A abordagem teórico-metodológica e a heurística da pesquisa sobre o ensino de história da educaçÃo na formaçÃo de professores normalistas em uberaba-mg (1928 a 1971)



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A ABORDAGEM TEÓRICO-METODOLÓGICA E A HEURÍSTICA DA PESQUISA SOBRE O ENSINO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES NORMALISTAS EM UBERABA-MG (1928 a 1971)
Rosângela M.C. Guimarães

Décio Gatti Junior

Universidade Federal de Uberlândia

Resumo
Trata-se de algumas reflexões sobre dois importantes aspectos da investigação científica na História das disciplinas escolares: as questões metodológicas que norteiam a pesquisa e a constituição das fontes. A temática central da investigação diz respeito à história e aos contornos do ensino da disciplina História da Educação na formação de normalistas em duas instituições: uma escola pública estadual – a Escola Normal Oficial - e uma escola confessional cristã – o Colégio Nossa Senhora das Dores - dirigida pelas Irmãs Dominicanas. Ambas localizadas na cidade de Uberaba, contando com alguns pontos de aproximação e outros de distanciamento, pois foram fundadas no período Imperial, respectivamente, em 1881 e 1885; a primeira marcada por descontinuidades em seu funcionamento, mas a segunda funcionou de forma ininterrupta, ocorrendo entre elas certa complementaridade, pois nos períodos de interrupção no funcionamento da instituição estadual, a particular monopolizava a oferta do ensino normal na cidade. O questionamento norteador da investigação traduz-se na pergunta: Quais os contornos, assumidos pela disciplina História da Educação no período de 1928 a 1971, nas duas instituições de ensino normal? O interstício compreendido por este recorte está delimitado em sua fase inicial pelo ano de incorporação da disciplina História da Educação no currículo do curso normal em Minas Gerais, o marco final consiste no ano em que esta modalidade de ensino foi transformada em curso profissionalizante sob a denominação de Habilitação Específica para o Magistério, através de Lei 5692/71, durante a ditadura militar. Objetiva-se investigar a trajetória e compreender o significado da disciplina História da Educação, na formação de normalistas nas duas escolas, visando tecer análises finais sob um viés comparativo. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, cuja heurística está em processo de constituição, e de antemão já foi detectada a insuficiência dos documentos escritos, provenientes dos arquivos escolares, da imprensa local e/ou Oficial e outras como a legislação federal e estadual. Dadas às especificidades do tema e principalmente, dos questionamentos a serem respondidos, se faz necessária à constituição dos “dados”, no dizer de Certeau, também por meio da história oral, ou do uso do testemunho da “memória viva”, “declarada”, como nomeia Ricoeur àquele que pode, por meio entrevistas, narrar práticas, acontecimentos, vivências passadas, por ter participado diretamente, estando presente naquele lugar e naquele tempo.



A ABORDAGEM TEÓRICO-METODOLÓGICA E A HEURÍSTICA DA PESQUISA SOBRE O ENSINO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES NORMALISTAS EM UBERABA MG (1928 a 1971)
Rosângela M.C. Guimarães**

Décio Gatti Junior***


Introdução
Esta comunicação refere-se à fase inicial de uma investigação sobre a história e os contornos do ensino da disciplina História da Educação na formação de normalistas em duas instituições: uma escola pública estadual – a Escola Normal Oficial – e uma escola confessional católica – o Colégio Nossa Senhora das Dores – dirigida pelas Irmãs Dominicanas. Ambas localizadas na cidade de Uberaba.

Propomos-nos a construir este texto abordando quatro itens, relacionados aos seguintes aspectos: 1º) breve percurso histórico das duas escolas onde o ensino de História da Educação está sendo investigado, 2º) explicitação de alguns fundamentos teóricos e metodológicos que vem apoiando o trabalho, 3º) uma reflexão sobre a heurística desta pesquisa, e, 4º) apontamentos relativos ao ensino de História da Educação na Escola Normal Oficial.



