A arte da palavra



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004




GT História do Jornalismo

Coordenação: Prof. Dra. Marialva Barbosa (UFF)



A ARTE DA PALAVRA

Alceu Amoroso Lima e o

Jornalismo Como Missão Civilizadora

Marcelo Januário


"Tudo é literatura desde que no seu meio de expressão, a palavra, haja uma acentuação, uma ênfase no próprio meio da expressão, que é seu valor de beleza."

Alceu Amoroso Lima 1
"A arte literária se apresenta como um verdadeiro poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual para traço de união, em força de ligação entre os homens (...)"
Lima Barreto 2

I – A atração das sensibilidades

Qualquer abordagem acadêmica sobre o pensamento jornalístico de Alceu Amoroso Lima (1893-1983) terá de, antes de tudo, avançar sobre o terreno da estética. Apesar de (ou até por isso) nunca ter ocupado cargos públicos, seu prestígio político é irrefutável, como demonstra a incansável e reconhecida luta contra as ditaduras que empreendeu em sua longa existência, assim como a atuação de influente pensador religioso e líder máximo da renovação católica no Brasil. Sua influência é notória também como educador e scholar laico brilhante, especialista em áreas diversas do conhecimento como economia, psicologia, sociologia, pedagogia, direito ou filosofia política.

Quaisquer destas áreas e temas poderiam constituir o foco de análise da trajetória deste humanista analético,3 personagem controversa e nem de longe inconteste, mas que, segundo testemunhos de autoridades como Afrânio Coutinho e Alfredo Bosi, além de ser o crítico por excelência de nosso modernismo, sempre acreditou na liberdade, na justiça e nos valores da pessoa humana. No seu caso, pelo prisma do catolicismo eclesiástico.

De fato, seu legado possibilita dissertações em quase todas as áreas e sobre quase todos os aspectos da vida nacional, sendo, independentemente de avaliações político-ideológicas ulteriores, um autêntico autor paradigmático do desenvolvimento intelectual do país no século XX. Paradigma em crise de extinção, na verdade, tendo em vista a aparente indiferença e o quase que completo olvido por parte da intelligentsia nacional, historicamente mais afeita (ou afoita) aos (pelos) modelos externos e de ocasião.

O enfoque desta monografia, entretanto, supõe que a arte (e suas possibilidades no uso da palavra), assim nos parece, define a trajetória de Alceu Amoroso Lima como pensador do jornalismo, configurando-se no guia conceitual que fornece a chave das idéias humanistas deste intelectual, autor de mais de 80 livros e 4 mil artigos em 90 anos de vida, na mais longa e intensa atividade jornalística puramente cultural 4 de toda a história da inteligência brasileira. Como destaca Gilberto Mendonça Teles, "para ele, os problemas estéticos estão em relação íntima com os problemas militares, políticos, econômicos, jurídicos ou religiosos, pois a arte não se separa, como nenhuma das atividades humanas, de uma filosofia geral da existência".5

Mas Alceu Amoroso Lima também defendeu a autonomia dos valores estéticos: “Um mau poema será sempre inferior à boa crítica que sobre ele for feita”.6 O diferencial de seu pensamento, portanto, que ademais se encontra tão solidamente enraizado em sua geração quanto diluído na nossa, está no projeto idealista de uma prática jornalística com caráter social e de atuação cívica intrínsecos, além de realização formal superior. Ideal este que, fiel às suas origens clássicas, transcende a mera questão do formalismo e enlaça a ética e a filosofia,7 na "missão catártica de refletir as paixões humanas para o aperfeiçoamento da natureza".8

Este é um tema oportuno de resgate crítico em um momento em que a mentira se torna a pedra de toque do modelo9 empobrecido de jornalismo que é adotado com uma confiança inaudita por nossos profissionais e até mesmo por pesquisadores de comunicação. Há sinais de desconforto com esta situação de isolamento arrogante por parte dos agentes do jornalismo. Estudiosos como o professor espanhol Manuel Angel Vasquez Medel alertam que "o campo concreto dos estudos jornalísticos exibe há décadas um andar claudicante e reumático, atribuível em boa medida ao reiterado descuido das colaborações mais significativas provenientes de disciplinas sociais e humanísticas tais como a lingüística em seus diferentes ramos, a (...) semiologia, a filosofia da linguagem, a chamada nova retórica e, em geral, o amplo e fecundo campo dos estudos literários".10

Se o debate é atual, a problemática tem largo trajeto em nossas letras. Assim, a maior contribuição de Alceu Amoroso Lima ao pensamento jornalístico brasileiro, mesmo que tal contribuição seja, como veremos, contestada e acusada de descompasso conceitual com a realidade que as novas tecnologias configuram, talvez esteja justamente na inclusão do jornalismo entre os capítulos da arte literária, na defesa da preponderância do estilo, da beleza e da precisão da palavra, da ética imbuída na realização formal do jornalismo enquanto verdadeira obra estética, que reflete a sociedade humana enquanto a civiliza. Idéias presentes tanto na teorização e praxis de uma crítica literária expressionista, (construtiva, integrativa, humanista, criadora, analítica), como na polêmica tese do jornalismo como gênero literário:

“Se a, literatura, como expressão individual, é da responsabilidade pessoal do seu autor e está no plano da liberdade do fazer, a literatura jornalística, como expressão social, está no plano do dever, de modo que sua responsabilidade coletiva abrange um campo ainda mais vasto."11


Além de meras preocupações acadêmicas, as questões relativas ao jornalismo como gênero literário se referem à própria vitalidade do fenômeno jornalístico, de sua finalidade extra-estética e de possíveis caminhos para o futuro, em uma época de crise e impasse histórico nas funções sociais da palavra como se apresenta a nossa. E para situarmos Alceu Amoroso Lima no debate concernente a estas questões, após verificar sua concepção de crítica e de jornalismo, retomaremos seu clássico livro O Jornalismo como Gênero Literário, estudado à luz de reflexões de acadêmicos e profissionais sobre as relações entre literatura e jornalismo. Tal campo de hibridização é desde sempre tema marcante na história do pensamento brasileiro, de importância central para a prática discursiva e para sobrevivência da "musa plebéia",12 como Leon Trotsky (1879-1940) certa vez referiu-se ao jornalismo. A dignidade do ofício também é reiteradamente questionada através do tempo em nosso país e fora dele, situação ilustrada pelo fato de que, já no início do século, escritores-jornalistas como Euclides da Cunha (1866-1909) e Lima Barreto (1881-1922) "denunciavam (...) a degeneração cultural que invadiu a República, sobretudo [com] os efeitos do jornalismo sobre as consciências e a literatura".13 O jornalismo e seus profissionais precisam fugir ao estigma ainda vigente de, nas palavras de Lima Barreto, fazer "de imbecis gênios, de gênios imbecis; [que] trabalham para a seleção das mediocridades".14

Neste contexto, o olhar atento ao pensamento de Alceu Amoroso Lima possibilita a reflexão sobre as possibilidades de inovação conceitual e técnica que possam revigorar a atividade e o campo. Pois a reforma do jornalismo sempre foi clamada pela sociedade civil, como deixa claro este trecho de recente (2002) ensaio do jornalista Carlos Peixoto:

"É preciso reformular o fazer jornalístico, atualmente preso às concepções técnicas, desde o levantamento da informação –o lead das escolas norte-americanas– à mecanização dos textos deter-minada pelas camisas-de-força dos projetos gráficos-editoriais adotados em série. É preciso dar ao texto jornalístico a mesma atenção que à narrativa literária, deixando para os meios de comunicação eletrônicos a tarefa limitante da reprodução mecânica da realidade".15
Nossa hipótese é que, em um período histórico marcado por crises cíclicas de paradigmas e de redefinição dos caminhos, se pesquisadores e profissionais de jornalismo reconsiderarem um tema tão caro à nossa história intelectual, talvez possamos conceber novos modelos de captação do real e de transformação da sociedade. A raiz grega de crítica (e também de crise), krínein, significa "decidir", implicando em uma substância espiritual que oriente as ações empreendidas em sociedade. Que possamos construir uma lógica comunicacional baseada em uma estética social, ou, na expressão do sociólogo francês Michel Maffesoli (1944), em uma "ética da estética",16 definida como a "atração das sensibilidades que podem engendrar novas formas de solidariedade". Decidamos.
II – O globalismo crítico

Alceu Amoroso Lima começou a escrever crítica literária em 1919, quando contava com 25 anos. Seu artigo de estréia, “Bibliografia”, saiu no 1o número de O Jornal (17.06.1919), assinado Tristão de Athayde.17 De 47 a 66, manteve no Diário de Notícias a coluna “Letras e Problemas Universais”. Colaborou também com Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Folha de S.Paulo, O Diário (Belo Horizonte), A Tribuna (Recife), Jornal do Dia (Porto Alegre), La Prensa (Buenos Aires). Vencedor do Prêmio Moors Cabot em 1969, láurea mais antiga do jornalismo internacional, Alceu Amoroso Lima foi o primeiro crítico a citar Marcel Proust e Teilhard de Chardin no Brasil, além de, em 1928, ter apresentado a literatura nordestina ao país, através de crítica do romance "A Bagaceira", estréia do então desconhecido escritor paraibano José Américo de Almeida.

Visionário, através de sua obra é possível se entender uma época da literatura brasileira. Para muitos a mais importante geração de nossa acossada literatura. O próprio autor considerava sua maior contribuição intelectual ao campo das idéias o fato de "ter feito a defesa intransigente do modernismo brasileiro, à raiz mesma de suas primeiras manifestações contra todos –e eram todos então– que viam na revolução literária de 1922 apenas a gaiatice pedante de alguns moços desocupados”.18

A patrulha ideológica, entretanto, fez com que sua obra fosse parcialmente ignorada. Acusado por décadas de simpatia pelo fascismo, após o golpe militar de 1964 sua autoridade intelectual possibilitou-lhe romper o cerco da censura imposta ao país e, em suas colunas no Jornal do Brasil e na Folha de S.Paulo, posicionar-se politicamente contra o novo regime. Em sua busca pelo homem integral, converteu-se em símbolo de resistência ao arbítrio do Estado, à violência e à tortura, na "voz da consciência nacional, da liberdade, do respeito aos direitos humanos, na luta pela anistia e redemocratização do país".19

Intelectual autônomo, não se filiou a nenhum grupo específico do modernismo, sendo pioneiro no próprio campo moderno: "Aparecendo pouco depois da morte de Sílvio Romero e José Veríssimo, Tristão de Athayde abriu um caminho pessoal e novo na crítica brasileira. Tornou-se um mestre desse gênero literário".20 O estudo Tristão de Athayde: o Crítico, de Afrânio Coutinho, traça o inventário do arcabouço teórico e prático de Alceu Amoroso Lima sobre literatura. Demonstra que a criação, entendida como expressão verbal, é a condição primaz da crítica literária. A arte provém do estudo do texto e não do bio-social, da busca de uma obra aberta, fundamentada no isomorfismo, no interdito e na intertextualidade. Elementos constituintes da crítica literária moderna, conceituada por Benedetto Croce e herdeira da tradição francesa da crítica em periódicos (Sainte-Beuve) e do reviewing anglo-americano, primando, sobretudo, pelo interesse no texto, na obra-de-arte de linguagem:

“Escrevendo para jornal, sujeitando-se às conhecidas limitações do tempo e do espaço jornalísticos, Tristão de Athayde tinha consciência de que a sua análise não chegava a ser exatamente uma análise no sentido científico ou filosófico do termo. A sua inteligência ‘decompunha’ ou ‘desmontava’ a obra, mas não era compelida a examinar a funcionalidade ou reciprocidade dos elementos da estrutura literária: bastava a escolha dos que lhe despertassem maior simpatia ou que lhe motivassem comentários de interesse cultural. Na verdade, o que contava em primeiro lugar era a síntese expressiva, era a linguagem crítica que, por isso mesmo, pôde desde os primeiros momentos teóricos ser percebida como literária, ao contrário do que até então se fazia.”21


Professando que toda crítica supõe uma filosofia da vida, Alceu Amoroso Lima enumera três requisitos para o seu correto exercício: a ciência, a inteligência e a vontade. Também destaca o descrédito pela vaidade e a necessidade perene de objetividade: “A crítica é atividade intelectual e não afetiva, filosófica e não apenas psicológica, objetiva em seus fins e não puramente subjetiva”.22

A crítica expressionista de Alceu Amoroso Lima, inspirada na teoria estética de Benedetto Croce (1866-1952), tem por matrizes históricas os paradigmas platônicos (perspectiva extraliterária ou extrínseca; instrumento de valores que não os estético-literários; exterior do fenômeno e corpus doutrinário) e a exis aristotélica (verdade poética e verdade histórica não são iguais; como fenômeno específico da natureza, a literariedade não se confunde com o histórico-social). A singularidade e o universalismo são a argamassa do fazer artístico. "A verdadeira arte é a captação do universal no particular, no singular, no concreto. Sem o singular, não há arte. Mas sem essa captação do universal no particular, nós não saímos do noticiário".23

A crítica deve ser fiel ao objeto, mas como obra de criação deve também ser fiel ao sujeito – “Ao jornal compete menos a obra de criação do que o comentário e a divulgação. O jornal deve ser um orientador de espíritos, um guia consciencioso de consulta fácil. Assim, não pode uma seção de bibliografia confinar-se na seca enumeração de livros".24 De maneira que o jornalismo crie enquanto comente e aprecie.

“Não é possível julgar uma obra sem a ter compreendido, e a compreensão só é possível com a renúncia transitória ao racionalismo. Para se operar a transfusão do espírito da obra no espírito do crítico, indispensável para a compreensão daquela – é mister que seja o sentimento do crítico a absorver a obra, antes que a inteligência a analise.”25


Neste modelo expressionista, os princípios conceituais do Globalismo Crítico são estabelecidos nos primados da Cultura (humanismo, visão panorâmica, interdisciplinar e supranacional), da Teoria (filosofia geral, estética e teoria literária) e do Estético (valores artísticos autônomos). O programa estético-literário e ético inclui a objetividade na informação e no comentário; a subjetividade na expressão e no cunho pessoal do juízo; a superioridade às escolas, tendências e grupos; a seletividade no que respeita ao número de livros a examinar; a sinceridade e impessoalidade nos pronunciamentos; a independência em relação a camaradagens e idiossincrasias; e finalmente o revestimento da crítica de um valor docente. As ferramentas analíticas residem na leitura receptiva, que abrange totalidade, hierarquia de valores, originalidade, simultaneidade e autonomia. Mas é mesmo a obra em si que orienta tal abordagem global: “(...) o dever primordial de toda ‘crítica sincera, plástica e arguta’ é essa fusão da alma do crítico com a obra. É a crítica no gênero de Diderot, De Sanctis, Carlyle, Goethe e Sainte-Beuve”.26

Especificados os conceitos gerais, Alceu Amoroso Lima divide a crítica em dois tipos: críticas inferiores ou parciais, que incluem a eclética (moda / ocasional / superficial), a pessoal (autoral / personalismo / tendenciosa), a partidária (sociológica / metafísica / grupal) e a gramatical (normativa / padrões); e as críticas superiores ou de filosofia da vida, desmembradas em estética (supremacia da arte / esteticismo), sociológica (primazia da sociedade / social ou econômico), psicológica (impressões pessoais / análise interior) e apologética (moral / religião).

Em cada destes tipos, as críticas formam diferentes níveis, todas “com seu corpo de doutrinas mais ou menos contraditórias, com suas pretensões científicas, com suas modalidades, suas especialidades, suas ramificações, mas com sua autonomia”: autocrítica (prática individual rigorosa do ofício e aperfeiçoamento da teoria crítica), endocrítica (autocrítica coletiva), e exocrítica (crítica propriamente dita).

Captando o processo de desintegração dos valores e paradigmas então em curso, e hoje em estágio ainda mais avançado, o autor traça o diagnóstico do desaparecimento da autêntica crítica literária, e diríamos do próprio jornalismo cultural brasileiro sob este cenário. Assim, assevera que "à crítica literária falta em nossos dias precisamente um critério qualquer ‘tanto de ordem ontológica (religiosa ou filosófica) como de ordem sociológica ou estética’. E essa ausência é o que está matando a crítica literária”.27

Décadas se passaram e a crítica de fato declinou, e se não se encontra em estado terminal de extinção, no mínimo necessita de revitalização urgente, como indicam as abordagens contemporâneas sobre o tema:

"É preciso perder o medo de usar palavras menos óbvias, fugir ao lugar-comum, costurar melhor descrições e argumentos, acres-centar pitadas de humor, ironia e até lirismo, usar recursos como metáforas, trocadilhos e mudanças de andamento. É preciso diversificar os gêneros. E também, com a demanda crescente do leitor por análises que ponham os dados em perspectiva e desafiem o marasmo vigente, é preciso revitalizar a crítica, filha pragmática do ensaísmo, tirando-a do achismo e do parasitismo".28


Instituição social com interesses financeiros e políticos, o jornalismo não pode voltar-se contra a sociedade, e sempre que "envenena a Opinião Pública, fanatiza-a ou a informa mal, está falhando à sua finalidade”.29 Na visão de Alceu Amoroso Lima, o preparo intelectual e a ética são os pilares de sustentação de um jornalismo como gênero literário e socialmente responsável, garantia de superação das eventuais falhas sistêmicas. “A qualidade intelectual é que conta para a autoridade autêntica da imprensa. Como a responsabilidade moral é o sentido do dever que lhes incumbe, como verdadeira missão social. Esse sentido do dever é capital para a imprensa, mesmo como gênero literário. É um gênero literário intrinsecamente inserido em sua dupla função de informação e de formação. De informação, baseada na verdade dos fatos. De formação, no sentido educativo que toda a literatura, como arte da palavra, deve ter”.30

Porém, a prerrogativa da responsabilidade individual parece-nos de uma pueril e ingênua boa-fé, a crer no ceticismo reinante desde então, a despeito da esperança que os homens tenham na estatura moral e na altivez, superiores ao tempo e às relações. Assim, como entidade que se constrói no domínio do acontecimento e da ação,

“O jornalista é aquele que, dentro de uma estrutura e de uma legislação que lhe garantam a liberdade de informação e de comunicação, exerce o seu jornalismo com a responsabilidade daquelas outras exigências morais e até mesmo estéticas, ligadas à profissão, que são a veracidade da informação, a honestidade da notícia e a decência de não ser subordinado a quaisquer interesses estranhos.”31
Afrânio Coutinho32 observa que a trajetória de Alceu Amoroso Lima, enquanto pensador, gravitou das formas (estética) para as idéias (filosofia) e então para os fatos (política). Mas no que se refere estritamente ao nosso objeto, a concepção de Alceu de que “a expressão verbal literal é a mais ampla e mais compreensiva de todas as expressões da arte” e de que “a arte é uma forma de comunicação” notabiliza sua apreciação estética do fenômeno jornalístico. O caráter social do jornalismo, o senso de atualidade e a objetividade, seriam os seus dados diferenciais principais em relação ao campo literário: “O jornalismo não é literatura pura, sem dúvida, como é um poema, no qual a palavra vale apenas como palavra (embora nele se contenha o mundo) e não como transmissão de um pensamento ou de uma mensagem. O jornalismo tem sempre, por natureza, (...) um fim que transcende ao meio”.33
III – O paradoxo da qualidade jornalística

Em O Jornalismo como Gênero Literário, publicado originalmente em 1958, Alceu Amoroso Lima faz uma reflexão sobre as distintas concepções de gênero literário, procurando encontrar um denominador comum entre literatura e produção jornalística, que é caracterizada como uma arte verbal enquanto prosa de apreciação de acontecimentos. Pela tese contida neste livro, não poderíamos considerar o crítico Tristão de Athayde como representativo do exercício de um jornalismo cultural ou literário, sendo que define a crítica como um gênero à parte no território da literatura. Ainda assim o faremos, não sem certa hesitação, mas com a premissa viável de que a apreciação de obras, pelo prisma da própria crítica expressionista criativa, nos fornece o exemplo prático mais acabado das idéias que o autor encerrou em seu estudo de fenomenologia literária.

A obra se inicia com a exposição da controversa questão: o jornalismo é um gênero literário? Para o escritor e humanista francês André Gide (1869-1951), prêmio Nobel de Literatura de 1947, a resposta é negativa, pois "jornalismo é tudo o que amanhã interessará menos"34 que hoje; O acadêmico mineiro Antonio Olinto (1919), membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e um dos principais teóricos da literatura brasileira, coloca-se em direção contrária, afirmando que a "penetração [do jornalismo] no dia-a-dia, em busca do que se possa ter de permanente", o habilita à condição literária; Já o advogado, jornalista, ensaísta, historiador, professor e político pernambucano Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000), é mais cauteloso ao posicionar-se entre os dois autores anteriores: "Talvez", afirma o imortal da ABL, "mas é temerária a inclusão".35

Como se vê, muitas e diferentes são as opiniões, e provavelmente tal controvérsia tenha continuidade no século digital, a se fiar na bibliografia recente que o tema produz e no caloroso debate entre teóricos, escritores e jornalistas, envolvidos diretamente na avaliação do próprio objeto de suas atividades. Quanto à questão, Alceu Amoroso Lima teoriza afirmativamente e procura demonstrá-lo neste pequeno ensaio, mas não há conclusão pacífica sobre o assunto, tal a maleabilidade que o uso da palavra propicia na construção do conhecimento humano.

Aproximando-se do problema, Alceu Amoroso Lima analisa a genologia36 (concepção de Paul Van Thiegen, autor de Le Mouvement Romantique: Angleterre-Allemagne-Italie-France) e as soluções deste campo para o estudo dos gêneros literários: clássica: forma superior de pedagogia (meio e não fim) com caráter imperativo e com um código de construção estética de normas objetivas que a composição deve obedecer, representada por Aristóteles, Quintiliano e Horácio;37 integral: concepção integrista (seleção natural) dos gêneros como entidade à parte (hipóstase e hipertrofia), cuja objetividade científica considera autores e obras como órgãos efêmeros de um organismo constante, representada pelo crítico Ferdinand Brunetière (1849-1906); negativa: concepção nominalista, considera os gêneros fora da estética (separando arte e ciência) e nega sua rigidez e superioridade aos artistas e obras, representada pelo Benedetto Croce; racional: de concepção descritiva, foge do caráter ontológico para o metodológico e liga os gêneros às características exteriores (sem limitação ou normas fixas), ao passo que dimensiona os princípios ordenadores dentro da própria arte do criador, na livre disciplina e na soma de esquemas estéticos. Representada por René Welleck e Austin Warren, é a partir desta concepção metodológica e racional, que busca um denominador comum dos gêneros, que Alceu Amoroso Lima considera o jornalismo como um deles.

No capítulo A Condição Literária, Alceu Amoroso Lima define o gênero literário como construção estética determinada por uma concepção flexível de disposições interiores, segundo afinidades intrínsecas e extrínsecas. Pergunta se devemos considerar o jornalismo como literatura para concluir que, "se tomarmos o conceito de literatura como a arte da palavra, a expressão pelo verbo, devemos incluir o jornalismo".38 Concebe a literatura nos sentidos lato, como toda expressão verbal, falada ou escrita (valor de meio: instrumento); corrente, ênfase nos meios de expressão verbal (valor de fim: estilo) e estrito, de caráter ficcional com separação entre estética e vida e exclusão dos fins (Croce).

Assim, o jornalismo possui o elemento diferencial (a palavra) que o torna apto a ingressar no campo das letras. Como o modo de se empregar o verbo é que realmente importa, o critério de efêmero (sem poder de penetração na realidade) não está intrinsecamente ligado ao jornalismo, que depende de sua qualidade e não de sua natureza, já que o mau jornalismo, como vimos, será posto à margem da literatura, como a má poesia. Ocorre uma passagem do plano empírico utilitário ao plano gratuito (ênfase nos meios de expressão):

“Sempre que se reduzir o meio (a palavra) a um simples instrumento de transmissão, deixará de ser jornalismo para ser apenas publicidade ou propaganda, ou noticiário, ou anúncio.”39


A Ciência parte do que é (medido pelo objeto); a Moral parte do que deve ser (adequação ao dever) e a Arte parte do que pode ser (domínio da liberdade; expansão das possibilidades). Na intersecção (por equivocidade, por univocidade ou por analogia) dos valores germina a beleza: “A beleza é uma integração de todos os valores. Não um valor em si. É tudo mais, com uma acentuação primacial na sua forma de expressão, seja a palavra na literatura, seja o som na música, seja a cor na pintura e assim por diante.”40

A fonte da arte é o gênio criador, o fim é a obra. O que as distingue são as causas intermediárias, materiais (com que se faz) e formais (com qual estilo). As diferenciações relativas e pragmáticas dos gêneros (analógicos e intercomunicantes) se dão em seu caráter metodológico com diferenciadas especificações de autonomia, uma vez que os subgêneros são inumeráveis, e as combinações de gêneros e subgêneros também são ilimitadas.

A palavra é o sinal característico da literatura como entidade autônoma. Entendida como arte, ela é uma ordenação acrescentada à natureza. “A palavra, como natureza, é um simples instrumento de comunicação. Como arte é um meio de transmissão, com caráter de fim”.41 Se a palavra é utilizada como artifício, redunda em verbalismo ou não-literatura. Se o meio é transformado em fim, origina a estética. A diferenciação é tênue e cambiável: “O verso é o primado específico da palavra, dentro do seu primado geral. A prosa é a marginalidade da palavra e sua subordinação ao sentimento, à idéia, à paixão, à narração, ao que não for propriamente palavra, dentro também de sua primazia em princípio”.42

Na função da palavra, conforme migramos do verso para a prosa, assistimos a um grau decrescente de lirismo e a um grau crescente de instrumentalidade (de-graduação), mas nunca ocorre o desaparecimento daquele. Neste processo, o lirismo objetivo (poesia lírica) é a representação da própria realidade e o lirismo subjetivo (conversação, oratória, epistolografia etc.) é a comunicação da natureza humana.

A esquematização do território da literatura é então apresentado, dividido em verso e prosa. A poesia lírica em verso é a fonte de toda literatura, a depuração suprema do verbo. Supõe a “informação poética de qualquer forma de expressão”, no que tange à imobilidade, interioridade e plenitude ontológica. Nesta categoria, onde a palavra é ligada à pessoa, pode haver poesia em todos os gêneros.

“Verso é o corpo que se une à forma, à alma, para formar esse ser-em-si, ser poético, com sua realidade própria, distinta do ser-das-coisas ou do nosso ser, mas nem por isso menos real, de uma realidade própria, que constitui a autonomia do verbo, que deriva, afinal, em última análise, do Verbum que é o princípio de todas as coisas, o Logos helênico, que São João exprimiu na sentença imortal com que começa o seu Evangelho: In principio erat verbum.”43


Na poesia épica o lirismo é transportado para o plano da narrativa, com a palavra ligada ao fato, e este ao campo verbal (realidade histórica). É o domínio da descrição (o outro supera o eu), em que a palavra ainda continua a ser o objeto próprio da expressão.

A poesia dramática insere o diálogo e o contato, a palavra é ligada à ação, à relação social e ao movimento. Trata-se de uma ação dialogada: “O verso dramático é uma transposição, para o plano da convivência humana, do que já nos haviam dado a solidão do lirismo e a narração da épica, isto é, expressão e fato”.

A prosa é definida como poesia sem verso, de transmissão de mensagem onde a palavra deixa de ser, acima de tudo, valor de ineidade para assumir um valor de alteridade. Ocorre neste formato um valor crescente de meio e de instrumentalidade, sendo que “entre verso e prosa não há uma diferença de natureza, e sim de grau”. No verso, o drama já tinha tendência à alteridade, mas na prosa há a intenção que transcende da expressão (palavra pela mensagem, pelo fato, pela idéia, pela paixão, pela paisagem, pelo comentário, pela divagação etc.). Assim resulta, por exemplo, que o coloquialismo possui o grau mínimo de lirismo e o grau máximo de instrumentalidade (mecanização).

Na prosa de ficção reina o mundo dos símbolos, a criação, a invenção do homem a partir da originalidade, da introdução de novas formas no mundo, da estilização da realidade e descoberta de uma realidade outra, o que pode ou não corresponder a uma realidade ontológica: “O artista é o grande concorrente de Deus”.

Na prosa de apreciação, há o juízo a formar, a consideração do já existente e o discernimento e análise: “Mas a apreciação e valorização (evaluation), a meditação sobre a obra, as pessoas ou os acontecimentos já existentes, são tão legitimamente obras de arte, como a gestação de um ser verbal, ainda não existente, como ocorre nos gêneros, que chamamos de ficção”. Na prosa de comunicação, chega-se à transmissão da mensagem, “não porque toda arte não seja de certo modo comunicação, ao menos potencial, mas porque nele a nota predominante é precisamente essa de levar ao outro uma mensagem, de agir sobre alguém, de transmitir alguma coisa. E essa transmissão é uma finalidade que transcende o meio de transmissão. E por isso mesmo constitui um sistema de gênero à parte”.44

Avançando em seu esquema-andaime do território da literatura, Alceu Amoroso Lima estrutura a prosa de ficção em romance (transposição da poesia épica), conto e novela (diferenciados quantitativamente) e teatro (verso e prosa); a prosa de apreciação em apreciação de obras ou crítica (recriação de forma alheia com o objetivo de interpretar, avaliar, recriar) –“O poeta é proprietário. O crítico é mercenário”–, de pessoas ou biografia (finalidade é o autor; a vida da pessoa humana) e de acontecimentos ou jornalismo –“Quando a utilização da palavra, em um jornal, tem apenas um fim pragmático não é jornalismo. (...) O que faz o gênero jornalístico não é o meio da expressão, é o modo de expressão, é a natureza da expressão. E a marca principal, como vimos, é de uma apreciação e não uma criação em si, sob a forma de ficção, de biografia ou de crítica” –45 e a prosa de comunicação em conversação (permuta direta de idéias), oratória (forense, política, religiosa, de convencimento público) e epistolografia (permuta de idéias à distância).

O jornalismo, como prosa de apreciação de acontecimentos, apresenta tríplice acepção: os sentidos lato (tudo o que aparece no jornal), figurado (qualificação pejorativa; superficialidade; pressa) e próprio (que tem o acontecimento como dado imediato da consciência jornalística e especificador de sua autonomia literária).

“A natureza própria da crítica é apreciar a obra de criação. Mas não podemos separar as duas atividades e apenas distingui-las. Em toda obra de arte há uma parte de criação. É essa parte que a torna propriamente obra de arte, e não de natureza, ou de ciência ou mesmo de arte mecânica ou de arte liberal. A crítica, como obra de arte, é por natureza criadora. A crítica como obra de ciência, essa, está fora do domínio da arte. É a história literária. É a filosofia da literatura. É a gramática. (...) uma arte cercada de ciência.”46

Em um sentido eclético, o jornalismo será "mais arte, quanto menos for exclusivamente arte”. Nos tópicos Informações e Atualidades e Estilo Jornalístico encontramos os conceitos que definem a nota típica do jornalismo nesta acepção. O conceito de informação implica em uma “tradução intensiva do acontecimento para comunicação ao Outro”, sendo o elemento essencial do jornalismo, onde ocorre o duplo contato com o acontecimento e com o leitor e a permanência no fluxo vital dos fatos, que visa extrair o essencial do acidental, o permanente do corrente. Este conceito se desdobra em In-Formação (formação do público; finalidade moral e social do jornalista), missão de criação e orientação da opinião pública, enquanto arte social com fins estéticos, morais e sociais. Tal característica reside no acento agudo sobre o receptor, em seu caráter público, coletivo e social e na sua finalidade para-estética: “Daí o paradoxo da qualidade jornalística não pode ser avaliada apenas do ponto de vista estético”.47

O segundo conceito, a atualidade, alude à retirada do tempo na eternidade, à descoberta do que há de singular no momento, em “encontrar o segredo do efêmero, com o efêmero”, o “auge do acontecimento”, o perecível, o evanescente e o temporal. Nestes termos, o jornalista é o homem do presente, vive no tempo e capta a mensagem do tempo; seu grande pecado é ser inatual, tanto por passadismo (anacronismo) como por futurismo (utopismo). O jornalista é o companheiro da morte contínua dos momentos.

A objetividade, tão demonizada na academia e fora dela, exige o contato com o fato; a veracidade, o realismo. Sendo uma arte pragmatista, que almeja o concreto em sua singularidade, sua objetividade se baseia no primado do objeto e na preocupação com a verdade (espírito científico).

Por fim, o estilo jornalístico, qualidade preliminar ao estilo do jornalista, considerado um elemento intrínseco da vocação, um documento de identidade: “O verdadeiro estilo é uma conseqüência, não uma causa, é uma resultante não uma finalidade. E subirá em perfeição à medida que descer do plano da consciência para o substrato da personalidade.”48 Ápice da formação ética e estética, o estilo transcende ao indivíduo. Uma vez que "nem em arte, nem em ciência, nem em política, nem em filosofia, nem em nada, liberdade se confunde com licença", o autor propõe as condições para a construção de um estilo comum, exigências que garantem autenticidade, precisão dos termos, concisão, clareza, transparência e brevidade ("A palavra adequada é sempre a palavra justa”).49

O êxito profissional requer dinamismo, sendo que “o grande jornalista é aquele que escreve depressa, em face do acontecimento do dia, com precisão e no menor número de palavras, levando uma informação exata ao leitor e formando honestamente a opinião pública”. Tal tarefa, desafiadora, emerge do domínio da razão sobre a paixão –“jornalismo é uma arte da inteligência, antes de ser da emoção”– e da aquisição de cultura geral, sem direito à ignorância: "(...) o jornalista autêntico tem o dever de não fornecer ao público o ópio que ele pede, e sim a verdade de que ele sempre precisa".50

Para atingir um estilo próprio, o autor reitera a necessidade algo telúrica do mistério da vocação, o diferencial do talento inato e a afirmação da personalidade, sem limites ou prescrições: “Não sou contra os cursos de jornalismo. (...) Só temo é que se queira algum dia confundir o diploma com a vocação”; ou: “O diploma de jornalista é apenas um certificado de estudos, não um atestado de valor”.51

A conclusão de que jornalista nasce feito e necessita apenas afirmar sua personalidade pelo estilo é bastante compreensível se considerarmos a época e o contexto em que Alceu Amoroso Lima (ele próprio também catedrático e reitor) desenvolveu seu pensamento. Em outras palavras e sem cair no mérito da afirmação, consideramos tal postura tão aceitável em sua época como discutível na atualidade. Por fim, descreve os perigos do jornalismo, que, de modo esquemático, bem ao gosto do autor, seriam:


  • Facilidade: Absorção pelo acontecimento; conformismo (ordem moral) e mimetismo (ordem verbal); cinismo; imitação do público. Abuso "da gíria, dos modismos, das frases de efeito, dos slogans da moda, para melhor ser lido e ouvido”;

  • Sensacionalismo: Atmosfera de sensação; passagem do plano racional para o passional; exagero; depreciação de princípios e idéias; “A tirania do fato é um perigo tão grande como o desdém pelo fato”;

  • Venalidade: macrocefalia jornalística; usura; medo; amoralismo; ganância;

  • Sectarismo: polêmica; controvérsia infundada; “Ora, uma coisa é o espírito de luta por princípios, no apreciar os acontecimentos, outra muito diversa é a paixão polêmica que torce a verdade dos fatos e se torna um espetáculo pitoresco ou uma sátira”.52

Pelo que podemos perceber, e pelo teor da apresentação da professora Alice Mitika Koshiyama à reedição deste clássico do jornalismo brasileiro,53 estes perigos todos parecem enraizados como tradições bastardas nos órgãos de imprensa não só brasileiros, mas também internacionais. É fato, o ideal não se realizou.

Para quem imagina que se trata de decadência contemporânea ou fenômeno hodierno, relembramos as palavras, escritas há quase 50 anos, que encerram o também clássico Jornalismo e Literatura, do professor Antonio Olinto:

"Essa é uma tragédia diária. Depois de algum tempo, no entanto, o que era trágico se tornas rotineiro, porque até a tragédia pode cair na rotina. E o jornalista deixa de lutar. Perdendo o domínio sobre a notícia, sobre o assunto e, depois, sobre a linguagem, acaba perdendo também de vista o objetivo, o fim, o público. Precisa, para que tal não aconteça, de manter uma permanente vigilância sobre si mesmo, sobre o modo como se aproxima da realidade, sobre o seu senso de valores, bem como sobre sua mistura de resistência e adaptação à pressão do tempo, do espaço e do público".54


IV – A cisão conceitual

Como vimos, a tese é polêmica. Anteriormente ao próprio Alceu Amoroso Lima, já Lima Barreto refutava a classificação em gêneros literários, mas abria espaço para a hibridização dos gêneros: "Nós não temos mais tempo nem o péssimo critério de fixar rígidos gêneros literários, à moda dos retóricos clássicos com as produções do seu tempo e anteriores. Os gêneros que herdamos e que criamos estão a toda hora a se entrelaçar, a se enxertar, para variar e atrair".55 Danton Jobim (1906-1978), primeiro scholar brasileiro no campo da comunicação, também se coloca "entre os teóricos que, reconhecendo que literatura e jornalismo lidam com um mesmo instrumento de trabalho –a língua– acabam por concluir que ambos têm objetivos diferentes". Nas palavras de Danton, "(...) não convém esquecer que a proximidade, no tempo, dos fatos, que são matéria-prima exclusiva do jornalismo, não somente o priva da perspectiva histórica, como lhe tira, até certo ponto, a perspectiva literária".56 Sob um olhar técnico, Alice Mitika Koshiyama argumenta que “não há fundamentação teórica coerente que sustente o esquema apresentado por Alceu Amoroso Lima colocando o jornalismo como gênero literário. Aparentemente a teoria literária não é o centro de suas preocupações. É a prática do jornalismo que mobiliza sua capacidade analítica”.57 Também a professora e pesquisadora Cremilda Medina rejeita a proposição, porém de forma integral, classificando-a de obsoleta e desatualizada:

"Um aspecto se tornou claro: não se trata de discutir as manifestações da mensagem jornalística conforme uma classificação literária de gêneros. Nem cabe a velha questão: jornalismo, um gênero literário? O fato da palavra, o signo verbal, ser um elemento comum e o fato de, numa fase histórica, o escritor se confundir com jornalista, não sustenta o enquadramento do Jornalismo na Literatura, nem em sua divisão de gêneros. Alceu Amoroso Lima levanta quatro critérios de especificidade: é realmente uma arte verbal, uma arte verbal em prosa, uma prosa de apreciação do acontecimento. Há nestes critérios uma certa imprecisão, como por exemplo no termo 'apreciação', mas de qualquer maneira ele identifica o objeto do Jornalismo: informação atual sobre o acontecimento. (...) Pelo que se pode perceber, os autores acima citados analisam o fenômeno jornalístico com padrões literários pré-cultura de massa."58
Independentemente dos julgamentos decretados, a tese de Alceu Amoroso Lima levanta a questão para um fato iniludível: a crise que se abate sobre o jornalismo atual também se vincula ao empobrecimento da linguagem e ao abandono dos valores éticos mais elementares. À distância do tempo, podemos avaliar com maior precisão este processo de embotamento contínuo da atividade, como sugere a análise histórica realizada por Daniel Piza: "Alguém poderia atribuir a ausência de teor literário nos jornais de hoje ao processo de modernização da linguagem jornalística promovido no Brasil desde os anos 60. O jornalismo nacional até então era retórico, verborrágico, personalista (...) inspirados na escola americana, os reformadores dos jornais nos anos 60 começaram a exigir uma abordagem mais objetiva, menos participante, concentrada em contar histórias sem editorializá-las. Até aí, ótimo. Mas nos anos 80 veio uma nova onda de 'modernização', que nos anos 90 consolidaria uma triste realidade: textos relatoriais, burocráticos, com pobreza de palavras e recursos, tanto mais tendenciosos quanto mais se pretendem 'neutros'".59

