A abordagem etnográfica na investigação científica



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A abordagem etnográfica na investigação científica

Carmen Lúcia Guimarães de Mattos

UERJ, 2001

Resumo

A etnografia como uma abordagem de investigação científica é explorada nesse texto para demonstrar como esta abordagem de pesquisa traz algumas contribuições importantes ao campo das pesquisas qualitativas, especialmente aquelas que se interessam pelos estudos das desigualdades sociais e dos processos de exclusão. Introduz o conceito de etnografia e desenvolve aspectos que envolvem o trabalho etnográfico, informando que fazer etnografia implica em: 1) preocupar-se com uma análise holística ou dialética da cultura entendida: 2) introduzir os atores sociais com uma participação ativa e dinâmica e modificadora das estruturas sociais; 3) preocupar-se em revelar as relações e interações significativas de modo a desenvolver a reflexividade sobre a ação de pesquisar. Conclui que alguns cuidados devem orientar o pesquisador - a proposta de pesquisa, o período despendido no campo, a descrição densa e minuciosa dos dados e finalmente, a ética na pesquisa.

A etnografia é um processo guiado preponderantemente pelo senso questionador do etnógrafo. Deste modo, a utilização de técnicas e procedimentos etnográficos, não segue padrões rígidos ou pré-determinados, mas sim, o senso que o etnógrafo desenvolve a partir do trabalho de campo no contexto social da pesquisa. Estas técnicas, muitas vezes, têm que ser formuladas ou criadas para atenderem à realidade do trabalho de campo. Nesta perspectiva, o processo de pesquisa será determinado explícita ou implicitamente pelas questões propostas pelo pesquisador.

A etnografia como abordagem de investigação científica traz algumas contribuições para o campo das pesquisas qualitativas que se interessam pelo estudo das desigualdades e exclusões sociais: primeiro, por preocupar-se com uma análise holística ou dialética da cultura, isto é, a cultura não é vista como um mero reflexo de forças estruturais da sociedade, mas como um sistema de significados mediadores entre as estruturas sociais e a ação humana; segundo, por introduzir os atores sociais com uma participação ativa e dinâmica no processo modificador das estruturas sociais. O "objeto" de pesquisa agora "sujeito" é considerado como "agência humana" imprescindível no ato de "fazer sentido" das contradições sociais; e terceiro, por revelar as relações e interações ocorridas no interior da escola, de forma a abrir a "caixa preta" do processo de escolarização (Mehan, 1992; Erickson, 1986). Assim, o "sujeito", historicamente fazedor da ação social, contribui para significar o universo pesquisado exigindo uma constante reflexão e reestruturação do processo de questionamento do pesquisador.

Etnografia é também conhecida como: pesquisa social, observação participante, pesquisa interpretativa, pesquisa analítica, pesquisa hermenêutica. Compreende o estudo, pela observação direta e por um período de tempo, das formas costumeiras de viver de um grupo particular de pessoas: um grupo de pessoas associadas de alguma maneira, uma unidade social representativa para estudo, seja ela formada por poucos ou muitos elementos. Por exemplo: uma vila, uma escola, um hospital, etc.

A etnografia estuda preponderantemente os padrões mais previsíveis do pensamento e comportamento humanos manifestos em sua rotina diária; estuda ainda os fatos e/ou eventos menos previsíveis ou manifestados particularmente em determinado contexto interativo entre as pessoas ou grupos.

Em etnografia, holisticamente, nós observamos os modos como esses grupos sociais ou pessoas conduzem suas vidas com o objetivo de "revelar" o significado cotidiano, nos quais as pessoas agem. O objetivo é documentar, monitorar, encontrar o significado da ação.

Tanto a etnografia mais tradicional (Geertz ,1989, Lévi-Strauss 1964) quanto a mais moderna (Erikson,1992; Woods 1986, Mehan, 1992 Spidler,1982 Willis, 1977), envolvem longos períodos de observação, um a dois anos, preferencialmente. Este período se faz necessário para que o/a pesquisador/ra possa entender e validar o significado das ações dos/as participantes, de forma que este seja o mais representativo possível do significado que as próprias pessoas pesquisadas dariam a mesma ação, evento ou situação interpretada.



Significado de Etnografia

O marco conceitual com o qual significamos etnografia é o interacionismo símbólico (Schütz, 1962; Park & Burgess, 1921; Blumer 1937, Thomas, 1927), especialmente, nas análises do processo de socialização, entendido como uma negociação constante que não se limita ao vínculo social. O interacionismo simbólico representa uma das principais escolas de pensamento da sociologia e tem como característica incorporar a reflexividade na análise da ação (Mead, 1934). Assimilado pelo pensamento sociológico como parte da psicologia social sociológica o interacionismo simbólico é largamente representado nos estudos sobre o cotidiano e da interação face a face. (GIDDENS, 1997 p. 286).

