classe trabalhadora, incluindo a mulher, que também é explorada enquanto “classe” e “gênero”. Percebemos que, na conclusão, há uma ênfase nas diferenças entre mulheres e homens, e um apelo para que essas diferenças não sejam transformadas em relações desiguais, sobretudo quanto à sua participação política. Aqui, há uma ênfase nas relações de gênero como um dos elementos estruturantes das relações de poder (SCOTT, 1990; SAFFIOTI, 2003), como demonstramos no trecho da Cartilha de 2000:

Nós mulheres, somos diferentes dos homens, mas não somos inferiores. Politicamente, somos iguais. Existe na sociedade o masculino e o feminino, mas ela está organizada PELO masculino e PARA o masculino, falta a participação do feminino. Queremos é que o ser feminino participe da organização desta sociedade para que ela seja pensada pelos dois e para os dois. Sendo assim, não dá para continuar falando que existe um papel para a mulher e um papel para os homens. Em nossos Acampamentos e Assentamentos e na nova sociedade, o papel das mulheres é o mesmo papel político desempenhado pelos homens, porém, do jeito da mulher (grifo nosso) (Mulher Sem Terra, 2000, p. 17).

O trecho destacado deixa-nos entrever que mulheres e homens, quando assumem determinados papéis políticos e sociais, às vezes, contrariam o “lugar” de gênero feminino ou masculino que lhes foi reservado pela cultura, seja quando a mulher ocupa espaços na esfera de poder ou quando os homens assumem tarefas domésticas ou cuidam dos filhos. Esta inferência pode ser compreendida pelo que foi abordado na Cartilha de 1998, analisada no II Capítulo desta tese. A continuidade sobre este aspecto das relações de gênero sugere-nos que as discriminações contra mulheres e homens constituem um desafio à prática educativa do MST:





ILUSTRAÇÃO 15 – Feminilidades e masculinidades

FONTE: Mulher Sem Terra. São Paulo: GH, 2000.

Noutro trecho, aparece uma tentativa de sobreposição do papel de mãe e esposa ao de militante que participa do Movimento, ocupando espaços em suas esferas de poder. Assim, na Cartilha de 2000, encontramos: “Não queremos ser vistas apenas como mães e esposas, ou simplesmente estar presentes nas ações. Queremos sim, ocupar os espaços de decisões em todos os níveis na nossa organização e na sociedade que almejamos construir” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 18). Como afirma Saffioti (2003, p. 58),


Esta lide [a política] treina os homens não somente na negociação, mas na percepção da oportunidade de estabelecer tal ou qual aliança com tal ou qual facção. As mulheres não recebem este treino. Desta forma, o gênero é sim um eixo a partir do qual o poder é articulado. Essa articulação processa-se em detrimento das mulheres. Poucas são as que chegam aos parlamentos do mundo inteiro. Em lá chegando, mostram-se canhestras na negociação, enfim, como não poderia deixar de ser, neófitas no exercício do poder.
Esta amplitude na efetiva participação da mulher no Movimento, e, sobretudo, em suas esferas de poder, implica em oportunizar a participação criando estratégias e qualificando as mulheres para ocuparem esse espaço. Tal visão pressupõe, portanto, a formação de uma mulher como sujeito ativo e atuante, ou seja, como protagonista das ações do Movimento.

No encerramento deste “Encontro”, há a sugestão de convidar não somente as “companheiras”, mas também as professoras dos filhos e filhas de mulheres e homens do campo a participarem do evento. Esta iniciativa indica que existe uma preocupação do Movimento em estender as relações de gênero, um dos seus focos político-educativos presentes no campo da educação informal, para o campo da educação escolar.

4.1.3 Os principais elementos político-educativos da fonte

Os sujeitos da canção, “Criança e Adolescente46” (ANEXO A), entoada no 3º “Encontro” – Educar sem Discriminar, estão inseridos no projeto do MST. A letra do referido canto traz uma convocação à participação das crianças na construção desse projeto, como está contido no seguinte refrão: “Vamos juntos criançada /Transformar a nossa história./Com força e muita luta/Chegaremos a vitória”. É importante mencionar que a visão sobre a criança é bastante atual, já que o lugar destinado a elas mantém uma relação com a luta do Movimento e com o lúdico. Assim, “Nós queremos ser feliz/Brincar, viver, sorrir/Nós queremos semelhança/Pra viver como criança/Educando este país”.

