8 de Março- a geração da incontinuidade o meu testemunho Por Ungulani Ba Ka Khosa



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8 de Março- a geração da incontinuidade

O meu testemunho

Por Ungulani Ba Ka Khosa

 

Por comodidade ou não, o 8 de Março de 1977, como data iniciática e histórica em que jovens moçambicanos se entregaram às tarefas de construção de uma nação, é frequentemente obliterada. E quando a ela se referem é sempre no sentido de enaltecimento dos que há trinta e um anos se desligaram dos comodismos académicos e se entregaram às tarefas da construção de um sonho, de uma utopia. Este acriticismo em nada contribui para um  olhar equidistante e transparente da  história contemporânea de Moçambique. E o mais grave neste olhar ao tempo, é o completo silêncio, em termos analíticos, dos que estiveram  envolvidos na construção e derrocada de uma sociedade socialista.



1977, na História contemporânea de Moçambique, é um ano de viragem. A chamada Geração da Utopia que Pepetela deslindou num romance homómino enceta, no caso moçambicano, uma viragem, já previsível no campo pragmático, ao transformar a Frente de Libertação de Moçambique num  partido único e de índole Marxista Leninista. O caminho para o socialismo é, dois anos após a independência, legislado.

No mesmo ano, e num revés inesperado ao socialismo crescente no continente, Marien Ngouabi, então presidente da República Popular do Congo, é assassinado. Ngouabi, como outros dirigentes africanos, havia adoptado para o país, em 1970, a designação de República Popular e transformado o Partido Congolês do Trabalho num e único partido de existência legal. Em Angola, o MPLA sofre um abanão com a revolta Netista de 77. Mas os ânimos, na África Subsahariana, pelos ventos do socialismo, permanecem em alta. O Daomé virou República Popular do Benin nas mãos de Mathieu Kérékou. O Alto Volta, assumindo-se de esquerda, passou  a chamar-se  Burkina Faso. O nosso vizinho Madagáscar já se havia rendido ao socialismo, em 75, através de um golpe de estado. E toda esta mudança, para a direita e esquerda, o que é caricato, é feita pela mão dos militares. Militares que em 68 derrubaram o primeiro presidente do Mali, Modibo Keita. Homem de esquerda, fundador da OUA, Keita viria a morrer, no exílio, em Maio de 77. Derrubado também por militares foi outro dos percursores do pan-africanismo, o Kwami  Nkrumah. Esta ambivalência dos militares far-se-á  sentir também a norte do Sahara.

 Contrariando o crescente entusiasmo socialista subsahariano, Anwar Sadat, então presidente do Egipto, manda encerrar os consulados soviéticos, num claro distanciamento em relação ao bloco socialista. A acrescentar a isto, a União Soviética vê-se obrigada a abondonar a Somália e o Sudão. Internamente, os soviéticos alteram a  constituição, e Leonid  Brejnev, para além de secretário geral, torna-se presidente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. As reformas, comummente conhecidas como o degelo soviético na época do Krushev, há muito que haviam sido arrumadas na prateleira da História. A zastoi, era da estagnação, característica da época Brejneviana, começa a ter brechas na pátria do socialismo. A invasão ao Afeganistão, em 79, será uma das bolas de neve na derrocada do socialismo.

Em Moçambique, os jovens do 8 de Março, na continuidade dos ideais da geração triunfadora, incarnam os sonhos de uma sociedade justa e igualitária. Ela aceita e assume os princípios propugnados no III congresso da Frelimo. O inegável carisma do então presidente da República contagia-os, não só a eles, como à população em geral. Eles invadem, no bom sentido, os distritos com o fito de transformar a sociedade, escangalhando o aparelho de estado colonial. O bloqueio de fronteiras com a Rodésia não se faz sentir na mente das pessoas, porque a sociedade, nivelando-se horizontalmente, encontra formas de auto-sustento. As carências são minimizadas no alento colectivo por dias melhores. A morte do activista anti-apartheid Stephen Biko, em Setembro de 77, nos cárceres do regime segregacionista da África do Sul, eleva o sentido de solidariedade internacional dos moçambicanos.

 Internamente, os ventos da colectivização varrem o país. A propriedade privada passa a ser uma miragem no solo moçambicano. A anarquia, melhor, a  livre circulação de ideias, bem visível nos primeiros dois anos da independência, é refreada com a constituição da organização da juventude moçambicana. O mesmo acontecerá com organizações para as crianças e mulheres. Em forja está o Plano Prospectivo e Indicativo. Erradicar a pobreza na década de  oitenta é a meta a atingir. Com a independência do Zimbabwe, em 1980, o alento dos moçambicanos por uma sociedade igualitária torna-se crescente. Mas o modelo de sociedade escolhido estava a entrar em rota de colisão na pátria mãe.