Dentro deste enquadre teórico, buscamos no trabalho de Erickson (1986 e 1984), dados para explicar o significado da etnografia aplicada à sala de aula e a história intelectual da etnografia, sinalizando o tipo de questões que devemos ter em mente quando usamos esta abordagem de pesquisa.

Para entender o significado da etnografia aplicada a pesquisa social e educacional, se faz necessário fazer uma distinção entre etnologia e etnografia. Um dos pontos que une essas duas abordagens de pesquisa é o interesse comparativo e a conexão histórica que possuem.

Etnologia é um termo originário do século XIX para designar estudos comparativos dos modos de vida dos seres humanos. Neste período da história muitos estudos voltaram-se para a origem da vida humana: por exemplo, a arqueologia, a lingüística histórica, desenvolveu-se na tentativa de revelar a origem da linguagem, a origem do homem. Etnologia emerge como ciência neste contexto, juntamente com a arqueologia, filologia, lingüística histórica, paleontologia e a teoria geral da evolução em biologia. Uma das grandes questões do início do século XIX foi o desenvolvimento histórico. Ao mesmo tempo em que a questão da diversidade de desenvolvimento também emerge neste contexto ainda no mesmo período, os europeus ocidentais estavam engajados no colonialismo em todo o mundo, descobrindo uma variedade imensa de sociedades desconhecidas e radicalmente diferentes nas formas básicas de organização de grupamentos humanos, religião, linguagem. Interesses em estudos comparativos emergiram deste contexto. Portanto, a etnologia apareceu primeiramente em estudos antropológicos ingleses, 50 ou 60 anos antes do aparecimento da etnografia.

A etnografia desenvolve-se no final do século XIX e início do século XX, como uma tentativa de observação mais holística dos modos de vida das pessoas. Foi encontrada primeiramente em livros de viagem, descrevendo sociedades exóticas. Muitos desses livros foram criticados por serem incompletos ou por dramatizarem excessivamente os fatos descritos. Houve também neste período um estudo de caso descrevendo os modos de vida desses "povos exóticos", introduzindo desta forma a etnografia que daí se desenvolveu. Um dos marcos históricos na etnografia é o controvertido trabalho de Margaret Mead - Caming of Age in Samoa, desenvolvido na universidade de Columbia, intitulado: um trabalho monográfico em pesquisa educacional. No entanto, a etnologia ficou e ainda permanece como suporte para a etnografia moderna.



Etnologia - Etno do grego etnoe, termo para designar os outros povos que não eram gregos -persas, latinos, egípcios. A palavra grega elenoe designava o povo grego e etnoe todos os outros povos. A parte log(o) da palavra, significa saber sobre, estudo científico sobre. Portanto, etnologia é o termo para o estudo sistemático ou científico sobre o outro. O estudo comparativo sistemático da variedade de outros povos diferente do nosso. Etnologia é ramo da antropologia cultural que estuda a cultura dos povos naturais, é o estudo e o conhecimento, sob o aspecto cultural, das populações primitivas.

Etnografia - Grafia vem do grego graf(o) significa escrever sobre, escrever sobre um tipo particular - um etn(o) ou uma sociedade em particular. Antes de investigadores iniciarem estudos mais sistemáticos sobre uma determinada sociedade ele escreviam todos os tipos de informações sobre os outros povos por eles desconhecidos. Etnografia é a especialidade da antropologia, que tem por fim o estudo e a descrição dos povos, sua língua, raça, religião, e manifestações materiais de suas atividades, é parte ou disciplina integrante da etnologia é a forma de descrição da cultura material de um determinado povo.

Para Geertz, praticar etnografia não é somente estabelecer relações, selecionar informantes transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário " o que define é o tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco elaborado para uma "descrição densa" (Geertz, 1989, p. 15).

A maior preocupação da etnografia é obter uma descrição densa, a mais completa possível, sobre o que um grupo particular de pessoas faz e o significado das perspectivas imediatas que eles têm do que eles fazem; esta descrição é sempre escrita com a comparação etnológica em mente. O objeto da etnografia é esse conjunto de significantes em termos dos quais os eventos, fatos, ações, e contextos, são produzidos, percebidos e interpretados, e sem os quais não existem como categorial cultural. Esses conjuntos de significantes nos apresentam como estruturas inter-relacionadas, em múltiplos níveis (Ogbu, 1981) de interpretação.

