A antiguidade conhecia bem a mudança política e a violência que a acompanhava, mas nenhuma delas lhe parecia realizar qualquer coisa de inteiramente novo



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Encontro27.07.2016
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“As revoluções modernas pouco têm de comum com a mutatio rerum da história romana ou a luta civil que perturbou a polis grega[…]. A Antiguidade conhecia bem a mudança política e a violência que a acompanhava, mas nenhuma delas lhe parecia realizar qualquer coisa de inteiramente novo. As mudanças não interrompiam o decurso da[…] história que, longe de provocar um novo princípio, era olhada como o retorno a uma fase diferente do seu ciclo, descrevendo um movimento que era predeterminado pela própria natureza dos problemas humanos, e que portanto era, ele próprio, imutável.
Há, contudo, um outro aspecto das revoluções modernas para o qual pode ser fácil encontrar exemplos anteriores à idade moderna. Quem pode negar o enorme papel que a questão social veio a desempenhar em todas as revoluções e quem pode deixar de recordar que Aristóteles […] já tinha descoberto a importância daquilo a que nós hoje chamamos a motivação económica –o derrubamento do governo pelos ricos e o estabelecimento de uma oligarquia, ou o derrubamento do governo pelos pobres e o estabelecimento de uma democracia? Igualmente bem conhecido da Antiguidade era o facto de os tiranos subirem ao poder apoiados pelo povo humilde ou pobre e de que a sua maior probabilidade de conservar o poder estava no desejo popular de uma igualdade de condição. A relação entre riqueza e governo, em qualquer comunidade, e a ideia de que as formas de governo estão ligadas à distribuição da riqueza, a suposição de que o poder político pode simplesmente resultar do poder económico e, finalmente, a conclusão de que o interesse pode ser a força motriz de toda a luta política – tudo isso, naturalmente, não é invenção de Marx[…]. Se desejarmos responsabilizar um único autor pela chamada concepção materialista da história, devemos recuar até Aristóteles, pois que foi ele o primeiro a afirmar que o interesse[…], aquilo que é útil a uma pessoa, a um grupo ou a um povo, deve ter e tem supremacia m assuntos políticos.

Contudo, estas revoltas e sublevações, instigadas pelo interesse, embora não pudessem deixar de ser violentas e sangrentas até se estabelecer uma nova ordem, dependiam de uma distinção entre pobres e ricos que se julgava ser tão natural e inevitável no corpo político como o é a vida no corpo humano. A questão social só começou a desempenhar um papel revolucionário quando, na idade moderna, e não antes, os homens começaram a duvidar de que a pobreza fosse inerente à condição humana, a duvidar de que a distinção entre os poucos que, por circunstância, força ou fraude, se tinham conseguido libertar dos grilhões da pobreza e a miserável multidão trabalhadora fosse inevitável e eterna. Tal dúvida, ou antes, a convicção de que a vida na terra pode ser abençoada com a abundância em vez de amaldiçoada com a penúria foi, na origem, pré-revolucionária e americana […]. Teoricamente falando, o palco estava preparado quando, primeiro Locke – provavelmente sob a influência da prosperidade das colónias do Novo Mundo – e depois Adam Smith consideraram que o trabalho e os utensílios, longe de serem o apanágio da pobreza, a actividade a que esta condenava os que não tinham propriedades, eram, pelo contrário, a fonte de toda a riqueza. Nestas condições, a rebelião dos pobres, da “parte escravizada da humanidade” (John Adams) podia na realidade aspirar a mais do que à sua própria libertação e à escravização da outra parte da espécie humana.

A América tornara-se o símbolo de uma sociedade sem pobreza muito antes da idade moderna, com o seu desenvolvimento tecnológico único, ter realmente descoberto os meios de abolir a abjecta miséria da pobreza absoluta que sempre se supusera ser eterna. E só depois de isso ter acontecido e se ter tornado conhecido na Europa, é que a questão social e a rebelião dos pobres puderam vir a desempenhar um papel verdadeiramente revolucionário. O antigo ciclo das eternas repetições baseara-se numa suposta distinção “natural” entre ricos e pobres. A existência efectiva da sociedade americana antes da eclosão da Revolução pôs definitivamente fim a este ciclo. Há um enorme volume de discussões eruditas sobre a influência da Revolução americana na revolução francesa[…]. Contudo, por justificadas e esclarecedoras que estas investigações sejam, nenhuma influência demonstrável no decorrer da Revolução Francesa - tal como o facto […] de a Declaração dos Direitos do Homem ter sido moldada segundoo Bill of Rights da Virgínia – pode igualar o impacte daquilo a que o abbé Raynal já chamara «a surpreendente prosperidade» das terras que eram ainda as colónias inglesas da América do Norte”.


Hannah Arendt, Sobre a Revolução, Lisboa, Relógio de Água, 2001 (1º ed.: 1963), 24-26.


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