2009 gislaine da nóbrega chaves o conceito de gênero no mst: um estudo da sua produção escrita



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ILUSTRAÇÃO 5 – Mulher na transição da sociedade escravista para a sociedade feudal

FONTE: Caderno de Formação nº 15: A mulher nas diferentes sociedades.

São Paulo: Escolas Profissionais Salesianas, 1988.


A produção escrita do MST, por meio deste item, veiculou alguns saberes decorrentes da prática político-educativa desse sujeito social. Nesse sentido, o MST, em sua trajetória histórica, tem forjado uma identidade comum a mulheres e homens, cujo fio condutor evidencia a denúncia da opressão de classe. Este aspecto constitui avanço na prática político-educativa do Movimento. As opções políticas do MST evidenciam suas preocupações com a demarcação por sua posição de classe. Os corpos das mulheres, ricas e pobres, também estão circunscritos à esfera econômica, já que são controlados pelas elites dominantes e têm como função gerar filhos, a exemplo da escrava, da camponesa e da operária, que iriam alimentar os privilégios dessas elites. Isto ocorre porque o tema em voga na década de 1970 era o “trabalho” decorrente das influências de pesquisas e estudos sobre o movimento operário e a herança da tradição marxista stalinista.

Outro saber divulgado aqui se refere à conscientização das mulheres ricas que figuram como oprimidas historicamente, limitadas à condição de gerir seus bens, sua própria vida, e tuteladas pelo pai ou marido. Já a mulher pobre aparece vivendo uma relação de igualdade pelo fato de, juntamente com o seu companheiro, não possuir bens. Este fato demonstra a limitação da abordagem marxista nas análises de gênero, uma vez que as relações cotidianas são subordinadas à dimensão econômica. As relações de poder devem ser modificadas nos microespaços cotidianos, como afirma Foucault (1979), e o MST já reconhece isso quando, atualmente, luta para eliminar várias dimensões da opressão, o que pode ser observado em documentos recentes do MST, a exemplo da cartilha elaborada em 2004.

2.1.3.4 A mulher na sociedade capitalista

No Caderno nº 15 (1988, p. 11), encontramos a seguinte síntese: o modo de produção feudal se esgota pela extrema exploração a que os servos encontravam-se submetidos, tendo que oferecer sua força de trabalho nas cidades. A nascente burguesia estava descontente com a nobreza e reivindica o poder para si, levantando a bandeira “Liberdade, Fraternidade e Igualdade”, e conseguindo o apoio das massas, também descontentes. O povo, no entanto, foi traído pela burguesia, continuou explorado, agora como operário. O poder é do capital e a ordem é o lucro. Neste item, a mulher figura como vítima do sistema capitalista, cuja divisão de classes também reflete a condição da mulher em seu papel de esposa e herdeira, assim como de proletária. Ademais, aparece uma dicotomia no trecho a seguir, cujo final restringe o papel da mulher a “animal de luxo ou de carga”, corroborando nossas análises anteriores, quando focalizamos a subsunção do conceito de gênero pelo de classe da opressm 2004.vado em documentos recentes do MST, aexeido:

ns ndo nossas afirmaçb ça vista"") por este e outros modos de produç

A situação da mulher no capitalismo não muda muito, ela continua atrelada aos destinos da propriedade privada: esposa, ela garante os filhos legítimos que vão herdar a propriedade; se é herdeira, garante o aumento do capital do marido. Quanto à mulher proletária, vai garantir o contingente de operários que o capitalista vai dispor para aumentar seu capital. O sistema capitalista, sendo basicamente um sistema concentrador de riquezas, cria dois grupos antagônicos na sociedade e essa divisão se reflete também na situação da mulher. Elas serão animal de luxo ou animal de carga (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 12).

Todavia, nem toda informação contida no Caderno nº 15 nos conduz totalmente a reducionismos. Destarte, temos uma outra relação de exploração desvelada no seguinte trecho: “As mulheres pobres, operárias e camponesas, que têm que tirar sua sobrevivência de seu trabalho, são verdadeiros animais de carga. Trabalham fora de casa e ainda têm sob sua responsabilidade todas as tarefas domésticas” (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 12). A dupla jornada de trabalho vivida por inúmeras mulheres é denunciada neste Caderno, trazendo à tona um dos elementos imprescindíveis para a análise da condição das mulheres pobres – a situação de opressão de classe e de gênero, embora o conceito não apareça como “fio condutor” das análises contidas na fonte. Essa situação é problematizada nos exercícios de “Compreensão de texto”, que estimulam a conscientização da mulher, conforme podemos constatar:

1. Como está organizada a sociedade dentro do Modo de Produção Capitalista?

- Como está organizada a propriedade da terra e dos outros meios de produção?