1. As trajetórias históricas das duas escolas normais e a gênese da formação de professores normalistas.
A Escola Normal Oficial de Uberaba e o Colégio Nossa Senhora das Dores, são escolas que apresentam, quanto aos seus cursos normais, alguns pontos de aproximações e muitos outros de distanciamentos. A primeira foi marcada por descontinuidades em seu funcionamento, mas a segunda funcionou de forma ininterrupta, ocorrendo entre elas certa complementaridade ou em outras palavras, um intercâmbio, pois nos períodos de interrupção no funcionamento da instituição estadual, a particular monopolizava a oferta do ensino normal na cidade.

Um dos pontos de proximidade refere-se à época de fundação: as duas têm suas gêneses ligadas ao período Imperial. A Escola Normal Oficial de Uberaba foi criada através da Lei Provincial Mineira nº. 2.783 de 22/09/1881 e instalada em 15/07/1882. O Colégio Nossa Senhora das Dores foi fundado em 15/06/1885, por D. Cláudio J. Ponce de Leon, Bispo de Goiás, sob a direção das Irmãs Dominicanas.

A Escola Normal Oficial de Uberaba destinava-se a preparar para o exercício do magistério pessoas de ambos os sexos, conforme o artigo 1º, § 2º, da Lei de criação da dita escola “sendo as respectivas lições dadas promiscuamente” (SAMPAIO, 1971, p. 383). Funcionou durante 24 anos, sobrevivendo à transição do período Imperial ao Republicano. Mas foi fechada, logo no início do século XX, em março de 1905, marcando-se, a partir daí, por um funcionamento intermitente, pois foi reinstalada em 18/02/1928 e funcionou por dez anos, sendo suprimida em 15/01/1938. Mas foi novamente restabelecida em 16/05/1948.

Devido a essa característica - a descontinuidade nas atividades educacionais - da escola em questão, acontece em Uberaba certa divergência de ponto de vista entre as pessoas que lidam com a história local. Pois, para algumas, existiram três escolas normais, mas para outras, uma escola normal com funcionamento descontínuo. Somos por essa última interpretação, uma vez que a entidade gestora e mantenedora, nos três momentos, é o Estado; o curso sempre foi oferecido com a mesma finalidade, formar professores primários; as leis em geral, usaram os termos, suprimida e restabelecida, para se referirem, respectivamente, aos momentos de paralisação e de reativação da instituição.

No entanto, há um aspecto interessante e que deve ser considerado, isto é, os momentos históricos do país em que ocorreram as fases de atividades: de 1882 a 1905, final do período imperial e início do republicano; de 1928 a 1938, final da Primeira República e início da Era Vargas; 1948 a 1971, envolvem os períodos de redemocratização e de militarização. Isto influenciou nas visões de mundo, de homem, de cultura, de conhecimento etc. Além disso, podemos considerar que por se tratar de um período longo, a própria visão de educação (método, metodologia, currículo, aluno, professor, ensino-aprendizagem etc.), nacional e internacionalmente, passou por muitas mudanças. Nesse sentido vale registrar que na primeira fase predominava a educação tradicional, na segunda fase já havia as influências escolanovistas e por último as tecnicistas.

Em 19//05/1959, à denominação Escola Normal Oficial de Uberaba foi acrescido “Professor Leôncio Ferreira do Amaral”, em homenagem ao diretor do estabelecimento, gestor da instituição desde sua reabertura em 1948; que além do curso normal feminino oferecia também, ensino primário, ginasial e científico.

No entanto, em 1971 durante a Ditadura Militar, entrou em vigor a Lei 5.692/71 (de Reforma do Ensino de 1º e 2º graus) pondo fim aos cursos normais e substituindo-os pela Habilitação Específica para o Magistério (HEM). Diante das mudanças na educação e das circunstâncias políticas do período, a referida escola teve seu nome mudado para “Colégio Estadual Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco”, denominação que permanece, em parte, até os dias atuais, porque o termo colégio foi substituído por Escola. Todavia, existem na cidade algumas pessoas, principalmente alunas e professores da época em que o diretor era o Professor Leôncio, que reivindicam o retorno do nome anterior à década de setenta. Há no acervo da escola uma carta, datada de 13/12/1991, dirigida ao então governador Hélio Garcia, com um abaixo assinado em anexo, justificando e solicitando ao governo estadual a mudança, pois julgam aquela denominação mais significativa, tanto para a cidade, quanto para a própria instituição.

