3º Encontro da Rede Alfredo de Carvalho Feevale/Novo Hamburgo, 14 a 16 de abril de 2005 gt história da Mídia Alternativa



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3º Encontro da Rede Alfredo de Carvalho

Feevale/Novo Hamburgo, 14 a 16 de abril de 2005

GT História da Mídia Alternativa


Título: Vozes do feminismo na imprensa alternativa - As lutas das mulheres
nos jornais de oposição no período da ditadura militar no Brasil


Resumo:
No final dos anos 1970, no Brasil, a tematização de lutas específicas das mulheres torna-se constante nos jornais da imprensa alternativa. As feministas, além de possuírem suas próprias publicações, buscam espaço nos jornais para chamar a atenção para reivindicações sistemáticas voltadas à opressão das mulheres nos campos político, econômico, social e cultural. O presente trabalho tem como objeto os jornais Movimento, Opinião e Repórter, publicados nos anos 1970. Importantes temáticas feministas – como liberdade sexual, igualdade de direitos e de oportunidades, aborto, políticas públicas para as mulheres, condições de trabalho, entre outras – encontram eco no espaço destes jornais, embora nem sempre sendo tratadas de forma consensual.

Para compreender melhor este universo, torna-se necessário recuperar algumas marcas da trajetória da condição da mulher na sociedade, relacionando-as ao fortalecimento do feminismo, assim como contextualizar a contribuição da imprensa alternativa neste cenário. A partir do confronto de idéias e opiniões estabelecido pelos jornais, pode-se vislumbrar a organização do movimento feminista e as lutas travadas em torno da participação ativa da mulher na sociedade. Assim, reportagens e textos opinativos compõem um cenário de reivindicações que denuncia a condição de desigualdade da mulher, oferecendo alguns indícios para compreender as relações de gênero e a aceitação (ou não) das diferenças no referido momento histórico.




Palavras-chave: imprensa alternativa, movimento feminista, história da comunicação.
Autora: Karina Janz Woitowicz - jornalista, professora Ms. do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa/PR (karinajw@uepg.br)






Vozes do feminismo na imprensa alternativa

As lutas das mulheres nos jornais de oposição no período da ditadura militar no Brasil

Karina Janz Woitowicz

O presente texto convida para um percurso pela participação do movimento feminista nas transformações sociais, traçando algumas pistas sobre o modo como as lutas e ideais das mulheres foram tematizados na imprensa alternativa durante os anos 70, em plena ditadura militar. Neste período, vários grupos e publicações feministas que discutiam o papel secundário atribuído à mulher na sociedade se organizaram no reconhecimento de conquistas e situações de opressão, contando com a participação de diferentes setores sociais: trabalhadoras, intelectuais, ecologistas, negras, lésbicas, portadoras de deficiências, lideranças comunitárias e donas de casa.

Ao denunciar inúmeras injustiças e desigualdades, o Movimento de Mulheres buscou romper com as imposições de uma sociedade patriarcal e legitimar o papel das mulheres na construção de uma sociedade baseada no principio da igualdade. Gradativamente, alguns direitos foram sendo reconhecidos nos âmbitos político, econômico e familiar. Entretanto, ainda hoje é possível fazer as seguintes reflexões: há condições de considerar uma cidadania plena da mulher? Que heranças da condição secular das mulheres continuam marcando a desigualdade entre os sexos?

Mesmo considerando que algumas bandeiras de outros tempos permanecem atuais, torna-se importante reconhecer que várias conquistas foram traçadas no final dos anos 1970, quando as mulheres se organizam em torno de demandas específicas. Desse modo, as feministas, além de possuir suas próprias publicações, buscam espaço nos jornais para chamar a atenção para reivindicações voltadas à opressão das mulheres no trabalho, em casa e nas relações sociais.

O presente trabalho tem como objeto os jornais Movimento, Opinião e Repórter, publicados nos anos 1970. Importantes temáticas feministas – como liberdade sexual, igualdade de direitos e de oportunidades, aborto, políticas públicas para as mulheres, condições de trabalho, entre outras – encontram eco no espaço destes jornais, embora nem sempre sendo tratadas de forma consensual. Para compreender melhor este universo, torna-se necessário recuperar algumas marcas da trajetória da condição da mulher na sociedade, relacionando-as ao fortalecimento do feminismo, assim como contextualizar a contribuição da imprensa alternativa neste cenário. A partir deste percurso, serão trazidas reportagens e textos opinativos de modo a compor um cenário de reivindicações que denuncia a condição de desigualdade da mulher, oferecendo alguns indícios para compreender as relações de gênero e a aceitação (ou não) das diferenças no referido momento histórico.

Ao relacionar abordagens históricas e referenciais teóricos sobre a mídia alternativa, o trabalho desenvolve uma análise em que o jornalismo é visto como um campo de constante luta e diálogo, reconhecendo o discurso como uma batalha também travada na imprensa, que se soma às ações concretas das feministas.


Condições históricas na oposição entre os sexos

Por determinadas convenções e vícios cristalizados no imaginário social, costuma-se ocultar os excluídos da sociedade que buscam modificar o rumo da história. A milenar invisibilidade da mulher no passado é exemplo deste tipo de ‘apagamento’ de atores sociais. O silêncio a respeito das mulheres está presente não somente nas "versões" historiográficas dos grandes fatos e sociedades que marcaram a história da humanidade. Segundo Mariana Várzea, tal silenciamento reflete também a “desvalorização e submissão da mulher desde a Grécia, quando ela foi considerada um ser irracional, impuro, e, por sua condição maternal, mais próxima dos animais do que dos ‘homens evoluídos’”. Este pensamento que está na base de toda a cultura cristã e, por conseguinte, européia e americana, atribuiu um papel inferior ao ser feminino, que custou todo o século XX para reverter.


