2009 gislaine da nóbrega chaves o conceito de gênero no mst: um estudo da sua produção escrita



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3.1 Na nossa base (sem terras, acampados e assentados)

  • conscientizar sobre a necessidade de participação das mulheres na luta pela terra e pela reforma agrária

  • despertar as mulheres para seus problemas específicos

  • projetar lideranças para as instâncias

  • fazer encontros municipais

  • adequar horários de reuniões e assembléias para possibilitar a presença das mulheres

  • reuniões com as mulheres para discutir questões específicas

  • garantir que as mulheres tenham título da terra

  • garantir a participação nas associações e cooperativas em nível de igualdade (A questão da mulher no MST, 1996, p. 7).

Dentre as estratégias de formação e qualificação, destacamos a projeção de quadros femininos, uma vez que podem viabilizar uma participação efetiva das mulheres. Nesse processo, importa não desconsiderar demandas subjetivas de mulheres e homens, tendo em vista a formação omnilateral adotada pelo MST:




3.2 Nas Instâncias do MST

  • que todos os setores discutam e encaminhem concretamente a questão de gênero

  • garantir espaços de estudo e discussão em instâncias, criando mecanismos de participação

  • projetar quadros femininos

  • assumir que temos problemas de participação

3.3 Entre as Mulheres Militantes

  • a nível de militância e direção, criar fóruns de discussão e capacitação

  • trabalhar a auto-estima e identidade

  • forjar uma postura coerente com os novos valores para que possamos multiplicar militantes

  • fazer oficinas de capacitação para apreendermos a sistematizar discussões (A questão da mulher no MST, 1996, p.8).

Parece-nos que constitui desafios ao Movimento o despertar dos homens para problemas “específicos” da mulher que são enunciados no texto da Cartilha de 1996. O diálogo com os homens e o aprofundamento teórico-metodológico acerca das relações de gênero, nos setores e instâncias do Movimento são desafios que transcendem uma pauta estritamente voltada para as demandas das mulheres. A mulher é chamada à participação na luta política, nas associações e cooperativas. Porém, não se vê ênfase nas relações de gênero e poder, ou mesmo o chamamento no sentido de o homem ser convocado à participação nas ações cotidianas de cuidado com a casa e com a prole, isto porque essas atividades são socialmente desvalorizadas, indo de encontro ao ideal de militante masculino viril e produtivo22. Todavia, nas orientações gerais, há a pretensão de ‘envolver os homens em todas as discussões e atividades’. (A questão da mulher no MST, 1996, p. 8).

Quanto às estratégias de planejamento e avaliação, destacamos:

3.4 Orientações Gerais


  • aproveitar todos os espaços criados por outras organizações (igreja, sindicatos, etc)

  • organizar o trabalho com prioridades conforme a realidade

  • avaliar quando e como levantar o debate

  • conhecer a realidade fazendo um diagnóstico, levando em conta as diferenças culturais regionais

  • envolver os homens em todas as discussões e atividades (grifo nosso) (A questão da mulher no MST, 1996, p. 8).

De agente de formação a assistente social, o Movimento, nas “lutas específicas” das mulheres, mostra-se como articulador de eqüidade social entre homens e mulheres, ao chamar a atenção para a “Campanha de cadastro e título da terra também em nome da mulher”, garantindo, assim, “reconhecimento” delas; eis um dos elementos identitários relacionados à pertença do indivíduo ao MST. Vejamos:
4.3 Nossas lutas específicas

  1. Campanha Nacional de Documentação das Mulheres

  • fazer uma campanha nacional com uma cartilha de orientação, em conjunto com a ANMTR

  • juntar com a campanha nacional pela documentação pessoal (mulheres e filhos)

  • campanha de cadastro e título em nome da mulher

  • reivindicar a Justiça Itinerante para ir às zonas rurais (nos estados em que existe)

  1. campanha de cadastro e título da terra também em nome da mulher

  • incluir nas reivindicações do MST (pautas)

  • começar pela carta de anuência e cadastro (em nome do homem e da mulher)

  • aprofundar o tema no Setor de Frente de Massas para politizá-lo (A questão da mulher no MST, 1996, p. 9-10).

O trecho seguinte demonstra que o Movimento não se manteve indiferente às demandas dos movimentos de mulheres trabalhadoras rurais. Além disso, retoma o dia 8 de março como um dia nacional de mobilizações, ao qual deve colocar como “bandeira de luta do MST o ‘dia da mulher’ com caráter de gênero e classe” (A questão da mulher no MST, 1996, p. 10). Vale destacar que, no Caderno n° 15 (1988) e em A questão da mulher no MST (1996), essa relação proposta não foi aprofundada:

c) mobilização no dia 12 de agosto23


  • reforçar a mobilização do dia 12 de agosto, proposta pela ANMTR, a qual terá que ser assumida pelo MST como um todo

  • nos estados fazer lutas de massas e manifestações nos Tribunais de Justiça. Em Brasília levar as vítimas da violência, não só mulheres. Fazer mobilização de um dia apenas. Levar essa proposta para as instâncias do MST.

  1. 8 de março

  • transformar num dia nacional de mobilizações e lançar os painéis ou cartazes com figuras femininas

  • colocar como bandeira de luta do MST o ‘dia da mulher’ (com caráter de gênero e classe)

  1. reproduzir murais com retratos de lideranças femininas da classe trabalhadora

  • propor do curso de formadores uma pesquisa sobre figuras femininas na história. Enviar a proposta para o Setor de Formação.

  • Reproduzir cartazes de Rose24 e Cuba (menina)

  • Propor outra série, além das pensadoras, de lideranças femininas (A questão da mulher no MST, 1996, p. 9-10).

Nesse contexto, alguns ícones, a exemplo de “Olgas25, Roses, Rosas26 e Margaridas”, são reverenciados como palavras de ordem no intuito de popularizar e massificar o caráter de gênero assumido pelo Movimento. Por meio da divulgação desses ícones, o MST forja uma educação para as militantes e suas famílias – estratégia global de democratização do poder, sob o discurso da construção de uma nova sociedade.

