A assinatura de Jesus Brennan Manning


Capítulo um De Harã a Canaã



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Capítulo um

De Harã a Canaã


Abrão deixa Harã — "a tua terra, a tua parentela e a casa de teu pai" — e embarca numa jornada que nunca fizera a uma terra que nunca tinha visto. Ele se põe a caminho, não porque é capaz de prever o papel que irá desempenhar na história da salvação, mas simplesmente por causa de sua experiência pessoal, a experiência espiritual de Deus falando com ele. Não há programa que ele possa detalhar; nenhuma percepção histórica em que ele possa apoiar sua decisão; nenhum modelo pelo qual ele possa obter uma identidade psicológica. A experiência espiritual tornou-se uma convocação: é Deus que ordena. E o futuro é de Deus. Deus, no tempo certo, lhe mostrará a terra. Deus o tornará pai de uma nação.

Apenas Deus fará de sua vida uma benção para todos os miseráveis e desorientados filhos desta terra.

O que é decisivo neste momento para Abrão não é uma visão dos próximos vinte anos, mas uma qualidade de experiência religiosa, uma influência presente de Deus. Isso toca o coração da fé: crer num Deus pessoal que me chama e me conduz. Abrão obedece ao chamado. Por enquanto, o chamado basta. Tivesse ele exigido saber mais detalhes e aspectos práticos do plano estratégico, teria demonstrado a antítese da fé, pois a fé não é jamais baseada em seguranças humanas.

No Novo Testamento, Zacarias, que queria ter certeza, insistiu em alguma garantia divina antes de ceder à palavra de Deus (cf. Lc 1:18). Isso não é fé.

A jornada do homem que viria a ser conhecido como Abraão é paradigma de toda fé autêntica. E um movimento na direção da obscuridade, do indefinido, da ambigüidade, e não de um plano predeterminado e claramente delineado para o futuro. Cada determinação futura, cada passo seguinte, manifesta-se apenas pelo discernimento da influencia de Deus sobre o momento presente. "Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia" (Hb 11:8, grifo do autor). A realidade da vida requer de homens e mulheres cristãos que abandonem o que é estabelecido, óbvio e seguro e adentrem o deserto sem nenhuma explicação racional que justifique suas decisões e garanta seu futuro. Por quê? Pura e simplesmente porque Deus sinaliza nessa direção e lhe oferece sua promessa.

E instrutivo lembrar que Abraão, antes do encontro com o único e verdadeiro Deus, tinha diversas crenças religiosas, como todos de sua tribo e da região de Harã (mesmo os ateus as têm, pois não crer cm Deus é, por si mesmo, crença religiosa).7 O que aconteceu a Abraão é que ele foi convocado por Deus dessas crenças religiosas para a fé — o que é um passo tremendo.

Para os cristãos contemporâneos existe uma diferença essencial entre fé e crença. Nossas crenças religiosas são a expressão visível de nossa fé, nosso compromisso com a pessoa de Jesus. Porém, se as crenças cristãs que herdamos de nossos pais e nos foram passadas pela tradição eclesiástica não estão fundamentadas numa abaladora e transformadora experiência de Jesus como Cristo, o abismo entre nossas declarações de crença e nossa experiência de fé se amplia e nosso testemunho de nada vale. O evangelho não vai persuadir ninguém a não ser que nos tenha convencido de que somos transformados por ele.

Depois de dois mil anos de historia da igreja, por que menos de um terço da população mundial é cristã? Por que é tão opaca a personalidade de tantos cristãos devotos? Por que Friedrich Nietzsche repreendeu os cristãos por "não aparentarem estar salvos?". Por que é tão raro ouvirmos o que o velho advogado disse de John Vianney: "Algo extraordinário aconteceu-me hoje: vi Cristo num homem"?. Por que nosso entusiasmo, alegria e gratidão contagiantes não contagiam outros com o anseio por Cristo? Por que estão o fogo e o espírito de Pedro e Paulo tão claramente ausentes de nossa pálida existencia?

