50 anos depois francisco cândido xavier



Baixar 1 Mb.
Página1/13
Encontro31.07.2016
Tamanho1 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13




50 ANOS DEPOIS

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

ROMANCE DITADO PELO ESPÍRITO EMMANUEL

ÍNDICE
Carta ao Leitor


PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO 1 = UMA FAMÍLIA ROMANA

CAPÍTULO 2 = UM ANJO E UM FILÓSOFO

CAPÍTULO 3 = SOMBRAS DOMÉSTICAS

CAPÍTULO 4 = NA VIA NOMENTANA

CAPÍTULO 5 = A PREGAÇÃO DO EVANGELHO

CAPÍTULO 6 = A VISITA AO CÁRCERE

CAPÍTULO 7 = NAS FESTAS DE ADRIANO


SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO 1 = A MORTE DE CNEIO LUCIUS

CAPÍTULO 2 = CALÚNIA E SACRIFÍCIO

CAPÍTULO 3 = ESTRADA DE AMARGURA

CAPÍTULO 4 = DE MINTURNES A ALEXANDRIA

CAPÍTULO 5 = O CAMINHO EXPIATÓRIO

CAPÍTULO 6 = NO HORTO DE CÉLIA

CAPÍTULO 7 = NAS ESFERAS ESPIRITUAIS



Carta ao Leitor
Meu amigo, Deus te conceda paz.

Se leste as páginas singelas do “Há Dois Mil Anos... », é possível que procures aqui a continuação das lutas intensas, vividas pelas suas persona­gens reais, na arena de lutas redentoras da Terra. É por esse motivo que me sinto obrigado a expli­car-te alguma coisa, com respeito ao desdobramento desta nova história.

Cinqüenta anos depois das ruínas fumegantes de Pompéia, nas quais o impiedoso senador Públio Lêntulus se desprendia novamente do mundo, para aferir o valor de suas dolorosas experiências terres­tres, vamos encontrá-lo, nestas páginas, sob a veste humilde dos escravos, que o seu orgulhoso coração havia espezinhado outrora. Á misericórdia do Senhor permitia-lhe reparar, na personalidade de Nestório, os desmandos e arbitrariedades cometidos no pre­térito, quando, como homem público, supunha guardar nas mãos vaidosas, por injustificável direito divino, todos os poderes.

Observando um homem cativo, reconhecerás, em cada traço de seus sofri­mentos, o venturoso resgate de um passado de fal­tas clamorosas.

Todavia, sinto-me no dever de esclarecer-te a curiosidade, com referência aos seus companheiros mais diretos, na nova romagem terrena, de que este livro é um testemunho real.

Não obstante estarem na Terra, pela mesma época, os membros da família Sevérus, Flávia e Marcus Lêntulus, Saul e André de Gioras, Aurélia, Sulpício, Fúlvia e demais comparsas do mesmo dra­ma, devo esclarecer-te que todos esses companheiros de luta mourejavam, na ocasião, em outros setores de sofrimentos abençoados, não comparecendo aqui, onde o senador Públio Lêntulus aparece, aos teus olhos, na indumenta de escravo, já na idade madura, como elemento integrante de um quadro novo.

De todas as personagens do “Há Dois Mil Anos. .. “, um contudo aqui se encontra, junto de outras figuras do mesmo tempo, como Policarpo, embora não relacionado nominalmente no livro anterior, companheiro esse que, pelos laços afetivos, se lhe tornara um irmão devotado e carinhoso, pelas mesmas lutas políticas e sociais na Roma de Nero e de Vespasiano. Quero referir-me a Pompílio Crasso, aquele mesmo irmão de destino na destruição de Jerusalém, cujo coração palpitante lhe fôra retirado do peito por Nicandro, às ordens severas de um chefe cruel e vingativo.

Pompílio Crasso é o mesmo Helvídio Lucius destas páginas, ressurgindo no mundo para o tra­balho renovador e, aludindo a um amigo dedicado e generoso, quero dizer-te que este livro não foi es­crito de nós e por nós, no pressuposto de descrever as nossas lutas transitórias no mundo terrestre. Este livro é o repositório da verdade sobre um coração sublime de mulher, transformada em santa, cujo heroismo divino foi uma luz acesa na estrada de numerosos Espíritos amargurados e sofredores.