- Como é repartido o fruto do trabalho?

2. Na sua vida de mulher, que tipos de exploração você percebe na família, no trabalho, na comunidade?

3. O que há em comum na vida da mulher trabalhadora da roça e da mulher trabalhadora da cidade? (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 14).

O mesmo caderno (1988, p. 12) menciona a concorrência/‘competição’ das mulheres com os homens no mercado de trabalho, nas indústrias, o que não foi bem visto pelos proletários que temiam perder seus empregos para as operárias. O rebaixamento no salário das mulheres garante, aos capitalistas, custo menor para seus produtos e é apresentado como ‘complemento’ à renda familiar. São mostrados, também, alguns obstáculos enfrentados pela mulher, concebidos historicamente como problemas individuais, como o cuidado com a prole e a casa, tarefas que continuam sendo atribuídas exclusivamente a elas. Esses problemas são considerados como problemas sociais, cabendo à sociedade resolvê-los. Tais fatos constituem avanço nessa produção, pela denúncia às desigualdades entre homens e mulheres, quando sugerem solução ao cuidado com a prole e a casa em nível macrossocial, deixando um espaço aberto ao aprofundamento e aos encaminhamentos dessas questões. Além disso, pressupõe o ensinamento da partilha dessas atividades com os demais membros da família e responsabilidade do Estado com a infância e a juventude.

A exploração à mulher em todos os modos de produção é denunciada em “A luz no fim do túnel”. No final do texto, a mulher aparece como figura explorada até pelo homem que sofre a exploração do patrão. Esse reconhecimento da existência de outras relações de gênero e poder pode indicar uma tentativa de saída do esquema mecanicista já mencionado no início de nossas análises.

Gohn (2002, p. 172-173) chama-nos a atenção para algumas generalizações decorrentes de uma visão distorcida desse paradigma em uma só teoria, sem distinção das abordagens ortodoxas e não-ortodoxas. Para a autora, o paradigma marxista clássico tem duas grandes correntes:


Uma ligada ao jovem Marx e a seus estudos sobre a consciência, a alienação e a ideologia etc., e que criou uma tradição histórica humanista que teve continuidade nos trabalhos de Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács, e da Escola de Frankfurt após a Segunda Guerra Mundial. Será esta leitura do marxismo que alimentará as análises contemporâneas sobre movimentos sociais. A outra corrente decorrente dos trabalhos do ‘Marx’ maduro, após 1850, e seus estudos sobre o desenvolvimento do capital, em que os conceitos básicos serão formação social, forças produtivas, relações de produção, superestrutura, ideologia, determinação em última instância, mais-valia etc. Esta última corrente privilegia os fatores econômicos, macroestruturais da sociedade. [...]. A classe operária industrial tem primazia no processo de luta social, e o movimento operário desempenha o papel de vanguarda nas transformações sociais. Ele, junto com o partido político e com intelectuais orgânicos à classe operária, teria uma missão na história: transformar a sociedade das desigualdades sociais em outra, sem opressão ou oprimidos. [...].Estes parâmetros gerais geraram leituras mecanicistas e deterministas da realidade social, como as predominantes na Segunda Internacional, nas primeiras décadas deste século, ou as realizadas durante o período stalinista na Rússia”.

Shaw (1979) contesta as leituras que enfatizam o determinismo em Marx e aborda as possibilidades da relação entre forças produtivas e relações de produção neste autor. Dentre os aspectos destacados por Shaw (1979, p. 66-67), sua releitura de Marx sugere-nos que

a perspectiva de Marx ainda é freqüentemente confundida com um estreito determinismo econômico. Essa teoria declara, em essência, que as variáveis econômicas são inteiramente determinantes da história; outros fatores e relações sociais não interatuam com elas e são simplesmente fantoches das relações econômicas. Só ao reino econômico se atribui plena realidade, ao passo que o Estado, as leis, a consciência etc., possuem variáveis graus menores de substancialidade. Essa teoria é sem dúvida falsa, e Marx não a subscreveria; dificilmente pode ser julgada compatível com o espírito de sua obra.