O segundo canto, “Prá soletrar a liberdade47”, (com letra de Zé Pinto, s/d. ANEXO A), chama a atenção para o direito das crianças e adolescentes à educação, no que concerne ao acesso à qualidade de ensino. Propõe um novo jeito de ser e um novo jeito de educar. Afirma, ainda, que tem que haver uma escola em cada canto do Brasil. Assim, “Se o aprendizado for além do Beabá, todo menino vai poder ser cidadão. Alternativa pra empregar conhecimento o Movimento já mostrou para a nação desafinado dentro dos assentamentos Reforma Agrária também na educação” (Prá soletrar a liberdade, Letra: Zé Pinto, s/d). Silva (2004, p.138), ao se referir aos recursos poéticos da produção musical do MST, afirma:
Estando ou não em sintonia com a prática, o importante é que essas produções vêm servindo não apenas para animar e inspirar, mas principalmente têm atuado também enquanto instrumentos de qualificação de seus militantes, promoção de estudos e ampliação de sua prática através de ideologia.

A sugestão da mística é construída a partir de símbolos assentados na proposta de uma educação sem discriminação. Assim, há a proposta de “Colocar no local, símbolos tais como galho seco, e pendurar nele vários pedaços de papel escrito: individualismo, exploração, analfabetismo, discriminação, ignorância, mentira, desrespeito, desigualdade, injustiça, tristeza” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 19), enfatizando mazelas sociais produzidas pelo sistema capitalista de produção. Outro aspecto que reflete a dinâmica da mística está contido na sugestão de “Explicar que a sociedade que vivemos é influenciada pela TV, Rádio, Escola, nos costumes da comunidade e até na família. Uma educação que projeta uma sociedade de morte, dominação, injustiça”. Em seguida, sugere “Colocar também um galho verde e pendurar nele, vários pedaços de papel escrito: igualdade, solidariedade, construção coletiva, liberdade, liderança, responsabilidade, alegria, ser feliz, nova sociedade, companheirismo, direitos garantidos” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 19-20), destacando conceitos vinculados a uma educação transformadora. Propõe, ainda, “construir de forma coletiva a educação que queremos sem discriminação” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 20). Neste “Encontro”, como nos anteriores, após a mística, há a sugestão de cantar o Hino do MST.

A Cartilha de 2000 frisa a desnaturalização dos papéis culturais atribuídos a homens e mulheres, com perspectiva de mudança mostrando como eles são construídos e os lugares dessa construção. A educação é concebida como um dos lugares onde esses papéis são construídos. Mas os papéis aparecem também como determinados pelos que dominam a sociedade de acordo com os seus interesses. Porém, há uma supervalorização dos efeitos da educação sobre a vida das mulheres, conforme se pode ver no trecho seguinte: “E quando falamos disso, sempre nos referimos à educação. É ela a responsável por todas as catástrofes e tragédias cometidas contra as mulheres no mundo” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 21). A despeito dos excessos, em perspectiva comparativa, são esclarecidos alguns aspectos da educação diferenciada para a menina e para o menino, e que são importantes na perspectiva de uma análise de gênero:


O QUE É PARA MENINA

O QUE É PARA MENINO

1. Boneca, jogo de cozinha

1. Bola, carrinho

2. Ficar em casa, fazer tarefas de casa

2. Ser livre, poder sair

3. Ser dócil, ter paciência

3. Fortão, durão, corajoso

4. Frágil, sensível, chorona

4. Homem não chora

5. Tem que ser protegida

5. Ele protege

6. Cuidado, pode ser mãe solteira

6. Não pode perder oportunidade.

Quanto mais mulheres tiver, mais homem



ILUSTRAÇÂO 16 – Educação diferenciada

FONTE: Mulher Sem Terra. São Paulo: GH, 2000.
Carvalho (2003, p. 6) chama-nos a atenção para a necessidade premente de trabalharmos uma educação não sexista, abordando que a teoria feminista tem contribuído para uma educação transformadora. Nesse sentido, afirma:

A educação não-sexista promove a igualdade entre os sexos e a equidade de gênero, oferecendo oportunidades não apenas iguais, mas diferenciadas, para compensar as desigualdades e limitações de meninos e meninas; propiciando a crítica ao sexismo na cultura em geral; abolindo a linguagem sexista; propiciando novos modelos de interação social e relacionamento entre meninos e meninas; e valorizando equilibradamente as qualidades consideradas femininas e as consideradas masculinas, por exemplo, a eventual agressividade das meninas, a delicadeza e o cuidado dos meninos.