Se para a geração da independência a primavera de Praga, o Maio de 68, os atropelos programáticos de Mao Tsé Tung, a crise de petróleo de 1973, não foram sinais bastantes de que a caminhada socialista devia ser jogada com outros dados históricos, a geração seguinte, portanto, a de 8 de Março, devia, por obrigação moral, ler, ao menos, com outros olhos, os sinais de mudança que se estavam a desenhar.

 A União Soviética, num gesto que não se via desde a invasão da Checoslováquia em 68, invade, em 1979, o Afeganistão.  Este país, de orientação socialista, torna-se no Vietname soviético. Ronald Reagan, conservador, torna-se presidente dos Estados Unidos em 80. No Irão, em 1979, e como sinal inequívoco de mudanças no horizonte ideológico mundial, a revolução islâmica triunfa sob a liderança de Ayatollah Khomeine. Em 1980, o conhecido sindicalista Lech Walesa, fundador e líder do Solidariedade, organização sindical independente, lidera o movimento grevista dos trabalhadores do estaleiro de Gdansk, pondo em cheque o regime comunista polaco. Estes sinais de fragilidade económica e social no bloco socialista, de endurecimento de políticas anti-comunistas sob a presidência de Reagan, e do aparecimento do fundamentalismo religioso, dão mostras de que se está em presença do fim de uma era. Mas em 1982, longe dos sinais de mudança, e num gesto de verticalidade política aos princípios socialistas em declínio, Angola, Moçambique, Etiópia, Nicarágua, Iêmen do Sul e Afeganistão, comparecem, ao mais alto nível, ao funeral de  Leonid Brejnev.

A era da estagnação, o socialismo burocrático, morre com Brejnev. Mas os africanos mantêm-se fiéis aos estereótipos do socialismo brejneviano. Yuri Andropov, homem da segurança, mostra, no curto espaço da sua liderança, sinais  de rompimento com a política Brejneviana. Os africanos ignoram os sinais. E é o seu sucessor, Mikhail Gorbachev, que em 1985 aparecerá ao mundo como o grande reformador. A perestroika e a glasnost  serão, daí em diante, as ferramentas em uso na  queda  de um sistema alternativo de desenvolvimento. A grande bola de neve desliza  pela Sibéria abaixo.

Os países africanos de orientação socialista, distantes dos sinais de derrocada de um tipo de construção socialista que já se vislumbrava com a invasão à Checoslováquia em 68;  longe das consequências da crise do petróleo em 73; insensíveis, no plano teórico, às causas da revolta das massas trabalhadoras polacas em 80; e alheios ao advento do fundamentalismo islâmico que triunfava no Irão do Ayatollah Khomeine, pouco se preocuparam em refazer os seus modelos de construção socialista. Entregaram-se, acriticamente, e de forma vergonhosa, aos ventos da História.

 Seguindo o pensamento de Amílcar Cabral, diria que a pequena burguesia revolucionária não se suicidou como classe, identificando-se com as classes trabalhadoras na chegada ao poder, antes seguiu o seu instinto natural de classe, enfeudando-se ao imperialismo metamorfoseado na economia global.

Até aqui, falo da geração a que pertenço, nenhum sinal de questionamento da  geração de 8 de Março. Geração, diga-se, que aceitara, com entusiasmo, as luzes de uma sociedade igualitária, de uma sociedade sem classes, de uma sociedade anti-imperialista e retaguarda segura do socialismo, entra, com a passividade de um neófito, para um regime económico que ajudara a destruir em termos práticos e teóricos. Um absurdo.

Uma geração, a meu ver, deixa a sua marca, a sua voz, o seu testemunho. A geração 8 de Março, vivenciando o cair do pano socialista, não foi capaz de construir o seu próprio corpus teórico. Aceitou acriticamente o modelo de construção socialista propugnado pela geração da libertação e, consequentemente, não foi capaz de pôr em causa a viragem selvagem, à direita, da sociedade moçambicana.

 Perante os desafios que esta época da globalização coloca, a geração 8 de Março remeteu-se ao silêncio. Um silêncio que não permitiu, ao devido tempo, que ela estabelecesse a ponte entre a geração da independência e a da globalização. E este hiato deve-se, em muito, à ausência de protagonismo na recente história do país. Ela, infelizmente, não deixou, no meu entender, de ser aquilo que sempre foi: o eterno peão na recente História moçambicana. Em síntese: uma geração seguidista.

 

P.S.



Em jeito de agradecimento

Por vezes as palavras não conseguem transportar consigo a carga emotiva que nos vem da alma. E sinto isso agora que me dirijo a todos os que, directa ou indirectamente, me prestaram apoio nos difíceis e inesquecíveis momentos por que passei ao longo do ano de 2007. A eles  agradeço o apoio prestado, reiterando, aqui e agora, a minha forte convicção de que o desinteressado gesto humano que me envolveu foi tão terapêutico como as seculares e credíveis receitas médicas. Estou vivo, e com a forte convicção de que a vida está começando no difícil patamar da separação da verdade e da mentira, da amizade e do ódio, do oportunismo e da solidariedade.

O meu sincero obrigado.

SAVANA – 21.03.2008


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