5 o sujeito e o encontro com a puberdade



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5.0. O sujeito e o encontro com a puberdade

Vimos, no relato de análise de um jovem, o quanto os assuntos relativos aos relacionamentos amorosos ocupam um lugar importantíssimo em sua vida. É verdade que na análise de um adulto, ou mesmo de um idoso, isso não é muito diferente, mas no caso dos adolescentes há algo que merece ser diferenciado: seus corpos mudaram recentemente, ganharam caracteres sexuais, como pêlos, crescimento da genitália e a possibilidade da reprodução. No nível existencial, entre os amigos começam as questões e os relatos das primeiras explorações e descobertas sexuais dessa nova fase. Como se faz para ter uma experiência sexual? O que se deve dizer ou fazer para que o outro também queira ter essa experiência? Como agir na hora H? O que é um homem e uma mulher e o que quer um homem e uma mulher? Como se posicionar segundo o tipo ideal de seu sexo? Geralmente, com a pressão imposta pelos amigos com quem compartilham tais questões, as respostas não podem tardar a chegar. Atualmente, existe até uma nova expressão, de cunho pejorativo, para designar aqueles que não passaram por um experiência desse tipo: os “BVs” (bocas virgens).

Há uma infinidade de experiências possíveis sobre o encontro do jovem com tais questões, mas, de qualquer forma, distintamente da maioria dos adultos, é como se tudo isso estivesse “à flor da pele”, já que se trata de um momento em que estão vivendo suas primeiras experiências sexuais adultas.

Digo “adultas”, pois Freud (1905) já nos mostrou que as primeiras experiências sexuais de um sujeito não ocorrem entre os adultos, mas na infância. Ademais, nos próprios Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, ele dedica um deles à sexualidade infantil e outro às transformações da puberdade, justamente porque essas primeiras experiências sexuais vividas pelos jovens, e que chamamos aqui de “adultas”, comportam elementos distintos da sexualidade infantil. Que elementos são esses? Quais são os impactos, no sujeito, das transformações do corpo advindas com a puberdade? Pesquisando a bibliografia psicanalítica sobre este tema, nota-se que diversos autores (Alberti, 1996; Barros, 1996; Becker, 1997; Melman, 1997; Pereira, 1997; Ribeiro, H. C., 1996; Ribeiro, M. R. C., 1996; e Cottet, 1996) referem-se à adolescência como um encontro com o real do sexo ou como um despertar de um sono. Mas de qual sono despertamos na puberdade? De que encontro se trata? O que se quer dizer com “o real do sexo”? São destas questões que pretendo tratar agora, partindo primeiramente da obra freudiana para depois abordar o ponto de vista lacaniano sobre tais questões.


Na obra freudiana, é nos Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1905) e, principalmente, no terceiro deles - “As transformações da puberdade” - que se encontram as principais considerações apontadas por Freud sobre a puberdade. Neste ensaio, Freud trata destas transformações a partir de duas vertentes, se assim podemos dizer: a primeira, refere-se às transformações do corpo; a segunda, à possibilidade da escolha de objeto.

Iniciemos, assim, pela primeira vertente, qual seja, da puberdade como momento de maturação sexual, de transformações internas e externas do próprio corpo. Assim disse Freud (1905, p.197):