Michel Foucault – em A mulher/os Rapazes da Historia da sexualidade – aborda a questão conjugal como uma das bases para a legitimação de valores hegemônicos no período greco-romano. Ao reconhecer diferentes ‘papéis’ ligados ao sexo, à moral e à religião, percebe-se que a submissão da mulher e a negação do homossexualismo são condições legitimadas e cristalizadas nos hábitos culturais de diferentes épocas.

Em meio a esta constituição hegemônica do imaginário social, as reivindicações das mulheres (consideradas audaciosas em outras épocas e, talvez, ainda hoje) a respeito das relações amorosas livres, da dissolubilidade do casamento a qualquer momento, da manutenção do concubinato e da defesa dos direitos dos filhos, assim como a liberdade reprodutiva, representaram argumentos de ruptura com os valores estabelecidos. Afinal, sabe-se que o controle da sexualidade e da capacidade procriadora da mulher foram (e evidentemente ainda são) motivo e estímulo de opressão das mulheres.



Com as regras impostas à mulher, baseadas no pensamento cristão, surgem os tabus principalmente em torno da sexualidade, reservando à condição feminina a finalidade de procriação. De outro lado, vale reconhecer que com os tabus também surge o erotismo em torno da nudez feminina: ou santa ou prostituta. Durante muito tempo, uma mulher ideal era ‘de família’, sabia bordar, agradar, parir, mas ler, nem pensar... pesquisadores reconhecem que somente no século XIX o Brasil percebeu que a população feminina merecia ser educada. Conforme observa Várzea, a primeira legislação relativa à educação feminina surgiu em 1827 e permitia apenas a criação de escolas elementares, somente de meninas.1

As regras em torno da ideologia patriarcal definem-se, neste sentido, como um sistema de dominação sexual que não permite à mulher o desenvolvimento de determinadas funções sociais. De acordo com Michelle Perrot, “o militar, o religioso, o político, como as três ordens da Idade Média, constituem três santuários que fogem às mulheres. Núcleos de poder, são os centros de decisão, real ou ilusória, ao mesmo tempo que símbolos da diferença dos sexos” (2002:107). Mesmo com todas as restrições, a mulher vai aos poucos encontrando formas de se inserir no ambiente social, principalmente através da escrita.


“A idéia de que a natureza das mulheres a destine ao silêncio e à obscuridade está profundamente arraigada em nossas culturas. Restritas ao espaço do privado, no melhor dos casos ao espaço dos salões mundanos, as mulheres permanecem durante muito tempo excluídas da palavra pública. (...) Sem o poder, como as mulheres ganham influência nas redes durante tanto tempo dominadas pelos homens? Primeiro, pela correspondência, depois pela literatura e, por fim, pela imprensa” (2002:59).2
Uma diversidade de acontecimentos marca a trajetória da mulher: rupturas políticas, revoluções, guerras, lutas nacionais, além de aspectos científicos e filosóficos. As mulheres conquistam com muito esforço a escrita e as artes plásticas, mas a arquitetura, a música e o campo dos saberes permanecem distantes do seu universo. Essas divisões, enquanto não rompidas, atribuíam à mulher a sua condição de inferioridade.

A mulher se insere no mercado de trabalho – como operária, enfermeira, secretária e professora – somente a partir do século XX, com o crescente processo de industrialização. A visível diferença de salários em relação aos homens se tornou uma das principais bandeiras da época, denunciando situações de exploração. É somente em 1943 que a mulher passa a trabalhar livremente – uma conquista da Frente Única de Mulheres.

Ao denunciar as injustiças e contradições sociais, as mulheres foram construindo o seu espaço: o salário feminino, a pílula anticoncepcional, a subversão de limites, foram se insinuando como conquistas irreparáveis das mulheres. No entanto, campos como a política e a religião permaneceram hostis ao universo feminino. O voto para e nas mulheres – bandeira do feminismo sufragista e argumento que mobilizou as mulheres em diferentes países – é considerado uma importante conquista na luta pela igualdade. Embora o processo de aceitação da mulher eleitora tenha se dado em ritmo bastante lento, marcado pela discriminação e pelo preconceito (sustentado na idéia de que cabe à mulher a casa e a família), o significado do voto representou uma arma de transformação social.3

O imaginário coletivo sistematicamente inferiorizado ao longo da história deixou profundas heranças no reconhecimento da identidade feminina. Os reflexos deste processo de legitimação se verificam sempre que se percebe a mulher exclusivamente pelas suas características de mãe, dona de casa e, ainda, objeto sexual. A tentativa de promover a imagem negativizada da mulher – reflexo de uma ideologia hegemônica amplamente reproduzida nas páginas dos jornais ao longo da história – acaba por ignorar o seu papel como cidadã, reiterando estereótipos e ignorando outras expressões da identidade feminina.

Assim, em um momento em que as mulheres reconhecem a necessidade de se organizar em forma de movimentos e associações (notadamente a partir dos anos 1970 no Brasil), o jornalismo alternativo passa a projetar este processo de mudanças e estabelecer um diálogo entre diferentes percepções do papel da mulher na sociedade, seja levantando problemáticas gerais ou discutindo reivindicações específicas do universo feminino.

Conquistas e direitos na trajetória das lutas feministas

Para situar a condição feminina no período da ditadura militar, é importante ter presente um breve resgate do feminismo, tomando como referência alguns estudos realizados no Brasil e na América Latina. Vale destacar que não há uma forma consensual de compreender o movimento feminista, uma vez que diferentes vertentes ideológicas e lutas dirigidas demarcam sua presença. O feminismo, como ideologia, busca defender os direitos de metade da humanidade e os ideais igualitários. Como posição ideológica e ação política, contudo, foi satanizado em suas primeiras reivindicações.