O Colégio Nossa Senhora das Dores foi fundado por iniciativa da Igreja Católica, sob a direção das Irmãs Dominicanas de Monteils, de origem francesa, visando a atender estudantes do sexo feminino, sob a forma de internato e externato, oferecendo cursos primário, secundário, de pintura, canto, música e piano. O ensino normal, segundo Riccioppo (2007, p. 255), foi aberto em 1905, após o fechamento da Escola Normal Oficial, sendo equiparado às escolas normais do Estado através do Decreto nº. 1.932 de 06/08/1906.

Diante do exposto percebe-se certo entrelaçamento nas trajetórias históricas das duas escolas, caracterizando uma situação a que Araújo (2006) denomina “intercambiamento” entre o ensino público e o privado1, uma vez que com o fechamento da escola pública estatal, a outra – a da iniciativa privada – passou a atender à demanda na cidade quanto à formação de professores normalistas.

Ainda na perspectiva de cruzamento entre as trajetórias históricas das duas instituições, registra-se que no ano de 1928, quando a Escola Normal Oficial foi reaberta em nível de 2º grau, a escola das dominicanas teve o seu curso normal equiparado ao de 1º grau. Portanto, passando a ser ofertado na cidade em dois níveis. E depois, segundo Riccioppo (2007, p. 270) através do Decreto nº. 11.905, de 30/03/1935, o governador de Minas Gerais, equiparou o curso normal do Colégio Nossa Senhora das Dores (bem como o de escolas particulares de outras localidades mineiras) ao das escolas normais oficiais de 2º grau. Ao que parece, analisa esse autor, havia por trás desse ato a intenção de fechar as escolas normais mantidas pelo Estado nas cidades em que existissem estabelecimentos equiparados aos oficiais do nível mais elevado, pois, conforme o texto do Decreto-lei2 n. 63, esta supressão não traria prejuízo ao ensino dos alunos. Assim, em 15/01/1938, o curso normal público estadual foi fechado e o particular permaneceu como única opção, até 1948, quando então aquele foi reinstalado.

Para além desse cruzamento em suas trajetórias é preciso considerar a questão do distanciamento derivado de três aspectos, o colégio das dominicanas era uma escola católica, particular e, destinada a atender principalmente, às filhas das famílias favorecidas financeiramente. Nesse sentido, as orientações filosóficas e pedagógicas das duas instituições diferenciavam muito, assim como os currículos, as práticas cotidianas a origem e a destinação das clientelas. Enquanto quem fazia o curso na Escola Normal Oficial, em geral, visava a uma formação profissional para atuar como professora, quem cursava o normal no Colégio Nossa Senhora das Dores se preparava para ser uma boa cristã, perpetuando esses valores como mãe, dona de casa, esposa. A egressa era portadora de uma espécie de dote representado pela cultura clássica, cristã e humanista adquirida nos anos de convívio escolar.

No Colégio Nossa Senhora das Dores o curso normal funcionou até 1971, depois conforme a Lei 5.692/71, também mudou para Habilitação Específica em Magistério (HEM). Atualmente, esta escola centenária, atende estudantes desde a educação infantil até o ensino médio.


1.1 A gênese do ensino normal.
A origem dos cursos normais ocorreu na França, onde segundo Araújo (2008), em 1794, Joseph Lakanal, fundado na perspectiva iluminista e no posicionamento democrático propôs a formação de professores, uma vez que inexistiam então pessoas em condições de ensinar, com metodologia, as artes úteis e os conhecimentos necessários com vistas a tornar os espíritos mais penetrantes, sendo assim as escolas normais configuradas com uma especificidade, a de ensinar a arte de ensinar. Na seqüência do texto Araújo ainda esclarece,
[...], as escolas normais são concebidas nesse projeto de Lakanal como parcela de um vasto plano de instrução pública. E o professor, no interior de tal norteamento, deverá ser alguém capaz de instruir. Seu papel se manifesta devotado à arte de ensinar, critério que orienta a socialização dos conteúdos científicos aprendidos.