Escolheu-se o que mais se destaca nos processos da puberdade como o que constitui sua essência: o crescimento manifesto da genitália externa, que exibira, durante o período de latência da infância, uma relativa inibição. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento dos genitais internos avançou o bastante para que eles possam descarregar produtos sexuais ou, conforme o caso, recebê-los para promover a formação de um novo ser vivo. Assim ficou pronto um aparelho altamente complexo, à espera do momento em que será utilizado.
Freud caracteriza, a partir daí, a primazia das zonas genitais a que irá chamar de prazer final obtido na satisfação da atividade sexual (op. cit., p.199):
Não me parece injustificável fixar através de uma denominação essa diferença de natureza entre o prazer advindo da excitação das zonas erógenas e o que é produzido pela expulsão das substâncias sexuais. O primeiro pode ser convenientemente designado de pré-prazer, em oposição ao prazer final ou prazer de satisfação da atividade sexual.
Segundo Freud, esse prazer final é novo e está provavelmente relacionado a condições que surgem somente na puberdade. Isso nos remete à segunda vertente do encontro que já citamos anteriormente, isto é, da escolha de objeto. É assim que Freud inicia o terceiro dos Ensaios...(op, cit. P.166):
Com a chegada da puberdade introduzem-se as mudanças que levam a vida sexual infantil a sua configuração normal definitiva. Até esse momento1, a pulsão sexual era predominantemente auto-erótica; agora [na puberdade], encontra o objeto sexual. Até ali, ela atuava partindo de pulsões e zonas erógenas distintas que, independendo umas das outras, buscavam um certo tipo de prazer como alvo sexual exclusivo. Agora, porém, surge um novo alvo sexual para cuja consecção todas as pulsões parciais se conjugam, enquanto as zonas erógenas subordinam-se ao primado da zona genital.
E, posteriormente, no item sobre o encontro do objeto (op. cit., p.209 - 210):
Durante os processos da puberdade firma-se o primado das zonas genitais e, no homem, o ímpeto do membro agora capaz de ereção remete imperiosamente para o novo alvo sexual: a penetração numa cavidade do corpo que excite sua zona genital. Ao mesmo tempo, consuma-se no lado psíquico2 o encontro do objeto para o qual o caminho fora preparado desde a mais tenra infância. Na época em que a mais primitiva satisfação sexual estava ainda vinculada à nutrição, a pulsão sexual tinha um objeto fora do corpo próprio, no seio materno. (...) Em geral, a pulsão sexual torna-se auto-erótica, e só depois de superado o período de latência é que se restabelece a relação originária.
Há, nesses trechos, muitos elementos para destacar e discutir. Em primeiro lugar, de acordo com Freud (ainda no início do terceiro ensaio), é possível distinguir duas correntes dirigidas ao objeto sexual e à meta (ou alvo) sexual: a terna e a sensual. Em relação à meta, ou alvo, a distinção, nos Três Ensaios, é um pouco mais clara3. Antes da puberdade, o alvo sexual centrava-se na obtenção de prazer a partir de pulsões e zonas erógenas distintas (pulsão oral e cavidade bucal, por exemplo); trata-se do pré-prazer do qual Freud falava. Com a entrada na puberdade e, conseqüentemente, com a maturação dos órgãos sexuais, o novo alvo consiste na descarga dos produtos sexuais através, por exemplo, da “penetração numa cavidade do corpo que excite sua zona genital”.

Entretanto, recorrendo ao Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis (1992), veremos que mesmo em Freud não está explícita a articulação entre o objeto sensual e o objeto terno, ou melhor, entre o objeto da pulsão e o objeto de amor, pelo menos na primeira edição dos Três Ensaios. Inicialmente, tem-se a idéia, por exemplo, de que na sexualidade infantil, denominada aqui como auto-erótica, não há presença de objeto4 (como diz Freud, “até esse momento, a pulsão sexual era predominantemente auto-erótica: agora, encontra o objeto sexual"). Posteriormente, entretanto, nas próximas edições, tal equívoco dissipa-se quando Freud afirma que, na época em que a mais primitiva satisfação sexual encontrava-se ainda apoiada na função alimentar, a pulsão sexual tinha um objeto fora do próprio corpo, no seio materno, perdendo-o somente mais tarde. Isso é importante na medida em que a partir daí somos levados, segundo Laplanche e Pontalis (1992, p. 323), a separar um objeto propriamente pulsional e um objeto de amor:


O primeiro define-se essencialmente como suscetível de proporcionar satisfação à pulsão em causa. Pode tratar-se de uma pessoa, mas isso não é condição necessária, pois a satisfação pode ser fornecida por uma parte do corpo. A ênfase incide então na contingência do objeto5 enquanto subordinado à satisfação. Quanto à relação com o objeto de amor, essa faz intervir, tal como o ódio: ‘os termos amor e ódio não devem ser utilizados para as relações das pulsões com seus objetos, mas reservados para as relações do ego total com os objetos’.
Desta forma, retorna-se às duas correntes dirigidas ao objeto, a terna e a sensual. A imagem que Freud faz da primeira corrente – a do encontro com o objeto de amor preparado desde a mais tenra infância –, é a da travessia de um túnel perfurado desde ambas extremidades, explicando desta maneira que a primeira relação com tal objeto (a amamentação no seio materno) torna-se o protótipo de todos os relacionamentos amorosos. “O encontro com o objeto é, na verdade, um reencontro” (op. cit., p. 210).

