2009 gislaine da nóbrega chaves o conceito de gênero no mst: um estudo da sua produção escrita



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Participando sem medo de ser mulher

Porque a luta não é só dos companheiros



Participando sem medo de ser mulher

Pisando firme sem pedir nenhum segredo



Participando sem medo de ser mulher

Pois sem mulher a luta vai pela metade



Participando sem medo de ser mulher

Fortalecendo os movimentos populares



Participando sem medo de ser mulher

Na aliança operária-camponesa



Participando sem medo de ser mulher

Pois a vitória vai ser nossa com certeza



Participando sem medo de ser mulher

(grifos nossos).

O Movimento reforça a participação da mulher porque, na esfera de poder, ela constitui o elo mais frágil. Sua participação restrita ou ausência de sua participação, inclusive no Movimento e nos assentamentos, indica que, não raras vezes, essa atividade ocorre com reveses, uma vez que, na luta no acampamento, ela participa lado a lado do homem, mas, quando assentada, essa participação diminui (MIELE e GUIMARÃES, 1998). Conforme, Miele e Guimarães (1998, p. 216), que desenvolveram pesquisa em onze áreas de assentamento da Paraíba, analisando os discursos das mulheres, na transição do acampamento para o assentamento, o poder exercido por uma liderança transformada em ‘chefe’ constitui um dado importante para a análise. As autoras também destacam que a dificuldade de participação na associação não é restrita à mulher, mas a todos. As autoras sublinham as causas dessas ausências de homens e mulheres:


  1. Uma causa explicativa para as recorrentes ausências de homens e mulheres nas reuniões pode ser o conflito surgido entre eles pela posse da terra. Em vários assentamentos, observamos que há um conflito, surdo ou declarado, colocando em questão a legitimidade da posse da terra. [...].

  2. Outra causa explicativa para as recorrentes ausências nas reuniões é o recrudescimento da luta após a conquista da terra, da mesma forma, o afastamento das pessoas e/ou entidades de apoio após a vitória, devido ao seu deslocamento para outras áreas que estejam mais necessitados de uma assessoria. [...]

  3. É possível, entretanto que, sem deixar de levar as outras em consideração, uma das causas mais fortes para explicar o absenteísmo nas reuniões e na condução da luta seja a forma de estruturação da associação, enquanto modelo de organização, bem como o novo papel das lideranças e suas formas de legitimação (MIELE e GUIMARÃES, 1998, p. 216-218).

De outra forma, a mensagem dirigida às mulheres, para participarem “Sem medo de ser mulher”, sugere-nos formas de sensibilização para que desenvolvam habilidades, principalmente, de comunicação e intervenção na realidade, firmando-se enquanto sujeito político (ANEXO A). Vale destacar que o MST tem se preocupado não só com a participação feminina nas lutas, mas com a distribuição dos recursos e produtos da reforma agrária entre homens e mulheres, desenvolvendo ações que contribuem para a melhoria da qualidade de vida das famílias, como abordamos no capítulo II.

Na mística, são utilizados elementos que conduzem as mulheres a uma reflexão sobre a exploração e dominação capitalista, a exemplo da construção de uma cerca de arame farpado “simbolizando toda a exploração e a dominação do sistema capitalista”, assim como “sobre as cercas que já cortamos e as que ainda faltam ser cortadas” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 7). Este fato revela uma perspectiva de autocrítica e disposição para “animar” as mulheres para o enfrentamento de desafios. Mas identificamos também outros símbolos, a exemplo de “bandeiras do MST e do Brasil, ferramentas, lona, galhos, flores, galhos verdes, materiais de estudo diversos, alimentos, etc.” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 7) e o “Hino do MST” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 61), que são utilizados para estimular a “luta de classes”. Ver, por exemplo, Silva (2004, p. 137-138), quando aborda o uso da mística na produção de subjetividades do MST:

Se, no início da década de 1980, a bíblia e/ou a cruz bastavam para a prática da mística em suas celebrações de vitória, ou de reafirmação da fé em continuar a luta. A partir de 1985, outros elementos passam a compor suas práticas, a bíblia, a cruz e a enxada unem-se à bandeira do movimento, imagens e representações de outras lutas socialistas, canções e poesias produzidas no e para o MST. Atualmente, suas reuniões, Congressos, marchas, tudo que faça referência às ações do grupo impõem a invocação de símbolos.