Talvez porque poucos de nós tenham empreendido a jornada de fé cruzando o abismo entre o conhecimento e a experiência. Preferimos ler o mapa a visitar o lugar. O fantasma de nossa verdadeira incredulidade nos persuade de que não é a experiencia que é real, mas nossa explicação da experiência. Nossas crenças — aquilo que William Blake chamava de "algemas forjadas pela mente" — nos distanciam do domínio da experiência pessoal.

Daniel Taylor escreve:


O mundo secular das idéias joga o jogo da dúvida quase que exclusivamente, e em geral desdenha de quem não o faz. Ironicamente, no entanto, a igreja também joga, até certo ponto, o mesmo jogo. O mistério do evangelho, o paradoxo da encarnação e o assombroso enigma da graça são congelados em sistemas altamente racionalizados e/ou autoritários de teologías, códigos, regras, prescrições, ordens de serviço e formas de governo eclesiástico. Tudo é colocado por escrito, tudo é organizado, de modo que tudo possa estar definido e os transgressores possam ser detectados.8
O movimento de Harã para Canaã é a jornada através desse abismo. Temos de passar definitivamente das crenças para a fé. Sim, somos chamados para crer em Jesus. Mas nossa crença nos convoca a algo maior, à nele. Fé que nos irá forçar a perseguir a mente de Cristo, a abraçar um estilo de vida de oração, altruísmo, bondade e envolvimento na construção do reino dele, não do nosso.

Quando chamou Abraão para abandonar a segurança do mundo que lhe era familiar. Deus pediu-lhe também que abandonasse suas crenças religiosas politeístas. Todos os seus conceitos anteriores a respeito de Deus ficaram para trás. O mesmo processo é necessário para nós. Quando nos encontramos com Deus revelado por e em Jesus Cristo, devemos revisar todo o nosso pensamento anterior a respeito de Deus. Na qualidade de revelador da divindade, Jesus define Deus como amor. A luz dessa revelação devemos abandonar a estrutura cancerosa e comida pelos vermes do legalismo, do moralismo e do perfeccionismo que corrompem a boa-nova, fazendo dela um código ético em vez de um caso de amor.

Jesus lancetou a infecção de uma crença religiosa que havia perdido sua alma e sequer se dera conta disso. Os fariseus haviam distorcido a imagem de Deus, apresentando-o como um remoto contabilista que está constantemente espionando os pecadores (e que um dia nos pegará se nossas contas não estiverem em ordem). Os fariseus estavam tão ocupados refinando e desinfetando as fórmulas da religião, eram tão assíduos em estudar aquilo em que acreditavam, que esqueciam a realidade para a qual suas crenças apontavam. Creram durante muito tempo, mas sua fé estava entorpecida. Esperaram o Messias por tanto tempo que suas expectativas estavam embotadas.

E, ainda assim, a despeito da condenação de Jesus à religião farisaica, o espírito de legalismo, "como a semente mais vil do Jardim recoberto de mato, tem florescido na treliça dos séculos".9 Muitos cristãos permanecem temerosos, pois se apegam ainda à idéia de um Deus muito diferente da que foi pregada por Jesus. Permanecem em Harã com seu velho sistema de crenças intato.

Crêem que podem salvar a si ficando quietos sem respirar, ou embarcando em jejuns, vigílias ou empreendimentos heróicos, esperando extrair à força a aprovação de Deus.

Vez após outra Jesus declarou que o medo é inimigo da vida.

Não temas, crê somente (Lc 8:50).

Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino (Lc 12:32).

Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais! (Mt 14:27).
O medo gera uma cautela letal, uma prevenção, uma espera estagnada, até que as pessoas não sejam mais capazes de lembrar o que estão esperando ou para que estão se salvando. Quando tememos o fracasso mais do que amamos a vida; quando somos dominados pelos pensamentos do que deveríamos ter sido em vez dos pensamentos do que podemos vir a ser; quando somos assombrados pela disparidade entre nosso eu ideal e nosso verdadeiro eu; quando somos atormentados pela culpa, pela vergonha, pelo remorso e pela autocondenação, negamos nossa fé no Deus de amor. Deus nos chama a levantar acampamento, a abandonar o conforto e a segurança do status quo e embarcar na perigosa liberdade da jornada rumo à nova Canaã. Mas adiar por medo representa não apenas a decisão de permanecer em Harã, mas também falta de confiança.

Minha própria fé vacilante me levou a procrastinar com respeito ao chamado de Deus para casar-me com Roslyn. Adiei a decisão por três anos (coisa que foi, em si mesma, uma decisão), esperando que Deus se cansasse de esperar e que a voz interior da verdade ficasse com laringite. Antes de abandonar o cenário familiar da vida franciscana, eu queria que Deus esboçasse linhas definidas para que eu pudesse saber exatamente aonde estava indo. Naturalmente, a fé autêntica esquiva-se dessa certeza. Significa que não temos nada a que nos apegar. Temos sempre de deixar algo para trás e não olhar para trás (cf. Lc 9:62). Sc nós nos recusamos a avançar, insistindo em sinais e provas tangíveis, diminuímos nossa fé, e isso quer dizer incredulidade. Ironicamente, ao longo do processo inteiro, minhas crenças religiosas mantiveram-se firmes e inabaláveis.

O Deus de Abraão, que é o Deus e pai de Jesus Cristo, não é uma ameaça. A certeza de que ele deseja que vivamos, cresçamos e desabrochemos, e que experimentemos a plenitude de vida, é a premissa básica da fé autêntica. Ainda assim a minha relutância em fazer a oração de abandono de Charles de Foucauld — "Pai, faça o que quiser" — revela que estou ainda sob o domínio do ceticismo e do temor: Deixar que Deus faça o que quiser comigo pode ameaçar minha saúde, minha reputação e minha segurança. Ele pode me tirar o relógio Rolex e me enviar para a Tanzânia como missionário. Se ele ao menos me deixasse permanecer no templo do que me é familiar eu me confiaria a ele de todo coração.

A fé bíblica é uma atitude adquirida gradualmente ao longo de muitas crises e provações. Por meio do doloroso teste com seu filho Isaque (cf. Gn 22:1-19), Abraão aprende que Deus quer que vivamos e não morramos; que cresçamos, e não murchemos. Ele sabe que o Deus que o chamou à esperança contra a esperança é digno de fé. "Talvez seja essa a essência da fé: estar-se convencido da confiabilidade de Deus."10

Louis Evely conta a história de uma velha senhora que lia a Vida de Jesus de Renan e muitos outros "breviários do ceticismo". Ela declarou: "Simplesmente não posso acreditar que Jesus seja Deus. Se fosse, ele teria me dado alguma prova, pois tenho desejado com sinceridade crer nele". Ela não havia de nenhuma forma desejado crer; ela desejara conhecer, descobrir algum fato que pudesse satisfazer o seu intelecto. Mas a fé verdadeira não reside apenas no intelecto. A verdade que é Cristo não é algo puramente racional. Quando amamos alguém, mil argumentos não representam uma prova, nem mil objeções representam uma dúvida.11

Se há algo que aprendi na neblina crescente da meia-idade, é que a jornada de Harã para Canaã é pessoal. Cada um de nós traz consigo a responsabilidade de responder ao chamado de Cristo individual e de comprometer-se com ele pessoalmente. Creio de fato em Jesus ou nos pregadores, professores e na nuvem de testemunhas que me falaram a respeito dele? O Cristo da minha crença é realmente meu ou aquele dos teólogos, pastores, pais e Oswald Chambers? Ninguém — pais, amigos ou igreja — pode nos desobrigar da decisão última e pessoal a respeito da natureza e identidade do filho de Maria e José. Sua pergunta a Pedro, quem dizeis que eu sou?, é dirigida a cada candidato a discípulo.