Etnografia é escrita do visível. A descrição etnográfica depende das qualidades de observação, de sensibilidade ao outro, do conhecimento sobre o contexto estudado, da inteligência e da imaginação científica do etnógrafo.

Tradicionalmente, os homens fazem comparações entre sua própria cultura e as de outros povos. Como também, pessoas hierarquicamente mais afluentes observam e comparam as pessoas de menos afluência, sempre observando o outro como diferente de si mesmo. Neste sentido, o que sempre existiu foi uma comparação entre os modos de vida de outros povos que eu estou descrevendo e o meu próprio. Existiu também uma comparação no sentido mais amplo, uma idéia de que o modo de viver comunitário é representativo de um conjunto de opções, por modos de organizações que eram muito mais variados do que as opções oferecidas. Por analogia, este é o modo como pensamos a linguagem como representativa de uma certa escolha na forma de organização social, o que é muito parecido com o que fazemos hoje como etnógrafos. A etnografia sempre teve interesse na comparação etnológica e a maioria das pessoas que faz este trabalho hoje continua a utilizar este instrumento de análise. O interesse comparativo na etnografia é aliado ao interesse na descrição holística da cena, do evento social, e/ou da interação grupal que nos propomos investigar. Ao estudarmos uma sociedade tentamos estudar o todo desta sociedade. Ao estudarmos uma vila, observaremos a vila toda - jovens, velhos, área urbana, rural, relações intergeracionais, relações de gênero, de classe - os fatos sociais que ocorrem neste contexto.

Na moderna etnografia, o legado da etnologia é o interesse no desenvolvimento como um todo, dentro de uma dada sociedade, e o interesse em todos os tipos de variações deste desenvolvimento. Uma distinção entre a etnologia e etnografia existe particularmente em estudos de casos comparativos. Em etnografia existe o interesse da sociedade local ou grupo estudado em descobrir e relatar o mais detalhadamente possível todos os tipos de variações que ocorrem dentro deste grupo. Nós não estamos interessados numa forma única de variação em relação ao total da variação humana, mas estamos também interessados em exaustivamente analisar qualquer forma de variação existente no grupo local. Se numa comunidade local existe mais de uma maneira de organização social do grupo, por exemplo, em relação à linguagem, classe social e gênero, nós sempre vamos querer descobrir todos os modos de agrupamento daquele grupo em particular.



Microanálise etnográfica

A microanálise etnográfica é um instrumento da etnografia, freqüentemente utilizada nos estudos da linguagem é caracterizada como: sociolingüística da comunicação, microanálise sociolingüística, sociolingüística interacional, análise de contexto, análise de discurso, análise da conversação. Considerada como micro porque estuda-se particularmente um evento ou parte dele, ao mesmo tempo em que se dá ênfase ao estudo das relações sociais em grupo como um todo, holisticamente (Lutz,1983). Em microanálise ao mesmo tempo em que se dá ênfase ao significado das formas de envolvimento das pessoas como atores, exige-se do pesquisador um detalhamento criterioso na descrição do comportamento através da transcrição lingüística verbal e não-verbal de comportamento - olhares, pausas, tom de voz, detalhes da interação e o que isto significa (Erickson 1982 e 1992, Kendon,1977). Na microanálise etnográfica existe uma preocupação com o interesse dos atores sociais na escolha de uma determinada forma de comportamento e qual o significado desta escolha. Portanto, enfatizar-se o significado da interação como um todo, a relação entre a cena imediata da interação social de um grupo e o significado do fato social ocorrido em grandes contextos culturais, por exemplo: cultura da sala de aula, da escola, das escolas em geral. (Erickson, 1992)

A investigadora ou investigador, utilizando uma teoria crítica de análise aliada à abordagem etnográfica, procura identificar o significado nas relações sociais de classe, etnia, linguagem, gênero, e a cena imediata onde estas relações se manifestam. Por exemplo: numa entrevista de seleção para um trabalho podemos investigar as formas de mobilidade social aplicadas nesse local de trabalho. A microanálise etnográfica leva em consideração não somente a comunicação ou interação imediata da cena, como também a relação entre esta interação e o contexto social maior, a sociedade onde este contexto se insere.

