A assinatura de Jesus Brennan Manning


Capítulo doze Lázaro riu!



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Capítulo doze

Lázaro riu!


Certo verão em Iowa City dirigi um retiro de cinco dias para um pequeno grupo de cristãos. O pequeno número de participantes permitiu um grau incomum de diálogo, compartilhamento e comunhão interpessoal. Uma mulher do grupo, cerca de 35 anos de idade, desracava-se pelo silêncio. Era uma mulher esguia e atraente que não sorria nem suspirava, não ria nem chorava, não reagia, não respondia nem se comunicava com nenhum de nós.

Na tarde do quarto dia, convidei cada pessoa a compartilhar o que o Senhor havia feito na vida de cada um nos últimos dias. Depois de alguns minutos de silêncio, a freira reservada, que chamarei de Cristina, estendeu a mão, pegou seu diário e disse:



  • Algo aconteceu comigo ontem e escrevi aqui. Você estava falando, Brennan, sobre a compaixão de Jesus. Você desenvolveu as duas imagens do marido e do amante encontradas em Isaías 54 e Oséias 2. Em seguida citou as palavras de Agostinho: "Cristo é o melhor marido".

  • Ao final da sua palestra, você orou para que pudéssemos experimentar o que você tinha acabado de compartilhar. Pediu que fechássemos os olhos. Quase no exato momento em que o fiz, algo aconteceu. Na fé fui transportada a um vasto salão de baile cheio de gente.

  • Os escritores espirituais de hoje em dia falariam numa experiência de "topo de montanha", um encontro com o mysterium tremendum. Karl Rahner chamaria simplesmente Cristina de mística — alguém que experimentou alguma coisa.

  • O que capturou minha atenção na narrativa de Cristina foi que o Jesus com quem ela se encontrou estava sorrindo. Jesus sorria? Ele chegou de fato a rir?

  • Os evangelhos nunca mencionam que ele tenha feito uma coisa ou outra. Eles testificam que ele chorou duas vezes — por Jerusalém e por Lázaro, sua cidade e seu amigo. Será possível, no entanto, que esse homem santo, semelhante a nós em todas as coisas menos na ingratidão, tenha chorado de tristeza e não tenha rido de alegria? Teria Jesus deixado de sorrir quando uma criança se acomodava em seus braços? Ou quando o mestre de cerimônias de Cana quase desmaiou diante dos seiscentos galões de vinho da melhor qualidade? Ou quando viu Zaqueu pendurado num galho? Ou quando Pedro falava sem pensar mais uma vez?

  • Simplesmente não consigo acreditar que Jesus não risse quando via algo engraçado ou deixasse de sorrir quando experimentava em seu ser o amor do seu Abba. Ele atraía não apenas um líder fariseu e um centurião romano, mas também crianças e gente simples como Maria Madalena. Nossa experiência humana nos diz que Jesus não poderia tê-lo feito se ostentasse sempre o rosto solene de um enlutado ou a máscara austera de um juiz; se seu rosto não se abrisse com freqüência num sorriso e se seu corpo inteiro não explodisse em risada jovial.

  • Apesar disso quantas pinturas existem na história da arte cristã que mostrem um Salvador sorridente? Onde em nossos hinários e livros de oração estão as odes ao Cristo risonho? Nós prontamente o chamamos de "homem de dores" e esquecemos quanta alegria sua presença trazia a pecadores e festeiros, a doentes e moribundos. Sem nenhuma dúvida Jesus ria. Ele provavelmente ri de nós quando roubamos do discipulado sua jovialidade e ostentamos rostos compridos como dignitários num funeral de estado. Muitos anos atrás num retiro privado anotei uma curta meditação de Páscoa baseada em João 10:1-10. Ela diz:

Cedinho no domingo de manhã, enquanto o sol começa a traçar fachos no céu oriental, o corpo rígido[...] o peito começa a se elevar[...] uma mão se move devagar e descobre o rosto[...] ele acomoda os olhos à escuridão[...] põe-se de pé com alguma dificuldade[...] sai do sepulcro. Do lado de fora, respira o ar puro estimulado pela nova experiência[...] olha morro acima e vê as três cruzes vazias. Sorri e se afasta caminhando. O Cristo ressurreto é um Cristo sorridente.


Teresa de Avila escreveu: "Todas as vezes que o Senhor se apresentou a mim, seu corpo era ressurreto e glorificado". Será surpreendente que o Senhor da glória que girou Cristina ao longo da pista de dança seja um Cristo feliz e sorridente?

Algum cristão austero, porém, pode protestar: "Por que é importante determinar se Jesus sorriu ou não? Parece-me que é uma tempestade num copo d'água. Devemos nos concentrar em questões evangélicas mais urgentes".

A questão da jovialidade de Jesus não é trivial por uma razão: a oração é uma resposta pessoal à sua presença amorosa. Quando o Jesus de nossa jornada é um Jesus sorridente, quando respondemos a sua mensagem sussurrada: "Sou louco por você", o processo de cura interior pode começar. Ele nos cura de nossa absorção em nós mesmos — na qual nos levamos a sério demais, na qual os dias e as noites revolvem ao redor de nós, de nossas dores de coração e hérnias de ausência, de nossos problemas e frustrações. Seu sorriso permite que nos distanciemos de nós mesmos e nos enxerguemos em perspectiva como realmente somos. Somos criaturas formidável e maravilhosamente feitas, um apanhado de paradoxos e contradições.

A história da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11) começa com suas duas irmãs, Marta e Maria, mandando uma mensagem a Jesus: "Senhor, o homem que o senhor ama está doente".

Quando Jesus chega a Betânia, vêm dizer a Maria:

— O Mestre chegou e quer vê-la.

