A andragogia e seus princípios



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A ANDRAGOGIA E SEUS PRINCÍPIOS

                                    Gilberto  Teixeira (Prof.Doutor FEA/USP )

 

Já há alguns anos que o papel do professor no nível de ensino superior vem sendo visto numa ótica diversa da tradicional. E, particularmente quando se trata do ensino de Administração, seja ele ao nível de graduação, pós-graduação ou mesmo do chamado Treinamento de Executivos, é maior ainda o impacto dessa mudança. Entretanto, pelo fato dessa recente postura sobre o processo de aprendizagem encarar o aluno como um indivíduo amadurecido, é natural que a sua maior potencialidade esteja relacionada com o nível de Pós-Graduação e com o Treinamento de Executivos.



Intitulada de ANDRAGOGIA pelo seu criador, o norte-americano Malcolm Knowles, ela é resultante de conclusões a que chegaram diversos pesquisadores e educadores. Na verdade as idéias sobre a ANDRAGOGIA já não podem ser consideradas somente uma formulação teórica, pois existem inúmeras experiências bem sucedidas de sua aplicação.

E como pretendemos demonstrar a 'ANDRAGOGIA' não tem nada de complexo, pois nada mais é que uma redefinição do papel do professor.

O que vem a ser a Andragogia?

Segundo Knowles, ela é a "arte e a ciência destinada a auxiliar os adultos a aprender e a compreender o processo de aprendizagem dos adultos".

A Andragogia parte da premissa de que muitos dos problemas hoje existentes na educação de pessoas adultas, (e nisso inclui-se o ensino superior), estão associados com a adoção de um modelo pedagógico" para o ensino de adultos, isto é, os alunos adultos vinham sendo tratados, utilizando-se dos recursos da Pedagogia que é o estudo do processo de aprendizagem de crianças (pedagogia é derivada do grego: "paid" significando criança e "agogus" significando líder de). Knowles propõe, portanto, a substituição da Pedagogia pela ANDRAGOGIA.

 

HIPÓTESES E IMPLICAÇÕES DA ANDRAGOGIA


Se analisarmos as idéias de Knowles concluiremos, sem que ele próprio soubesse, que ele importou do Marketing a idéia de segmentação de mercado ao colocar como premissa mais importante da ANDRAGOGIA de que os professores envolvidos com o ensino de pessoas em diferentes faixas etárias devem procurar conhecer os fatores relacionados com a idade, pois estes afetam o seu processo de aprendizagem. Ora, isso nada mais é que segmentação de mercado em Marketing.

A seguir relataremos de forma resumida as conclusões mais importantes dos estudos e experiências a respeito da Andragogia.

De acordo com Knowles (1976) e andragogia apoia-se em quatro hipóteses sobre as características do adulto enquanto "aprendiz", características essas que são fundamentalmente diferentes da criança como aprendiz, objeto da Pedagogia. Estas quatro hipóteses consideram que, ao atingir a idade adulta, o indivíduo:

1. Modifica o seu auto-conceito deixando de ser um indivíduo dependente (conforme a Pedagogia) para ser um independente, auto dirigido;

2. Acumula uma crescente reserva de experiências e consequentemente um maior volume de recursos de aprendizagem;

3. Tem sua motivação de aprendizagem cada vez mais orientada para buscar desenvolver seus papéis sociais;

4. Modifica sua "perspectiva de tempo" em relação a aplicação de conhecimentos. Para os adultos o maior interesse é de conhecimentos de aplicação mais imediata e em conseqüência a sua aprendizagem deve deixar de ser centralizada no conteúdo para centralizar-se no problema.

Whitbourne e Weinstock (1979) relatam que:

"Adultos, alunos de graduação e pós-graduação são muito diferentes na sua postura em relação a sua própria educação, quando comparados com estudantes que progrediram no sistema educacional sem qualquer envolvimento com o ‘mundo real’". (pg. 38).

A presença de adultos numa sala de aula, no entender de Houle (1972) é razão suficiente para que se considere a educação não mais como uma "arte operativa" e sim uma "arte cooperativa", isto é, uma atividade de interação voluntária entre os indivíduos durante o processo de aprendizagem.

