A assinatura de Jesus Brennan Manning


Capítulo dois Poder e sabedoria



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Capítulo dois

Poder e sabedoria




Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria, mas nós pregamos a Cristo crucificado, escondido para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus [...] decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado.

ICoríntios l:22-24;2:2

No conto de Flannery O'Connor "Um homem bom é difícil de encontrar", o personagem central é um presidiário fugitivo que se autodenomina Desajustado "porque não consigo ajustar tudo O que fiz de errado com tudo o que tenho experimentado como punição". Logo antes de atirar a sangue-frio numa avó que implora tremendo que ele ore a Jesus, o Desajustado profere uma rápida sentença, sem perceber quão profundamente cristã ela é: "Jesus desequilibra tudo".27

Sim, Jesus tira o equilíbrio de tudo. Na Palestina do primeiro século, a cruz era instrumento de tortura, um cadafalso; honrar alguém que havia sido pendurado nela era escândalo da pior espécie.

Porém, numa atordoante reversão da sabedoria humana, a cruz de morte torna-se a árvore da vida.

Crisóstomo, um dos pais da Igreja, escreveu:


Quando homens buscam sinais e sabedoria e não apenas não recebem o que buscam, mas ouvem precisamente o contrário do que buscam e têm em seguida a mente alterada por esses contrários, isso porventura não demonstra o indizível poder daquele que está sendo pregado? É como se um médico pudesse conquistar pacientes que tivessem sido queimados e feridos e carecessem desesperadamente de alguma medicação, prometendo-lhes a cura não por meio de remédios, mas do ato de queimá-los novamente. Esse seria o resultado de um grande poder, sem dúvida. Da mesma forma Paulo foi vitorioso, não sem um sinal, mas com um que parecia contrário a rodos os sinais humanos — Cristo crucificado.28
Tudo está de fato desequilibrado.

Onde podemos encontrar a alma da espiritualidade de Paulo? Em sonoras declarações como "para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte" (Fp 3:10) e "longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo" (Gl 6:14). Aos que buscam o poder e a sabedoria de Deus, os sinais apontam para a crucificação de Jesus Cristo. Tamanho poder e sabedoria são mais do que desejáveis: são cruciais para se viver vidas marcadas pela assinatura de Jesus.

Para Paulo qualquer espiritualidade que rejeita a cruz, mesmo que conduza às alturas da contemplação mística, e inteiramente desprovida de poder e de sabedoria, e, portanto, inútil. Paulo não fala apenas de um Cristo crucificado, mas também de homens e mulheres crucificados. Mesmo um estudo superficial da história da Igreja revelará que o Espírito de Deus sopra com força de furacão apenas por meio dos profetas e amantes que se entregaram à insensatez da cruz. Se há sabedoria rasa e pouco poder em nossa adoração e ministério, creio que é porque tão poucos de nós se entregaram ao que Paulo chama de morrer diariamente para o egocentrismo em todas as suas formas, incluindo a autopromoção e a autocondenação.

Em momentos diferentes de minha jornada tenho percebido o poder e a sabedoria do Cristo crucificado claramente ausentes de minha vida e de meu ministério. Como isso acontece? Permita-me ilustrar com a experiência pessoal dois métodos infalíveis de preservar sua estabilidade, protegendo-o de ser deixado "fora de equilíbrio" por Jesus.

O primeiro é intelectualizar a paixão e morte de Cristo. É o que eu estava fazendo anos atrás quando ensinava Cristologia a alunos de pós-graduação. Toda segunda-feira à noite eu me entregava a um bando de cristãos legais que apreciava os sons de discurso e espiritualidade extravagantes. O grupo decidiu fazer um estudo histórico da eficácia da morte e ressurreição de Cristo. Um se ofereceu para estudar Inácio de Antioquia, do século II. Outro pegou Cirilo de Jerusalém, do século III; outro, Orígenes e Tertuliano, do século IV; outro, Agostinho, do século V. Em seguida, idade das trevas adentro: Hugo de São Vitor e Hugo de São Lombardo. Alguém escolheu Anselmo, do século XII; outro, Tomás de Aquino, do século XIII, depois Martinho Lutero, do XVI. João Calvino veio em seguida, seguido pelos teólogos contemporâneos Wolfhart Pannenberg, Jürgen Moltmann, Karl Rahner e Karl Barth.

