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UFPB-PRG XII Encontro de Iniciação à Docência


4CCHADLCVMT03-P

DIFICULDADES ENCONTRADAS EM ANÁLISES DE POEMAS

Raíra Costa Maia de Vasconcelos(2); Amador Ribeiro Neto(3)

Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes/Departamento de Letras Clássicas

e Vernáculas/MONITORIA



RESUMO

O presente artigo tem como objetivo a discussão de análises de poemas entre estudiosos,críticos e estudantes. Alicerçados pelos princípios literários expostos por Ezra Pound, em “ABC da Literatura”, os conceitos de poesia e comunicação poética presentes em “A arte como procedimento” de V. Chklóvski e em “O que é Comunicação Poética”, de Décio Pignatari, entre outros teóricos fundamentais de crítica literária – destacando as peculiaridades formais, de métrica, rima e ritmo, e sua importância ao vinculá-las com o conteúdo do poema -, os quais serão apresentados ao longo do trabalho, tentaremos identificar os problemas mais freqüentes em análises de poemas, pontuando suas falhas e deslizes, sejam de ordem estrutural ou interpretativa. Partindo dos acompanhamentos semanais nas aulas de Teoria da Literatura I e das observações em relação ao desenvolvimento das práticas e atividades com poemas pelos alunos da turma, retrataremos as especificidades da linguagem poética e as conseqüentes dificuldades encontradas por aqueles durante as atividades de análises de poemas.


PALAVRAS-CHAVE: linguagem poética, análise de poemas, problemas
INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta-se como resultado das atividades de monitoria e do acompanhamento aos alunos da disciplina de Teoria da Literatura I, atividades estas que estiveram voltadas a leituras dos principais teóricos e críticos literários (formando novas concepções acerca da literatura e artes, em geral) e a exercícios de análises poéticas realizados em sala de aula.

Inicialmente, traçaremos um percurso teórico, procurando resgatar as especificidades da linguagem poética e situar o lugar da poesia na sociedade, isto é, sua adesão, consumo e prática entre leitores. Também temos como objetivo tornar clara a necessidade de diferenciação entre a leitura de poesia e, por exemplo, de texto em prosa, tendo em vista o obscurecimento das mensagens, a organização estrutural e o desfiar das palavras no texto

poético.


Após a explanação a acerca da linguagem e comunicação poética, buscaremos expor dificuldades gerais, presentes entre os leitores de poesia, que foram catalogadas pelo crítico

inglês I. A. Richards, que ratificamos. Tendo em vista as pesquisas de Richards e nossas observações, listamos os que nos identificamos como os principais problemas presentes em

análises de poemas, inclusive, aqueles presentes entre os alunos do curso de Letras.

Abrangendo a problemática da leitura poética ao meio acadêmico, chamamos a atenção não apenas para a grandiosidade deste gênero, mas também para a importância e o cuidado que deve existir entre os profissionais que lidam com o ensino e propagação de poesia.




  1. A linguagem poética

Definida como a arte do anticonsumo, a poesia é vista como um corpo estranho nas artes da palavra, estando em oposição, por exemplo, à filosofia, devido ao caráter lógicosemântico

desta; contrariamente, o texto poético é construído através de analogias, plurisignificações e imagens que proporcionam impressões máximas do objeto artístico.

Apesar de, aparentemente, a poesia ser uma das artes mais “praticadas”, contraditoriamente, é a menos consumida, devido à necessidade de leituras peculiares e diferentes olhares a este tipo de texto que trabalha o próprio signo verbal, isto é, o poeta, verdadeiro “fazedor de linguagens”, utiliza de todo potencial da palavra, para (re)criá-la, alcançando, desta forma, novas visões, tatos e sensações.

Para o poeta, como afirma Décio Pignatari, o signo verbal deve ser encarado como algo vivo e que deve ser trabalhado em suas raízes, para que, assim, ganhem troncos, ramos, flores e frutos, isto é, um bom poema não se esgotará se moldado a partir da essência de sua linguagem, criando novos modelos de sensibilidade.

A leitura de poesia difere-se, por exemplo, da leitura de um texto em prosa. Naquela, a relação entre forma e conteúdo é indissociável, não podemos nos deparar com um texto poético e desejarmos o mesmo ritmo de leitura e qualidade de informação de um texto prosaico, pois a poesia além de transmitir uma idéia, propaga também uma idéia para ser sentida e não apenas entendida, explicada e descascada.

Contudo, ainda encontraremos relações lógicas e sistemáticas nas tão conhecidas poesias em versos. Esta modalidade de fazer poético obedece às estruturas lógico-semânticas, ou gramaticais, seguindo um processo linear de causa-efeito e princípio-meio-fim. Seria, portanto, um corpo analógico (poético) dentro de um corpo lógico. Este sistema poético “tradicional” é quebrado a partir do surgimento das poesias concreta, gráfica e sonora, que irão acrescentar mais uma “pedra” no caminho dos leitores de poesia com a aparição da poesia não linear, a qual irá deixar menos nítidos os limites de espaço-tempo no texto.

O poema abaixo “dias dias dias”, do poeta concreto Augusto de Campos, retrata tais modificações/inovações no corpo do poema.

O poema de Augusto constroi-se a partir do método da montagem, em que os signos e a página são vistos como elementos que se combinam, a partir de sínteses e justaposições entre as partes do poema. “dias dias dias” apresenta-se como um verdadeiro labirinto a ser percorrido pelo leitor, que irá se deparar com a extrema condensação das palavras e a quebra

total das sucessões discursivas. O poema é composto por palavras completas, palavras cortadas, seis diferentes cores (azul escuro, azul claro, vermelho, amarelo, laranja e verde) que

se cruzam e se combinam, não apresenta versos, nem um motivo (eixo) temático sólido, na

medida em que tal motivo/ trabalho temático só é construído através da junção dessas palavras, com suas cores e os brancos da página, que também influem na percepção do poema. “dias dias dias”, de Augusto de Campos

De acordo com Ezra Pound, o bom escritor escolhe palavras pelo seu significado e entende que tal significado surgirá a partir de associações e da forma como será usada. Ainda segundo Pound, as “palavras poéticas” carregam significados de três modos: fanopeia, que lançaria uma imagem ao leitor; melopeia, que seria seu apelo melódico; e a logopeia, que é apresentada como um agrupamento de palavras provocando um “jogo de palavras”.

Desta forma, os poetas ao “trapacearem” a língua(gem), enxergando os diversos ângulos da palavra e transgredindo as expectativas do leitor – ao deslocar o objeto artístico para um contexto desconhecido – rompem com as leis de percepção exigindo um leitor capaz de desviar sua atenção/olhar de um contexto que está habituado para as novas formas e situações em que estão agora inseridas as palavras/objetos artísticos.

Tal desautomatização do olhar torna-se o objetivo da arte (e da poesia), na medida em que tende a quebrar as ações habituais que tornam a apreciação de um objeto artístico automática e deficiente. Este processo decorre através da singularização da obra, isto é, dar a sensação da obra como visão e não como reconhecimento, obscurecendo sua forma, aumentando sua duração e dificuldade de percepção, mas sem mudar sua essência.


  1. Problemas em análises

Partindo de um experimento científico realizado pelo crítico inglês I. A. Richards, o qual motivou a crítica e as pesquisas literárias, em geral, um rigor jamais visto anteriormente, discutiremos sobre alguns problemas levantados por Richards em análises de poemas.

O teste foi realizado tendo como público alvo pessoas de ambos os sexos, das mais variadas idades e que possuíam certo grau de escolarização e cultura, como médicos, advogados, juízes, estudantes e professores. Diante dos resultados, o pesquisador avaliou como “falha” as interpretações de todas as categorias, incluindo os professores (junto com eles os que se autodenominaram como escritores e/ou críticos literários).

Dividiremos aqui as dificuldades listadas por Richards em dois grandes blocos: o primeiro em que se apresentam as dificuldades de ordem “básica”, isto é, encontram-se neste grupo aqueles que não demonstraram uma sensibilidade necessária para trabalhar com arte; no segundo bloco estão presentes aqueles que expressaram dificuldade de ordem “psicológica”, ou seja, possuíam uma formação intelectual, doutrinária, técnica, entre outras, as quais os impediam de compreender os poemas de uma forma mais verticalizada.

No primeiro bloco detecta-se a ausência de três pontos essenciais para a análise de poemas: incapacidade de compreender o sentido do poema, de parafraseá-lo, em virtude de uma leitura alicerçada, unicamente, na emoção, não levando em consideração as construções racionais e intencionais presentes no texto; ou a completa ausência de emoção, uma vez que procuram, no poema, algum fato, ou notícia, seria a tentativa de uma leitura “prosaica” em poesia; ou ainda a incapacidade de compreender linguagem figurativa, de traduzir as metáforas e as diversas associações e plurisignificações do signo linguístico.