Nestas circunstâncias, os participantes adotam uma atitude de colaboração tanto no planejamento como na condução do processo e o professor é utilizado como elemento facilitador, proporcionando orientação, aconselhamento para que sejam atingidas as metas desejadas pelo grupo. E, na medida em que a realidade e as necessidades se alteram, vão sendo feitas revisões ao longo do curso, sem que haja perdas de prestígio ou de padrões de qualidade por qualquer dos parceiros do processo.

Em outras palavras ao tratar com grupos de estudantes maduros, o papel do professor deve ser muito mais o de um "facilitador do conhecimento" ("Vamos decidir isto juntos") e não mais o de uma autoridade em todas as facetas da matéria ("Vou lhes explicar o que considero ser importante que vocês saibam").

A crítica que os andragogos fazem à situação do currículo completamente pré-determinado é de que ela redunda numa minimização da eficácia do processo de aprendizagem na medida em que os alunos ao entrar no curso tem diferentes graus de dependência no julgamento do professor em relação ao que "deve" ser aprendido; além disso são feitas também variadas as experiências individuais que possam ser úteis a eles próprios e a seus parceiros de aprendizagem.

Utilizando-se de situações de solução de problemas que seja relevantes para cada indivíduo, o professor passa a ser capaz de aumentar a eficiência da experiência educacional tanto para o aluno como para ele próprio. Uma grande parte das idéias de Knowles sobre o ensino de adultos está também incorporada nas idéias de KOLB o autor da "aprendizagem vivencial" (experiential learning).

Para quem conhece as idéias do educador Carl Rogers constata também que há muita influência rogeriana nas idéias de Knowles.

 

PRINCÍPIOS DA APRENDIZAGEM DE ADULTOS


Gibb (1960) publicou uma lista de seis princípios sobre a aprendizagem de adultos que representam um conjunto de diretrizes para que se possa obter um ambiente de aprendizagem de adultos efetiva. Esses princípios são:

1. A aprendizagem deve ser centralizada em problemas. Muitas experiências de aprendizagem consistem em um conflito entre o professor que vê os problemas do seu próprio quadro de referências e o aluno que possui um outro conjunto de experiências a partir das quais deriva um conjunto de problemas diferentes.

2. A aprendizagem deve ser centralizada em experiências. O problema do professor para desenvolver uma atmosfera de aprendizagem adequada é ajudar que sejam escolhidos e oferecidos tipos de experiência relacionadas com o problema do estudante.

3. A experiência deve ser significativa para o estudante. As diferentes limitações do estudante em experiências, idades, equilíbrio emocional e aptidão mental podem limitar ou bloquear a sua percepção de que a experiência é significativa para seu problema. Além disso, o significado das experiências não são percebidas pelo aluno do tipo não participativo.

4. O aprendiz deve ter liberdade de analisar a experiência. Para melhor descrever qual a atmosfera adequada para aprendizagem de adultos podem ser usadas as seguintes palavras: permissiva, de apoio, de aceitação, livre, espontânea, centralizada na realidade e no indivíduo. A aprendizagem é uma experiência social.

5. As metas e a pesquisa devem ser fixadas e executadas pelo aluno. O estudante deve sentir-se livre de errar, de explorar alternativas para solução dos problemas e de participar nas decisões sobre a organização do seu ambiente de aprendizagem.

6. O aluno deve receber o "feed-back" sobre o seu progresso em relação as metas. Um bom exemplo de oportunidade para avaliação formativa e ao mesmo tempo capaz de proporcionar esse "feed-back" é fazer que o aluno participe de avaliações periódicas ao longo do curso; para tanto é necessário que o curso seja compartimentado em módulos ou unidades estanques e capazes de serem "isoladamente avaliadas" em lugar da solução tradicional de um trabalho ou exame ao final do curso.

Em seguida apresentamos uma relação das características dos adultos enquanto aprendizes comentando as conseqüências dessas características sobre a sua aprendizagem.