Não poderíamos deixar de mencionar algumas lideranças femininas que se destacaram no cenário nacional e internacional, contribuindo na luta de trabalhadores e trabalhadoras rurais, tais como: Elizabeth Teixeira, Margarida Maria Alves e Diolinda Alves de Souza. Para Novaes (2002, p. 228), “Elizabeth foi exceção no seu tempo, nas suas lembranças só são citados ‘companheiros’. Já no tempo de Margarida há notícias de outras mulheres em direções sindicais. O tempo de Diolinda ainda está em curso”. Trata-se de mulheres que, dentre outras, atuaram em períodos distintos da história do Brasil e da luta pela terra, influenciando e sendo objeto da memória histórica que o MST tenta utilizar como um dos eixos norteadores de sua práxis educativa.

Numa tentativa de compreensão da realidade dos acampamentos e assentamentos, através da análise da próxima fonte, percebemos que o Movimento continua a busca por uma formulação mais adequada à realidade das mulheres camponesas, na tentativa de transposição do conceito de gênero para a prática das mulheres do campo. A concepção de gênero subjacente aos documentos enfatiza o enquadramento da mulher na militância, elemento que se apresenta como continuidade, nas fontes analisadas, reforçando a necessidade de participação feminina nos quadros do Movimento. Os arranjos metodológicos, por meio do entrecruzamento dialógico com o conceito de classe, demonstram os esforços empreendidos na busca dessa aproximação, assim como dificuldades do MST na consecução desse objetivo.

A Cartilha de 1998, que passamos a analisar, aponta para as malhas do poder criadas pelo Movimento quando tece uma rede, por meio da qual busca estender suas metodológica e as estratégias do MST demonstram isso forjando ore a base.se, trecruzamento ade dos acampan. O gênero constitui, nesse caso, um viés propiciador não só de enquadramento de homens e mulheres às normas e aos valores do Movimento, principalmente se os valores em questão são justiça, solidariedade e igualdade, e oportuniza condições de igualdade à participação das mulheres trabalhadoras rurais nos quadros do MST. A mulher é o principal sujeito de seu discurso, graças ao seu papel de arbitragem na família, ao trabalho nas roças, ou ao papel político por ela desempenhado junto ao Movimento e na própria sociedade. Na Cartilha de 1998, encontraremos, também, a polêmica acerca da “libertação” da mulher, se pelo viés de sua emancipação econômica ou sexual.

3.1.2 Compreender e construir novas relações de gênero: a questão das mulheres no MST


A terceira cartilha, intitulada Compreender e construir novas relações de gênero, elaborada no ano de 1998, em São Paulo, foi organizada pelo Coletivo Nacional de Mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – área gênero. Investigamos a 2ª edição deste documento, reeditada por meio de um convênio estabelecido entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e a Associação Nacional de Cooperação Agrícola (ANCA). Esta cartilha possui 53 páginas e contém textos de diferentes recortes temáticos e abordagem predominantemente sócio-educativa. Constitui uma coletânea de textos com intenção de estudo e multiplicação do debate de gênero na base do MST, para ajudar no avanço de novas relações de gênero (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 5).

3.1.2.1 Das condições de produção, circulação e difusão das informações


Os textos são de autoria de pensadoras e pensadores com formação acadêmica ou, ainda, de militantes de movimentos sociais ligadas(os) a organizações governamentais e/ou não-governamentais27. A linguagem utilizada nos textos é simples, embora eles tratem de temas complexos. Isto ocorre dada a natureza da fonte, cuja principal função é popularizar as mensagens nela contidas junto ao público no qual são dirigidas. Faz-se necessário, portanto, que o material circule e que haja difusão das informações entre a militância do Movimento, desde a direção nacional à sua base, como objetiva o MST na apresentação da fonte (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 5):
Queremos que essa publicação sirva de documento permanente de estudo e aprofundamento entre a militância do MST, para compreendermos e construirmos novas relações de gênero no nosso dia a dia.

A Nova Mulher e o Novo Homem estão dentro de cada uma e cada um de nós.

É preciso ajudá-los a nascer! E esta tarefa é do conjunto da nossa organização.

Esperamos que as companheiras e companheiros, estudam e debatam esse material nas instâncias, nos cursos de formação, nos coletivos... enfim, que multipliquem esse estudo e debate em nossa base e que isso possa ajudar a avançarmos na construção de novas relações de gênero.

Na capa, há uma nova composição, os símbolos masculino e feminino, nas cores preta e lilás, respectivamente, adicionados à bandeira do Movimento28. Os símbolos masculino e feminino são explicados no livro Construindo Novas Relações de Gênero (CAMPOS, 2003, p. 87), elaborado pelo setor de gênero do MST, nos seguintes termos:
Símbolo Masculino A parte redonda deste símbolo representa o espaço social, o planeta terra. A seta lembra o formato do espermatozóide que representa o sexo do homem. Símbolo feminino Assim como no símbolo masculino, a parte redonda representa o espaço social, o planeta terra. A cruz lembra o formato das trompas, que faz parte do aparelho reprodutor da mulher.
Nesta publicação, Campos (2003, p. 87) afirma que “a cor lilás é símbolo da luta feminista porque quando as 129 operária foram queimadas em Nova Iork em 1857 elas estavam tingindo um tecido com a cor lilás. É uma homenagem a essas mulheres trabalhadoras que o 8 de março é o dia internacional da mulher”.

A imagem abaixo representa uma aliança a ser estabelecida entre mulheres e homens do campo, na compreensão e construção de novas relações de gênero e da nova sociedade:




ILUSTRAÇÃO 7 – Compreender e Construir Novas Relações de Gênero

FONTE: Compreender e Construir Novas Relações de Gênero. São Paulo: Peres, 1998.