E é justamente no momento em que Freud define esse encontro como sendo um reencontro, que ele acrescenta, numa nota de rodapé de 1915 dos Três Ensaios, os dois caminhos para o encontro com o objeto (op. cit., p. 210):


A psicanálise ensina que há dois caminhos para o encontro do objeto; o primeiro, mencionado no texto, dá-se por apoio em modelos infantis primitivos, e o segundo, o narcísico, busca o ego do próprio sujeito e vai reencontrá-lo em outrem.
Trata-se de uma distinção fundamental, pois poderíamos ser levados a inferir, tal como salientam Laplanche e Pontalis (1992, p.324), que o sujeito integraria as pulsões parciais em função do primado das zonas genitais (como encontramos no próprio texto freudiano "(...) surge um novo alvo sexual para cuja consecução todas as pulsões parciais se conjugam, enquanto as zonas erógenas subordinam-se ao primado da zona genital"), sendo esta organização genital correlativa de uma consideração dos objetos em sua diversidade, sua riqueza de qualidades e sua independência. No entanto, conforme os autores (op. cit., p.324), "o objeto total, longe de aparecer como um acabamento terminal, não deixa nunca de ter implicações narcísicas".6

Vimos até aqui, portanto, que o encontro com a puberdade pode ser tratado a partir de duas vertentes – a das transformações do corpo e a do encontro com o objeto –, havendo, nessa segunda, as duas correntes em direção ao objeto – a terna e a sensual.

Antes de prosseguirmos, vale destacar um exemplo extraído da literatura sobre as implicações desse encontro para um sujeito. Em Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, há uma excelente representação da condição de um jovem que ingressa na puberdade7. André, o personagem adolescente em questão, vivia sob o peso de uma tradicional família patriarcal no interior de São Paulo. Em tal família, da mesma forma que nunca se dizia uma palavra sobre seu problema de epilepsia, a sexualidade era velada, escondida. Era somente no cesto de roupas sujas que ele encontrava alguns indícios de que seus familiares também eram “sexualizados”:
[perguntando ao irmão] Alguma vez te passou pela cabeça, um instante curto que fosse, suspender o tampo do cesto de roupas no banheiro? Alguma vez te ocorreu afundar as mãos precárias e trazer com cuidado a peça ali jogada? Era a pedaço de cada um que eu trazia nelas quando afundava minhas mãos no cesto, ninguém ouviu melhor o grito de cada um, eu te asseguro, as coisas exasperadas da família deitadas no silêncio recatado das peças íntimas ali largadas, mas bastava ver, bastava afundar as mãos para (...) colher o sono amarrotado das camisolas e dos pijamas e descobrir nas suas dobras, ali perdido, a energia encaracolada e reprimida do mais meigo cabelo do púbis, e nem era preciso revolver muito para encontrar as manchas periódicas de nogueira no fundilho dos panos leves das mulheres ou escutar o soluço mudo que subia do escroto engomando o algodão branco e macio das cuecas.
Ao falar com o irmão sobre as marcas da sexualidade escondidas nas roupas sujas, André demonstrava o quanto a descoberta desses sinais trazia uma questão que não era respondida e sequer comentada por alguém da família. Perturbado com isso, ele dizia: “Quanta sonolência, quanto torpor, quanto pesadelo nessa adolescência! Afinal, que pedra é essa que vai pesando sobre meu corpo?”. Em outras palavras, o que acontece em seu corpo e que tem que ser ocultado do restante da família?

No caso de Fernando – cuja análise apresentamos anteriormente –, membro de uma família urbana contemporânea, a experiência do encontro com a puberdade foi bem diferente, mas guarda relações com a que foi descrita na obra de Raduan Nassar. Embora não tenha existido algo como a repressão sofrida por André no seio familiar (descrita em outros momentos da obra), as transformações no corpo e mesmo a sexualidade de uma maneira geral jamais foram temas de conversas entre os familiares. Diante dessa situação, surgiam uma série de questões: “Por que ninguém fala nada sobre sexo?”; “Como devo agir num relacionamento com uma mulher? Quando devo ou não ir atrás dela?” Vimos como Fernando respondia a estas questões procurando ocultar também qualquer manifestação de sua sexualidade, postura esta que esteve apoiada em seus desejos e fantasias inconscientes.