Muitos cursos de Pós-Graduação e principalmente uma grande parte dos programas de treinamento de executivos fracassam por ignorar essas características. É comum professores de administração habituados ao ensino no nível de graduação no estilo tradicional (onde o professor é a "autoridade detentora do saber") verem-se em dificuldades quando vão ministrar cursos para executivos. E o mais grave é que, desconhecendo a existência de Andragogia não são capazes de identificar as causas dos seus insucessos e como corrigi-las.
CARACTERÍSTICAS DOS ADULTOS COMO APRENDIZES E SUAS CONSEQÜÊNCIAS NA SUA APRENDIZAGEM.

1. Adultos possuem uma razoável quantidade de experiências.

Consequências: os adultos podem ser usados como "recursos de aprendizagem"; as estratégias de aprendizagem de adultos devem encorajar troca de idéias e experiências.

2. O corpo dos adultos sendo relativamente muito maior que os das crianças está sujeito a maiores pressões e estímulos gravitacionais.

Consequência: O conforto físico é importante para a aprendizagem de adultos; muito pouco conforto ou em excesso podem ser desastrosos.

3. Adultos possuem conjuntos de hábitos fortemente sedimentados.

Consequência: os hábitos e gostos dos adultos devem ser na medida do possível considerados e atendidos.

4. Adultos tendem a ter grande orgulho de si próprio.

Consequência: os adultos respondem muito bem as oportunidades de desenvolvimento, auto-direcionamento e responsabilidade no seu processo de aprendizagem.

5. Adultos em geral tem coisas tangíveis a perder.

Consequência: a ênfase deve ser na promoção do sucesso em lugar de revelar as deficiências.

6. Adultos têm que tomar decisões e resolver problemas.

Consequências: a aprendizagem centralizada em problemas pode ser mais efetiva e é mais agradável.

7. Adultos tendem a ter grande número de preocupações e de problemas a resolver fora da situação de aprendizagem.

Consequência: as demandas da experiência de aprendizagem não devem ser irreais; deve haver um balanceamento adequado entre o tempo necessário para apresentação da situação de aprendizagem e o tempo necessário para a obtenção da aprendizagem.

8. Os adultos na sociedade moderna são cada vez mais pressionados por grande número de opções.

Consequência: aprender a decidir é uma aptidão importante.

9. Os adultos tendem a ter comportamento grupais consistentes com suas próprias necessidades.

Consequência: usualmente os adultos adotam aqueles comportamentos que façam com que suas necessidades sejam atendidas pelo grupo. Devem ser cultivados os comportamentos que sejam úteis aos indivíduos e aos grupos.

10. Adultos tendem a ter bem sedimentadas suas estruturas emocionais consistindo de valores, atitudes e tendências.

Consequência: mudanças são perturbadoras. É mais provável obter mudanças de comportamento em um ambiente não ameaçador e onde exista em alto grau a participação e o engajamento.

11. Adultos tendem a ter bem desenvolvidos seus "filtros" seletivos dos estímulos.

Consequência: a maioria dos adultos só ouve aquilo que deseja ouvir. O ensino para ser eficaz deve focalizar em mais de um sistema sensorial para que possa penetrar nos "filtros" que o adulto usa para barrar aqueles estímulos que ele considera desagradáveis, desinteressantes ou perturbadores.

12. Os adultos tendem a responder bem a "reforços" negativos ou positivos de aprendizagem.

Consequência: os "esforços" de aprendizagem (tanto negativos como positivos) devem ser usados em gradações variadas.

13. Adultos tendem a ter impressões e opiniões muito sedimentadas sobre situações de aprendizagem.

Consequência: só boas e bem sucedidas experiências de aprendizagem encorajam a formação de atitudes positivas.

14. Os adultos na sociedade moderna tem um receio íntimo de fracassar e ser substituído.



Consequência: a situação de aprendizagem deve dar oportunidades de desenvolver auto-confiança e novas aptidões.
Data de publicação no site: 28/03/2005 www.serprofessoruniversitário.pro.br


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