A antropologia Bíblica cultural



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A Antropologia Bíblica cultural1
Elcio Sant’Anna*

A presente comunicação tem o objetivo de enunciar a necessidade de se pensar a possibilidade de uma iniciativa interdisciplinar que promova o estudo e conseqüente rediscussão das relações de Israel como os seus vizinhos dentro da perspectiva de uma Antropologia Bíblica cultural.


Deve-se questionar se escritos do Antigo Testamento apresentam caricaturas dos povos vizinhos? (KEEL 1995,p.17). Não seria o caso de indagar: tem-se todos as informações pertinentes à estas antigas culturas? Seria justo usar o Antigo testamento como suporte e porta de entrada para às culturas de Israel e os povos do Oriente Próximo? Como seriam as relações dos personagens bíblicos e os povos da Terra? (CRUSEMANN, 2003,pp.33-54).

Existem questões que ainda precisam ser respondidas, mesmo que de forma preliminar para que se possa tratar de uma Antropologia Bíblica Cultural. O estudo de uma cultura perdida no passado pode vir a se constituir em objeto de estudo para os esforços antropológicos? Uma cultura que existiu há séculos pode servir de trabalho de campo para o antropólogo de hoje?


Parece que Claude Lévi-Strauss admite a possibilidade de estudo de culturas precedentes dentro do tempo sob certas condicionantes: 1)se uma cultura que está fora do alcance espaço-temporal do pesquisador e que não tenha deixado vestígios pode ser considerada irremediavelmente perdida; 2) se a cultura precedente no tempo, distante no espaço tiver deixado um legado cultural, e realizado contato de modo a provocar existências de testemunhos (LÉVI-STRAUSS,1996, p.331.) A partir desta afirmação, abre-se o caminho para uma Antropologia Bíblica Cultural.
1. Pela possibilidade de uma Antropologia Bíblica Cultural

Existem algumas objeções a que uma Antropologia Bíblica Cultural venha se constituir em um ramo do saber antropológico, que não se poderá evitar de considerar neste momento.


1.1 Objeções a uma Antropologia Bíblica Cultural

Um estudo da cultura humana é uma iniciativa tão complexa, que não se pode realizá-la facilmente. Isto teria que envolver o estudo de “política, religião, arte, artesanato, economia, linguagem etc...” (MELLO, 2000, p.37). ULLMANN considera as culturas de todos os tempos como possível objeto de pesquisa ... “englobar culturas vivas e mortas”(ULLMANN, 1991, p.39).


Esta visão toca o fato de que: uma cultura que não pode ser hoje contactada pelo pesquisador de forma empírica seja objeto de uma Antropologia Cultural.
A ida ao campo de pesquisa não é o único elemento a ser considerado no estudo antropológico. As idas e vindas do campo deveriam ser mais consideradas. Ou seja, a partir de uma visão sincrônica não deveria haver uma negativa para um estudo das culturas remotas, por não ser possível um trabalho direto com objeto de campo. O tempo não deve ser visto como inimigo do antropólogo cultural:

A História sempre surgiu contra-posta à antropologia ou à Etnologia (...) Seja por alegações de método – pesquisa em arquivos, por um lado, pesquisa participante, por outro lado; de objeto - viajante no tempo verso viajante no espaço;(...) o fato é que divisões mais ou menos frágeis foram sendo estabelecidas no sentido de se constituírem limites evidentes ou identidades particulares a cada uma das áreas. Dicotomias ainda mais rígidas concretizam-se guardando para história o reino da diacronia e do tempo; para a antropologia, o lugar da sincronia e da estrutura. (Schwarcs, 2000, p.12)


Como se verá mais adiante, existem antropólogos trabalhando com o tempo e historiadores lidando com cultura na sua dimensão social. A região de fronteira ainda merece ser estudada melhor, o dado entre a diacronia e sincronia. Mas antes ainda, deve-se considerar se ainda permanecem as objeções a uma Antropologia Bíblica Cultural.
Desde GEERTZ a antropologia ganhou uma face mais interpretativa(GERRTZ,1998,pp.13-41). Este re-configurou o pensamento social a partir de uma analogia com o texto (GEERTZ,2001, PP.49-54). Com isto, se a cultura é um texto, a pesquisa cultural passa a ser exegética. GEERTZ diz que fazer etnografia é ler: “um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipse, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos”(GEERTZ, 1998,p.36).
Em todos os casos, terá o pesquisador de fazer exegese e hermenêutica. Terá que ir até o campo para recolher dados diretamente, como também se servirá dos testemunhos anteriormente colocados. Neste sentido, uma Antropologia Bíblica Cultural é possível, desde que não deixe de se perceber como uma antropologia hermenêutica, que pode ir até as culturas do mundo bíblico através dos seus testemunhos etc...
1.2 Uma Antropologia Bíblica Cultural numa perspectiva interdisciplinar
Existe a necessidade de se trabalhar de forma interdisciplinar nesta iniciativa. As culturas do mundo bíblico se constituem em elementos grandes demais para serem compartimentalivadas em saberes específicos (GALLO 2000. pp.17-41).
Sílvio Gallo alerta para a estreiteza do conhecimento especializado, que pode pôr em risco a própria produção do conhecimento, por não percebê-lo como parte de um todo muito maior. A dissociação dos saberes labutaria para a fragmentação e alienação do ser humano como sujeito do conhecimento (GALLO 2000. p.26). O próprio GALLO propõe a interdisciplinaridade como uma das medidas possíveis para o enfrentamento da questão. Contra a ineficácia de uma pesquisa disciplinar Edgar Morin opina:

... ela institui a divisão e a especialização do trabalho, e responde à diversidade dos domínios que recobrem as ciências. Ainda que esteja englobada dentro de um conjunto científico mais vasto, uma disciplina tende naturalmente à autonomia pela delimitação de suas fronteiras, pela linguagem que ela constitui, pelas técnicas que é levada a elaborar ou utilizar...(NORIN, 2000, pp.65-66).


Uma Antropologia Bíblica Cultural deve ser vista como: “debate em região de fronteira” (SCHWARCS, 2000, P.11-31). O debate existente entre a história e antropologia é inspirador para a modalidade de pesquisa que se quer fazer em relação a uma Antropologia Bíblica cultural.
Deve haver uma abertura para se perceber um esforço antropológico, bíblico e cultural de forma interdisciplinar. Diversos saberes devem ser colocados à mesa para enriquecerem a pesquisa de forma geral, sem que haja uma maior delimitação de esforço, que venha limitar os resultados da pesquisa.
O que se vê acima é a tentativa de propor um lugar interdisciplinar para o que está se chamando de Antropologia Bíblica Cultural. É algo que receberia orientações e parâmetros da Etnologia, Etnografia, Antropologia Social e, mesmo que distante, também da Arqueologia. Todavia, outros esforços ainda devem ser considerados. É necessário que se verifique: a História das Religiões, a História Social, a Fenomenologia, a Exegese crítica a Hermenêutica, a Teológica, enquanto discurso configurado na história, etc... Por isso, mesmo que de forma superficial deveria se considerar a seguinte esquematização:


O esquema visa apresentar a Antropologia Bíblica Cultural como um eixo unificador de várias inicitivas que comporiam a pesquisa de forma mais ampla. É a tentativa de expressar o fenômento das invasões dos saberes num ponto de discursão entre diversos profissionais e estudiosos.


Pode-se observar que o objeto de uma Antropologia Bíblica Cultural lhe é peculiar, todavia as abordagens serão multiplas e integradas. O que ainda falta fazer, mesmo que de forma superificial é considerar as questões de objeto e método de uma Antropologia Bíblica Cultural que reuna númerosos caminhos.

