3 a crise científica



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3 - A CRISE CIENTÍFICA


O caminho que seguimos não é o único caminho

Lao-Tsé



3.1 Debate Epistemológico
A epistemologia construtivista confronta-se com uma, até há bem pouco tempo dominante, ou talvez ainda instavelmente institucionalizada, epistemologia positivista que, à boa maneira cartesiana, crê que o sujeito pode, pelo método analítico, alcançar um conhecimento garantido do objecto, reduzindo a sua complexidade e tornando-o quantificável. Um esforço que acabou por causar grandes embaraços a esta epistemologia, quando as investigações no domínio da física quântica verificavam que o observador afectava o comportamento do observado, v. g., do «real só podemos conhecer a nossa intervenção nele» (Santos, 1987). Para todos os efeitos, desde meados do século XX, a ciência positivista, reducionista e muito ciosa dos seus paradigmas começou a ficar em sérios apuros, nomeadamente, com a crítica de Thomas Kuhn em A Estrutura das Revoluções Científicas onde se refere o papel da crise na comunidade científica para que existam as condições de emergência de uma nova teoria (cit. in Carrilho, 1989). Com Kuhn desfaz-se a crença de que a ciência é uma progressão linear, contínua e cumulativa, pois, as revoluções científicas ocorrem quando um paradigma vacila e um novo se impõe. Feyerabend, na esteira de Kuhn, chega mesmo a criticar o método científico (em Contra o Método, 1974) propondo uma «anarquia epistemológica» (cit. in Robinson & Groves, 1995) dada a pluralidade das heurísticas.
Jean Piaget, também ele um leitor atento de Kuhn, insistentemente apelou nos seus trabalhos para a necessidade de uma epistemologia alternativa ao positivismo ou ao neopositivismo, «cada vez mais, o conhecimento é visto mais como um processo do que um estado» (1972). Investigando no domínio da psicologia genética ele indagava sobre a construção do real na infância e ao mesmo tempo trabalhava os fundamentos de uma epistemologia genética. Piaget encorajou e colaborou, num plano interdisciplinar, com outros autores (como Papert) no sentido de estabelecer uma nova teoria do conhecimento. «A divisão dos domínios científicos é assunto de abstracção mais que de hierarquia» (Piaget, 1970, p. 144).
O que é intrigante é perceber como é que a analítica cartesiana, fundamento do reducionismo, durante tanto tempo se impôs dogma, a ponto de se «reservar a expressão método científico apenas ao método cartesiano» (Le Moigne, 1994b). Leibniz já advertia para o risco de se aumentar a dificuldade ao dividir o problema. Reducionismo, determinismo, positivismo; esta doutrina racional que «permitiu um grande progresso é um raciocínio pobre que se torna cada vez mais paralisante, não por ser inumano, mas porque apenas dá conta de uma parte da realidade» (Crozier, 1972, cit. in Le Moigne, 1994b). É esta pretensão à universalidade e ao monopólio da racionalidade que se faz exercício de poder, estabelecendo «regimes de verdade», e em seu nome, vigiando, censurando e excluindo, que um filósofo como Foucault (cit. in Carrilho, 1989) analisa com pertinência.
Não conseguindo desfazer-se do postulado da objectividade (universal), a epistemologia positivista crispou-se numa intolerância que a condena, inscrevendo-se, o construtivismo, numa alternativa que está de acordo com muitas das posições da pós-modernidade que questionam a universalidade das verdades. Morin sugere uma «verdade biodegradável». Leonardo da Vinci sabia que existiam lógicas, não uma lógica, e propunha uma atitude projectual: a do «ostinato rigore». Vico afirmava: «a humanidade é obra dela mesma», ou seja, construiu-se, é uma autocriação. Simon propõe um paradigma da «racionalidade limitada» aberta aos raciocínios plausíveis, métodos de bem conduzir a razão. Considera-se o conhecimento mais um «projecto construído do que um objecto dado» (Le Moigne, 1994b).

