A assinatura de Jesus Brennan Manning


Capítulo dez A coragem de arriscar



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Capítulo dez

A coragem de arriscar


A história do primeiro Pentecostes é familiar. Cinqüenta dias depois da Páscoa os discípulos estavam reunidos em determinado lugar. De repente eles foram envolvidos por um vento poderoso e assustados por chamas de fogo que pousavam sobre cada um deles. Cheios do Espírito e de poder, eles foram capazes de falar aos peregrinos de muitas nações e eram compreendidos nos idiomas deles. Embora dramática, essa história é fácil de acompanhar e de visualizar.

Toda vez que o Espírito de Deus irrompe em nossa vida — no meio do dia, no meio da semana ou no meio da vida — é para anunciar de alguma forma que o tempo de timidez e cautela terminou. O poderoso e sonoro vento do primeiro Pentescostes simbolizava que algo novo e maravilhoso estava para acontecer pelo poder de Deus. Da mesma forma que um bando de discípulos tímidos, evasivos e impotentes foram transformados em testemunhas indómitas e articuladas, assim ocorre conosco. Quando tomados pelo poder de uma grande afeição, somos capacitados com a coragem de arriscar. O Espírito nos liberta de nossos limites auto-impostos e nos direciona a águas desconhecidas. Nossa vida segura, bem regulada e em grande parte desprovida de risco é estilhaçada. O Espírito nos salva "tanto de nosso elevado idealismo (com todo seu investimento no ego) quanto de nossa baixa auto-estima (com seu investimento ainda maior no ego) e nos ergue além de nossos limites extremos para possibilidades não sonhadas, para o idealismo do próprio Deus".79

Antes do Pentecostes o currículo dos Doze era pobre: eles reclamavam, discutiam, hesitavam, desertavam. A biografia desses baluartes apostólicos era de discipulado cauteloso e inconsistente. O livre uso, porém, por parte de Deus de gente falha para realizar seus propósitos é sonora afirmação para os imobilizados por sentimentos de inadequação e inferioridade. Como observou Alan Jones: "A coisa mais difícil numa fé madura é aceitar que sou objeto do deleite de Deus".

Com maior freqüência do que gosto de admitir, ainda caio na fria de tentar tornar-me aceitável para Deus. Parece que não consigo renunciar a esse empreendimento estapafúrdio de alçar-me a uma posição de onde eu possa enxergar a mim mesmo numa luz favorável. Ainda luto para abrir mão da fantasia ridícula de que minhas pobres orações, conhecimento da Escritura, percepções espirituais, dízimos aos pobres e sonoro sucesso ministerial tornam-me benquisto aos olhos de Deus. Resisto à verdade salvadora de que sou amável simples e unicamente porque ele me ama.

Qualquer pessoa aprisionada na mesma opressão de auto-justificação compreende o que estou dizendo. A nosso modo somos tão absurdos quanto a personagem da história de Agatha Christie que não consegue imaginar o céu como algo mais do que uma ocasião para fazer-se útil, sem imaginar que todos os outros no céu possam estar se debatendo para suportar a incessante perseguição de seu devotado serviço. Será que um dia nos libertaremos da fantasia pelagiana de que salvamos a nós mesmos?

Em momentos de reflexão pergunto-me se tenho de fato a coragem de arriscar tudo no evangelho da graça e aceitar a total suficiência da obra redentora de Cristo. Minhas fúteis tentativas de aprimoramento pessoal, a tristeza de não ser ainda perfeito, a ostentação de minhas vitórias na vinha, minha sensibilidade a críticas e a falta de auto-aceitação desmentem minha profissão de fé de que Jesus é Senhor — elogio da boca para fora de um servo algemado, ainda acorrentado à insegurança que veste mil máscaras, ainda me batendo para tentar consertar a mim mesmo, ainda lutando por aquele esquivo êxito pessoal que me tornará apresentável a Deus. Brennan, a pilha de nervos!