Convém ressaltar que toda esta reforma "modernizadora" foi louvada de maneira unânime pelas novas gerações de jornalistas, plenamente convictos de suas percepções do espírito do tempo e maravilhados pelos efeitos da terceira revolução tecnológica. Uma leitura possível é que o jornalismo brasileiro atravessou o século XX imerso no dilema, digamos, da decadência e do renascimento. Investigando a Belle Époque brasileira, o historiador da cultura Nicolau Sevcenko escreve que "a nova grande força que absorveu quase toda a atividade intelectual nesse período foi sem dúvida o jornalismo. (...) O jornalismo, impondo uma vigorosa padronização à linguagem e empregando praticamente todos os homens de letras nas suas redações, acabou necessariamente exercendo um efeito geral negativo sobre a criação artística. Tendendo ao sufocamento da originalidade dos autores e contribuindo em definitivo para o processo de banalização da linguagem literária, suas baixas remunerações exigiam ainda uma facúndia e prolixidade tal dos escritores, que impediam qualquer preocupação com o apuro da expressão ou do estilo". Para exemplificar, Nicolau Sevcenko ressalva que no início daquele o século, autores como Lima Barreto já apontavam para este traço autofágico de nossas letras, sedimentando a ambigüidade entre a corrosão e o vitalismo. "Ao problema do amesquinhamento da linguagem e da literatura, ele [Lima Barreto] tentaria responder ainda com uma reinfusão de atualidade que as tonificasse, recuperando-lhes a antiga força e eficácia. Iria buscar esse tom de atualidade no fenômeno cultural que dividia com a ciência a hegemonia das convicções neste período – o jornalismo".60

De fato, Lima Barreto vivia em crise com a imprensa do país, que ele considerava no mínimo suspeita. No entanto, o impacto do jornalismo em sua arte, era evidente e decisivo. Através do jornalismo, a estética de Lima Barreto se destacaria pela linguagem simples, "pelo despojamento, contenção e espírito de síntese, aplicados à linguagem narrativa; enquanto que o tratamento temático se voltaria para o cotidiano, os tipos comuns, as cenas de rua, os fatos banais e a linguagem usual". Foi através do jornalismo que Lima Barreto encontrou as bases de sua obra: a crônica cotidiana.61 De forma dialógica, "escoimado de seus vícios, que Lima censurava com tenacidade, o jornalismo (...) fixaria algumas das qualidades mais marcantes de seus textos, praticamente indissociáveis de sua longa carreira de assíduo colaborador da imprensa carioca".62 Pelos jornais, Lima Barreto nos ensinou que o efeito da arte sobre a comunidade humana é decisivo.

Por outra perspectiva, ainda nos anos 50, ao enumerar os tipos representativos do romancista-jornalista Antonio Olinto cita as obras do escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961), prêmio Nobel de Literatura de1954, como o modelo de texto que mais conseguiu "equilibrar" os dois estilos e que embasa a apreensão do jornalismo como forma literária capaz de permanência: "O jornalismo deu, a Hemingway, uma concisão no criar um ambiente, externo ou psicológico, e uma vivacidade vocabular fora do comum".

De exemplos como o de Hemingway, Olinto extrai a possibilidade que o jornalista, na descoberta de uma linguagem própria, encontre "algumas razões pelas quais o homem vive a vida". O jornalista que, "conseguindo vencer o impacto da realidade sobre o pensamento, coloca-se em posição de escrever páginas que o futuro poderá guardar como documentos importantes de uma época".63

Depreende-se destas passagens o caráter de mão dupla do jornalismo na gestão de nossa identidade cultural e em sua auto-imagem. Na aurora do séc. XX, em um período de solidificação, "o jornalismo era ainda uma forma em brotamento, sua indefinição fica patente pelo esforço que faz para trazer ou manter a literatura dentro de si, na linguagem, nas crônicas, no folhetim e nas 'matérias especiais', invariavelmente de cunho literário".64 Quase um século depois, à distância suficiente para visualizarmos aquilo que Alice Mitika Koshiyama cunhou como ideal inatingido, a saber, o malogro do jornalismo no cumprimento da missão de força civilizadora nas sociedades modernas, constatamos pela observação leiga dois eixos importantes para análise: em termos de formalismo estético, devemos ter em mente que, como escreveu Antonio Olinto, "a adequação existente entre o sentido e a linguagem está num nível que poucos escritores atingem";65 e em termos sociais, o fato que a concepção de uma imprensa orientada por "nobres princípios morais, éticos e políticos" (como concebida por Alceu Amoroso Lima) constitui-se em letra morta não apenas na literatura acadêmica, como "não acontece na prática quotidiana da imprensa predominante no mundo capitalista",66 inclusive (ou principalmente) no Brasil.


BIBLIOGRAFIA


BARBOSA, Francisco de Assis. Memorando dos 90: Entrevistas e Depoimentos. RJ: Nova Fronteira, 1984.

CASTRO, Gustavo de. e GALENO, Alex. (Org.). Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra. SP: Escrituras Editora, 2002. (Coleção Ensaios Transversais). 180 p.

COUTINHO, Afrânio. Tristão de Athayde, o Crítico. RJ: Agir, 1980.

DEL RIO, Nilce Rangel. As Múltiplas Vozes de Tristão de Athayde. RJ: Editora José Olympio, 1988.

LIMA, Alceu Amoroso. Alceu Amoroso Lima (1893-1983): Bibliografia e Estudos Críticos. Salvador: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, 1987. 60 p.

___________________. Em Busca da Liberdade. RJ: Ed. Paz e Terra, 1974.

___________________. O Jornalismo como Gênero Literário. SP: Edusp, 2003.

LIMA, Cláudio Medeiros. Alceu Amoroso Lima [Memórias Improvisadas]. Petrópolis: Ed. Vozes, 1973.

MOREIRA, Moacyr Limongi. Cartas Inéditas de Alceu Amoroso Lima. São José dos Campos: UNIVAP, 1993. (Compilação).

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. SP: Editora Brasiliense, 1989. 257 p.



VILLAÇA, Antônio Carlos. O Desafio da Liberdade. RJ: Agir, 1983.


1 LIMA, Alceu Amoroso. O Jornalismo como Gênero Literário. SP: Edusp, 2003. p. 36.

2 Sem cair na questão do que seja jornalismo, ou se jornalismo é literatura ou não, subscrevemos a luta inconformista por solidariedade e dignidade de autores como Lima Barreto. Apud SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. SP: Editora Brasiliense, 1989. p. 233.