Tomemos algum tempo para refletir na credibilidade daquele que nos chama. Ele me pede para arriscar tudo alegando ser o caminho, a verdade e a vida. Ao contrário de Buda, Maomé e dos fundadores de outras grandes religiões mundiais, ele me comida não apenas a crer nos seus ensinos, mas a colocar toda a minha fé nele. Quem é esse carpinteiro de Nazaré que ousa exigir entrega total a ele?

Sua árvore genealógica está longe de ser impressionante. A genealogia de Jesus, filho de Davi e filho de Abraão, registrada por Mateus, inclui o nome de algumas mulheres de reputação duvidosa: Tamar, nora de Judá, disfarçou-se de prostituta a fim de engravidar dele (cf. Gn 38:12-30); Raabe é a famosa prostituta de Jericó (cf. Js 2:1); e Bate-Seba, que deu à luz um filho depois de um ato de adultério com o rei Davi, que, não conseguindo esconder sua paternidade, assassinou o marido dela, Urias (cf. 2Sm 11).

É claro que Deus não elege necessariamente os que têm um pedigree irrepreensível para fazer sua obra neste mundo.12 Em seu livro Toxic Faith, Steve Arterburn e Jack Felton listam 21 crenças de fé tóxica. "Deus usa apenas gigantes espirituais" tem proeminência na lista:

Muitos deixam de receber a benção que vem de ministrar aos outros por causa da crença de que Deus usa apenas os perfeitos ou quase perfeitos[...] Na minha vida, bem como na Escritura, nunca vi nada mais longe da verdade. Deus com freqüência usa os que têm as maiores falhas, ou que passaram por muita dor, para realizar tarefas vitais no seu reino [...] Para Deus, ninguém está arrebentado demais para ser usado.13


De fato: a genealogia de Jesus não inspira confiança messiânica. O que dizer de seu nascimento? Obscuro? Sim, absoluta e notavelmente obscuro. As circunstâncias de sua concepção, para não dizer muito, são constrangedoras. ("Bem, imagine você tentando dizer a alguém que seu filho, que eles sabem ter nascido sete meses depois de seu casamento, e que eles consideram com motivos ser uma ameaça para a lei e ordem tanto civil quanto eclesiástica, foi concebido pelo Espírito Santo!")14

Trinta anos depois esse camponês galileu relativamente sem instrução vai ao rio Jordão para ser batizado por João, para o perdão dos pecados. Sua carreira é lançada. Ele não se torna nem homem de estado nem economista, nem general nem autor de renome, embora fosse certamente contador de histórias e tivesse algo de poeta. Enquanto perambulava pelo interior do país, sua família decidiu que ele precisava ser colocado sob custódia preventiva (cf. Mc 3:21). Os líderes religiosos de seu tempo suspeitavam de possessão demoníaca (3:22) e observadores usavam nomes nada lisonjeiros para referir-se a ele. Finalmente ele foi executado como herege, blasfemo, falso profeta e instigador do povo depois do devido julgamento diante dos tribunais supremos do país.

Esse é o Filho de Deus? É esse o homem que me chama para dedicar a ele toda minha vida? O homem que me diz que a vida não tem significado fora dele?

Que a fonte de nossa fé possa achar-se num homem de nascimento obscuro (e portanto vulnerável à suspeita) e que morreu a morte de um criminoso; que a substância de nossa fé deva consistir na convicção de que foras-da-lei, pecadores e criminosos possam dizer "Abba", a Deus; que prostitutas possam entrar no reino de Deus antes dos "religiosamente respeitáveis" — não se trata de uma visão de fé passível de reflexão ou bom senso!

A mera leitura da Bíblia não é capaz por si mesma de produzir o comprometimento da fé cristã. Nem as crenças dos meus pais, professores ou da igreja, nem o testemunho de amigos, nem culto ou credo, nem código ou instituição, nem livros como este ou mil sermões de Billy Graham, Tony Campolo e Chuck Swindoll podem, por si mesmos, produzir o comprometimento da fé cristã.

