3 Contexto Histórico Vida e Obras



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1 Introdução
Poucos filósofos tiveram uma vida tão despida dos elementos que geralmente se encontram nas biografias das grandes personalidades, quanto Immanuel Kant, que é considerado o pensador mais influente dos tempos modernos. Nascido em uma pequena cidade alemã, teve uma vida longa e tranqüila, dedicada ao ensino e à investigação filosófica. Ele fez muitas contribuições não apenas à filosofia, mas também à cosmologia, à astronomia e ao Direito.

Acontecimentos relatados sobre a sua vida (a impressão causada pela leitura das obras de David Hume, a admiração incontida pelo pensamento de Rousseau, a timidez ao proferir a primeira aula), são todos episódios com um único denominador comum: um cérebro que passou a vida investigando o universo espiritual do homem, à procura de seus fundamentos últimos, necessários e universais. Devido ao legado tão importante de sua filosofia, os trabalhos científicos de Kant acabaram sendo eclipsados.



2 Biografia
Immanuel Kant nasceu em 22 de abril de 1724, em Königsberg, uma pequena cidade na Alemanha. Estudou no Colégio Fridericianum e na Universidade de Königsberg, na qual tornou-se professor catedrático, depois de alguns anos como preceptor de filhos de famílias ricas. Era um homem de pequena estatura e aparência frágil, que não se casou nem teve filhos. Faleceu em 12 de fevereiro de 1804.

Apesar de Kant nunca ter saído da cidade em que nasceu, ele sempre esteve a par dos problemas sociais e políticos de sua época, sendo, por exemplo, a favor da Revolução Francesa, pois acreditava que ela confrontava-se com um “problema moral”.



3 Contexto Histórico - Vida e Obras
Kant viveu no século XVIII, na “época das luzes”, quando predominavam três grandes correntes de idéias, que viriam a influenciá-lo fortemente: o Racionalismo de Descartes, Leibniz e Spinoza; o Empirismo de Bacon, Hume e Locke, e a ciência positiva físico-matemática de Isaac Newton. Pode-se dizer que Kant extraiu de cada uma dessas correntes o material necessário para elaborar a sua teoria do conhecimento, e a sua mais notável contribuição à filosofia: sua discussão sobre o “quanto podemos saber”.

A filosofia de Kant toca levemente no Racionalismo de Descartes, que eleva a razão ao ápice e testa o conhecimento. Para o racionalismo, existe uma classe de verdades que o intelecto pode intuir diretamente, indo além do alcance da percepção sensível. Kant parte do princípio de que a ética de nossa conduta vem do uso da razão, e concorda com os racionalistas ao dizer que a diferenciação entre o certo e o errado é inerente à razão humana, e não ao conhecimento ou à ciência.

Mesmo o empirismo opondo-se ao racionalismo, pois o primeiro sustenta que todo o conhecimento vem e precisa ser testado pela experiência sensível, o primeiro também influenciou Kant. David Hume (1711-1776), por exemplo, influenciou Kant a partir de “suas análises, especialmente do conceito de causalidade (que é um convite à descoberta para Kant), que demoliam as pretensões do dogmatismo metafísico de afirmar verdades eternas a respeito da essência última de todas as coisas”. Enfim, Hume, despertando Kant de seu “sono dogmático”, proporcionou a este o desejo de querer descobrir se havia mais algum tipo de conhecimento além do empírico e do matemático, únicos aceitos por Hume e levou Kant a escrever as suas obras mais famosas: Crítica da Razão Pura (1781), Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica da Faculdade de Julgar (1790). Devido a esses 3 livros de grande importância para a filosofia moderna, Kant ficou conhecido posteriormente como o “Filósofo das Três Críticas”

Quanto à física de Newton, Kant ficou muito impressionado tanto pelas suas implicações filosóficas quanto pelo seu conteúdo científico. Estudando na área das ciências naturais, Kant concluiu sua obra História Universal da Natureza e Teoria do céu, onde é apresentada a hipótese da nebulosa como origem do sistema solar.

Kant também recebeu influência da leitura de Jean Jacques Rousseau (1712-1778), que “formulou uma filosofia de liberdade e defendeu a autonomia e o primado do sentimento sobre a razão lógica”. Conta-se que Kant era um homem extremamente pontual na sua rotina, mas na ocasião que leu o romance “Emílio”, de Rousseau, esqueceu-se do horário. Foi na leitura de Rousseau que Kant extraiu seu apoio a ambas as revoluções – a francesa e a industrial. Ainda assim, seu imperativo categórico proibia à desobediência às leis de um governo no poder (Kant foi proibido pelo rei Frederico Guilherme II de ensinar ou escrever sobre temas religiosos. Kant obedeceu a ordem, publicando um resumo de seus pontos de vista religiosos apenas após o falecimento do Rei – O Conflito das Faculdades, 1798).