No livro Construindo Novas Relações de Gênero, de autoria do MST consta, ainda, que


Esses símbolos lembram que homens e mulheres são iguais e diferentes ao mesmo tempo. Diferentes em relação aos aspectos biológicos. E essas diferenças são representadas pelas pontas (seta e cruz). Mas os símbolos deixam claro que no espaço social homens e mulheres são iguais. Essa igualdade é representada pela bola, que tem o mesmo tamanho para o masculino e o feminino (CAMPOS, 2003, p. 87).
Em seu interior e na quarta capa, não há imagens, mas referência ao INCRA e à ANCA, à qual é atribuída a possibilidade de reedição da Cartilha de 1998. O foco desta publicação volta-se para as relações de gênero e seus temas circulam em torno dos conceitos e das concepções de gênero (um deles com contestação à heterossexualidade obrigatória), classe social, revolução, educação, solidariedade, participação (nas lutas e na organização do Movimento), massificação, diferenças (com ênfase na mudança nas relações entre mulheres e homens), trabalho, sexualidade, cidadania, mulheres do MST e campanha de documentação.

Há um esforço teórico, ponto comum nos textos, no sentido de relacionar o conceito de gênero ao de classe social, aproximando-se suas autoras e autores de um tipo de feminismo – “libertário” (WARREN, 1987) – que relaciona condições micro e macroestruturais na luta por uma sociedade modificada. Ou seja, almejam igualdade de condições entre mulheres e homens, no sistema atual, e, concomitantemente, lutam por modificar a sociedade neste sentido. Warren (1987, p. 45-46) esclarece-nos quanto à existência de vários movimentos de mulheres no Brasil, distinguindo-os entre liberal e libertário. O primeiro pode apresentar-se numa vertente tradicional, que se caracteriza ora como movimento de mulheres, pelas lutas gerais: anistia, democracia, carestia, problemas de bairros, etc.; ora como reacionário, a exemplo da Marcha pela Tradição, Família e Propriedade, em 1964. Houve também o movimento feminista, reivindicativo de direitos femininos como voto, salários iguais entre homens e mulheres, e direito à participação política ampliada. O segundo é denominado “libertário” devido ao novo caráter assumido por este movimento surgido na década de 1970, que se revelou mais autônomo, considerando a necessidade de transformação da sociedade num sentido global:


Há referências sobre o movimento de mulheres no Brasil, desde o início da segunda metade do século passado. São inúmeros os movimentos que surgem, desenvolvem-se e desaparecem, quando suas reivindicações são atendidas ou o movimento desgasta-se (no período que vai do século XIX a 1964). [...].

Tanto os movimentos de mulheres quanto os movimentos feministas liberais continuam proliferando até o momento atual. Porém, a partir da década de 1970, começam a se organizar movimentos feministas com um novo caráter: libertários. Esses movimentos não almejam apenas igualdade de condições femininas e masculinas no sistema atual. Lutam por uma sociedade modificada, onde mulheres e homens serão diferentes. Entre esses, dois tipos de organizações surgem: grupos de reflexão existencial (pequenos grupos que encaminham formas de transformação radical nas relações interpessoais, cotidianas) e grupos anticapitalistas (pretendem associar as transformações radicais das relações sociais aos movimentos das classes sociais que lutam por um novo sistema social).

Outrossim, percebemos nesta cartilha, a influência de organismos oficiais nacionais, que foram impactados pelos acordos e direções políticas internacionais na produção escrita dos movimentos. Nesse sentido, a conjuntura internacional propiciou a extensão da influência da política feminista para além das fronteiras dos países desenvolvidos. Piovesan (2006, p. 37) corrobora nossa assertiva:

Na experiência brasileira, é essencial observar ainda que os avanços no plano internacional foram e têm sido capazes de impulsionar transformações internas. Cabe ressaltar, por exemplo, o impacto e a influência de documentos como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (Cedaw), de 1979; a Declaração e o Programa de Ação da Conferência Mundial de Direitos Humanos de Viena, de 1993; o Plano de Ação da Conferência Mundial sobre População e Desenvolvimento do Cairo, de 1994; a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, de 1994; e a Declaração e a Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial sobre a Mulher de Pequim, de 1995. Esses instrumentos inspiraram e orientaram o movimento de mulheres a exigir, no cenário local, a implementação das conquistas obtidas na esfera mundial.

Na Cartilha de 1998 não há proposta de atividades nem de avaliação, repetindo-se a campanha de documentação presente na segunda cartilha, de 1996. Esse fato aparece como uma continuidade, já que os documentos pessoais e profissionais da mulher trabalhadora rural são fundamentais para a obtenção e extensão de seus direitos de cidadã, figurando como uma luta do movimento de mulheres e do Movimento Sem Terra, convertida em política pública no país29, reveladora de mais uma das reivindicações dos movimentos sociais e consubstanciada em exemplo de política dependente do Movimento para se efetivar, como afirmam Heredia e Cintrão (2006, p.127-128):

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 40% da população rural brasileira não possui documentos. Desses, 60% são mulheres. Estimativas do Programa de Promoção da Igualdade em Gênero, Raça e Etnia do MDA apontam a existência de 9 milhões de mulheres nessa situação no meio rural brasileiro.

Segundo dados do Banco do Nordeste Brasileiro (BNB), a ausência de documentação, especialmente do registro civil e CPF, é responsável por cerca de 60% das restrições para acesso a linha de crédito do Programa Nacional de Fortalecimento à Agricultura Familiar (PRONAF).

Além de convênios com outros órgãos e instituições, o programa estabelece uma parceria com os movimentos sociais – como a coordenação de mulheres da Contag, o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), o Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE) e o Setor de Gênero do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) –, a quem é atribuído o papel de ‘conscientizar as trabalhadoras rurais sobre a importância do programa’.


O Movimento percebeu o papel de arbitragem das mulheres no espaço doméstico e que elas constituem considerável percentual na representatividade eleitoral, o que lhes confere um duplo potencial nas esferas de poder: 1) junto às famílias, uma vez que sua participação na produção da esfera privada, como membro do grupo familiar que cuida da casa, do marido ou companheiro, dos filhos e filhas, é significativa, e, além disso, quando desenvolvem atividades laborais na roça ou fora de casa, contribuindo para a subsistência econômica, psicológica, afetiva e cultural dos demais; 2) no conjunto das disputas por representação, junto a partidos políticos, movimentos sociais, organizações governamentais e não-governamentais, contribuindo para fortalecer ou eleger determinado segmento político, e influenciando na mudança ou permanência das relações de força na sociedade. Assim, de acordo com a escrita do texto contido na Cartilha (1998, p. 49),


Não fossem elas 50% da população de nossos acampamentos e assentamentos, poderíamos até desprezar sua força política. Como são elas este número, podemos afirmar que o sucesso de nossa empreitada depende 50% de sua decisão. E é isso que temos constatado nas conversas que temos com as companheiras.