A etnografia em geral serve de "background" para a microetnografia. No estudo de caso realizado por Shultz, et.al. (1979) foi analisado o turno de fala, e os padrões culturais da fala, comparando culturalmente um grupo familiar de origem italiana com uma família americana. Neste caso após extensivo trabalho de observação participante, alguns segmentos de fala foram destacados para microanálise. Um outro trabalho etnográfico (Mattos, 1992), após a realização de estudos macroanáliticos sobre as percepções sobre o fracasso escolar entre três grupos: 1) jovens multirepentes e excluídos; 2) pais, professores e diretores de escola; 3) políticos e administradores do sistema educacional. A pesquisadora destacou um estudo microanalítico de uma sala de aula para ilustrar como as relações intra-escolares, especialmente a relação professor-aluno, podem contribuir para o entendimento sobre os processos de exclusão escolar nas séries iniciais do Ensino Fundamental.

Na microanálise etnográfica fazemos isso quando estudamos a sala de aula. Observamos por um longo período de tempo, uma escola, uma sala de aula, um professor. Para depois particularizaremos um processo interacional ou um fato que consideramos microanaliticamente relevante. Isto é, destacamos um fato que numa micro-dimensão representa o todo do processo estudado. No estudo de Shultz et. al., (1979), Where’s the floor, cinco pesquisadores observaram por dois anos, um professor e 27 alunos, visitando as famílias, gravando as aulas, observando as situação da escola, a comunidade local, a situação da comunidade no contexto geográfico e político, a situação cultural do grupo e as relações entre esta comunidade ou esse grupo em contraste ou semelhança com outras comunidades ou outros grupos, observando os detalhes nas formas de fala. Do mesmo modo Mattos 1992, em seu trabalho de pesquisa, observou durante dois anos duas comunidades, uma na favela e outra na zona rural, visitas sistemáticas foram realizadas em classes com dificuldades de aprendizagem. Duas destas classes foram selecionadas para um estudo mais detalhado de oito meses, o que culminou com um estudo de caso de uma delas, descrito através de uma microanálise, onde detalhes da interação entre professora e alunos tornaram-se parte significativa do contexto da sala de aula e do tipo de interação existente. Após este intensivo trabalho de observação, o desafio do pesquisador ou da pesquisadora é tentar organizar todos os dados como num quebra-cabeça. Partindo do contexto maior olhando a comunidade como um todo até poder destacar uma particularidade generalizável deste contexto que possa ser estudada microanaliticamente.

Significado e sua significação

O significado local e a organização do significado local para a pessoa estudada constituem, assim como a comparação e a descrição densa, aspectos importantes a serem observados no trabalho etnográfico. Pressupomos que no "pequeno mundo" de uma sala de pré-escolar exista uma ordem particular de organização sócio-cultural, por ser conduzida por um tipo particular de professor, sua filosofia de trabalho, sua origem sócio-cultural, a classe social em que a comunidade está inserida, e ainda por causa da personalidade individual das pessoas envolvidas. Quando existe um grupo de pessoas reunidas para se socializar, uma ordem social é desenvolvida para aquele grupo particular de indivíduos (HYMES. 1977; Goffman, 1981). Isto acontece nas escolas, nas fábricas, nos hospitais, nos escritórios, onde quer que as pessoas se encontrem regularmente para socializar de alguma forma. Existe uma ética de organização e um significado que é peculiar a este grupo especificamente.

A etnografia está interessada no significado local para estas pessoas em particular. Existe este interesse geral em comparação com todos os outros modos de ser e fazer que nós conhecemos como humanos, mas existe também o interesse no estudo de caso local, de ser bem específico sobre o significado da organização de um grupo particular de pessoas. Como na lingüística, estamos interessados em alguma coisa que é universal sobre a linguagem enquanto ela mesma, na forma que a conhecemos, mas só podemos aprender sobre a universalidade estudando os casos particulares. Só entendemos a variação gramatical ou fonética das várias línguas, olhando uma língua de cada vez. Em cada língua em particular nós estamos vendo um universo particular, um universal concreto (Erickson, 1986). Todo indivíduo fala sua própria língua e dialeto particular; então existe sempre uma forma de falar que é particular a um indivíduo e neste aspecto ele é um universo concreto de estudo da língua.

O interesse no local e no particular está inerentemente conectado com o interesse no geral e universal. Por exemplo, existe alguma coisa sobre o desenvolvimento das crianças que Piaget aprendeu estudando os seus três filhos, que são comuns a todas as crianças, mas precisamos de muito tempo e estudos para nós descobrirmos que nem todas as crianças desenvolvem-se exatamente como as três crianças de Piaget. Então alguma coisa sobre estas três crianças era universal concreto em desenvolvimento, mas outras coisas eram muito específicas a este tipo de crianças oriundas da classe alta, filhas de um intelectual suíço num momento histórico particular.