Com base nestes exemplos, é possível ter uma noção da dimensão traumática que o encontro com a puberdade implica para o sujeito. Mas para apreender melhor tal dimensão, adentremos agora no ponto de vista lacaniano, no qual o trauma é definido como
justamente o momento em que o sujeito que fala não dá conta de dizer, não encontra representantes, significantes para designar uma experiência, seja ela sexual, de dor, de morte ou de perda. Essa experiência torna-se traumática porque faz um furo na trama dos significantes. É desse furo que o neurótico procura dar conta em suas fantasias incestuosas. (Alberti, 1996, p.189)
Tomando essa definição, pode-se dizer que o encontro com a puberdade comporta uma dimensão traumática, pois, como diz Alberti "o corpo do sujeito sofre modificações de tal ordem que não há representações que lhe permitam, subjetivamente, dar conta delas. Mas ele tenta, e essas tentativas inscrevem-se na retomada do mito individual de cada um" (op. cit., loc. cit.)8. É por esse motivo que se pode falar na puberdade como um encontro com o real das transformações do corpo, ou, conforme as palavras da autora, que “a puberdade é o próprio encontro, malsucedido, traumático, com esse real” (op. cit., p. 28), na medida em que o real é justamente o que escapa à linguagem.

A puberdade implica necessariamente tal encontro, pois não é possível fugir do próprio corpo – que, a partir desse momento, “segrega um a mais de energia” (Alberti, op. cit., p.165). Segundo a autora, a tentativa de dar conta do trauma do encontro traz assim um quantum de libido não ligada. Deve-se ter cuidado, contudo, quanto às conclusões daí extraídas, pois embora a teoria da libido seja importante para compreensão da formação dos sintomas, na própria obra freudiana é possível encontrar uma contradição a esse respeito. Em 1912 (p.253), Freud afirma que algumas pessoas caem enfermas


em resultado de haverem atingido um período específico da vida [a puberdade ou a menopausa], e em conformidade com processos biológicos normais, a quantidade de libido em sua economia mental experimentou um aumento que em si é suficiente para perturbar o equilíbrio da saúde e estabelecer as condições necessárias para uma neurose.
Nesse caso, seríamos levados a supor que o encontro com o real do sexo é determinado apenas por processos biológicos, ignorando, desta forma, o que foi intensamente defendido pelo próprio Freud em 1905, nos Três Ensaios, isto é, que a sexualidade humana constitui-se na infância.

Para evitar tal confusão, é preciso esclarecer que a puberdade não é o primeiro momento de encontro com o real do sexo. Desde as primeiras percepções da diferença entre os sexos, por exemplo, já há essa dimensão traumática para o sujeito. Por isso Alberti defende a idéia de que o encontro traumático com o real do sexo na puberdade, embora vinculado aos processos biológicos, não é um novo trauma, mas uma “re-ato-alização” das fantasias sexuais da primeira infância, uma vez que a maturação corporal possibilita ao púbere a escolha de objeto, o que, conseqüentemente, traz a possibilidade da colocação em ato do desejo edípico.

Com isso, é possível compreender também porque se fala da adolescência como um despertar. A maturação corporal propicia o despertar das fantasias, interrompendo o sono do Édipo durante o período de latência.

Mas antes de prosseguir na leitura lacaniana sobre o encontro com o real do sexo na puberdade, vale retomar a disjunção existente entre a corrente terna e a sensual para explicitar ainda mais sua relação com a possibilidade da escolha de objeto advinda nesse momento. Cottet (1996) afirma que o desejo sexual reativa o Édipo na medida em que desperta a antiga corrente, isto é, a corrente terna, aquela em que se restabelece a relação originária com o objeto que proporcionou a mais primitiva satisfação sexual – a amamentação no seio materno – e que se torna o protótipo de todos os relacionamentos amorosos. Há, desta forma, uma reativação da escolha do objeto interdito. Segundo Cottet (op. cit., p.12-13),


O que é paradigmático em Freud desta época é um mise au point do desejo genital sobre esse amor edípico. Essa coincidência já teve lugar na infância, mas desta vez é reativada numa época mais além do recalque com esse novo elemento que é a genitalidade. O desejo sexual reativa uma interdição, o que põe em evidência a impossível harmonia entre a pulsão sexual e a corrente terna sobre o mesmo objeto.

(...) A puberdade é efetivamente uma recapitulação de todas as antigas pulsões sobre um objeto novo, que não pode, mas herda a proibição. Pois, se a sexualidade pré-genital é o arsenal do qual a fantasia do adolescente se serve para um mise au point da relação sexual, ele só pode fazê-lo ao preço de uma reativação do antigo protótipo.
Contudo, apesar dessa desarmonia entre a pulsão sexual e a corrente terna, e embora Freud tenha feito a imagem dessa corrente como um túnel perfurado desde as extremidades, na mesma obra Freud (1905, p. 210) também salienta que resta uma parcela significativa durante o período de latência que ajuda a preparar a escolha de objeto. Nesse período, a criança aprende a amar outras pessoas que a ajudam e satisfazem suas necessidades, seguindo e dando continuidade ao seu modo de relação com a mãe enquanto ainda era um lactente. Nesse ponto, Freud identifica o amor sexual com os sentimentos ternos (op, cit., p.210-211):
O trato da criança com a pessoa que a assiste é, para ela, uma fonte incessante de excitação e satisfação sexuais vindas das zonas erógenas, ainda mais que essa pessoa - usualmente a mãe - contempla a criança com os sentimentos derivados de sua própria vida sexual: ela a acaricia, beija e embala, e é perfeitamente claro que a trata como substituto de um objeto sexual plenamente legítimo. (...) A pulsão sexual, como bem sabemos, não é despertada apenas pela excitação da zona genital; aquilo a que chamamos ternura um dia exercerá seus efeitos, infalivelmente, também sobre as zonas genitais.
Vemos, portanto, que durante a infância a corrente terna não está desvinculada da corrente sensual. Tal disjunção parece ocorrer justamente na puberdade pela reativação dos conflitos edípicos.9 Conforme Freud (op. cit., p.213),
Sem dúvida, o caminho mais curto para o filho seria escolher como objetos sexuais as mesmas pessoas a quem ama, desde a infância, com uma libido (...) amortecida. Com o adiamento da maturação sexual, entretanto, ganhou-se tempo para erigir, junto a outros entraves à sexualidade, a barreira do incesto, para que assim se integrem os preceitos morais que excluem expressamente da escolha objetal, na qualidade de parentes consangüíneos, as pessoas amadas na infância. (...)

Mas é na [esfera da] representação que se consuma inicialmente a escolha do objeto, e a vida sexual do jovem em processo de amadurecimento não dispõe de outro espaço que não o das fantasias, ou seja, o das representações não destinadas a concretizar-se. Nessas fantasias, as inclinações infantis voltam a emergir em todos os seres humanos, agora reforçadas pela premência somática (...).
Evidencia-se assim que as fantasias, assim como muitos sintomas que surgem na puberdade, estão profundamente relacionados a essas investigações sexuais da infância.

Tudo isso pode ser comprovado e demonstrado com base na experiência clínica, como já vimos na experiência de análise de Fernando. Diante da angústia suscitada em função do impasse vivenciado num relacionamento amoroso e frente a sintomas como o da impotência sexual, diversas experiências sexuais infantis eram resgatadas: por exemplo, o gesto de masturbação revelado à mãe aos cinco anos de idade, as brincadeiras sexuais (observação e exploração das diferenças genitais entre meninos e meninas) com os primos, a investigação sobre sexo nas revistas eróticas. Além dessas experiências, surgiram outras lembranças que marcaram profundamente sua história de vida: por exemplo, a decepção amorosa vivida pelo irmão mais velho presenciada por Fernando e a história do casamento dos pais.

Já vimos que ao ressignificar essas histórias, Fernando pôde observar, dentre outras coisas, como procurava repetir com as mulheres que desejava o mesmo modo de relacionamento dos pais, isto é, queria uma mulher fálica para que assim pudesse se esquivar desse lugar fálico. Mais do que isso, buscava repetir com uma mulher a mesma relação que tinha com sua mãe, qual seja, fazer de tudo para agradá-la para assim conquistar algum tipo de reconhecimento ou gratificação. Acompanhamos então, no percurso de sua análise, o desvelamento dos desejos e das fantasias infantis, como de rejeição ou retaliação, que sustentavam essa organização, e de que maneira tudo isso se articula ao drama edípico típico de uma estrutura obsessiva. Agora, sob o ponto de vista da dissociação entre a corrente terna e sensual que vem à tona na puberdade, nota-se como Fernando procurou solucioná-la, inconscientemente, identificando a mulher desejada à sua mãe. Solução falha e que só poderia resultar numa interdição manifesta no sintoma da impotência sexual.