Já no segundo bloco nos deparamos com problemas relacionados às ideologias cristalizadas na mente do leitor: primeiramente, as chamadas “faltas mnemônicas”, que remetem à memória, às lembranças pessoais do leitor, que substituem ilegitimamente o trabalho do escritor; as “stock responses” representadas por certas idéias arquivadas, provocando o “automatismo do olhar”, interferindo, deste modo, nas respostas e compreensões espontâneas; e os preconceitos doutrinários, os quais se opõem à mensagem real (ou pressuposta) que o poema exprime.

De acordo com os dados analisados por Richards, podemos afirmar que os participantes de tal pesquisa, como inúmeros outros leitores “imersos” no universo poético, contentam-se com os sentidos superficiais das palavras e não se preocupam com a intenção daquele que fala. Confundem na noção de “sentido” quatro coisas distintas: “o sentido propriamente dito, a afirmação; o acento sentimental da afirmação, sempre mais ou menos acompanhada de emoções; o tom, que depende da atitude do que fala em relação ao ouvinte; e a intenção, consciente ou inconsciente, com a qual o escritor quer influenciar o espírito do leitor” (CARPEAUX,2005).

Sendo assim, como estas quatro significações do sentido estão sempre presentes nos poemas, a maneira mais eficiente de lê-los seria através da dosagem de tais significações; contudo, dependem das qualidades intelectuais e emotivas do leitor dirigidas ao poema, tendo como conseqüência os problemas listados acima.

Além das dificuldades descritas por I. A. Richards, podemos ainda fazer referência a análises que têm como foco as relações entre o objeto artístico e seu condicionamento social.

Em inúmeras situações encontramos leituras de poemas que possuem como base e eixo central “determinantes sociais”. Tais leituras são, de certo modo, arriscadas, na medida em que

tendem a cair em estudos sociológicos, antropológicos e etc., distanciando-se de estudos críticos e, essencialmente, teóricos literários.

Sabemos que o escritor não se limita a ser influenciado pela sociedade, pelo contrário, o escritor – como todos os artistas – influencia a sociedade. Sendo assim, a arte não tem como

objetivo apenas reproduzir a realidade, mas lhe dá forma. A estrutura do poema vincula-se ao

seu contexto, porém, tal contexto/fator externo não é visto como causa ou motivo criativo, mas

sim como um elemento que desempenha certo papel na constituição estrutural, tornando-se,

assim, interno.


3. Dificuldades encontradas pelos alunos de Teoria da Literatura I
Acompanhando as atividades realizadas pelos alunos de Teoria da Literatura, da Universidade Federal da Paraíba, conseguimos identificar três dificuldades nucleares que se mostravam presentes e frequentes nos trabalhos realizados pelos estudantes. Tais dificuldades são:
I. prática de identificação de elementos estruturais/formais;
II. estabelecer relações entre elementos formais e texto;
III. junção de texto e contexto.
Estudantes do curso de Letras, cuja formação será na área de teoria e crítica literária, necessitam de conhecimentos básicos sobre o funcionamento e as construções de textos poéticos, portanto, a inabilidade para identificar e classificar elementos formais constituintes em

tais textos pode significar um verdadeiro impasse nas análises poéticas.

Esta problemática enfrentada pelos alunos em meio acadêmico, quase sempre, é resultado de uma deficiência advinda do Ensino Médio, pois, como os próprios alunos relatam, as práticas e exercícios de identificação das partes estruturais em poemas eram escassas.

Portanto, ao ingressarem no curso superior, ainda necessitam de explanações acerca de temas

considerados primários para as análises, como fazer a escansão dos versos e nomeá-los de

acordo com a quantidade de sílabas poéticas, classificar as rimas e captar os ritmos do poema.

Sugere-se que para uma análise eficiente, o leitor deve sempre ter como base, ou eixo de guia o seguinte “esquema”:

Análise estrutural

+ Paráfrase

__________________

Análise do poema

Desta forma, podemos entender que as dificuldades dos alunos seguem um processo de causa e efeito, na medida em que os problemas listados acima com II e III são conseqüências de uma lacuna anterior. Sendo assim, a dificuldade II, apresentada como a incapacidade, ou a imprecisão de relacionar os elementos formais com o próprio texto surge como um resultado “natural” (esperado), em virtude da quebra no percurso de leitura poética anterior.

Segue o poema abaixo de Fernando Pessoa:

Ah, um soneto...

(Fernando Pessoa)

Meu coração é um almirante louco (A)

que abandonou a profissão do mar (B)

e que a vai relembrando pouco a pouco (A)

em casa a passear, a passear ... (A)

No movimento (eu mesmo me desloco (C)

nesta cadeira, só de o imaginar) (D)

o mar abandonado fica em foco (C)

nos músculos cansados de parar. (D)

Há saudades nas pernas e nos braços.(E)

Há saudades no cérebro por fora. (F)

Há grandes raivas feitas de cansaços. (E)

Mas — esta é boa! — era do coração (G)

que eu falava... e onde diabo estou eu agora (F)

com almirante em vez de sensação? ... (G)

Observando este poema, pode-se identificar um soneto, já que apresenta dois quartetos e dois tercetos, com predomínio de versos decassílabos, classificado em rimas alternadas e elisões nos versos 6, 7, 12 e 13; além de enjembement nas duas quadras e no último terceto.

Conclui-se que, se o aluno desconhece as partes constituintes do poema, as quais foram descritas acima, será incapaz de associar tais elementos estruturais à própria mensagem do texto; tendo ainda como exemplo o soneto de Fernando Pessoa, será improvável a identificação das relações entre o tipo de rimas – alternadas – que remetem ao movimento do

mar, mencionado pelo eu lírico, como também ao balanço da cadeira em que este “eu” encontra-se. Além disto, o não reconhecimento dos versos decassílabos seria prejudicial, já que tais tipos de versos são os mais musicais e imprescindíveis para a captação do ritmo que

rege a “confissão” do eu lírico e a leitura do poema. Enquanto à ausência de enjembement no

primeiro terceto, o aluno poderia fazer referência à sensação prisão em que o eu lírico se encontra.

Somado a isto, percebemos que, por influência dos livros trabalhados nas escolas, pela mídia e pelos frequentes comentários sobre a vida dos poetas, os alunos acabam caindo na armadilha das chamadas “análises biográficas”, que deixam para segundo ou terceiro planos a

análise poética e os comentários literários. Tal dificuldade de junção entre texto e contexto é problemática, pois mesmo que uma obra contenha elementos autobiográficos, como afirmam

Wellek e Warren, tais elementos estarão reelaborados, perdendo, assim, seu significado especificamente pessoal e tornam-se apenas material concreto e partes integrantes de uma

obra.


Concluímos em nossas análises que, apesar de um desempenho incipiente nos primeiros momentos da disciplina, sendo necessários constantes acompanhamentos e explanações minuciosas, os alunos tiveram um desenvolvimento considerável através da prática de leituras teóricas e de críticas literárias, somada às análises semanais de poemas, a partir de uma amostragem sincrônica, em que eram vistos textos de diversos períodos e contextos históricos.
4. Considerações finais
O poeta fabrica sua própria gramática, cria sua linguagem e o produto resultante de tal atividade, como podemos observar, não segue as regras do mercado, do consumo. Ele, o poeta, busca sempre o novo, o não-dito, estando sempre à frente de seu tempo, isto é, atuando

como uma “antena da raça” (como definiu Ezra Pound) anunciando/antecipando à sociedade

os fluxos e transformações de uma cultura.

O nosso trabalho teve como finalidade demonstrar a importância da leitura de poemas e como esta é insubstituível para a apreensão de sua estrutura rítmica. Ressaltamos a ajuda de textos teóricos que facilitam a entrada nesse universo tão fascinante e, ao mesmo tempo, estranho que é o da palavra poética.

Retratamos os percalços encontrados pelos alunos, ao se depararem com a exigente linguagem e a difícil comunicação poética. Mas também procuramos apresentar que a partir de

um trabalho alicerçado nos principais teóricos literários e o frequente estímulo à pesquisa e

leitura de poesia pode ser uma forma de reverter quadros problemáticos como os descritos ao

longo do nosso artigo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARPEAUX, Otto Maria. “Poesia e Ideologia”. In: Ensaios Reunidos. Co-Edição: Universidade

Editora; Topbooks, 2005.

CHKLOVSKI, V. “A Arte como Procedimento”. In: ___ et al. Teoria da Literatura; Formalistas

Russos. Porto alegre: Globo, 1973.

GOLDSTEIN, Norma. Versos. Sons. Ritmos. 5ª ed. São Paulo: Ática (Col. Princípios, v 26),

1989.

CANDIDO, Antonio. “Crítica e Sociologia”. In: Literatura e Sociedade. São Paulo: Companhia



Editoria Nacional, 1965.

PINATARI, Décio. O que é comunicação poética. 8ª ed. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005.

POUND, Ezra. ABC da literatura. Trad. de Augusto de Campos. São Paulo: Cultrix, 1987.

WELLEK, René; Warren, Austin. Teoria da Literatura. Trad. José Palla e Carmo. São Paulo:



Martins Fontes, 2003.


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1) Bolsista, (2) Voluntário/colaborador, (3) Orientador/Coordenador, (4) Prof. colaborador, (5) Técnico colaborador.



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