Não se pode deixar de mencionar a influência religiosa nos trabalhos de Kant: a influência do pietismo, um protestantismo luterano de tendência mística e pessimista - visto que destaca o poder do pecado e a necessidade de regeneração, além de exigir dos fiéis uma vida simples e integral obediência à lei moral. O pietismo foi a religião dos pais de Kant e de vários de seus mestres, e justamente devido ao fato de ter sido criado e educado dentro de uma religião, Kant conclui que se a virtude existe, Deus deve existir também, mesmo demonstrando em suas obras que as provas do existência de Deus não se sustentam filosoficamente. Nota-se aí a incalculável influência de Kant sobre a teologia e a sua relevada importância em ética e religião. É importante ressaltar que foi justamente devido a formação religiosa que recebeu que Kant escreveu tanto sobre “a moral”.




4. Pensamento do autor
Kant começou a ganhar destaque pelo seu pensamento ao entrar na Universidade de Königsberg, em 1740. Porém, só foi reconhecido por sua capacidade intelectual após virar professor particular na universidade da sua cidade natal.

O pensamento de Kant se achava, como já foi citado, centrado na filosofia racionalista de Leibniz e na física de Newton, e é definido como seu período pré-crítico. Isso fica evidente no trabalho Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels (1755; História universal da natureza e teoria do céu), em que manifestava uma concepção do universo como sistema harmônico regido por uma ordem matemática. Gradativamente, a influência dos empiristas ingleses - sobretudo David Hume, que, nas palavras do próprio Kant, o "despertou do sono dogmático" - levou-o a adotar uma posição crítica diante da correlação entre conhecimento e realidade, afirmada pelo racionalismo (período criticista). Assim, Der einzige mögliche Beweisgrund zu einer Demonstration des Daseins Gottes (A única base possível para a demonstração da existência de Deus; 1763) e Traume eines Geistersehers (Sonhos de um visionário; 1766) constituíam dura crítica à metafísica racionalista e seus argumentos quanto à existência de Deus.

O prestígio de Kant como autor e conferencista aumentou e ele recebeu convites de duas conceituadas universidades, a de Erlangen e a de Jena, o que certamente o levou a pensar em deixar sua cidade. Diante disso, a Universidade de Königsberg, reconhecendo por fim seu valor, ofereceu-lhe em 1770 a cátedra de lógica e metafísica, que ele ocupou quase até o fim da vida. Sua aula inaugural como professor universitário, escrita em latim - De mundis sensibilis atque intelligibilis forma et principii (1770; Sobre a forma e os princípios do mundo sensível e inteligível), conhecida como Dissertatio (Dissertação) - foi um momento-chave do pensamento kantiano, pois estabelecia as bases sobre as quais se desenvolveria sua obra filosófica.

Kant concebeu seu sistema como uma síntese e superação das duas grandes correntes da filosofia da época: o racionalismo, que enfatizava a preponderância da razão como forma de conhecer a realidade, e o empirismo, que dava primazia à experiência. Além disso, pretendia tornar a filosofia compatível com a ciência físico-matemática. Para realizar seu intento, após longos anos de intensa reflexão, Kant elaborou primeiro uma teoria do conhecimento - formulada na Kritik der reinen Vernunft (1781; Crítica da razão pura) - cujo objetivo era determinar os princípios que governam o entendimento humano e os limites de sua aplicação, assentando assim sobre bases seguras o conhecimento científico, que passava então por extraordinário desenvolvimento. Posteriormente, na Kritik der praktischen Vernunft (Crítica da razão prática; 1788) e na Kritik der Urteilskraft (Crítica do juízo; 1790) Kant procurou dar fundamento sólido à convicção de que existe uma ordem superior, capaz de satisfazer às exigências morais e ideais do ser humano. Tal fundamento se encontraria, segundo ele, na lei ética, autônoma e independente - e, portanto, imune às críticas produzidas dentro do campo restrito da ciência.


