2009 gislaine da nóbrega chaves o conceito de gênero no mst: um estudo da sua produção escrita



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Nossos objetivos estratégicos

  1. construir novos valores no cotidiano (família, militância, direções, postura pessoal)

  2. tratar a questão de classe e de gênero enquanto princípio massificar e qualificar a participação das mulheres

  3. dar organicidade à participação das mulheres

  1. Nossos objetivos específicos

  • criar mecanismos para garantir a participação das mulheres em todos os níveis (creches e outras)

  • criar novas relações em que os resultados políticos, econômicos e sociais sejam distribuídos de forma igualitária entre homens e mulheres (MST, 1996, p. 7).

Percebemos que os objetivos acima citados refletem uma perspectiva de mudança, condizente com a realidade de mulheres e homens do campo, cujo modo de atuar, expresso na documentação escrita sugere uma tendência à democratização das relações de gênero no Movimento. Melo (2003, p. 134-135) analisa as relações de gênero nos documentos produzidos pelo Coletivo Nacional de Mulheres do MST e por seus assessores, apontando para a necessidade de aprofundamento teórico na documentação do MST, uma vez que, segundo a autora, “Uma questão que fica em aberto é a de como se dará o possível enfrentamento das contradições próprias a esta discussão, em função das diferentes e divergentes vertentes epistemológicas e políticas que sustentam discussões sobre ‘classe’ e sobre ‘gênero’”. Para tanto, Melo (2003, p. 134-135) acrescenta:

chama nossa atenção a idéia de se tratar as questões de ‘classe e gênero enquanto princípio’, a qual por si só não explicita o que se entenda por ‘classe’, por ‘gênero’ e por ‘princípio’, mas que em si já parece trazer uma nova marca das discussões próprias à metodologia feminista contemporânea. Fica implícita uma noção de que não se pretende tratar a questão de gênero apartada da discussão sobre classes sociais e de que gênero não é apenas um objeto de análise, mas um ‘princípio’ para a análise das relações sociais no seu conjunto – o que implica uma discussão metodológica, posto que se trata do modo de compreensão das contradições próprias de nossa sociedade. No entanto, o caráter tipicamente sintético da elaboração de objetivos como estes não permite visualizarmos ainda as nuances de seu conteúdo. [...]. De modo que o MST parece ainda não ter se apropriado das ricas discussões desenvolvidas no campo complexo da metodologia feminista, principalmente no que diz respeito às influências do pós-estruturalismo e ao debate em torno delas. De um modo geral, o que tende a prevalecer é uma noção de que a questão de gênero é complementar e/ou subordinada à análise da sociedade em termos da luta de classes, compreendida de um modo marxista convencional.

Melo (2003, p. 138) cita, ainda, algumas mudanças concretas na metodologia utilizada pelo Movimento e que são significativas, a exemplo da inclusão de, pelo menos, um dia de discussão específica sobre o tema das desigualdades nas relações de gênero, nos encontros nacionais e estaduais; da organização de oficinas e cursos de formação massivos voltados para discussão do tema; de um bom número de materiais publicados, valorizando personalidades femininas e conquistas das mulheres do MST; da preparação e projeção de quadros femininos para a participação nas instâncias de decisão do MST; do empenho para a criação de condições de participação concreta das mulheres nas cooperativas e associações, em nível de igualdade com os homens; da participação em campanhas específicas promovidas por movimentos de mulheres trabalhadoras; dos cursos massivos nos quais as mulheres aprendem a dirigir automóveis, fazer análises de conjuntura e elaborar/sistematizar saídas para problemas políticos apresentados nos acampamentos e assentamentos do Movimento. Essas mudanças implicam na mobilização de recursos humanos e financeiros que oportunizam a efetivação e massificação dessas ações que podem contribuir para a melhoria na qualidade de vida das mulheres, dos homens e de suas famílias.