Variações no Escopo

Os estudos sociolingüísticos preocupam-se com as variações lingüísticas e procuraram dentro de uma dada sociedade ou comunidade, por todos os tipos de variações nos modos de falar ou uso da fala (HYMES, 1977). Isto é, quando uma pessoa usa a língua para ser cortês, para persuadir, não iremos procurar um tipo de persuasão ou um tipo de tratamento cortês, queremos observar todos os tipos de tratamento existentes. Todos os modos de humor que uma pessoa manifesta numa dada situação de interação, como também todos os tipos de agrupamentos ou todas as relações de subordinação e insubordinação de uma dada ação. Queremos saber se numa sala de aula a relação de subordinação/ insubordinação entre professor/a e alunos/as é a mesma para todos os/as alunos/as ou se existem alguns alunos/as que desfrutam de privilégios mais que outros em sua relação com o/a professor/a. Entre os/as alunos/as, pesquisamos, se é diferente o caráter da relação de subordinação/insubordinação entre eles, se existem variações entre o caso de uma sala de aula específica comparando-se com outras salas de aulas. Queremos investigar as relações entre ricos e pobres, oprimidos e opressores, grandes e pequenos, meninas e meninos, procuramos investigar se diferença em subordinação ou de poder é uma preocupação específica de um grupo em particular. Queremos observar todas as formas de identidade sociais existentes: gênero, idade, classe social, riqueza, entre outras.

A questão básica na pesquisa etnográfica é delinear o escopo das variações: Qual é a abrangência das variações de "X" ou de "Y"? Se estivermos analisando a família, vamos querer saber quantos irmãos menores existem, não que o nosso interesse esteja somente no tipo de agrupamento por faixa etária, mas também se um dos irmãos menores tem mais privilégios que o outro, se tem, porquê e como este dado é percebido no escopo geral da organização familiar como um todo. Se estivermos analisando a sala se aula de leitura, quantos tipos de reações a uma aula de leitura têm uma professora? Ela reage do mesmo modo para um tipo de leitura de um aluno que para outro tipo? Alguns erros contam para ela mais que os outros? Em que circunstâncias isto ocorre? Quando um mesmo erro é relevante numa interação e irrelevante em outra? São os alunos diferentes quando esta discrepância de reação ocorre? São eles pobres ou ricos, meninas ou meninos, fracos ou fortes? Eles pertencem a uma mesma classe social? Estamos sempre procurando a totalidade de variações manifestas numa ação, fato, fenômeno, ou situação na qual estamos interessados.

Perspectiva dialética

A perspectiva dialética, assim como a comparação, a densidade descritiva, o significado e sua organização e as variações, consiste numa preocupação da etnografia. Dialética no sentido fundamental da noção, que os norte-americanos chamam, de relação ecológica entre os vários atores sociais ou grupos numa comunidade ou instituição, movimento histórico vivenciado pelos atores sociais num determinado espaço de tempo. Procuramos as relações entre estes fenômenos e não apenas um fenômeno particular. Queremos observar o significado de um erro específico de leitura para uma criança, comparando-se este erro com o de outra criança na mesma situação de leitura, querendo saber se existem privilégios entre as duas. Queremos saber como agem as meninas em relação aos meninos. São os modos de agir delas iguais ou diferentes aos dos meninos? Não estudamos somente as meninas ou os meninos, estudamos também as relações entre eles. Nós não estudamos a escrita isoladamente, nós queremos entender como a habilidade em escrever um ensaio literário desenvolvido por uma certa pessoa, pode influenciar a habilidade que esta mesma pessoa pode desenvolver escrevendo um ensaio científico, ou como estas habilidades relacionam-se entre si e em relação às habilidades de outras pessoas nestas mesmas tarefas.



Quantitativo versus Qualitativo

Um trabalho quantitativo em educação assim como em outros campos de estudo, muitas vezes, considera o fenômeno isolado em si mesmo e isto pode torna-se problemático; o problema é o uso da quantificação, de um sumário numérico para expressar um fenômeno em sua totalidade, tratando-o de maneira abstrata.

Gostaríamos de tentar entende algumas questões quanto a esta abordagem. Existe uma sofisticada matemática que pode ajudar quanto a isso. No entanto, é a ação operacional de pinçar um item isolado do fenômeno ou contexto e tratá-lo isoladamente da sua totalidade, das relações maiores que este contexto apresenta que se apresenta como um complicador desta abordagem. Tratar o fenômeno diferente do contexto maior a que ele pertence, sem olha-lo ecológica ou dialeticamente, sem olhar o todo e as partes ao mesmo tempo pode fazer com que se perca o sentido do todo do fenômeno a ser compreendido.