4.1 Crítica da razão pura

Na primeira parte dessa obra, denominada Estética transcendental, Kant explica que o espaço, assim como o tempo, é “um quadro que faz parte da própria estrutura de meu espírito. O espaço e o tempo são quadros a priori, necessários e universais de minha percepção. Estética significa teoria da percepção, enquanto transcendental significa a priori, isto é, simultaneamente anterior à experiência e condição da experiência. O espaço e o tempo não são, para mim, aquisições da experiência. São quadros a priori de meu espírito, nos quais a experiência vem se depositar. Eis por que as construções espaciais do geômetra, por mais sintéticas que sejam, são a priori, necessárias e universais. Mas o caso da física é mais complexo. Aqui, eu falo não só do quadro a priori da experiência, mas, ainda, dos próprios fenômenos que nela ocorrem. Para dizer que o calor faz ferver a água, é preciso que eu constate.”

As regras, as categorias pelas quais unificamos os fenômenos esparsos na experiência, são exigências a priori do nosso espírito. Os fenômenos, eles próprios, são dados a posteriori, mas o espírito possui, antes de toda experiência concreta, uma exigência de unificação dos fenômenos entre si, uma exigência de explicação por meio de causas e efeitos. Essas categorias são necessárias e universais. O próprio Hume, ao pretender que o hábito é a causa de nossa crença na causalidade, não emprega necessariamente a categoria a priori de causa na crítica que nos oferece? "Todas as intuições sensíveis estão submetidas às categorias como as únicas condições sob as quais a diversidade da intuição pode unificar-se em uma consciência". Assim sendo, a experiência nos fornece a matéria de nosso conhecimento, mas é nosso espírito que, por um lado, dispõe a experiência em seu quadro espacio-temporal e, por outro, imprime-lhe ordem e coerência por intermédio de suas categorias.

Na Segunda parte da obra, chamada Analítica transcendental, Kant explica que aquilo a que denominamos experiência não é algo que o espírito receberia passivamente. É o próprio espírito que, graças às suas estruturas a priori, constrói a ordem do universo. Tudo o que nos aparece bem relacionado na natureza, foi relacionado pelo espírito humano.

Na terceira e última parte da obra, intitulada Dialética transcendental, Kant se interroga sobre o valor do conhecimento metafísico. As análises anteriores, ao fundamentar solidamente o conhecimento, limitam o seu alcance. O que é fundamentado é o conhecimento científico, que se limita a pôr em ordem, graças às categorias, os materiais que lhe são fornecidos pela intuição sensível.

Não existe, portanto, a "coisa em si" (os objetos exteriores tal como são), mas fenômenos, ou seja, as coisas da maneira como são percebidas e elaboradas pelo entendimento humano. O conhecimento é um processo de síntese, no qual o intelecto proporciona a forma e a experiência oferece o conteúdo. A ligação entre ambos se estabelece pela imaginação, entendida por Kant como faculdade criadora. Quando a razão se aplica a conceitos que não podem surgir da experiência - por exemplo Deus, alma e mundo, que são incognoscíveis por meio da sensibilidade - produzem-se as "ilusões da razão", que são meramente especulativas. Daí Kant negar o valor demonstrativo da metafísica tradicional em relação a tais questões: é preciso distinguir absolutamente entre o conhecimento objetivo do que é, e a crença ou certeza subjetiva no que deve ser.


4.2 Crítica da razão prática (Ética e Estética)

Nessa obra Kant investiga como o homem deve agir em relação aos outros homens e como fazer para conseguir a felicidade ou o bem supremo - trata do problema moral. Nessa área foi muito influenciado pela obra de Rousseau, que elaborou uma filosofia da liberdade e acreditou na precedência do sentimento sobre a razão lógica.

Após demolir a metafísica na Crítica da Razão Pura, ele tentou salvá-la na Crítica da Razão Prática - sua nova metafísica, que se baseia na razão prática pura e não na razão teórica pura. A moral pura foi concebida por Kant como independente dos impulsos naturais e sensíveis: seria moralmente boa a ação que obedecesse à lei moral em si. Essa lei seria estabelecida somente pela razão, livremente, mostrando o que se deve obedecer no campo da conduta.

A liberdade é a base da vida moral e, nesse sentido, a razão pura é, em si mesma, prática, porque a idéia racional de liberdade é que estabelece a vida moral e, assim, prova sua existência. Resumindo, o que a razão não pode alcançar, a moralidade pode - a liberdade em si era o que a razão procurava, e a coisa em si, desse ponto de vista, prevalece a razão prática sobre a razão pura.