A Cartilha de 2000 demonstra com acuidade como esses papéis são construídos no cotidiano, por meio da educação que recebemos na família e por meio da TV, elementos que incentivam a preparação das moças para serem boas mães e esposas e para preparar seu corpo para servir aos homens, “preferencialmente os ricos e famosos”:

E a educação começa basicamente em casa, porque é ali que as crianças aprendem as primeiras crenças, as primeiras atitudes e nelas estão embutidos os valores que influenciarão as pessoas por toda a vida. E elas têm ali, o pai e a mãe. E estas duas figuras são a sua primeira imagem do mundo, por isso elas estão sempre com as antenas ligadas no que eles falam e principalmente no que fazem. Se o pai é autoritário e dominador e a mãe é submissa, esta é a imagem mais forte que vai contribuir na formação da sua personalidade. E aqui se associam os primeiros brinquedos, as primeiras lições... (Mulher Sem Terra, 2000, p. 21).

Observamos alguns avanços que conduzem a uma reflexão sobre a e educação e as relações de gênero, principalmente quando o Movimento, em seus textos e exercícios, sugere uma análise das relações de gênero nos micro espaços do cotidiano, revelando a preocupação com uma educação sem discriminação contra as mulheres na família, na escola e na igreja:

2. PARA DISCUTIR EM GRUPOS:


  1. O jeito que nós estamos educando nossos filhos e filhas, ajuda a acabar com a discriminação sobre as mulheres?

  2. Que tipo de educação queremos passar para nossos filhos e filhas?

  3. O que podemos fazer em casa, na escola, na igreja, para começar a educar gente de maneira diferente? (Mulher Sem Terra, 2000, p. 22).

A conclusão contida na Cartilha de 2000 reforça a compreensão do Movimento sobre a necessidade de se praticar uma educação não sexista. Vejamos, a esse respeito, o trecho:

É preciso sim, que se mude o que pode ser mudado. Nós devemos educar nossas filhas mulheres para que sejam doces, educadas, carinhosas, sim, mas sem que necessariamente sejam submissas. E devemos educar nossos filhos homens para que sejam doces, carinhosos e educados, sim, sem que percam a sua masculinidade (Mulher Sem Terra, 2000, p. 22).

Esses traços evidenciados pelo MST são imprescindíveis para a construção de um mundo de paz, onde haja convivência entre iguais e diferentes, sobretudo quando pensamos, da perspectiva local a global, em relações que encetem solidariedade, tornando os sujeitos mais humanos e sensíveis na relação consigo e com os outros. Assim, se pensarmos as relações de gênero e sua relação com a construção de um mundo de paz, compreenderemos, também, que isto pressupõe não somente nos mobilizarmos contra a guerra, contra o imperialismo dos países do Norte (como está contido na proposta do MST), mas implica afirmar que devemos exercer pressão sobre os governos que, direta ou indiretamente, têm mantido a cultura da dominação que subordina as mulheres (BURROWS, 2005).

O 4º “Encontro”, denominado Os valores, é iniciado com o canto “Manter a esperança” (CANÇÕES DA TERRA, Letra: Ademar Bogo, s/d, p. 6-7. ANEXO A). Nele se canto contesta a “nova teoria”, que aponta para a derrocada do socialismo. Assim, “Já negaram tudo que bem pouco resta/ nova teoria já dizem que tem. Tentam iludir os que tudo fazem/ pra que se acomodem e parem também”. Segue com o refrão “Já disse o homem que depois/ morreu e ficou na memória. Que existe uma coisa na roda da história/ que uma camada pra trás quer rodar. Mas estes não servem/ pra pôr suas mãos nesta manivela/ ficarão à margem olhando da janela/ a luta do povo esta roda girar”, reforçando o projeto socialista do MST.

Através da mística, o Movimento propõe: “Em cada local da sala há [haja] faixas com alguns valores: vida, solidariedade, beleza, trabalho, estudo, símbolos, indignação... Em cada um, enfeitar de acordo. As mulheres podem colocar: - Qual a importância que cada um têm na construção da nova sociedade?” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 25). A proposta desse “encontro” traz consigo conceitos do campo da filosofia, com margens a aprofundamentos.