Nesta abordagem, freqüências são tabuladas e comparadas com outro grupo que freqüências pinçadas de um outro contexto e podemos perder o sentido de relação entre estes dados ou itens que pinçamos. Este não é um privilégio somente da estatística, mas sim uma questão de utilização de um dado fora de contexto; nós podemos fazer isto sem estatística.

A maioria das falsas argumentações entre quantificação e pesquisa qualitativa está relacionada ao mapeamento das questões fundamentais a que nos propomos a entender, estudar ou pesquisar. Para alguns tipos de pesquisa temos que ter uma percepção dialética ou ecológica, não podemos usar certos tipos de quantificações. De forma isolada. Não que contar as coisas seja um erro, mas porque inerentemente ao ato de quantificar, temos que abstrair um item para contá-lo e as pessoas que fazem quantificação podem estar equivocadas em enfatizarem fenômenos considerados destacados em relação a outros fenômenos.

Não precisamos somente quantificar para intelectualmente fazer ciência. Ocasionalmente crucificamos, por algumas razões, pesquisas estatísticas em educação ou em outros campos, as linhas de trabalho do gênero experimental ou estatística, não podemos penalizar a estatística ou as experimentações ou achar que somente estas linhas de trabalho são responsáveis por alguns tipos de problemas nas pesquisas sociais, porque esta não é a realidade.

É importante relembrar que o interesse da etnografia reside no estudo das variações de determinado caso e das relações entre estas variações e as variações próprias do contexto maior em que este caso está inserido. Temos também uma preocupação específica com uma perspectiva dialética ou ecológica na pesquisa social que se contrapõe à abordagem quantitativa no sentido do tratamento que esta linha dá ao caso estudado. Na abordagem dialética temos interesse na totalidade do problema e não simplesmente no tratamento isolado de uma parte do mesmo. Entretanto, isto não significa que abandonemos a estatística como método de tratamento de dados; ao contrário a quantificação utilizada de maneira sensível será de grande valia para a análise etnográfica.

Interação - Contexto - Interação

Antes de trabalhamos a utilidade desses conceitos na prática da pesquisa etnográfica, se faz necessário explicar a natureza dos termos que estamos aplicando. Interação é o processo que ocorre quando pessoas agem em relação recíproca, em um contexto social. Este conceito implica numa distinção entre ação e comportamento. Comportamento inclui tudo que o indivíduo faz. Ação é um comportamento intencional baseado na idéia de como outras pessoas o interpretarão e a ele reagirão. Na interação social, percebemos outras pessoas e situações sociais e, baseando-nos nelas, elaboramos idéias sobre o que é esperado, e os valores, crenças e atitudes que a ela se aplicam. Nessa base, resolvemos agir de maneira que terão os significados que queremos transmitir. (Mead,1938; SchÜtz,1932; Weber,1921; Woods, 1992).

Ao pesquisarmos a organização dos processos de interação é interessante estudarmos como as pessoas em interação formam ambiente um para o outro, até mesmo além do limite desta interação imediata, onde sempre existe o interesse nas relações ambientais. Por exemplo, o que significa para as meninas conviverem com meninos em sala de aula? Como as diferenças sócio-culturais-econômicas se manifestam na sala de aula? O que isso significa? Como isto acontece? Como o modo de agir de um grupo ou uma pessoa influencia outro grupo ou outra pessoa? Essas são algumas das questões que estamos interessados quando na investigação sobre a interação na sala de aula.

Concordamos com Geertz, quando explica que o conceito de cultura é semiótico, como tal, não é um poder, alguma coisa que pode ser atribuída casualmente - aos fatos sociais, aos comportamentos, as instituições ou aos processos, cultura é contexto, onde esses fatos, comportamentos, instituições, etc., podem ser descritos de forma inteligível, com densidade (Geetrz,1989 p.24). Considerar cultura como contexto, implica em ampliar nosso entendimento sobre contexto, como simplesmente um local, o background de uma cena, aquilo que é parte integrante do fato, do evento, significa estudar também o que entendemos por cultura. Cultura é forma como o homem significa o seu mundo a partir da teia de signos e símbolos que ele criou e teceu ao longo de sua história (Weber,1921; Geertz, 1989; Erickson,1987)

Na abordagem dialética da análise de um contexto devemos evitar o estudo de um fragmento da fala isolado, destacado do que esta significa para pessoa que falou e para as outras pessoas dentro do contexto. Devemos observar em detalhe a ação verbal e não-verbal na cena em que ocorre a interação e o evento de fala (KENDON, 1977). A preocupação é com a totalidade. Como a totalidade influência às partes desta totalidade em si mesma e em cada outra parte do todo.