Ostentando um presunçoso espírito de superioridade em relação aos não-iniciados que gastavam com futebol a noite de segunda-feira, falávamos uns aos outros em tons pedantes sobre o "valor soteriológico" do sofrimento e da morte redentores de Jesus. O problema com toda essa intelectualização está no fato de que ela nos permite embalar o Cristo crucificado em palavras. Enquanto nos mantemos focalizados em nossos estudos, permanecemos separados de sua humanidade. Nós o apreendemos apenas em nossa mente; portanto nunca houve nenhuma pressão visceral de mudarmos de vida.

Anos atrás um proeminente leigo cristão me disse: "Brennan, se você sair pelo país pregando um Cristo crucificado, as pessoas vão completar o trajeto antes de você". Ele queria dizer que ninguém em nossos dias quer ouvir sobre o Cristo crucificado. Todos querem Jesus, o agente de mudança social, ou Cristo, o revolucionário, ou o mestre de relacionamentos interpessoais que os ajude a fazer amigos e influenciar pessoas. Mas ninguém quer ouvir sobre um Cristo pregado num madeiro, dizendo: "Mude de vida. Ponha-se a caminho numa nova direção. Venha me seguir e permita-se ser radicalmente discipulado".

Em sua memorável obra The Crucified God [O Deus crucificado], Jürgen Moltmann afirma: "Temos tornado o sabor amargo da cruz tolerável para nós mesmos aprendendo a compreendê-la como necessidade teológica no processo da salvação".29 É claro que necessidades teológicas não suam sangue noite adentro.

Mas o Filho de Deus o fez. A paixão de Jesus não aconteceu numa planície fria, intelectual e estrelada; ela ocorreu na mais profunda expressão de emoção humana, em meio a pó, suor, sangue e lágrimas. O apaixonado derramar de amor da parte de Cristo na cruz não é apenas a fonte de nossa salvação; é a fonte do poder e da sabedoria de Deus em nossa vida diária. Quando nos limitamos à especulação intelectual a respeito de Cristo, privamos nossa vida de poder e sabedoria.

Um segundo modo de nos privarmos de poder e sabedoria é mineralizar a paixão e a morte de Cristo. Com isso quero dizer que transformamos Jesus num objeto: aquele sereno e familiar homem nu colado a nossos crucifixos. Dois mil anos atrás o Filho de Deus pendeu de uma cruz de verdade e derramou sangue de verdade; hoje em dia sua imagem sem vida pende de cruzes artificiais. Numa visita à Royai Street de Nova Orleans você encontra reproduções de Jesus em cada esquina. Enquanto caminha, você poderá ouvir um vendedor de antigüidades chamá-lo: "Venha ver isso! Está certo, a Vênus é mais cara, mas este Cristo de marfim tem sua beleza. Especialmente se você enquadrá-lo sobre um fundo de veludo". Ao examinar o belo trabalho artístico você talvez comece a ver Jesus como um objeto a ser adquirido. Veja: quanto mais reproduzimos Jesus, mais nos esquecemos dele e de sua agonia na hora terceira. Transformamos o monstruoso escândalo do Calvário numa respeitável peça de joalheria para ser usada ao redor do pescoço.

Ao longo dos séculos, os artistas cristãos concederam ao Cristo crucificado um olho voltado para cima e uma boca distorcida. Pintores usaram óxido de chumbo para fazer gotas realistas de sangue pingarem das mãos, dos pés e do lado. Escultores laboraram com grande esforço a fim de entalhar o corpo de Jesus na cruz. Mas naquela sexta-feira, há dois mil anos, os soldados romanos entalharam nosso irmão Jesus sem nenhuma dificuldade. Nenhuma habilidade artística foi requerida para martelar os pregos, nenhuma tinta necessária para fazer o sangue jorrar das mãos e dos pés e do lado. Sua boca estava horrivelmente contorcida simplesmente por terem-no içado até a cruz.