É na maioria das vezes delas a decisão política de trabalhar individual ou coletivamente, é delas, em última instância, a decisão sobre os rumos que a família toma, porque é ela que anima ou desanima a família.


Nesse contexto, as mulheres passaram a ser foco de disputas por parte de partidos políticos, como também objeto de políticas públicas, programas sociais e por organismos internacionais. Conforme afirma Shaff (2001), o Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres (CNDM) recebeu apoio financeiro do governo e publicou material de estudo, apoiou projetos de pesquisa e coletou dados sobre as mulheres. Além disso, o CNDM também recebeu fundos das Nações Unidas, como o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM), da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Esses foram importante apoio nas mobilizações realizadas pelas mulheres e agente de lobby na Constituinte. Essa relação do Movimento Feminista com organizações internacionais e nacionais também propiciou a visibilização do envolvimento do MST nas ações em prol da mulher, constituindo-se em uma das chaves facilitadoras de entendimento acerca da chamada do Movimento para a “participação” das mulheres na luta política, assim como no espaço pó ele reservado a elas na documentação escrita (nos documentos gerais de orientação à prática do Movimento, assim como nas cartilhas e cadernos sobre gênero), e, sobretudo, na composição de seus quadros.

Dessa coletânea (1998), priorizamos, para efeito de análise, o texto intitulado A questão das mulheres no MST (1998), por se tratar de uma produção do próprio Movimento, reveladora de como o MST introduziu as relações de gênero à sua escrita. O texto intitulado A questão das mulheres no MST, de autoria do Coletivo Nacional de Mulheres do MST, anuncia o objetivo desse Movimento de “Elevar o nível de participação das mulheres na luta pela reforma agrária e na sociedade que queremos construir” (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 48). Nas suas seis páginas, este último texto registra o desejo de investimento na participação e formação da mulher trabalhadora do campo. A despeito de algumas dificuldades do Movimento relacionadas à escrita do texto, assim como acerca da sua compreensão conceitual e teórica, existem muitos outros aspectos abordados que são fundamentais à compreensão das relações de gênero no campo. Além disso, para compreender as relações de gênero, faz-se necessária a leitura inicial dos textos em separado e, depois, conjuntamente com o texto de 1998, ora analisado.

3.1.2.2 Relação entre o conceito de gênero e o de classe

A citação do fragmento de um texto de autoria de Augusto Bebel figura como introdução ao texto elaborado pelo Coletivo Nacional de Mulheres do MST, e contido na Cartilha de 1998. Este texto introdutório é marcado pelo conceito de classe, havendo nele uma crítica à sociedade capitalista e seu caráter de exploração. Para o Movimento, a “libertação” da mulher, sob o socialismo, implica em sua participação ativa na sociedade e está condicionada a sua participação na produção industrial e a sua independência econômica, como demonstra o fragmento de texto abaixo transcrito (AUGUSTO BEBEL, In: Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 48):

A inexistência de toda exploração e opressão da classe trabalhadora, tem que compreender necessariamente a libertação da mulher, pois a vitória do socialismo e seu desenvolvimento anterior seria impossível sem a participação ativa da mulher. [...]. Os fundadores do comunismo científico destacaram energicamente o papel correspondente do trabalho da libertação da mulher. Exigiram a participação da mulher na produção industrial como premissa para a sua independência econômica, como fonte que desenvolve sua personalidade e a vontade em convertê-la em um número ativo da sociedade
Não podemos nos esquecer, no entanto, de que essa “libertação” também pressupõe a participação da mulher nas instâncias de decisão, como abordaremos no próximo capítulo. Neste sentido, a “libertação” da mulher estaria vinculada à sua independência econômica, à liberação da opressão sexual, psicológica, afetiva, intelectual etc., como abordou Kolontai (2005) no início do século XX. Aqui vale citar uma passagem da Cartilha (2004) do MST que enfatiza a participação da mulher em duas frentes de luta:
E quando as mulheres Sem Terra chamam atenção para a necessidade do MST promover a igualdade de gênero não estão querendo que o Movimento se afaste da luta de classe. Pelo contrário, querem que as mulheres também tenham oportunidade de ser revolucionárias, de participarem da luta pela transformação social. Porque na concepção de gênero que vem se construindo no MST a Luta de Gênero não é contraditória com a Luta de Classe elas se complementam (Mulheres Sem Terra: lutando e semeando novas relações de gênero, MST, Setor Nacional de Gênero, 2004).

Embora a Cartilha de 1998 afirme, em uma de suas passagens, que é a classe trabalhadora que libertará a mulher, na prática, as mulheres enfrentaram inúmeros desafios para a participação nos movimentos e para a efetiva ocupação das esferas de poder nos sindicatos, nos partidos políticos ou mesmo no MST. Se não fosse assim, a política de cotas não teria sido estabelecida em vários setores da sociedade. Nesse sentido, problematizamos: como se consubstanciariam essas dimensões na “nova sociedade” proposta pelo Movimento? No texto (1998, p. 48), a assertiva relacionada à missão histórica da classe trabalhadora é assim enfatizada:


Marx e Engels se fizeram eco destas idéias e mostraram pela primeira vez que o caminho científico fazia sua realização. Reconhecia a classe operária a única força capaz chamada a libertar a humanidade e, portanto a mulher, de toda exploração e opressão. Por isso, a igualdade da mulher só se poderá obter quando a classe trabalhadora cumprir sua missão histórica. A questão da mulher se converte assim em um componente de teoria e prática de luta por libertação da classe trabalhadora (grifo nosso).
Vale ressaltar que os movimentos devem ser lidos a partir de sua historicidade, ou seja, o discurso deve ser compreendido em relação ao contexto em que foi construído e do ponto de vista das influências das idéias incorporadas pelos moimentos de esquerda da época, que recebiam o discurso marxista por meio dos partidos de esquerda influenciados pelo leninismo e stalinismo. Para Kärner (1987, p. 27-28),
Esclarecer a problemática dos movimentos sociais, investigar seu desenvolvimento e possíveis efeitos significa quase inevitavelmente o abandono da teoria política tradicional e sair em busca de uma nova concepção política. Esse processo iniciou-se na esquerda latino-americana, como conseqüência, antes de mais nada, de suas derrotas nos anos 60 e 70. Na Europa Ocidental, a busca de uma nova concepção da política tem sido discutida sob o título não muito correto de ‘crise do marxismo’. Em ambos os debates não se discutiu muito acerca das posições marxistas, mas se criticam conceitos que orientam os modelos estalinistas de organização ou, então, o leninismo. [...].Tal concepção política predomina há longo tempo nos partidos tradicionais de esquerda. Concepção da política que está conjugada a um ideal de socialismo, em que essa vanguarda que atua em nome das massas socializa os meios de produção, tomando nas mãos a economia centralmente planificada. Mas, numa época como a nossa, em que o próprio capitalismo socializou o processo produtivo, em que o controle efetivo de grandes setores dos meios de produção foi unificado – nas mãos de uns poucos representantes dos próprios Estados capitalistas, ou nas do grande capital fortemente concentrado em âmbito nacional ou internacional – dificilmente pode ser considerado como tal um socialismo que se manifeste somente no fato do planejamento central da economia.
Diante disso, importa salientar que o MST, no transcorrer de sua história, soube incorporar as demandas das mulheres trabalhadoras do campo a seu projeto socialista. Todavia, isso não impede que pensemos numa luta conjunta de mulheres e homens contra as várias dimensões da opressão, incluindo ambas as perspectivas de classe e de gênero, desmistificando a concepção da relevância da luta contra a exploração econômica em detrimento da luta no âmbito das relações de gênero, a qual permaneceria em segundo plano. Consubstancia-se, então, uma das lições de Freire (1987) quando ele afirma que ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, mas os homens se libertam em comunhão.

Miele e Guimarães (1998) e Petras (1998) são concordantes ao afirmarem que, em um primeiro momento da luta camponesa, as mulheres são chamadas a participar ativamente, mas, em um segundo momento, ou essa participação diminui ou elas se ausentam da cena. Isto é, essa participação ocorre com reveses, uma vez que, na luta no acampamento, ela participa lado a lado do homem; já quando a mulher se encontra assentada, essa participação diminui. Para Petras (1998, p. 14),


No momento em que a luta se torna mais intensa, mais aguda, com maiores confrontos, também aumenta a incorporação da mulher nas fileiras de combate. Elas combatem igualmente com todos os métodos de luta: legal, ilegal, pacífico, violento. Mas quando a luta entra na fase de negociações, da consolidação a tendência é voltar aos padrões anteriores. Portanto, nos momentos de mais necessidades de participação da mulher, é quando a mulher deve insistir em seus direitos de igualdade; quando ela arrisca sua vida pela luta também tem o direito de exigir que os companheiros reconheçam sua posição dentro da luta.
Petras (1998, p. 14), ao relacionar gênero e classe, em um dos textos da Cartilha de 1998, defende a existência de “Uma revolução dentro da revolução”. Por meio de sua visão renovada do marxismo, depreendemos que as classes não são homogêneas, uma vez que “a mulher e o homem fazem parte da classe operária e camponesa, mas dentro dessas classes há heterogeneidade” (PETRAS, 1998, p. 13). Conforme analisa o autor, a luta de gênero deve caminhar lado a lado com a luta de classe. A partir dos argumentos de Petras (1998), podemos inferir que há diferentes sujeitos e conteúdos em relação à revolução, os quais não deveríamos negar. Assim,

O discurso e a prática da igualdade de gêneros nas fases iniciais da luta, determinam a capacidade de tomada de decisão, por parte das mulheres sobre a igualdade na situação pós-revolucionária. Ou seja, se desde o começo da luta se pensar apenas na reforma agrária, na revolução socialista e não se desenvolver um trabalho de conscientização entre homens e mulheres acerca do problema da desigualdade de gênero, o problema será sempre adiado para ser solucionado no período pós-revolucionário. Ao chegar ao final da revolução, existe uma revolução socialista na propriedade mas não no gênero, porque ideologicamente isso não foi incluído desde o começo, desde a organização inicial.


A democratização, no âmbito das relações de gênero, constitui outra chave facilitadora de entendimento sobre a chamada do Movimento à “participação” da mulher em seus quadros. Este fato ocorre como outra continuidade histórica na produção do MST. Sob essa perspectiva, o Movimento perpetua, em seu discurso, elementos inovadores que se coadunam à visão socialista contida em seu projeto e na tarefa do conjunto da organização de fazer “nascer” uma “nova mulher” e um “novo homem”.

O item “Mulheres do MST”, do texto de 1998, reporta-nos à “exclusão” dos trabalhadores e trabalhadoras sem terra no sistema capitalista. Como evidenciamos em outras passagens desta tese, as mulheres trabalhadoras rurais participam do sistema capitalista de maneira desigual em relação aos homens; portanto, estão inseridas no sistema capitalista, juntamente com os homens, de maneira diferente, já que participam do processo de produção e reprodução no conjunto das relações econômicas, sociais, políticas, ideológicas, culturais etc.

No texto em questão, há uma definição do papel das mulheres, tendo em vista que algumas delas, quando assumem funções de chefia ou mesmo como militantes, adotam um perfil “masculinizado”, tornando-se fortes e agressivas, objetivando serem aceitas pelos homens. Nessa direção, Nobre e Silva (1998, p. 42), no texto intitulado O que é ser mulher? O que é ser homem?, esclarecem-nos:

Características consideradas do outro gênero estão presentes em todas as pessoas. Só que são valorizadas de forma diferente, conforme o lugar em que cada um está. Por exemplo, nos espaços políticos, tradicionalmente masculinos, é comum as mulheres serem cobradas a deixarem um pouco de lado a sua feminilidade e demonstrarem características compatíveis com o modelo estabelecido do que é ser militante, forte e combativa, porque só assim os homens irão considerá-las como ‘fortes’, sem ‘frescuras’ (que é o que se espera na política, segundo a ideologia mais comum).