No “Há Dois Mil Anos...“ buscávamos encare­cer uma época de luzes e sombras, onde a materiali­dade romana e o Cristianismo disputavam a posse das almas, num cenário de misérias e esplendores, entre as extremas exaltações de César e as maravilhosas edificações em Jesus Cristo. Ali, Públio Lêntulus se movimenta num acervo de farraparias morais e deslumbramentos transitórios; aqui, entretan­to, como o escravo Nestório, observa ele uma alma. Refiro-me a Célia, figura central das páginas desta história, cujo coração, amoroso e sábio, entendeu e aplicou todas as lições do Divino Mestre, no trans­curso doloroso de sua vida. Na sequência dos fatos, dentro da narrativa, seguirás os seus passos de me­nina e de moça, como se observasses um anjo pai­rando acima de todas as contingências da Terra. Santa pelas virtudes e pelos atos de sua existência edificante, seu Espírito era bem o lírio nascido do lodo das paixões do mundo, para perfumar a noite da vida terrestre, com os olores suaves das mais divinas esperanças do Céu.

Podemos afirmar, portanto, leitor amigo, que este volume não relaciona, de modo integral, a con­tinuação das experiências purificadoras do antigo senador Lêntulus, nos círculos de resgate dos traba­lhos terrestres. É a história de um sublime coração feminino que se divinizou no sacrifício e na abne­gação, confiando em Jesus, nas lágrimas da sua noite de dor e de trabalho, de reparação e de espe­rança. A Igreja Romana lhe guarda, até hoje, as generosas tradições, nos seus arquivos envelhecidos, se bem que as datas e as denominações, as descrições e apontamentos se encontrem confusos e obscu­ros pelo dedo viciado dos narradores humanos.

Mas, meu irmão e meu amigo, abre estas pági­nas refletindo no turbilhão de lágrimas que se represa no coração humano e pensa no quinhão de experiências amargas que os dias transitórios da vida te trouxerem. É possível que também tenhas amado e sofrido muito. Algumas vezes experimen­taste o sopro frio da adversidade enregelando o teu coração. De outras, feriram-te a alma bem inten­cionada e sensível a calúnia ou o desengano. Em certas circunstâncias, olhaste também o céu e perguntaste, em silêncio, onde se encontrariam a Ver­dade e a Justiça, invocando a misericórdia de Deus, em preces dolorosas. Conhecendo, porém, que todas as dores têm uma finalidade gloriosa na redenção do teu Espírito, lê esta história real e medita. Os exemplos de uma alma santificada no sofrimento e na humildade, ensinar-te-ão a amar o trabalho e as penas de cada dia; observando-lhe os martírios morais e sentindo, de perto, a sua profunda fé, experimentarás um consolo brando, renovando as tuas esperanças em Jesus Cristo.

Busca entender a essência deste repositório de verdades confortadoras e, do plano espiritual, o Es­pírito purificado de nossa heroína derramará em teu coração o bálsamo consolador das esperanças sublimes.

Que aproveites do exemplo, como nós outros, nos tempos recuados das lutas e das experiências que passaram, é o que te deseja um irmão e servo humilde.
EMMANUEL
Pedro Leopoldo, 19 de dezembro de 1939.

PRIMEIRA PARTE

1

UMA FAMÍLIA ROMANA
Varando a multidão que estacionava na grande praça de Esmirna, em clara manhã do ano 131, da nossa era, marchava um troço de escravos jovens e atléticos, conduzindo uma liteira ricamente ata­viada ao gosto da época.

De espaço a espaço, ouviam-se as vozes dos carregadores, exclamando:

— Deixai passar o nobre tribuno Caio Fabrícius! Lugar para o nobre representante de Augusto! Lugar!... Lugar!...

Desfaziam-se os pequenos grupos de populares, formados à pressa em torno do mercado de peixes e legumes, situado no grande logradouro, enquan­to o rosto de um patrício romano surdia entre as cortinas da liteira, com ares de enfado, a observar a turba rumorosa.

Seguindo a liteira, caminhava um homem dos seus quarenta e cinco anos presumíveis, deixando ver nas linhas fisionômicas o perfil israelita, típicamente características, e um orgulho silencioso e inconformado. A atitude humilde, todavia, evidenciava condição inferior e, conquanto não parti­cipasse do esforço dos carregadores, adivinhava-se­-lhe no semblante contrafeito a situação dolorosa de escravo.

Respirava-se, à margem do golfo esplêndido, o ar embalsamado que os ventos do Egeu traziam do grande Arquipélago.