Intelectualização e mineralização: essas são as barreiras que nos impedem de perceber a realidade da crucificação. Temos nos removido de forma tão efetiva da paixão e morte desse homem sagrado que não vemos mais seu tecido sangrando, seus ossos partidos, sua sede avassaladora. Em alguns crucifixos Jesus parece de fato tranqüilo, especialmente aqueles em que ostenta um halo. Sua serena compostura propõe-nos a idéia: "Ora essa, ele deve ter sido assim a vida inteira".

Parece ser inclinação de nossa natureza humana focalizar não o sofrimento de Jesus, mas seu amor e o milagre de sua ressurreição. Queremos pensar em alegria e não em angústia. Ainda assim, o reconhecimento da dor de Cristo não pode estar separado do conhecimento de seu amor.

Fui padre franciscano por 26 anos. Durante esse tempo, compreendi por que o fundador de nossa comunidade, Francisco de Assis, que não conseguia comer uma refeição num aposento onde houvesse um crucifixo pendurado sem derramar lágrimas, mesmo assim é lembrado como o santo mais jubiloso da história cristã. Isso é possível porque o foco da atenção de Francisco não estava no sofrimento em si, mas no Cristo sofredor. Francisco sabia que, mesmo se ele tivesse sido a única pessoa a caminhar sobre a terra, Jesus teria suportado a vergonha da cruz por ele apenas.

E nisso, no maior ato de amor de Jesus, que o poder e a sabedoria de Deus são principalmente manifestos. São o poder e a sabedoria que permitem que vivamos a assinatura de Jesus em nossa vida. A imitação de Cristo não é a imitação de um herói morto: Cristo vive nos cristãos, e o cristão vive no Cristo ressurreto mediante o Espírito Santo. Fomos credenciados a viver uma vida não governada pelo egoísmo e pelo ensimesmamento. Porém, como escreveu John McKenzie: "São poucos os cristãos que percebem ter sido transformados pelo poder da morte de Cristo, e que o impossível tornou-se agora possível".30

Quero compartilhar o que as quatro últimas décadas de meditação sobre o Cristo crucificado têm significado em minha vida. Falarei de certas graças, ou carismas, que são mediadas da forma mais poderosa pelo Cristo crucificado.

1. A coragem de tomar a cruz. Deus pede que cada um de nós aceite a própria "cruz". Nossas feridas, nossas limitações, nossas falhas de personalidade, o dano que as pessoas nos fizeram desde o começo da vida até hoje, a dor da condição humana como temos experimentado pessoalmente — essa é nossa verdadeira cruz.

Para mim, é o terror do abandono que me tem assombrado desde criancinha — o aterrorizante sentimento de que não há ninguém para mim, de que eu tenho de mostrar um bom desempenho para você gostar de mim. Em minha vida, é o que creio ter sido a predisposição genética ao alcoolismo que matou meu melhor amigo, meu irmão Rob, deixando atrás de si esposa e seis filhos. E minha reincidência no álcool, o tiritar e o estremecer do centro de desintoxicação, os insuportáveis latejares e formigamentos e a terrível depressão que acompanha o novo abandono do vício. Tudo isso é o que Cristo me pede para aceitar e permitir que ele compartilhe.

Para você talvez seja a perda de um relacionamento profundamente estimado. Talvez seja a luta para alcançar o sucesso num ambiente de trabalho hostil, ou um recente fracasso financeiro. Talvez sejam conflitos contínuos com um adolescente rebelde ou a insuportável solidão causada pela rejeição por parte de seu cônjuge. Tudo isso, e mais, Cristo pede que você aceite e permita que ele compartilhe.

Jesus, em sua paixão e morte, experimentou minha dor e a sua e fez delas sua própria dor. O que acontece nesse encontro com o crucificado é que adentramos algo que já aconteceu, nossa união com Jesus e tudo que ela implica: ele assumir nossa dor, ansiedade, temores, vergonha, autodepreciação e desânimo.