Sendo assim, no discurso do MST, a participação da militante deve ocorrer em condições de igualdade em relação à do militante. O Movimento considera os reveses que as mulheres trabalhadoras rurais enfrentam quando assumem posições nas esferas de poder, a exemplo do acúmulo de tarefas decorrentes de uma rígida divisão sexual do trabalho. Este fato constitui avanço na escrita do Movimento, que busca transcender as condições impostas pela cultura androcêntrica, sacralizadora do papel tradicional da mulher enquanto esposa e mãe, mas ainda com dificuldades em lidar com as diferenças quando aborda a adoção, pelas mulheres, de características de outro gênero para serem aceitas. Isto se tornou evidente no discurso do Movimento, quando esse sujeito educativo discorreu sobre o papel das mulheres no MST, na cooperação agrícola e na sociedade. Lembramos que não existe “um jeito de ser mulher”, haja vista que convivemos com diversas formas de feminilidade e masculinidade na esfera da vida cotidiana:


É o mesmo papel político desempenhado pelos homens, porém, do jeito da mulher, ou seja é o papel de atriz política, com sua característica de gênero feminino (grifo nosso) e de classe trabalhadora e que, por assim ser, é muito mais que estratégia para a resistência nas ações, e muito mais que esposa e mãe, somente. (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 49).

Há um chamamento à participação política da mulher no Movimento e à instituição família, onde, conforme a visão do Movimento, a figura feminina possui um papel central de animar ou desanimar os demais membros da família, compreendendo-se, também, o próprio Movimento como uma “unidade familiar”, uma vez que, como afirmamos na introdução deste capítulo, o “sentimento de família” (CALDART, 2000) compõe um dos elementos identitários do MST. No âmbito geral, a mulher é convocada a participar deste como militante. O MST organiza e amplia ações destinadas às mulheres, estendendo as possibilidades de efetivação de seu projeto popular. Nesse sentido, luta pela reforma agrária, na construção desse projeto popular para o Brasil, ancorado-se na justiça social e na dignidade humana. Essa perspectiva de projeto atribui à mulher o papel de se inserir em seus quadros e conduzir o restante da família a compor o sujeito coletivo chamado MST.

3.1.2.3 Os principais elementos político-educativos da fonte

Segundo o MST, quando participa normalmente de seus quadros, as mulheres não o fazem de forma organizada com base nos projetos em jogo, mas a partir de deduções formuladas através de informações, muitas vezes, distorcidas sobre o Movimento. De outra forma, em discurso autocrítico, o MST esclarece-nos que a desinformação e falta de participação não se deve a essas mulheres e envolvem muitos elementos relacionados à sua auto-estima, às cobranças sociais e à própria prática do Movimento. O MST, no texto de 1998, reforça o papel de militantes das mulheres nos marcos dessa atividade e critica a cultura machista que cobra delas o exercício do papel de esposas e mães. Há uma tentativa de conciliação do Movimento entre os diversos papéis vivenciados pelas mulheres trabalhadoras rurais e com o papel de militante:


Há quem diga que não. Mas o que fazem, os que dizem não? São desafiados a provar que não. Isso não é difícil. É só uma questão de sensibilidade política, tato, percepção política, convicção, mística da nova sociedade que tanto anunciamos e pela qual damos a maior fatia de nossa vida. E são desafiados, também, a serem coerentes e dizer que boa parte das mulheres se auto-discriminam, se auto-excluem por não terem encontrado (ainda) na nossa proposta, algo que lhes dê firmeza, certeza, auto-confiança para tornarem-se militantes. Talvez porque a concepção e prática do que seja ‘militância’, seja por um lado, daqueles que exercem tarefas nas instâncias de poder e por outro lado, seja excessivamente ‘masculinizada’ e não oferece espaço para que seja militante/mãe/mulher ao mesmo tempo. Para as companheiras, esta militância as exclui praticamente de toda vida política porque se ela sai para a militância, não só os maridos e os filhos lhe cobram, mas toda a vizinhança, a sociedade (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 49-50).

O texto de 1998 aborda as dificuldades das mulheres em atuarem na luta política e convoca toda a militância à participação e à consideração em torno do respeito às diferenças. O fato é que as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos continuam existindo no cotidiano das mulheres trabalhadoras rurais, constituindo-se em desafio à mudança na estrutura de poder da sociedade e do Movimento. Corroboramos o discurso deste, presente na Cartilha de 2003, no texto Construindo novas relações de gênero desafiando relações de poder, em que Campos (2003, p. 21 22) destaca que a serviços como refeitórios, lavanderias e creches públicas, deveriam ser assumidas pelo Estado:

Outra possibilidade de ampliar a participação da mulher na vida social seria o Estado assumir boa parte das atividades que prendem a mulher em casa, criando estruturas e serviços para atender demandas domésticas, como por exemplo refeitórios, lavanderias e creches públicas. Mas o capitalismo imperialista que vivemos transforma esse sonho cada vez mais em utopia, pois os serviços públicos estão sendo privatizados ou sucateados.

Nesse texto, o MST toma como sua a responsabilidade da participação pela mulher nas lutas e na organização destas, assim como pela criação de mecanismos para que as mulheres possam participar integralmente das atividades em questão (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 50-52). Além disso, uma redistribuição de tarefas domésticas entre os membros da família oportunizaria a participação da mulher nos quadros do Movimento. Apesar dos problemas relacionados à escrita do fragmento de texto seguinte (1998), percebemos a preocupação do Movimento com as diferenças nas relações de gênero:

A organização não se contenta com parte de seu tempo disponível, condena-se pela diferença, ao invés de aceitá-la como diferente mas politicamente igual e, inclusive, encontrar com ela, tempo para a militância e para a vida pessoal, sua família. Então, a responsabilidade é de todos nós, homens e mulheres militantes com dificuldades de trabalhar no meio de diferenças. Talvez seja o momento de tratar as diferenças não como um problema a ser resolvido e ter a coragem de propor uma militância menos ‘voadora’, um grande potencial a ser aproveitado e incorporado à nossa proposta (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 50).