Embora o Caderno nº 15 (1988) negue o funcionamento do esquema dominante como algo mecânico e demonstre tentativas de saída deste esquema, acaba por incorrer novamente neste equívoco quando considera homem e mulher premidos pela ideologia dominante, sem margens para agir. O trecho a seguir demonstra isso: “A mulher, mais do que qualquer outro elemento da classe dominada, sofreu esse tipo de domínio ideológico, mergulhada no mais brutal obscurantismo e ignorância que a tornava incapaz de pensar sequer em sua própria realidade e encontrar suas soluções” (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 13). Porém, não se contextualiza quem são as mulheres mencionadas no fragmento de texto. Há, pois, tendência à homogeneização quando a leitora/o leitor tem a possibilidade de considerar, a partir das informações contidas no texto, que “todas” as mulheres vivenciaram esse tipo de domínio ideológico. Mas, há novamente a tentativa de inversão das elaborações mecanicistas, quando, no caderno em análise, são focalizadas a consciência e luta das mulheres por direitos, estando sua “libertação” condicionada à “libertação” da sociedade. Portanto, evidencia-se o caráter coletivo – de todas e de todos – dessa “libertação”:

Mas, aos poucos a mulher vem adquirindo consciência de si mesma como pessoa e em suas reivindicações questiona e luta pelos seus direitos ficando para todas, cada vez mais claro, que a verdadeira libertação da mulher só vai se dar com a libertação da sociedade como um todo. A luta pela emancipação da mulher deve vir junto com a luta por uma nova sociedade. Mas, a mulher terá que CONQUISTAR esse seu espaço e terá que garantí-lo[...]. Nada lhe será dado de graça (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 13).

A “libertação” da mulher e do homem exige não somente a garantia de condições de igualdade econômica, mas também uma reeducação e mudança de mentalidade que nos sugere repensar nossas práticas políticas e sócio-educativas. A “libertação” agrega um conjunto de elementos objetivos e subjetivos da realidade humana. Considerando que mulheres e homens podem se libertar de uma determinada dimensão da opressão, mas, que também, podem estar sujeitos a outra dimensão, a luta nos movimentos sociais se complexifica, uma vez que conduz mulheres e homens a atuarem em diversos âmbitos e contra as variadas formas de discriminação.

2.1.3.5 A mulher numa nova sociedade

O Caderno nº 15 (1988) é relevante para a história do Movimento porque traz consigo elementos importantes para a compreensão de seu projeto político-pedagógico. Nele, o projeto do MST apresenta forte conotação educativa, uma vez que seu principal objetivo é despertar as mulheres para a sua condição de classe oprimida. Mas, embora haja menção ao poder de gênero nessa publicação, a abordagem mecanicista permanece no texto “A mulher numa nova sociedade”, em que as relações de gênero são subordinadas à luta política por transformação social, que, embora se constitua em um dos fatores importantes para a libertação da mulher, não se restringe à passagem para uma sociedade socialista. A Ilustração 6, abaixo, retrata a participação da mulher na luta por essa “nova” sociedade proposta pelo MST:





ILUSTRAÇÃO 6 – A mulher numa nova sociedade

FONTE: VILELA, Regina. Caderno de Formação nº 15 A mulher nas diferentes sociedades. São Paulo: Escolas Profissionais Salesianas, 1988.
Há um destaque à perspectiva projetiva de uma sociedade idealizada, apoiada em valores e cujo foco seria a apropriação coletiva dos bens produzidos socialmente. O ápice da análise se dá justamente na transição da sociedade capitalista para a sociedade socialista. A direção teleológica está contida na proposta de implantação de uma nova ordem social para abolir a discriminação de qualquer espécie, na tentativa de transformar os sujeitos em cidadãos, como observamos no trecho seguinte:

A saída, então, é lutar para a implantação de uma nova ordem social que organize essa sociedade de uma maneira nova, diferente da anterior onde cada pessoa tenha assegurados os seus direitos de cidadania, onde todos tenham assegurada a satisfação de suas necessidades básicas de educação, moradia, trabalho, saúde e lazer. Onde sua dignidade como pessoa seja resgatada. Onde o interesse comum prevaleça sobre o interesse individual; onde o produto do trabalho seja revertido para o bem de todos. Onde a discriminação de qualquer espécie seja abolida, seja ela de cor, de idade, de categoria profissional ou se sexo. Todos sejam igualmente cidadãos (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 15-16).

Para tanto, propõe-se que a classe trabalhadora desenvolva intenso e permanente trabalho de conscientização, politização e organização. Em passagens finais do texto, há um deslocamento do conceito de classe para o enfoque de gênero, com aparência de contradição, e pode ser entendido como uma outra tentativa de saída, já no Caderno de Formação nº 15 (1988), do esquema mecanicista. Ou parece haver uma confusão, nesta produção teórica, quanto à ordem das coisas: se a “libertação” da mulher deve ocorrer depois da libertação da sociedade, ou concomitantemente a isso. Esta confusão representa uma dificuldade teórico-metodológica em estabelecer uma relação coerente entre classe e gênero nesse momento histórico. Vejamos, a esse respeito, o trecho abaixo, no qual a palavra gênero aparece pela primeira vez:

No entanto, é preciso ficar bem claro que a mulher não espere sua emancipação automática no socialismo. Ao longo de toda historia a mulher da classe dominada foi vitima de uma dupla exploração – uma opressão de classe e uma opressão de gênero – oprimida por ser proletária; oprimida por ser mulher. Durante todo esse tempo, viveu afundada no mais profundo obscurantismo, vítima de preconceitos, preconceitos esses compartilhados, inclusive, por seus companheiros. Desse modo, cabe à mulher, lutar em duas frentes: por sua classe, lutar porque é oprimida como classe e lutar porque é oprimida enquanto sexo. Essa não é uma luta que divide forças como alguns oportunisticamente tentam alegar; é uma luta que junta forças porque, nessa luta, nessa busca de libertação, vai surgir uma mulher nova, inteira, integralmente capaz de gerir a sua vida e partilhar igualitariamente da construção dessa sociedade nova que se almeja (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 16). (grifos nossos).

No trecho destacado, entrevemos o perfil da mulher divulgado neste item do Caderno nº 15 (1988), revelador de um ideal de mulher engajada na luta política contra o sistema capitalista e contra a opressão masculina. Ou seja, é destacada uma mulher que, na conquista por sua autonomia, luta pela “libertação” não somente dela, mas de mulheres e homens como coletividade – “uma mulher nova, inteira, integralmente capaz de gerir a sua vida e partilhar igualitariamente da construção dessa sociedade nova que se almeja” (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 16). (grifo nosso).

Os fundamentos teóricos do MST estão ancorados em uma diversificada produção marxista, desde os clássicos aos revisionistas (CALDART, 2000). A obra de Kolontai (2005), escrita no início do século XX (1918), desperta a leitora e o leitor, pela atualidade da abordagem com que trata as questões de classe, mostrando os subterrâneos dos dilemas enfrentados por mulheres e homens em suas relações afetivas. No livro intitulado A nova mulher e a moral sexual, a autora aborda questões relativas à identidade dessa “nova mulher” e ao tipo de sociedade à qual ela pertenceria. Neste sentido, problematizamos: quem seria essa mulher idealizada por Kolontai (2005) e pelo Movimento? Em que aspectos essa “nova” mulher contida na obra de Kolontai (2005) se aproxima e se afasta daquela pensada pelo Movimento? A referida obra está incluída como uma das indicações do Movimento à leitura de sua militância. Por isso, analisaremos alguns de seus aspectos neste momento.

Quando Kolontai (2005) denomina essa nova mulher de “celibatária”, a despeito de sua visão perceptiva, há um certo distanciamento entre a mulher idealizada pelo Movimento e a celibatária pensada por Kolontai, uma vez que, permanecendo solteira, não formaria “casal” para compor a unidade familiar de que o campo necessitaria para produzir. Mas essa nova mulher apresentada por Kolontai (2005) se aproxima, em muitos outros aspectos, da “mulher engajada na luta política” e idealizada pelo Movimento. Essa mulher nova é aquela que Kolontai (2005) chama de mulher moderna presente no cenário do capitalismo contemporâneo, realidade da Europa e dos Estados Unidos, onde ela se constituiria como classe trabalhadora. Conforme a autora, essa mulher nova também faria parte da realidade russa, no período compreendido entre 1870 e 1880, embora não fosse retratada pela maioria dos literatos, que se esforçavam em desenhar tipos de mulheres do passado11. Na escrita perceptiva da própria Kolontai (2005, p. 77), tornam-se evidentes os pontos de aproximação e ruptura entre os tipos de mulher vislumbrados pela autora e pelo Movimento:

Estas mulheres são algo novo, isto é, um quinto tipo de heroína desconhecida anteriormente, heroínas que se apresentam à vida com exigências próprias, heroínas que afirmam sua personalidade; heroínas que protestam contra a submissão da mulher dentro do Estado, no seio da família, na sociedade; heroínas que sabem lutar pelos seus direitos. Representam um novo tipo de mulher. São mulheres celibatárias, a denominação mais apropriada que podemos dar a este novo tipo (grifo nosso).