A possibilidade de qualquer pessoa reconhecer na frágil humanidade de Jesus a plenitude do poder de Deus para salvar vem apenas de uma intervenção miraculosa de Deus. "A fé radical não é um êxito pessoal, pois se fosse bastava que tivéssemos a força de vontade necessária e estaria resolvido. Ao contrário, é um presente, e a nós cabe corresponder, vigiar e orar".15 Escrevendo aos coríntios, Paulo reconhece que o Espírito, entregue por Jesus, torna possível o ato mais básico da vida cristã: "Ninguém pode dizer: "Senhor Jesus!", se não pelo Espírito Santo" (2Co 12:3).

A fé que Jesus inspirava em seus discípulos tinha impacto tão profundo neles que achavam impossível crer que outro pudesse se igualar a ele ou suplantá-lo: nem Moisés ou Elias, nem mesmo Abraão. Que um profeta ou juiz ou Messias pudesse vir depois de Jesus e ser maior do que Jesus era inconcebível. Não era necessário esperar por mais ninguém. Jesus era tudo. Jesus era tudo o que os judeus haviam esperado e pelo que haviam orado. Jesus cumprira, ou estava prestes a cumprir, toda promessa e toda profecia. Se alguém deve julgar o mundo no final, deve ser ele. Se alguém deve ser apontado como Messias, Rei, Senhor, Filho de Deus, como poderia ser outro que não Jesus?
Jesus foi experimentado como o momento revolucionário na história da humanidade. Ele transcendeu tudo que havia sido dito e feito anteriormente. Ele era em todos os sentidos o definitivo, a última palavra. Seu Espírito era o Espírito de Deus. Seus sentimentos eram os sentimentos de Deus. O que ele defendia e representava era exatamente o mesmo que Deus defendia e representava. Nenhuma avaliação mais elevada era possível.16
Era essa a experiência dos seguidores de Jesus. A fé cristã contemporânea ressoa com a avaliação da igreja primitiva. Num sentido muito real, Jesus é nossa fé. Como escrevi anteriormente, "não somos agentes de viagem entregando folhetos turísticos de lugares que nunca visitamos". Somos exploradores de fé de um país sem fronteiras, país que descobrimos, pouco a pouco, não ser um lugar, mas uma pessoa. Nossa fé inclui nossas crenças, mas também as transcende, pois a realidade de Jesus Cristo nunca pode ser confinada dentro de formulações doutrinárias.

A pergunta, portanto, não é mais: Jesus de fato é semelhante a Deus?, mas: Deus de fato é semelhante a Jesus? Esse é o sentido tradicional da declaração de que Jesus é a Palavra de Deus. "Não é Deus que nos revela Jesus, é Jesus que nos revela Deus".17 Não podemos deduzir nada sobre Jesus do que pensamos que sabemos a respeito de Deus; devemos deduzir tudo a respeito de Deus do que sabemos sobre Jesus.

Como aconteceu com Abraão, as imagens anteriores que tínhamos de Deus ficam para trás.
A DÁDIVA DA MINHA FÉ em Jesus não depende nem se apóia em nenhum poder externo à minha experiência da graça de Deus. Quando as crenças substituem a verdadeira experiência; quando, passamos a nos apoiar na autoridade de livros, instituições ou lideres sem os conhecermos; quando deixamos a religião se interpor entre nós e a experiência primária de Jesus como Cristo, perdemos a realidade que a própria religião descreve como última.

A propósito, aqui jaz a origem de todas as guerras religiosas, bem como do preconceito, da intolerância e da divisão dentro do corpo de Cristo. Nada representou fracasso maior para o cristianismo do que as Cruzadas. E atordoante enumerar o número de batalhas supostamente travadas em nome da "verdadeira" fé. Conflitos de crenças estão por trás do terrorismo que aparece diariamente nas manchetes, "e a intimidação que é exercida de forma anônima, mas com o sentimento de superioridade moral, para converter pessoas comuns a práticas e seitas que alegam ter a combinação secreta da caixa-forte do favor de Deus".18

Depois de 22 anos vivendo uma fé de segunda mão, em 8 de fevereiro de 1956 encontrei Jesus e me transferi de Harã para Canaã — da crença à fé. Era meio-dia. O sino do ângelus do isolado monastério carmelita soava à distância. Eu estava ajoelhado numa pequena capela em Loretto, Pensilvânia. As 15h5min ergui-me tremendo do chão, sabendo que a maior aventura da minha vida havia apenas começado. Entrei numa nova perspectiva detalhadamente descrita por Paulo em Colossenses 3:11: "Cristo é tudo, e em todos".
Durante aquelas três horas de joelhos, senti-me como um menininho ajoelhado na beira da praia. Pequenas ondas lambiam meus joelhos e batiam contra eles. Lentamente as ondas foram se tornando maiores e mais fortes, até chegarem à altura do peito. De repente uma onda tremenda, com força de concussão, jogou-me para trás e arrebatou-me da praia: eu cambaleava no ar, arqueando pelo espaço, vagamente consciente de que estava sendo carregado para um lugar em que nunca estivera antes — o coração de Jesus Cristo...

Nessa experiência, então inédita em minha vida, de ser incondicionalmente amado, movia-me para a frente e para trás entre o êxtase e o temor[...] O momento persistiu continuamente num agora sem fim até que, sem aviso, uma mão agarrou meu coração. Eu mal podia respirar. A consciência de ser amado não era mais gentil, terna e confortável. O amor de Cristo, o crucificado Filho de Deus, assumiu a selvageria, a fúria e a paixão de uma repentina tempestade de verão. Jesus morreu na cruz por mim!

Eu o conhecera antes, mas do modo que John Henri Newman descreve como "conhecimento conceituar — abstrato, distante, em grande parte irrelevante para os assuntos mais viscerais da vida: apenas mais uma quinquilharia na casa de penhores das crenças doutrinais. Mas num único e ofuscante momento de verdade salvífica, aquele era o conhecimento real chamando-me para um compromisso de mente e coração. O cristianismo era ser amado e apaixonar-se por Jesus Cristo. Mais tarde as palavras da primeira cana de Pedro iluminariam e legitimariam minha experiência: "A quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma" (1:8-9).

Finalmente, exaurido, esgotado, sentindo-me débil e perdido numa humildade sem palavras, eu estava de volta ajoelhado na praia, com ondas serenas e calmas me abraçando como se fosse a maré gentil saturando minha mente e meu coração numa tranqüila condição de adoração profunda.19


Naquele dia eu conheci o amor e o poder de Deus — a essência da fé cristã. Devemos conhecer o amor e o poder de Deus com um conhecimento maior do que o nosso porque eles estão além da simples capacidade humana de conhecer. Devemos conhecê-los com a mente do próprio Cristo. Esse é o encontro redentor cristão básico. É o movimento da crença à experiência pela ponte da fé.

A fim de nos comprometermos com um discipulado radical, a fim de vivermos com a assinatura de Jesus escrita nas páginas de nossa vida, precisamos da força e do encorajamento de outros cristãos. Porém nossa necessidade mais profunda é do inesgotável poder do amor de Cristo. O milagre do cristianismo está no fato de que essa necessidade já está satisfeita. Por meio de uma vida séria de oração, tornamo-nos cônscios de que já temos o que buscamos. Pela fé chegamos à consciência do que já está de fato lá (falarei sobre isso mais adiante). O poder reside dentro de nós, excedendo de tal forma nossa necessidade que o contato consciente com ele nos arrebata para fora de nós mesmos, além de qualquer coisa que tenhamos imaginado ou desejado, para dentro da realidade que é Cristo.