A pesquisadora Ana de Miguel divide a história do movimento feminista em três grandes blocos: feminismo pré-moderno, que tem como origem a resistência ao poder patriarcal e ao puritanismo de meados do século XVII, quando os salões começam a constituir espaços públicos capazes de gerar novos valores sociais a partir da presença da mulher; feminismo moderno, que tem como raiz a Revolução Francesa e supõe, com a participação das proletárias, uma efetiva radicalização do projeto igualitário, legitimando demandas de direitos em diferentes campos, e feminismo neomoderno, a partir dos anos 1960, quando algumas conquistas já haviam se efetivado, mas era preciso uma transformação na forma de compreender a mulher na sociedade. Este último tem na obra de Simone de Beauvoir uma referência fundamental na reflexão de que as mulheres viviam em uma sociedade quase-igualitária, mas ainda estariam marcadas por uma identificação de mãe e esposa, o que estaria cerceando a possibilidade de realização pessoal e culpando aquelas que não eram felizes cumprindo estes papéis.4

O neofeminismo traz em sua base um novo ressurgir do movimento, apresentando abordagens de luta que caminham do liberal para o radical. Na primeira vertente, Betty Friedan liderou a formação de uma das organizações feministas mais poderosas dos Estados Unidos, a Organização Nacional para as Mulheres (NOW), lutando pela igualdade entre os sexos. O feminismo radical, por sua vez, tem nos anos 60, de intensa agitação política, a exposição das contradições de um sistema que tem sua legitimação na universalidade de seus princípios, mas que na realidade é sexista e classista. O caráter contracultural do movimento feminista radical buscava despertar a consciência latente que todas as mulheres têm sobre a opressão; o ativismo dos grupos radicais resultou em diversas manifestações e marchas de mulheres em torno de polêmicas como o trabalho e o aborto. Como resultado das organizações mais recentes de mulheres surge também o feminismo cultural (anos 1970), formado por defensores da diferença entre os sexos. Ao partir da diversidade das sociedades contemporâneas, esta vertente valoriza as variáveis que interagem com as relações de gênero, como a nacionalidade, a etnicidade, a preferência sexual, etc.

O feminismo possui mais de dois séculos de história como movimento social. Desde o início das primeiras sociedades democráticas, baseadas no clássico princípio “todos os homens nascem livres e iguais”, as mulheres constataram o seu caráter excludente... “menos as mulheres”. Esta contradição de uma democracia sem mulheres marcou a trajetória do movimento.5

É na luta pelo reconhecimento do papel da mulher na sociedade que o movimento feminista no Brasil, acompanhando o debate de idéias que marcaram o feminismo em outros países nos anos 1970, buscava formas de garantir a sua legitimidade. De acordo com Maria Amélia de Almeida Telles, este é o momento em que as mulheres deixam de apenas marcar presença nos movimentos sociais ao lado dos homens (só para se ter uma idéia, o Comitê Brasileiro de Anistia calcula que cerca de 12% dos integrantes de movimentos sociais eram mulheres), e começam a surgir lutas mais dirigidas. Segundo a autora,


mais recentemente, a partir de 1975, com a instauração do Ano Internacional da Mulher, as brasileiras retomaram o movimento feminista, atuando em grupos de estudos e programando jornadas de luta e campanhas de mobilização. Integradas com os movimentos democráticos, as feministas brasileiras engrossaram fileiras nos movimentos pela anistia, por liberdades políticas e por uma constituinte livre e soberana. (1999: 14)
Surgem vários clubes de mães, que começam a levantar discussões sobre custo de vida, baixos salários, creches para mães trabalhadoras, sexualidade, violência sexual e doméstica. São realizados congressos de mulheres, marchas, cartas às autoridades exigindo mudanças, etc. Outro fator importante situa-se no ano de 1975, quando a ONU institui o Ano Internacional da Mulher, e o dia 8 de março passa a simbolizar as lutas das mulheres. É elaborado, também nesta data, o “Manifesto da Mulher Brasileira”, em favor da Anistia. Dez anos depois, é criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.6

Os anos 70 também são marcados por publicações do movimento feminista, que surgem com o objetivo de discutir os rumos do movimento e levantar as principais bandeiras das mulheres. Neste contexto, vale destacar os jornais “Brasil Mulher” (1975-1979), “Nós Mulheres” (1976-1978) e “Mulherio” (1981-1987), que tiveram uma inegável contribuição para o debate em torno da necessidade de enfrentar novos desafios em uma sociedade marcada pela diferença entre os sexos, fortalecendo assim diversas reivindicações baseadas no ‘novo feminismo’.7 Segundo Paola Cappelin Giulani,


Muitas queixas e relatos sobre a discriminação e a segregação sexual conseguem sair das paredes domésticas em que até então estavam enclausuradas e tornam-se fontes de denúncias e de demandas de novos direitos. Tais atitudes conseguem atingir os alicerces das relações sociais questionando os principais espaços coletivos: o local de trabalho, a prática sindical e a própria família. (2004:645)
É a partir desta necessidade de instaurar o diálogo e provocar mudanças que o movimento feminista vai buscar seu fortalecimento e representatividade, na tentativa de aprofundar as relações democráticas. Neste espaço, a imprensa alternativa vai atuar como uma importante aliada para a conscientização de diferentes setores da sociedade.

E a imprensa alternativa resistia...


A ditadura militar (1964-1984) representou o início de um período de autoritarismo político, em que se buscou conter o avanço dos ‘comunistas’ e calar os setores de base que não mais aceitavam a política entreguista experimentada por sucessivos governos brasileiros.8 Os reflexos da tomada de poder pelos militares permaneceram por duas décadas, entrando para a história do país como os chamados “anos de chumbo”: censura, repressão armada, perseguição àqueles que ousavam questionar o governo instituído, privilégios aos grandes grupos econômicos, manobras políticas, entre outras práticas características desta ideologia hegemônica, marcaram o referido período.