A Crítica da Razão Prática contém uma parte, intitulada Analítica onde, em primeiro lugar, ele classificou as leis em máximas morais e leis morais: as máximas morais são subjetivas e só valem para a vontade do indivíduo; as leis morais são subjetivas e valem para a vontade de todos os homens. Tudo aquilo que é objeto ou matéria de desejo é empírico e não pode levar a leis práticas - È a felicidade que se procura e ela depende da natureza sensível de cada indivíduo particular. A lei deve ser livre de qualquer estímulo empírico - a vontade que obedece a essa lei é livre dos estímulos empíricos e, portanto, é livre.

Liberdade e lei prática incondicionada (aos estímulos empíricos) têm um vínculo inquebrável, que gera uma lei absoluta - essa lei é o imperativo categórico, que está livre de qualquer condição, ao contrário dos imperativos hipotéticos, que se ligam a condições (se queres ser forte alimenta-te bem). Esse é o imperativo categórico: Age de tal forma que o motivo que te levou a agir possa ser convertido em lei universal. Essa é a lei universal de conduta, a lei moral que afirma o império da vontade como única origem de todas as leis morais. Deve-se agir de acordo com ela, tendo em vista apenas o valor moral e racional, indiferente às conseqüências, mesmo se adversas.

Na segunda parte da Analítica, o autor definiu o bem aprioristicamente estabelecido, a partir da lei moral, como o objeto que deriva da liberdade, do ponto de vista moral.

Na terceira parte, ocupou-se dos motivos morais que orientam a conduta: o motivo fundamental da moralidade é o respeito à lei em si mesma - esse princípio é a própria moralidade e não um motor da mesma - os indivíduos é que a consideram subjetivamente como motivo.


4.3 Dialética da Razão Prática

Nessa obra, Kant situou o sumo bem como o sujeito absoluto da razão prática. Resolveu o problema da interdependência entre virtude e felicidade (o desejo de felicidade deveria levar à virtude e a virtude deveria ser a causa da felicidade, o que não ocorre sempre), admitindo a primazia da razão prática através da crença moral na imortalidade da alma e na existência de Deus. Ele colocou essas duas crenças, ao lado da liberdade, como os três postulados (proposição não-evidente nem demonstrável que se admite como verdadeira) da razão pura prática. A fé moral na imortalidade é necessária para que se admita uma vida depois da morte onde existiria recompensa (dado que nem sempre a virtude é premiada com felicidade). A existência de Deus se faz necessária porque é preciso explicar um mundo onde o ideal e o real - o que é e o que deve ser - não são separados. Mas o legislador e criador dos valores morais supremos é o espírito humano, onde reina o imperativo categórico.


4.4 Da "Crítica da Razão Pura" à "Crítica da Razão Prática"

4.4.1 Pontos de convergência das duas primeiras "críticas"

Se, na primeira "crítica", o objetivo imediato era a fundamentação do conhecimento científico, na segunda será a fundamentação da moral. Em qualquer dos casos, não se trata de construir um sistema, mas de fundamentar "fatos".

Ambas as "críticas" partem do pressuposto de que os dados a fundamentar (a ciência e a moral) consistem em proposições universais e necessárias. Por conseguinte, o objetivo de cada uma das "críticas" é determinar as condições que tornam possíveis essas proposições.


4.4.2 Pontos de divergência das duas primeiras "críticas"

A razão teórica, tendendo a ultrapassar os limites da experiência possível, torna-se ilegitimamente pura (e assim se coloca à margem da ciência); a razão prática, cedendo constantemente aos impulsos da sensibilidade, torna-se ilegitimamente empírica (e assim se coloca à margem da moral).

Por isso, as "críticas" têm um sentido oposto: a primeira destina-se a denunciar os abusos da razão quando esta pretende conhecer cientificamente para lá dos limites da experiência; a segunda vai mostrar que a moralidade exige a desvinculação da razão em relação ao domínio empírico, o que contraria a tendência natural da vontade do homem.
4.5 Crítica do Juízo

Em seu último tratado importante, a Crítica do juízo, analisa as noções de beleza e finalidade, inerentes ao homem e também não explicáveis pela experiência. A intuição estética realiza a síntese entre os dois termos, a imaginação (sensibilidade) e o entendimento, permitindo que a razão se torne sensível e a sensibilidade, racional.


4.6 Crítica da Faculdade de Agir

A terceira crítica como meio de ligação da primeira e da segunda

Os conceitos de natureza, que contêm a priori o fundamento para todo o conhecimento teórico, assentavam na legislação do entendimento. O conceito de liberdade, que continha a priori o fundamento para todas as prescrições práticas sensivelmente incondicionadas, assentava na legislação da razão. Por isso ambas as faculdades, para além do fato de, segundo a forma lógica, poderem ser aplicadas a princípios, qualquer que possa ser a origem destes, possuem cada uma a sua própria legislação segundo o conteúdo, sobre a qual nenhuma outra (a priori) existe e por isso justifica a divisão da Filosofia em teórica e prática.