Falsa modéstia? Não, de outro modo por que fui sacudido quando, depois de um sermão que preguei em Chapei Hill, na Carolina do Norte, o evangelista Tommy Tyson olhou-me com lágrimas nos olhos e disse: "Algo maravilhoso acaba de me acontecer: sei agora como nunca que o que Jesus fez foi suficiente"?

Naquela manhã nublada decidi livrar-me de meu kit faça-você-mesmo numa venda de garagem, alijar certas cargas pesadas que vinha carregando e dar ouvidos às palavras de Robert M. Brown: "Está decretado: que a cada três anos as pessoas esqueçam tudo que tiverem apreendido a respeito de Jesus e comecem a estudar tudo de novo".80

O Espírito convenceu Pedro de que ele não estava fadado a repetir os erros do passado. Tampouco nós estamos. Está disponível o poder para transcendermos nossas respostas emocionais automáticas e comportamento mecanizado. Capacitados com a coragem de arriscar tudo na verdade do evangelho, entregamos nossa torturante necessidade de ser pessoas legais e deixamos de aplicar cosméticos espirituais a fim de nos fazermos apresentáveis.

E ainda assim[...] a possibilidade nos apavora. Gostaríamos de ficar perto o bastante do fogo para nos aquecermos, mas relutamos em mergulhar nele. Sabemos que sairemos queimados, incandescentemente transformados. A vida nunca mais será a mesma. Apesar de tudo, estamos insatisfeitos com as dimensões estreitas de nosso comprometimento parcial. Lá no fundo há um anseio por jogar a cautela para o alto. Sabemos que o que Leon Bloy disse é verdadeiro: "A única tristeza real da vida é não ser santo".

Graham Greene escreveu um romance revelador chamado O poder e a glória. O personagem central é o "padre uísque", um homem triste, complacente, morno e alcoólatra. No momento em que está para ser executado por um pelotão de fuzilamento, ele percebe que teria sido fácil ser santo se tivesse tido a coragem de arriscar. Por anos o robô interior havia controlado sua vida exterior. Olhando para os canos de cinco fuzis carregados, ele percebe que sua doença era apenas hipocondria. Poucas horas antes ele havia caminhado por esse pátio e nada que ele vira parecia importar. Havia muito tempo ele trocara a coragem e a liberdade por passividade e trivialidades. Se sua execução fosse adiada e ele pudesse atravessar novamente o pátio, caminharia com os olhos arregalados de assombro. Poças seriam como oceanos, soldados como deuses. Com seu robô interior suprimido e suas emoções automáticas não mais no comando, assumiria o controle de sua vida, agarrá-la-ia pelo pescoço e abraçaria a convicção de que viver sem risco é arriscar não viver.

No poder de uma grande afeição, o impossível torna-se possível. Somos libertos dos medos que nos travam. Sabemos que não temos como perder porque não temos nada a perder.

Nada é mais intrigante para mim do que nossa poderosa resistência à invasão do amor de Deus. Por que somos tão provincianos para receber? Teremos medo de nos tornar vulneráveis, de perder o controle de nossa vida, de reconhecer nossas fraquezas e necessidades? Será que mantemos Deus a uma distância segura para proteger a ilusão de nossa independência?

A parábola do devedor sem misericórdia (cf. Mt 18) ofereceu uma indicação. Esse homem deve a seu mestre a soma de dez mil talentos, o equivalente à dívida nacional. O que ele faz? Coloca-se à mercê de seu misericordioso mestre, admite sua total incompetência diante da situação e implora perdão? De modo algum. O devedor não gosta de admitir inadequação. E um homem de conteúdo e de importância. Tem credenciais e cartões de crédito. Honras lhe foram conferidas. Seu ego foi afagado. Sua dignidade está intacta.

No último dia, quando estivermos diante do Cristo ressurreto, cada um de nós será a soma de suas escolhas.

Mister Blue era um ousado cavalheiro que vivia descansado entre música e balões de gás no telhado de um edifício de apartamentos. Ele transitava graciosamente entre todos os tipos de pessoas, em pobreza e abundância, e recusava-se a se prender aos padrões dos outros. No entardecer de sua vida, Mister Blue escreveu:


Os historiadores conservadores descrevem como megalomaníaco qualquer homem com uma paixão. "Olhem para de", eles dizem uns aos outros, "que imbecil! Por que ele não se acomoda e se estabelece na comunidade? Por que permanece eternamente inquieto, tentando alcançar algo além de si mesmo? O sujeito é doido".

Esses conservadores estão em parte certos. Viva de acordo com as regras e você se manterá longe de perigo. Seja cuidadoso, seja cauteloso, não assuma riscos e você nunca morrerá no monte Santa Helena. Seu fracasso é medido por suas aspirações. Nada aspire e não terá como cair. Colombo morreu prisioneiro. Joana d'Arc foi queimada viva. Vivamos todos de forma aconchegante e sem risco, e em breve a vida não será mais do que um fluxo gelatinoso de conforto e ignorância.81


A inquietação do personagem de ficção Mister Blue ecoa a parábola de Jesus sobre o servo inútil (Lc 17:7-10). Ela lembra a exortação de Francisco de Assis no leito de morte: "Comecemos, meus irmãos, porque até agora fizemos muito pouco".

Blue pode ser ouvido na voz gentil de meu amigo Tom Minifie, pastor adjunto em Seattle: "Estar tranqüilo é estar em perigo". A igreja do Senhor Jesus começa a declinar quando os membros que a compõem abrem mão de sua disposição em arriscar.

Todo reitor de universidade percebe que alguns departamentos acadêmicos desfrutam de excepcional vitalidade enquanto outros apenas seguem se arrastando. Todo executivo observa que algumas empresas permanecem na liderança enquanto outras patinam. Os mesmos fatores estão em ação na ascensão e queda de qualquer empreendimento, incluindo a igreja. Roma caindo nas mãos dos bárbaros, uma empresa tradicional abrindo falência, um órgão governamental estrangulando-se na própria burocracia, uma igreja definhando espiritualmente — todas tem muito em comum.

Uma instituição jovem é flexível, fluida, disposta a tentar tudo pelo menos uma vez. A medida que ela envelhece, diminuem os riscos assumidos, a ousadia cede espaço a uma certa rigidez, a criatividade se desvanece e a capacidade de enfrentar novos desafios de direções inesperadas é perdida.

O mesmo processo observado na extinção das instituições acontece no declínio dos indivíduos. "Por que acontece", pergunta John Gardner, "de tanta gente estar mumificada quando chega à meia-idade?". Por que algumas pessoas acomodam-se em visões rígidas e inflexíveis a respeito de Deus e da igreja quando chegam aos trinta anos de idade. Por que caímos num torpor de mente e espírito muito antes de chegar aos cinqüenta? Será inevitável que abramos mão de nossa jovialidade e de nossa capacidade de crescer e mudar? Será possível a renovação pessoal, sementeira da renovação comunitária?

Talvez a maior causa de fracasso na renovação individual e comunitária seja o próprio medo do fracasso. Evitamos o risco de modo que não haja como mostrar ao mundo que estávamos errados. A tirania de nossos colegas — o que os outros vão dizer? — nos imobiliza. Sábios e prudentes que somos, fabricamos mil desculpas lógicas para nada fazermos.

O medo de cair de cara no chão exige um preço alto. Ele desencoraja a exploração e assegura o estreitamento progressivo de nossa personalidade. Não há aprendizado sem mancadas. Se queremos continuar a crescer, devemos arriscar o fracasso a vida inteira. Quando recebeu o premio Nobel pela formulação da teoria quântica, Max Planck disse: "Quando olho para trás, para o longo e labiríntico trajeto que conduziu finalmente à descoberta, vem-me vividamente à memória o dito de Goethe, de que, enquanto permanecerem tentando realizar alguma coisa, os homens estarão sempre cometendo erros".

Embora o cristianismo como um todo, no final das contas, diga respeito à redenção do pecado e do fracasso, a maioria de nós — com base em minha experiência pastoral — não está disposta a admitir o fracasso em sua vida. Em parte isso se deve aos mecanismos de defesa da natureza humana contra as próprias inadequações. Mais ainda, isso se deve à imagem de sucesso que nossa cultura cristã contemporânea exige de todos nós. Uma vez convertidos, não ousamos mais perder nossos negócios, nosso casamento e nossas receitas.

O problema em projetar uma imagem perfeita, no entanto, está no fato de que ela cria mais dificuldades do que resolve. Em primeiro lugar ela simplesmente não é verdadeira — nenhum de nós está sempre contente, sereno e no controle. Em segundo lugar, projetar essa imagem impecável nos distancia das pessoas, que concluem que não as compreendemos. Terceiro, mesmo se pudéssemos viver uma vida livre de risco e de erros, seria uma existência rasa. Os cristãos maduros são os que fracassaram e aprenderam a viver graciosamente com o fracasso.

O fracasso em realizarmos com nossa vida aquilo que ansiávamos pesa demais sobre muitos de nós. A disparidade entre o eu ideal e o eu real, o espectro de infidelidades passadas, a consciênela de que nosso comportamento com freqüência nega diretamente nossas crenças, a pressão da conformidade e a nostalgia por uma inocência perdida reforçam um senso incômodo de culpa existencial: eu fracassei. Esta é a cruz pela qual jamais esperávamos, e a que achamos mais difícil de suportar. Não somos mais capazes de diferenciar a percepção de nós mesmos do mistério que realmente somos.82

O pernicioso mito de "uma vez convertido, convertido por inteiro" gera a impressão de que num único e cegante raio de salvação Cristo espera que nossa vida esteja liberta de contradições e perplexidades. A maldição do perfeccionismo desencadeia episodios de depressão e de ansiedade. Quem nos absolverá da culpa? Quem nos livrará da servidão do perfeccionismo e do fracasso? Novamente, é a assinatura de Jesus que nos resgata de nós mesmos.

O Cristo crucificado nos faz lembrar que o desespero e a desilusão não são terminais, mas sinais de uma ressurreição iminente. O que vive além da cruz é o liberador poder do amor, que nos liberta do egocentrismo que nos faz dizer "Tudo que sou é o que penso que sou e nada mais". Numa Sexta-Fcira Santa, às 2 horas, quando eu orava, ouvi que dizia: "Irmãozinho, testemunhei um Pedro que disse que não me conhecia, um Tiago que desejava poder em retribuição ao serviço, um Filipe incapaz de ver o Pai em mim e inúmeros discípulos convencidos de que o Calvário era meu ponto final. O Novo Testamento tem inúmeros exemplos de homens e mulheres que começaram bem e vacilaram ao longo do caminho".

"Ainda assim, na noite de Páscoa eu apareci a Pedro; Tiago não é lembrado pela ambição, mas pelo sacrificio de sua vida pelo reino; Filipe foi capaz de ver o Pai em mim quando apontei o caminho; e os discípulos que haviam perdido suas esperanças tiveram coragem suficiente para me reconhecer como o estrangeiro que caminhava pela estrada de Emaús. O que estou querendo dizer, irmãozinho, é isto: espero mais fracasso de você do que você espera de si mesmo."

Em tempo e fora de tempo, no sucesso e no fracasso, em graça e desgraça, a coragem de arriscar tudo na assinatura de Jesus é a marca do discipulado autêntico. "O sucesso nunca é final; o fracasso nunca é fatal. E a coragem que conta", como disse Winston Churchill.





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