Para Stédile (2002), a contribuição do Movimento, do ponto de vista da organização, ocorreu, principalmente, porque ele soube eliminar o corporativismo da luta exclusiva pela terra, bem como por suas características internas, quando procura aproveitar as experiências e os acertos dos movimentos sociais que o antecederam, e com a luta de classe da classe trabalhadora. Stédile (2002, p. 239) cita, também, alguns princípios que emergem como as primeiras características do Movimento:

1 – a idéia de direção coletiva...;

2 – a idéia de que devemos ter uma vinculação permanente com as bases, com as massas;

3 – a idéia de que é preciso construir uma organização com disciplina, no sentido de criar compromissos mútuos entre os membros dessa organização e de respeito à maioria; e

4 – a idéia de que sem conhecimento científico, sem estudo, nós não conseguiremos derrotar os nossos inimigos.

Em conjunto com as características antes apresentadas, Stédile (2002, p. 239) acrescenta outras que considera importante, tais como: ter uma organização nacional, construir uma organização com autonomia política e ideológica frente aos partidos e à Igreja, envolver toda a família, não fazendo um movimento apenas de adultos e de machos.

No trecho em que Melo (2003, p. 120-121) aborda as desigualdades de gênero, evidencia-se que, já em 1986, no “I Encontro Nacional das Assentadas pelo MST”, em resolução discutida, aprovada e documentada em Construindo o Caminho,

As mulheres trabalhadoras rurais assentadas pelo MST denunciaram falhas na busca de superação de antigos preconceitos que impedem a conquista de relações igualitárias – mesmo nas áreas influenciadas pelo movimento. E procuram formular alternativas que, sendo assumidas pela organização como um todo, poderiam auxiliar e contornar o problema.

O livro documento Construindo o Caminho (1986) esboça as primeiras resoluções aprovadas pelo MST como diretrizes para solucionar o problema relativo à participação política das mulheres na reforma agrária. Corroboramos com Melo (2003) quando considera este passo um marco na organização política das mulheres do MST e uma conquista no processo de transformação do padrão de distribuição de poder na relação homem-mulher, assim como na dinâmica da luta pela reforma agrária.

A partir das análises dos autores e autoras citados, percebemos que, historicamente, têm ocorrido mudanças no interior do Movimento quanto às percepções desse sujeito pedagógico sobre o conceito de gênero; o MST se propõe a incorporar, em suas práticas de formação e no cotidiano de seus participantes, ações concretas que minimizem as discriminações e preconceitos contra a mulher trabalhadora rural, seja por meio da produção de vasta documentação “para” e “sobre” si, ou por meio de práticas político-pedagógicas que transformem homens e mulheres em cidadãos. Mas, como afirma Novaes, (2002, p. 228) “no âmbito do movimento social que se faz no campo, ainda falta muito para que tenhamos o almejado ‘equilíbrio de gênero’”. Isto porque o Movimento enfrenta inúmeros desafios, sobretudo quando ousa adentrar numa seara que envolve o cotidiano dos sujeitos e sua subjetividade, vislumbrando mudanças de mentalidade. Essa tarefa é complexa sob diversos matizes, sobretudo por envolver o questionamento e a mudança de aspectos conservadores de nossa cultura. De outra forma, em um país extenso como o Brasil, e que abarca realidades socioculturais e históricas distintas, vale destacar que as ações implementadas pelo MST tendem a causar impactos diferenciados, se considerarmos os vários espaços em que o Movimento atua e suas peculiaridades. Sendo assim, conforme afirma Novaes (2002, p. 229),

As maneiras de construir pertencimento ao MST não são homogêneas. Ao contrário, dependem sobretudo das histórias de cada região e de situações locais. O que o movimento oferece é uma coordenação nacional que é eficaz em fornecer sentido, táticas e estratégias de lutas e – ao mesmo tempo – é flexível para reconhecer grupos locais com composições bastante diversas.

Historicamente, a terra esteve vinculada ao latifúndio, à monocultura e mão-de-obra escrava, bem como diretamente à constituição de famílias extensas compostas por pai, mãe, filhos e filhas. Isto porque a produção agropecuária dependia, principalmente, desse tripé, aliado ao trabalho de sua parentela. Afirmou-se, assim, a relação capital/trabalho no campo atrelada a arranjos tradicionais em sua composição, com relações verticais que refletiam a perpetuação das contradições existentes no sistema capitalista vinculadas ao patriarcado. Todavia, têm ocorrido rearranjos com perspectivas de determinadas inovações na produção agropecuária nos acampamentos e assentamentos, assim como nas relações de gênero, a exemplo da inserção de homens e mulheres em todas as instâncias de poder do MST17, dos núcleos de base18 às coordenações nacionais, configurando-se como mudanças nas relações de poder existentes no MST. Essa perspectiva inovadora foi percebida em seus documentos recentes e em entrevistas com algumas lideranças do Movimento, no estado do Tocantins19. Vale ressaltar, também, mudanças ainda tímidas quanto ao reconhecimento de preferências sexuais, nos assentamentos rurais, quando, há dois anos, um casal de mulheres adquiriu uma titulação da terra que lhes foi concedida pelo INCRA, no sudoeste paulista20.