Fernando deparou-se com a ilusão de completude do relacionamento sexual entre homem e mulher, da existência de um objeto que lhe forneça uma satisfação plena e que foi encontrado uma vez num passado mítico. É a partir desse engodo que Freud e, posteriormente, Lacan situam o impossível da relação sexual.

No entanto, o confronto com tais ilusões acarreta um alto grau de sofrimento, não só para Fernando, mas para todo jovem de nossa sociedade. Nesse momento, torna-se necessário a elaboração de um luto do objeto que foi perdido na origem da sexualidade humana e que não será mais alcançado. Ademais, se a criança renuncia à atividade sexual, pelo fato de que ela está privada do instrumento que permite a satisfação sexual, quando ela cresce e chega à puberdade, de alguma forma tal instrumento lhe é dado, constatando, assim, que foi enganada. O jovem também descobre que a posse desse instrumento não é suficiente para o acesso a um gozo perdido. Deste modo, como diz Melman (1997, p.34),
A adolescência é este momento em que o que até aqui, enquanto criança, funcionava no registro da privação, bruscamente vai lhe dar acesso a esse campo infinitamente complexo que é o da castração. Trata-se do fato de que não basta ter esse instrumento para possuir seu exercício, mas que o processo do acesso à sexualidade faz-se de maneira muito mais complexa.
Compreende-se, com isso, as dificuldades de um sujeito nessa fase da vida. Entende-se também porque o sofrimento daí decorrente é caracterizado como uma crise adolescente, já que se trata de um momento de elaboração das questões suscitadas a partir do encontro do sujeito com a puberdade. A própria adolescência pode ser considerada, desse ponto de vista, como um processo psíquico de elaboração dessas questões. Por outro lado, porém, deve-se ter em mente que, como diz Alberti, se existe crise da adolescência é porque o sujeito humano é um sujeito em crise, “e essa crise se dá pelo fato de que (...) a sexualidade, muito antes de fazer sentido, faz furo no real” (1996, p.121).

Podemos enfim retomar o que significa “real do sexo” ou “encontro com o real”. Na quinta aula de seu décimo primeiro ano de seminários (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 1964), Lacan recorre a dois termos usados por Aristóteles para designar duas formas de causa acidental, para tratar do real: autômaton e tiquê.

Em Aristóteles, ambos são utilizados para transmitir a noção de acaso acidental, algum acontecimento que a razão humana não é capaz de compreender. O primeiro, contudo, distingue-se por se referir a algo que se move por si mesmo, enquanto que o segundo implica algum grau de deliberação divina, algo ao qual o homem é submetido.10 Lacan se serve dessa noção de autômaton para se referir à rede dos significantes, ao “retorno dos signos aos quais nos vemos comandados pelo princípio do prazer” (1964, p.56). Mas o real está, segundo Lacan, “para além do autômaton”; o real diz respeito ao encontro faltoso que traumatiza o sujeito. É, portanto, a noção de tiquê que é usada para designar esse encontro, também nomeado por Lacan de “encontro do real”.

A puberdade pode ser considerada uma das manifestações de tiquê. Todo ser humano é submetido às transformações do corpo, independentemente de sua vontade. Faltam-lhe significantes que lhe permitam dar conta dessas transformações, que, por sua vez, remetem-no também à falta de significantes que dêem conta da diferença entre os sexos e do real da reprodução sexuada.11



Mesmo assim, o sujeito tenta. É no lugar deste impossível, do que falta a este encontro marcado, que surge o significante12. Esta é propriamente a relação entre tiquê e automaton na puberdade. Como diz Alberti (1996, p.192),
O automaton descreve a maneira empregada pelo sujeito para lidar com esse real, tentativa de inscrevê-lo na cadeia significante, que sempre se repete. É, pois, através do automaton que o sujeito associa todo novo encontro com o real, traumático por definição, na série das Vorstellungsrepräsentanzen, ou seja, ele o associa com a própria cadeia significante em torno do trauma original. Na medida em que, para o neurótico, todo trauma é sexual, ou seja, referido a existência do falo, esse novo automaton reinscreve o novo encontro com o sexo no complexo de Édipo.
As tentativas de dar conta desse real inscrevem-se, portanto, na retomada do mito individual de cada sujeito, levando-o a fazer escolhas muito singulares de acordo com sua própria história. Ou, para finalizar com as palavras de Lacan, “as vias do que se deve fazer como homem ou como mulher são inteiramente abandonadas ao drama, ao roteiro que se coloca no campo do Outro – o que é propriamente o Édipo” (1964, p.194).