Em um primeiro momento, se trabalha a partir da existência do bom e do mau, ou seja, numa polarização ancorada na dicotomia presente em diversas religiões cristãs. Outrossim, há o reforço aos “juízos de valores” classificadores da realidade, com margem a aprofundamentos: “1. O BOM E O MAU... Existe o bom e o mau? Existe. Por que sabemos distinguir o bom e o mau? Porque temos juízos de valores. E o que isso representa?” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 25-26).

Em seguida, expõe alguns exemplos de situações cotidianas que expressam “juízos de valor” com o objetivo de distinguir o “bom” do “mau”. No primeiro caso, afirma-se que uma mulher entra em um ônibus com uma criança no colo e as pessoas não cedem o lugar para ela sentar, provocando nossa antipatia. Se outra pessoa cede o lugar para ela sentar, terá nossa simpatia. Conforme está registrado na Cartilha de 2000, isso “É sinal que estamos diferenciando o que é bom e o que é mau” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 26). O segundo exemplo se sabe à ocasião se refere à ocasião em que, ao comprarmos uma blusa, o caixa da loja não repassa o troco correto, propositalmente, “Logo estabelecemos um juízo de valor entre o bom que somos nós e o funcionário mau” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 26). O terceiro caso, diz respeito ao atropelamento de uma criança, cujo motorista foge do local sem prestar socorro, assim como todos os que passam pelo local e “Novamente nos deparamos com dois juízos de valores perante a vida” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 27).

Então os valores estão em tudo o que fazemos. Ocorre que de tempos em tempos uns têm mais destaque que os outros dependendo dos interesses das pessoas. [...]. Os valores portanto, estão ligados à vida e orientam o comportamento das pessoas. Por isso temos valores. Na política, temos o bom e o mau político. Na educação, a boa e a má educação. Na religião, a boa e a má religião. No mercado, os bons e os maus produtos...e assim por diante. Em tudo há valores e contra-valores, ou seja, somente sabemos dizer o que é certo porque existe também o errado (Mulher Sem Terra, 2000, p. 27-28).

Embora a recorrência a “juízos de valor” seja possível para efeitos didáticos, vale destacar que ninguém é totalmente “bom” ou totalmente “mau”. Isso nos sugere que esses “juízos de valor”, de tendência maniqueísta, não permitem a realização de uma análise aprofundada da realidade, em sua complexidade, de forma a desvelar aspectos relacionais do cotidiano. Em um segundo momento, é proposto o debate em grupo como metodologia para conduzir os acampados e assentados a expurgarem o que consideram impróprio, “nocivo” ou “imoral”, nos “outros”, sem uma reflexão apurada, com base apenas na empiria (Item 1 e 2, em negrito):



  1. Vamos fazer uma comparação entre o que tem de bom e mau em nosso assentamento: a) o que aprendem nossos filhos? b) na relação entre homem e mulher? c) na relação entre pais e filhos? d) na relação entre os (as) assentados (as) e a natureza? e) na relação entre os (as) assentados(as) e destes com o MST? 2. O que devemos fazer para eliminar o mau que nos acompanha dentro dos assentamentos (grifo nosso) (Mulher Sem Terra, 2000, p. 28).

Na Cartilha de 2000 também encontramos elementos acerca dos modos de produção presentes no Caderno de 1988, já analisado. Esta visão é menos doutrinária que a deste primeiro caderno (1988). Vale salientar que, no período de sua produção, o arcabouço teórico do marxismo tradicional prevalecia, dada a transição democrática vivenciada no Brasil. Na produção escrita do MST, esta ênfase no marxismo continua presente, mas outras perspectivas são incorporadas a seu projeto político-pedagógico. Portanto, a ênfase nos modos de produção apresenta-se como um diferencial nas análises propostas pelo Movimento, quando insere outras temáticas como fonte de suas preocupações, assim como na forma de abordá-las:
Vejam que há mais de mil anos atrás, a sociedade era menos desenvolvida, a classe que mandava se chamava senhores feudais e o povo que trabalhava se chamava servos. Como dizem os nomes, servo é aquele que serve ao senhor, por isso um valor muito destacado era a ociosidade, isto porque os senhores deveriam justificar porque ficavam sem trabalhar. Quando a classe dos senhores foi derrotada, surgiu outra classe que se chamou burguesia e o povo trabalhador se chamou proletariado. Proletariado vem de prole, que significa filhos. Ou seja, além de trabalhar o povo deve produzir filhos para continuar trabalhando para os patrões burgueses. Por isso o valor da ociosidade foi substituído por trabalho. Quem não trabalha é preguiçoso, porque quanto mais se trabalha, mais ricos ficam os patrões (Mulher Sem Terra, 2000, p. 27-28).