A mulher trabalhadora rural, força ativa presente nos acampamentos e assentamentos do MST, tornou-se imprescindível à subsistência econômica, familiar, afetiva e cultural do grupo social do qual faz parte, figurando como elemento-chave nos processos de luta. A “questão da mulher” e as relações de gênero foram incorporadas à documentação do MST e figura como parte do seu projeto político, social e educativo por uma sociedade menos iníqua. O Movimento deve, pois, ser lido a partir de sua historicidade, para que possamos dele ter uma concepção mais consistente, apartando as abordagens maniqueístas e fragmentadas difundidas pelos meios de comunicação de massa.
3.1 DOCUMENTOS PUBLICADOS DE 1996 A 1998: participação e formação político-educativa das mulheres do MST

A cartilha intitulada A questão da mulher no MST foi elaborada no ano de 1996, sob a responsabilidade do Coletivo Nacional de Mulheres do Movimento, com sede em São Paulo. Surge com o objetivo de aprofundamento no debate sobre “a questão da mulher no MST” nos estados, nas instâncias, nos grupos de base, etc.

3.1.1. A questão da mulher no MST
Não há, nas onze páginas do documento, imagens; nada se estampa na capa ou contracapa, nem em seu interior. Esta cartilha contém o plano de trabalho e os encaminhamentos resultantes do “Encontro Nacional das Mulheres Militantes do MST”, realizado no período de 25 a 28 de maio de 1996. O tema-eixo da Cartilha (1996) volta-se para o “problema agrário”, focalizando aspectos da organicidade interna do MST, com destaque à participação da mulher. Ressaltamos alguns conceitos presentes no texto da referida cartilha: participação, luta de classe, gênero, cotidiano, novos valores e formação política. Nela há menção não somente à dominação de gênero, mas seus conteúdos são, metodologicamente, atravessados, por ele. Percebemos que, se, no Caderno de Formação nº 15 (1988), analisado no Capítulo I desta tese, existia uma preocupação com a disseminação das informações, centradas nos modos de produção, na Cartilha (1996), há uma tentativa de aproximação entre o conceito de gênero e a prática dos acampamentos e assentamentos.

3.1.1.1 Das condições de produção, circulação e difusão das informações


A Cartilha (1996) consta de três partes: 1) Nossos principais problemas; 2) A evolução de nossas linhas políticas e 3) Plano de trabalho. Sua abordagem é sociopolítica, sem propostas de atividades ou avaliação com questões reflexivas, como o caderno anterior, de 1988. Segue o esquema “problemas/causas/avanços/desafios”, apresentando uma limitação explícita no trecho abaixo, quando o MST define sua relação com outras organizações de mulheres. Frente a outras organizações de mulher, o Movimento recusa o contato com algumas ONGs; com outras, de classe, expressa o desejo de melhorar o relacionamento. Evidencia-se, assim, o caráter controlador do MST, inspirado em um marxismo tradicional que, paulatinamente, foi sendo modificado:

4.4 Relação com outras organizações de mulheres

  • com ONGs ficou claro que não podemos nos iludir, às vezes teremos que isolar [!?]

  • com outras, de classe, temos que melhorar o relacionamento

  • o coletivo deve indicar quem vai representar o MST na articulação nacional de MMTRs (A questão da mulher no MST, 1996, p. 11).