É no interior de tais entendimentos que a Escola Normal é concebida como padrão e como modelo, com o intuito de normalizar e regularizar todas as outras escolas. Trata-se de um projeto educativo para formar aqueles que vão ser formadores, em que o saber como ensina deverá estar associado ao saber o que se ensina. [...]. Ou seja, conteúdo e método devem ser os baluartes para a formação do professor. (p. 322) (negritos do original)

No entanto, a idéia da necessidade de formação do professor é mais antiga remonta ao século XVI. Conforme descrevem na apresentação da obra As Escolas Normais no Brasil, os organizadores, Araújo; Freitas & Lopes (2008, p. 13-15), tal sugestão já é encontrada nos escritos de Lutero e de Erasmo de Roterdã. Na segunda metade do século XVII, ocorreram duas experiências de formação de professores na França, realizadas em escolas dirigidas por religiosos: a primeira pela iniciativa do abade Charles Démia e a outra do fundador da Congregação dos Lassalistas, Jean Baptiste de la Salle. A profissão docente, no entanto, é anterior à existência de escolas de formação. Inicialmente, entre os séculos XV e XVIII, a profissão passou pela regulação religiosa, a partir do século XIX tem sido regulada pelo Estado.

No prefácio de As Escolas Normais no Brasil, Saviani (2008, p. 7), informa que:


Desde a Convenção, instalada após a Revolução Francesa entre 1792 e 1795, as instituições encarregadas da formação dos professores, em especial para as escolas primárias, tenderam a receber o nome de Escolas Normais. Seguindo essa tendência geral, as províncias brasileiras também começaram a implantar as respectivas escolas normais. A primeira delas foi instalada, em 1835, em Niterói, apenas um ano após o Ato Adicional à Constituição do Império ter colocado o ensino elementar sob a responsabilidade das províncias que, em consequência, também deviam cuidar do preparo de seus professores. Ao longo do século XIX foram surgindo escolas normais nas várias províncias que constituíam o Império brasileiro, num processo intermitente em que essas instituições eram criadas, em seguida fechadas e depois reabertas.
O que ocorreu em Uberaba está em sintonia com as observações finais da citação acima. Pois, na cidade foram criadas duas escolas normais, uma na penúltima década do século XIX e a outra na primeira década do século XX. Embora o funcionamento da confessional tenha sido perene, a pública estadual sofreu interrupções seguidas de reaberturas, portanto, num processo intermitente. Mas ambas constituíram, por muitos anos, as duas principais referências no que diz respeito à formação de normalistas na região.

2. Aportes teórico-metodológicos da pesquisa, o problema e outros questionamentos.
Durante a pesquisa de mestrado, realizada no período de 2005 a 2007, investigamos o Grupo escolar de Uberaba (o primeiro cidade) desaguando na produção de uma dissertação intitulada “Templo do Bem”: O Grupo Escolar de Uberaba na escolarização republicana (1908 - 1918). Ao tratarmos das categorias, professores (origem, recrutamento, formação, atuação didático-pedagógica) e alunos (origem geográfica e socioeconômica, formação recebida, provável destino) percebemos o quanto era significativo, para o quadro geral do ensino, a existência na cidade de cursos de formação de professores. Por um lado, constatamos, no decorrer da referida investigação, que alguns dos mestres do Grupo foram formados na Escola Normal Oficial, mas por outro lado, algumas alunas egressas do primário deram continuidade aos estudos como normalistas no Colégio Nossa Senhora das Dores3 e retornaram depois ao Grupo, como professoras. Além do mais, sabemos empiricamente, que este fato se constituiu em um evento repetitivo ao longo dos anos, uma espécie de circularidade.

Assim, surgiu o interesse por conhecer o processo de formação de normalistas nos cursos de ambas, por dois motivos: Primeiro devido suas trajetórias imbricadas. Segundo, porque tendo realizado anteriormente uma investigação sobre o ensino primário, e agora, vindo a empreender esta, sobre a formação dos profissionais para atuar neste nível elementar, acreditamos que o resultado nos possibilitará compreender de forma mais abrangente e concreta não apenas o quadro educacional local, mas também o de Minas Gerais e do Brasil, uma vez que estas instituições estão inseridas nestes contextos mais amplos, pois submetidas às determinações legislativas deles provenientes, e compartilhando, tanto da ideia de construção de uma identidade nacional (ideal muito presente desde a Primeira República: 1889-1930), quanto dos projetos civilizatórios e de modernização internacionalmente divulgados desde os meados do século XIX.