Só que na família das faculdades de conhecimento superiores existe ainda um termo médio entre o entendimento e a razão. Este é a faculdade do juízo, da qual se tem razões para supor, segundo a analogia, que também poderia precisamente conter em si a priori, se bem que não uma legislação própria, todavia um princípio próprio para procurar leis; em todo o caso um princípio simplesmente subjetivo, o qual, mesmo que não lhe convenha um campo de objetos como seu domínio, pode todavia possuir um território próprio e uma certa característica deste para o que precisamente só este princípio poderia ser válido.

Mas é ainda possível (para julgar segundo a analogia) acrescentar uma nova razão que nos leva a conectar a faculdade do juízo com uma outra ordem das nossas faculdades de representação e que parece ser ainda de maior importância que o parentesco com a família das faculdades do conhecimento. Na verdade todas as faculdades da alma ou capacidades podem ser reduzidas àquelas três, que não se deixam, para além disso, deduzir de um princípio comum: a faculdade de conhecimento, o sentimento de prazer e desprazer e a faculdade de apetição.

Para a faculdade de conhecimento apenas o entendimento é legislador, no caso daquela (como terá de acontecer, se for considerada em si, sem se misturar com a faculdade de apetição) como faculdade de um conhecimento teórico, ser relacionada com a natureza, a respeito da qual apenas (como fenômeno) nos é possível dar leis, mediante conceitos de natureza a priori, os quais no fundo são conceitos do entendimento puros.

Para a faculdade de apetição, como uma faculdade superior segundo o conceito de liberdade, apenas a razão (na qual somente se encontra este conceito) é legisladora a priori. Ora entre a faculdade de conhecimento e a de apetição está o sentimento de prazer, assim como a faculdade do juízo está contida entre o entendimento e a razão. Por isso, pelo menos provisoriamente, é de supor que a faculdade do juízo, exatamente do mesmo modo contenha por si um princípio a priori e, como com a faculdade de apetição está necessariamente ligado o prazer ou o desprazer (quer ela anteceda, como no caso da faculdade de apetição inferior, o princípio dessa faculdade, quer, como no caso da superior, surja somente a partir da determinação da mesma mediante a lei moral), produza do mesmo modo uma passagem da faculdade de conhecimento pura, isto é do domínio dos conceitos de natureza, para o domínio do conceito de liberdade, quando no uso lógico torna possível a passagem do entendimento para a razão.


4.7 O conhecimento

Uma das mais importantes questões que dominam o pensamento de Kant é o problema do conhecimento humano, a questão do saber. Na Crítica da razão pura, ele distingue duas formas básicas do ato de conhecer:



  1. O conhecimento empírico (a posteriori) - aquele que se refere aos dados fornecidos pelos sentidos, isto é, que é posterior à experiência. Exemplo: “Este livro tem a capa azul”

  2. O conhecimento puro (a priori) - aquele que não depende de quaisquer dados dos sentidos, ou seja, que é anterior à experiência. Nasce puramente de uma operação racional. Exemplo: duas linhas paralelas jamais se encontram no espaço. Essa afirmação (juízo) não se refere a esta ou àquela linha paralela, mas a todas. É uma afirmação universal. Além disso, é uma afirmação que, para ser válida, não depende de nenhuma condição específica. Trata-se de uma afirmação necessária.

O conhecimento puro, portanto, conduz a juízos universais e necessários, enquanto o conhecimento empírico não possui essas características. Os juízos, por sua vez, são classificados por Kant em dois tipos: os analíticos e os sintéticos.

O juízo analítico é aquele em que o predicado já está contido no sujeito. Ou seja, basta analisarmos o sujeito para deduzirmos o predicado. Exemplo: o quadrado tem quatro lados. Analisando o sujeito quadrado, concluímos, necessariamente, o predicado: tem quatro lados.

O juízo sintético é aquele em que predicado não está contido no sujeito. Nesses juízos, acrescenta-se ao sujeito algo de novo, que é o predicado. Assim, os juízos sintéticos enriquecem nossas informações e ampliam o conhecimento. Exemplo: Os corpos se movimentam. Por mais que analisemos o conceito corpo (sujeito) não extrairemos a informação representada pelo predicado se movimentam.