O movimento da cidade crescera de muito na­queles dias inolvidáveis, sequentes à última guerra civil que devastara a Judéia para sempre. Milha­res de peregrinos invadiam-na por todos os flancos, fugindo aos quadros terrificantes da Palestina, assolada pelos flagelos da última revolução aniqui­ladora dos derradeiros laços de coesão das tribos laboriosas de Israel, desterrando-as da pátria.

Remanescentes de antigas autoridades e de numerosos plutocratas de Jerusalém, de Cesaréia, de Betel e de Tiberíades, ali se acotovelam famé­licos, por subtrairem-se aos tormentos do cativeiro, após as vitórias de Júlio Sexto Severo sobre os fanáticos partidários do famoso Bar-Coziba.

Vencendo os movimentos instintivos da turba, a liteira do tribuno parou à frente de soberbo edi­fício, no qual os estilos grego e romano se casavam harmoniosamente.

Ali estacionando, foi logo anunciado no inte­rior, onde um patrício relativamente jovem, apa­rentando mais ou menos quarenta anos, o esperava com evidente interesse.

— Por Júpiter! — exclamou Fabrícius, abra­çando o amigo Helvídio Lucius — não supunha en­contrar-te nessa plenitude de robustez e elegância, de fazer inveja aos próprios deuses

- Ora, ora! — replicou o interpelado, em cujo sorriso se podia ler a satisfação que lhe causavam aquelas expansões carinhosas e amigas — são mi­lagres dos nossos tempos. Aliás, se há quem me­reça tais gabos, és tu, a quem Adônis sempre rendeu homenagens.

Neste ínterim, um escravo ainda moço trazia a bandeja de prata, onde se alinhavam pequenos vasos de perfume e coroas da época, adornadas de rosas.

Helvídio Lucius serviu-se cuidadosamente de uma delas, enquanto o visitante agradecia com leve sinal de cabeça.

— Mas, ouve! — continuava o anfitrião sem dissimular o contentamento que lhe causava a vi­sita — há bastante tempo aguardamos tua che­gada, de maneira a partirmos para Roma com a bre­vidade possível. Há dois dias que a galera está à nossa disposição, dependendo a partida tão somente da tua vinda!...

E batendo-lhe amistosamente no ombro, re­matava:

— Que demora foi essa?...

— Bem sabes — explicou Fabrícius — que sumariar os estragos da última revolução era ta­refa assaz difícil para realizar em poucas semanas, razão pela qual, apesar da demora a que te refe­res, não levo ao Governo Imperial um relatório minucioso e completo, mas apenas alguns dados gerais.

— E a propósito da revolução da Judéia, qual a tua impressão pessoal dos acontecimentos?

Caio Fabrícius esboçou um leve sorriso, acres­centando com amabilidade:

— Antes de dar a minha opinião, sei que a tua é a de quem encarou os fatos com o maior otimismo.

— Ora, meu amigo — disse Helvídio, como a justificar-se —, é verdade que a venda de toda a minha criação de cavalos da Iduméia, para as for­ças em operações, me consolidou as finanças, dis­pensando-me de maiores cuidados quanto ao futuro da família; mas isso não impede considere a pe­nosa situação desses milhares de criaturas que se arruinaram para sempre. Aliás, se a sorte me favoreceu no plano de minhas necessidades materiais, devo-o principalmente à intervenção de meu sogro, junto do prefeito Lólio Úrbico.

— O censor Fábio Cornélio agiu assim tão decisivamente a teu favor? — perguntou Fabrícius, algo admirado.

— Sim.


- Está bem — disse Caio já despreocupado —, eu nunca entendi patavina da criação de cavalos da Iduméia ou de bestas da Ligúria. Aliás, o êxito dos teus negócios não altera a nossa velha e cordial amizade. Por Pólux!... Não há necessidade de tantas explicações nesse sentido.

E depois de sorver um trago de Falerno sou­citamente servido, continuou, como que analisando as próprias reminiscências mais íntimas:

— O estado da Província é lastimável e, na minha opinião, os judeus nunca mais encontrarão na Palestina o benefício consolador de um lar e de uma pátria. Em diversos recontros, morreram mais de cento e oitenta mil israelitas, segundo o conhecimento exato da situação. Foram destruidos quase todos os burgos. Na zona de Betel a misé­ria atingiu proporções inaudítas. Famílias inteiras, desamparadas e indefesas, foram covardemente as­sassinadas. Enquanto a fome e a desolação ope­ram a ruína geral, chega também a peste, oriunda da exalação dos cadáveres insepultos. Nunca supus rever a Judéia em tais condições..