Em suma, segundo Kolontai (2005), a mulher moderna faz parte da classe trabalhadora, operária; é independente material e psicologicamente do homem. É um tipo de mulher dotada de nova estrutura moral, com novas necessidades e emoções. É interiormente livre e independente, considera o amor como uma etapa, e não como a única base de sua vida. O fato de ser considerada celibatária não restringe necessariamente seu campo de relacionamentos afetivos. Para Kolontai (2005), consciente de sua condição de classe, luta contra o sistema capitalista e pela afirmação de seus direitos e de sua personalidade.

Vale reforçar que há contradição no que se refere à mudança de comportamento entre os sexos presente no Caderno nº 15 (1988), se essa mudança se daria numa sociedade tipo socialista ou nos interstícios da sociedade capitalista. Encontramos contradição semelhante em Kolontai (2005, p. 31). O trecho a seguir nos remete a esta questão, quando a autora aborda a relação entre homens e mulheres:

Somente uma transformação fundamental da psicologia humana poderá transpor a porta proibida, somente o enriquecimento da psicologia humana no potencial do amor pode transformar as relações entre os sexos e convertê-las em relações impregnadas de verdadeiro amor, dotadas de uma afinidade real, em uniões sexuais que nos tornem felizes. Porém, uma transformação desse gênero exige inevitavelmente a transformação fundamental das relações econômico-sociais: isto é, exige o estabelecimento do regime comunista (grifo nosso).

Novamente Kolontai (2005, p. 39-40) prossegue, reforçando a condição da passagem para uma sociedade comunista na resolução da crise sexual, tomando como referência a dimensão educacional, isto é, a possibilidade de uma reeducação de nossa psicologia, somente possível na sociedade socialista ou comunista. A inovação em sua postura reflete a relação necessária entre a mudança nas estruturas econômicas e mentais de mulheres e homens. No trecho abaixo, a autora apresenta uma pauta prolífica com relação à mulher, mas a ser atingida somente em uma sociedade comunista:

A solução para este complicado problema só é possível mediante uma reeducação fundamental de nossa psicologia, reeducação esta que, por sua vez, só é possível por uma transformação de todas as bases sociais que condicionam o conteúdo moral da Humanidade. [...]. Correspondem, completamente, às reivindicações do programa socialista: independência econômica da mulher, verdadeira proteção e segurança à maternidade e à infância, luta contra a prostituição em sua base econômica, supressão da noção de filhos legítimos e ilegítimos, substituição do matrimônio religioso pelo matrimônio civil, facilmente anulável, reconstrução fundamental da sociedade segundo os princípios comunistas [...] (grifo nosso).

Percebemos outra contradição no texto do Caderno nº 15 (1988) semelhante àquela presente em Kolontai (2005), quando esta autora afirma que a solução para a crise sexual e a mudança de normas e valores relacionados a mulheres e homens somente se modificariam em uma sociedade comunista, e, paradoxalmente, que esta realidade poderia ser modificada durante o próprio processo de luta contra as forças de classe burguesa. Mas o paradoxo encontrado em Kolontai (2005, p. 71-72) sugere uma tentativa de saída do esquema mecanicista, quando são abordados as normas e os valores no plano da ideologia:

Toda classe ascendente, nascida como conseqüência de uma cultura material distinta daquela que a antecedeu no grau anterior da evolução econômica, enriquece toda a humanidade com uma nova ideologia que lhe é característica. Esta afirmativa corresponde a uma velha verdade. O código da moral sexual constitui parte integrante da nova ideologia. Portanto, basta pronunciar as expressões ética proletária e moral proletária, para escapar da trivial argumentação: a moral sexual proletária não é no fundo mais do que uma superestrutura. Enquanto não se experimentava a total transformação da base econômica, não pode haver lugar para ela. Como se uma ideologia, seja qual for o seu gênero, não se formasse até que se produzisse a transformação das relações econômico-sociais necessárias para assegurar o domínio da classe que a gerou! A experiência da história ensina que a ideologia de um grupo social e, conseqüentemente, a moral sexual se elaboram durante o próprio processo da luta contra as forças sociais que se lhe opõem. [...]. Devemos recordar que o código da moral sexual, em harmonia com as tarefas fundamentais de classe, pode converter-se em poderoso instrumento, que reforce a posição de combate da classe revolucionária. Por que não utilizar este instrumento no interesse da classe operária, em sua luta para estabelecimento do regime comunista e, por sua vez, também, estabelecer relações novas entre os sexos, que sejam mais perfeitas e felizes? (grifo nosso).

Estabelecendo uma analogia com o texto de Kolontai (2005), percebemos que, no transcurso de praticamente todo o texto do Caderno nº 15 (1988), recorreu-se a um esquema mecanicista e que, ao final, surge uma proposta de inovação que demonstra uma tentativa de saída desse esquema. O texto estimula a mulher a participar da luta política contra a opressão econômica, uma das dimensões importantes para a sua “libertação”, uma vez que visa à garantia de direitos dos cidadãos fundamentais à vida de mulheres e homens. Além disso, existem aqueles direitos cuja falta interfere sobremaneira no cotidiano das mulheres trabalhadoras rurais, a exemplo das condições de infra-estrutura, como a falta de água e de escola para seus filhos e filhas. Outra tentativa de fuga ao esquema mecanicista pode ser vislumbrada no trecho a seguir:

É certo que, somente numa sociedade socialista, a mulher poderá empreender a sua verdadeira emancipação; no entanto, é preciso ter claro, que não é preciso esperar a vitória do socialismo para lutar por essa libertação; esse caminho deve começar a ser trilhado já, ela tem que começar a forjar a sua libertação agora, a partir de agora ela tem a responsabilidade histórica de conquistar e garantir espaços, de assegurar seu direito de ser um cidadã integral, uma pessoa inteira e completa como seus companheiros e não uma sub-espécie da humanidade, convocada a lutar num determinado momento e descartada posteriormente, quando alguns já não consideram necessária sua participação (Caderno de Formação nº 15, 1988, p. 16-17).

Para Kolontai (2005), parece que a luta da mulher deve ocorrer concomitantemente à luta pela revolução. Essa assertiva coincide com a afirmação acima contida no Caderno de Formação nº 15 (1988). A luta da mulher, no referido caderno, está ainda muito atrelada à luta de classes, e o Movimento não consegue “alçar vôos” maiores rumo a diferenciadas temáticas “específicas” às relações de gênero, como aquelas relacionadas à violência, à saúde, ou mesmo adentrar na discussão das variadas formas de se viver a sexualidade. Parafraseando Freire (2001), podemos afirmar que as bases teóricas de gênero não estavam disponíveis àquela época como estão hoje. Então, podemos inferir que algumas temáticas e questões não estavam em evidência naquele momento histórico. Portanto, o Movimento privilegiou outras temáticas recortadas pelo viés de classe, a exemplo da exploração capitalista vivida por mulheres e homens das camadas populares, bem como a dupla jornada de trabalho enfrentada pela mulher. Ademais, reconheceu a importância de “capacitação” das mulheres. Mas não é demais afirmar que o MST tem tentado incorporar a produções escritas mais recentes a luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais por outras demandas e discussões que permeiam as relações de gênero, inclusive aquelas relacionadas aos recortes geracional e interétnico.

A educação proposta pelo MST está assentada na utopia de transformação das estruturas econômicas. Portanto, nesse momento histórico, o Movimento concebe que, somente através da transformação para uma sociedade socialista, a humanidade possa atingir a perfeição, pois nela homens e mulheres gozariam de maiores condições de igualdade e, por isso, seriam mais felizes. A conotação de classe configura-se no Movimento como uma permanência histórica. Todavia, esse sujeito social tem acrescentado outros elementos a suas pautas reivindicatórias. Nesse contexto, as mulheres têm conseguido mais espaço e, a partir do surgimento de múltiplas demandas desses sujeitos, as ações do Movimento têm-se diversificado, atingindo patamares complexos que exigem estudo e organicidade por parte das militantes e dos militantes.

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