Nesta Cartilha de 2000, não percebemos a adoção de um marxismo tradicional presente no Caderno nº 15 (1988). Na referida Cartilha, as análises fundadas nos modos de produção são significativas quanto à abordagem da “luta de classes”, uma vez que as mudanças pretendidas, além de transcenderem o viés econômico, consideram os problemas atuais enfrentados pelas mulheres e pelos homens do campo. Mas, em parte, as análises da Cartilha de 2000 são prejudicadas pela tentativa de “vulgarização” do conhecimento histórico, quando, por exemplo, não diferenciam o escravismo clássico do colonial, ocorrido em muitas colônias de exploração, como o Brasil. Este fato não ofusca o caráter inovador deste documento, através do qual o MST critica a perspectiva de dominação e exploração sob a classe trabalhadora, a partir de uma abordagem histórica enviesada pela concepção de gênero, conforme demonstra o trecho a seguir:
No Escravismo (4.000 a. C. a 476 d. C.), o dono da terra explorava o escravo e a escrava, tirando-lhes não só a liberdade, mas até a própria humanidade.

No Feudalismo (476 a 1.650 d. C.), o Senhor Feudal explorava a serva e o servo, exigindo trabalho de graça e grande parte da produção em troca de suposta proteção e do uso da terra que pertencia ao senhor feudal. Na sociedade capitalista, o patrão, dono da terra e da indústria, explora o trabalhador e a trabalhadora, exigindo trabalho em troca do mísero salário que não garante sua sobrevivência e o que é pior, isso ainda acontece graças ao fato de a grande maioria não ter trabalho (Mulher Sem Terra, 2000, p. 8).


A situação da mulher, na Cartilha de 2000, sugere-nos, implicitamente, o esboço do binômio “igualdade/diferença”, como demonstra as linguagens escrita e iconográfica contidas na fonte. Ela é igual ao homem e a outras mulheres do campo por sua condição de classe, mas também diferente de outras mulheres e homens pertencentes a outra classe social e a outras etnias. Aqui consideramos a afirmação de Saffioti (2003, p. 54-55), para quem o sujeito do feminismo se configura como um construto teórico, porque, em sua constituição de gênero, é múltiplo. Assim, “o sujeito constituído em gênero o é também em classe social e em raça/etnia. Assim, em vez de ser unificado, é múltiplo, sendo mais contraditório que dividido” (SAFFIOTI, 2003, p. 54). A mulher trabalhadora do campo é diferente do homem, por pertencer a outro sexo, e, em sua condição de gênero, não raras vezes, vivencia relações desiguais, embora seja “igual” a outras “mulheres”, por ser “mulher”. Isto está presente na iconografia:






ILUSTRAÇÃO 11 – Mulheres do MST: sujeito coletivo

FONTE: Mulher Sem Terra. São Paulo: GH, 2000.
Assim, a posição da mulher é diferente daquela que a classe trabalhadora (homens) ocupa, dadas as outras formas de exploração, da de classe, vivida pelas mulheres devido a condição étnica, geracional, sexual, cultural, dentre outras. De acordo com Saffioti (2003, p. 54), “As pessoas situam-se nos eixos de distribuição/conquista de poder – gênero, raça/etnia e classe social – graças às similitudes que apresentam com determinadas outras e às dessemelhanças de que são portadoras em relação a outras criaturas”. Este fato demonstra que aqui já não podemos vislumbrar os genéricos “mulher” ou “mulheres” sob a perspectiva da homogeneização. O Movimento parece reconhecer outro elemento – a etnia – ao perfil identitário da mulher trabalhadora do campo. Ademais, há uma perspectiva de inovação na iconografia que atravessa toda a Cartilha de 2000, uma vez que, nas outras fontes analisadas (1988, 1996 e 1998), não existia essa referência à etnia das mulheres.