3 "Uma das fontes da minha evolução cultural é a coexistência dos contrários na simultaneidade das leituras". Apud KOSHIYAMA, Alice Mitika. O Ideal Inatingido do Jornalismo. In: LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 14. (Apresentação).

4 VILLAÇA, Antonio Carlos. Alceu Amoroso Lima: do Agnosticismo ao Catolicismo Militante. In: LIMA, Alceu Amoroso. Alceu Amoroso Lima (1893-1983): Bibliografia e Estudos Críticos. Salvador: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, 1987. p. 34.

5 TELES, Gilberto Mendonça. O Pensamento Crítico-Literário de Tristão de Athayde. Idem. p. 35.

6 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 26.

7 "A beleza do jornalismo ultrapassa a beleza estética e liga-se à função e finalidade para-estética –social, política, moral, coletiva, civilizadora– parte de sua característica como gênero literário". Idem. p. 19.

8 LIMA, Alceu Amoroso. Idem. p. 26.

9 Os recentes escândalos de falsificação e plágio como o do repórter Jayson Blair (2003), que balançou a credibilidade (além de provocar as renúncias do diretor-executivo e do diretor de redação) da Old Grey Lady, como é conhecido o jornal The New York Times, mais influente jornal planetário, evidenciam que o jornalismo norte-americano passa por uma das maiores crises de sua história. O impacto a todo custo, o abuso de fontes anônimas, a interferência da correção política na atividade, a ditadura do lide e a decorrente desper-sonalização do texto, assim como a pobreza vocabular e de reflexão crítica, são alguns pontos sensíveis na questão. O reflexo é (ou deveria ser) imediato em nossa realidade e em nossos media, repetidores compulsivos de modelos externos.

10 MEDEL, Manuel Angel Vasquez. Discurso Literário e Discurso Jornalístico: Convergências e Divergências. In: CASTRO, Gustavo de. e GALENO, Alex. (Org.). Jornalismo e Literatura: a Sedução da Palavra. SP: Escrituras Editora, 2002. p. 21.

11 Cf. LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit.

12 MEDEL, Manuel Angel Vasquez. Discurso Literário e Discurso Jornalístico: Convergências e Divergências. Op. Cit. p. 17.

13 SEVCENKO, Nicolau. Op. Cit. p. 126.

14 Idem. p. 173.

15 PEIXOTO, Carlos: Seis Propostas para o Próximo Jornalismo. In: CASTRO, Gustavo de. e GALENO, Alex. (Org.). Op. Cit. p. 128.

16 "(...) o paradigma estético é o ângulo de ataque que permite justificar toda uma constelação de ações, de sentimentos, de ambientes específicos do espírito do tempo pós-moderno". Cf. MAFFESOLI, Michel. No Fundo das Aparências. RJ: Editora Vozes, 1996.

17 Alceu Amoroso Lima assumiu o pseudônimo para não confundir a atividade literária com a de industrial. Mais tarde descobriu que Tristão de Athayde fora um violento pirata português que atuava na Índia, como aparece no livro “Décadas”, de João de Barros.

18 Cf. BARBOSA, Francisco de Assis. Memorando dos 90: Entrevistas e Depoimentos. RJ: Nova Fronteira, 1984.

19 Idem. p. 88-90.

20 Cf. COUTINHO, Afrânio. Tristão de Athayde, o Crítico. RJ: Agir, 1980.

21 TELES, Gilberto Mendonça. Op. Cit. p. 40-43.

22 COUTINHO, Afrânio. Op. Cit. p. 22.

23 VILLAÇA, Antônio Carlos. O Desafio da Liberdade. RJ: Agir, 1983. p. 226.

24 Cf. COUTINHO, Afrânio. Op. Cit.

25 COUTINHO, Afrânio. Op. Cit. p. 22.

26 Ibidem.

27 COUTINHO, Afrânio. Op. Cit. p. 39.

28 PIZA, Daniel. Jornalismo e Literatura: Dois Gêneros Separados pela Mesma Língua. In: CASTRO, Gustavo de. e GALENO, Alex. (Org.). Op. Cit. p 137

29 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 62.

30 BARBOSA, Francisco de Assis. Op. Cit. p.88-90.

31 BARBOSA, Francisco de Assis. Op. Cit. p.148.

32 Cf. COUTINHO, Afrânio. Op. Cit.

33 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 37-38.

34 "[André Gide] Afirmou a independência entre os dois -jornalismo e literatura- negando àquele o caráter de obra de arte. A interpretação de Gide vinha de um preconceito e de uma interpretação unilateral do assunto. Para ele, jornalismo era exatamente o contrário da permanência: era a morte da palavra". OLINTO, Antonio. Jornalismo e Literatura. RJ: MEC/DIN, 1955. p. 41.

35 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 25-26.

36 Ibidem.

37 Alceu destaca que a concepção de gratuidade só surgiria depois de Plotino. A de arte pela arte apenas com os Alexandrinos e, modernamente, com o parnasianismo, com o simbolismo (esteticista) e com os neo-escolásticos.

38 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 33.

39 Idem. p. 38.

40 Idem. p. 37.

41 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 43

42 Ibidem.

43 Idem. p. 48.

44 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 49-52.

45 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 54.

46 Ibidem.

47 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 61.

48 Idem. p. 67.

49 Idem. p. 68.

50 Idem. p. 70.

51 LIMA, Alceu Amoroso. Op. Cit. p. 72.

52 Idem . p. 73-75.

53 Cf. KOSHIYAMA, Alice Mitika. Op. Cit.

54 OLINTO, Antonio. Op. Cit. p. 76.

55 Apud SEVCENKO, Nicolau. Op. Cit. p. 164.

56 Apud PEIXOTO, Carlos. Op. Cit. p 122-123.

57 Cf. KOSHIYAMA, Alice Mitika. Op. Cit. p. 19.

58 MEDINA, Cremilda de Araújo. Notícia: Um Produto à Venda (Jornalismo Na Sociedade Urbana e Industrial). SP: Alfa-Omega, 1978. p. 77-78.

59 PIZA, Daniel. Op. Cit. p. 135.

60 SEVCENKO, Nicolau. Op. Cit. p. 176.

61 A crônica, na definição de Marques de Melo, está "situada na fronteira entre a informação de atualidades e a narração literária". Tal gênero contemporâneo nos parece ser o último resquício de um autêntico jornalismo literário em nossa imprensa diária. Cf. MARQUES DE MELO, José. A crônica. In: CASTRO, Gustavo de. e GALENO, Alex. (Org.). Op. Cit. p. 147.

62 SEVCENKO, Nicolau. Op. Cit. p. 167.

63 OLINTO, Antonio. Op. Cit. p. 36.

64 SEVCENKO, Nicolau. Op. Cit. Idem. p. 26.

65 OLINTO, Antonio. Op. Cit. p. 56.

66 KOSHIYAMA, Alice Mitika. Op. Cit. p. 20-21.


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