Por fim, analisando o valor de cada juízo, Kant chega à seguinte classificação:



  1. juízo analítico - serve apenas para tornar mais claro, para explicitar aquilo que já se conhece do sujeito. Não dependendo da experiência sensorial, o juízo analítico é universal e necessário. Mas, a rigor, é pouco útil, no sentido de que não conduz a conhecimentos novos;

  2. juízo sintético a posteriori - está diretamente ligado a nossa experiência sensorial. Tem uma validade sempre condicionada ao tempo e ao espaço em que se deu a experiência. Não produz, portanto, conhecimentos universais e necessários.

  3. juízo sintético a priori - é o mais importante por dois motivos:

  • não estando limitado pela experiência, é universal e necessário;

  • seu predicado acrescenta novas informações ao sujeito, possibilitando uma ampliação do conhecimento.

4.8 Realidade



Kant distinguiu duas modalidades de realidade. A realidade que se oferece a nós na experiência e a realidade que não se oferece à experiência. A primeira foi chamada por ele de fenômeno, isto é, aquilo que se apresenta ao sujeito do conhecimento na experiência, é estruturado pelo sujeito com as formas do espaço e do tempo e com os conceitos do entendimento, é sujeito de um juízo e objeto de um conhecimento. A segunda foi chamada por ele de nôumeno, isto é, aquilo que não é dado à sensibilidade nem ao entendimento, mas é afirmado pela razão sem base na experiência e no entendimento.

O fenômeno é a coisa para nós ou o objeto do conhecimento propriamente dito, é o obejto enquanto sujeito do juízo. O nôumeno é a coisa em si, o objeto da metafísica, ou seja, o que é dado para um pensamento puro, sem relação com a experiência. Ora, só há conhecimento universal e necessário daquilo que é organizado pelo sujeito do conhecimento nas formas do espaço e do tempo e de acordo com os conceitos do entendimento. Se o nôumeno é aquilo que nunca se apresenta à sensibilidade nem ao entendimento, mas é afirmando pelo pensamento puro, não pode ser conhecido. E se o nôumeno é objeto da metafísica, esta não é, portanto, um conhecimento possível.


4.9 Ética

Na Metafísica da Ética (1797) Kant descreveu seu sistema ético, o qual está baseado em uma crença de que a razão é a autoridade final para a moralidade. A moral não poderia ter fundamento em observação dos costumes, ou em qualquer fórmula empírica. Não sendo conhecimento, despida, portanto, de tudo que seja empírico, "a moral é concebida como independente de todos os impulsos e tendências naturais ou sensíveis"... a moral "seria estabelecida pela razão" como reguladora da ação. Ações de qualquer tipo, ele acreditava, precisam partir de um sentido de dever ditado pela razão, e nenhuma ação realizada por interesse ou somente por obediência a lei ou costume pode ser considerada como moral. Dessa forma, Kant recusou todas as éticas anteriores, fundamentadas em normas e valores de origens diversas (as éticas heterônomas, as vindas de fora do sujeito, impostas por outras fontes que não a razão.)

Kant descreveu duas classes de mandamentos dados pela razão. Todo ato, no mo mento de iniciar-se aparece à consciência moral sob a forma de uma dessas duas classes, ou de um desses dois tipos, de mandamentos que ele chama "imperativos hipotéticos" e "imperativos categóricos".

4.9.1 Imperativo hipotético.

Os imperativos hipotéticos estão subordinados a uma condição: correspondem a ações como meio de evitar tal ou qual castigo, ou para obter tal ou qual recompensa. Enunciam um mandamento subordinado a determinadas condições (se queres sarar, toma o remédio), enquanto o imperativo categórico é inteiramente desvinculado de qualquer condição.
4.9.2Imperativo categórico.

O imperativo categórico é a base da moralidade e foi colocado por Kant nessas palavras: Age em conformidade apenas com a máxima que possas querer que se torne uma lei universal. Em outras palavras, o ato moral é aquele que se realiza como acordo entre a vontade e as leis universais que ela dá a si mesma.

Essa fórmula permite a Kant deduzir as três máximas morais que exprimem a incondicionalidade dos atos realizados por dever. São elas:


  1. Age como se a máxima de tua ação devesse ser erigida por tua vontade em lei universal da Natureza;

  2. Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca como um meio;

  3. Age como se a máxima de tua ação devesse servir de lei universal para todos os seres racionais.

A primeira máxima afirma a universalidade da conduta ética, isto é, aquilo que todo e qualquer ser humano racional deve fazer como se fosse uma lei inquestionável, válida para todos em todo tempo e lugar. A ação por dever é uma lei moral para o agente.