O “Encontro” é encerrado de acordo com o formato dos anteriores, com agradecimentos e cantos de animação, inclusive com a poesia “Nós todas” (Pedro Tierra, In: Mulher Sem Terra, 2000, p. 29). Neste canto, a figura da mulher, mãe fecunda, é exaltada. Assim, também, alguns ícones merecem reverência, como “Pureza48, Isabel, Marta, Maria, Margarida, Roseli, Fátima49, Adelaide...”. Há um chamamento à mulher, porque ela é sangue, ventre, barro e fulgor: a matéria da vida, quem perdeu os filhos, aquelas que vigiam, mães sobreviventes, quem palmilha o pó da América, busca, esperança, grito, mão, as que choram, fecundas, multiplicação das lutas, Terra, plantio e colheita, raiz da esperança (Mulher Sem Terra, 2000, p.29-31).

No 5º “Encontro”, intitulado Cultura e lazer nos assentamentos e acampamentos, o canto “Terra e raiz50” (Letra: I Oficina Nacional dos Músicos do MST. ANEXO A) focaliza a luta do trabalhador do campo pela subsistência, como o valor da terra destacado no refrão: “A terra guarda a raiz/ da planta que gera o pão/ a madeira que dá o cabo/ da enxada e do violão”. Mas a liberdade também é ressaltada nos seguintes versos: “Liberdade é pão, é vida/ Terra-mãe, trabalho e amor/ é o grito da natureza/viola de um cantador”. Há ênfase nas “cercas da concentração”, revelando a subjetividade do “povo” que faz a História: “É o povo em movimento/ contra as cercas da concentração/ com um sorriso de felicidade/ e a história na palma da mão”. Nesse momento, as mensagens veiculadas na capa e na letra da música convergem para um mesmo objetivo, o de reforçar o projeto político-pedagógico do Movimento, consubstanciado na luta pela reforma agrária e contra o latifúndio. O segundo canto, “Sem medo de ser mulher” (ANEXO A), já foi objeto de análise no 1º “Encontro” e já foi analisado neste Capítulo. Aqui, compartilhamos com Moreira (1998, p. XI) quando afirma
Não existe democracia aonde os famintos e miseráveis são contados aos milhões. Nesta perspectiva, o latifúndio é incompatível com a democracia. Isto porque ele impede que quem trabalha usufrua dos frutos do seu trabalho. Além disso ele é concentrador de riqueza e de poder.

A luta pela terra nesse sentido, nada mais é do que a luta dos trabalhadores pela apropriação dos frutos do seu trabalho. Assim sendo, a reforma agrária se apresenta como uma forma de democratização da riqueza e, em conseqüência, abre o caminho para permitir ao homem do campo o acesso à cidadania.


A despeito das simplificações baseadas em concepções de “mentira” e “verdade”, não podemos menosprezar o fato de que os horários “nobres” da TV não são preenchidos com programas que contribuem para o esclarecimento da população. Igualmente, alguns programas podem suscitar debate e crítica em um segmento que domina instrumentos para desenvolver análises críticas da realidade, ou seja, apenas uma camada seleta da sociedade brasileira tem o poder de dialogar criticamente sobre os programas veiculados por esse meio de comunicação. Percebemos, na sugestão da mística, a presença de uma crítica relacionada à cultura de massa e uma ênfase na cultura popular, respectivamente, quando é solicitado ao suposto grupo de mulheres:


  • Colocar de um lado fitas do Zezé de Camargo e Luciano, Pe. Marcelo, É o tchan (da bundinha), Tiazinha etc.; escrever ALIENAÇÃO, desvalorização do corpo, destruição da cultura popular, rádio: mentira.

  • Do outro lado colocar: caderno de músicas do MST, fitas, roupas típicas da região, músicas do campo (exemplos Luiz Gonzaga, Tonico e Tinoco..) Rádio Popular etc.; escrever: Cultura Popular, resgate das raízes culturais, cantar as esperanças, a resistência, a luta! Rádio: Verdade, etc. (grifo nosso) (Mulher Sem Terra, 2000, p. 32).