1 Grifos meus.

2 Grifos meus.

3 No entanto, se recorrermos ao verbete meta do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis (1992), veremos que este termo está intimamente relacionado a outros termos, tais como objeto, fonte e pressão, isto é, está ligado ao conceito de pulsão. Além disso, trata-se de uma atividade que é sustentada e orientada por fantasias.


4 Para aprofundar essa questão, ver Laplanche J., Vida e Morte em Psicanálise.

5 Isto é, o objeto vem a colocar-se em função de sua aptidão a proporcionar satisfação. No caso da pulsão oral, por exemplo, trata-se de um objeto passível de ser incorporado, mesmo que fantasisticamente. Além disso, tal objeto pulsional está marcado, segundo Laplanche e Pontalis (p. 322) pela história infantil de cada um. Trata-se, assim, de um objeto contingente, mas não de qualquer objeto.

6 Na verdade, alguns psicanalistas seguiram o caminho das organizações pré-genitais e genitais sem levar em consideração a nota de rodapé acrescentada por Freud em 1915. Tais autores, segundo Alberti (1996, p. 21), passaram a raciocinar a partir do modelo dos estados – oral, anal, genital. Nesse sentido, a sexualidade humana estaria vinculada a uma espécie de evolucionismo darwiniano.

7 Fiz uma análise um pouco mais detalhada desta obra em minha pesquisa de Iniciação Científica, O sujeito adolescente e a questão do ato de ruptura com os pais, finalizada em 2000.


8 Muitas vezes estas tentativas, por não encontrarem significantes que dêem conta do furo provocado pelo encontro com o real do sexo, se dão no nível do ato.

9 Principalmente no caso dos homens. Segundo Freud, os conflitos edípicos estão intimamente relacionados ao complexo de castração: o medo, na infância, de ter seu órgão castrado pelo pai e assim ficar como os outros seres que perderam esse órgão (as mulheres), faz o menino agir narcisicamente em função da garantia de sua própria integridade. Desse modo, o complexo de castração, que teve como função fazer a criança desistir da mãe como seu objeto sexual, é reativado neste momento em que o jovem pode enfim escolher um objeto de amor e colocar em ato seu desejo sexual. O que aí ocorre, (Cf. Alberti, 1996), é uma separação em relação às mulheres: haverá aquelas, fantasisticamente, que ele não deverá tocar e aquelas que ele sempre quererá tocar. Isso ocorre quando a pessoa com quem ele resolve se relacionar está identificada com a mãe. No caso das mulheres, essa integridade foi perdida desde o início, já que ela nunca possuiu um pênis. O complexo de castração é então reativado fazendo-a imaginar que se possuísse tal instrumento teria mais prazer. Além disso, segundo Freud (1905), a puberdade feminina distingue-se da masculina por trazer uma nova onda de recalcamento que afeta a sexualidade do clitóris devido à mudança da zona erógena dominante (passa-se do clitóris para vagina). Há, com isso, um recalcamento que afeta a parcela masculina da sexualidade da mulher; esta recusa, renega sua sexualidade.

10 Na mitologia grega, inclusive, Týkhe é a deusa da fortuna, que faz girar aleatoriamente uma roda que determina a sorte de um indivíduo.

11 Quanto a isso, Lacan afirma em sua décima sexta aula desse mesmo Seminário, que “a sexualidade se instaura no campo do sujeito por uma via que é a da falta” (1964, p.194), apontando que aí duas faltas se recobrem:

“uma é da alçada do defeito central em torno da qual gira a dialética do advento do sujeito ao seu próprio ser em relação ao Outro – pelo fato de que o sujeito depende do significante e de que o significante está primeiro no campo do Outro. Esta falta vem retomar a outra, que é a falta real, anterior, a situar no advento do vivo (...). A falta real é o que o vivo perde, de sua parte de vivo, ao se reproduzir pela via sexuada. Esta falta é real, porque ela se reporta a algo de real que é o que o vivo, por ser sujeito ao sexo, caiu sob o golpe da morte individual” (1964, p.194-195)



12 No nível da cultura, surgem os mitos de origem da diferença sexual.




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