Entretanto, tal conhecimento será buscado através de um foco direcionado, em especial, sobre a disciplina História da Educação e as variáveis a ela relacionadas. Em outras palavras, o problema central desta pesquisa tem como lócus essas duas instituições escolares, mas o foco de investigação e as análises incidem sobre a disciplina História da Educação, um conteúdo específico dos cursos de formação de professores. Para André Chervel, o alcance da pesquisa nessa área reveste-se de grande importância, pois,
Desde que se compreenda em toda a sua amplitude a noção de disciplina, desde que se reconheça que uma disciplina escolar comporta não somente as práticas docentes de sala de aula, mas também as grandes finalidades que presidiram sua constituição e o fenômeno de aculturação de massa que ela determina, então a história das disciplinas escolares pode desempenhar um papel importante não somente na história da educação mas na história cultural. [...] Porque são criações espontâneas e originais do sistema escolar é que as disciplinas merecem um interesse todo particular. (CHERVEL, 1990, p. 184).
Para Santos (1990, p. 21), a investigação na área das disciplinas escolares é vista sob outro olhar e tem como objetivo,
[...], sobretudo, explicar as transformações ocorridas em uma disciplina ao longo do tempo. Desta forma, torna-se possível identificar os fatores mais diretamente ligados às mudanças de conteúdo e métodos de ensino, o que possibilita a articulação de propostas mais consistentes de alteração ou implementação de mudanças curriculares.
Esse foco justifica-se pelo fato de que o ensino de História da Educação tem sido atualmente, entre os educadores, alvo de questionamentos no sentido de perceber se é viável ou não a sua continuidade nos quadros de formação dos profissionais da educação, principalmente nas licenciaturas, bem como qual deve ser o seu formato. Ao tratar do percurso disciplinar da História da Educação no Brasil, Gatti Jr. (2007) sustenta a
[...] ideia da necessidade da construção de uma prática acadêmico-universitária que articule, com eficácia, os recentes ganhos da pesquisa à realidade do ensino da disciplina, por meio de uma nova prática didático-pedagógica que, por um lado, passe a contar com um suporte de material didático inovador e, por outro lado, sem deixar de levar em consideração a crise pela qual passa a profissão docente no País, bem como a situação específica da predominância do aluno-trabalhador do ensino superior noturno no Brasil desenvolva estratégias de ensino adequadas à realidade específica do ensino brasileiro (p. 99).
Neste sentido, cabe a nós que atuamos nesse campo do conhecimento, por um lado, procurar demonstrar sua viabilidade, legitimidade e, portanto, a importância de que se reveste a permanência desta disciplina nos currículos e por outro, através da pesquisa, conhecer sua trajetória histórica e as vicissitudes a que esteve sujeita, concretamente, nos diversos espaços (locais, regionais ou nacionais), tempos escolares (tanto os mais remotos, quanto os mais recentes) e nos diferentes tipos de cursos (secundário ou superior) visando a tecer reflexões, construir inteligibilidade e interpretações que possibilitem ações na direção da busca de alternativas relacionadas aos formatos adequados ao nosso tempo. Corroborando esse pensamento mais uma vez nos apoiamos em Santos (1990), que afirma:
[...] o desenvolvimento de uma disciplina escolar está condicionado a fatores internos e externos. Os primeiros dizem respeito às próprias condições de trabalho na área, e os últimos estão diretamente relacionados à política educacional e ao contexto econômico, social e político que a determinam. A importância ou o peso atribuído a estes fatores dependerá do nível de desenvolvimento em que se encontra a própria área de estudos, bem como do próprio contexto educacional e do regime político e tradição cultural que o circunscrevem. (p. 21)
As observações de Santos (1990) nos remetem simultaneamente, a questões relacionadas com três dimensões temporais: passado, presente e futuro. Pois, se as discussões atuais visam a pensar em alternativas relacionadas aos formatos adequados ao nosso tempo, ou em outras palavras: como deve ser em um futuro (quase imediato) os contornos do ensino-aprendizagem da História da Educação? Em auxílio a esta indagação podem contribuir as observações e as questões a serem feitas no presente, considerando lugares pontuais – instituições de ensino identificadas –, onde tal disciplina está presente no currículo. As perguntas a serem feitas podem ser várias dentre as quais: onde (em quais cursos) se trabalha com a disciplina, como se encontra a área de estudos onde está inserida, quais são os seus contextos mais amplos (educacional, econômico, social e cultural) e os mais imediatos no plano interno das instituições de ensino, como são as condições de trabalho na área e na própria disciplina, o que é trabalhado (conteúdo) e como se efetiva o processo de ensino-aprendizagem nas salas de aula (quem são os sujeitos: alunos, professores; quais os recursos, os métodos, a literatura pedagógica etc.). Enfim, onde, como, o que, por quem, para quem, por que e para que se trabalha com a História da Educação? As respostas podem ser perseguidas em linhas de pesquisas relacionadas aos saberes e práticas de educação e as políticas educacionais.