— Mas, a quem deveremos inculpar do que ocorre? O governo de Adriano não se tem caracte­rizado pela retidão e pela justiça? — perguntou Helvídio Lucius com grande interesse.

— Não posso afirmá-lo com certeza — revidou Fabrícius, atencioso —; todavia, considero pessoalmente que o grande culpado foi Tineio Rufus, le­gado pró-pretor da Província. Sua incapacidade política foi manifesta em todo o desenvolvimento dos fatos. A reedificação de Jerusalém com o nome de Elia Capitolina, obedecendo aos caprichos do Imperador, apavora os israelitas, desejosos todos de conservar as tradições da cidade santa. O mo­mento requeria um homem de qualidades excepcio­nais, à frente dos negócios da Judéia. Entretanto, Tineio Rufus não fêz mais que exacerbar o ânimo popular com imposições religiosas de todos os ma­tizes, contrariando a clássica tradição de tolerân­cia do Império nos territórios conquistados.

Helvídio Lucius ouvia o amigo, com singular interesse, mas, como se desejasse afastar de si mesmo alguma reminiscência amarga, murmurou:

— Fabrícius, meu caro, tua descrição da Judéia me apavora o espírito... Os anos que passa­mos na Ásia Menor me devolvem a Roma com o coração apreensivo. Em toda a Palestina campeiam superstições totalmente contrárias às nossas tradi­ções mais respeitáveis, e essas crenças estranhas invadem o próprio ambiente da família, dificultan­do-nos a tarefa de instituir a harmonia doméstica...

— Já sei — replicou o amigo solicitamente —, queres aludir, com certeza, ao Cristianismo, com as suas inovações e oS seus asseclas.

Mas... — ajuntou Caio, evidenciando uma aten­ção mais íntima —, acaso Alba Lucínia teria dei­xado de ser a segurança vestalina de tua casa? Seria possível?

— Não — replicou Helvídio ansioso por se fazer compreendido —, não se trata de minha mu­lher, sentinela avançada de todos os feitos da mi­nha vida, há longos anos, mas de uma das filhas que, contràriamente a todas previsões, imbuiu-se de semelhantes princípios, causando-nos os mais sérios desgostos.

— Ah! lembro-me de Helvídia e de Célia, que, em meninas, eram bem dois sorrisos dos deuses na tua casa. Mas tão jovens e dadas, assim, a cogitações filosóficas?

— Helvídia, a mais velha, não se impregnou de tais bruxarias; mas a nossa pobre Célia parece bastante prejudicada pelas superstições orientais, tanto que, regressando a Roma, tenciono deixá-la em companhia de meu pai, por algum tempo. Suas lições de virtude doméstica hão-de renovar-lhe o coração, segundo cremos.

— É verdade — concordou Fabrícius —, o venerando Cneio Lucius reformaria para as tra­dições romanas os sentimentos mais bárbaros de nossas Províncias.

Fizera-se ligeira pausa na conversação, enquan­to Caio tamborilava com os dedos, dando a entender a sua preocupação, como se evocasse alguma dolo­rosa lembrança.

— Helvídio — murmurou o tribuno fraternal­mente —, teu regresso a Roma é de causar apreen­sões aos teus verdadeiros amigos. Recordando teu pai, lembro-me instintivamente de Silano, o peque­no enjeitado que ele chegou quase a adotar ofi­cialmente como próprio filho, desejoso de libertar-te da calúnia a ti imputada no albor da mocidade...

— Sim — disse o anfitrião, como se houvera repentinamente despertado —, ainda bem que não desconheces ser caluniosa a acusação que pesou sobre mim. Aliás, meu pai não ignora isso.

— Apesar de tudo, teu venerável genitor não hesitou em cumular a criança, a ele encaminhada, com o máximo de carinho...

Depois de passar nervosamente a mão pela fronte, Helvídio Lucius acentuou:

— E Silano .... Sabes o que é feito dele?

— As últimas informaçõeS davam-no como in­corporado às nossas falanges que mantêm o do­mínio das Gálias, como simples soldado do exército.

— As vezes — ajuntou Helvídio preocupado —tenho pensado na sorte desse rapaz, pupilo da ge­nerosidade de meu pai, desde os tempos de minha juventude. Mas, que fazer? Desde que me casei, tudo fiz por trazê-lo à nossa companhia. Minha propriedade da Iduméia poderia proporcionar-lhe uma existência simples e liberta de maiores cuidados, sob as minhas vistas atentas; todavia, Alba Lucínia se opôs terminantemente aos meus proje­tos, não só recordando os comentários caluniosos de que fui alvo no passado, como também alegando seus direitos exclusivos à minha afeição, pelo que, fui compelido a conformar-me, levando em conta as nobres qualidades da sua alma generosa.