2. O objeto e o método de uma Antropologia Bíblica Cultural

N. K. Gottwald assume a intenção de cruzar os setores sociais e históricos para o estudo da religião de Israel no seu período primitivo. A sua preocupação está com os aspectos ligados à religião entre os anos 1250-1050 aC, na história de Israel(GOTTWALD,1987,Pp.42-55.). Na sua opinião os estudos de um Israel primitivo devem levar em conta tantos os elementos sincrônicos como os diacrônicos para o seu devido aprofundamento
O método histórico e o sociológico são diferentes, mas compatíveis entre si para reconstituir a vida e o pensamento do antigo Israel. (...)O estudo sociológico visa conhecer os modelos típicos das relações humanas em suas estrutura e função, num dado momento ou fase (sincronia) como nas trajetórias de mutações em determinados períodos de tempo (diacronia). (GOTTWALD,1987,p.42),
No caso do método Sociológico, GOTTWALD sugere que se use o arcabouço da história de Israel e se faça implementações para se estudar os grupos de Israel.
Pode-se aceitar o estudo das culturas bíblicas como recortes convergentes entre coordenadas históricas sociais e ideológicas. A partir do arcabouço da história de Israel, integram-se a ele os fatores e processos sociais e culturais para que se verifique o recorte simbólico que poderia vir a ser objeto de estudo de Antropologia Bíblico cultural.

Resolvida a questão do objeto de estudo de uma Antropologia Bíblica Cultural, quase nada se deveria dizer ainda a respeito de um método de trabalho.


Por uma questão de coerência, é preciso ser lembrado que uma Antropologia Bíblica Cultural deve ser uma fronteira de debate entre diversas perspectivas de estudo. Por isto, deve se furtar de consagrar um determinado método e aceitar vários, pela própria abrangência e circularidade, de diversas procedências. Este aspecto já foi designado aqui no corpo do presente trabalho como sendo uma abordagem numa uma perspectiva interdisciplinar.
Torna-se importante pensar o papel realizado na integração das ciências, dentro do estudo das culturas do mundo bíblico. Um tipo de levantamento de dados deverá passar a ser feito em relação ao horizonte bíblico: 1) Uma Etnografia-histórica;2) A Etnologia; 3) um esforço hermenêutico-exegético.

Referências Bibliográficas

CRÜSEMANN. F. Abraão e os povos vizinhos. Caminhos, Goiânia, nº 1, pp.33-54, (2003).


GALLO S. Transversalidade e educação pensando uma educação não disciplinar In: ALVES, N. & GARCIA, R.L. O Sentido da Escola. ALAVES, N. & GARCIA, R.L.(Orgs) 2ªed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. pp.17-41.
GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1998. 323p.
__________ O Saber Local. Novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis: Vozes, 2001. 366p.
GOTWALD, N.K. O método sociológico no estudo do antigo Israel. ESTUDOS BÍBLICOS. Petrópolis, Vozes. nº7 Pp.42-55. 1987.
KEEL, Othmar. “Do meio das nações”. A Bíblia como porta de entrada de culturas antigas do Oriente próximo. Concilium, Petrópolis, nº256. p10-21,(1995).
LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996. 456p.
MELLO, L. G. Antropologia Cultural. Iniciação teorias e temas. Petrópolis: Vozes, 2000. 526p.
schwarcs, L. História e antropologia: embate em região de fronteira. In: GOMES, N. & schwarcs, L. Antropologia e História. GOMES, N. & schwarcs, L. Antropologia e História. Debate em região de fronteira. Belo horizonte: Autêntica, 2000. pp.11-31
ULLMANN, R. A. Antropologia: O Homem e a Cultura. Petrópolis: Vozes, 1991. 328p.

1 A presente comunicação trata-se de uma síntese de fragmentos de: SANT’ANNA, Elcio. Uma Proposta para uma antropologia Bíblica cultural. O Mito Cosmogônico no Antigo Testamento. Um estudo dos elementos para construção de uma Antropologia Bíblica Cultural. Rio de Janeiro, 2002. pp.258-306. [Dissertação- Mestrato em Teologia - STBSB].

* Mestre em Teologia STBSB, STBFR, COOPBET, Diretor de Divulgação do IERSAL





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