O texto de 1998 reforça ainda mais o engajamento político da mulher como sustentáculo para o processo orgânico e massivo do MST, das famílias trabalhadoras rurais, assim como a participação feminina na produção como um dos elementos que contribuirão para a sua libertação. Acrescenta que de nada adiantará mudar as condições de vida sem mudar as relações da sociedade. Assim, para o MST avançar, nesse sentido, requer tomar como sua a responsabilidade de participação das mulheres nas lutas e na organização. Também há referência às normas básicas do MST (Cap. VIII, pontos 51-54), que enfatizam o estímulo do Movimento à participação das mulheres. “em todos os níveis de atuação nas instâncias de poder e representatividade” (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 50). Estas normas existem há muito tempo, mas não foram postas em prática, não existindo, inclusive, uma preocupação maior para que se tornasse realidade. A efetivação dessa participação política e econômica da Mulher Trabalhadora Rural constitui-se, pois, em desafios que envolvem a práxis político-educativa do Movimento na ampliação dos direitos desse segmento social.

Quanto aos objetivos específicos, não consta, no texto de 1998, uma preocupação com objetivos e temas que dêem margem à reflexão sobre dimensões ligadas à sexualidade ou a étnicas, muito embora essa perspectiva esteja presente em outros textos da cartilha do mesmo ano, aparecendo, pela primeira vez, em uma produção conjunta do MST com outras organizações. A metodologia adotada reafirma o viés marxista contido nas outras cartilhas (1988 e 1996), mas com uma postura mais aberta em relação ao diálogo com outras organizações da sociedade, a exemplo de ONGs feministas, como a Sempreviva Organização Feminista (SOF) e da Rede Mulher de Educação. Inferimos que, a partir deste momento, ocorreram mudanças não só na escrita do MST, mas em sua forma de atuar. Isto ocorreu dada à possibilidade de diálogo e ampliação de demandas das mulheres propiciada pela discussão, além do (re)conhecimento do MST sobre a perspectiva teórico-metodológica relacionada a um feminismo “libertário” (WARREN, 1987), contida nos outros textos da coletânea e subjacente ao seu próprio texto. Este fato constitui avanço na prática político-educativa do MST.

O Movimento busca transcender as estruturas políticas, rumo às relações solidárias entre os “gêneros” feminino e masculino, conforme estabelecem alguns dos objetivos específicos traçados por ele. Ademais, encontramos, também, falta de clareza conceitual quando confunde classe social com condições ou fatores que impedem a participação integral das mulheres (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 50-51), mas isso não invalida a dinâmica geral do texto, que traz importantes elementos para a reflexão sobre as relações de gênero no campo, a exemplo de alguns de seus objetivos, a seguir reproduzidos:




  • Fortalecer o MST nas suas diversas instâncias e setores.

  • Buscar a massificação da luta pela terra, em todo seu processo: antes, durante e depois.

  • Fortalecer o processo do avanço das forças produtivas dentro do assentamento.

  • Obter o reconhecimento da mulher no meio rural e na história da classe trabalhadora.

  • Estabelecer uma relação de companheirismo e solidariedade entre homem e mulher, isto é, buscar uma relação de novo tipo.

  • Identificar as classes econômicas, sociais, culturais e políticas que impedem a participação integral das mulheres (grifo nosso).

O MST enfatiza, ainda, a situação de exploração de classe da Mulher Trabalhadora Rural e, assim, em seu primeiro item metodológico, propõe “Realizar o estudo sobre a situação da mulher no campo, assim como dominar [ou compreender?] a origem da exploração nas diversas sociedades humanas” (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 51). O Movimento destina esta tarefa às direções estaduais. Tal visão, profícua no que se refere aos ganhos econômicos e sociais das mulheres como classe, acaba por atribuir à Mulher Trabalhadora Rural outros fazeres, saberes e poderes, quando visa garantir condições para a participação delas em seus quadros, ao enfatizar o estabelecimento de uma relação de companheirismo e solidariedade entre homens e mulheres.

Assim, do segundo ao quinto item metodológico, observamos o reforço à participação política da mulher nas instâncias do Movimento e para o seu engajamento nos quadros políticos e nas demais atividades propostas pelo MST. Ele atribui essa tarefa às direções estaduais. Diante desse contexto, expressa a tentativa de investimento na formação política da Mulher Trabalhadora do Rural, como demonstramos abaixo (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 51):




  • Buscar mecanismos de participação e integração da mulher nas diversas instâncias.

  • Projetar quadros e ir criando condições para que a mulher possa ir se liberando de sua condição de submissão, e na integração das diversas atividades.

  • Reproduzir as discussões nas diversas instâncias do MST, nos estados, regiões e base.

  • Tirar uma equipe que possa implementar juntamente com o setor de educação e formação do MST:

  • As discussões que deverão ser elaboradas por homens e mulheres.

  • Preparar discussões nos assentamentos e acampamentos.

  • Preparar os estudos para aprofundamento.

Esta perspectiva metodológica voltada para a criação de mecanismos de participação e integração das mulheres ao MST, assim como a projeção de quadros, são desafiadoras, pois propõem liberar a mulher de sua condição de submissão. Ora, sabemos que o Movimento atua em 23 estados brasileiros, cuja formação histórica e geográfica configuram-se de maneira bastante diferenciada, com impactos diferenciados de sua prática nas diversas localidades em que esse sujeito educativo atua. Não obstante, reconhecemos, como aborda Freire (1987, p.40), que o homem, enquanto projeto aberto e plural na luta contra todos os tipos de opressão, traz consigo uma dialeticidade, pois “não haveria ação humana se não houvesse uma realidade objetiva, um mundo como ‘não eu’ do homem, capaz de desafiá-lo; como também não haveria ação humana se o homem não fosse um ‘projeto’, um mais além de si, capaz de captar a sua realidade, de conhecê-la para transformá-la”. Sendo assim, o MST segue desafiando as perspectivas tradicionais e desafiando-se ao adotar como iniciativa metodológica “Realizar reuniões específicas nos assentamentos e acampamentos”, considerando que todo e qualquer método “tem que partir das necessidades concretas das mulheres” (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 51). Essas ações atribuídas às direções estaduais objetivam também:




  • Buscar entender a importância de sua participação [da mulher] na luta;

  • Discutir os problemas e encontrar saídas conjuntas que possibilitem sua participação. (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 51).