Tudo isso está incluído implicitamente em seu brado: "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" (Mt 27:46). Seus amigos estavam dispersos, sua honra violada, sua mensagem feita em pedaços. Ele jazia condenado como criminoso. Ainda assim este era o momento de nossa redenção. Por quê? Porque seu grito na cruz foi o nosso grito de desesperada alienação de Deus assumido por ele como seu e transformado pela ressurreição. Á medida que nos permitimos experimentar nossa dor, podemos saber que na verdade sentimos Cristo sofrendo em nós e nos redimindo. Em vez de nos repreendermos por nossa fraqueza e de fazermos esforços conscientes de continuar tentando com maior empenho, podemos permitir que o Crucificado nos ame em nossa devastação. Não há modo de curarmos as feridas que cada um de nós traz, a não ser por meio do amor de Jesus, que perdoa setenta vezes sete e não mantém um placar de nossa transgressão.

2. A disposição de perdoar. Paulo escreveu aos romanos: "Ele nos amou enquanto éramos ainda seus inimigos". Este é o inequívoco sinal do discípulo que de fato experimentou o perdão de Jesus: a habilidade de perdoar seus inimigos. Jesus diz: "Amai, porém, os vossos inimigos e fazei o bem[...] será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus" (Lc 6:35).

Permita-me repetir: Jesus Cristo crucificado não é meramente algum exemplo heróico para a Igreja. E o poder e sabedoria vivos de Deus, capacitando-nos a estender a mão de cura a pessoas que nos defraudaram, nos prejudicaram e nos deram as costas. Quando ouvimos a oração de Jesus pelos seus executores: "Pai, perdoa-os pois não sabem o que fazem" (Lc 23:34), ele lentamente transforma nosso coração de pedra em coração de carne. Ao pé da cruz nos reconhecemos como inimigos perdoados de Deus e somos capacitados a estender esse perdão e reconciliação.

O chamado de Jesus ao perdão é endereçado não apenas à esposa cujo marido esqueceu o aniversário de casamento, mas aos pais cujo filho é morto por um motorista bêbado, a vítimas de acusações difamatórias e aos pobres que vivem em cubículos imundos enquanto os ricos passam dirigindo seus carros caríssimos. É estendido aos molestados sexualmente e aos cônjuges humilhados pela infidelidade de seus parceiros; aos crentes que têm sido aterrorizados por seus pastores com imagens de um Deus vingativo; à mãe de El Salvador cuja filha lhe foi devolvida morta com a cabeça enfiada em seu útero aberto a facadas; ao casal de velhinhos que perdeu todas as suas economias porque seus banqueiros eram ladrões e jogadores; à mulher cujo esposo alcoólatra dissipou sua herança. E estendida aos que são objeto de ridículo, de discriminação e de preconceito.

Retorcendo-se em agonia na cruz, Jesus diz: "Eu conheço cada momento de pecado, egocentrismo, desonestidade e amor degradado que tem desfigurado sua vida, e eu não o julgo indigno de compaixão, perdão e salvação. Agora, seja assim com os outros. Não julgue ninguém".

Apenas quando reivindicamos o amor do Cristo crucificado com convicção sentida, esse amor que transcende todos os julgamentos, somos capazes de superar todo medo de julgamento. Enquanto continuarmos a viver como se fôssemos o que fazemos, como se fôssemos o que possuímos, e como se fôssemos o que os outros pensam de nós, permaneceremos repletos de julgamentos, opiniões, avaliações e condenações. Permaneceremos viciados à necessidade de colocar as pessoas em seus lugares.

A medida, porém, que abraçamos a verdade de que nossa identidade essencial não está enraizada no sucesso de nosso ministério, em nossa popularidade com crianças e pais ou com poder na igreja local, mas no apaixonado, perseverante, infinito — que G. K. Chesterton chama de "furioso" — amor de Deus corporificado em seu Filho crucificado, nessa medida somos capazes de abrir mão da necessidade de julgar amigas, cônjuge, filhos, pastores, gays, heterossexuais, asiáticos e brancos, assim como o cachaceiro da rua marcado pelo pecado. Podemos ser libertos da necessidade de julgar os outros, reivindicando para nós a verdade: "Sou o discípulo que Jesus ama".