A segunda máxima afirma a dignidade dos seres humanos como pessoas e, portanto, a exigência de que sejam tratados como fim da ação e jamais como meio ou como instrumento para nossos interesses.

A terceira máxima afirma que a vontade que age por dever institui um reino humano de seres morais porque racionais e, portanto, dotados de uma vontade legisladora livre ou autônoma. A terceira máxima exprime a diferença ou separação entre o reino natural das causas e o reino humano dos fins.

O imperativo categórico não enuncia o conteúdo particular de uma ação, mas a forma geral das ações morais. As máximas deixam clara a interiorização do dever, pois este nasce da razão e da vontade legisladora universal do agente moral. O acordo entre vontade e dever é o que Kant designa como vontade boa que quer o bem.

Kant faz distinção entre as máximas e as leis morais. As primeiras, as máximas, seriam subjetivas, contendo uma condição considerada pelo sujeito como válida somente para sua vontade, condição de alcançar sua felicidade pessoal, e portanto sua vontade está condicionada. As leis morais, ao contrário, seriam objetivas, contendo uma condição válida para a vontade de qualquer ser racional. Ambas derivam puramente da razão, mas apenas a vontade determinada apenas pela forma da lei e, por conseqüência independente de todo estímulo empírico é livre.

As respostas de Rousseau e de Kant, embora diferentes, procuram resolver a mesma dificuldade, qual seja, explicar por que o dever e a liberdade da consciência moral são inseparáveis e compatíveis. A solução de ambos consiste em colocar o dever em nosso interior, desfazendo a impressão de que nos seria imposto de fora por uma vontade estranha à nossa.


5 Influências do pensamento kantiano

Na história da filosofia ocidental, o pensamento de Kant é uma etapa decisiva, cuja fecundidade está longe de ter se esgotado. Ele foi o ponto de partida da moderna filosofia alemã e marcou pensadores como Fichte, Schelling, Hegel e Schopenhauer. Suas obras são referência fundamental para diversas correntes. Os idealistas, por exemplo, tenderam a realçar o caráter criativo atribuído por Kant à razão humana e os materialistas e positivistas assimilaram a crítica kantiana da metafísica. A problemática das relações entre sujeito e objeto recebeu do filósofo de Königsberg uma formulação que revelou múltiplos aspectos da realidade. O idealismo transcendental ou crítico de Kant representou para a filosofia ocidental um ponto de inflexão comparável ao heliocentrismo de Copérnico. Daí a habitual referência ao sistema de Kant como uma "revolução copernicana" na história do pensamento.


6. Kant e o Direito

6.1 A Filosofia Jurídica

A filosofia jurídica kantiana propriamente dita teve seu início na Crítica da Razão prática mas é principalmente no Metafísica dos Costumes  que Kant aprofunda o seu estudo jusfilosófico. Nesta obra o filósofo alemão retoma algums conceitos já discutidos na Crítica da Razão Prática e os aprofunda. Suas principais preocupações e, por conseguinte, contribuições, são o desenvolvimento paralelo dos conceitos de Direito e moral, delimitando seus campos e traçando suas características fundamentais e a idéia da coação como nota essencial do Direito.

Kant observa na primeira parte da Metafísica dos Costumes que existe uma dupla legislação atuando sobre o homem, enquanto consciente de sua própria existência e liberdade: uma legislação interna e uma legislação externa. A primeira diz respeito à moral (ética no sentido estrito), obedecendo à lei do dever, de foro íntimo, enquanto a segunda revela-nos o Direito, com leis que visão a regulação das ações externas.

O paralelo entre moral e Direito norteia toda a obra jurídica deste autor, tendo a liberdade como ponto nodal e pano de fundo desta relação. Kant observa que o verdadeiro critério diferenciador entre moral e direito é a razão pela qual a legislação é obedecida. Afirma que a vontade jurídica é heterônoma, posto que condicionada por fatores externos de exigência da mesma, enquanto que a vontade moral é autônoma, já que o móbil desta é o dever pelo dever.

Desta forma a mera concordância com a norma, independente do móbil, encontra-se no plano jurídico da legalidade, enquanto que para o plano ético exige uma concordância com valores internos independente de inclinações.

Para Kant, a legalidade não se confunde com a moralidade. Um ato é legal quando coincide com a lei, e é moral quando exercido livremente, porque o deve ser. (Se não matamos somente para não sofrer as penas da lei, o que nos determina não é a norma ética, o Direito, mas o temor do castigo.)