Participação é a palavra-chave que direciona a metodologia do MST em sua base e nos seus setores, nos acampamentos e assentamentos, possui finalidades voltadas para os objetivos políticos do Movimento; a participação da mulher figura como uma “exigência”, porque pressupõe-se que ela ocupe um lugar de destaque como militante, e não, como parte meramente acessória do militante. Nas assembléias e nas ocupações, as mulheres são convocadas a participarem das reuniões de base com a família; logo, a visão que perpassa esse engajamento segue o equacionamento mulher/homem/filhos-filhas/comunidade. Ou seja, a estrutura familiar permanece composta por pai/mãe/filhos/filhas/comunidade, e as relações de gênero seguem um modelo inspirado nos ideais de uma sociedade “democrática”, já que propõe a horizontalização das relações entre homem/mulher/filhos/filhas. A postura do MST é reveladora da oportunidade do exercício da participação feminina e da vivência de outras experiências nas esferas de poder do Movimento:



  • No acampamento (cabe ao setor de Frente de Massa fazer):

  • Impulsionar a participação das mulheres nas reuniões de base, de preparação das ocupações, ir toda a família;

  • Nos acampamentos exigir participação em todas as assembléias;

  • Nos núcleos de base, integrá-las em todas as atividades;

  • Realizar reuniões específicas e criar dinâmicas e mecanismos para que todas participem;

  • Criar espaço para momentos culturais e lazer (grifo nosso) (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 51-52).

Ademais, mudanças na vinculação da mulher ao padrão tradicional de família estão subjacentes à proposta do MST, que visa democratizar as relações familiares quando luta pela extensão do direito ao título da terra às mulheres, mas também quando oportuniza a vivência de relações horizontais dos núcleos de base às direções nacionais, ao inserir uma mulher e um homem nas esferas de poder da organização, como afirmou uma liderança do estado do Tocantins.



A proposta de efetivar a participação da mulher no MST aparece novamente na metodologia traçada para o assentamento. Essa rotina somente será democratizada quando houver uma ação conjunta do homem, dos filhos e filhas, assumindo as demandas do espaço doméstico, a exemplo do cuidado com a casa e com os demais membros da família. Esta proposta está implícita na escrita do Movimento, quando propõe relações de companheirismo e solidariedade entre homens e mulheres. Além disso, caberia ao Estado garantir creches públicas, refeitórios e lavanderias coletivas aos filhos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Essas esferas que necessitam de democratização constituem desafios à sociedade e ao Movimento:


  • No assentamento:

  • Participação efetiva nas assembléias e no conjunto do assentamento;

  • Criar mecanismos (ex. Creches, refeitório coletivo) para que as mulheres possam participar integralmente;

  • Implementar esta discussão em todos os grupos de produção;

  • Desenvolver atividades integrando toda a mulherada;

  • Realizar reuniões específicas com as mulheres para discutir os problemas específicos do assentamento e como resolver as dificuldades. (grifo nosso). (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 52).

Conforme o Movimento, essas atividades antes mencionadas cabem ao Setor de Frente de Massa, mas elas são estendidas também ao setor de formação e de educação, indicando a importância atribuída pelo Movimento à dimensão pedagógica em suas ações, como evidenciamos abaixo:

Formação:

  • Tendo claro que a participação da mulher nas instâncias não se dará por normas, mas que será um processo educativo, propomos que nos cursos de formação a nível nacional e de base tenha uma porcentagem de 40% de mulheres;

  • Dedicar um dia de discussão específica sobre a questão da mulher nos cursos nacionais.


Educação:

  • Colocar o tema em debate com o Setor, em seminários.

  • Debater com professores o método de educação das crianças.

  • Buscar a integração dos pais nesta discussão. (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 52).

Há uma preocupação com a definição dos estados prioritários para o início do trabalho, considerando as iniciativas próprias e a multiplicidade de experiências possíveis, como demonstra o trecho seguinte: “Obs.: É importante iniciar em alguns estados onde está discussões possa acontecer com maturidade para ter, com isso, exemplos concre-tos para ir ampliando o trabalho” (Compreender e construir novas relações de gênero, 1998, p. 52). Para Foucault (1979, p. 179-180), as relações de poder lançam mão de regras para produzir efeitos de verdade. Nesse sentido,
em qualquer sociedade, existem relações de poder múltiplas que atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e que estas relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um funcionamento do discurso. [...]. Somos submetidos pelo poder à produção da verdade e só podemos exercê-lo através da produção de verdade. [...]. Afinal, somos julgados, condenados, classificados, obrigados a desempenhar tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo efeitos específicos de poder.
O projeto do MST, contido em sua produção escrita sob a forma de discursos e propostas, adotou o conceito de gênero como um de seus focos político-educativos, sem, no entanto, desviar-se da concepção de classe. Nesse sentido, a produção, acumulação, circulação e o funcionamento do seu discurso, presente na documentação analisada, produz efeitos de verdade em meio a um conjunto de outros discursos hegemônicos presentes na sociedade. Portanto, mulheres e homens circulam, disseminando o discurso do Movimento, por meio de práticas contra-hegemônicas, exercendo o poder e sofrendo sua ação, mas, sobretudo, funcionando como cadeias de transmissão de poder com seus corpos, gestos, discursos etc. As mulheres e homens que compõem o Movimento são, ao mesmo tempo, efeito de poder e seu centro de transmissão, como afirma Foucault (1979, p. 179-180). Assim, mulheres e homens em movimento adotam a identidade sem terra, opondo-se ao sistema capitalista, a seus discursos e a práticas que perpetuam a exploração econômica e as desigualdades de gênero, atingindo o ser humano objetiva e subjetivamente.

Na análise da Cartilha de 2000, vamos nos deparar com a tentativa de fortalecimento organizacional das mulheres do MST, por meio do investimento em sua formação. Trata-se, como se poderá ver, de uma prática social classista que perpassa, historicamente, toda a proposta do Movimento.



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