Nas Normas Gerais do MST (1989), identificamos uma perspectiva corporativista, uma vez que sua “Equipe de Mulheres” deveria ser indicada pela direção nacional (A questão da mulher no MST, 1996, p. 5). Essa tendência perdurou no Plano de Trabalho, na própria estruturação das ações, quando ao Coletivo Nacional foi atribuído o papel de “centralizar as informações” (A questão da mulher no MST, 1996, p. 9). Mas, por outro lado, nas publicações, afirma-se que “os estados deverão fazer cartilhas conforme a sua realidade especifica” (A questão da mulher no MST, 1996, p. 9). Aqui, cabe destacar também alguns avanços e desafios apresentados pelo próprio Movimento:


1.4 Avanços a) conscientização de que há problema e o jeito como enfrentamos a discriminação b) preocupação que está existindo no MST de debater o problema •política (enquadrar gênero na luta de classes) •séria (do ponto de vista científico) c) qualidade do debate que as lideranças femininas iniciaram 1.5 Desafios a) O que queremos (rumo ao ideal) como construir novos valores? Como vincular a participação das mulheres rumo ao nosso projeto estratégico, seja reforma agrária, seja de poder popular? como construir o novo (novas relações) no cotidiano? b) Meios para avançar (formas) repensar, reelaborar uma metodologia apropriada no trabalho de base criar condições objetivas para aumentar a participação da mulheres pensar e propor formação política (relacionada à organização como um todo) ressaltar o que a mulher leva de novo ao participar de uma instância c) Alerta a desvios: o número é importante mas não suficiente (é uma ilusão resolver com a cota) evitar o vedetismo ou personalismo quando ascendem a posição social (A questão da mulher no MST, 1996, p. 3-4).

Apesar do caráter excludente presente em alguns trechos do Plano (A questão da mulher no MST, 1996, p. 6), quando trata da relação com outras organizações de mulheres e da composição do Coletivo, existem muitos outros aspectos produtivos, a exemplo das propostas que se consubstanciam em linhas políticas mantenedoras do trabalho do MST. As questões relacionadas aos problemas específicos das mulheres e à orientação geral de envolver os homens em todas as discussões e atividades constituem avanços no discurso do Movimento e desafios a serem enfrentados pelo MST e pelas mulheres.

3.1.1.2 Relação entre o conceito de gênero e o de classe
Na cartilha em análise, afirma-se a necessidade de discussão e “enquadramento do conceito de gênero à luta de classes”, apresentado como um problema e um desafio. Embora a luta de classes esteja presente, algumas temáticas que extrapolam o conceito de classe já são mencionadas, a exemplo da discriminação à mulher, da dupla moral, da falta de estrutura para possibilitar a participação feminina no Movimento, da violência contra a mulher.

A discriminação à mulher aparece como um dos principais problemas relacionados à luta pela terra, uma vez que, conforme tal cartilha, a discriminação existente na sociedade também ocorre nos assentamentos e acampamentos. Dessa forma, as mulheres do Movimento denunciam: “as mulheres lutam mas não têm representatividade, diferença entre teoria e prática do MST, o trabalho com/sobre/das mulheres é considerado secundário” (A questão da mulher no MST, 1996, p. 3). Aqui cabe destacar as causas dessa discussão apontada pelo MST (A questão da mulher no MST, 1996, p. 3):



1.3 Causas dos problemas

a) da sociedade:



  • preconceito histórico

  • atraso das relações sociais do campo

b) da organização (MST)

  • falta entendimento do problema (a maioria acha que não existe problema)

  • falta de incentivo e de criar mecanismos de participação

  • falta qualidade na formação de seus membros

c) das mulheres

  • medo de enfrentar os problemas.

Na Cartilha de 1996, em um exercício de auto-avaliação, o MST reflete sobre a participação da mulher nos seus quadros. O conteúdo desse documento se aproxima da realidade das mulheres trabalhadoras rurais e constitui um esforço de reflexão crítica sobre as dificuldades das mulheres quanto à sua participação na sociedade e no MST. Outrossim, chama a atenção para a dificuldade da sociedade e do Movimento em enfrentar esse problema, dada a natureza histórica dos preconceitos e a própria organização do MST. Mais realista, o Movimento, nessa cartilha, após oito anos de fundação, tenta transcender o esquema tradicional dos modos de produção, buscando legitimar a participação da mulher como militante, por meio de documentos orientadores de sua prática sociopolítica. Há, também, o reconhecimento do MST da importância da qualidade do debate iniciado pelas feministas.