Interação é movimento, porque existe uma nova atividade acontecendo a cada momento, existe um novo momento da história ocorrendo a cada movimento social cotidiano. O contexto existe e isso é importante de ser determinado, mas é importante ainda saber a recorrência deste contexto em relação ao objeto de estudo. Saber quando um contexto aparecerá novamente, seu padrão de recorrência, é parte fundamental da aprendizagem da análise sócio-cultural. A questão que envolve a identificação de um contexto já foi explorada em alguns estudos interpretativos e envolve um tipo característico de problema apresentado em pesquisas etnográficas - como uma pessoa pode usar apropriadamente uma forma de interação social que se torna imprópria em outro contexto. Esta impossibilidade de contextualizar um dado de pesquisa dificulta para o pesquisador entender o significado da interação para o seu estudo (Shultz et.al.,1983). Estamos nos reportando ao entendimento da ecologia ou dialética de organização de uma cena interativa, como a interação muda de momento para momento, de contexto para contexto é vista como um sistema flutuante, não fixo, portanto, difícil de significar.



A ironia da abordagem etnográfica

A ironia neste projeto intelectual que é a etnografia é que o que o etnógrafo tenta fazer continuamente é falar sobre organização da interação no contexto de modo que esta fala seja significativa para os atores sociais que estamos investigando. Como nos diria Paulo Freire, falar com ele e não sobre eles, e isso é uma tarefa muito difícil, se não, quase impossível.

Na tentativa de significar o local pela narrativa descritiva usando termos que são o mais próximos possíveis daqueles usados pelos atores sociais que participam deste projeto, termos que eles usariam se lhes fossem permitido falar. Fazer isso é diferente de escrever "protocolos" de fala onde se desenvolve uma interação com grande detalhe do comportamento do que as pessoas fazem. Estes podem ser acurados, mas o que os torna etnográficos são as descrições feitas usando os termos mais próximos dos problemas e significados numa perspectiva das pessoas mesmas. Ao escrevermos uma narrativa, temos que colocar os atores como eles se apresentam sob a perspectiva deles. Para isso é importante se conhecer o significado local da ação. Ao tentarmos escrever sobre o outro, o ethnoe, de uma maneira em que o ponto de vista dele seja considerado, estamos tocando num ponto frágil da utilização da abordagem etnográfica: a tentativa de fazer sentido, das maneiras de organização dos outros de um modo que não seja comprometedor, não seja invasor, não seja discriminatório, não seja opressor, ou não seja excludente.

A irônica dificuldade deste trabalho é que, a priori, nunca conseguiremos dar conta desta tarefa - descrever o outro sob o ponto de vista dele mesmo. Na melhor das intenções, utilizando instrumentos como o vídeo-teipe, podemos chegar mais perto da ação que está realmente acontecendo, mas isso não é suficiente. Portanto, genericamente é frustrante e insatisfatório o trabalho de pesquisa etnográfica. Essa ironia deve motivar a meditação para o/a pesquisador/ra, mas é o reconhecimento deste dilema que nos impulsiona na tentativa de sua superação deste desafio.



Ênfase na questão de pesquisa

O trabalho etnográfico tem mais interesse na proposta da pesquisa do que no procedimento de coleta de dados. Um instrumento de pesquisa não constitui necessariamente um método de pesquisa. Portanto, devemos enfatizar os problemas de conteúdo da pesquisa, do tema a que nos propomos pesquisar, tanto quanto ou mais que, nos procedimento utilizado por ela. Em etnografia o trabalho de investigação precisa ser visualizado em sua totalidade, com propósitos bem definidos.

A concepção teórica que define um fenômeno primário de interesse no estudo etnográfico sobre o processo de ensinar, por exemplo, é muito diferente dos interesses que orientavam os estudos sobre este processo tradicionalmente. Não queremos com isso fomentar a competição entre os diversos paradigmas que orientam a pesquisa educacional historicamente, ao contrário a convivência harmônica de todos os modos de fazer pesquisa, algumas vezes até a superposição de modelos, demonstra que a esta convivência é necessária. Os velhos paradigmas não morrem, na melhor das hipóteses, podem ser superados pelos novos.