Bem sabes que minha esposa deve receber as minhas atenções mais respeitosas. Não tenho remé­dio senão aceitar de bom grado as suas afetuosas Imposições.

— Helvídio, bom amigo — exclamou Fabrícius, demonstrando prudência —, não devo nem posso interferir na tua vida íntima. Problemas há, na vida, que somente os cônjuges podem solucionar, entre si, na sagrada intimidade do lar; mas, não é apenas pelo caso de Silano que me sinto apreen­sivo, relativamente ao teu regresso.

E fixando o amigo bem nos olhos, rematou:

— Lembras-te de Cláudia Sabina?...

— Sim... — respondeu vagamente.

— Não sei se estás devidamente informado a seu respeito. Cláudia é hoje a esposa de Lólio Úrbico, o prefeito dos pretorianos. Não deves igno­rar que esse homem é a personalidade do dia, como depositário da máxima confiança do Imperador.

Helvídio Lucius passou a mão pela fronte, como se desejasse afugentar uma penosa recorda­ção do passado, revidando, afinal, para tranquili­dade de si mesmo:

- Não desejo exumar o passado, visto ser hoje um outro homem; mas, se houver necessidade de ser prestigiado na Capital do Império, não po­demos esquecer, igualmente, que meu sogro é pes­soa de toda a confiança, não só do prefeito a que aludes, como de todas as autoridades administra­tivas.

— Bem o sei, mas não ignoro também que o coração humano tem escaninhos misteriosos... Não acredito que Cláudia, hoje elevada às esferas da mais alta aristocracia, pelos caprichos do destino, haja olvidado a humilhação do seu amor violento de plebéia, espezinhado em outros tempos.

— Sim — confirmou Helvídio Lucius com os olhos parados no abismo de suas recordações mais íntimas —, muitas vezes tenho lamentado o haver nutrido em seu coração uma afetividade tão inten­sa; mas, que fazer? A juventude está sujeita a caprichos numerosos e, a maior parte das vezes, não há advertência que possa romper o véu da cegueira...

— E estarás hoje menos moço para que te sintas completamente livre dos caprichos multipli­cados da nossa época?

O interpelado compreendeu todo o alcance da­quelas observações sábias e prudentes, e como se não lhe prouvesse o exame das circunstãncias e dos fatos, cuja lembrança penosa o atormentaria, replicou sem perder o aparente bom humor, embo­ra os olhos evidenciassem uma preocupação amar­gurosa:

— Caio, meu bom amigo, pelas barbas de Jú­piter! não me faças voltar ao pélago escuro do passado. Desde que chegaste, nada me disseste além de assuntos penosos e sombrios. De início, é a miséria da Judéia, de arrepiar os cabelos, com os seus quadros de desolação e ruína e, depois, eis-te voltado para o passado escabroso, como se não nos bastassem as atuais amarguras... Fala-me antes de algo que me consolide o repouso íntimo. Embora não saiba explicar o motivo, tenho o co­ração apreensivo quanto ao futuro. A máquina de intrigas da sociedade romana aborrece-me o espí­rito, que nunca encontrou ensejos de lhe fugir ao ambiente detestável. Meu regresso a Roma inqui­na-se de perspectivas dolorosas, embora não ouse confessá-lo!...

Fabrícius ouviu-o, atento e compungido. As palavras do amigo denunciavam o profundo temor de retornar ao passado tão cheio de aventuras. Aquela atitude súplice atestava que a recordação dos tempos idos ainda lhe palpitava no peito, ape­sar de todos os esforços para esquecer.

Reprimindo os próprios receios, falou, então, afetuosamente:

— Pois bem, não falaremos mais nisso.

E acentuando a alegria que lhe causava aquele encontro, continuou comovidamente:

— Então, poderia acaso esquecer-me de algo que me pedisses?

Sem mais delonga, encaminhou-se para o átrio onde os serviçais de confiança lhe esperavam as ordens, regressando à sala acompanhado pelo des­conhecido que lhe seguira a liteira, na atitude hu­milde de escravo.

Helvídio Lucius surpreendeu-se, ao ver a per­sonagem interessante que lhe era apresentada.