No mundo jurídico é dispensável a correspondência íntima entre a ação e a consciência (presente no mundo moral). Não importa no mundo jurídico se o indivíduo está de acordo ou não com a lei, com a norma, mas importa se está cumprindo ou não. Da mesma forma não importa se o indivíduo sente remorso ao praticar um crime, no mundo jurídico importa que ele cumpra a pena prevista e imposta pela lei. O Direito preocupa-se com a exterioridade da ação. Daí dizer-se que o Direito é heterônomo, e a Moral, autônoma.

Retornando a doutrina do jurista alemão Thomasius, Kant assevera o caráter coativo do Direito e o toma como sua nota característica. Diferente de seus antecessores coloca a coação como nota essencial do Direito, trazendo-a para dentro do Direito.

6.2 A Justiça em Kant

Ao referir-se à justiça, Kant declarou: “Se a justiça pudesse perecer, não teria sentido e nenhum valor que os homens vivessem sobre a Terra.” Portanto, a justiça é importante, não apenas no campo do Direito, mas em todos os fatos sociais por ela alcançados. A vida e,m sociedade, sem a justiça, seria insuportável.

O juiz, para Kant, é espectador, aquele que olha e julga, que procura e encontra a verdade. O juiz, para ter aquela imparcialidade que se espera dele, tem que ter uma idéia do todo, não se preocupar com a opinião dos outros e com o desejo de aparecer para os outros, ao contrário do ator (para Kant, ator é o homem que age em função da fama, isto é, está preocupado com a opinião que os outros homens têm a seu respeito.)

Em Kant, a justiça deve ser universal. O fundamento de toda a legislação prática está em conhecer a vontade de cada um como universal e legislativa: “Age de tal maneira que o motivo que te levou a agir possa tornar-se lei universal”, isto é, as pessoas devem pautar suas ações de acordo com princípios éticos universalmente aceitos.

Da mesma maneira que a paz perpétua, a justiça universal, o encontro do ser e do dever ser, não se trata de acreditar ou não, se é uma utopia, um sonho, mas trata-se de viver como se a justiça fosse possível, de caminhar para ela.




7 Conclusão
Kant foi o mais eminente pensador do Iluminismo e um dos grandes filósofos de todos os tempos. A sua contribuição para a epistemologia (teoria do conhecimento), é notável e não pode ser esquecida. Em sua filosofia, somaram-se os novos rumos que haviam começado com o racionalismo de René Descartes, que vai até Leibniz, e o Empirismo, de Francis Bacon, que vai até Hume. Ele iniciou uma nova era no desenvolvimento do pensamento filosófico. Seu trabalho abrangente e sistemático em teoria do conhecimento, ética e estética, influenciou toda a filosofia subseqüente, especialmente as várias escolas alemãs do Kantismo e Idealismo (para alguns, Kant foi responsável pelo caminho idealista seguido pela filosofia alemã após a sua morte). A filosofia de Kant, inclusive, desenvolvida pelo filósofo alemão Hegel, foi a base na qual a estrutura do marxismo foi construída: o método dialético, usado por ambos, Hegel e Marx, foi uma expansão do método de raciocínio por “antinomias” usado por Kant.

Pode-se dizer que a obra de Kant constitui, ao mesmo tempo, o ponto de convergência do pensamento filosófico anterior e a fonte da qual brota a maior parte das reflexões dos séculos XIX e XX. Com sua teoria do conhecimento, Kant encerra um período que tinha começado com Descartes e abre um novo período para a filosofia, que é o período do desenvolvimento do Idealismo Transcendental, nome pelo qual ficou conhecida sua filosofia.



A contribuição de Kant para a Doutrina do Direito foi incomensurável. Aprofundou e sistematizou a teoria de Thomasius, descrevendo um paralelo entre moral e Direito. Introduziu no conceito de Direito a idéia de coação, tomando esta como nota característica daquele. Sem mencionar que o conceito de liberdade e justiça não podem ser hoje estudados sem se ter como base a obra deste pensador.

8 Referências Bibliográficas

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Coleção Os Pensadores. Tradução de ROHDEN, Valerio e MOOSBURGER Udo Baldur. São Paulo. Ed. Nova Cultural, 1999



CHAUI, Marilena. Filosofia. São Paulo. Ed. Ática, 2000
COTRIM, Gilberto. Fundamentos de Filosofia. São Paulo, Ed. Saraiva, 2000
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http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/4048/ acesso em 03/05/2003

http://www.cosmofilosofico.hpg.com.br/ acesso em 10/05/2003

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