Mas, estes mesmos questionamentos podem ser feitos com relação ao passado, em lugares e tempos definidos, em busca de conhecer os itinerários, desde sua criação até o momento presente. Essa é uma tarefa específica para o campo da história e historiografia da educação. Tal tarefa pode ser efetivada mediante uma investigação e operação historiográfica.

Quanto à questão da origem ou da gênese, a disciplina História da Educação está relacionada ao processo de escolarização, no decorrer do século XIX, fundamentando-se na ocorrência de três processos simultâneos: 1) a estatização e popularização do ensino, 2) formação de professores, e 3) cientificização da pedagogia (BASTOS, 2006, p. 335; NÓVOA, 1996, p. 418). Dado o fato de ter sido constituída no século XIX, essa disciplina já carrega em si alguma tradição, pelo razoável tempo de existência.

A trajetória inscrita pelo ensino de História da Educação, na análise de Nóvoa (1996) apresenta quatro tradições principais, surgidas, por um lado, em tempos que podem ser cronologicamente marcados, mas por outro, esses modelos não são sequenciais, tendendo mais a serem cumulativos, uma vez que estes quatro formatos do ensino podem conviver simultaneamente. Elaboramos um quadro sintético em busca de apreender e apresentar de maneira resumida (e diferente) as idéias do autor em referência. (Ver Quadro 1, a seguir)



Quadro 1 – As quatro tradições do ensino de História da Educação.


É

P

O

C

A




Século XIX

(meados)



Séc. XIX (fim) e séc. XX (início)



Séc. XX (meados)



Séc. XX (fim) e

hoje.

F

A

S

E

S

Inicial – da organização do conteúdo.


Época da edificação dos sistemas estatais de ensino nos moldes atuais.

Reação às tradições anteriores. Críticas dos historiadores e dos sociólogos.

Diversificação nas temáticas e formas de ensinar.



C

O

N

T

E

Ú

D

O

S

As idéias dos filósofos/educa-dores desde a Antiguidade até então (séc. XIX), apresentadas evolu- tivamente sob um viés filosófico.

Estudo da gênese, e desenvolvimento das instituições educativas e legislação, juntamente com os conteúdos do período anterior, sob o viés de uma história comparada e legitimadora das opções do presente, quanto à política educacional.


Aos conteúdos anteriores foram acrescidas as contribuições trazidas pela perspectiva social.

Os conteúdos foram renovados conceitual e metodologicamente.



Diversificados, indo desde a temática escolar e os papéis específicos dos diferentes atores educativos, suas experiências, até o regresso às origens da História da Educação através das abordagens comparadas.


O

B

J

E

T

I

V

O

S

Dar a conhecer a gloriosa evolução da educação e da Humanidade, tirar lições para o presente e justifi- car sua presença nos cursos de formação de professores.

Formar professores se- gundo o valor prático e funcional da H. da Educ. para a organização e administração escolar.

Uso institucional: nos textos das reformas os governos apresentavam a rememoração legislativa comparando com outros países, para legitimar as opções então feitas.



Promover uma renovação conceitual e metodológica dos conteúdos na formação de professores.

Promover novas abordagens, através das práticas da história intelectual e cultural a partir de novas concepções teóricas.

Justificar sua inclu-são nos programas dos cursos de ensino superior.



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