Identificara, imediatamente, a sua condição de servo, mas o espanto lhe provinha da profunda simpatia que aquela figura lhe inspirava.

Seus traços de israelita eram iniludíveis, porém, no olhar havia uma vibração de orgulho nobre, temperado de singular humildade. Na fronte larga, notavam-se cãs precoces, Se bem que o físico de­nunciasse a pletora de energias orgânicas da idade madura. O aspecto geral, contudo, era o de um homem profundamente desencantado da vida. No rosto, percebia-se o sinal de macerações e sofri­mentos indefiníveis, impressões dolorosas, aliás com­pensadas pelo fulgor enérgico do olhar, transpa­rente de serenidade.

— Eis a surpresa — frisou Caio Fabrícius alegremente: — comprei, como lembrança, esta pre­ciosidade, na feira de Terebinto, quando alguns de nossos companheiros liquidavam o espólio dos ven­cidos.

Helvídio Lucius parecia não ouvir, como que procurando mergulhar fundo naquela figura curio­sa, ao alcance de seus olhos, e cuja simpatia lhe impressionava as fibras mais Sensíveis e mais íntimas.

— Admiras-te? — insistiu Caio desejoso de ouvir as suas apreciações diretas e francas.

— Que­rerias, porventura, que te trouxesse um Hércules formidando? Preferi lisonjear-te com um raro exem­plar de sabedoria.

Helvídio agradeceu com um sinal expreSSivO, acercando-se do escravo silencioso, com um leve sorriso.

— Como te chamas? — perguntou solícito.

— Nestório.

— Onde nasceste? Na grécia?

— Sim — respondeu o interpelado com um doloroso sorriso.

— Como pudeste alcançar Terebinto?

— Senhor, sou de origem judia, apesar de nas­cido em Éfeso. Meus antepassados transportaram-se à Jônia, há alguns decênios, em virtude das guerras civis da Palestina. Criei-me nas margens do Egeu, onde mais tarde constitui família. A sorte, porém, não me foi favorável. Tendo perdi­do minha companheira, prematuramente, devido a grandes desgostos, em breve, sob o guante de per­seguições implacáveiS, fui escravizado por ilustres romanos, que me conduziram ao antigo país de meus ascendentes.

— E foi lá que a revolução te surpreendeu?

— Sim.


— Onde te encontravas?

— Nas proximidades de Jerusalém.

— Falaste de tua família. Tinhas apenas mulher?

— Não, senhor. Tinha também um filho.

— Também morreu?

— Ignoro. Meu pobre filho, ainda criança, caiu, como seu pai, na dolorosa noite do cativeiro. Apar­tado de mim, que o vi partir com o coração lace­rado de dor e de saudade, foi vendido a poderosoS mercadores do sul da Palestina.

Helvídio Lucius olhou para Fabrícius, como a expressar a sua admiração pelas respostas desassombradas do desconhecido, continuando, porém, a interrogar:

— A quem servias em Jerusalém?

— A Calius Flavius.

— Conheci-o de nome. Qual o destino do teu senhor?...

— Foi dos primeiros a morrer nos choques havidos nos arredores da cidade, entre os legioná­rios de Tineio Rufus e os reforços judeus chegados de Betel.

— Também combateste?

— Senhor, não me cumpria combater senão pelo desempenho das obrigações devidas àquele que, conservando-me cativo aos olhos do mundo, há muito me havia restituído à liberdade, junto de seu magnânimo coração. Minhas armas deviam ser as da assistência necessária ao seu espírito leal e justo. Calius Flavius não era para mim o verdu­go, mas o amigo e protetor de todos os momentos. Para meu consolo íntimo, pude provar-lhe a minha dedicação, quando lhe fechei os olhos no alento derradeiro.

— Por Júpiter! — exclamou Helvídio, dirigin­do-se em alta voz ao amigo — é a primeira vez que ouço um escravo abençoar o senhor.

— Não é só isso — respondeu Caio Fabrícius bem humorado, enquanto o servo os observava ereto e digno —, Nestório é a personificação do bom-senso. Apesar dos seus laços de sangue com a Ásia Menor, sua cultura acerca do Império é das mais vastas e notáveis.

— Será possível? — tornou Helvídio admirado.

— Conhece a História Romana tão bem quan­to um de nós.

— Mas chegou a viver na capital do mundo?

— Não. Ao que ele diz, somente a conhece por tradição.

Já convidado pelos dois patrícios, sentou-se o escravo para demonstrar os seus conhecimentos.