Nas palavras de Henri Nouwen:
Apenas quando reivindicamos o amor do Cristo crucificado com convicção sentida, esse amor que transcende todos os julgamentos, somos capazes de superar todo medo de julgamento. Quando nos tornarmos completamente libertos da necessidade de julgar os outros, estaremos também completamente libertos do medo de ser julgados[...] A experiência de não ter de julgar não pode coexistir com o temor de ser julgado, e a experiência do amor não-julgador do Salvador crucificado não pode coexistir com a necessidade de julgar os outros.31
É o que Jesus quer dizer ao falar: "Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mt 7:1). O apóstolo João, o único discípulo do sexo masculino a permanecer ao pé da cruz, afirma: "No amor não existe medo" (1Jo 4:18). Se você ainda tem medo do julgamento, vá ajoelhar-se aos pés da cruz e o Messias o libertará.

3. A descoberta de onde reside a verdadeira sabedoria. Com freqüência pensamos na sabedoria como na soma de conhecimento, percepção e aprendizado acumulado no processo de viver, mas a sabedoria a que me refiro aqui é nossa experiência existencial do amor do Cristo crucificado. Qual é a evidência que aponta para a fonte da verdadeira sabedoria? E a experiência pessoal de libertação do egocentrismo crônico. E a libertação pessoal da meiguice crônica. É a conscientização pessoal de que nada — nem o julgamento contrário dos outros, nem a percepção negativa de si mesmo; nem o passado escandaloso, nem o medo, a culpa, a autodepreciação ou mesmo a morte — pode arrancá-lo do amor de Deus tornado visível no Calvário. É isso que confirma onde reside a sabedoria.

Uma perda de fé no poder e na sabedoria de Deus, que é o amor de Cristo, tem levado a algumas estranhas aberrações no ministério. Uma delas é a idolatria da psicologia. Quero falar com cuidado aqui. Descobri na psicoterapia uma ferramenta valiosa na compreensão de mim mesmo e do mundo em que vivo. Alguns anos atrás, quando Roslyn e eu estávamos com dificuldades, dois psiquiatras — um cristão e um judeu — concederam-me enorme discernimento sobre mim mesmo e os padrões repetitivos de comportamento, com raízes em minha infância, que afetavam negativamente meu casamento. Mas a terapia não substitui o evangelho. Seu poder de cura é insignificante comparado ao poder e à sabedoria do Senhor crucificado.

O psiquiatra Robert Coles, de Harvard, pergunta: "Por que a psiquiatria encontrou tamanha autoridade intelectual e mesmo moral entre o clero?". Coles prossegue narrando o que considero ser a arrepiante história da visita de um sacerdote a um homem hospitalizado com uma doença crônica. Quando o padre perguntou: "Como estão as coisas?", o homem doente respondeu: "Tudo bem", dando a entender que não queria se estender mais sobre o assunto. O padre simplesmente recusou-se a aceitar a resposta e insistiu numa linha de sondagem e questionamento a respeito do estado psicológico do homem. A intenção do padre era sem dúvida boa, mas, quando ele saiu, o paciente estava indignado. O homem queria conversar com o sacerdote sobre Deus e sobre seus caminhos, sobre a vida e a morte de Cristo, sobre o céu e a salvação, e o que conseguiu foi ser assediado repetidamente por palavras e frases de psicologia. Em sua totalidade, aquelas palavras e frases representavam uma declaração, uma insinuação: "Você está sob risco psicológico, e é isso que eu, sacerdote ordenado da Igreja Católica Romana, aprendi a considerar mais importante do que qualquer outra coisa na presença de uma pessoa como você".

O paciente estava transtornado: "Ele vem aqui com um colarinho de sacerdote e me oferece banalidades psicológicas como Palavra de Deus". O sacerdote estava hipnotizado pela mente e por seus mecanismos psicológicos, mas não estava alerta à situação do homem à luz da eternidade.

Coles conclui: "Fico me perguntando se a lama mais imunda, as águas mais profundas possam ser encontradas, para muitos ministros americanos, no mundo sombrio e solipsista que muitos de nós aprenderam a achar interessante: os humores da mente, os vários estágios e as fases do desenvolvimento humano, todos tratados (Deus nos livre) como se fossem estações da cruz".