Vale destacar que a linguagem iconográfica facilita a assimilação das informações entre pessoas que tiveram acesso restrito à educação formal, embora a leitura das fontes, em seu conjunto, às vezes, possa ser prejudicada pelas dificuldades quanto ao exercício da leitura escrita. Assim, há muitas imagens contidas na fonte que apontam para o reconhecimento de diferentes etnias, mas os textos evidenciam uma continuidade nas elaborações textuais do MST, com prioridade ao entrecruzamento de “classe” e “gênero”, o que demonstra existirem inovações na abordagem teórica marxista adotada pelo Movimento (Mulher Sem Terra, 2000, p. 8), sobretudo se considerarmos o livro Construindo novas relações de gênero desafiando relações de poder (2003), em que Campos (2003, p. 13-14), integrante do Setor de Gênero do MST, ao citar Nalu Faria e Miriam Nobre, reafirma a concepção de gênero do MST:


5. A análise das relações de gênero só é possível considerando a condição global das pessoas – classe, raça, idade, vida urbana ou rural, e monto histórico em que se dá. Dessa forma, embora existam muitos elementos comuns na vivência e condição das mulheres, nem todas foram criadas para exercerem o mesmo papel, sem nenhuma diferenciação. Por exemplo, em nosso país uma branca rica é ensinada para exercer o seu papel feminino de uma maneira bem diferente de uma negra pobre, com relação a que tipo de esposa cada uma deve ser, as tarefas de mãe, o cuidado com o corpo e a aparência, as boas maneiras, etc.

A Cartilha de 2000 focaliza “jogos” diferentes – projetos diferentes – da burguesia e da classe trabalhadora, objetivando esclarecer as mulheres sobre a divisão de classes entre “pobres” e “ricos”. Sua linguagem evidencia que o recorte de gênero também é considerado, conforme se pode ver no texto abaixo:





ILUSTRAÇÃO 12 – “Times” diferentes; projetos diferenciados

FONTE: Mulher Sem Terra. São Paulo: GH, 2000.

Este projeto é reforçado na problematização: “PARA ENTENDER: Por que é importante nós, mulheres e homens, entendermos este Jogo?” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 9). Há destaque à exploração de “classe” e de “gênero”, mas também há o reconhecimento de que a mulher trabalhadora do campo enfrenta o “nó” constituído pelas várias faces da opressão (SAFFIOTI, 2003), como demonstra o seguinte trecho:


Para percebermos onde estamos, em que time nós jogamos, que somos várias vezes exploradas; para entendermos que a exploração é uma realidade social, construída pelos ricos para se manterem por cima. E mesmo dentro do nosso time, muitas vezes, nós mulheres, somos tratadas como ‘reserva’, sofremos vários tipos de discriminação e preconceito. O capitalismo precisa que a mulher:


  • Continue reproduzindo mão-de-obra barata, onde entregamos nossos filhos e filhas prontos para serem explorados (as) nas fazendas, fábricas, etc.

  • Continue com a jornada dupla de trabalho, para que a mulher não tenha tempo para participar de nada, deixando-a alienada do contexto da sociedade. Com isso não precisa pagar um salário maior, nem pagar um preço justo pelos produtos agrícolas, já que o trabalho de casa não é pago, nem valorizado (grifo nosso) (Mulher Sem Terra, 2000, p. 9-10).

Os conteúdos são acompanhados de exercícios que propiciam uma aproximação das mulheres trabalhadoras rurais com a sua realidade. Potencialmente, isto exige delas a aprendizagem de determinadas habilidades, como reflexão, discussão, interpretação, assimilação e organização para a ação. Essas aprendizagens estão relacionadas ao tripé ação/reflexão/ação, abordado por Freire (1987), com vistas à transformação da situação opressora vivida por homens e mulheres no sistema capitalista de produção. O recorte de gênero presente nos exercícios demonstra uma tentativa do MST de ampliar a democratização de seu projeto socialista quando evidencia a participação da mulher trabalhadora do campo nesse projeto:

  1. PARA DISCUTIR EM GRUPOS:

        1. Cite exemplos concretos de como acontece no dia a dia o que acabamos de ler.

        2. O que podemos fazer para mudar essa realidade de exploração dos trabalhadores e, de modo especial das mulheres trabalhadoras? (grifo nosso) (Mulher Sem Terra, 2000, p. 10).