Foi-me dada a cópia de uma carta encontrada no escritório de um jovem pastor do Zimbabué, na Africa, depois de seu martírio pela fé em Cristo. Cito essa carta textualmente:
Sou parte da fraternidade dos que não se envergonham. Tenho o poder do Espírito Santo. A sorte foi lançada. Ultrapassei a linha. A decisão foi tomada — sou discípulo dele. Não olharei para trás, não darei trégua, não diminuirei o ritmo, não retrocederei e não ficarei parado. Meu passado está redimido, meu presente faz sentido, meu futuro está assegurado. Não agüento mais vida medíocre, andar pela visão, joelhos macios, sonhos sem cor, visões amansadas, conversa mundana, doação barata e alvos minimizados.

Não mais preciso de proeminência, prosperidade, posição, promoções, aplausos ou popularidade. Não tenho de estar certo, ser o primeiro, o maioral, reconhecido, louvado, querido ou premiado. Vivo agora pela fé, reclino-me em sua presença, ando por paciência, sou elevado pela oração e obro com poder.

Meu rosto está decidido, minha marcha é acelerada, meu alvo é o céu, meu caminho é estreito, minha estrada acidentada, meus companheiros poucos, meu Guia confiável, minha missão clara. Não posso ser comprado, dissuadido, desviado, seduzido, mudado de rumo, iludido ou atrasado. Não recuarei diante do sacrifício, não hesitarei na presença do inimigo, não me entregarei aos valores da popularidade e não perambularei no labirinto da mediocridade.

Não desistirei, não me calarei e não darei trégua até que tenha,

à última medida, permanecido, acumulado, orado, pagado à vista e pregado pela causa de Cristo. Sou discípulo de Jesus. Devo ir em frente até que ele venha, doar-me até esgotar-me as forças, pregar tudo que sei, e trabalhar até que ele me detenha. E, quando ele vier por si mesmo, não terá problema em me reconhecer (...) minha bandeira estará clara.
Talvez a única medida honesta da fé autêntica seja a prontidão para o martírio. Não apenas minha disposição de morrer por Jesus Cristo e pelo evangelho, mas de viver por ele um dia de cada vez.

A cruz é a assinatura permanente do Cristo ressurreto. O estilo de vida assinado por ela requer uma fé desprovida de emocionalismo, êxtases e visões. "Andamos por fé e não pelo que vemos" (2Co 5:7). Por ser dom de Deus, a fé nos conclama a um severo esforço de nossa parte, se tiver de dar fruto. O eremita contemporâneo Carlo Caretto escreve: "Deus nos dá o bote e os remos, mas então nos diz: 'remar é com você'. Realizar aros positivos de fé é como treinar essa faculdade; ela é desenvolvida pelo treino, da mesma forma que os músculos são desenvolvidos pelos ginastas".

Este livro não é uma pastoral delicada, nem uma série de meditações bem-comportadas para gente devota. É um livro sobre ser herói e heroína por causa de Jesus Cristo — por causa de ninguém menos do que Cristo, e de tal modo que apenas os olhos de Jesus precisem ver. E um chamado para uma fé autêntica e um discipulado radical, à pureza do evangelho, à estrada principal para o Calvário e ao escândalo da cruz, a uma vida de liberdade sob a assinatura de Jesus.

Em última análise, a fé não é a soma de nossas crenças, ou um modo de falar, ou um modo de pensar; é um modo de viver e pode ser articulado adequadamente apenas numa prática de vivência. Reconhecer Jesus como salvador e Senhor é significativo na medida em que tentamos viver como ele viveu e ordenar nossa vida de acordo com os valores dele. Não precisamos teorizar a respeito de Jesus; precisamos fazê-lo presente em nosso tempo, em nossa cultura, em nossas circunstâncias. Apenas a verdadeira prática da fé cristã pode legitimar o que cremos. Como gostava de dizer o filósofo francês Maurice Blondel: "Se você quer realmente entender em que um homem acredita, não ouça o que ele diz, mas observe o que ele faz".

Uma sugestão simples: a cada página virada deste livro, sussurre as palavras: "Senhor, aumente a minha fé".



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