Quero dizer isto do modo mais claro e contundente possível: quando eu estiver morrendo, não quero um psicólogo amador; quero um sacerdote ou ministro que saiba o que está fazendo. Quero um homem ou uma mulher que tenha lutado honestamente com sua fé e ainda assim tenha se apegado a Jesus. Quero alguém que olhe longa e amorosamente para o Cristo crucificado. Quero um curador ferido.

4. A entrega do coração ao amor arrojado. Este é o carisma demonstrado tão poderosamente por Maria Madalena e pelo apóstolo João. Ao longo de toda a agonia de Jesus, o foco da atenção tanto de Maria quanto de João não foi o sofrimento, mas o Cristo sofredor que "amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós" (Ef 5:2).

Nunca permita que essas palavras sejam interpretadas alegóricamente. O amor de Jesus na cruz foi uma realidade ardente para Maria e João, e a vida de cada um deles é totalmente incompreensível sem ele. Maria teria sido soterrada na história como heroína trágica se não fosse por seu amor imenso, apaixonado e intransigente pela pessoa de Jesus. João teria desaparecido da memória como discípulo desiludido. Ambos, porém, permaneceram ao lado de Jesus enquanto ele era assassinado do modo mais desumano e brutal. Jesus disse de Madalena o que não disse a ninguém mais nos evangelhos, embora ele certamente o diga de qualquer pessoa que tenha o espírito de Madalena: "Perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou" (Lc 7:47).

Se você falasse a Maria e a João sobre a vida, o ministério, a oração ou o discipulado cristão, deveria necessariamente falar do Jesus pregado à madeira e agora ressurreto em glória, ou então se calar. Não os aborreça com suas sacadas teológicas. Não os entedie com seus sucessos ministeriais ou seu dom de línguas. Eles têm uma única pergunta: "Você o conhece?".

Jesus disse: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8:32). Qual é a verdade fundamental que libertou João e Maria? É que Cristo os amou além de qualquer merecimento ou não-merecimento, além de qualquer barreira, limite ou ponto de ruptura. Esse é o maior dos carismas — não apenas a cognição intelectual, mas a consciência experiencial dela —, é a sabedoria de que estou falando, que é mediada pelo espírito do Senhor crucificado. Como disse Francisco de Sales: "E no Calvário da cruz de Cristo que os santos meditam, contemplam e vêm experimentar o seu Senhor".32

No domínio do discipulado cristão, creio que a Igreja nunca tenha tido dois maiores amantes de Jesus Cristo do que Maria Madalena e o apóstolo João. A experiência pessoal do amor de Cristo é o poder e a sabedoria que iluminaram, transformaram e transfiguraram Maria, João e todos os outros amantes extravagantes da história cristã. A coragem de tomar a cruz, o carisma do perdão e a descoberta da sabedoria são o legado do Senhor para os que adentram profundamente o mistério de seu sofrimento e morte. A palavra profética de Jesus, falada a Marjory Kemp, uma viúva de 34 anos, há quase quatrocentos anos, permanece sempre atual: "Mais agradável para mim do que todas as suas orações, sacrifícios e boas palavras é que você creia que eu a amo".

Neste capítulo concentrei-me no que a morte de Jesus implica para nossa vida. O Crucificado diz: "Tome a sua cruz não anualmente, mas diariamente. Perdoe os que o odeiam, magoam, enganam ou desdenham. Rejeite a sabedoria do mundo que amarra nossa identidade a dinheiro, prazer, poder e às percepções psicológicas das ciências sociais; encontre seu verdadeiro eu na fé e sabedoria de meu servo Paulo: 'Cristo amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós' (Ef 5:2)".

Esse poder e essa sabedoria estarão ao alcance de um discípulo comum? Sim, mas apenas se percebermos que aquilo que Jesus nos ordena ele nos capacita a fazer. Podemos viver o estilo de vida crucificado não porque somos super-heróis, mas apenas porque ele vive em nós. "Estou crucificado com Cristo; já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2:20).

Jesus Cristo pregado na cruz é o poder e a sabedoria de Deus.

Ele também é nosso.





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