A Cartilha de 2000 evidencia a “falta de ética” existente no projeto dos ricos, quando, na verdade, essa classe social tem sua perspectiva centrada no capital, partindo de uma ética individualista em sua compreensão de mundo e nas esferas das relações sociais. Este fato sugere-nos a existência de uma “luta de classes”, com vistas à construção da “nova sociedade” pretendida pelo Movimento, duplamente desafiadora – por objetivar uma mudança na esfera econômica da sociedade e nas estruturas mentais de seus militantes e de suas militantes:

No jogo da luta de classes o que está em disputa são os Projetos. O Projeto dos ricos representa fome, desemprego, exclusão social, e isso significa mais riqueza para uma minoria, os 5%.

O Projeto dos trabalhadores e trabalhadoras representa vida, dignidade, reforma agrária, justiça social, é incluir todo o povo brasileiro, significa poder nascer, crescer, envelhecer e morrer com dignidade.

O time dos ricos se utiliza de tudo para se manter no poder: roubam, matam, mentem, mudam as leis, vendem o próprio país, enfim, não têm ética (grifo nosso) (Mulher Sem Terra, 2000, p. 10-11).

O sistema capitalista, em sua feição neoliberal, não conseguiu desatar o nó representado pelo aprofundamento das desigualdades sociais, sobretudo quando se trata de países em desenvolvimento, como o Brasil. Outrossim, a propalada crise do socialismo real exigiu do MST a revisão do socialismo tradicional, numa perspectiva de recriação, transcendendo a “luta de classes”. A aproximação de outras organizações, a inserção do conceito de gênero e mudanças na sua metodologia figuram como algumas das estratégias para o enfrentamento de inúmeros desafios vivenciados por esse sujeito pedagógico (CALDART, 2000).

Para o 2º “Encontro”, intitulado Relações de Gênero, foi escolhido o canto “Causa nobre43” (Canções da Terra, MST, Autoria: Zé Pinto, RO, s/d, p. 27-28. ANEXO A) que constitui um clamor à luta pela terra. Nele há um chamamento à mulher para participar da luta: “e vai também a mulherada com muita participação mostrando com capacidade que tem outras lutas além do fogão” (CANÇÕES DA TERRA, Zé Pinto, s/d, p. 27. ANEXO A). O segundo canto, “Vai prá beira do riacho”44, trazendo à tona, implicitamente, a opressão de gênero. Em várias estrofes da canção, é enfatizada a rotina cotidiana de trabalho enfrentada pela mulher lavadeira, pela dona de casa, pela trabalhadora rural, pela viúva do posseiro e pela mulher bóia-fria. Mas a luta de classes é representada na segunda estrofe, sugerindo o engajamento, a conscientização e a organização da mulher contra a opressão capitalista junto ao homem: “Mas o tempo vai passando/E elas vão percebendo/Que é somente se engajando/E se conscientizando/Que a luta vai rompendo/É a mulher que se organiza/E ao homem dá a mão/São duas forças unidas/Prá fechar essa ferida/E acabar com a opressão” (ANEXO A).

Em várias áreas de assentamento pesquisadas por Miele e Guimãres (1998), na Paraíba, foi observada a desvalorização da Mulher Trabalhadora Rural e do seu próprio trabalho. Este constitui outro aspecto da opressão cultural vivida por muitas mulheres trabalhadoras rurais, cuja baixa estima as faz menosprezar seu trabalho quando enxergam nele fonte complementar da renda do marido ou quando não se reconhecem na profissão de agricultora.

Na sugestão de mística, há indicação de símbolos como ferramentas, material de estudo, bandeira do Brasil e do MST, flores, produção, roupas de crianças, panelas, etc. Alguns deles são idênticos aos que foram usados no 1º “Encontro”. As mãos também são evidenciadas como objetos da mística. Aqui destacamos alguns dos trechos relacionados ao significado das mãos e que reforçam sua importância na capa da Cartilha de 2000:
Vamos todas olhar para as nossas mãos, se juntar de 2 a 2 companheiras, procurar as marcas, as cicatrizes, os calos, as queimaduras que estão presentes nas nossas mãos.

Quem coordena fala: Quantas vezes essas mãos prepararam a comida para nossa família, protegeram as nossas filhas e filhos muitas vezes doentes, ofereceram aconchego e carinho aos nossos companheiros, pais, mães, irmãos, essas já foram queimadas na chapa do fogão, em tantas lutas, quantas vezes na luta faltou o alimento e essas mãos não puderam repartir o pão.

Dar as mãos em forma de círculo.

Continuar falando, olhando para os símbolos: quantas coisas essas mãos já produziram, essas mãos unidas já conquistaram essa terra, quantas vezes essas mãos se estenderam para oferecer apoio e solidariedade às companheiras.

Apertemos as mãos num gesto de que unidas podemos conquistar a terra, sermos sujeitas da história e construirmos uma nova sociedade (Mulher Sem Terra, 2000, p. 12-13).

Este trecho da mística evidencia aspectos da relação entre subjetividade e objetividade, por meio dos “mistérios” presentes nas marcas das mãos daquelas que prepararam a comida, protegeram filhas e filhos, ofereceram aconchego e carinho, produziram, conquistaram a terra, ofereceram apoio e solidariedade. No livro Construindo o Caminho (2001, p. 228), o “mistério”, que está presente na mística, aparece como


Esta força que nasce e traz energia. Mantém o lutador do povo ativo e entusiasmado. [...]. Mas não como algo distante; ao contrário, está presente em cada lutador, que sente esta vontade indomável de continuar andando como que a buscar algo que ainda não vê, mas sente que existe ali mais adiante.
Em Construindo o Caminho (2001, p. 149), a palavra “mística” é utilizada para definir a “animação, a persistência, o gosto pela luta e a permanência nela, apesar das dificuldades”. A mística também é colocada como condição de vida, elemento que estrutura as relações entre as pessoas, o mundo material e o mundo ideal. É ela que move o sentimento das pessoas. Nesse sentido, a construção de “novas relações de gênero” implica na relação de homens e mulheres com aquilo que ainda não foi consubstanciado, materializado, mas que está projetado como utopia, como um devir, como um vir a ser. Stédile (2002, p. 240-241) refere-se à mística como um dos elementos que o MST procura valorizar:
que para nós é a forma de organizar o sentimento coletivo; e o sentimento não tem razão. Porém, o sentimento move montanhas e impulsiona ideais; ele aglutina as pessoas através de símbolos, sejam esses visuais, sejam musicais (hinos e canções), de práticas pedagógicas, de posturas sociais que as pessoas e os militantes devem ter na sociedade. E isso nós procuramos valorizar dentro do nosso movimento como aspecto de unidade interna de auto-estima e de construção de um movimento de massas, porque as massas não se movem apenas por pão; elas também têm sentimentos.
Na Cartilha de 2000, há uma primeira tentativa de conceituação de gênero: “É um conjunto de atribuições sociais e culturais que diferenciam mulheres e homens” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 13). Nessa direção, Silva (2000, p. 63) compreende que gênero é um “Conceito central na teoria feminista contemporânea, refere-se – em oposição à dimensão simplesmente biológica do processo de identificação sexual – aos aspectos culturais e sociais das relações entre os sexos”. A conceituação de gênero adotada pelo Movimento privilegia a participação da mulher, considerando-a enquanto classe social. Para Saffioti (2003, p. 55-56),
Conceber gênero como uma relação entre sujeitos historicamente situados é fundamental para demarcar o campo de batalha e identificar o adversário. Nestas circunstâncias, o inimigo da mulher não é o homem nem enquanto indivíduo, nem como categoria social, embora seja personificado por ele. O alvo a atacar passa a ser, numa concepção relacional, o padrão dominante de relação de gênero. Diferentemente do que se pensa com freqüência, o gênero não regula somente as relações entre homens e mulheres, mas normatiza também relações homem-homem e relações mulher-mulher. Desse modo, a violência cometida por uma mulher contra outra é tão produzida pelo gênero quanto a violência perpetrada por um homem contra uma mulher. A adequada compreensão deste fenômeno responderá pela formação de estratégias de luta com maior potencial de êxito, enquanto a singularização do inimigo pode fazer perder de vista o nó constituído pelas três contradições sociais básicas: gênero, raça/etnia, classe social.
Essa inter-relação entre “classe” e “gênero” constitui uma das possibilidades de abordagem das relações de poder, exigindo do Movimento investimento contínuo na educação de homens e mulheres. A preocupação com a etnia, presente na iconografia contida no interior da Cartilha de 2000 e nas capas, pode ser observada no diálogo estabelecido entre uma mulher negra e outra branca, quando o conceito de gênero é abordado na discussão entre elas:


ILUSTRAÇÃO 13 – Conceituando gênero

FONTE: Mulher Sem Terra. São Paulo: GH, 2000.

O MST transcende a abordagem teórica marxista tradicional, presente no primeiro caderno, de 1988, já analisado, ao inserir, implicitamente, em sua iconografia a dimensão étnica, acrescentando uma preocupação com novas relações de poder entre mulheres e homens, e entre estes e o meio ambiente, assim como novas relações econômicas baseadas em novos valores. Embora reconheçamos a necessidade de aprofundamento dessas novas relações, a Cartilha de 2000 cumpriu seu papel de difundir informações, estimular o debate e trazer à tona temas que podem ser “desdobrados” para a formação da militância. A concepção de gênero do Movimento mantém uma relação entre as esferas micro e macroestruturais da sociedade. Isto torna seu projeto político-pedagógico amplo e desafiador. Assim, problematiza:



1. O QUE É GÊNERO, AFINAL?

Porque depois de 15 Anos de lutas, discussões e vivências, podemos dizer com certo orgulho que crescemos no entendimento da importância da participação da mulher no seu desenvolvimento como ser humano, da sua igualdade na diferença com o homem. Porque entendemos que precisamos crescer como mulheres e homens novos, construindo novas relações de poder, novas relações com o meio ambiente, novas relações econômicas baseadas em novos valores. Por isso, já podemos falar em relação de gênero no MST (grifo nosso) (Mulher Sem Terra, 2000, p. 14).

A Cartilha de 2000, ao tentar diferenciar sexo de gênero, apresenta três alternativas para se compreender o que é sexo: “É biológico (se nasce homem ou mulher)”, “Está relacionado com a reprodução da espécie humana” e “É natural, portanto, não pode ser mudado” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 14). Em seguida, afirma que o gênero “É uma construção social. É etiqueta que a sociedade nos impõe do que é ser homem ou ser mulher” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 14). Para a teoria feminista, o sexo é biológico, enquanto o gênero é uma construção social (HUMM, 1989).

Depreendemos de Louro (2004) que esta visão foi redimensionada com a contribuição de teóricos da desconstrução, a exemplo de Jacques Derrida e Judith Butler. Os argumentos de Louro (2004, p. 43) nos fazem repensar a desconstrução como uma forma de análise. A partir dessa assertiva, ela esclarece-nos:


Portanto, ao se eleger a desconstrução como procedimento metodológico, está se indicando um modo de questionar ou de analisar e está se apostando que esse modo de análise pode ser útil para desestabilizar binarismos lingüísticos e conceituais (ainda que se trate de binarismos tão seguros como homem/mulher, masculinidade/feminilidade). A desconstrução das oposições binárias tornaria manifesta a interdependência e a fragmentação de cada um dos pólos. Trabalhando para mostrar que pólo contém o outro, de forma desviada ou negada, a desconstrução indica que cada pólo carrega vestígios do outro e depende desse outro para adquirir sentido. A operação sugere também o quanto cada pólo é, em si mesmo, fragmentado e plural.