Justifica-se a discussão sobre cultura e lazer nos acampamentos e assentamentos pela relação das pessoas com o seu lugar de pertença, fazendo dele “o melhor lugar possível para viver” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 32). Quando Ieno e Amado (1998, p. 171-172), que desenvolveram pesquisa em onze áreas de assentamento da Paraíba, perguntaram às pessoas o que mais gostavam de fazer para se divertir, elas afirmaram que, no assentamento, era ‘trabalhar no meu roçado’. Todavia, quando pergunta sobre o que mais gostavam de fazer, além de trabalhar no roçado, as respostas foram muito variadas:

Nos grupos com pessoas com mais de 35 anos, foram citadas as seguintes atividades: jogar futebol, pescar, caçar, passear a cavalo, jogar dominó, conversar com amigos, discutir política, assistir televisão (futebol, novela, filme e noticiário), ouvir rádio (futebol e noticiário), ir à praia, tomar cerveja ou cachaça com amigos, ir a baile, estudar, ler, rezar terço, ler a bíblia, ir à missa, ir ao culto.

Nos grupos de pessoas com idade entre 16 a 25 anos, a lista foi a mesma, acrescentada de: ouvir música, namorar, tomar banho de rio/açude, briga de galo, sinuca, tocar violão, andar de bicicleta, estudar, ir para o colégio, participar de grupo de jovens.

Nestes últimos, apesar da lista de atividades citadas como de lazer, havia uma queixa generalizada de que ‘aqui no assentamento não tem muita coisa para a gente se divertir’.

Ainda conforme Ieno e Amado (1998, p. 172), “Atividades de lazer comunitário parecem ser muito limitadas. [...]. O lazer é especialmente individual ou de família ou de pequenas reuniões de amigos”. A preocupação em fixar as pessoas ao campo também pode ser utilizada como uma chave de leitura para compreender a escolha deste tema pelo Movimento. Nesse sentido, afirma-se: “A cultura faz parte disso, porque é a forma como a gente vai construindo a nossa vida! São os nossos costumes, o jeito de a gente falar, é a história do nosso lugar, é a forma como fomos educadas, é a forma de produzirmos, enfim, por isso é que dizemos que a nossa cultura é diversificada, porque cada lugar tem o seu jeito” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 33). Quanto ao lazer, afirma-se que ele faz

parte deste mesmo conjunto de necessidades tem a ver com a forma com que usamos nosso tempo livre ou organizamos o tempo. [...]. Mas preste atenção: é necessário criar espaços de lazer, de forma organizada com a comunidade, porque se nós não organizarmos a partir dos valores do Projeto novo que estamos construindo, é aí que entram os meios para ocupar o nosso tempo a serviço do outro Projeto. Por exemplo, a televisão (Mulher Sem Terra, 2000, p. 33).
Há, aqui, uma preocupação do MST em organizar, conjuntamente com a comunidade, espaços de lazer, ou mesmo oportunizar atividades diversificadas para o uso do tempo livre. Dessa forma, afirma: “Além disso, é importante pensar o lazer não só como coisas para ocupar o tempo livre, mas pensar atividades que sejam prazerosas para os casais, para as famílias. E para isso organizar o tempo” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 34). A cultura e o lazer nos acampamentos e assentamentos constituem uma dimensão desafiadora à práxis político-educativa do Movimento, pois implicam em modificar atitudes, práticas e valores arraigados na tradição cultural de homens e mulheres do campo e em suas lideranças. Moreira (1998, p. XIII) salienta a esse respeito: “a cultura individualista herdada do passado e os vícios organizativos que perpetuam lideranças, as quais, em alguns casos, procuram sua própria locupletação, etc.” são dos empecilhos para o avanço efetivo das mudanças substanciais na estrutura da terra e na consolidação da pequena produção.

Com relação à Cartilha de 2000, há, nas análises já realizadas, a idéia de que a cultura popular está sendo destruída pela cultura de massas, atribuindo-se a razão disso ao sistema capitalista: “É o que chamamos de pacote cultural, que de cultura mesmo tem muito pouco, tem mais é de propaganda e desrespeito às nossas culturas, que são muitas. O que vale, nisso que estamos vivendo, é o que vende, o que interessa ao mercado” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 33). Aqui a cultura é concebida como unitária, uma vez que só é considerada plural a cultura deles.



ILUSTRAÇÃO 17 – Cultura popular e cultura de massa


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