A Cartilha de 1996 situa-nos, ainda, quanto à discussão acerca da mulher presente em três passagens dos documentos regulamentadores das ações do MST: nas Normas Gerais do MST (1989), no Documento Básico (1993) e no Programa Agrário (1995). A leitura dessas fontes demonstra que a mulher passa a ter existência na documentação oficial do Movimento, que se preocupa com seu papel de militante. Essa segunda passagem da referida cartilha trata da evolução das linhas políticas dirigidas às mulheres nos três documentos mencionados.

Nas Normas Gerais, existe uma preocupação expressa (que busca se consubstanciar em ações efetivas para garantir a participação das mulheres no Movimento) no sentido de combater a discriminação de todos os tipos, estimular a participação do MST em outros movimentos de mulheres, além de visar a criação de uma equipe nacional de mulheres para organizar políticas específicas, elaborar materiais para publicação, assessorar e fornecer subsídios para orientar o trabalho específico com mulheres. A criação de uma “Equipe de Mulheres” dentro do Movimento indica um reconhecimento da problemática específica da mulher, como o incentivo à participação, o reconhecimento da importância da participação feminina no MST, a necessidade de qualificar essa participação por meio da criação de ações concretas no cotidiano e no Movimento etc.

No Plano de Trabalho, novamente é dado destaque às “questões específicas das mulheres do MST”, sendo suas propostas de ação inseridas na estratégia geral: ‘Reforma Agrária: uma luta de todos’ (A questão da mulher no MST, 1996, p.6). Ressaltamos um dos itens apresentados na Cartilha (1996, p. 5): “estimular comissões de mulheres nos acampamentos, assentamentos, para discutir problemas específicos”. Ao longo desse documento, esses “problemas específicos” são citados. Há, na formalização expressa da fonte investigada, uma tentativa de formar a militante, qualificando-a nos níveis elementares do cotidiano, com ênfase na construção de “novos valores” e na criação de mecanismos de participação. Portanto, os objetivos estratégicos e específicos do Movimento incidem nas questões específicas à mulher, como discriminação, falta de estrutura para possibilitar sua participação no Movimento, a dupla moral, etc.:


  1. Nossos objetivos estratégicos a) construir novos valores21 no cotidiano (família, militância, direções, postura pessoal) b) tratar a questão de classe e gênero enquanto um princípio c) massificar e qualificar a participação das mulheres d) dar organicidade à participação das mulheres 2. Nossos objetivos específicos a) criar mecanismos para garantir a participação das mulheres em todos os níveis (creches e outras) b) criar novas relações em que os resultados políticos, econômicos e sociais sejam distribuídos de forma igualitária entre homens e mulheres (A questão da mulher no MST, 1996, p. 6-7).

Assim, subjacente ao esboço da criação de mecanismos de poder para garantir a participação das mulheres, expressos por meio das linhas políticas do MST, para tentar formar a militante para a luta, há objetivos traçados que constituem estratégias para democratizar a participação e o acesso das mulheres aos espaços cotidianos do MST e a instâncias mais amplas da sociedade. Está implícita, aí, uma educação para a militância e, também em sentido mais amplo.

No Documento Básico (1993), o Movimento aborda gênero, tentando garantir a participação da mulher nas atividades agrícolas e combater o preconceito e as desigualdades, uma vez que se pode ler o seguinte a esse respeito, “Art. 152: sobre a produção – temos que garantir a participação das mulheres e todos os níveis da cooperação agrícola e sobretudo estimular sua participação no trabalho produtivo, como também combater as desigualdades e tradicionalismo que existe no meio camponês” (A questão da mulher no MST, 1996, p. 5-6).

Vale ressaltar que, no Documento Básico (1993), também aparecem recomendações já expressas nas Normas Gerais do MST (1989), no sentido de garantir a participação das mulheres em todos os níveis. No capítulo VIII deste último documento, no item “Da articulação das Mulheres”, ponto 51, lê-se: “O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra deve estimular a participação das mulheres em todos os níveis de atuação, em todas as instâncias de poder, e de representatividade”. Todavia, a discussão em torno da participação da mulher nas instâncias de poder – direções estaduais e nacionais – permanece em documentos mais recentes, a exemplo do texto intitulado “A questão das mulheres no MST” (1998) que compõe a coletânea “Compreender e Construir Novas Relações de Gênero”. Nele consta que essas normas existem há tempo, mas não foram efetivas na prática do Movimento, como abordaremos nas análises da próxima fonte.