Concepções renovadas sobre as relações de gênero e “Teoria Queer” (BUTLER, 1987, 2003; LOURO, 2004), de gênero e poder (SCOTT, 1990; SAFFIOTI, 2003) evidenciam vários matizes que nos fazem repensar as dicotomias entre homens e mulheres, assim como as relações entre mulher/mulher e homem/homem. É assim que, na Cartilha de 2000, o sexo “É natural, portanto, não pode ser mudado” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 14); já o gênero “É cultural. Portanto, pode e deve ser mudado!” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 15).

Na Cartilha de 2000, a educação diferenciada é criticada por reforçar jeitos de ser polarizados entre homem e mulher. As limitações que a cultura impõe às mulheres, conduzindo-as à não participação e restringindo-as ao espaço doméstico, também é criticada. Segundo Miele (2008), o conceito de gênero45 “pressupõe dois pólos opostos que se opõem mas que não se excluem, é um continuum onde não é possível determinar onde termina um e começa o outro”. Por isso, essas polaridades são não somente indesejáveis, mas equivocadas se desejamos a construção de um mundo de paz que considere mulheres e homens como seres humanos em sua omnilateralidade. Na Cartilha de 2000, as evidências dessa educação diferenciada revelam que:

Na sociedade que vivemos, as qualidades da mulher são: beleza, sensibilidade, afetividade, ser boa dona de casa, esposa, mãe, enfim, cuidar de tudo o que se refere à família; o homem pelo contrário deve ser forte, corajoso, agressivo, não chora, cuida dos negócios, das coisas fora de casa, vai no sindicato, é sócio da cooperativa, vai nas reuniões do MST, etc...

Desde pequeno o menino é treinado para isso: quando nasce veste roupa azul, brinca de bola, carrinho, vai para a rua, sai com o pai; a menina, pelo contrário, quando nasce, veste roupa cor-de-rosa. Brinca de boneca, de casinha, brinca com as amigas dentro de casa e fica com a mãe. Assim vamos nos moldando como a sociedade quer (Mulher Sem Terra, 2000, p. 15).
Em seguida, esclarece como as características físicas denominadas masculinas e femininas se relacionam ao gênero: “Nascemos com o corpo, com características masculinas ou femininas, mas o jeito de viver na sociedade como mulheres ou como homens, aprendemos pelos costumes, pela educação de pais para filhos, pela cultura” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 14-15). A teoria feminista desvelou a opressão à mulher. Conforme Carvalho (2003, p. 3), para quem o feminismo é, simultaneamente, um Movimento social, uma ideologia e uma teoria
Simplificadamente pode-se dizer que a teoria feminista pretende compreender a situação das mulheres a partir de sua experiência de opressão, focalizando a sexualidade e o gênero como base da construção ideológica da identidade feminina. Essa experiência é diversificada em suas dimensões histórica, econômica (de classe), psicológica, racial e sexual.

Nessa direção, a Cartilha de 2000 problematiza: “A quem interessa que as mulheres sejam educadas para ficar em casa e não participar? Interessa aos grandes, à classe que está no poder, que a mulher não se valorize, não participe, pois assim é mais fácil dominar os trabalhadores. ‘Sem a participação da mulher, a luta fica pela metade’” (Mulher Sem Terra, 2000, p. 15). A exploração de gênero coloca a mulher numa situação de desigualdade em relação a seu companheiro, que tem nela uma serva doméstica. Aqui a dupla exploração – de “classe” e de “gênero” - que sofre a mulher é evidenciada. A dupla exploração também é focalizada na coletânea de 1998, analisada anteriormente. Isso significa que este aspecto, que envolve a construção de um mundo de paz, ainda não foi atingido, constituindo-se em desafio para o Movimento e para a sociedade. Mas na Cartilha de 2000, o diálogo estabelecido entre mãe e filha sugere, implicitamente, que, no MST, o homem também já é convocado para dividir tarefas domésticas com a mulher, liberando-a para a participação política. Consideramos esse chamamento ao homem um avanço na construção discursiva do MST. Além disso, constitui uma tentativa de ruptura com o modelo cultural tradicional limitador dos espaços de vivência de homens e mulheres:

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