Ela vai até Jesus e atira-se a seus pés, dizendo:

— Senhor, se o senhor tivesse estado aqui meu irmão não teria morrido.

Diante das lágrimas dela, com um suspiro que vem diretamente do coração, Jesus pergunta:

— Onde ele está?

Maria diz:

— Senhor, venha ver.

Jesus chora.

E os judeus dizem:

— Veja quanto ele o amava.

Em 1981 Roslyn e eu fizemos um retiro silencioso e dirigido, de oito dias, no centro de despertamento em Grand Cocteau, na Louisiana. Roslyn enviou a Jesus uma mensagem: “Senhor, o homem que o Senhor ama está doente”.

Quando Jesus chegou a Grand Cocteau ficou sabendo que Brennan estava na mais profunda desolação. Estava numa agonia de indecisão. Deveríamos eu e Roslyn nos casarmos? Eu a amava de todo o coração, mas o demônio do auto-engano é sutil. Era da vontade do Pai que nos casássemos ou era minha própria vontade? Como eu podia estar certo de ter ouvido a voz de Deus? Além disso, o que diz a lei canônica da igreja Católica? E o que as pessoas vão dizer — pais, parentes, amigos, os milhares que ouviram-me pregar o evangelho? Eu estava dividido por dentro, cercado por trevas e confusão.

Vieram dizer a Roslyn:

— O professor está aqui e quer vê-la.

Logo que ouviu isso ela levantou-se e caminhou na direção dele. Quando chegou ao lugar em que Jesus estava ela caiu aos pés dele e disse:

— Senhor, o coração do meu Brennan está partido de dor. Ele está agitado, confuso e desesperado. Se o senhor tivesse estado aqui ele não estaria desse jeito.

Roslyn começou a chorar.

Quando viu-a chorar Jesus comoveu-se em seu espírito, movido pelas mais profundas emoções.

— Onde ele está? — Jesus perguntou.

— Está na capela. Sozinho. Vou lhe mostrar onde é.

O próprio Jesus começou a chorar. Na distância alguns outros no retiro murmuraram:

— Veja o quanto Ele os ama.

Jesus andou até a capela e abriu a porta.

— Deixe-nos a sós — Ele disse a Roslyn.

Eu estava tão mergulhado em meu tumulto interior que não percebi quando ele veio e sentou-se ao meu lado.

Ele tomou minha mão. Surpreso, virei-me e olhei-o. Ele não disse uma palavra. Colocou sua outra mão sobre a minha. E em seguida sorriu. Ah, como eu gostaria que você tivesse estado lá! O contentamento no seu rosto e a felicidade nos seus olhos dissiparam todo traço de dúvida e confusão. Num instante fui da noite mais escura ao ensolarado meio-dia. Embora Ele não tenha falado, seu sorriso dizia: “Não tenha medo. Estou com você”.

Saí da capela sentindo-me como Lázaro saindo do sepulcro.

O Cristo sorridente cura e liberta. Com o recém-descoberto deleite dentro de nós mesmos, saímos a nossos irmãos e irmãs como eles são, onde estão, e ministramos a eles o Cristo sorridente. Não muito distante de nós há alguém que está com medo e carece da nossa coragem, alguém que está sozinho e carece da nossa presença. Há alguém ferido, precisando de nossa cura; sem amor, precisando do nosso toque; velho, precisando sentir que nos importamos; fraco, carecendo do apoio de nossa fraqueza compartilhada. Uma das palavras curativas que já proferi como confessor foi a um velho padre que tinha problemas com a bebida.

— Poucos anos atrás – eu disse – eu era um alcoólico sem esperança na sarjeta em Fort Lauderdale.

— O senhor? – gritou ele — Oh, graças a Deus!

Quando trazemos um sorriso ao rosto de alguém que se encontra sofrendo, trazemos Cristo até essa pessoa.

Eugen O'Neill certa vez escreveu uma peça confusa com um final extraordinário. O tema era a vida de Lázaro depois que Jesus o chamou para fora da sepultura. O'Neill deu à peça o nome de Lázaro riu. É a história de um amigo de Jesus que experimentara a morte e tinha-a a visto como ela era. “Riam comigo! A morte está morta! O temor acabou! Há apenas vida! Há apenas riso” E, conta-nos O'Neill, Lázaro começa a rir — discretamente no começo, depois de peito aberto: “Uma risada tão cheia de completa aceitação de vida, com uma tão profunda asserção de alegria de viver, tão desprovida de temor que é contagiante de amor, tão contagiante que, a despeito de si mesmos, os ouvintes são arrebatados por ela e levados junto”.

Risada não é histeria. Risada não é a explosão intestinal diante de uma piada vulgar. Risada é... alegria de viver. A espiritualidade pascal diz ao cristão: Você pode rir, pode deleitar-se com a vida. Por quê? “Porque em meio à morte você está constantemente descobrindo a vida: num olhar ou num toque ou numa canção, numa plantação de milho ou num amigo que se importa, na lua ou numa ameba, num pedaço de pão sem vida de repente se transformando no corpo de Cristo”.*

O cristianismo chama por cristão ressurretos, discípulos como herói na peça de Eugene O'Neill. Lázaro experimentara a morte e viu como ela era. Agora sua alegria de viver era irresistível:
Riam comigo!

A morte está morta!

O temor acabou!

Há apenas vida!

Há apenas riso!
Se a noite mais sombria se encontra sobre você enquanto você lê estas palavras, saiba que o Cristo ressurreto é louco por você, mesmo que você não consiga sentir. Ouça, abaixo da sua dor, a voz de Abba, Deus: "Prepare lugar para meu Cristo, cujo sorriso, como relâmpago, libera a canção de glória perene que agora dorme em sua carne de papel como dinamite".



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