Em meio a este sistema de castração de direitos e controle à liberdade de expressão surgem centenas de publicações, conhecidas como imprensa alternativa ou nanica, que ousavam desafiar o poder estabelecido e denunciar situações de opressão.9 Defendendo interesses de diversos grupos e movimentos sociais, a imprensa alternativa irá proporcionar o debate de idéias, fazendo circular informações que, de outro modo, seriam silenciadas.

Entre as principais características destas publicações destacam-se o caráter de oposição à política dos militares, aos conteúdos antinacionais e à monopolização da economia; a efemeridade de muitos periódicos; tiragens reduzidas; ausência de um esquema empresarial e de anúncios oficiais; conteúdos de análise, denúncia e crítica e linguagem combativa. Com este perfil, as publicações evidenciavam determinadas linhas ideológicas contrárias à ditadura militar e estabeleciam um verdadeiro debate em torno de temas como direitos humanos, justiça social e liberdade de expressão.

Para situar melhor o universo de análise compreendido por esta pesquisa, torna-se importante recuperar algumas características dos jornais Opinião, Movimento e Repórter, publicados nos anos 70. De acordo com Rivaldo Chinem, o Opinião, que começou a circular em 23 de outubro de 1972, com uma tiragem de 25 mil exemplares, possuía uma linha editorial bastante crítica, embora não se propusesse a fazer propaganda de movimentos políticos. “Opinião funcionou como um canal de comunicação entre intelectuais e jornalistas perseguidos pelo regime militar e seu público, devolvendo o direito de expressão aos pesquisadores e pensadores expurgados das universidades” (1995: 59). O autor conta que, quando o oitavo número do jornal ia sendo rodado, o major Braga comunicou a Opinião que, a partir da edição seguinte, o jornal passaria a ter uma “revisão prévia” (1995:60).


O editorial de número 230 de Opinião, de 1o de abril de 1977, dizia que o jornal só voltaria a circular quando estivesse totalmente livre da censura, e que se às 5.796 páginas impressas fossem acrescentadas as matérias vetadas pela censura, o total chegaria a 10.548 páginas. (1995:70)
Um racha no jornal Opinião fez com que surgisse o Movimento, encabeçado pelo jornalista Raimundo Pereira. Com uma tiragem de cerca de quatro mil exemplares, o jornal que foi censurado logo na primeira edição circulou durante seis anos e meio, sendo a última edição publicada em novembro de 1981. A proposta do jornal consistia em unir “várias correntes de esquerda, atraindo tanto militantes que haviam se afastado da luta armada como grupos novos que se animavam com o surgimento do novo jornal, vendo nele um espaço em que seria possível o exercício da ação política em um plano mais geral” (1995:73). A censura era o principal inimigo enfrentado pelo Movimento.
Foram totalmente censuradas 184 reportagens nos 15 primeiros números de Movimento, e parcialmente vetadas outras 177, num total de 1.099 laudas.A cada semana, a equipe do jornal preparava três ou quatro opções de capa, porque nunca se sabia que assunto seria vetado, que reportagem seria liberada para publicação. (1995:75)
Com uma proposta um pouco diferente, mas sem abrir mão do caráter de contestação, surge o jornal Repórter, que procurava resgatar a força da reportagem na imprensa brasileira. Conforme observa Chinem, Repórter nunca pertenceu a uma facção da esquerda armada, nem tinha simpatia por determinada tendência política. Foi apreendido diversas vezes, sob alegação de que suas reportagens atentavam contra a moral e os bons costumes, e era o jornal da imprensa alternativa que mais vendia em bancas na época.
Repórter começou contando como um visitante secreto tinha entrado no Brasil para preparar a anistia. Começou com um furo e no tempo em que sobreviveu incomodou bastante as autoridades militares. (1995:35)
Estas publicações reuniam reivindicações de diversos setores da sociedade, que não encontravam espaço nos veículos tradicionais para se expressar. Obviamente, a censura tentava barrar qualquer tipo de oposição ideológica e formas de mobilização, o que naturalmente incluía o feminismo e suas expressões. Contudo, apesar do controle expressivo da política governamental, é possível encontrar na imprensa alternativa um amplo debate em torno de temas polêmicos acerca do universo feminino, trazendo a tona novos elementos para compreender a condição da mulher. Exemplos disso são as coberturas realizadas pelo jornal Movimento em maio de 1976, sobre a pílula anticoncepcional e a liberação sexual da mulher, e pelo periódico Repórter, que em julho de 1978 produziu uma edição especial sobre o aborto.10

Importante considerar ainda que, em uma edição do jornal Movimento sobre a censura (12 de junho de 1978), é realizada uma reportagem sob o título “É proibido falar de mulheres”, em que são revelados vários momentos em que houve a proibição de temas ligados à mulher, principalmente no que se refere a uma edição especial sobre as mulheres, que foi apreendida pelos censores.


O Dia Internacional da Mulher estava próximo. Numa das reuniões de pauta decidimos que era necessária uma edição especial, onde pudesse aprofundar os debates em torno do papel da mulher no Brasil (...). O esforço foi realmente grande – cerca de 40 jornalistas participaram do trabalho e o resultado, extraordinário: o mais completo levantamento, em termos de pesquisa e reportagens já feito no país em torno do tema. O contra-esforço da censura, no entanto, não foi menor: praticamente vetou tudo, 337 laudas de texto, 65 ilustrações. Mais de 80% do material enviado; um corte como nunca havíamos visto antes, suficiente para produzirmos um livro de 250 páginas. (Movimento, 12 jun. 1978)
Diante da impossibilidade de circular, o material vetado foi distribuído para algumas personalidades brasileiras, principalmente políticos e intelectuais, que se posicionaram a respeito e repudiaram a prática autoritária adotada pelo governo militar em relação às transformações que estavam ocorrendo no universo feminino.