Com desembaraço, falou das lendas encanta­doras que envolviam o nascimento da cidade famo­sa, entre os vales da Etrúria e as deliciosas pai­sagens da Campânia. Rômulo e Remo, a lembrança de Acca Larentia, o rapto das Sabinas, eram ima­gens que, na linguagem de um escravo, broslavam­-se de novos e interessantes matizes. Em seguida, passou a explanar o extraordinário desenvolvimento econômico e político da cidade. A história de Roma não tinha segredos para o seu intelecto. Remon­tando à época de Tarquinio Prisco, falou de suas construções maravilhosas e gigantescas, detendo-se, em particular, na célebre rede de esgotos, a cami­nho das águas lodosas do Tibre. Lembrou a figura de Sérvio Túlio, dividindo a população romana em classes e centúrias. Numa Pompílio, Menênio Agri­pa, os Gracos, Sérgio Catilina, Cipião Nasica e todos os vultos famosos da República foram re­cordados na sua exposição, onde os conceitos cronológicos se alinhavam com admirável exatidão. Os deuses da cidade, os costumes, conquistas, ge­nerais intrépidos e valorosos, eram com detalhes indelêvelmente gravados na sua memória. Seguin­do o curso dos seus conhecimentos, rememorou o Império nos seus primórdios, salientando as suas realizações portentosas, desde o faustoso brilho da Corte de Augusto. As magnificências dos Césares, trabalhadas pela sua dialética fluente, apresentavam novos coloridos históricos, em vista das considera­ções psicológicas, acerca de todas as situações po­líticas e sociais.

Por muito tempo falara Nestório dos seus co­nhecimentos do passado, quando Helvídio Lucius sinceramente surpreendido o interpelou:

— Onde conseguiste essa cultura, radicada em nossas mais remotas tradições?.

— Senhor, tenho manuseado todos os livros da educação romana, ao meu alcance, desde moço. Além disso, sem que me possa explicar a razão, a Capital do Império exerce sobre mim a mais sin­gular de todas as seduções.

— Ora — ajuntou Caio Fabrícius satisfeito - Nestório tanto conhece um livro de Salústio, como uma página de Petrônio. Os autores gregos, igual­mente, não têm segredos para ele. Considerada, porém, a sua predileção pelos motivos romanos, quero acreditar haja ele nascido ao pé de nossas portas.

O escravo sorriu levemente, enquanto Helvídio Lucius esclarecia:

— Semelhantes conhecimentos evidenciam um interesse injustificável da parte de um cativo.

E depois de uma pausa, como se estivesse arquitetando um projeto íntimo, continuou a falar, dirigindo-se ao amigo:

— Meu caro, louvo-te a lembrança. Minha grande preocupação, no momento, era obter um servo culto, que pudesse incumbir-se de enriquecer a educação de minhas filhas, auxiliando-me, simultaneamente, no arranjo dos processos do Estado, a que agora serei Compelido pela força do cargo. O anfitrião mal havia concluído o seu agradecimento, quando surgiram na sala a esposa e as filhas, num gracioso cromo familiar.

Alba Lucínia, que ainda não atingira os qua­renta anos, conservava no rosto os mais belos tra­ços da juventude, a iluminarem o seu perfil de madona. Junto das filhas, duas primaveras riso­nhas, seu aspecto de mocidade ganhava um todo de nobres expressões vestalinas, confundindo-se com as duas, como se lhes fôra irmã mais velha, ao invés de mãe extremosa e afável.

Helvídia e Célia, porém, embora a semelhança profunda dos traços fisionômicos deixavam trans­parecer, espontaneamente, a diversidade de tempe­ramentos e pendores espirituais. A primeira entre­mostrava nos olhos uma inquietação própria da idade, indiciando os sonhos febricitantes que lhe povoavam a alma, ao passo que a segunda trazia no olhar uma reflexão serena e profunda, como se o espírito de mocidade houvera envelhecido pre­maturamente.

Todas as três exibiam, graciosamente, os deli­cados enfeites do “peplum” em sua feição domés­tica, presos os cabelos em preciosas redes de ouro, ao mesmo tempo que ofereciam a Caio Fabrícius um sorriso de acolhimento.

— Ainda bem — murmurou o hóspede com vivacidade própria do seu gênio expansivo, avan­çando para a dona da casa —, o meu grande Helvídio encontrou o altar das Três Graças, en­tronizando-as egoisticamente no lar. Aliás, aqui estamos nas plagas do Egeu, berço de todas as divindades!...