3.2 Complexidade e Pensamento Multidimensional
Diga-se que o problema do conhecimento não é tanto o da verdade científica, que se faz «grande narrativa de legitimação» (Lyotard, 1989), antes radica na validade. A função adaptativa do conhecimento lida com estruturas perceptuais e conceptuais que foram construídas, são as estruturas conceptuais que constroem significados para compreender um mundo que não é o mesmo quando independente do observador, aquilo que é costume chamar-se realidade objectiva não pode representar-se senão como um modelo. O insuspeito Watzlawick (1991) esclarece, de resto, sobre a forma como a comunicação cria aquilo a que se chama realidade, sobre a forma como a construímos. «As nossas ideias (...) acerca da realidade são ilusões (...) e a ilusão mais perigosa de todas é a de que existe apenas uma realidade. Aquilo que de facto existe são várias perspectivas diferentes da realidade, algumas das quais contraditórias, mas todas resultantes da comunicação e não reflexos de verdades eternas e objectivas». Por outro lado, sabe-se algo sobre como se constrói a realidade enquanto representação mental. A partir de investigações na área da fisiologia da percepção visual constatou-se que as imagens, grosso modo, não chegam ao cérebro de uma vez, o cérebro organiza os estímulos recebidos em diferentes áreas, primeiro analisa a estrutura do observado, descodifica a textura, interpreta a cor... até construir uma imagem satisfatória (o que nem sempre acontece). As figuras ambíguas demonstram que as estruturas perceptuais do córtex podem ser facilmente enganadas. Nem as representações visuais da realidade são universais, a fisiologia do olho humano apresenta características que diferem doutras espécies animais, dos répteis, dos pássaros, dos insectos e diferem mesmo dentro da família dos mamíferos. A ciência constrói modelos da realidade, alguns parecem funcionar, outros poderão não funcionar satisfatoriamente, estes modelos são alegorias do real. O próprio modelo de compreensão da matéria e das forças que a unem está a ser questionado pelos físicos, segundo a New Scientist em notícia relatada pelo jornal Público (2001, 7 de Dezembro, p. 38), os físicos do Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN) fizeram experiências no maior acelerador de partículas do mundo, o LEP, para procurar o bosão de Higgs, mas deste não há vislumbre. O problema é que o bosão de Higgs é central no modelo padrão, a teoria que descreve a organização de um conjunto de partículas elementares e das forças existentes entre elas, como os electrões, os neutrinos, os quarks ou muões, e forças como a fraca e a forte. Este bosão poderia explicar por que é que a matéria tem massa, mas a já alcunhada "partícula de Deus" teima em não existir.
Com a pós-modernidade as fronteiras do saber científico diluem-se na totalidade do real. A física quântica, impondo o princípio da incerteza de Heisenberg, ao lembrar que «não conhecemos do real senão a nossa intervenção nele», demonstra a intervenção estrutural do sujeito no objecto observado. Prigogine (cit. in Santos, 1987) confirma um paradigma emergente, já não se trata de eternidade, mas de história, «em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade, a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente». A ciência moderna, com um modelo que separava o humano e a natureza, visava conhecer a natureza para a dominar e controlar, o determinismo mecanicista tinha por horizonte uma forma de conhecimento utilitário e funcional. A pós-modernidade, à medida que cresce «a indistinção entre orgânico e não orgânico, humano e não humano, uma vez que as características de auto-organização, do metabolismo e da auto-reprodução, são hoje também atribuídas aos sistemas pré-celulares, faz sucumbir a distinção entre ciências naturais e ciências sociais» (Santos, 1987).
A aceitação da complexidade do mundo fenomenal poderá não ser reconfortante, pois não há nenhuma simplificadora lei da complexidade, «a complexidade é uma palavra problema e não uma palavra solução» (Morin, 1990). Está-se perante um desafio, o de um pensamento capaz de negociar com o real, um pensamento que se deseja «multidimensional» (Morin, 1990.).






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