A tematização das lutas das mulheres na imprensa alternativa

Os jornais publicados no período da ditadura militar no Brasil constituem um rico material para investigar a movimentação de idéias e as ações de resistência ao poder e aos valores hegemônicos. Assim, diante de diversos artigos e reportagens que faziam referência às transformações sociais e ao papel da mulher, optou-se por desdobrar a discussão nos seguintes eixos temáticos: vertentes e bandeiras do feminismo tematizadas nos jornais, participação política da mulher e relações com o mercado de trabalho. Através destes enfoques, as causas das mulheres vão revelando diversas posturas dos jornais e das vozes que nele ecoam.

Sobre o feminismo e seus princípios


O movimento de mulheres estendia-se por diversos países, somando novos elementos à sua identidade e autonomia. A partir de referências mundiais, as mulheres brasileiras buscavam o crescimento e a aceitação de suas organizações baseando-se em novas maneiras de compreender as lutas femininas. Isso justifica a presença constante de textos nos jornais que repercutiam discussões e posturas ideológicas relacionadas à condição da mulher em diferentes contextos. Especialmente no jornal Movimento, que trazia traduções do francês Le Monde, as denúncias de opressão e as causas das feministas européias, moçambicanas, americanas, etc, ganham destaque. Exemplos disso são as repercussões de eventos e ações realizados em diversos países, que servem como gancho para discutir a legitimidade do feminismo (os textos abaixo correspondem, respectivamente, à Conferência Internacional da Mulher, realizada no México, ao Tribunal de Mulheres, em Bruxelas, e à instauração de leis contra a discriminação das mulheres na Inglaterra).
“[costuma-se dizer que] o problema da mulher é um problema de exploração capitalista e que o movimento feminista contribuiria para camuflar as questões mais importantes. Contudo, o problema da discriminação da mulher é um problema à parte, sendo que a luta comum das mulheres pode anteceder uma transformação social mais ampla” (Movimento, 25 jul. 1977)
“Entre os dias 4 e 8 de março reúne-se, em Bruxelas, o Tribunal Internacional de Crimes Cometidos contra as Mulheres. Entenda-se por crimes contra as mulheres as atitudes sexistas que possam prejudicá-la como ser humano, física e psicologicamente. 800 mulheres de 30 países já confirmaram sua presença.” (Opinião, 27 fev. 1976)
“Dia 29 de dezembro de 1975 marcou, na Inglaterra, a entrada em vigor de duas leis contra a discriminação às mulheres: a Lei do Salário Igual e a Lei da Discriminação Sexual. A primeira foi aprovada em 1970. O motivo de só agora se tornar efetiva foi dar tempo aos empregadores de se adaptarem às novas condições. Antes da nova lei homens e mulheres podiam receber salários diferentes por trabalhos iguais. A única justificativa para se dar a elas salário menor era simplesmente o fato de pertencerem ao sexo feminino.

(...) Quase todos os países alegam não haver necessidade de tais leis de reforço, uma vez que a própria constituição – como a do Brasil – proíbe a discriminação por sexo. O problema é que na realidade é bem diferente.

(...) Essas duas leis não significam a igualdade total entre os sexos na Inglaterra, conforme várias feministas já fizeram questão de apontar. Porém, representam um começo e, mais importante, o reconhecimento de que a discriminação existe mesmo, e que é perfeitamente possível lutar contra ela. Basta querer” (Opinião, 16 jan. 1976)
Ao aproximar a realidade de outros países às demandas brasileiras, o feminismo no Brasil passa a assumir uma identidade própria. Desse modo, é voltando-se às causas legítimas das mulheres que se busca justificar a necessidade de fortalecer as lutas pontuais, sem isolar-se. É esta idéia que transparece no artigo “Caminhos brasileiros para o movimento feminista”, quando são mencionados temas como o trabalho e a emancipação da mulher:
“A situação da mulher brasileira é, obviamente, muito diferente [dos países industrializados]. Dado o baixo padrão de vida da maioria, apenas um pequeno número de mulheres da classe média e alta pode identificar, como sua, a problemática levantada pelos movimentos feministas dos países desenvolvidos” (Opinião, 10 abr. 1973)
Outro importante indício de que o feminismo é amplamente tematizado pela imprensa alternativa trata das coberturas sobre o Dia Internacional da Mulher, uma data que simboliza as lutas e conquistas das mulheres em todo o mundo. Afinal, foram 129 mulheres queimadas vivas em Nova York por buscarem melhores condições de trabalho, em 1827. Este episódio representou um marco na luta das mulheres, sendo lembrado e comemorado desde 1920 em vários países.

No entanto, foi somente em 1975, quando a ONU (Organização das Nações Unidas) instituiu o Ano Internacional da Mulher, que o dia 8 de março ficou reconhecido mundialmente como uma data ligada aos direitos igualitários. Por este motivo, constam nos jornais deste mês vários textos divulgando as ações programadas para a data, ampliando-se o debate em torno dos rumos do feminismo no Brasil e no mundo.


“Diversas atividades estão marcadas para comemorar o Dia Internacional da Mulher, no próximo dia 8 de março. Em São Paulo, entre outras coisas, será elaborado um documento contendo conclusões de debates realizados sobre importantes problemas para a mulher, como a gravidez de alto risco, o trabalho doméstico, as condições de vida e as liberdades democráticas.” (Movimento, 06 mar. 1978)
“Ninguém está obrigado a se isolar no feminismo e ignorar os problemas do mundo. Acho, porém, que qualquer ação pode ser setorizada para que ela possa trazer algum resultado. Eu e outras mulheres nos dedicamos à luta pelos direitos da mulher porque se trata de um problema que conhecemos de perto” (Opinião, 05 mar. 1976 – entrevista com Carmen da Silva)
Neste mesmo sentido, é importante registrar a cobertura realizada pelo jornal no que diz respeito à organização do movimento no Brasil. No 3o Congresso da Mulher Paulista11, que contou com um confronto de posições entre militantes afinadas com o jornal Hora do Povo – as “agapistas” – e a coordenação do congresso, o Movimento (08 mar. 1981) publicou três páginas sobre o encontro, com matérias sobre a autonomia da organização das mulheres (através de entidades como a Associação das Mulheres em São Paulo, a Sociedade Brasil-Mulher, originada do periódico Brasil Mulher, o Centro da Mulher Brasileira e o SOS Mulher, que atuava contra formas de violência), a mobilização das donas-de-casa e o lesbianismo. O jornal considera ainda que as posições contrárias no interior do movimento seriam “um sintoma da importância que vem ganhando o feminismo”.

É inserindo na pauta das lutas sociais as questões envolvendo as mulheres que o movimento feminista se fará presente nas publicações dos anos 1970, oferecendo assim outras leituras e formas de compreender as transformações e reivindicações em curso.


Mulher: trabalho e política na pauta dos jornais


Entre os assuntos que marcam a trajetória do feminismo, pode-se dizer que as bandeiras mais expressivas estão situadas no campo da representação política e do mercado de trabalho, espaços que historicamente excluíram a participação feminina. Assim, mesmo em um contexto em que algumas conquistas já se mostram efetivadas, o movimento das mulheres irá denunciar a permanência de uma condição de desigualdade nos âmbitos político e econômico. Os textos que seguem referem-se, respectivamente, à modesta presença das mulheres na política, à divulgação de um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas de São Paulo, que constatou que os homens ganham cerca de 57% a mais que as mulheres em todas as profissões exercidas na indústria paulista, e à denúncia de discriminação de jornalistas mulheres pela Tribuna da Bahia.12
“As lutas que mais têm sensibilizado o movimento feminista são justamente no campo do Direito Civil e do Direito Trabalhista. Enfim, fala-se muito em torno dos códigos e pensa-se pouco na vida política da mulher. Eu acho que cabe às feministas tentar levantar a participação da mulher em todas as esferas da vida social. (...) sem uma participação na vida política, o movimento feminista estará sempre muito freado” (Opinião, 15 out. 1976)
“Realmente é difícil para um movimento feminista urbano falar em libertação da mulher, pois 80% das mulheres trabalhadoras brasileiras se concentram na agricultura. (...) a maioria das mulheres que trabalham nas cidades são empregadas domésticas.

(...) Pela queda da renda familiar dos trabalhadores nos últimos anos, muitas mulheres passaram a buscar emprego, aceitando por ele qualquer salário; isso aumentou a oferta de mão de obra e ajudou a baixar ainda mais os salários masculinos; a queda dos salários masculinos, por sua vez, exerce uma ação de retorno sobre os salários femininos, pressionando-os ainda mais para baixo” (Opinião, 04 dez. 1972)


“Como se não bastassem as restrições habituais do mercado de trabalho na Bahia, a mulher jornalista está ameaçada de, depois de muitos anos, voltar agora a ser discriminada por donos de jornal pelo simples fato de ser mulher.

O vespertino Tribuna da Bahia (...) vem negando sistematicamente o ingresso das mulheres em seu quadro de jornalistas, tendo dispensado neste último mês as estagiárias do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia. A direção do jornal, por repetidas vezes, deixou escapar, publicamente, sua posição – que “mulher é um mau investimento, só trazendo prejuízo à empresa”, referindo-se à possibilidade de um dia engravidar. Essa preconceituosa e deturpada visão empresarial vem reviver atitudes que todos julgavam sepultadas: as poucas mulheres que (ainda) trabalham na redação estão sob ameaça de demissão. Já começou o rebaixamento de salários através da retirada de seus cargos de chefia” (Opinião, 05 mar. 1973)


É principalmente na luta por melhores condições de trabalho que as mulheres vão buscar formas de reivindicar sua condição de cidadania, encabeçando greves para garantir seus direitos. A participação feminina nos movimentos de resistência torna-se mais expressiva a partir do momento em que lutas específicas passam a ser tematizadas, tendo como parâmetro não apenas a igualdade entre homens e mulheres, mas o reconhecimento dos papéis sociais da mulher. A reivindicação de creches para as mães trabalhadoras figura neste contexto como uma importante bandeira do movimento das mulheres. O texto “Quem cuida dos filhos, se a mãe trabalha?”, publicado no jornal Movimento (25 abr. 1977), denuncia o não cumprimento das disposições da CLT – Consolidação das Leis de Trabalho, em que apenas 1,3% das mulheres são atendidas. Além de abordar as contradições de uma lei que não se concretiza no cotidiano das trabalhadoras, o texto critica ainda a pouca atenção que os sindicatos dão ao problema.13

A exploração da mulher e as injustiças no mercado de trabalho são amplamente divulgadas pela imprensa alternativa, apresentando-se como problemáticas centrais do feminismo. As trabalhadoras se mobilizam para denunciar os baixos salários e a ausência de direitos trabalhistas, assim como a desigualdade em relação aos homens.14


“Uma das greves que mais chamou a atenção entre as dezenas realizadas em São Paulo nas últimas semanas foi a da Brasol, uma fábrica de carburadores de Ribeirão Pires, no ABC. A greve foi praticamente dirigida pelas mulheres, que são maioria na fábrica (800, num total de 1.300 empregados). Elas participaram ativamente da assembléia que, no restaurante da empresa, avaliou a proposta patronal de aumento de 15% e antecipação de mais 5%.

‘Eu acho que a grande maioria ganha uma miséria. 70% das 800 mulheres são menores de idade e ganham 7,10 por hora. São pouquíssimas as mulheres que ganham mais de 3 mil, eu ganho dois salários mínimos, então, esses 20% não dá muita despesa para eles não. (..) A união da turma toda foi um negócio fabuloso’”. [depoimento de uma operária]. (Movimento, 12 jun. 1978)


“Entrando em sua oitava semana, as greves continuam a se alastrar por novas fábricas, novos ramos industriais e novas cidades. No final da semana passada, o número de grevistas se elevava a 211 mil, o número de fábricas atingidas a 171 e mais três cidades, além das nove anteriores conheciam o movimento paradista. Um detalhe das greves é a participação ativa das mulheres. E, na semana passada, Leda Beck e Maria Amélia Telles visitaram para Movimento as grevistas da Philco, a enorme indústria eletrônica paulista onde as operárias faziam tricô enquanto lutavam por um aumento de 25%.” (Movimento, 03 jul. 1978)
Os jornais costumam trazer vários depoimentos de trabalhadoras para traçar a participação das mulheres no movimento grevista e destacar suas formas e estratégias de ação. Importante considerar que, assim como as trabalhadoras buscavam maneiras de dar visibilidade às suas reivindicações, outros grupos e movimentos ligados às mulheres irão se organizar para reforçar os ideais do feminismo e o princípio de liberdade inerente a estas lutas. É o caso da reportagem “As presas explicam o movimento”, publicada no jornal Repórter (nov. 1977) sobre presas políticas de Bangu que reivindicavam uma transferência para o Presídio Político da Rua Frei Caneca. Elas enviaram documento a vários setores da sociedade civil explicando os motivos da luta e denunciando a situação “precária e insustentável” do presídio. Como forma de pressionar as autoridades a preservar a integridade das presas e seus direitos como cidadãs, firma-se uma greve de fome:
“A falta de garantia em relação à nossa segurança física e a preservação de nossos direitos , comprovada em momentos de crise e de arbitrariedade policial, são a decorrência mais grave de nossa situação nesse presídio.

(...) Se as gestões encaminhadas em todo este período, com interferência de parlamentares do MDB, não foram suficientes, se nem mesmo a autorização da Auditoria Militar pode convencer o DESIP da necessidade de nossa transferência, só nos resta o último recurso: a greve de fome. Estamos a partir de hoje em greve de fome e assim permaneceremos até que seja definida nossa transferência” (Repórter, nov. 1977)


Percebe-se, através destes textos, que mulheres de diferentes setores da sociedade reivindicam sua condição de cidadania a partir dos princípios feministas. Assim, a união das mulheres em torno da igualdade de direitos e de melhores condições de vida demarca um espaço de luta e ação política que aos poucos vai configurando uma forma singular de resistir às imposições de uma sociedade com fortes marcas de uma ideologia patriarcal.

Ao percorrer alguns jornais da imprensa alternativa no período da ditadura militar, são evidenciadas as conquistas de um movimento que, nas páginas da imprensa ou no enfrentamento direto com as instâncias de poder, procura romper com os papéis legitimados da mulher como mãe e esposa e reconhecer outros campos de atuação das mulheres no referido momento histórico.



Considerações Finais

Sabe-se que, hoje, as organizações feministas têm certamente menos brilho do que há 30 anos15, quando bandeiras como o direito ao aborto, a consumação da igualdade civil educativa, a luta contra a violação, o assedio sexual e o trabalho feminino contestavam a lógica dominante. No entanto, é preciso perceber que as organizações renovam-se, reformam-se de acordo com outros desafios, como a paridade em matéria política, a autonomia sexual e, ainda, certos padrões de comportamento.

É inegável reconhecer que o feminismo conquistou importantes melhoras na vida das mulheres, especialmente nos países ocidentais, embora a desigualdade sexual continue reproduzindo-se sem maiores problemas e constrangimentos. Contudo, o movimento permanece marcado por uma imagem estereotipada que foi se cristalizando ao longo dos anos através da prática discursiva dos meios de comunicação de massa. Neste sentido, o percurso por textos dos jornais alternativos Opinião, Movimento e Repórter constitui uma maneira de mergulhar no pensamento da época e reconhecer as principais lutas que marcaram o feminismo. Afinal, ainda que em certos momentos a aceitação de determinadas posturas não fosse plena nos jornais alternativos, o debate de idéias possibilitava a percepção de um período de mudanças no papel da mulher e de sua atuação na sociedade. Por fim, os fragmentos de jornal que compõem este trabalho apresentam algumas pistas sobre a condição da mulher e o desenvolvimento do feminismo a partir dos anos 1970, permitindo captar alguns elementos de uma trajetória de lutas e conquistas que costuma ficar obscurecida em meio aos registros da história oficial.


Referências Bibliográficas

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CHINEM, Rivaldo. Imprensa alternativa – Jornalismo de oposição e inovação. São Paulo: Ática, 1995.

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FOUCAULT, Michel. A Mulher/Os rapazes: da história da sexualidade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997.

GIULANI, Paola Cappelin. “Os movimentos de trabalhadoras e a sociedade brasileira”. In: PRIORE, Mary Del (org.). História das Mulheres no Brasil. 7a ed. São Paulo: Contexto, 2004.

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Fontes:

Movimento: 24 maio 1976; 18 out. 1976; 25 abr. 1977; 02 maio 1977; 16 maio 1977; 30 maio 1977; 18 jul. 1977; 25 jul. 1977; 06 mar. 1978; 01 maio 1978; 12 jun. 1978; 19 jun. 1978; 03 jul. 1978; 22 out. 1979; 12 nov. 1979; 02 mar. 1981; 27 abr. 1981; 31 ago. 1981.
Opinião: 06 nov. 197; 27 nov. 1972; 22 jan. 1973; 05 fev. 1973; 26 fev. 1973; 05 mar. 1973; 12 mar.1973; 10 abr. 1973; 23 abr. 1973; 06 fev. 1976; 27 fev. 1976; 05 mar. 1976; 15 out. 1976; 22 out. 1976; 18 mar. 1977; 16 jan. 1976.
Repórter: nov. 1977; mar. 1978; abril 1978; julho 1978.