No Documento Básico (1993, p. 5), a “especificidade” ressurge de maneira confusa em seu Art. 45, onde se lê: “considerar as questões específicas das mulheres e sua participação como parte integrante das reivindicações e da organização, tratando como classe e não enquanto gênero”. Aqui, há limites teóricos quanto à aparente apartação entre os conceitos de classe e gênero, assim como quanto à exclusão do conceito de gênero. Esta proposta vai de encontro ao que foi traçado inicialmente pelo MST.

Existe, na cartilha de 1996, uma preocupação com as “questões específicas” à mulher; o que, no Caderno de Formação nº 15 (1988), não registra. Um dos avanços reconhecidos pelo Movimento – “enquadrar gênero na luta de classes” – parece não se coadunar com a tentativa de considerar as “questões específicas das mulheres” e sua participação, “tratando como classe e não enquanto gênero” (A questão da mulher no MST, 1996, p. 5). A concepção de gênero, subjacente aos documentos, parece se restringir ao enquadramento da mulher na militância, reforçando a necessidade da participação feminina nos quadros do Movimento, mas ainda sem oportunizar igualdade de participação nas esferas de poder. Esse fato demonstra uma falta de clareza conceitual do Movimento. No Programa Agrário (1995), em “A situação da mulher no campo (Ponto 7, página 6)”, destacamos:
‘Entre as pessoas que vivem no campo as que mais sofrem as péssimas condições de vida são, sem duvida, as mulheres e as crianças. As mulheres realizam uma dupla jornada de trabalho, dedicando-se às atividades domésticas e ao trabalho na produção. A maioria não recebe nada pelo seu trabalho. Não participa das decisões da economia familiar. São as mulheres quem mais sofrem com a falta de atendimento de saúde para si e para seus filhos. Acrescido a isso encontra-se uma condição generalizada de preconceitos e discriminações pela prática do machismo no meio rural, que submete a mulher a uma condição inferior’.

O texto denuncia a situação de opressão econômica e discriminação social a que a mulher está submetida. Mas a inexistência de poder econômico não significa não ter poder. Neste sentido, Miele e Guimarães (1998, p. 225-226) afirmam, em artigo intitulado: As mulheres nos assentamentos rurais: o antes e o depois, “muitas aprenderam a se afirmar por outras linguagens, por outras formas concretas de resistência que desmontam a racionalidade do poder explícito. O poder das mulheres é o dos bastidores, é aquele que não aparece. Suas estratégias são outras”.

A lida da Mulher Trabalhadora Rural no espaço doméstico e na produção agropecuária lhe dá certa possibilidade de interferir nas esferas de decisão na família e nos destinos da produção. Muito embora, juntamente com os homens, elas façam parte do cenário macroestrutural de exploração capitalista, sendo explorada pelo capital, já que o trabalho doméstico não gera renda, diretamente, e que, por outro lado, o trabalho na produção agropecuária é visto como uma simples ajuda ao homem sendo este quem recebe pelo trabalho. Muitas vezes, dada a sua condição privilegiada no processo produtivo e nas demais esferas da sociedade, o homem reproduz práticas discriminatórias que desvalorizam e colocam a mulher numa condição inferior. Essas são relações contraditórias que condicionam homens e mulheres a ocuparem distintos lugares nas esferas de poder, contribuindo para a reprodução do sistema capitalista.

3.1.1.3 Os principais elementos político-educativos da fonte


O Plano de Trabalho discutido e elaborado pelo Coletivo de Mulheres do MST constitui um programa que visa a qualificar a mulher militante do Movimento, incentivar e oportunizar sua participação nos quadros do movimento. Quanto à organicidade deste, percebemos a tentativa de formação da militante quando são abordados os níveis de ação na base do MST, nas suas instâncias, entre as mulheres militantes e nas orientações gerais. Dentre as várias estratégias, encontramos as de garantia de acesso, de ação, de formação e qualificação, assim como de planejamento e avaliação.

As estratégias de garantia de acesso envolvem desde questões mais amplas, como a consciência sobre a necessidade de participação das mulheres na luta pela terra, ate a garantia de que as mulheres tenham título da terra. Quanto às estratégias de garantia de acesso, destacamos:


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