Em etnografia tentaremos combinar uma análise detalhada de comportamentos, seus significados no dia-a-dia de interação social. Analisaremos também o contexto social maior em que este comportamento está inserido. A análise da interação face a face é uma das formas de procedimento que podemos escolher para realizar esta tarefa. Queremos ser específicos sem sermos abstratos, sermos empíricos sem sermos positivistas, sermos rigorosos (ERICKSON, 1988).



O trabalho etnográfico

Sem a pretensão de estar especificando procedimento de investigação etnográfica, mas consciente de que a pratica envolve muito fazeres dos quais pesquisados mais inexperientes não estão muito atentos, ilustramos no quadro a seguir alguns aspectos dessa prática.

O trabalho de campo envolve métodos e procedimentos nos quais temos que ser radicalmente indutivos para a seleção do que deve ser importante para a pesquisa. As categorias ou temas que escolhemos para observar não são necessariamente escolhidos previamente; na maioria das vezes esta escolha se dá a partir do desenvolvimento do trabalho de campo, a esse movimento da pesquisa chamamos hipóteses progressivas (Hammersley, 1983), pois a cada momento de reflexividade sobre o trabalho de desempenho no trabalho, modifica-se o caminhar e cria-se um movimento próprio aos dados e como de eles refletem as nossas questões. Indução e dedução estão constantemente em diálogo com este procedimento analítico. O pesquisador delineia sua linha de questionamento os temas que passam a pertencer ao corpo do trabalho. Estes temas podem mudar em resposta ao caráter distinto de um evento ocorrido no local da pesquisa. Por isso, quando realizamos um trabalho etnográfico temos que ter em mente as seguintes questões:

Respostas para perguntas como estas devem ser consideradas pelas seguintes razões:



Considerações finais

Na pesquisa etnográfica a especificidade das ações, as perspectivas e significado dos atores sociais são consideradas. O grupo de maior incidência de interesse como informantes ou participantes nesta abordagem de pesquisa, são como já consideramos, "pessoas diferentes", portanto, passíveis de serem desprezadas em outras abordagens de pesquisa por não constituírem um "padrão" determinado e "validável" para generalizações para o "todo da sociedade". Possuidores de reduzido poder de participação como membros ativos de uma sociedade - meninos de rua, presidiários, negros, mulheres, professores, estudantes, trabalhadores, pacientes de hospitais e hospícios – perfilam entre os participantes mais comuns em pesquisas etnográficas.

Os significados e as perspectivas que buscamos em etnografia, são, muitas vezes, inconscientes para as pessoas que os possuem. Estas são, às vezes, pouco articuladas para explicitar concretamente sua compreensão sobre como vivem e porque agem desta ou daquela forma. A significação dada a sua rotina por esses atores sociais são vistos, algumas vezes, pelo pesquisador, como secundários ao objetivo central da pesquisa, ou irrelevante, teoricamente. Por exemplo, em organizações governamentais as quais os municípios são de certo modo subordinados, expressões como "nós já sabemos o que os municípios querem" podem ser comumente ouvidas, mesmos que as pessoas dos municípios em questão, sequer tenham sido ouvidas.

Em etnografia de sala de aula, nota-se que é uma exceção, a influência positiva do professor para o sucesso das crianças em risco de fracasso escolar (MATTOS 1992). O risco do fracasso parece referir-se sempre ao ambiente social ou ao passado familiar da criança. Este risco não se refere à habilidade intuitiva da criança. Sob a perspectiva etnográfica não faz sentido falar sobre esta habilidade intrínseca, de modo isolado, uma vez que a criança sempre se encontra num ambiente social, assim como o desempenho dessa criança. Podemos dizer que o perfil das habilidades da criança a que o pesquisador tem acesso é construído socialmente tanto pelo pesquisador quanto pela criança.

Talvez a mais básica diferença entre a linha etnográfica de pesquisas e as outras pesquisas qualitativas de sala de aula é que estas procuram pela natureza causal do fenômeno, ao passo que a etnografia busca desvelar a "caixa preta" que envolve a cultura escolar como um todo, numa sala de aula em particular ou nas interações interpessoais desenvolvidas no âmbito escolar.

 

Nota



Para melhor exemplificar os procedimentos que envolvem o trabalho etnográfico, apresentamos em anexo tarefas que ao serem realizadas, possibilitam uma imersão da pessoa que as realiza no trabalho de investigação dentro da abordagem etnográfica e algumas das etapas pertencentes a ele. Esperamos que estes exemplos de exercícios etnográficos venham ajudar, particularmente, alunos e professores que estudam os modos de investigação e seu fazeres.


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