OBS: Os jornais analisados pertencem ao Arquivo da Biblioteca Pública do Estado do Paraná.

1 Contra a desigualdade nas mais diversas esferas sociais, surgiram os primeiros periódicos feministas no Brasil: O Sexo Feminino, fundado em 1873 e o Jornal das Senhoras, o primeiro jornal editado por mulheres no Brasil, que buscavam acima de tudo a igualdade entre os sexos.

2 Importante lembrar também que a imprensa se constitui, no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, como um universo exclusivamente masculino, de que as mulheres vão lentamente se apropriando. “Os cafés, círculos e clubes, as salas de leitura, onde se lêem principalmente os jornais, são reservados aos homens. Todavia, as mulheres se insinuavam no jornal pelos rodapés, que lhes eram progressivamente reservados, sob forma de crônicas de viagens ou mundanas e sobretudo de romances-folhetins, cada vez mais femininos por suas intrigas, suas heroínas e até por sua moral. (2002:77)

3 As americanas conquistaram o direito ao voto em 1920, as mulheres brasileiras em 1934 e as francesas somente em 1944.

4 Segundo Ana de Miguel, no século XIX o feminismo aparece, pela primeira vez, como um movimento social de caráter internacional, com uma identidade autônoma teórica e organizativa, ocupando um lugar importante junto a outros movimentos sociais, como o socialismo e o anarquismo. Surgem, então, diferentes ramificações do feminismo, como o movimento sufragista, o feminismo socialista, o socialismo marxista e o movimento anarquista.

5 No livro O dilema da cidadania, Gabriella Bonacchi e Ângela Groppi discutem diferentes aspectos ligados à cidadania civil, política e social das mulheres, considerando a Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, de Olympe de Gouges, redigida em 1791, um documento que marca época na historia das idéias, pois contesta a restrição masculina do conceito de igualdade, interpretado como a busca pela equiparação ou assimilação a posição do homem.

6 A autora pontua as principais lutas e conquistas do movimento das mulheres: “Editaram jornais e outras publicações como cadernos e revistas. Denunciaram o conservadorismo das leis, dos costumes e casos concretos de violação dos seus direitos ocorridos em suas próprias casas, nos locais de trabalho e nas ruas. Enfrentaram os preconceitos contra o homossexualismo, particularmente contra as lésbicas e contra o racismo. Abordaram em estudos e ações práticas temas como a sexualidade, o aborto, a violência sexual e doméstica, os direitos reprodutivos, a saúde da mulher, as relações trabalhistas e o trabalho doméstico. Indicaram às mulheres a necessidade de conhecer o próprio corpo e decidir sobre ele. Estruturaram serviços de atendimento na área da saúde, social e jurídica. Organizaram centros de documentação e de comunicação. Assessoraram mulheres de sindicatos e de bairros da periferia. Estimularam a criação dos primeiros núcleos de estudos sobre a questão da mulher e relações de gênero nos meios acadêmicos. Formularam políticas publicas e conquistaram organismos governamentais voltados para implementar nos serviços públicos o atendimento às reivindicações das mulheres. Essas iniciativas proliferam até hoje nos diferentes estados brasileiros.” (TELES, 1999, p.14-15)

7 O editorial do jornal “Nós Mulheres”, recuperado por Teles, evidencia esta preocupação com a liberação feminina: “Nós mulheres queremos, junto com os homens, lutar por uma sociedade mais justa, onde todos possam comer, estudar, trabalhar em trabalhos dignos, se divertir, ter onde morar, ter o que vestir e o que calçar. E, por isto, não separamos a luta da mulher da de todos, homens e mulheres, pela sua emancipação”. (1999: 91)

8 As chamadas ‘reformas de base’ consistiam em mudanças na estrutura agrária (ruptura com o latifúndio e organização das ligas camponesas), na conquista de direitos trabalhistas, no sistema educacional, na organização partidária, entre outras que eram vistas com bastante receio pelos setores mais conservadores.

9 Segundo Rivaldo Chinem, entre 1964 e 1980 nasceram e morreram cerca de 300 periódicos.

10 Estas matérias não serão trazidas para este estudo por exigirem um tratamento mais detalhado que será desenvolvido em outra pesquisa sobre mídia e feminismo.

11 Segundo as matérias do Movimento, os números do crescimento da participação das mulheres são expressivos: a participação no 1o Congresso, em 1979, para o 2o, em 1980, saltou de 700 para 4000 mulheres.

12 O texto foi acompanhado de um abaixo-assinado com 44 assinaturas de jornalistas da Tribuna da Bahia, 28 de A Tarde, 25 do Jornal da Bahia, 22 do Diário de Notícias, três do Jornal do Brasil, duas da revista Veja, uma de O Globo e uma de O Estado de São Paulo, num total de 126 assinaturas.

13 “À medida que aumenta o número de mulheres que se integram à produção para somar alguns cruzeiros ao orçamento familiar, cresce um dos grandes entraves ao trabalho da mulher fora de casa: a creche.

(...) Em São Paulo, os diversos movimentos de comunidades vêm, desde 1975, colocando a luta por creches como uma de suas mais importantes reivindicações.” (Movimento, 25 abr. 1977)



14 O jornal Repórter (abr. 1978) traz o depoimento de uma operária na matéria “Metalúrgicas acham que são mais exploradas que os homens dentro das fábricas”, abordando o fortalecimento das lutas das mulheres no mercado de trabalho: “Marisa, operária metalúrgica de Diadema, quer lançar o feminismo operário: lutar ao lado do homem mas contra a super-exploração e a submissão da mulher.”

15 Com a característica conservadora da década de 80, as manifestações de força e vitalidade do feminismo convivem com uma morte aparente. No entanto, é preciso reconhecer que o feminismo continuou vivo através de agentes políticos e como um conjunto de práticas discursivas de contestação.



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