Suas saudações foram recebidas com geral agrado.

Não somente Alba Lucínia, mas também as fi­lhas se regozijavam com a presença do carinhoso amigo da família, de muitos anos.

Em breve, todo o grupo se animava em pa­lestra amena e sadia. Era o burburinho das notícias de Roma, de mistura com as impressões da Iduméia e de outras regiões da Palestina, onde Helvídio Lucius estagiara junto da família, enfilei­rando-se as opiniões encantadoras e íntimas, acerca dos pequeninos nadas de cada dia.

Em dado instante, o dono da casa chamou a atenção da esposa para a figura de Nestório, encolhido a um canto da sala, acrescentando entu­siàsticamente:

- Lucínia, eis o régio presente que Caio nos trouxe de Terebinto.

— Um escravo?... — perguntou a senhora com entonação de piedade.

— Sim. Um escravo precioso. Sua capacidade mnemônica é um dos fenômenos mais interessantes que tenho observado em toda a vida. Imagina que tem dentro do cérebro a longa história de Roma, sem omitir o mais ligeiro detalhe. Conhece nossas tradições e costumes familiares como se houvera nascido no Palatino. Desejo sinceramente tomá-lo a meu serviço particular, utilizando-o ao mesmo tempo no apuro da instrução de nossas filhas.

Alba Lucinia fitou o desconhecido tomada de surpresa e simpatia. Por sua vez, as duas jovens o contemplavam admiradas.

Saindo, contudo, da sua estupefação, a nobre matrona ponderou refletidamente:

— Helvídio, sempre considerei a missão do­méstica como das mais delicadas de nossa vida. Se esse homem deu provas dos seus conhecimentos, tê-las-ia dado também de suas virtudes para que venhamos a utilizá-lo, confiadamente, na educação de nossas filhas?

O marido sentiu-se embaraçado para responder à pergunta tão sensata e oportuna, mas, em seu auxílio veio a palavra firme de Caio, que escla­receu:

— Eu vo-la dou, minha senhora: se Helvídio pode abonar-lhe a sabedoria, posso eu testificar as suas nobres qualidades morais.

Alba Lucínia pareceu meditar por momentos, acrescentando, afinal, com um sorriso satisfeito:

— Está bem, aceitaremos a garantia da sua palavra.

Em seguida, a graciosa dama fitou Nestório com caridade e brandura, compreendendo que, se o seu doloroso aspecto era, incontestavelmente, o de um escravo, os olhos revelavam uma serenidade superior, saturada de estranha firmeza.

Depois de um minuto de observação acurada e silenciosa, voltou-se para o marido dizendo-lhe algumas palavras em voz quase imperceptível, como se pleiteasse a sua aprovação, antes de dar cum­primento a algum de seus desejos. Helvídio, por sua vez, sorriu ligeiramente, dando um sinal de aquiescência com a cabeça.

Voltando-se, então, para os demais, a nobre senhora falou comovidamente:

— Caio Fabrícius, eu e meu marido resolve­mos que nossas filhas venham a utilizar a coope­ração intelectual de um homem livre.

E, tomando de minúscula varinha que des­cansava no bojo de um jarrão oriental, a um canto da sala, tocou levemente a fronte do escravo, obe­decendo às cerimônias familiares, com as quais O senhor libertava os cativos na Roma Imperial, ex­clamando:

— Nestório, nossa casa te declara livre para sempre!...

Filhas continuou a dizer sensibilizada, di­rigindo-se às duas jovens —, nunca humilheis a liberdade deste homem, que terá toda a indepen­dência para cumprir os seus deveres!...

Caio e Helvécio entreolharam-se satisfeitos. Enquanto Helvídia cumprimentava de longe o li­berto, com um leve aceno de cabeça, altiva, Célia aproximou-se do alforriado, que tinha os olhos úmi­dos de lágrimas e estendeu-lhe a mão aristocrá­tica e delicada, numa saudação sincera e carinhosa. Seus olhos encontraram o olhar do ex-escravo, numa onda de afeto e atração indefiníveis, O liberto, visi­velmente emocionado, inclinou-se e beijou reveren­temente a mão generosa que a jovem patrícia lhe oferecia.

A cena comovedora perdurava por momentos, quando, com surpresa geral, Nestório se levantou do recanto em que se achava e, caminhando até o centro da sala, ajoelhou-se ante os seus benfeitores, osculando humildemente os pés de Alba Lucinia.


  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal